Revista Curinga Edição 12

revistacuringa

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Revista Laboratório | Jornalismo | UFOP Outubro de 2014 | Ano IV 12


Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II.

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da UFOP.

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA). Departamento de

Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social (DECSO).

Universidade Federal de Ouro Preto.

Professores Responsáveis

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem)

Lucília Borges (Planejamento Visual)

Marcelo Freire (Fotografia)

Editora geral

Tamara Pinho

Subeditora

Teka Lindoso

Editora de Arte

Janine Reis

Subeditora de Arte

Mylena Pereira

Editor de Fotografia

Iago Rezende

Editor de Multimídia

Marllon Bento

Subeditor de Multimídia

Thiago Anselmo

Redatores

Diagramadores

Fotógrafos

Aldo Damasceno, Bianca Cobra,

Danilo Moreira, Fernanda Belo,

Héllen Cristina, Israel Marinho,

Tácito Chimato, Thaís Corrêa

Ana Amélia Maciel, Daniella

Andrade, Éllen Nogueira, Jéssica

Moutinho, Joyce Mendes, Lara

Pechir, Sarah Gonçalves, Túlio dos

Anjos

Ana Elisa Siqueira, Anna Antoun,

Cristiane Guerra, Fernanda Marques,

Flávia Gobato, Isadora Lira,

Roberta Nunes

www.jornalismo.ufop.br/revistacuringa

Foto capa: Iago Rezende

Monitora: Tamires Duarte

Agradecimentos especiais a Frederico

Moreira, Alice Ruffo, Gláucia Venâncio,

Naty Torres, Nuno Manna e Yasmin Nunes.

Endereço:

Rua do Catete, 166 - Centro

35420-000, Mariana - MG

Outubro/2014


Era uma vez

pg.6

Fantástico

mundo real

pg.14

SU

Literatura

de fantasia

pg.18


RIO

Na trama

dos sonhos

pg.32

Quando a

memória se

perde em

fantasia

pg.40


Editorial

Ontem eu era uma rainha, vivia em um

castelo e tinha um cavalo branco. Hoje sou mochileira

que pede carona e conhece países. Amanhã ainda não

decidi o que serei. Enquanto dormia no ônibus não lembrava

que ao meu lado estava um desconhecido. A única

imagem na minha mente era a de mundos e lugares que

eu ainda não conheci, ou que até mesmo não existem.

As fantasias não têm fronteiras, elas são os sonhos e

esperanças do ser humano. Por meio delas pode-se ser o

que quiser, ir a lugares longínquos sem virar a esquina,

conquistar o mundo sem sair do laboratório.

Pensando assim, a décima-segunda edição da Curinga

traz ao leitor o universo do fantástico, a mistura entre

os sonhos e a realidade. Queremos mostrar como a fantasia

faz parte do nosso cotidiano, até mesmo dos mais

céticos.

Como eu posso viver em meio a fantasia? A editoria

“Eu no Mundo”, aborda como nós nos inserimos nesse

“mundo de fantasias”. As crianças que são estimuladas,

pela leitura, a criar novos mundos, ou os jogadores de

RPG, que encarnam personagens, têm em comum a imaginação.

A chave para transformar qualquer coisa em realidade.

A “Travessia” vem para unir os mundos presentes na

Curinga. Ela nos apresenta a Literatura Fantástica, um

estilo que conquista, cada dia mais, pessoas de todas as

idades. Conversa com autores do gênero e revela a abstração

do místico por meio de um ensaio fotográfico.

A fantasia ultrapassa fronteiras e constrói um “Mundo

em Mim”. Nos meus sonhos, que às vezes em lucidez

eu posso controla-los, ou pela doença, que, mesmo que

involuntária à minha vontade, divide comigo um mundo

que eu não conheço, ou que já esqueci que existia.

E antes que passe despercebido, esta edição tem mais

um motivo para ser especial. O número 12. Considerado

como místico, foi base para construção de sociedades e

religiões. São 12 meses no ano, 12 signos no zodíaco, 12

horas diurnas e 12 noturnas e agora 12 edições da Revista

Curinga.

Se a Curinga sobre fantasia tem um objetivo, é o de

levar o leitor a viajar em suas páginas, aprendendo mais

sobre o tema, concordando ou discordando com o que

está escrito. Queremos que, assim como um livro nos

permite viajar em suas páginas, quem ler a revista viaje

em nossas matérias. Para mostrar a fantasia além de

temas de filmes, livros, bares. Ela é um tema para vida,

pois o que seria da vida se não pudéssemos fantasiar um

pouco a realidade?

Tamara Pinho

Editores

Cartas do Leitor

Para comentar as matérias ou sugerir

pautas para a nossa próxima edição, envie

e-mail para: revistacuringa@icsa.ufop.br


eu no

MUNDO

mundo


Habitar

texto: bianca cobra

foto: roberta nunes

arte: daniella andrade

Era

uma

vez...


Marina Moreira existe

nesse mundo há quatro anos, mas

um mundo pra ela é pouco. Ela faz

questão de inventar pelo menos

mais dois, três. É pouca idade e

muita imaginação. São tantos

pensamentos e tantas ideias, que

às vezes as palavras não conseguem

acompanhar seu ritmo e acabam se

perdendo ou se afogando na maré

alta dos oceanos dos seus outros

mundos.

Ela estuda na Escola Municipal

de Passagem, distrito da

cidade de Mariana, na turma de

Educação Infantil I. Suas covinhas

mandam mensagens secretas

para quem a olha e revelam a

criança sapeca que é quando ela

começa a falar a professora já avisa:

“Essa daí é a dona das ideias”.

A professora Jaqueline Tavares

mantém seus alunos em

contato frequente com a leitura.

Todos os dias ela conta uma

historinha diferente para eles.

E quando são daquelas maiores,

ela espera chegar em uma parte

bem interessante e para. Entre os

gritos de empolgação de alguns

e das tentativas de abrir o livro

e descobrir o final da história de

outros mais espertinhos, a professora

pede que eles façam um

desenho em casa com o que eles

imaginam que acontece e só na

aula seguinte descobrem qual é o

desfecho do livro.

A historinha de hoje se chama

“As cinco ovelhinhas”. É sobre

um filhote de lobo que está

tentando dormir, mas não consegue.

Quando pede a ajuda de

sua mamãe para conseguir dormir

ela fala que é para ele contar

ovelhinhas. Contando ovelhinhas

o lobinho ficaria com sono e conseguiria

dormir. Mas o problema

é que ele só sabia contar até cinco.

Então começa: 1, 2, 3, 4, 5. E

nada. 1, 2, 3, 4, 5. E as ovelhinhas

pulando para lá e para cá. 1, 2,

3, 4, 5 e foi assim por mais umas

três vezes. Até que elas param de

pular e dizem que estão cansadas.

A historinha é interrompida

ai. Logo que Jaqueline fecha

o livro, vários finais começam a

aparecer nos gritos das crianças.

E pra você? Como você acha que o

lobinho vai conseguir dormir? As

crianças já acharam várias saídas!

Mamãe voltou no quarto e

cantou pra ele dormir.

Arthur Dutra, 5 anos

O lobinho saiu procurando um outro

lugar para dormir, não achou, se perdeu

e ficou perdido pra sempre.

Marina Moreira, 4 anos

A ovelhinha fez ele dormir.

Maria Fernanda Nepomuceno, 4 anos

CURINGA | EDIÇÃO 12

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A imaginação das crianças vai longe nessas horas. E a dona das ideias, Marina, cada hora pensava

em um final diferente. Ficava em silêncio e logo dizia: “tenho uma ideia!” Em seguida ficava

quieta e, apontando com os dedinhos: “tenho duas ideias! Tenho três!” Mas mesmo com tantas

ideias, nem ela nem ninguém conseguiu adivinhar o final da história.

O lobinho adormeceu sem perceber e já estava sonhando quando as ovelhas disseram que estavam

cansadas e desistiram de tentar fazê-lo dormir. Ele, com raiva, comeu as cinco ovelhinhas

com uma bocada só e logo ficou com muita dor de barriga. Então acordou chorando e sua mamãe

foi ver o que estava acontecendo. O lobinho, nervoso, sem entender nada e ainda com muita dor

na barriga falou das ovelhinhas pra mamãe lobo. Ela, sendo mãe, entendeu que o que ele sentia

era fome e deu uns biscoitinhos para o filhote dormir. Então, com a barriga cheia, o lobinho se

acalmou e dormiu tranquilo, sem pesadelos e sem dor de barriga.

É visível o interesse das crianças quando a professora lê a história. Eles ficam agitados e ansiosos,

mas logo que ela começa a ler e a mostrar as imagens os alunos se acalmam e começam a

entrar no mundo dos diálogos e da narrativa. É como se os seus olhos refletissem as imagens das

páginas dos livros. O que senti naquela sala de aula foi uma aura de encantamento e magia que

tomou conta do lugar e foi possível até fazer com que eu voltasse a me sentir criança, a acreditar

no impossível e a habitar vários mundos ao mesmo tempo.

...O príncipe

livro

Marina diz que adora os livros. Ainda não sabe ler, mas quando pega um

livro conta sua própria versão da história. Vai virando as páginas e passando

o dedinho por cima das frases, como se estivesse lendo as palavras. Os

desenhos abrem caminho para a imaginação, mas os detalhes ficam a cargo

dos seus sonhos. Conta também que quer muito aprender a ler e que quando

isso acontecer vai ler muitas histórias para seus pais. “Agora são eles que

leem para mim, mas eu que vou ler pra eles quando eu aprender”, promete

Marina.

Quando seus pais leem as historinhas para a pequena dormir, ela diz que

não sonha com os personagens que acabou de imaginar, mas sim com o dia

em que for princesa. E, com os olhinhos brilhando, conta que vai morar em

um castelo gigante, usar lindos vestidos de festa e que se ela não for princesa

nessa vida, não vai ser nada mais.

O tempo passa, os anos chegam, duas mãos vão se tornando pouco para

mostrar quantos anos a gente tem. O interesse pela leitura pode não ser tão

grande, como para Gabriel da Silva, 10 anos, que acredita que ler é uma

perda de tempo e que os desenhos animados são muito mais legais. Porém,

mesmo com pouca idade e pouco gosto pelos livros, as crianças entendem a

importância deles. Para Breno Camargo, 13 anos, a leitura é importante para

“arrumar serviço” e para Bianca Custódio, 8 anos, a prática ensina muitas

coisas, principalmente a fazer os trabalhos da escola.

Apesar de, para alguns, o desenho animado ser mais interessante, ninguém

pode negar que histórias inspiram a imaginação. Os desenhos prendem

a atenção, mas a margem para a criação própria e a “fuga para um outro

mundo” é muito mais fácil quando guiadas pelas linhas de um livro.

“Quando uma criança tem contato com a leitura, ela está, acima de tudo,

brincando”, diz o psicólogo Natanael Soares. Para ele, a relação com os livros

pode trazer muitos ganhos para o desenvolvimento da criança. Mas primeiro,

é importante pensar que tipo de contato ela tem com a leitura e isso é

determinado a partir da faixa etária.


A criança que não sabe ler e apenas ouve a história,

ou seja, tem um contato com a história oral, irá desenvolver

a formação cognitiva e emocional. “É preciso que

ela fundamente o ambiente em que vive, construa um

mundo simbólico a partir do que ouve para se encontrar

e poder aprender”, explica.

As que já leem e possuem uma relação com a história

escrita tem uma formação cognitiva mais desenvolvida,

já entendem mais o mundo em que vivem e desenvolvem

com a leitura a imaginação, pois um livro que só

tem palavras e não tem imagens possibilita que a criança

imagine e crie muito mais.

A professora Jaqueline acredita que o contato com

as letras e o alfabeto antes das crianças aprenderem a

ler é fundamental. “Todos os dias, em sala de aula, eu

leio com eles as letras do alfabeto. Todos repetem e já são

capazes de identificar as letras. Além disso trago músicas

e poesias. Enquanto passo o dedo pelas estrofes eles

vão repetindo comigo. Ao fazer isso as crianças vão se

relacionando com as letras desde cedo e ainda brincam

enquanto aprendem”.

De acordo com Natanael, a criança aprende através

do lúdico. Quando pega um livro para ler ou senta para

alguém lhe contar uma história, ela passa a participar daquilo.

Mergulha no conteúdo e aquilo toca tanto a criança

que ela passa a se enxergar, a se ver na narrativa.

Vendo seu reflexo na leitura ela amadurece e aprende.

“Uma criança que tem dificuldade em falar dos próprios

sentimentos consegue se expor quando conta uma história.

Ela se expressa através dos seus personagens, elabora

seu dilema a partir da fantasia e também aprende a diferenciar

o bom do mau, os valores da sociedade, assim

como a pensar de forma encadeada, acompanhando o

começo, meio e fim que as histórias possuem”, explica

o psicólogo.

Natanael aponta que querer ser como as princesas

é algo normal e natural. É um processo de transição, é

quando a criança passa a se apoiar em um personagem

fictício para chegar no próprio desenvolvimento. Mas

quando isso começa a se tornar uma obsessão e a fugir

do controle é sinal de que algo não vai bem no cotidiano

daquela criança. É quando a realidade está tão pesada

que ela se apoia na fantasia.

Se sonhar é saudável, portanto, Marina pode continuar

sonhando com seu mundo encantado quando deita

a cabeça no travesseiro, fecha os olhos, coloca seus vestidos

de festa e dança como princesa nos corredores do seu

castelo gigante.

CURINGA | EDIÇÃO 12

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Alternativa

Jogos reais,

personagens

virtuais

Quem nunca sonhou em ser um super herói? Ou um

personagem com capacidades que superam a de um ser

humano comum? E ainda, poder usar essas habilidades

em um mundo repleto de magia e aventura? Pois os

jogos de RPG possibilitam que tudo isso se torne algo

muito próximo da realidade.

Criado pelos norte-americanos

Gary Gygax e Dave Arneson, o Role

Playing Game, ou RPG, surgiu nos Estados

Unidos em 1971, com o lançamento

do jogo The Fantasy Game,

rebatizado em 1974 como Dungeons

& Dragons. O game chegou ao Brasil

na década de 1980, por meio de estudantes

universitários que fotocopiavam

os livros e distribuíam entre os

amigos que se reuniam para disputar

as partidas. Para jogar, o RPG exige de

seus participantes quatro componentes

básicos: o livro, que contém a história

com as regras e as instruções do jogo; a

ficha de personagem, que traz as características

de cada um dos possíveis personagens

que podem ser escolhidos pelos jogadores;

os dados, que dão movimento e dinamismo ao

jogo, e o narrador, responsável por explicar e desenvolver

a história criando desafios que precisam

ser superados pelos participantes juntos aos seus personagens.


O estudante Marconi Vaz de Mello começou a

jogar RPG em meados de 2002 e percebeu que esses

games têm grande incentivo sobre a criatividade.

“Você precisa imaginar o que está acontecendo, afinal,

quase nada lhe é dado visualmente. Cada cidade,

cada encontro, cada personagem. É preciso falar por

seu personagem, decidir cada palavra. Há mesas que

se parecem mais a um teatro do que um jogo, contendo

um personagem jogando como Bardo (músico),

por exemplo, que realmente toca o seu violão durante

a partida”, comenta o estudante.

Hoje, a internet também pode ser utilizada para

a prática do RPG, uma opção que se torna ideal

para grupo de amigos que morem em longas distâncias

ou não tenham tanto tempo para se reunir

e jogar. O Play By Email, por exemplo, permite que

as aventuras sejam narradas via e-mail ou por uma

lista de discussão e, nesse modo de jogo, cada participante

pode jogar na hora e no local que puder.

Mas as partidas demoram mais tempo para terminar.

RPG eletrônico

Os “Computer Role Playing Games” (CRPGs), ou

simplesmente RPGs eletrônicos, termo utilizado para

jogos de computador e videogames se assemelham

aos RPGs analógicos, porém no lugar das mesas, os

computadores são o “palco”do jogo. Nesse formato

de game, além da internet, os jogadores contam com

mais um elemento, os recursos visuais. “A realidade

desses jogos é um pouco diferente dos tradicionais

RPGs analógicos, pois o jogador não precisa ficar imaginando

como seria o cenário ou o seu personagem,

porque tudo já está explícito na tela do computador

ou da televisão, o que se torna o principal atrativo

no RPG eletrônico”, afirma Guilherme Guimarães,

que trabalha como criador de games há dois anos.

Guimarães aponta que no mundo dos jogos, a

fantasia se torna realidade, o que acaba tornando os

desenvolvedores de games em criadores de sonhos.

“Percebo que, a partir

dessa perspectiva,

conseguimos fazer

que um rapaz

ou uma moça,

aparentemente

pessoas comuns,

se tornem grandes

heróis como um

guerreiro ou um forte

e poderoso soldado, e assim,

dentro do jogo, sentem-se realizados por atingir

seus objetivos, o que resulta em uma sensação que só

quem joga é capaz de sentir”, completa ele que atualmente

desenvolve o game “Universal Police”.

Jogador de RPGs eletrônicos desde 2004, o estudante

de 24 anos, Lucas Ribeiro, aponta outras características

desse formato de game: “para vencer as

partidas, estratégias e táticas elaboradas pelos times

se tornam elementos fundamentais. Por isso, tento

estudar a parte tática, o ‘off game’ ao máximo. Vejo

também os replays das partidas pois, apenas vendo

nossos erros, podemos melhorar mais rápido que os

demais jogadores”. Ribeiro também destaca a sensação

que vive durante as partidas, “com certeza, enquanto

jogamos, esquecemos por algum momento a

vida real e vivemos dentro do game. Criamos identidade

com o personagem que estamos jogando, e isso

torna o jogo muito melhor, mas quando saímos do

jogo, voltamos também para o mundo real”.

Lançando em 1991 pela extinta editora GSA, Tagmar,

foi o primeiro RPG nacional. Precursor de RPGs

produzidos no Brasil, o game tem inspirado centenas

de criadores, como Guilherme Guimarães, a se empenharem

em produzir outros jogos (analógicos ou

digitais) para que, a partir desses, vários outros jogadores

possam viver uma fantasia, sendo personagens

de uma grande aventura.

Texto:Aldo Damasceno

Arte: Sarah goncalves

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Sensação

Ode

ouropretana

Texto: Aldo Damasceno e Israel Marinho

Foto: Naty Tôrres | Festival de Inverno

Arte: Túlio dos Anjos


As ruas históricas e íngremes de Ouro Preto compõem

um cenário propício para o mundo imaginário aflorar de

uma forma bem evidente. Em cada bairro existe um conto em

que o mundo lúdico se apresenta. Palco de inúmeros espetáculos

artísticos, a cidade recebe, por ano, em média 500 mil turistas.

Uma dessas atracões são os diferentes espetáculos teatrais

que se espalham pelos seus bairros aproveitando o cenário que

serve de inspiração para roteiristas nacionais e até internacionais.

A cidade já foi palco de várias produções audiovisuais como

filmes, comerciais e telenovelas.

Não é difícil encontrar, durante todo o ano, algum cinegrafista

ou ator praticando sua arte pelas ladeiras históricas. Seja

de cara limpa ou incorporando um personagem, eles interagem

com o público de uma forma envolvente, transformando o cotidiano

dos moradores. Nas casas de espetáculo, as várias companhias

de teatro, formadas principalmente pelos estudantes de

Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP),

estão sempre ensaiando ou preparando uma nova peça teatral.

Inspiradas nas histórias da cidade, as peças contam o cotidiano

real e fantástico usando artifícios que atraem a atenção do

público com apresentações fortes e estridentes. A iluminação noturna

de Ouro Preto é utilizada em apresentações onde a maior

característica é o drama. Já o cenário histórico, ajuda a recriar o

século XVII e XIX, onde os personagens, usando trajes da época,

levam os visitantes a reviverem o passado.

Os adros da igrejas são alvos preferenciais de palcos onde

diversas apresentações são realizadas como musicais ao ar livre

de bandas locais como o Festival ocorrido na cidade no mês de

setembro que reuniu todas as corporações do município. A Praça

Tiradentes é outro local bem visado por possuir características

para atender a demanda de público necessária para determinadas

atracões como o musical “Milton Nascimento – nada será

como antes” que trouxe a homenagem ao compositor mineiro

que emocionou as pessoas que presenciaram o evento.

Não são apenas os profissionais da arte que se inspiram com

as ruas da cidade. Os moradores vivem esse cenário todos os dias

e acabam criando maneiras de demonstrar o que sentem pela

cidade em forma de arte. Nos últimos anos, vários artistas locais

apareceram recriando histórias que vivenciaram principalmente

durante a infância. Alem disso, autoras levaram ao conhecimento

do público lendas desconhecidas pelo moradores como a escritora

Angela Leite Xavier, autora do livro “ Tesouros, fantasmas e

lendas de Ouro Preto”, que usa da fantasia para mostrar a Ouro

Preto desconhecida. A cidade fantástica.

CURINGA | EDIÇÃO 12

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MATEL ©

MATEL ©

Identidade

Fantástico

mundo real

São seis horas da manhã. Já tomei meu banho

e agora caminho até o ponto de ônibus para ir ao trabalho. De

olhos abertos, mas ainda dormindo e sonhando. Sento no ônibus

e coloco aquela música que não sai mais da cabeça, aquela

que me diz “Do you still believe in magic?” do Coldplay (“Você

ainda acredita em mágica?”) e sigo escutando- a repetidamente.

O trajeto ainda é longo, mas fica curto com tanta imaginação.

Vejo o que vou fazer no meu dia, tento me organizar,

coloco uma pitada de sonho e vou seguindo com meus planos.

No trabalho, o telefone não para de tocar. Pessoas andando

para lá e para cá. Quero calma. Quero paz. Quero ir para

a praia nesse exato momento. Ficar de frente ao mar, ouvir o

barulho das ondas.

- Bruna, cadê meu relatório para reunião das quatro horas?

Pergunta meu chefe.

E meu momento de devaneio fica mais distante. Queria

tanto sentir o cheiro de praia, pisar o pé na areia. Mas sigo

no meu dia.

- E o relatório, Bruna? A reunião começa daqui uma hora.

Vá imprimir! Digo para mim mesma.

Ainda faltam cinco horas nessa sala fechada do décimo

primeiro andar desse prédio, com tantos outros inúmeros andares.

O movimento no escritório parece diminuir. Olho pela

janela e o céu já está escuro.

Conto um pouco do meu dia para que você também olhe

para o seu e pense um pouco mais sobre o que gostaria de

fazer e não sobre o que deveria fazer. E ver que a fantasia tem

seu espaço na nossa rotina, que não é algo bobo ou supérfluo.

A fantasia tem seu valor! Vamos deixar nos conhecer melhor

e seguir nossos desejos.

Continuar pensando em estar na praia. Sentir aquele

cheiro do mar e ver o pôr do sol...

Barbie mania

Mais de 600 bonecas em um quarto. O dono desse

cômodo é o figurinista de 30 anos, Vitor Carpe, que coleciona

em sua casa em Belo Horizonte essas “dolls”, como

chama carinhosamente. O interesse pelas Barbies ganhou

força devido à escolha profissional de Vitor. Elas servem

de inspiração e fonte de pesquisa, já que coleciona bonecas

voltadas para o universo da moda. Há quatro anos,

em 2010, ele começou a colecionar, quando a Mattel lançou

uma coleção com quatro bonecas negras. O colecionador

diz não ser muito tradicional encontrar exemplares

negros no Brasil e por isso não demorou e comprou logo

a coleção. Para adquirir as bonecas, os meios variavam

desde lojas nacionais a leilões em lojas virtuais.

“As bonecas às vezes ajudam a dar uma relaxada,

arrumá-las e dar manutenção ajuda a pensar”, conta Vitor,

que não tem uma “doll” preferida. Tem vez que gosta

mais de uma, mas logo depois muda de ideia. Essa

fantasia aproxima o figurinista de grandes estilistas do

mundo, já que em maior parte da sua coleção tem roupas

reduzidas dessas marcas. Além de ser possível perceber o

padrão de modelagem, costura e a identidade das marcas.

Homem. Coleção de Barbies. O colecionador conta

que como já trabalha em um universo feminino por meio

de produção de moda e figurino, a coleção causa menos

estranhamento nas pessoas. O que impacta é a quantidade

de bonecas. Bonecas essas que servem de válvula de

escape. Vitor acredita ser importante construir um refúgio

para esses dias agitados da rotina, por isso sua coleção

está em sua casa, lugar onde se acolhe e se recarrega

como ele diz, “bateria à Elke Maravilha: Erguemos em

nossa casa nossa altar”!

Para a socióloga Luciana Dulci, os colecionadores

buscam reunir objetos de gosto pessoais, seja para hobby,

lazer ou diversão. E este hobby pode, também, facilitar

as trocas e as amizades com pessoas de interesses semelhantes.

Mas também ressalta que, se o colecionador usa

o hobby como compulsão, quando gasta mais tempo e

dinheiro do que poderia, prejudica suas relações sociais

e suas condições de saúde material ou física, colecionar

deixa de ser considerada uma ação saudável.


Texto: Fernanda Belo

Foto: Fernanda Marques

Arte: Éllen Nogueira

Lar com vida

Desde criança, o webdesigner de 34 anos,

Bruno Barbosa, junto com seus amigos, tinha a

ideia de fazer uma casa na árvore. Todos cresceram,

seguiram suas vidas e o projeto da infância

ficou para trás. Mas não por muito tempo. O

dono da casa da árvore em Passagem de Mariana

trabalhava em Belo Horizonte, rodeado de

prédios. Um dia no sítio de seu pai, enquanto

limpava o entorno da árvore, sentiu um vento

e na hora pensou quão bom era o que estava

sentindo. Subiu na árvore. Pensou em uma casa

ali, toda de madeira.

Bruno mora com sua esposa na casa da árvore

há três anos. A casa é moderna, com televisão,

internet e luz. Mas do lado da cama um

pedaço de galho da árvore. De repente, pássaros

entrando. A manga nascendo, se transformando.

Cada dia é uma surpresa. “É morar em uma

casa com vida”, diz Bruno.

A magia da casa da árvore está em cada

detalhe que ela proporciona. É sentir estar em

outro mundo, em algo que é só seu. “Chegar de

um dia estressante da faculdade e do trabalho,

e poder descansar e dormir em casa. É relaxante.

Minha casa é uma casa diferente”, comenta

o webdesigner.

Bruno responde que não conseguiria levar

a vida de outra forma, que a casa é o “mundinho”

dele, é respirar a natureza, o porto seguro.

E ainda acrescenta: “Se tem algo difícil durante

o dia, lembro-me de quando comecei a construir

a casa e vendo o esforço para montar, a

vejo pronta e sei que é possível passar por qualquer

dificuldade da vida”. É uma fantasia realizada.

Um lugar mágico. Daqueles que a gente

se pergunta em um domingo de manhã quando

fazemos o café se esse lugar realmente existe. É

como viver em um filme.

O revestimento do espaço, a iluminação,

os móveis e os objetos pequenos fazem parte

de uma decoração que busca trazer conforto e

beleza para o ambiente onde se passa a maior

parte do tempo; por isso deve ter o estilo do

morador e ideias que ele valoriza, comenta a

socióloga Luciana Dulci. Bruno, por exemplo,

tem um sentido para sua casa: a reutilização.

Tudo é reutilizado. Os móveis, o material para a

construção da casa, feita com madeira não mais

utilizada que levou cerca de um ano e meio para

juntar.

Parte de nós, a fantasia também se faz presente

no cotidiano. Segundo Luciana Dulci, ao

reunir objetos de características comuns e ao

decorar o ambiente em que se vive, as pessoas

buscam com suas fantasias “embelezar” o dia a

dia. Acredita que isso acontece como uma forma

de respiro para aquilo que é mais difícil e

para o que envolve trabalho e vida.

CURINGA | EDIÇÃO 12

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Opinião

Texto: Thaís Corrêa

Arte: Joyce Mendes

Seria possível explicar o comportamento imaturo

e a dificuldade de se relacionar e encarar as obrigações

da vida adulta que algumas pessoas têm? Segundo o psicólogo

Dan Kiley, sim. Ele é autor do livro Síndrome do Peter

Pan, de 1983, que explica que não se trata exatamente

de uma doença, mas sim de um desvio de comportamento.

Essa questão já foi abordada sob os mais diversos focos por

jornalistas e curiosos, que fizeram, na maioria das vezes, de adolescentes

rebeldes, homens imaturos em seus relacionamentos e

astros da música, as maiores vítimas.

Não que eu questione essa hipótese, aliás, a considero bem

fundamentada, inclusive acredito que cada caso desses tenha

sua especificidade e seu agravamento. Vejamos, por exemplo,

Michael Jackson. O ícone do pop dizia viver na “Terra

do Nunca” e chegou a construir um parque

de diversões no quintal de sua mansão com

esse nome, sem falar dos demais conflitos

pessoais pelos quais passou durante a vida

toda e se tornaram escândalos públicos,

que provavelmente são frutos confrontos

mal resolvidos.

No entanto, acho necessário questionar o

que há de mais profundo nesse universo de transtornos comportamentais

e dar a devida importância para o assunto.

Para mim, muito menos desdobrado na mídia, é a síndrome do

Peter Pan, incorporada às crianças comuns, que poderiam ser nossos

sobrinhos, filhos, conhecidos, e que em silêncio são reféns de pais e familiares

desequilibrados e carregam para sempre verdadeiros traumas,

consequência da violência doméstica.

Acredito que seja preciso desmistificar o tabu criado em volta desse

assunto e que faz de nossas crianças futuros adultos solitários, imaturos

e infelizes.

Se já temos uma explicação em mãos para entender pelo menos

como essas crianças se comportarão para o resto de suas vidas, precisamos

abrir os olhos e não deixar que apenas psicólogos, pediatras e pedagogos

tratem desse tema tão delicado e que é latente em nossa sociedade.

Abrindo os olhos

para uma história real


TRAVESSIA


O mundo imaginário da

LITERATURA

de

FANTASIA


Texto: Danilo Moreira

Foto: Anna Antoun

Arte: Túlio dos Anjos

Marina tinha sete anos quando leu

seu primeiro grande livro. Sempre acostumada

a ler e ouvir histórias cheias de

fantasia, entre fábulas e contos inventados

pela mãe, sua relação com a literatura

mudou ao conhecer a saga “Harry Potter”.

“Todo o universo criado por J. K. Rowling

fez imediato sentido para mim”, enfatiza.

A possibilidade da existência de um

universo alternativo facilitou a compreensão

de outras culturas e diferentes costumes,

além de colaborar com sua socialização

e evitar preconceitos. Marina cresceu

ao lado das tramas do famoso personagem

bruxo que, assim como ela, ganhou maturidade,

passando, pelos livros, da literatura

infantil à literatura adulta.

Na adolescência, conheceu as obras de J.

R. R. Tolkien. Ela lembra os principais elementos

presentes em “Senhor dos Anéis”

e que cativaram sua leitura: “há idiomas

alternativos, vários povos e raças, além de

um nicho cheio de fantasia, que conta, por

exemplo, com criaturas de morais próprias

e códigos de conduta diversos”.

Consumir as duas séries de livros foi

determinante para uma geração inteira

de leitores, assim como foi para Marina.

O gosto pela literatura influenciou nas escolhas

de vida, como o que cursar na faculdade,

por exemplo. Envolvida pelas palavras,

Marina Santos, hoje com 21 anos,

estuda Comunicação. E sobre o gênero literário

que tanto a marcou, conclui que “o

mundo da fantasia simplesmente encanta

por encantar, é amor à primeira vista”.

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LITERATURA FANTASTICA

Segundo a Teoria Literária, a fantasia pode ser considerada

uma subdivisão do “fantástico”, que abrange ainda a ficção

científica e o terror. Inicialmente, todo texto dito fantasioso

possui elementos imaginários, que fogem da realidade humana.

Neste caso, os exemplos vão desde dragões a discos voadores.

O maior poder do “fantástico” reside em poder flutuar

entre o real e irreal.

Como explica o linguista búlgaro Tzvetan Todorov, em

seu livro “Introdução à Literatura Fantástica”, de 1970, “o

fantástico é a hesitação experimentada por um ser que só

conhece as leis naturais, em face de um acontecimento

aparentemente sobrenatural”. Para o escritor argentino

Jorge Luis Borges, “a irrealidade é a condição da arte”.

Borges fez parte de um estilo latino-americano de

literatura do século XX conhecido como “realismo

fantástico”. Autores consagrados, como o também

argentino Julio Cortázar, além do colombiano

Gabriel García Márquez e do brasileiro Murilo

Rubião, fizeram parte desse movimento. Nas

obras de Borges, por exemplo, há uma intertextualidade

em que diversos elementos são

usados como “portas/passagens”, que levariam

o leitor a redescobrir a realidade em

que vive.

Uma das principais características do

“realismo fantástico” baseia-se na transformação

do comum e do cotidiano em

uma vivência que inclui experiências

sobrenaturais ou extraordinárias. Neste

ponto, assemelha-se à fantasia como

é apresentada hoje. O ponto de união

entre diferentes realidades é o mote da

maioria dos livros fantasiosos.


A FANTASIA MUNDIAL

É inegável a posição da fantasia como

principal representante da literatura atual.

Inicialmente, esse panorama pode ser pensado

a partir de uma amizade entre dois

dos mais consagrados escritores da modernidade.

Em 1926, C. S. Lewis chegou a Universidade

de Oxford, na Inglaterra, onde J.

R. R. Tolkien já trabalhava desde 1921. O

constante diálogo entre os dois influenciou

diretamente suas produções literárias.

No livro “O dom da amizade”, o autor

Colin Duriez indica que as trilogias de ficção

científica “Ransom”, de Lewis, e “O

Senhor dos Anéis”, de Tolkien, surgiram

de um desafio decidido no cara-ou-coroa:

Lewis escreveria uma obra “viajando” no

espaço, e Tolkien no tempo. O resultado

dessa aposta influenciou as duas principais

vertentes da literatura recente, a ficção

científica e a própria fantasia.

Esses dois estilos, aliás, herdaram a

discriminação atribuída à literatura infanto-juvenil.

O empenho dos dois autores

para que o conto de fadas pudesse ser consumido

também por adultos foi significativo.

Tanto que esse cenário passou a se modificar

justamente com as obras de Tolkien

(a trilogia de “O Senhor dos Anéis”, principalmente)

e de Lewis, com a série de sete

livros de “As Crônicas de Nárnia”.

A literatura da segunda metade do século

XX foi fortemente influenciada por

essas histórias, que formaram gerações de

leitores em todo o mundo. No fim da década

de 1990, houve outra “explosão” literária

em nível semelhante: a britânica J. K.

Rowling lançava o primeiro dos sete livros

de Harry Potter. Foram dez anos entre a

publicação de “Harry Potter e a Pedra Filosofal”,

em 1997, e o lançamento do último

livro da série, “Harry Potter e as Relíquias

da Morte”, em 2007.

A saga do menino bruxo, que é notadamente

inspirada também nas obras de

Tolkien e Lewis, influenciou e impulsionou

a indústria cultural dos anos 2000. Amostras

disso são, por exemplo, a série “Crepúsculo”,

de Stephanie Meyer, e a série

“Jogos Vorazes”, de Suzanne Collins, além

de “Guerra dos Tronos”, de George R. R.

Martin.

Um fator determinante no alcance de

todas essas obras são as adaptações cinematográficas

e televisivas, que reforçam ainda

mais a capacidade de envolvimento com o

público. Essas produções audiovisuais permitem

que a literatura de fantasia alcance

um novo nível, com capacidade de atingir

uma parcela muito maior de consumidores.

A saga “Harry Potter” vendeu mais de 400

milhões de exemplares em todo o mundo, traduzida

para pelo menos 65 idiomas.

“Game of Thrones” é a série de maior audiência

da história da emissora americana HBO, com média

de 18,4 milhões de espectadores.

“Harry Potter e as Relíquias da Morte – parte

2” é o filme com a quarta maior bilheteria da história

do cinema mundial: mais de 3 bilhões de reais arrecadados.

“Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, por

sua vez, é a oitava maior bilheteria: arrecadou cerca

de 2,7 bilhões de reais.

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JOVENS NO COMANDO

MERCADO BRASILEIRO

No Brasil, o espaço dedicado à ficção aumenta constante e

notoriamente. O gênero, consumido principalmente por jovens,

atrai cada vez mais interesse – do próprio público, dos autores

e das editoras. Na Bienal Internacional do Livro de São Paulo,

realizada no fim de agosto de 2014, a literatura de fantasia foi

a atração principal.

Uma das mesas centrais da Bienal, “Literatura Fantástica

– a fantasia ganhando espaço”, demonstrou como é forte a

ascensão do gênero. São dezenas de livros lançados e, consequentemente,

diversos novos autores no circuito. Os três principais

nomes do segmento no país são André Vianco, Eduardo

Spohr, ambos de 38 anos, e Raphael Draccon, de 33, chamados

de “trinca fantástica”. Juntos, venderam cerca de 2 milhões de

livros. Em termos nacionais, este número é muito expressivo.

A importância do público leitor é destacada por Eduardo

Spohr que atualmente trabalha em um novo livro e durante

a Bienal afirmou que “os principais nomes da nossa literatura

são e sempre foram os leitores, não os autores”. O autor reforçou

que, dentro desse processo, os protagonistas são os leitores,

que movimentam a “máquina” literária do país.

O nicho das narrativas fantasiosas despertou o interesse

das editoras. A grande evidência disso é que duas importantes

casas, a Rocco e a Leya, seguiram os passos da Record e,

recentemente, criaram selos próprios para abrigar esse tipo de

livro. Assim, além da “Galera Record”, a “Fantástica Rocco” e a

“Fantasy – Casa da Palavra” representam o papel fundamental

que essa “nova” literatura desempenha no cenário nacional.

A escritora carioca Thalita Rebouças, 39, já vendeu,

sozinha, mais de 1 milhão e 500 mil livros. Já a mineira

Paula Pimenta, 39, conquistou uma legião de meninas,

fanáticas com suas obras. Ela foi uma das autoras incluídas

na coletânea “O Livro das Princesas”, que reúne

releituras de contos de fadas e possui textos da

celebrada Meg Cabot, escritora americana e autora de

“O Diário da Princesa”.

A ideia de adaptar contos de fadas à atualidade

também se faz presente em “Princesa Adormecida”,

lançado por Paula em 2014. “O desconhecido atrai as

pessoas. Pensar na possibilidade de existir um mundo

parecido com o nosso, mas com possibilidades que não

temos, é inspirador”, afirma Paula, presente na lista

dos 100 brasileiros mais influentes do ano de 2012 pela

revista Época.


POUCA LEITURA?

Os índices de leitura no Brasil, entretanto, não são

muito promissores. Conforme dados do Pisa (Programa

Internacional de Avaliação de Alunos) de 2013, o desempenho

dos estudantes brasileiros em leitura piorou comparativamente

aos anos anteriores. O país está com níveis

abaixo de nações como Chile, Uruguai, Romênia e Tailândia.

De acordo com a UNESCO, setor da ONU responsável

por educação e cultura, só há altos índices de leitura

em países onde ler é uma tradição nacional. O hábito de

ler deveria vir de casa e assim, consequentemente, seriam

formados novos leitores. Esse panorama está longe da realidade

brasileira.

Em pesquisa divulgada pelo Instituto Pró-Livro, é revelado

que o brasileiro encara a biblioteca como uma extensão

da escola. Dos 24% que frequentam o espaço, 80%

são estudantes. É preciso notar que, em muitas cidades, a

biblioteca é o único equipamento cultural. Porém, fecham

à noite e nos fins de semana, além de contar com acervo

desatualizado. Isso explica porque, para 33% dos brasileiros,

nada seria suficiente para convencê-los a ir a uma

biblioteca.

O ministro da Educação, Henrique Paim, afirmou em

setembro de 2014 que os recursos investidos pelo Brasil

em educação, apesar de terem crescido, ainda são baixos.

Todavia, segundo ele, há boas expectativas de melhora.

Dados do MEC indicam, por exemplo, que o valor por aluno

investido no país cresceu 181% nos últimos 10 anos.

Essa perspectiva positiva se deve a diversos fatores.

Um deles, bastante considerável, é o atual contexto da

literatura no país. A diversidade de histórias de fantasia,

principalmente, atrai uma nova onda de interesse de

crianças e jovens, que se tornam potenciais leitores.

Uma vez que a literatura ficcional ganha forças nacionalmente,

o leitor brasileiro tem maior possibilidade de

desenvolvimento. Segundo a pesquisa “Retratos da Leitura

no Brasil”, a maior parte da população brasileira tem

consciência da importância do livro. Do total de entrevistados,

64% afirmaram que o livro significa fonte de conhecimento

para a vida. Não poderiam estar mais certos.

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Na fronteira

entre a

Texto: Danilo Moreira

Fotos: Frederico Moreira

Arte: Túlio dos Anjos

realidade e o

fantástico

Adriano Messias tem uma vida inteira dedicada ao fantástico. São cerca de 50 livros publicados,

direcionados principalmente ao público infantojuvenil. Natural de Lavras, interior

de Minas Gerais, desde criança foi influenciado pelo contato com a literatura e as histórias

da oralidade popular, aquelas “que nos deixam no lusco-fusco entre a crença e a dúvida”.

Graduado em Jornalismo e Letras, Adriano é mestre em Comunicação e Sociabilidade.

No seu doutorado, em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), aborda o fantástico

no cinema e na literatura. Em conversa com a Revista Curinga, Adriano Messias fala

de sua carreira, da relação com o universo fantasioso e dos rumos da literatura fantástica,

pois, segundo ele, “sempre haverá uma demanda por esse tipo de produção”.

C: Você escreve para crianças. Caso escrevesse para

o mundo adulto, quais seriam as principais diferenças?

AM: Uma criança que gosta de ler assume a função de

leitor crítico exigente. Escrever para jovens leitores é desafiador,

porque muito já foi feito e sabemos que a originalidade

é ilusória. Já se escreveu sobre tudo. Isso também vale para

a literatura adulta. É claro que existem temas e abordagens

que não cabem ao universo infantil: o excesso de violência,

por exemplo.

C: Você acredita que há uma ascensão do “gênero

fantástico”? Por quê?

AM: Sim, acredito. O fantástico atrai leitores e espectadores

por gerações. Desde o século XX, ele deve muito do terreno

que conquistou ao cinema. As imagens moventes, pela especificidade

de suas condições técnicas, puderam levar ao espectador

as mais mirabolantes histórias, frutos do fantástico.

Hoje, quando as mídias convergem, torna-se mais fácil multiplicar

as expressões fantásticas: um livro conquista seu público,

torna-se uma série impressa e em e-books, transforma-se

em franquia no cinema, depois passa para o campo dos jogos

eletrônicos, ganha sites, comunidades virtuais, fãs, encontros,

congressos... A esses fatores, penso que se soma o mal-estar

de nossa época: os monstros são, desde sempre, bons indicadores

do que emerge sintomaticamente na cultura. Não é por

acaso que vivemos o império das produções sobre zumbis, por

exemplo. O fantástico tem uma sintonia direta com os sintomas

culturais.

C: Seu trabalho como escritor trata da relação

da fantasia com o universo infantil. Como você enxerga

essa temática nas produções voltadas para o

mundo adulto?

AM: O inconsciente não tem idade: o chamado livro

infantojuvenil e o livro para adultos servem, em grande

medida, como categorizações mercadológicas. Há livros

feitos para crianças muito profundos e desprezados nas

estantes; e livros “rasos” para adultos, nas primeiras

gôndolas das grandes livrarias. Noto que vivemos não somente

uma onda, mas um tsunami de produções do fantástico,

seja para os pequenos, seja para os grandes leitores.

Como tudo o que se faz em grande quantidade, os

níveis de qualidade, sobretudo no plano estético, variam

muito. Enfatiza-se o conteúdo, muitas vezes esquecendose

da forma.

C: Como o “fantástico” aparece em seus livros?

AM: A literatura feita para as crianças é um belo esteio

para os temas do fantástico. Em minhas produções

infantojuvenis, adoro criar antigas brincadeiras com

o leitor: será que isso ou aquilo aconteceu de fato com

um dado personagem? E, afinal de contas, ele teve uma

alucinação, ou, de fato, foi abduzido por um alienígena?

Minha série Contos para não dormir, já em seis volumes,

tem esse estilo narrativo. Em Aluado e outros contos de

alumbramento, por exemplo, cada conto traz um universo

fechado, de estranhamento não finalizado, para que


FOTO ARQUIVO PESSOAL

o leitor se divirta. Não ponho limites entre a realidade

e a não-realidade, não quero que meu leitor conclua

facilmente as coisas. Não o subestimo. Recebo muitos

e-mails de meus leitores jovens. Vários deles querem

saber se certo personagem fez, viu ou era “x” ou “y”.

E eu respondo: “não sei”. E, de fato, eu não sei mesmo.

Criei meus enredos para que não haja respostas claras:

nem para o leitor, nem para mim. Em minha literatura,

as cores do crepúsculo são mais interessantes do que as

do sol a pino ou as da noite em breu.

C: Qual seria sua definição para “literatura

fantástica”?

AM: Eu escrevi longamente em minha tese sobre

os numerosos e vãos (apesar de bem intencionados)

esforços em se definir, no decorrer de dois séculos, o

que era a tal literatura fantástica, ou “de fantasia”, ou

“sobre monstros”, ou “do estranho”. Os termos são

muitos. Foram todos empreendimentos que não conseguiram

abarcar todo o universo em torno do que se

chama fantástico. O que me ocorre é que foi feita uma

separação, também muito mais para fins de mercado,

entre a literatura dita “fantástica” e aquela chamada

“realista”. É uma diferenciação problemática. No Brasil,

“comprou-se” muito bem uma ideia: a de que tudo

o que não retrata a “realidade social”, tudo o que foge

das possibilidades “concretas” do cotidiano, é apenas

“literatura de evasão”, perda de tempo, distração para

leitores “principiantes”. Nessas horas, há que se recuperar

os bons defensores da literatura e do fantástico,

como, por exemplo, o autor Jorge Luis Borges.

C: Em sua opinião, que lugar o lúdico e o delírio

ocupam na cultura brasileira?

AM: Gostei dessa aproximação entre “lúdico” e “delirante”,

apesar de ambos não necessariamente serem

correlatos. Mas vou seguir a sugestão: parece-me que

nossa história já nasce fruto de um fascínio delirante,

ora assustador, ora instigante. Os povos que aqui chegaram

depararam-se com civilizações impossíveis, quase

às avessas. E com uma natureza belíssima, mas de teor

inóspito tantas vezes: florestas monstruosas, rios com

aparência de mar, aves raras, insetos famélicos... Uma

animália de excêntrica exuberância. Tanto José de Anchieta

quanto os índios que ele batizava temiam a horrenda

ipupiara, que, séculos depois, foi amalgamada na

doce Iara. Adoro ver, nos relatos históricos e literários

do quinhentismo, os esboços de caminhos que trariam

conformações do que chamamos hoje de cultura brasileira:

a confusão, o hibridismo, a mestiçagem. Não se

trata, portanto, de um lugar para o lúdico e o delirante,

mas, antes, de um processo. Um belo processo.

com isso, ser louco: os homens deslizam entre a fantasia

delirante e a realidade do dia a dia, comum e partilhada.

Se não fosse assim, não haveria as artes. Ou as guerras.

Não haveria amor, nem desamor. O próprio espaço e tempo

sofrem com essa função delirante do sujeito: é penosa

a travessia de pouco mais de meia hora entre São Paulo e

Rio por via aérea para um fóbico. E dois dias inteiros ao

lado da pessoa que se crê amar escorrem em segundos.

C: Para você, afinal, o que seria o “fantástico”?

AM: Jorge Luis Borges nos deixa entrever que a literatura

fantástica não seria menos importante do que a

dita realista – ao contrário do que sempre quiseram boa

parte dos críticos e o próprio pensamento popular –, tampouco

desumanizada, irresponsável, escapista, nem mesmo

“uma espécie de capricho contemporâneo”, tomando

aqui as próprias palavras do grande escritor argentino.

A literatura fantástica – ele bem sabia – seria capaz de

superar o mundo superficial e oferecer metáforas para a

realidade, o que só se daria por meio do rigor e da lucidez.

Não há uma linguagem fantástica em si, e aqui recupero

o pensamento de Irène Bessière: em cada época, em

cada área, o relato dito fantástico é lido (e visto) de uma

forma: seja na Antiguidade, no medievo, nas Luzes, no

gótico literário, ou sob o olhar da psiquiatria, das artes

plásticas, da biogenética. Para fins práticos, hoje diz-se

comumente que o fantástico é o que se aproxima do sobrenatural,

do monstruoso, do maravilhoso, do impossível.

Diz-se também que o fantástico busca violar a norma

e a lei instaurando o reinado da inverossimilhança. Mas

é preciso fugir da obsessão pela especialização textual:

“isso é fantástico, isso não é”. O fantástico me parece,

antes, um termômetro para se avaliar não apenas a inventividade

de uma cultura, mas também os elementos

subterrâneos que a movem. Seus sintomas. Seus recalques.

Seus (impossíveis) objetos. Seus desejos.

Confira a continuação da conversa com o autor em:

www.jornalismo.ufop.br/revistacuringa

C: Para você, qual o limite, se é que ele existe,

entre o real e a fantasia?

AM: O que penso é que não sei se esse limite deve

ser pedido: parece-me que é no interstício, na fresta, na

brecha entre a chamada realidade e o fantástico, que

tudo acontece. Como na vida, em geral. Falamos em delírio

anteriormente. Todo mundo delira um pouco, sem,

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OUTSIDER


Foto: Iago Rezende

Arte: Janine Reis

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O MUNDO

em mim


Habitar

texto: hélen cristina

foto: ana elisa siqueira

arte: lara pechir


Na trama dos

sonhos

Quando nossos desejos são muito fantásticos

alguns detalhes podem atrapalhar: a falta de grana, de talento

ou de super poderes. Mas os sonhos, os que temos

enquanto dormimos, estão aí para isso. Eles são, muitas

vezes, uma válvula de escape para aquilo que, por algum

motivo, não conseguimos realizar estando acordados.

Segundo o psicólogo Bruno Bueno, sonho e fantasia

por vezes se confundem, e não é para menos. Ambos caminham

lado a lado na trama do conhecimento mais próprio

do ser. A fantasia pode ser oriunda de desejos, de algum

medo ou outro sentimento específico, ou até mesmo da

mera espontaneidade criativa da mente. Pode estar relacionada

àquilo que mais se almeja e sonha, ou àquilo que

retrata suas maiores fraquezas. A fantasia pode desafiar

valores, ir além do certo ou errado, e vivenciar, através do

sonho, tudo aquilo que está reprimido.

Já o sonho é uma experiência onírica, carregada de carga

afetiva emocional, que se apresenta como uma forma

de revelação do ser próprio, influenciada pelas experiências

diurnas, pelos desejos e pelas fantasias, com a mesma

intensidade e realidade com que experimentamos nosso

estado de vigília. E mais que uma válvula de escape, pode

ser uma ferramenta de auto compreensão, uma forma de

entendermos a maneira como conseguimos absorver nossas

experiências e como elas nos afetam.

Muitas pessoas têm sonhos aparentemente sem nexo,

confusos e na maioria das vezes nem se lembram que sonharam.

Outras, no entanto, não apenas se lembram, como

possuem uma habilidade a mais: conseguem se manter lúcidas.

Essa capacidade de manter a consciência é conhecida

como sonho lúcido porque a pessoa tem a total noção dos

acontecimentos e consegue, às vezes, controlar como eles

devem seguir. Algumas pessoas se dedicam a estudar este

fenômeno e a aprimorar sua técnica, e dizem conseguir até

mesmo induzir seus sonhos. Outras, porém, têm limitado

seu controle, e são capazes apenas de discernir quando estão

sonhando.

André Gatti, 25 anos, diz ter sonhos lúcidos a tempo

suficiente para não se lembrar do primeiro, mas percebeu

há pelo menos três anos que isto não é comum a todas as

pessoas. Sem dominar nenhuma técnica de controle, ele

alcança a lucidez durante o sonho de maneira espontânea:

“por muitas vezes, percebo a surrealidade do que está

acontecendo. A partir desse momento começo a ter maior

liberdade, não total, de fazer o que quero dentro do sonho”.

Ele conta que isto despertou sua curiosidade, mas nunca

procurou nenhum especialista no assunto, e não se considera

um controlador de sonhos, porque não consegue interferir

nas ações de outras pessoas, e às vezes, nem mesmo

acordar quando quer. Conta ainda como consegue discernir

entre sonho e realidade: “algumas vezes sou enganado,

outras não. Concluo pela falta de nexo de algumas coisas,

pela lógica em uma situação que está acontecendo... não sei

precisar, mas apenas percebo que aquilo que está acontecendo

não pode ser uma situação real, o desrespeito às leis

da física, por exemplo, é flagrante.”

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Para o psicólogo Bruno Bueno não há a necessidade de controlar

o sonho. Ele acredita na necessidade de conservação da

saúde mental do ser humano. Segundo ele, por meio da psicoterapia

é possível interpretar os sonhos e, a partir deles, tratar

sintomas e mostrar novas possibilidades de vida e de realizações

ao paciente. “É fazê-lo assumir uma responsabilidade perante

suas escolhas e sua autenticidade como ser-no-mundo. É saber

usar a criatividade, questionar valores e deixar fluir de maneira

mais autêntica seus desejos e fantasias”, conclui.

Enquanto algumas pessoas não se lembram de seus sonhos

e outras conseguem controlá-los, há ainda as que acreditam que

cada sonho traz uma mensagem relevante, mas nem sempre

clara. Este é o caso do estudante Bruno Fernandes, 29, ele conta

que depois que tomou consciência e desenvolveu mais sua mediunidade

a lembrança dos sonhos passou a ser mais frequente,

e alguns deles se tornaram premonitórios. “O que me chama

mesmo a atenção são pequenos detalhes, pequenas coisas que

mais cedo ou mais tarde fazem grande sentido, por mais bobo

que pareça aos olhos de terceiros”, diz.

Um dos vários sonhos premonitórios que o estudante teve

e ainda se lembra com clareza foi com seu avô: “eu tinha 18

anos e meu instrutor de auto escola não me ensinava sobre a

embreagem direito, eu simplesmente não conseguia controlar o

carro e sonhei que meu falecido avô me explicava como usá-la,

inclusive com a teoria por trás da prática. No dia seguinte testei

o que havia sonhado... minha carteira tá aqui comigo”, e ele

garante não ter lido nem comentado nada com ninguém sobre

o assunto antes do exame.

Como instinto de defesa, Bruno prefere não contar sobre

seus sonhos porque são experiências muito pessoais. Segundo

ele, muitas pessoas não acreditam, outras já acreditam tanto

que acabam se perdendo no meio das histórias. “São experiências

que só eu vivi, não tem como eu mostrar aos outros, a

não ser contando, e muitos podem pensar que invento isso para

aparecer, mas não é”, diz.

O psicólogo Bueno não acredita em premonição, para ele algumas

coisas não são percebidas claramente por nós, mas ficam

registradas em nosso inconsciente e nos surgem por meio dos

sonhos. Quando elas acontecem, determinadas por um contexto

mais amplo, acabamos tendo a ideia de premonição.

Independentemente do tipo: comum, lúcido, premonitório,

os sonhos dizem muito sobre cada um, são um reflexo do que há

em nós de mais íntimo, nossos desejos, fantasias e até mesmo

aquilo que nos atormenta. Muitas vezes são consequência do

que nos acontece no dia a dia. E, em contrapartida, é a forma

como interpretamos e reagimos a eles que nos define.

O sonho é o resultado de uma conciliação.

Dorme-se e, não obstante,

vivencia-se a remoção de um desejo.

Satisfaz-se um desejo, porém,

ao mesmo tempo, continua-se a dormir.

Freud


Rua Augusta

Magiaecinema

Texto: Teka Lindoso

Arte: Ana Amélia Maciel

Fotos: Divulgação Season One Art & Bar

Central Perk, Beco Diagonal, Bar do Moe, Café 80’s, Ten Forward

e Big kahuna. Estes nomes podem ser familiares para alguns, pois são

lugares frequentados por personagens de certas séries e filmes. Para os

fãs, nada mais marcante do que estar em um destes cenários e se sentir

como um dos personagens de suas séries favoritas. Além disso, quem não

procura um diferencial na hora de abstrair o estresse e viver a realidade

tirando os pés do chão, nem que seja por algumas horas?

São Paulo. A megalópole que abriga a maior concentração de bares,

restaurantes, teatros e palcos de diversidade cultural, tem muitas opções

para os que buscam diferentes tipos de entretenimento. Para quem ama a

fantástica fábrica do cinema, encontramos um novo cenário na Rua mais

badalada da cidade. O Season One Art & Bar foi inaugurado há pouco

tempo, um bar que oferece teatro, cinema, decoração temática, petiscos e

também aquela cervejinha gelada pra encontrar os amigos.

O mundo da fantasia começa com a lúdica Rua Augusta que mantém

sua fama do passado como local de boemia e libertinagem. Hoje acrescenta

características da modernidade do pólo paulista, juntamente com a

diversidade de um ponto de encontro de várias tribos. A fama da Augusta

é conhecida por quem nunca esteve nela. Não há local mais certo de que

o real possa se juntar à fantasia quanto nesta via de acesso ao centro velho

e às luxosas ruas do Jardins na Zona Sul.

A ideia de oferecer um local diversificado com vários temas do cinema,

veio da vontade em ter algo especial e diferente para os clientes,

contam os donos Aldo Dib e Marcus Ribeiro. Com isso, o Season One

abre espaço não apenas como o bar de uma série específica, e sim o bar

dedicado a todos os seriados, filmes, tribos, gostos e culturas.

Inspirado em um estúdio de gravação, o mundo das telinhas aparece

no Season One através da decoração e das atrações ofertadas ao público.

Holofotes, refletores, estruturas metálicas, camarim e entrada de estúdio

compõem o cenário. O responsável pela criatividade é o designer Roger

Arruda que elaborou o local com referências de séries e filmes que os

donos da casa apreciam. Alguns drinks do cardápio foram buscados nas

receitas originais, como a bebida Cosmo in the City, inspirada na personagem

Carrie de Sex and the City, além de nomes como Smallville, Arrow

e The Flash.

Revivendo a excentricidade nas noites paulistanas, o Season One foi

pensado para surpreender e fazer com que o cliente se sinta confortável

curtindo seu cantinho do cinema. Além das séries que rolam nos monitores

e telão, o Bar apresenta o Teatro Seriado em dias determinados. Em

capítulos divididos por semana, o espetáculo “Estilhaços”será apresentado

no mês de outubro. O enredo se passa num dia 25 de janeiro, aniversário

da capital paulista, onde Paulo é um mendigo expulso do Vale do

Anhangabaú. Enquanto perambula pelas ruas, torna-se o protagonista

do voyeurismo metropolitano, sendo alvo e espectador das dissensões da

cidade.

A trilha sonora completa a proposta diferencial do Bar. “Rolam trilhas

de filmes, novelas, seriados e também algumas doses de rock, eletrônica

e música brasileira”, conta Aldo Dib.

O mágico universo das artes no entretenimento das noites paulistanas,

é uma boa proposta de vivenciar novas experiências culturais. A

brincadeira que envolve o cinema, teatro e as séries, aproxima do público

o fantástico mundo das celebridades, da sétima arte e do glamour. A

mescla do mundo das artes dentro de um bar traz a imaginação como

nova opção para a realidade, para se encantar com a Augusta e inovar

enriquecendo as alternativas para o lazer.

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Sensação

Um barato sob

prescrição médica

Texto: Tácito Chimato

Arte: Ana Amélia Maciel

Segundo dados do Relatório Mundial sobre Drogas da

ONU (2014), 5% da população mundial já fez uso de

substâncias ilícitas.

De acordo com o documento da ONU,

as drogas psicoativas do momento são os anfetamínicos,

como o ecstasy, ficando atrás em consumo

apenas da maconha. Sua origem vem de fins

médicos, mas sua forma de consumo mudou, indo

desde “uma vez” em uma festa até casos de abuso.

“Sexta-feira passada (…) , fui forçado a interromper

meu trabalho no laboratório, (...). Em casa eu me

deitei e afundei numa condição desagradável de um

tipo de desintoxicação, caracterizada pela imaginação

extremamente estimulada. Num estado como que em

sonho, com os olhos fechados,(...) eu percebia um fluxo

ininterrupto de quadros fantásticos, formas extraordinárias

como um intenso caleidoscópio de jogo de

cores. Depois de umas duas horas esta condição diminuiu.”.

O relato acima podia ser de qualquer usuário de

alguma droga psicomiméticas, drogas que alteram

nossa percepção de realidade. Mas é do químico suíço

Albert Hofmann, e data do ano de 1943, conforme seu

livro “LSD: minha criança problema”. Hoffman descobriu

essa substância durante uma experiência com

propriedades de um fungo do centeio, que poderia

ajudar em casos de hemorragia durante o trabalho de

parto. Assim, ele acabou por descobrir o Lyserg-saurediathylamid,

o LSD-25, conhecido como “doce”. O

LSD fez fama na década de 1960, sendo proibido na

década seguinte, inicialmente nos Estados Unidos, e

depois no mundo pela pressão do governo Nixon.

História semelhante tem o MDMA, popularmente

chamado de ecstasy. Criada na década de 1920 como

um supressor para a fome, sua história seguiu renegada

até a década de 1970, quando um professor na

Universidade da Califórnia, Alexander “Sasha” Shulgin,

ouvindo um de seus alunos falando sobre uma

nova droga, teve acesso a cadeia do ecstasy publicada

anos antes em um artigo na Polônia. Impressionado

por seus efeitos, “Sasha” resolveu recria-la, e

recomendou-a para seus amigos psiquiatras para o

tratamento da depressão. Não demorou muito para os

próprios consultórios passarem a vender a droga sem

receita, e o ecstasy se tornou uma febre na década de

1970, seguindo um caminho semelhante ao do LSD na

década de 1980.

Ambas as drogas foram formuladas com objetivos

médicos, contudo, parte de seus efeitos colaterais mudava

as sinapses do cérebro. Sua proibição surgiu após

casos de abuso. Mas, então, o que leva alguém a usar

drogas com efeitos tão sensíveis a mente, e até abusar?


“Bala. A sensação

de conforto por

que tudo a volta para estar

em sintonia com tudo que esta a

volta, sentimos que tudo de repente

tem uma resposta. Acredito que

perdemos a capacidade de mentir...

o que torna tudo a volta mais

simples e explicável.” - W. 36

anos, ator.

“Foi uma

sensação de liberdade,

todos meus sentidos

ficaram muito apurados. Em

suma, me senti completo: fui

para um estado de espírito tão

bom que deixei de ligar para as

pessoas a minha volta” - M.

, 23 anos, estudante.

“Ingeri a

chamada bala, que

na verdade é o ecstasy, ano

passado na formatura de uma

amiga. Algo que me marcou muito

foi a ideia que aquele era um

momento perfeito, nunca antes

senti algo semelhante com

tanta intensidade.” - L.

Editor de Vídeo, 24

anos

“Tomei o LSD,

quando fui ao cinema

uma vez com minha amiga.

Foi a primeira e única vez que tomei

doce sem ingerir mais nada. Tive

uma onda muito boa, e minhas experiências

negativas se deram pelo uso

de outras drogas conjuntas, como

o álcool, e a ressaca moral e física

do dia seguinte.” - B., 21

anos, estudante

Do recreativo ao vício

Segundo o psicológo português Pedro Godinho, é

muito difícil definir uma razão exata para o ser humano

buscar o uso: “Há níveis diferentes de consumo”. Ou seja,

antes de definir o por quê de uma pessoa usar, deve-se ver

o quanto a pessoa está usando: “os consumos podem ser

cotidianos, experimentais, ocasionais, de uso nocivo e dependência.”

Isso está relacionado a experiências anteriores

de cada um: “Quanto a essas experiências aflorarem

ou não durante os consumos, depende muito da pessoa e

dos efeitos da substância, mas pode acontecer”.

O site português “Tu Alinhas” (página virtual do Ministério

da Saúde português para prevenção do uso entre

jovens) acrescenta que nossos problemas com drogas não

passam somente por essa ou aquela substância, mas sim

a um comportamento social que o ser humano pode adotar

com qualquer coisa: “A dependência/adição torna-se

cada vez mais difícil de ultrapassar quando todo o nosso

cotidiano, todos os nossos interesses, toda a nossa vida

passa a girar em torno de uma substância, do jogo, de

qualquer comportamento ou situação compulsiva (que

não conseguimos controlar), alterando todo o nosso

projeto de vida.”. Porém, ao falar de drogas ilícitas, que

causem dependência física, devemos observar o meio no

qual o indivíduo está inserido e como a droga é aceita

nesse meio. “A experiência de determinados acontecimentos

traumáticos, ou marcantes, pode atuar como um

fator de risco para o consumo de substâncias. Nesse caso,

ao não conseguir lidar de uma forma satisfatória com o

problema, a pessoa pode recorrer a estratégias como os

consumos de forma a minimizar o sofrimento.” Completa

o psicólogo.

Uma coisa é certa: se o ser humano sentir que deve

passar por determinadas experiências com seu uso, ele

deve estar ciente principalmente dos riscos que corre.

Ainda não é possível medir os níveis seguros para cada

um, mas também não se pode dizer que todo fim será

brutal. E, para cada caso, vale a pena perguntar se é o que

se esperava, ou se foi demais.

“Ri a noite

inteira incessantemente,

os sons da musica eram

captados por mim com sensação

de cores e alucinações visuais com

formas geométricas - tive uma sensação

mais forte relacionada a objetos

da cor azul, eram os que mais

distorciam na minha visão.”

- F. 33 anos, analista de

suportes

“ B a s i c a m e n t e

fiquei no meu quarto paranóico,

e toda a vez que ouvia

um som, ou pelo menos achava que

ouvi, descia até a sala para conferir se

alguém havia entrado na casa. Resumindo:

fiquei uma noite inteira no quarto,

ora paranoico, ora extremamente agitado.

Não tive um minuto de paz e

perdi uma noite de sono para

acordar acabado” M., Estudante,

23 anos.

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Alternativa

Esoterismo

perto de nós

Você acredita em energia, em esotérico, em mística?

Quando pensa em esoterismo, imagina uma senhora cheia

de pulseiras, anéis e um turbante na cabeça? Pois bem,

existem pessoas que levam esse universo muito a sério e

vivem isso no seu dia a dia.

Pipoca, com apenas 20 anos mora longe de

sua cidade natal e concilia a vida de universitária com um

hobby bem diferente para esse contexto. Neta de vidente,

joga tarô e runas sem cobrar nada, sempre se considerou

sensível às positivas e negativas energias do cotidiano

e não liga em ser chamada de bruxa pelos amigos.s.

Para ela, a bruxaria em si não é uma religião, e sim, é

algo natural, como quando você toma um suco de maracujá

pra se acalmar ou como

quando toma um banho

e se sente renovado.

O maracujá,

por exemplo,

possui uma energia

calmante, e a

água corrente limpa

e leva o que é ruim embora. É uma arte oculta que trabalha

com todas as diversas energias existentes no universo. Explica

que o oráculo, que engloba várias das práticas esotéricas,

se baseia em maneiras de prever o futuro, ver o passado

e se auto conhecer, seja por sonhos, vidência, intuição ou

profecia, não havendo brecha para um controle sobre a previsão,

quem a tem simplesmente tem, independentemente

de buscá-la ou não.

A estudante acredita que pode influenciar a vida das

pessoas ajudando principalmente no auto conhecimento delas.

Sempre existe um ponto que às vezes o consulente nem

notava no seu cotidiano e que é responsável por acontecimentos

bons ou ruins. Quando você toma conhecimento

dessas energias, você tem a escolha de mudá-las, se for

o caso. Você aprende mais sobre si mesmo, suas percepções

e então, o momento que você está vivendo se


amplia. Mas é um estudo onde existe uma lógica por trás

de tudo. Bruxaria é sim conhecimento.”

Além do tarô e das runas, existem outros métodos

de autoconhecimento e desenvolvimento como a técnica

Shivan Yoga, por exemplo, criada pelo mestre Arnaldo

Almeida e difundida na cidade de Ouro Preto. Para o

mestre, o yoga é um conceito que se refere a disciplinas

físicas e mentais e está ligada a práticas meditativas. Já a

meditação traz benefícios não só físicos, mas energéticos,

emocionais e mentais, sendo possível substituir os pensamentos

confusos e perturbados por pensamentos sobre

controle, aliviando a mente de tensões.

Para sua aluna e adepta da técnica Shivam Yoga, Isadora

Guimarães, os retornos físicos são quase instantâneos.

Ela não costumava acreditar no poder da meditação,

mas nas primeiras aulas pôde perceber o rompimento das

tensões com os exercícios e um notável aumento de concentração.“

Apesar de ainda não existir uma estimativa concreta,

assim como Isabela, que acredita fielmente em suas práticas

esotéricas, muitas pessoas praticam diversos tipos

de jogos dessa espécie no Brasil atualmente. Por outro

lado, como a própria entrevistada afirma, há o grupo que

questiona essas doutrinas, as considerando puro charlatanismo

e exploração.

Para a diarista Amélia Mendes, de 47 anos, natural de

Ouro Preto – MG, práticas como o tarô, vidência e leitura

da sorte não passam tentativas de se tirar algum tipo de

proveito da fragilidade das outras pessoas. Segundo ela,

“é muito fácil dizer o que alguém desiludido quer ouvir.

As pessoas que procuram esse tipo de serviço já estão vulneráveis

e deixam escapar dicas para os oportunistas.”

De forma geral, a ciência não é capaz de definir a

energia, mas ela e o esoterismo, como uma prática de

tradições e interpretações filosóficas de doutrinas e religiões

que buscam desvendar seu sentido oculto, afloram

notoriamente cada vez mais na sociedade com suas mais

diversas ramificações.

Aceito ou criticado, trazendo respostas, dúvidas ou

lucro, o surreal instiga as pessoas e pode alterar o cotidiano

de quem menos se espera.

Texto: Thaís Corrêa

Arte: Ana Amélia Maciel

Fotos: Isadora Lira

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Identidade

Quando a memória se

texto: Hélen Cristina

arte: Jéssica Moutinho


O Alzheimer é uma doença degenerativa e

se apresenta como demência, ou perda de funções cognitivas

como memória, orientação, atenção e linguagem.

Não se sabe por que ocorre, mas são conhecidas algumas

lesões cerebrais características dessa doença. As duas

principais alterações que se apresentam são o surgimento

de placas senis decorrentes do depósito de proteína

beta-amiloide, anormalmente produzida, e os emaranhados

neurofibrilares, frutos da hiperfosforilação da proteína

tau. Outra alteração observada é a redução do número

das células nervosas (neurônios) e das ligações entre elas

(sinapses), com redução progressiva do volume cerebral.

O neurologista Leonardo Brandão afirma que uma forma

de prevenção é se manter mentalmente ativo. Segundo

ele, é sabido que a pessoa que lê mais, que executa mais

atividades que envolvam o cérebro tem uma probabilidade

menor de desenvolver a doença. Mas ressalta que é fundamental

que seja uma leitura da qual se possa emitir algum

tipo de juízo crítico, “não é simplesmente ler; é ler, processar

o que está acontecendo e ter uma opinião sobre o assunto.

É preciso que esta leitura estimule o cérebro”. Ainda assim,

ele destaca que 50% das pessoas com mais de 80 anos

de idade terão Alzheimer, isto porque um fator de risco, não

modificável, para a ocorrência da doença é envelhecer.

A doença não se caracteriza pura e simplesmente pela

perda de memória, mas esta é a principal alteração notada

pelas pessoas que convivem com portadores do Alzheimer.

Geralmente eles se esquecem de coisas recentes, mas

lembram com perfeição de fatos que aconteceram há vários

anos. E muitas vezes passam a agir como se vivessem no

passado. É muito comum também que não reconheçam os

membros mais jovens da família, mas em casos mais graves,

até mesmo pessoas mais velhas, com as quais convivem

diariamente, são esquecidas.

Em meio a tudo isto, a figura do cuidador é fundamental,

porque na grande maioria das vezes a pessoa que desenvolve

a doença não percebe o que está acontecendo, ela é

geralmente levada ao consultório médico por familiares que

percebem alterações no comportamento. A partir do diagnóstico

inicia-se uma nova fase, principalmente para quem

vai acompanhar o paciente. O cuidador tem que se adaptar

a esta nova realidade e passa também a habitar o mundo

particular de quem convive com o Alzheimer. Para alguns,

apenas um desafio, para outros, uma lição de vida.

perde

Uma fantástica prova de amor

Como você reagiria se corpo e mente não acompanhassem

o mesmo relógio? O corpo vai aos poucos envelhecendo,

perdendo suas habilidades, enquanto a mente está

presa num passado distante. Como seria se a cada dia você

se afastasse um pouco mais da realidade e passasse a habitar

um mundo só seu, onde o presente está sempre no

passado? É assim que vive grande parte dos portadores da

doença de Alzheimer.

Júlia de Macedo Neves, 94 anos, foi diagnosticada

com a doença há oito anos. Tudo começou um pouco antes,

quando ela perdeu a visão por causa de um glaucoma.

Obrigada a abandonar sua rotina agitada, Jú, como é

carinhosamente chamada pela família e amigos, começou

a passar seus dias no quarto, ouvindo música e tendo as

lembranças como companhia, até que este recolhimento

se transformou em doença.

Em meio a tudo isso, Maria Aparecida Barbosa da

Silva, 71, é figura fundamental. Sobrinha e cuidadora de

dona Júlia, também teve que se adaptar a essa nova realidade.

Elas sempre viveram juntas e cultivaram uma grande

amizade, e isso fez toda diferença na hora de lidar com

a doença. Jú teve redobrada toda atenção e carinho que

sempre recebeu da sobrinha. “No início foi difícil, às vezes

ela ficava duas noites e dois dias seguidos sem dormir, a

gente olhava e parecia que tinha dormido a noite inteira.

Mas ela foi minha segunda mãe. Sempre tivemos uma ótima

relação, e isso continua até hoje,” conta Maria.

E se engana quem pensa que o portador de Alzheimer

se torna um fardo, pelo menos não para Maria Aparecida.

Ela diz que a aceitação e a adaptação à doença aconteceram

de uma maneira muito natural, que não saía muito e

que já havia viajado bastante, então decidiu que não lutaria

contra algo que não tinha solução. “A vida aqui sempre

foi muito tranquila, acho que isso tudo passa, e agora

estamos vendo as consequências, porque está sendo tudo

muito fácil. Jú não é um peso, eu me sinto bem de saber

que estou ajudando ela, que nos ajudou muito.”

Mesmo com a doença, dona Júlia tem uma vida tranquila.

Maria Aparecida faz questão de controlar seus horários,

cuida pra que a tia se exercite, caminhando pelo

quintal, ou mesmo dentro de casa, em dias chuvosos, e

também não deixa de conversar, para que ela não perca

totalmente a lucidez, e lembra com entusiasmo da rotina

agitada que dona Júlia mantinha: “Jú foi secretária, era

muito dinâmica, alegre e muito boa, gostava de ajudar as

pessoas. Era ótima em tudo que fazia: crochê, tricô, cozinhava,

era uma verdadeira líder”.

Todo carinho dispensado à tia tem amenizado os sintomas

da doença, mas a perda de memória é algo sobre o

qual não se tem controle: às vezes dona Júlia acorda no

meio da noite e pede para que preparem a mamadeira do

sobrinho, que há muitos anos deixou de ser criança. Apesar

de tudo, Maria Aparecida acredita que a falta de memória

causada pelo Alzheimer tenha um lado bom: “com

a doença ela não tem dimensão do que ela foi, do que ela

fazia, ela não tem essa percepção. E isso é bom porque ela

em fantasianão sofre. E eu também não”.

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Opinião

Conversa

fantasma

Texto: Israel Marinho

Foto: Isadora Lira

Arte: Joyce Mendes

Chego à Passagem com a

missão de fazer uma entrevista diferente.

A ideia é conversar com o fantasma da Mina

da Passagem. Conhecido pelos moradores

como Capitão Jackes, era um homem importante

no final do Século XVIII,

responsável pelo envio do ouro das cidades mineiras

para o Rio de Janeiro que era Capital do Império.

Jackes foi um explorador inglês que comandou vários

empregados que trabalhavam na mina e por isso possuía

a patente de Capitão. Autoritário, ranzinza, tratava seus

subordinados com bastante rigidez. Mesmo sendo rude, ele tinha o

simples desejo de encontrar ao menos uma pepita de ouro.

Essa era a sua única ambição. Morreu buscando a sua riqueza e até

hoje volta às galerias em busca do seu sonhado tesouro.

Vou até a Mina e resolvo entrar em busca do fantasma.

Depois algum tempo de caminhada nas escuras e estreitas galerias,

vejo um vulto. Encontro Jackes sentado. É um senhor de 60 e poucos anos

com rugas em todos os cantos do rosto. Usa um chapéu de couro com alguns

detalhes prateados. Suas roupas são de uma cor difícil de ser distinguida.

Parece um marrom, mas ao chegar perto se tornar mais claro parecendo um

laranja. Calça uma bota visivelmente desgastada pelo tempo.

Com um olhar um tanto ameaçador, nota a minha presença. Tento

balbuciar algumas palavras, mas me interrompe. Resmunga, parece estar

incomodado comigo. Abaixa a cabeça e sorri a todo o momento.

De repente, se levanta e vem em minha direção e só para quando está frente a

frente a mim. Fica me olhando. Continuo parado. Não me intimido e nem me amedronto

com a presença dele. Jackes coloca sua mão direita em meu ombro e quando

percebe que estou disposto a ouvi-lo, começa a falar.

Inicia confessando ser muito sozinho, pois os outros fantasmas da região são

muito isolados. Achou bom alguém tentar conversar com ele, pois as pessoas têm

medo e não conhecem a sua história. Decepciona-se, pois o conhecem apenas como

um fantasma e não como uma figura importante da cultura e da história da cidade.

Visivelmente chateado, diz que merece um reconhecimento maior relembrando alguns

acontecimentos que presenciou como as várias brigas e lutas dos seus empregados pelo

fim da escravidão e se revolta por não poder contá-las para mais ninguém. Após uma pausa,

olha pra baixo e diz aceitar a sua situação e que tem a certeza que um dia as pessoas vão procurá-lo

para saber mais da sua vida e de tudo que sabe da Mina.

Depois de um instante de silêncio e de cabeça baixa, me surpreende com um abraço.

Agradecendo a atenção, se afasta, acena e desaparece misteriosamente.

Saio da mina feliz e com a certeza de que Capitão Jackes é bom e com a missão de mostrar aos moradores

a verdadeira personalidade daquele fantasma camarada de verdade.


FOTO ARQUIVO PESSOAL

Próxima edição

Texto: Nuno Manna

Foto: Marllon Bento

Arte: Janine Reis

Se tivesse aberto um Jornal do Brasil no dia 03 de abril de 1943,

Zacarias teria encontrado uma legião de combatentes que se lançaram ao mar diante da

invasão do inimigo, o falecimento de um eminente homem público, a contratação de um

jogador por um time da primeira divisão, a condenação de um homem que aumentou indevidamente

o preço do carvão, um cadáver que mesmo depois de quatro anos inhumado

permanecia intacto, a Bolsa que seguia regular pela falta de negócios de grande vulto...

Quando recorreu ao jornalismo, o pirotécnico urgia por informações que o orientassem pelo

caminho entre a vida e a morte, mas nenhuma daquelas histórias solucionavam o paradoxo

particular que lhe afligia. Ao sofrer um acidente fatal dias antes, não entendia como podia

estar ainda de pé: “Em verdade morri, o que vem ao encontro da versão dos que crêem na

minha morte. Por outro lado, também não estou morto, pois faço tudo o que antes fazia”.

A ambiguidade fantástica do ocorrido clamava por uma explicação. Buscá-la nas narrativas

jornalísticas pareceu-lhe, então, uma solução possível: “obrigava-me a buscar, ansioso,

nos jornais, qualquer notícia que elucidasse o mistério que cercava o meu falecimento.”

O conto O pirotécnico Zacarias de Murilo Rubião (escritor e jornalista) foi publicado pela

primeira vez naquele 03 de abril. Nos noticiários do dia não haveria, de fato, a notícia sobre

tal insólito incidente. Certamente se desenharia por ali um mapa sistematicamente organizado

para guiar Zacarias e todos nós por uma realidade que é e que pode ser, composto nos

devidos limites do possível e do dizível, com as instruções necessárias sobre as formas de

viver e de morrer. No entanto, pelas narrativas jornalísticas encontramos inevitavelmente

os caminhos obtusos pelos quais a sociedade percorre para narrar sua própria história e

compreender a si mesma. Se por elas operamos nossa vontade de domínio sobre nosso

destino e regulação de nossas lógicas, também percebemos sempre se constituir a quimera

de uma sociedade normalizada e livre do caos. Mas aqui estaremos novamente, repetindo

incessavelmente o ritual, tentando encontrar a nós mesmos pelas próximas edições.

Nuno Manna, nosso autor convidado, é jornalista e doutorando em Comunicação

pela UFMG, estudioso das ficções do mundo e no mundo. Autor do livro “A tessitura do fantástico:

narrativa, saber moderno e as crises do homem sério” (Editora Intermeios, 2014).

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