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Revista Curinga Edição 08

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

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Curinga

Revista laboratório | Jornalismo | UFOP | Dezembro de 2013 | Ano III | nº8

A prosa descarrilhada do minério


Curinga

Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop.

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA)

Departamento de Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social (DECSO)

Universidade Federal de Ouro Preto.

Professores Responsáveis:

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem)

Lucília Borges (Planejamento Visual)

André Luis Carvalho (Fotografia)

Editora geral

Mariana Borba

Subeditora

Laura Ralola

Editora fotográfica

Lídia Ferreira

Editora de arte

Tamires Duarte

Subeditora de Arte

Gustavo Kirchner

Editora digital

Bruna Sudário

Repórteres

Adriel Campos, Cibele Luma, Felipe Sales, Gabriela Ribeiro, Gerliane

Mendes, Kíria Ribeiro, Lorena Costa, Luma Oliveira, Marcelo Nahime,

Tuanny Ferreira

Diagramadores

Adriano Soares, Aline Rosa de Sá, Arthur Medrado, Cinthya Meneguin, Davi

Machado, Edan André, Flávia Silva, Flávio Ernani, Neto Medeiros

Fotógrafos

Bruna Mattos, Íris Zanetti, Juliana Melo, Marina Ibba, Nathália Nunes,

Paulo Victor Fanaia, Pedro Ferreira, Thainá Cunha, Thamira Bastos, Yara

Diniz

Foto capa

Íris Zanetti e Lídia Ferreira

Monitoras

Janini Sanches e Maressa Nunes

Endereço: Rua do Catete 166, Centro, CEP 35420-000, Mariana-MG

Tiragem: 1.500 exemplares

Dezembro 2013

Cartas do leitor

Para comentar as matérias ou sugerir pautas para nossa próxima edição,

envie e-mail para

revistacuringa@icsa.ufop.br


editorial

Texto: Laura Ralola e Mariana Borba

Edição Gráfica: Gustavo Kirchner

Do reflexo de um espelho d’água, vê-se um rosto. A Curinga propõe

nessa edição um mergulho no Ribeirão do Carmo, berço da cidade

de Mariana. Mas não é da água corrente que desembesta a deixar

sua terra natal para trás. Estamos falando das pedras encurraladas

que fincam e ficam.

A extração que começa nas margens, perfura a montanha e mancha

as pessoas com o pó do tão cobiçado minério de ferro. Drummond,

itabirano talentoso, assiste a subida da água que destrói seu

lar. Sua serra foge pelos trilhos do trem, desembarca no porto e se

joga no mundo. É assim, sempre foi, seja no ciclo do ouro seja no do

aço, “mas como dói”. “Pobre Alphonsus”, não pôde ver a igreja dos

sinos fortes bater nos 300 anos de existência. A história das pessoas

que cuidam dela, da Sé, se misturam com os vitrais enfeitados.

A Curinga tentou refletir-se por toda a cidade. Mirar a revista é

entender do outro lado, nesse reflexo cristalino, o marianense, o mineiro,

a pessoa posta em frente. No espelho, uma luta antiga surge:

os genêros misturados, expostos, presentes. Por outras igrejas vê-se

cores marcadas, iluminando o que já foi dito. Rosa é mulher, azul

é homem. Será? O espelho se quebra e a partir dele, uma série de

fragmentos.

Um caco da quebra, pequeno, se volta contra a maioria. Nas ruas

e em algumas páginas são mais de um, são vários. Mostram-se em

tintas inesgotáveis, em berros, e seguem a lutar por um espaço onde

o muro seja mural e o chão, palco. Pelo direito de ocupar o que é

público e, mais do que isso, pelo direito à voz e a liberdade. O grito

ecoa pelos corredores de uma universidade e de repente é silenciado.

A autonomia em forma de grupo de estudantes, de um projeto de

extensão, é encurralada bem em nossos quintais.

Outro reflexo estampado. A Curinga se mantém por dentro de

uma discussão insistente no cenário nacional. Uma entrevista com

o editor executivo da VEJA e biógrafo não autorizado de José Dirceu,

mostra uma visão prática dos percalços de biografar.

Agir com responsabilidade tratando de registrar uma vida. Transformar

e estar do outro lado. Um que escreve, outro que é escrito e

desenhado no papel. Estar “de frente”, como a figura elegante que

desce as ladeiras do Pilar nas páginas da crônica.

Os trilhos do trem nos levam para uma viagem no tempo, em

locais que permanecem camuflados, como as ruínas abandonadas

de um cemitério que poucos moradores afirmariam conhecer; um

castelo de arquitetura exótica, incrustado em meio a casas novas,

nos arredores de Ouro Preto. Quem o construiu? Como não havia reparado?

São experimentações do local, revirar a cidade em busca de

personagens. Pretende-se desnudar os blocos de concreto e contar o

que se vê por detrás deles, por detrás de tatuagens e animais selvagens

significativos no Rosário, bairro do mestre Roque dos Leões. É

jeitoso com as mãos de artista, se fez forte por sua condição. Roque

é o nosso perfilado.

As águas correm lentas pelo Ribeirão do Carmo. Seguem revelando

personagens que caminham rente à margem. A cidade, casas e

janelas são modificadas diariamente pela ação do ser humano. Chove,

passa o tempo e pedras no caminho sempre haverão de existir...


Sumário

5 - 300 anos da sé

6 - Ruínas inglesas

8 - Um castelo em ouro preto

9 - Infográfico

22 - ensaio fotográfico

28 - autonomia universitária

30 - revelações do Esporte

40 - cadela branquinha

Baú

5

10

Otávio

Cabral

Entrevista

14

Fragmentos

Perfil 32

Especial 16

espelho

36


BAÚ

300 anos de fé

Texto: Gabriela Ribeiro

Edição Gráfica: Flávia Silva

Foto: Nathalia Viegas

Séculos se passaram desde o início da construção da Catedral

da Sé de Mariana-MG e badaladas soaram de suas torres

convidando a cidade para conhecer a beleza desse templo e para

viver experiências de fé. Muitos aceitaram esse convite e se deixaram

envolver pelo grande encanto que essa Catedral inspira.

Assim foi com dona Cici. De seus 86 anos, Juraci de Oliveira

completa quase 70 com esse chamado ressoando em seu coração.

Trabalhando em uma fábrica de tecidos em Mariana, dona

Cici ajudava na catequese e até mesmo limpando a Catedral

em seus horários vagos, na época em que a Igreja ainda tinha

seus ritos em latim. “A gente não entendia nada o que o padre

falava”, lembra-se.

Em um cenário coberto pelo rococó e pelo imponente barroco,

as celebrações e sacramentos realizados na Sé possuem

um tom diferente, que envolve quem participa. Mesmo sem entender,

despertaram em Juraci a vontade de conhecer cada vez

mais a doutrina da Igreja. Olhando agora para o caminho que

seguiu, dona Cici não tem dúvidas: “Foi aqui que eu escrevi a

minha história de fé”, afirma.

Na missa em comemoração aos 300 anos da igreja, Dom

Geraldo Lyrio Rocha, Arcebispo de Mariana, falou da relação

que esse templo tem com o povo. “Mariana é a primeira vila,

primeira cidade, primeira capital e primeira diocese de Minas.

Aqui nasceu Minas Gerais”. E Minas Gerais é feita de pessoas;

e tantas delas tiveram momentos da sua vida escritos na Sé.

Pessoas como Maria do Rosário Matos decidiram retribuir

o zelo que a Sé teve ao receber suas histórias. Dona Bia, como

é conhecida, transborda gratidão ao falar da igreja em que foi

batizada e se casou. Aos 60 anos, ela começou a trabalhar na

sacristia, onde ficou por quase sete se dedicando no cuidado

com os paramentos e na arrumação dos altares.

Hoje, aos 80, Maria do Rosário se sente honrada em perceber

que a sua doação fez parte da história da Sé. “É muito bom

ter em nosso íntimo que, de uma forma ou de outra, a gente

ajudou em alguma coisa”. Ao longo desses 300 anos, Marias

e Juracis encontraram sentido de fé e todos os dias histórias

de vida continuam sendo construídas junto com a Sé, a cada

badalada do sino.

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História

para

brasileiro

ver

Texto: Adriel Campos

Edição Gráfica: Flávia Silva

Foto: Pedro Ferreira

“Em memória da amada Annie. A que amava e

era amada. Esposa de Henry J. Gifford que deixou

esta vida. 17 de julho de 1901. 34 anos. Tua vontade

será feita”. O epitáfio gravado na lápide em quartzito

de Annie Gifford, guarda a memória do amor do

casal inglês que vivia na antiga Vila de Passagem, no

século 19. Os ingleses vieram para esta região trabalhar

com a mineração do ouro.

Como o catolicismo dominava na época, os ingleses

que eram protestantes, realizavam seus cultos

com uma série de restrições, pois ocorriam vários

conflitos entre os fiéis das duas religiões. Um destes

era a falta de cemitérios, já que todos ficavam nos

adros das igrejas católicas. Era desonroso para os

protestantes realizarem seus sepultamentos nesses

cemitérios, pois tinham que pedir autorização ao

Bispo, e mesmo quando concedida, tinham que usar

um espaço à parte, destinado aos suicidas. Diante

dessas dificuldades, eles construíram sua capela e

seu próprio cemitério, no Morro de Santo Antônio,

entre as cidades de Ouro Preto e Mariana, onde puderam

exercer livremente a religião anglicana.

A capela era simples e não tinha imagens. Os túmulos

não possuíam alegorias, ornamentações, anjos,

calvários, nem mausoléus suntuosos acima do

chão como nos cemitérios católicos. Crianças eram

enterradas no centro, cercadas pelos túmulos dos

adultos. Segundo registros do cartório de Passagem,

entre 1891 e 1927, quatorze pessoas foram sepultadas

no local.

Até hoje, o caminho que dá acesso à capela e ao

cemitério é cercado por uma plantação de chá preto,

erva cultivada pelos ingleses. Mas o que se vê

no restante do lugar é o descaso. Apesar de ter sido

tombado como patrimônio histórico, todos os túmulos

estão violados e as lápides deslocadas. Os epitáfios

gravados em metal e as placas de bronze foram

subtraídos, o telhado da capela desabou e as paredes

estão em processo de degradação, as estruturas do

telhado e as telhas foram retiradas, possivelmente

para reutilização. Segundo o professor e jornalista

Leandro Henrique dos Santos, o local foi depredado

por pessoas que estavam à procura de ouro e joias

que teriam sido enterrados junto com os mortos.

A Capela dos Ingleses é um marco cultural significativo

na região, pois quebrou o exclusivismo

arquitetônico do catolicismo em uma terra dominada

pela igreja católica romana. Juntamente com

o cemitério, a edificação religiosa simboliza ideias,

concepções e atitudes dos ingleses protestantes que

viveram em Minas Gerais.

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cURINGA | EDIÇÃO 8


Riqueza em Ruínas

Na busca pelo ouro, os ingleses

que viveram na Vila de Passagem

também exploraram a mina que

havia no entorno do Morro de

Santo Antônio. No final do século

19, construíram uma usina de

cloretação, método inovador para

o extrativismo na região. Hoje, o

acesso às ruínas da usina é difícil

e a área está fechada a visitação

pública. Existe o risco de acidentes

devido aos buracos de sarilho,

muito comuns na superfície

das áreas mineradoras.

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Texto: Gabriela Ribeiro

Edição Gráfica: Flávia Silva

Foto: Nathalia Viegas

Era uma vez uM castelo

Nos arredores do centro histórico de Ouro Preto, desenhado

pelos casarões e costurada pelas ladeiras, brotou há mais de 20

anos uma construção no mínimo peculiar. Construído em uma

quadra inteira, na cidade do Barroco, o “Castelinho da Bauxita”

ocupa também o imaginário da população ouropretana.

O apelido da casa do professor Luiz Roque Ferreira condiz com

as criativas histórias sobre sua criação. Uma delas é a que o estudante

Danilo Ferreira ouviu de uma antiga moradora de Ouro

Preto. A senhora contava que o “Castelinho da Bauxita” foi construído

por uma família de orientais que veio para a cidade. “Eles

tentaram fazer um castelo, mas o projeto não deu certo e ele ficou

do jeito que está, em ruínas”, conta Danilo.

Há versões românticas que o transformam no Taj Mahal de

Ouro Preto. Leidiane Vieira Simões, estudante, conhece uma em

que um ex-professor da UFOP estaria noivo e começou a construir

a casa como um castelo para sua amada. Mas tempos depois, a

noiva o teria largado, levando-o a abandonar o Castelinho.

Quem convive com a construção reforça essa mítica. Lucas

Isaac, vive na rua do Castelinho desde os três anos, e ouviu que o

dono ganhou na loteria, comprou uma pedreira e foi atrás de seu

sonho de morar em um castelo. Carmem e Darci Pimenta são vizinhos

da obra há 23 anos. Carmem escutou que a casa teria sido

construída para ser uma pousada, já Darci trabalhou com Luiz e

lembra-se da época em que o colega comprou os lotes, mas o casal

não sabe o que ele pretende com a construção.

Desvendando o Castelinho, a professora Lorene Dutra, que é

casada há 15 anos com o proprietário, diz que na verdade eles não

são uma família de orientais, nem a namorada japonesa (que existiu!)

foi motivadora da obra. Luiz também não ganhou na loteria,

nem queria construir um hotel. O nome “Castelinho” é fruto do

imaginário das pessoas, que passaram a adotá-lo como ponto de

referência na Bauxita, bairro recente de Ouro Preto. O casal mora

no local – que não está abandonado – e pretende, com o fim das

obras, transformá-lo em uma instituição beneficente.

8

cURINGA | EDIÇÃO 8


Borboleta

Origem: Grécia

Significado: nascimento de uma nova

alma; espírito livre

Onde mais aparece: costas, ombro,

perna e pés

INFOGRÁFICO

São campeões nos

estúdios visitados. Seus

significados, geralmente,

remetem à forma de

pensar de quem as

escolhe e servem para

lembrar de pessoas

importantes

Infinito

Origem: Aparece na Inglaterra, vindo

da matemática

Significado: Infinito; algo sem início,

meio e fim; amor entre duas pessoas

Onde mais aparece: Antebraço,

pulso e costas

A linguagem da agulha

Texto: Lorena Costa

Edição Gráfica: Davi Machado

Foto: Thainá Cunha

Ostentar tatuagens faz com que a pessoa pareça moderna. Entretanto, existem

relatos de várias civilizações que tinham o costume de marcar a própria pele. No

Egito, por exemplo, diversas múmias foram encontradas com desenhos por todo o

corpo. Para descobrir o perfil das pessoas que se tatuam na cidade de Mariana, a

CURINGA visitou os quatro principais estúdios da cidade. Neste infográfico você verá

a origem e os significados das tattoos mais comuns no município. Revelamos em

quais partes do corpo elas aparecem com mais frequência e ainda se são feitas por

homens ou mulheres.

Dragão

Origem: Oriental

Significado: Em algumas civilizações, é

considerado um símbolo de força, sabedoria,

coragem. Em outras, acredita-se ser um

símbolo das trevas

Onde mais aparece: costas

Maori

Origem: Nova Zelândia

Significado: A Maori representa a

força, a luta e a coragem dos povos

nativos

Onde mais aparece: pernas e

braços

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Entrevista

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cURINGA | EDIÇÃO 8

Foto: luiz maximiano


Bio

Foto: Yara Diniz

Edição gráfica: Arthur Medrado

Gra

far

Contar a vida de alguém, suas histórias marcantes, não é uma

tarefa fácil. No Brasil, além de todo o trabalho de pesquisa para

se criar uma biografia, escritores esbarram na Legislação do

país, que contém dois artigos que dificultam a publicação de

trabalhos desse gênero. De acordo com o artigo 20 do Código

Civil-Lei 10406/02, para se utilizar conteúdos ou a imagem de

uma pessoa é necessário a sua autorização, cabendo a proibição

se atingirem a honra, a boa fama, a respeitabilidade ou se tiverem

fins comerciais. Já o artigo 21 da mesma lei determina que a vida

privada de qualquer pessoa é inviolável.

Em julho de 2012 a Associação Nacional dos Editores de

Livros (ANEL) entrou com ação no Supremo Tribunal Federal

(STF) pedindo revisão dos artigos 20 e 21 do Código Civil, com

o objetivo de acabar com a necessidade de autorização para

a publicação de biografias. A ANEL alega que essa lei censura

a liberdade de expressão no país. O caso ganhou repercussão

apenas esse ano, criando um debate entre biógrafos e pessoas

públicas, que discutem a revogação ou não desses artigos.

O jornalista, escritor e atual editor executivo da revista Veja,

Otávio Cabral, lançou uma biografia sobre o politico José Dirceu

em junho de 2013. O livro já vendeu cerca de 50 mil exemplares

e está na sua quarta edição. “Dirceu – A biografia” foi publicado

pela editora Record sem a autorização de seu personagem

principal. A biografia ganhou atenção da mídia e recebeu críticas

positivas e negativas. Nesta entrevista, Otávio Cabral opina sobre

a produção de tal gênero no Brasil e fala como foi a experiência

de se escrever um livro sobre um político de projeção no país.

Texto: Fernanda de paula

11


c: A legislação das biografias no Brasil hoje, que preserva a lei que proíbe

biografias não autorizadas, coloca-nos ainda à margem da Ditadura?

OC: A legislação como ela é atualmente, que uma biografia para ser publicada

depende de autorização do biografado, é um absurdo, um atentado à liberdade

de expressão e à capacidade de contar a própria história do país, pois limita

muito o que vai ser publicado. Em outros países livres e democráticos não existe

essa legislação semelhante à brasileira. Pode-se publicar o que quiser, o direito

de expressão é amplo e ilimitado. Agora, se, por acaso, alguém cometer alguma

injustiça e publicar uma inverdade, a justiça irá reparar isso. Mais ou menos o que

acontece com o jornalismo. Jornalista tem liberdade para escrever o que quiser,

sendo punido se difamar ou caluniar.

c: O país enfrenta atualmente um grande debate sobre a mudança na

legislação da publicação de biografias. Como a autorização e a não autorização

influenciam a produção de tal gênero?

OC: Eu não dou tanta importância às biografias autorizadas, porque acho que vira

praticamente uma homenagem, o personagem pede aquilo que ele admite. E as

não autorizadas, como a que fiz do José Dirceu, contam a história não amarrada aos

interesses da pessoa e sim aos interesses do biógrafo que quer levar ao público a

verdade dos fatos sem omitir ou mentir sobre os acontecimentos. Você tem mais

liberdade e não fica tão preso à autorização. Acho que provavelmente o supremo

vai revogar essa lei e autorizar a publicação de biografias não autorizadas.

c: Até que ponto a biografia expõe a opinião de quem escreve?

OC: Eu acho que é inevitável pesquisar e escrever sobre a vida de uma pessoa e

não ter um pouco de opinião, um pouco da sua impressão sobre o biografado. Mas

acho que na maior parte do tempo, você tem que tentar ser o mais isento possível.

No meu livro pode ter alguma opinião, mas eu busquei ser muito mais narrador do

que comentarista. Procurei deixar para o leitor criar juízo de valor. Ele (José Dirceu)

pegou em armas contra a ditadura, militou num grupo de luta armada, exilou-se

em Cuba, mas em nenhum momento, falo se acho essas coisas boas ou ruins.

c: O que o entusiasmou na vida de José Dirceu que gerou o interesse pela

criação dessa obra? Qual foi o seu objetivo ao escrever essa biografia?

Caracterizar uma época ou uma politica?

OC: Eu morei em Brasília, de 2000 a 2010, e trabalhei primeiro na sucursal da Folha

de S. Paulo e depois pela Veja, sempre cobrindo política. No final do governo do

Fernando Henrique, quando o PT era o principal partido de oposição, o José Dirceu

era o líder do partido no congresso. Durante a campanha do Lula, até o final de seu

governo, o José Dirceu sempre foi uma pessoa central em tudo que acontecia no

país. Uma pessoa meio misteriosa e com uma história de vida muito interessante.

Eu sempre pensei em escrever um livro sobre essa época que morei em Brasília

e não sabia muito bem como e o que escrever. Então, há uns dois anos, conheci

uma editora aqui em São Paulo. Ela veio de Portugal e achou muito estranho que

no Brasil não se escrevesse sobre pessoas vivas. Isso me deu um estalo e comecei

a preparar esse livro.

c: Como foi a preparação e o trabalho para criar essa biografia?

OC: Realizei muitas pesquisas em acervos de jornais, revistas, emissoras de tevê e

arquivos públicos. Essa lei de acesso à informação facilitou muito minha pesquisa.

Tive acesso a dados inéditos, no total são mais de 15 mil páginas de documentos.

Além disso, eu entrevistei 63 pessoas que conviveram com ele e tem também a

minha própria experiência como jornalista. Cobri de perto o caso do mensalão, as

duas campanhas do Lula e quando ele foi Ministro da Casa Civil.

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cURINGA | EDIÇÃO 8


c: Qual foi o entrevistado de maior relevância?

OC: Uma pessoa que considero essencial foi o Paulo de Castro Wenceslau, que é um exmilitante

do PT. Ele foi o maior amigo do José Dirceu no movimento estudantil, na época da

ditadura, quando ele se exilou em Cuba e quando voltou foragido para o Brasil. O Paulo me

ajudou com muitas histórias dessa época desconhecida, de sua vida clandestina no país e do

movimento guerrilheiro. Quando ele voltou ao Brasil com a anistia, em 1979, foi o Paulo de Castro

que deu abrigo a ele. Outra pessoa que me ajudou muito foi o Marcos Tomaz Bastos, que me

deu muitas informações importantes do tempo de governo da Casa Civil.

c: O senhor foi acusado de negligência ao escrever a biografia do José Dirceu, por omitir

fatos e divulgar outros que sejam falsos. Como o senhor se posiciona diante de tal fato?

OC: Eu acho que nós vivemos um momento político muito acirrado. Acho natural, por eu trabalhar

na Veja, que é uma revista crítica aos governos em geral e, nesse momento, ao PT. Denunciamos

o mensalão e boa parte das irregularidades. Teve muitas críticas negativas, principalmente, a

da revista Piauí, que serviu de base para todos os ataques. Foi um texto do Marcelo Conte, que

foi reproduzido nas redes sociais e em outros sites próximos ao PT. Nesse texto, o Marcelo

Conte cita alguns erros, que de fato aconteceram. Quando ele publicou o texto, esses erros já

tinham sido corrigidos. Eu acho que essas coisas acontecem e agradeço a quem apontou erros

e equívocos que eu cometi. Isso faz parte do jogo, estava preparado para isso e ignorei, não me

iludi com os elogios e nem me deixei abater com as criticas.

c: Muitos o acusam também de ter escrito a biografia baseado no editorial da revista VEJA

e sua suposta perseguição ao PT. Isso teve alguma influência na criação dessa biografia?

OC: Meu livro não tem nenhuma relação com a Veja. Eu trabalho na revista, mas o livro foi um

trabalho totalmente independente. A Veja não me pagou para fazer esse livro e não ajudou na

divulgação. Eu discordo dessa tese, muito divulgada por petistas, que a Veja é contra o PT. A

Veja cumpre a missão de todo órgão jornalista de fiscalizar o poder. Por acaso, o PT está no

poder agora, mas quando foi o Fernando Henrique, teve uma série de escândalos, de compra

de votos, de irregularidades na privatização, todas saíram na Veja. Ela também foi o principal

órgão que denunciou as irregularidades do governo Collor. É a função da imprensa séria e

independente. Como o PT está no governo, os petistas não gostam deste tipo de jornalismo,

mas é o que deve ser feito.

c: Como o senhor vê a manifestação do seu biografado sobre o trabalho que você realizou?

OC: Eu não esperava que ele fosse gostar e aplaudir o meu livro, justamente por ter sido não

autorizado. Eu falei de temas que ele gosta e de temas da vida dele que ele não queria que

fossem revelados. Então me surpreenderia muito se ele fizesse elogios ao livro. Acho natural que

ele não tenha gostado muito, mas imagino que ele não tenha visto problemas sérios ou erros,

pois não foi feito nenhum reparo na justiça, não me processou, não fez nada, somente publicou

um artigo na Folha.

c: O seu livro teve uma grande venda, muita repercussão na mídia. Como o senhor vê essas

manifestações? O senhor esperava tamanha repercussão?

OC: O tema era interessante e imaginava que ele fosse fazer sucesso, mas o mercado editorial

brasileiro é muito complexo. O Brasil é um país onde se lê pouco e os livros não têm muita

divulgação. As livrarias estão restritas às principais cidades, não se encontram em cidades

pequenas do país. Muitas vezes um livro que você acha que vai fazer um sucesso danado,

encalha e, muitas vezes, quando você não imagina nada do livro, ele faz sucesso. É muito

imprevisível. Eu fiquei satisfeito com os resultados dele.

c: Como o senhor avalia a sua experiência na produção desse livro? Tem planos para

escrever outro?

OC: Achei muito interessante e gostei muito da experiência de escrever um livro, é um trabalho

de mais fôlego. Trabalhei em jornal onde você tem que produzir todo dia, é uma loucura! Na

revista você já consegue fazer um trabalho mais pensado, mais analítico. Agora eu fui para

essa terceira experiência de escrever um livro, esse negócio de longo prazo, mais amplo, mais

pensado e estruturado. Acho que é uma nova porta que se abriu pra mim e eu espero continuar

explorando, pretendo fazer outros livros.

13


FRAGMENTOS

POR UM

MUNDO MAIS

COLORIDO

14

cURINGA | EDIÇÃO 8


Texto: Gerliani Mendes

Edição Gráfica: Cinthya Meneghin

Foto: Thamira Bastos

o porquê do outubro rosa e novembro azul

Se o novembro fosse azul pra tratar câncer de

mama, ia vingar? Tem coisas que os homens explicam,

mas só mulheres entendem. E vice versa.

Uma delas é aquele caroço alojado num corpo que

desmente todas as premissas de igualdade entre

homens e mulheres. Eu tenho a perseguida, o útero,

a mama. Ele tem a próstata, as bolas... Opa, mas

“somos todos ciborgues”

diz Donna Haraway. Cada dia mais os corpos

são recriados com cirurgias e comportamentos.

Sim, há que se pensar! Gostaria que transexuais

não deixassem de fazer os devidos

exames por não se identificarem com os estereótipos

da Campanha. Aliás, são estereótipos de

gênero ou de sexo? São mesmo

apenas estereótipos? Baseados em especificidades

corporais, está claro. Mas em que se baseia o rosa

e o azul? Estas questões, mais do que para pensar

criticamente as campanhas são questões para

a vida: para a educação das nossas crianças, para

um futuro menos repressivo e moralista: um

mundo mais colorido!

Mas vamos na boa fé... Essa Campanha

nos deve unir! Cis e trans. Gay, hetero e

bi. Casais acima dos 40 certamente se acompanharam

para realizar os exames e isso é lindo! Minha

mãe e seu marido são bons exemplos disso. “- Ô

Geraldo, vai levar dedada, né!” Risos homofóbicos

no ar, mas ele não perderia essa chance por nada.

“- Claro Rose! Você tá com medo de me perder pro

doutor né? Tá com medo de eu gostar!”... Ela sorri

sem graça e não há mais apelo. Ele sabe que é

o melhor a ser feito. Ambos vão até onde a boa

saúde pede, e tudo vira uma brincadeira pra ser

compartilhada entre outros quarentões. Mamografia

certamente dói mais que uma dedadinha,

ela pensa sempre certa de que sua dor de fêmea

há de ser mais forte que a dedada. Acabou-se a

guerra dos sexos na sala de espera do consultório.

As mãos se juntam em devoção aos laços

que simbolizam as Campanhas. E eles se olham

cúmplices, como o fazem a passagem de

Outubro para Novembro.

15


ESPECIAL

Da busca por ouro e pedras preciosas a escavações

gigantescas. Por trás das montanhas cinzentas,

profundas crateras de exploração de ferro. Se por um

lado a extração mineral gera crescimento econômico

nas cidades de Minas Gerais, por outro a atividade

mineradora deixa marcas visíveis no meio ambiente e

na vida de muitas pessoas.

16

cURINGA | EDIÇÃO 8


O sentimento imortalizador expressado

por Carlos Drummond de Andrade sobre a

sua terra natal, fica claro no seu poema Montanha

Pulverizada. “Chego à sacada e vejo a minha

serra, a serra de meu pai e de meu avô, de

todos os Andrades que passaram e passarão,

a serra que não passa. Era coisa dos índios e a

tomamos para enfeitar e presidir a vida neste

vale soturno, onde a riqueza maior é sua vista

e contemplá-la, de longe, nos revela o perfil

grave. A cada volta de caminho aponta uma

forma de ser, em ferro, eterna, e sopra eternidade

na fluência. Esta manhã acordo e não a

encontro. Britada em bilhões de lascas deslizando

em correia transportadora, entupindo

150 vagões no trem-monstro de cinco locomotivas

- o trem maior do mundo, tomem

nota - foge minha serra, vai deixando no meu

corpo e na paisagem mísero pó de ferro, e este

não passa.”

Terra do poeta, cidade do ferro, berço da

Companhia Vale do Rio Doce, atual Vale. Vista

do alto, Itabira, localizada acerca de cem quilômetros

de Belo Horizonte, encontra-se tomada

de minas a céu aberto. Por trás de tantas

casas, há nuvens de poeiras, rachaduras

nas paredes e o sentimento de frustração da

população. O maior trem do mundo carrega

riquezas, leva histórias e causa dor.

De um lado grandes máquinas se aproximando

da antiga Vila Paciência, do outro,

pessoas amedrontadas e temerosas

à presença da mineradora

na cidade. As expansões

das áreas de mineração

resultaram em impactos profundos

sobre o meio ambiente

da cidade, inclusive sobre

os moradores que habitavam

a Vila.

Numa área particular, situada

a noroeste do sítio urbano

de Itabira, a Vila Paciência,

surgida por volta de 1957,

dividia-se pela linha férrea

da Estrada de Ferro Vitória a

Minas e pela Estrada Cento e

Cinco, em duas partes: Vila

Paciência de Cima e Vila Paciência

de Baixo. Em virtude da

exploração de minério de ferro,

em 1980, a parte superior

da vila foi extinta, permanecendo

somente a parte inferior.

“Na época, a empresa

propôs negociação, e não tinha

como negar, tudo iria ser

tomado mesmo. Não dava era

pra sair no prejuízo, o jeito foi

aceitar a proposta oferecida”,

relata uma ex-moradora da

Vila Paciência de Cima.

Desde a expansão da mineração na mina

Chacrinha, a parte remanescente da Vila Paciência

passou a ser uma área cada vez mais afetada.

Segundo Marcone Andrade, assessor de

imprensa da Vale, “A empresa mantém uma

livre negociação para aquisição de parte dos

imóveis da Vila Paciência, um processo iniciado

a pedido da própria comunidade, com o

objetivo de criar uma zona de amortecimento

entre a área operacional e a população”.

No entanto, como a Vila Paciência foi prejudicada

pelos impactos da mineração, outras

vilas ainda são alvos de risco ambiental. A

Mina do Chacrinha, situada próxima a Vila

Cisne, gera uma situação insuportável para os

moradores. A atitude de “paciência” por parte

deles não durou muito tempo. No dia 26 de

julho de 2013, numa sexta feira, a comunidade

bloqueou a linha férrea Vitória/Minas da

Vale, impedindo a passagem da locomotiva

por cerca de duas horas. Os manifestantes

iniciaram o protesto para reivindicar uma decisão

definitiva por parte da Vale, sobre as rachaduras

em suas casas. Quatro meses depois

a revolta dos residentes da Vila continuou a

mesma. A população declara que outra manifestação

está próxima para acontecer, já que

as reivindicações não foram atendidas.

Texto: Luma Oliveira

Edição Gráfica: Aline Rosa de Sá

Fotos: Íris Zanetti

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Velhas cicatrizes

Maria Aparecida Santos Soares, representante

da comunidade, mostra as

fissuras da sua casa, que, segundo ela,

são efeitos da detonação de explosivos.

A moradora explica que as explosões

resultam em estrondos, ruídos e tremores.

“Teve uma vez que todos os moradores

saíram de suas casas, porque

parecia que ia desmoronar. Foi assustador.

É um terremoto que dura segundos,

mas que gera medo.” De acordo

com a líder da vila, as implosões acontecem

todos os dias, por volta das 15h.

A Vale desconhece qualquer estudo

conclusivo que aponte a empresa como

responsável pelas rachaduras nos imóveis.

A empresa alega que as detonações

só são feitas em períodos diurnos

e em condições climáticas favoráveis.

“As vibrações são monitoradas em tempo

integral e se encontram dentro dos

limites estabelecidos pela legislação”,

explica o assessor Marcone.

A poluição atmosférica, relacionada

à atividade mineral, é outro problema

vivenciado pela comunidade. Moradora

há 53 anos da vila, Maria Piedade reclama

da poeira gerada pelas explosões e

dos danos causados à saúde humana.

“Aqui é um lugar terrível pra se viver.

O meu terraço fica infestado de poeira,

com calor e vento então, fica insuportável.

Você está vendo aquela área ali?

aponta ela para um local a 100 metros,

“era tudo verde, olha como está hoje!

Várias casas já foram retiradas e por

causa da detonação, até pedra já veio

na minha casa.”

Em resposta as reclamações da população,

a Vale declara que a empresa

adota uma série de medidas que reduzem

os impactos em suas áreas operacionais,

como irrigação permanente das

vias internas, revegetação dos terrenos

em declínio e mantém quatro estações

de monitoramento da qualidade do ar

em diferentes pontos da cidade.

Entretanto, mesmo com essas medidas

salientadas pela mineradora,

constata-se que os itabiranos ainda se

sentem incomodados com a situação

que os aflige, pois os ventos que sopram

em direção às minas e outros fatores

concorrentes não são controláveis pela

Vale, contribuindo para a dispersão da

poeira em direção à cidade. Na década

de 80, Carlos Drummond de Andrade

já relatava esses problemas, “Hoje minha

terra vive a sorte da região espoliada,

com os intestinos à vista, sob o pó

de minério que suja os corpos e torna

as almas sombrias. Não adianta fechar

as portas e janelas; meia hora depois

de qualquer limpeza, pode-se escrever

com o dedo sobre o pó depositado nos

móveis.”

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Quadrilátero

Ferrífero

Belo Horizonte

1. Tarcísio, exgarimpeiro:

“Eu já

ganhei muito dinheiro

no garimpo, agora tenho

pouca coisa.”

2. Maria Aparecida,

relembra, de sua casa,

a manifestação que

realizou junto com a

comunidade nos trilhas

do trem.

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Nas trilhas dos garimpeiros

Se em uma das pontas do quadrilátero ferrífero, região

responsável pela maior extração de minério de Minas Gerais,

temos Itabira, na outra encontramos Ouro Preto. A distância

entre as duas cidades é de 90 km, mas os problemas vivenciados

pela população são semelhantes.

Nascida antes mesmo de 1700 com a descoberta do ouro,

a cidade de Ouro Preto atraiu por muito tempo centenas de

aventureiros em busca do metal precioso. Com as campanhas

do metal e de diamante, Minas Gerais foi considerada a maior

reserva de ouro do mundo.

O garimpo foi durante anos uma das formas mais comuns

de extração das riquezas minerais. Diferente da mineração que

utiliza máquinas e move toneladas de terra por ano, a atividade

garimpeira utiliza ferramentas simples e o trabalho é manual.

Porém, assim como o trabalho minerador, a extração no

garimpo afeta a infraestrutura e a natureza, gerando grandes

impactos.

Nas últimas décadas, garimpar tornou-se um ofício exercido

na clandestinidade, alvo de operações da Polícia Ambiental

e multas aplicadas pelo Ministério Público, por danos provocados

ao meio ambiente. Além de ser um bom exemplo de precarização

do trabalho na região.

Localizado a 18 km de Ouro Preto, encontra-se o distrito

de Antônio Pereira, região conhecida pela presença do garimpo

de topázio imperial. Considerada uma gema rara no mundo e

de alto valor econômico, a extração da pedra foi crescente e diversos

depósitos foram explorados por trabalhadores dentro da

região de Ouro Preto. Em um lugar de paisagem estranhamente

desolada e em terras pouco firmes, encontramos três garimpeiros

trabalhando. Debaixo do sol forte, eles desaparecem

perto do imenso buraco aberto no meio da terra. “Cuidado!”

Alerta Pedro, um garimpeiro de 60 anos, que nos direcionava

até o centro da escavação. Sem proteção nenhuma, o trabalho

é incessante e diário. Além do topázio imperial, outras pedras

podem ser encontradas no local, mas é preciso contar com a

sorte, não é todo dia que o “tesouro é localizado”. “Eu trabalho

aqui desde 82, a gente tira a pedra e depois manda lapidar. É

muito difícil achar alguma. Aqui é sorte, é igual jogar na Mega

Sena”, conta Pedro ao nos mostrar o fruto do seu trabalho, as

pedras lapidadas.

O garimpo é propriedade particular, o trabalho é por conta

própria, mas a cada mil reais de venda, uma porcentagem

é passada a proprietária do terreno. No momento o garimpo

encontra-se fechado por órgãos do meio ambiente, entretanto

há aqueles que se arriscam. “Eu já trabalhei por muito tempo

aqui. Tive que parar depois que o garimpo foi fechado, porque

é arriscado”, relata Tarcisio.

Os garimpeiros nesse nível de produção ganham muito

pouco, a extração é primária e a técnica de lapidação é desconhecida

por eles. O preço de produto de origem é distante do

preço vendido nas lojas. A riqueza que a extração proporciona,

passa apenas por suas mãos, deixando rastros sujos de poeira

e mãos marrons.

Mineirar, Maneirar!

Hoje o Brasil abriga um dos maiores potenciais minerais do

mundo, se tornando o segundo maior exportador de minério.

De acordo com os dados da Secretaria de Comércio Exterior

(Secex), a exportação de minério de ferro em outubro somou

32,51 milhões de toneladas, o maior volume mensal do ano de

2013, tendo como principal destino a China. Esse grande potencial

resulta na contínua abertura de minas por todo o território

nacional. Os maiores estados produtores de minérios em

2012, de acordo com o recolhimento da Compensação Financeira

pela Exploração de Recursos Minerais, são: Minas Gerais,

(53,2%), Pará (28,6%), Goiás (4,1%), São Paulo (2,8%), Bahia

(2,0%) e outros (9,3%). A demanda chinesa está em constante

crescimento e a espera que o Brasil atenda esse mercado. Mas

estaria o Brasil preparado? Segundo Carlos Melo, geógrafo com

especialização em gestão ambiental, “O consumo de forma voraz

por boa parte das corporações tem elevado os problemas

ambientais a partir da extração de matéria prima”. Hoje fica

clara a importância do setor extrativista de minerais para a

economia de boa parte do Brasil. Mas quem são as vítimas?

Enquanto a atividade econômica aumenta a balança comercial

do país, o sofrimento das populações que têm suas vidas remexidas

pela atividade mineradora permanece o mesmo.

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FOTOGRAMA

yara diniz

Texto: Íris Zanetti e Yara Diniz

Edição gráfica: Edan André

entr

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e um pingo

e outro

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íris zanetti Marina Ibba

íris zanetti

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Mas o que quer dizer este

poema? - perguntou-me

alarmada a boa senhora.

E o que quer dizer uma

nuvem? - respondi triunfante.

Uma nuvem - disse ela - umas

vezes quer dizer chuva, outras

vezes bom tempo...

Mario Quintana

Thamira Bastos

Bruna Mattos íris zanetti

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thainá cunha

yara diniz

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Fotografar sujeitos que se apropriam do espaço público

durante a chuva torna visível o invisível, dá espaço a cenas

do dia-a-dia talvez não pensadas ou interpretadas pelas

pessoas. Seja embaixo de um guarda-chuva, dentro do carro

ou nas quinas de marquises, os olhares se recolhem.

O jornal tem que sair, a feira não pára e a chuva também

não.

As pessoas tomam as ruas por algum motivo, específico,

e uma história particular; cada qual com suas corres, pingo a

pingo, construindo uma narrativa.

íris zanetti

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RELICÁRIO

Existia um grupo de prisioneiros que viviam acorrentados

desde o seu nascimento em uma caverna escura, e nas suas

paredes podiam-se ver sombras projetadas por um fino feixe

de luz. Aquilo era a realidade. Um prisioneiro se libertou das

correntes e conseguiu sair da caverna. Depois de acostumar-se

com a luz, pode vislumbrar outro mundo com cores, pessoas e

natureza. Aquilo era a verdade. Voltando para a caverna, tentou

convencer os demais prisioneiros que existia um mundo lá

fora. Sendo taxado de louco, acabou assassinado.

A Alegoria da Caverna está nas páginas de “A República”,

livro VII, escrito por Platão, o mesmo filósofo grego que, no

ano de 387 a.C., fundou a primeira Academia. Em seu início,

a Academia era um lugar de transmissão do pensamento, de

lá pra cá percorreu um longo caminho e seu papel foi se modificando.

O Patrono da Educação brasileira, Paulo Freire – falecido

em 1997 – disse que “O conhecimento não se estende do que

se julga sabedor até aqueles que se julga não saberem; o conhecimento

se constitui nas relações homem-mundo, relações

de transformação, e se aperfeiçoa na problematização crítica

destas relações”. As universidades, como conhecemos hoje,

correspondem ao lugar de experimentação da relação homemmundo

– que os prisioneiros da caverna não quiseram acreditar

– e são lugar de formação e transformação do conhecimento.

Por isso possuem o dever e o direito de cumprir esse papel,

que se transpõe para além de seus próprios muros e se reflete

na comunidade.

No dia 13 de agosto de 2013, o Programa de Extensão:

Centro de Difusão do Comunismo (CDC), da Universidade Federal

de Ouro Preto (UFOP), foi suspenso por meio de uma

liminar expedida pelo Juiz da 5° Vara da Justiça do Maranhão,

José Carlos do Vale Madeira, após ação popular movida pelo

advogado Pedro Leonel Pinto de Carvalho. A UFOP, além de

tomar todas as providências cabíveis para a revisão da decisão

judicial, se manifestou em uma carta-resposta aberta.

de volt

tempo

cave n

Texto: Tuanny Ferreira

Edição Gráfica: neto medeiros

r

Proibido pensar diferente

A ação popular e a decisão judicial obtiveram repercussão

nacional, fato que gerou discussões nos espaços destinados

aos comentários dos leitores em sites de notícias e um alvoroço

na rede social Facebook. Nas matérias sobre o caso, o trecho

mais citado da carta-resposta diz: “A Autonomia Universitária

foi ‘ferida de morte’ e as instâncias que aprovaram e acompanharam

o Programa CDC-UFOP (desde 2012), foram completamente

ignoradas e achincalhadas”.

O Prof. Dr. André Mayer, coordenador do Programa, ressalta

que “Os objetivos do CDC-UFOP são claros, públicos e

notórios: estudar, debater e realizar a critica à ordem do capital

e lutar por uma sociedade para além desse sistema, envolvendo

ações de ensino, pesquisa e extensão”. E completa: “A Ação

é caluniosa e equivocada não tendo um suporte material que

sustente a sua argumentação. O trabalho realizado é transparente

para toda a sociedade”.

O princípio da Autonomia Universitária é desconhecido e

a sua importância para a educação também. A lei surgiu pela

primeira vez na Constituição de 1988 e é uma dentre outras

normas existentes sobre a Educação no país. Entre elas, a

gratuidade do ensino público, o acesso universal, a garantia

da qualidade de ensino e a indivisibilidade do tripé: ensino,

pesquisa e extensão. Definida de forma plena pela Constituição,

a Autonomia em sua formulação considera cinco itens:

as autonomias didático-científica, administrativa, de gestão

financeira e patrimonial e o regime jurídico.

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a aO

das

as?

A Autonomia Universitária nos casos

CDC-UFOP e Eleições da USP

Bem vindos à ocupação!

Em outubro de 2013, outro caso que lesou a Autonomia

Universitária obteve visibilidade nacional e aconteceu na maior

Universidade do país, a Universidade de São Paulo (USP). Até

aquele momento, a eleição do reitor era feita pela escolha do

Governador do Estado, atitude que ia contra as medidas conquistadas

pela Lei da Autonomia Universitária.

Um grupo de estudantes se organizou para protestar contra

a medida e reivindicar eleições diretas e o voto igualitário. Após

42 dias de ocupação da Reitoria e reiteração de posse pacifica,

em uma reunião do Conselho Universitário, foi deliberado sobre

o sistema eleitoral da Instituição. Ficou decidida a eleição

em turno único no dia 19 de dezembro de 2013, com quatro

chapas concorrendo à reitoria da USP. O direito de voto e a

decisão passou a caber à Assembléia Universitária formada por

2 mil representantes - entre professores, alunos, funcionários e

técnicos administrativos.

Segundo André Lana, advogado e assessor técnico do reitor

da UFOP, “Tratar uma universidade como uma mera repartição

pública, com todas as amarras burocráticas da nossa complexa

estrutura jurídica, é o mesmo que limitar o desenvolvimento

cultural, científico e tecnológico do país. Esses fatos são exemplos

claros de tais limitações e demonstram interpretações restritivas

que tentam limitar a atuação das universidades”.

Lana ainda salienta: “É preciso que a sociedade entenda

que são as universidades as responsáveis por amplos e imparciais

debates sociais, técnicos e políticos. Qualquer limite à sua

liberdade fará com que alguém ou algum grupo seja individualmente

beneficiado”.

A suspensão do CDC-UFOP e a escolha do reitor da USP

pelo governador do Estado abrem precedentes contra a Autonomia

Universitária e não devem ser ignoradas – como aquele

prisioneiro liberto que conseguiu ver a luz da verdade, mas foi

assassinado pelos companheiros que não ousaram conhecer o

mundo.

Mesmo com a suspensão do CDC-UFOP, alunos

mantêm em seu cotidiano a perspectiva debatida

pelo Programa de Extensão.

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Guerreiros

Lutar para alcançar os objetivos. A frase parece clichê, mas para os nossos

personagens não é. Eles [literalmente] lutam para chegar ao lugar onde almejam.

Todos praticam Artes Marciais, filosofias de vida em que seus adeptos procuram

o desenvolvimento físico e mental. Existem modalidades diferentes, porém,

assim como essas pessoas, os estilos buscam o mesmo ideal: qualidade de

vida, bem estar e controle emocional.

O general e filósofo chinês Sun Tzu, em sua obra “A Arte da Guerra”, escrita há

aproximadamente 500 anos antes de Cristo, revela suas estratégias de combate,

onde o ponto fundamental para se vencer uma batalha é o autocontrole. Domínio

próprio e disciplina é o que não falta aos nossos quatro guerreiros. “Triunfam

aqueles que sabem quando lutar...”.

Fernando Moraes– Jiu Jitsu

“Sentir dor, mas não desistir, é preciso sofrer para ser o melhor”.

Essa é a receita vitoriosa de Fernando Moraes, que aos 24

anos de idade é campeão brasileiro, bicampeão mineiro, campeão

da Copa Estrada Real, campeão da Copa Kimura, e possui outros

títulos regionais. Lutando há dez anos, o Jiu Jitsu é o que mais dá

prazer em sua vida, pois foi com a arte marcial que ele fez a maioria

dos seus amigos, viajou para vários lugares e aprendeu coisas

que guardará pelo resto da vida. “Aprendi a amar a mim mesmo e

ao próximo, respeitar os mais fracos e nunca me tornar um deles”.

O Jiu Jitsu é uma luta japonesa que significa “arte suave”. E é

com muita suavidade e muitas horas de sono trocadas por horas

de treino, que Fernando segue em busca do equilíbrio e em busca

de seus objetivos.

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Quando a arte da luta se confunde com a vida

Aloísio Júnior – Kung Fu

Os dragões tatuados em seus dois braços, à primeira vista, sugerem

que ele é apaixonado pela cultura chinesa. Aloisio Júnior começou a

treinar o Kung Fu aos 11 anos de idade, influenciado pelos filmes de

luta que assistia na época. A ele fascinavam os belos movimentos e a

filosofia da luta. Hoje, aos 33, é tricampeão brasileiro, pentacampeão

mineiro e bicampeão interestadual, além de vários títulos regionais.

Ele acredita que para se tornar um campeão a primeira coisa a se fazer

é descobrir a sua direção, motivação e objetivos e depois se empenhar

e ir em busca do sonho. O nome Kung Fu significa “trabalhar duro”, e

é a este esforço que Júnior atribui as suas vitórias. “Só vencem na vida

aquelas pessoas que estão dispostas a pagar algum preço”.

Marciano Anderson – Kickboxing

Com um nome que se refere a Marte (deus romano da guerra segundo

a mitologia), o seu destino não poderia ser diferente. Aos 34 anos,

Marciano, que iniciou nas artes marciais aos 9, tem em seu currículo de

vitórias 11 títulos no Campeonato Mineiro, 3 no Brasileiro, 1 no Interestadual,

3º lugar no Sulamericano, 3º lugar no Panamericano, 2 medalhas

de Ouro no mundial, entre vários outros. Sempre sonhou em chegar ao

topo, por isso considera as vitórias no mundial como suas maiores realizações.

Para ele, a luta não é apenas um lazer. “Fui criado e educado em

paralelo com as artes marciais, então pra mim é uma filosofia de vida”.

Ele acredita que ser campeão não é apenas subir no ponto mais alto do

pódio, e sim aprender a cada dia com as dificuldades do esporte. Kickboxing

significa “chutes e socos”, porém para Marciano “um verdadeiro

campeão é aquele que se posiciona com postura, respeito e caráter diante

do seu oponente”.

Maíra Assunção – Karatê

A inocência em seus olhos castanhos esverdeados não revela o que Maíra, de apenas

7 anos, mais gosta de fazer: lutar karatê. Treinando há apenas 1 ano, já foi campeã

do Circuito Centro Mineiro, campeã interestadual, 3º lugar no Campeonato Mineiro

e destaque esportivo feminino de artes marciais da cidade de Mariana. A paixão pela

luta acabou incentivando seu pai, que hoje treina e compete ao lado dela. Segundo

Wesley Woitila, sua filha era muito agitada, e mudou bastante seu comportamento

depois que começou a treinar, principalmente na escola, onde sua postura e seus rendimentos

melhoraram consideravelmente. O Karatê, que nasceu no Japão, significa

“mãos vazias”, pois seus praticantes lutam sem o uso de armas. Para se cumprimentar,

os lutadores dizem “oss”, que corresponde a “perseverança”. Esta palavra simboliza

muito bem a vida da pequena Maíra, que por várias vezes já deixou de brincar ou

ir a festas para treinar. Porém quando está nas competições ela tem a recompensa de

seu esforço. “Às vezes é ruim perder as coisas, mas na hora que eu vejo o resultado,

percebo que tudo vale a pena”.

texto: adriel campos

arte: neto medeiros

foto: paulo victor fanaia

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PERFIL

O rei das artes:

Roque dos

Leões

Texto: Kíria Ribeiro

Edição Gráfica: Adriano Soares

Foto: Bruna Mattos

Uma das minhas maiores curiosidades desde quando

vim morar em Mariana era saber quem era o dono das esculturas

de leões localizadas na Rua Santa Efigênia, número

148, em frente à Igreja do Rosário. De onde vieram? Por

que estariam em uma rua tão movimentada como aquela?

Até que tive finalmente a oportunidade de ir a “casa dos

leões” numa manhã nublada de terça-feira. Quando chego,

um sujeito jovem e simpático me recepciona. “Deseja algo,

moça?”, perguntou intrigado. “Sim, estou à procura do Roque,

o artista plástico aqui do bairro”, respondi. Entro na

garagem da casa, e logo de cara, vejo quadros e esculturas

dos mais variados formatos. A princípio, penso que estou

em uma galeria, pela riqueza de detalhes nas obras de arte.

Tento observar o ambiente e logo consigo me sentir em casa

pelo clima sereno e conservador.

Poucos segundos depois, escuto uma frase simples, sincera,

que vinha do fundo da garagem-ateliê: “bom dia, minha

filha”, disse o senhor de camisa esverdeada, olhos penetrantes

e um aperto de mão forte. Depressa, puxou uma

cadeira e me fez sentar bem a seu lado. Esses eram os primeiros

gestos do artista Roque Raimundo de Oliveira, mais

conhecido como Roque dos Leões. Leões? Sim. Os mesmos

que enfeitam a entrada da casa do artista, e que despertam

a atenção de centenas de turistas e moradores da cidade.

Quando perguntei de onde veio o apelido, ele me respondeu.

“Ganhei esse sobrenome por causa dos diversos leões

que projetei em minha carreira. Mas lógico, principalmente,

por conta dos que têm em frente a minha residência”.

Nesse dia, Roque estava prestes a terminar mais um de

seus quadros. Dessa vez, ele pintava “São Jorge e o seu cavalo”.

Os traços marcantes eram contornados com bordas

grossas da cor marrom. “Uma das pinturas que mais gostei.

Ainda não finalizei, mas já posso dizer que me tocou profundamente

ter pintado esse quadro”, contou sussurrando

em tom de segredo. A obra era uma encomenda feita há

menos de uma semana por um jovem, morador do bairro.

Segundo Roque, muitos de seus trabalhos são vendidos

para moradores do próprio Rosário, onde mora há mais de

30 anos. “Quase todos os dias chega alguém perguntando

os preços dos quadros e das esculturas de cimento. Fico feliz

pela valorização dessas pessoas”, disse ele. Mas já aconteceu

do artista doar alguns de seus trabalhos para aqueles

que não tinham condições de comprar. “Gosto de espalhar a

arte por aí, independente de qualquer coisa”.

Meus olhos não conseguiam parar de admirar os trabalhos

que estavam espalhados por todo canto. A curiosidade

tomava conta de mim. Queria saber como e quando cada

obra daquela havia sido feita. Logo tratei de perguntar, a

fim de saber mais a fundo sobre a vida daquele senhor de

71 anos. Em minha primeira pergunta, ele me interrompeu

e confessou que não era muito bom com as palavras. Porém,

não foi isso que realmente aconteceu. As palavras brotavam

de sua boca e cada vez que saíam, ganhavam mais intensidade.

A medida em que fazia as perguntas, Roque trazia o

seu passado para aquela garagem acanhada, mas ao mesmo

tempo grandiosa.

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Esculpindo a vida...

Roque descobriu o seu talento aos 30 anos. Antes não tinha

tempo, nem condições de tentar aproveitar mais a vida

com pinturas e esculturas. Sua infância e adolescência foram

marcadas por momentos de muita luta. Aos onze anos já trabalhava

na lavoura para ajudar os pais, mais precisamente no

distrito de Padre Viegas. Aos dezoito, veio para Mariana em

busca de um emprego com carteira assinada e com maior remuneração.

“Precisava de um serviço que me proporcionasse

uma renda maior que a que eu tinha. Aí, vim para a zona urbana

da cidade”, revelou.

Depois da vinda, Roque trabalhou em diversos ramos como

em empresas de tecido, de mineração e de construção civil. E

foi exatamente nesse período que começou a descobrir suas

habilidades com o mundo das artes. “Eu mexia muito com cimento

por causa do meu serviço e, nas horas vagas, eu sempre

procurava fazer algum formato. A primeira escultura que fiz foi

o rosto de um anjo. Meus companheiros de trabalho me elogiaram

muito e me incentivaram a continuar fazendo”, contou

alegre. Autodidata, o dono dos leões foi crescendo nas artes e

cada vez mais se aperfeiçoando com as esculturas. A matéria

prima que necessitava era cimento. E claro, uma boa pitada de

imaginação.

A partir das produções, a confiança crescia, e Roque se superava

em cada novo trabalho. As ruas da cidade ganhavam

um toque especial com os leões, rostos de anjos, estátuas e fontes

que ele produzia. Por conta disso, foi convidado por diversas

comunidades de Mariana para a construção de esculturas.

Morro Santana, Chácara, Centro, Rosário e Santana foram os

bairros agraciados com algumas das obras do artista. Distritos

como Cachoeira do Brumado, Ribeirão do Carmo, Miguel

Rodrigues e Padre Viegas também receberam algumas. “Fico

honrado pela valorização das pessoas da cidade, de turistas.

Mas infelizmente ainda não sinto a valorização de órgãos pú-


licos”, comentou. Com a cabeça inclinada, Roque me contou

que nunca recebeu nenhum incentivo por parte do poder público

para as mais de 30 esculturas espalhadas pela cidade.

Mas, quando perguntei se tinha algum ressentimento por isso,

ele logo respondeu. “Claro que não. Sou feliz com o trabalho

que eu faço e nunca precisei desse tipo de apoio. Quero apenas

propagar a arte na cidade”.

Casou-se aos 25 anos e teve quatro filhos. Contou que depois

do casamento, sentiu ainda mais necessidade de deixar a

herança das artes. E não é que deu certo? Um de seus filhos

também se interessou pela prática. Optou por trabalhar como

escultor, mas usando outra matéria prima, a madeira. José Geraldo

se mantém com os objetos que esculpe, e tem o seu próprio

ateliê, que fica bem ao lado da casa de seu pai. O ambiente

é todo decorado com as esculturas em madeira que o jovem

produz como quadros, presépios e enfeites. Quando perguntei

sobre a importância de Roque, Tico, como é mais conhecido,

não pestanejou. “Ele é tudo pra mim. É um grande exemplo

para todos nós. Me ensinou e me mostrou os caminhos certos

para construir a vida. Devo tudo a ele”, disse.

Os frutos...

No ano de 2011, Roque enfrentou uma das maiores dificuldades

de sua vida. Devido à diabetes, teve problemas com

excesso de glicose. “Eu acabei me vendo nesta situação. O médico

simplesmente me disse que meus dedos do pé estavam

apodrecendo e que era necessário amputar dois deles. Me senti

arrasado com a notícia”, contou. Roque então marcou a operação

e compareceu ao hospital. Lá, recebeu mais uma notícia

dolorosa. “O médico me surpreendeu e me falou que teria que

amputar a perna toda, porque boa parte já estava apodrecendo”,

disse ele, lacrimejando. Passou pela cirurgia e alguns dias depois

ele já estava em casa, tendo que viver com uma nova realidade. O

artista precisou do apoio familiar para superar esse obstáculo que

poderia lhe tirar aquilo que mais o fazia feliz: a elaboração das

esculturas. “Naquele momento eu só pensava como iria fazer para

continuar com o meu trabalho”.

Com o passar do tempo, o escultor foi se adaptando à rotina

e conseguiu fazer da cadeira de rodas improvisada e de sua muleta,

seus melhores amigos. Foi assim que continuou usando sua

criatividade, e começou a esboçar algumas pinceladas em quadros

brancos que montava. “Comecei a ir para uma área que até então

não conhecia: a pintura. Pintar foi ficando mais fácil porque eu

preciso apenas ficar sentado. Não preciso me locomover. E foi nascendo

dentro de mim a vontade de pintar mais e mais”, afirmou.

O artista fez ao todo cerca de 100 quadros das mais variadas temáticas,

entre elas igrejas, monumentos, paisagens e santos. “Pinto o

que as pessoas me pedem. Faço encomenda e não costumo cobrar

caro pelos quadros. Lógico que dinheiro é importante, mas não é

tudo não”, disse.

Homem simples e de força extrema. Depois de conhecer toda

a história de sua vida, descobri a existência de um terceiro leão.

Não na porta de sua casa, mas dentro do próprio Roque. O apelido

de “leões” somente comprova a sua vontade de lutar a cada

dia tendo, como muitos, desafios a encarar. E é exatamente isso

que faz Roque. “Sou uma pessoa que não desiste fácil. Enfrentei

diversos obstáculos que me fizeram mais forte. O meu apelido veio

exatamente por isso. Meus amigos viram o meu esforço e minha

luta em querer espalhar as artes pela cidade, como um leão atrás

da presa. E acho que hoje posso falar que consegui isso. Acredito

que as pessoas vão se lembrar de mim e do meu trabalho”.

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espelho

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Em 2013, as manifestações revelaram o quanto é importante que ocupemos

as ruas. Ao mesmo tempo, a palavra “Coletivo” tornou-se sinônimo para

caracterizar um estilo de organização. O que antes era restrito aos participantes

e comunidades locais onde estas associações atuavam, hoje é senso comum

e integra-se a ruas, praças e viadutos. Mas o que é um Coletivo?

Texto : Felipe Sales

Colaboração: Laura Ralola

Edição Gráfica: Flávio Costa

Foto: Marina Ibba

No dicionário da língua portuguesa, Coletivo significa:

algo que forma coletividade ou provém dela; que

pertence a ou é utilizado por muitos; conjunto de indivíduos

que formam uma unidade em relação a interesses,

sentimentos ou ideais comuns; ou ainda, que remete aos

substantivos coletivos.

Olhando essas definições, a que se refere a assuntos

partilhados é a que mais se assemelha ao significado

dado pelo fotografo Thiago Moreira Santos, membro do

Coletivo de produção artística Coisarada, de Campo Limpo

Paulista, na região metropolitana de São Paulo: “Consideramos

como sendo um Coletivo uma organização

horizontal, sem fins lucrativos, de pessoas que possuem

o mesmo objetivo”.

O Coletivo Coisarada nasceu com a proposta de promover

projetos culturais e o trabalho de artistas locais foi

“formado por um grupo de amigos, na maioria artistas,

que juntos organizavam eventos culturais, fechados, somente

para amigos”, conta Thiago. Segundo ele, a criação

definitiva do coletivo se deu, devido ao crescimento

destes eventos e o desligamento do grupo de uma ONG.

“O grupo também era bastante envolvido com uma ONG

cultural, onde alguns eventos eram realizados, como um

sarau artístico mensal”. A pluralidade das manifestações

artísticas é busca constante do grupo, que realiza e produz

eventos alternativos e experimentais. Seu funcionamento

é em rede, onde estão conectados inúmeros participantes,

como artistas, produtores culturais, oficineiros,

entre outros.

Os Coletivos podem ser destinados a artistas, o que

remete ao passado destas associações, que se reúnem

para divulgar sua arte por meio da promoção cultural,

interagindo com o público. Destinam-se também a pessoas

que se reúnem em torno de alguma causa, como

exemplo, enfrentamento a segregação racial, sexista ou

de gênero, ou ainda a promover ocupações por meio da

arte como ato político. Sua organização é horizontal, ou

seja, todos os membros são partes importantes em tomadas

de decisões, que acontecem geralmente em assembleias

organizadas por estes grupos.

O Coisarada promove duas atividades, o “Cineclube”,

realizado mensalmente no Museu de Jundiaí e sempre

com um convidado para comentar sobre o filme exibido,

e o “Sarau da Coisa”, como é conhecido o evento onde

os artistas do Coletivo fazem suas apresentações, com

música e poemas, em lugares privados que são espaços

cedidos por parceiros, segundo o fotógrafo.

Outro lado dos Coletivos artísticos é a promoção da

ocupação do espaço comum urbano como ato político,

principalmente após manifestações. Estes atos têm tomado

ainda mais força e vêm sendo pautados quase que

diariamente tanto pela imprensa convencional, como

pela internet, por meio de colaboradores que utilizam a

rede mundial de computadores para a sua divulgação.

37


tes das veiculadas pelas mídias hegemônicas”.

Segundo ela, um exemplo é o Movimento Passe

Livre em São Paulo, uma manifestação de

ocupação das ruas. “Podemos vislumbrar que

as pessoas estão conectadas e podem se mobilizar

a qualquer momento”, destaca.

A pesquisadora conta que há três anos,

quando começou a participar de grupos de

pesquisa que ajudam na construção de metodologias

de compreensão do espaço na cidade,

já pôde se dedicar a diferentes formas

de observar e entender tais ocupações, que ela

classifica como “práticas culturais urbanas”.

“Minha inserção no projeto ‘Cartografias de

Sentidos do Centro de BH’ da Universidade

Federal de Minas Gerais (UFMG), possibilitou

que eu me debruçasse na utilização de praças,

visibilidade, tanto na televisão

quanto na internet, pelas

mídias sociais. Diversas plataformas

colaborativas são

apropriadas para o registro

de práticas culturais urbanas,

por pessoas interessadas em

detalhes e situações diferennos

mostra que existem mais pessoas do que a

gente pensa se esforçando pra entender e tentando

se expressar”, diz Cauê.

Cidade e arte para todos

Ocupar os espaços públicos é atribuir a

ele outro significado, conforme Milene. “Esse

gesto, torna visível outras relações e desejos,

diferentes dos planejados por quem está à

frente das decisões capazes de transformar a

realidade. Dando visibilidade a outros sentidos,

baseados em demandas emergentes da

vida cotidiana, estamos colocando em pauta

questões urgentes”. A ideia de coletividade já

esta implícita na arte urbana segundo o poeta

Cauê. “É múltipla, imperfeita e indomesticável

como a rua. Cada mínima intervenção

altera e renova diariamente a composição da

paisagem urbana. Há perguntas que só a rua

faz, e respostas que só ali se encontram”.

O historiador, arquiteto e urbanista Tiago

Castelo Branco Lourenço, enxerga que estas

#ocupe a rua

Para a doutoranda do

Programa de Pós-graduação

em Arquitetura e Urbanismo

da Universidade Federal da

Bahia (UFBA), Milene Migliano,

o assunto dos coletivos

está em pauta, devido às

ocupações também serem um

ato político contra a grande

mídia. “O uso dos espaços

públicos tem ampliado a sua

pontos de ônibus e esquinas, registrando interações

sociais nos tempos de espera e de rápidos

encontros”. Milene fala que na época se

deparou com manifestações que se davam por

meio das paredes de lojas, viadutos, túneis e

outros equipamentos urbanos, que constroem

uma pauta quase tão diversa quanto à que

apareceu nas manifestações.

O Coletivo Transverso, de Brasília (DF),

formado há dois anos, tem por objetivo proporcionar

de forma gratuita, um olhar poético

ao cotidiano dos passantes por meio de intervenções

no espaço público. Segundo o poeta

do coletivo, Cauê Novaes, a rua é o principal

espaço de expressão, diálogo e confronto de

discursos dissonantes. “Sem edição, mediação

ou curadoria, é a rua quem proporciona a insurgência

das vozes ausentes da mídia hegemônica

e da representação política. A cidade

amanhece contando sempre novas histórias,

outras versões da noite anterior, diferentes da

que se viu na TV. A poesia que se lê nas ruas,

ocupações, são uma atitude de pessoas comuns,

que estão tendo consciência do direito

de usufruir da cidade. Para ele estes atos são

alternativas que as pessoas estão construindo

para viver na cidade de forma autônoma,

independente do Estado. “Elas promovem o

acesso, já que esse Estado não se predispõe a

fazer isso”, afirma.

As repostas e outros significados estão

sendo vistos no dia-a-dia das cidades. O povo

agora passa a entender que o espaço público

não pertence e não é só responsabilidade do

Estado. Ocupar é demarcar território em uma

cidade que passa a impressão que não nos

pertence, mas que aos poucos, por meio das

intervenções artísticas e manifestações políticas,

traz todos para rua.

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cURINGA | EDIÇÃO 8


A oferta de oficinas é uma das características dos coletivos

O-CU-PA-ÇÃO!

No dia 26 de outubro de 2013, as atenções

se voltaram para um prédio na rua Manaus,

no bairro Santa Efigênia, Zona Leste de

Belo Horizonte. Inaugurado em 1913 para

receber o Hospital Militar da Força Pública

Mineira e abandonado desde 1994, o local foi

ocupado por diversos integrantes de movimentos

populares e culturais, e deram ao local

o nome de “Espaço Comum Luiz Estrela”.

Vestidos com figurinos teatrais, cerca de

60 pessoas participaram do ato, que, segundo

seus integrantes, tratou-se de uma

instalação artística que culminou com a devolução

do prédio à comunidade. A partir

de agora, o centro de cultura que foi construído

por e para todos proporcionará experiências

de criação e formação artísticas

e políticas. O prédio foi cedido pela Fundação

Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig)

para a Fundação Educacional Lucas Machado,

para a construção de um memorial

para o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Na primeira reunião, denominada de

“Assembleia Comum Luiz Estrela”, no dia

16 de novembro, o integrante Diogo Dias,

que estava presente na abertura do local,

falou sobre o processo da ocupação,

onde dois participantes do ato entraram

e ficaram alguns dias dentro do prédio,

mapeando o lugar. Dois dias depois, foi feita

outra intervenção também teatralizada.

Diogo conta que foi preciso um mutirão

de limpeza para tornar o espaço frequentável.

“Houve uma convocação massiva

no primeiro dia de ocupação, eram muitas

pessoas dispostas a contribuir, fazer comida,

uma turma para limpar, outra para

avaliar a questão do telhado”. Na primeira

semana, o foco foi na programação cultural.

A todo o momento havia música, encenações,

sarais e oficinas. Já na segunda

semana, passaram a fazer avaliações das atividades

que estavam acontecendo no local.

Segundo Dias, a primeira questão levantada

foi de promover ali um centro cultural,

onde as atividades são oferecidas de

acordo com as afinidades de cada um, passando

antes por uma assembleia, que será

realizada aos sábados, na parte da manhã,

onde também se define qual é a programação

cultural da semana. “Todas as pessoas

são convidadas, é uma reunião aberta, para

toda comunidade, para propor atividades

que acham que podem ser compartilhadas

nesse ambiente”. No momento, as atividades

são oferecidas do lado de fora do prédio,

já que não existem condições de segurança

que permitem utilizá-lo internamente.

Primeira Assembléia Comum Luiz Estrela

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CRÔNICA

Texto: Marcelo Nahime Jr.

Edição Gráfica: Cinthya Meneghin

Foto: Thamira Bastos

Pense em uma mulher elegante? Pensou?

Pense em um colar de Strass com um pingente

em formato de coração prateado e rodeado

de um azul escuro, característico de quem tem

personalidade forte e é decidido. Bom, esse é o

meu principal adereço! Mulheres como eu são

mais fieis a adereços do que a seus próprios

maridos, por isso mesmo que nem tenho um

para me amedrontar.

Dizem que nasci há mais de 14 anos no

bairro São José em Ouro Preto (MG), uma região

mais distante, mas populosa. Não gostava

de lá não, sabe? Resolvi fugir e deixar minha

família. Fui uma jovem rebelde, sem limites,

meio Hebe Camargo e Dercy Gonçalves – vale

salientar que sou mais fina que elas – e, por

isso, acabei idosa e famosa, no centro dessa

cidade-patrimônio.

Depois de sair de casa, fui descobrir que

meu pai, um senhor obeso e duas vezes maior

que eu, também havia fugido. Dá-lhe família

esperta, não? Todos reféns do exílio que as

ruas poderiam nos oferecer. Sobre meu pai já

não sei mais nada, quem sabe são os tantos

tagarelas que falam na minha cabeça diariamente

achando que eu estou adorando. De

fato, se não fossem eles, eu sequer estaria nessa

revista de primeiro mundo falando a vocês.

Ah, obrigada!

Hoje em dia vivo na Praça Monsenhor Castilho

Barbosa, número 39, no bairro do Pilar. Minha

casa é pink, of course, minha cor predileta..

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cURINGA | EDIÇÃO 8


Making off na suíte de

luxo

Nossa equipe foi à casa

da madame! Confirmamos

que seu nome

é Branquinha e seus

sobrenomes, requinte

e luxo. Sua cama é

coberta por colchas

floridas e cor-de-rosa.

A “cã” vive em um lugar

onde a tranquilidade

nos leva à “finésse”.

Acreditem se quiser,

mas não encontramos

“cheiro de cachorro”.

seu “puxadinho”, Bem

planejado, tem espaço

dimensionado para que

ela possa beber água

enquanto está deitada.

são todas essas minúcias

que nos fazem crer

que visitar a Branquinha

é mais que uma simples

visita, chega a ser

um evento noticiado em

colunas sociais da High

Society ouro-pretana.

Foi fantástico, luxuoso

e inesquecível.

Sou uma espécie do que

chamam de “Lulu da Pomerânia”.

Em outras palavras,

cachorro de madame. No

entanto, neste caso, a madame

sou eu! Não gosto de

ser chamada de “cadela” ou

“cachorra”, prefiro que me

chamem de “cã”, acho que

soa mais francês, sabe? Bom,

todos os dias, meu bairro é

enfestado de telespectadores,

“ops”, quero dizer, frequentadores

da Igreja mais rica e

congratulada que Ouro Preto

acolhe: a Igreja do Pilar. Por

incrível que pareça ela é mais

famosa do que eu. Eu que não

sou boba, apoderei-me de sua

fama e finjo-me de zeladora

da dita cuja. Assim, quando

os turistas brasileiros ou

“gringos” resolvem ver aquele

tanto de ouro, acabam é se

deparando com meu brilho

ainda mais chamativo na porta

da Igreja. #beijos

Não poderia deixar de falar

da dona que me ajudou.

Todo artista/famoso/estrela/

popstar tem um passado de

cão, né? Pois eu ainda continuo

com um presente canino,

porém luxuoso. Ivana

Bandeira é uma senhorita

aposentada que montou meu

quarto no hall de entrada da

sua casa no endereço que já

lhes passei. Minha cama é

modelo King Size e meu travesseiro

mais confortável que

o da Nasa. Isso mesmo, recalque,

é assim que eu moro

hoje. Um dia na rua, outro no

Castor.

Dona Ivana me acolheu

com carinho e cafuné. Deume

uma bacia cor de rosa

para beber água fresca o tempo

todo, e toda a infraestrutura

que uma “cã” elegante

como eu, sempre quis.

É no cantar dos pássaros

que acordo todos os dias. Minha

rua é uma calmaria! Os

vizinhos? Aposentados simpáticos

e tradicionais moradores

de Ouro Preto (MG)

que ajudam a divulgar minha

história sem eu sequer precisar

olhar para os visitantes. O

lado bom desses “assessores

de imprensa” é que quando

tenho sono, nem preciso me

esforçar para ser simpática.

Agora, se tem uma coisa

que me deixa irritada é quando

dizem que eu sou velha e

obesa. Gente, toda senhora

como eu tem umas gordurinhas

a mais, não? São poucas

as que ainda conseguem

chegar nessa idade com meu

carisma e sem rugas. O que

comprova meu esforço na

busca pela beleza é minha caminhada

dominical, da Igreja

do Pilar até a Igreja Bom Jesus,

no Bairro Cabeças, um

morro bom para fazer exercício,

menina!

A verdade é que, por incrível

que pareça, eu cansei

desse trajeto e há dois meses

só pego o rumo da Praça Tiradentes.

Lá, eu encontro movimentação,

jovens, turistas fotografando,

pessoas sorrindo

e muita energia positiva. De

quebra, ganhei um novo amigo.

Seu nome? Não me pergunte

porque não lembro. Só

sei que ele é taxista, seu carro

tem airbags e bancos de couro

beges nos quais eu ando todos

os domingos quando encerro

meu passeio na Praça.

Sim pessoal, ele me coloca em

seu carro e me deixa na porta

de casa! Olha que luxo?

Bem, queridos, essa sou

eu. Um pouquinho de mim

vocês souberam. Minha casa

está de portas abertas para recebê-los

lá no Pilar. Ah, claro,

meu nome? Branquinha! Os

mais carinhosos me chamam

assim. Um beijo carinhoso a

todos e autógrafos depois da

coletiva, ok?

41


JANELA

Texto: Marcelo Nahime

Edição Gráfica: Tamires Duarte

Foto: Íris Zanetti

Quando a oferta é muito boa, o mineiro desconfia

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cURINGA | EDIÇÃO 8


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