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11 months ago

Revista Curinga Edição 13

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Comum Conhecimento de

Comum Conhecimento de causa e de alma Soraya Misleh é brasileira de nascimento e palestina de coração. Jornalista e membro da Frente em Defesa do Povo Palestino em São Paulo, ela escolheu representar e defender a pátria de seus familiares no país em que acredita ter liberdade, o Brasil. Aos 45 anos, ela é uma referência nas discussões sobre o combate ao Estado de Israel. A dualidade da sua história e o tempo de envolvimento com a causa, aliados à sua trajetória como repórter de mídias alternativas, levou-a, há 9 anos, a ministrar palestras sobre o conflito na Palestina. C: Como explicar sua relação com o Brasil? S: Eu nasci aqui. Hoje moro na cidade de São Paulo, com meu filhos. Meu pai e minha mãe moram no interior de São Paulo. Meu pai foi um dos 800 mil palestinos expulsos na criação do Estado de Israel, em 1948. Com 13 anos de idade, ele vivia em uma aldeia rural e a família toda foi expulsa de forma bastante violenta. Tornaram-se refugiados como milhares de palestinos. A aldeia deles foi uma das cerca de 500 destruídas naquele momento. Depois de oito anos da expulsão, eles viveram um tempo na parte da Palestina que ainda não estava ocupada por Israel (Cisjordânia). A situação era muito difícil e o Brasil tinha fama de ser um país bastante acolhedor. Quando meu pai chegou aqui, tinha somente 100 dólares e a roupa do corpo, além de não saber falar o idioma. C: Você é membro da Frente em Defesa do Povo Palestino de São Paulo. Por que você resolveu militar aqui no Brasil e não na Palestina? S: Como eu vivo no Brasil, minha vida está toda aqui. Sou viúva e tenho dois filhos, pelos quais eu sou responsável. Viveria na Palestina muito bem, porque lá me sinto em casa, mas não tenho condição de me mudar. Uma forma que penso que tenho de contribuir estando aqui é denunciar diariamente a situação que acontece na Palestina, expondo o caráter colonialista de Israel e o racismo do movimento sionista. Existe um problema muito sério de monopólio midiático, portanto, acho que é uma forma de ajudar a denunciar isso. Criamos a Frente durante os ataques a Gaza em 2008. C: A televisão continua sendo o meio de comunicação mais utilizado pelo povo brasileiro para se informar. Para você, como a TV brasileira apresenta o povo palestino para o mundo? S: A televisão brasileira não foge à regra das grandes mídias de aprA televisão brasileira não foge à regra das grandes mídias de apresentar e reproduzir estereótipos e preconceitos, além de desumanizar os povos. Ouve-se falar sobre palestinos quando há os grandes bombardeios, sendo que os palestinos sofrem diariamente com a ocupação e isso não é visto na mídia, não há compreensão de qual é o contexto histórico. Os telejornais

não permitem entender o que realmente está acontecendo. Muitas vezes, os palestinos são apenas números na mídia, eles não possuem identidade. Essas meios desinformam muito. É urgente lutar pela democratização da mídia. Há uma pequena quebra desse bloqueio por meio das mídias independentes e alternativas, mas não há forças para que as informações sejam divulgadas. C: Você já cobriu e escreveu diversas vezes sobre o conflito na Palestina. Como é a experiência de cobrir um conflito podendo mostrar os dois lados, principalmente o lado dos oprimidos? É fundamental mostrar essa realidade e denunciar o opressor. Acho que é bastante honesto dizer para as pessoas que eu tenho lado e o meu lado é o do oprimido. É muito importante que todo mundo tenha a experiência de ir para a Palestina, ver com seus próprios olhos o que acontece. Os jornalistas precisam acompanhar tudo o que acontece de forma independente. C: As campanhas feitas nas redes sociais podem ajudar o povo palestino? S: As ações que temos feito criam bastante impacto. Por exemplo, nos últimos anos, o Brasil se converteu num dos cinco maiores importadores de tecnologia militar israelense. Existe pressão por nossa parte para que esses acordos sejam quebrados. É preciso denunciar a mentira de que o sionismo é antissemitismo. Antissemitismo é a discriminação contra semitas. O sionismo é um movimento ideológico político. É contra isso que nos posicionamos. Antissionismo não é sinônimo de antissemitismo. Fazemos chamados para as nossas atividades, e as mídias livres contribuem para a gente avançar nessa conscientização e pressionar os governos a romper acordos. C: Até o momento, quais foram os principais resultados alcançados com o uso dessas mídias livres em relação a situação da Palestina? S: Através dessas mídias foi possível divulgar a campanha de boicotes, que é um chamado da sociedade civil palestina feito em 2005. Trata-se de uma campanha global de boicotes a Israel, aos moldes do que foi feito em relação ao apartheid na África do Sul. Tentamos informar, por exemplo, que existem 5 milhões de refugiados vivendo em campos a um raio de 150Km da Palestina histórica impedidos de voltar para as suas terras. Buscamos furar um pouco esse bloqueio midiático. Acho que as redes sociais e blogs ajudam muito nisso. Nós conseguimos fazer isso através dessas mídias. O que precisa ser feito é que haja mais disseminação. C: A escolha do jornalismo como profissão tem alguma relação direta com o conflito? S: Eu escolhi fazer jornalismo quando era muito menina. Eu gostava de escrever e acreditava na função social do jornalismo. Ainda acredito. A minha escolha pelo jornalismo foi por acreditar que a gente podia transformar essa sociedade, mudar o que achamos injusto. Eu acho que o fato de eu vir de uma origem palestina, muçulmana, e acompanhar o que era a Palestina através da memória do meu pai pode ter influenciado. Não escolhi conscientemente o jornalismo pela questão da Palestina ou porque achava que ia contribuir com essa causa, mas porque achava que era uma forma de transformação da sociedade. Escrevo bastante, desde 2001, sobre a Palestina pela Ciranda Internacional de Comunicação Compartilhada, que cumpre um pouco esse papel na minha vida. C: Você falou da Ciranda Internacional de Comunicação Independente. Como surgiu essa ideia e qual foi a iniciativa para começar essa comunicação compartilhada? S: A Ciranda surgiu como uma proposta de comunicação compartilhada. A intenção é a de que vários jornalistas se juntem querendo fazer uma cobertura diferente, trazendo justamente as pautas dos movimentos sociais que não estão na grande mídia. O trabalho de compartilhar as informações persiste. Texto: Jéssica Moutinho Foto: Ana Amélia Maciel Arte: Thaís Corrêa CURINGA | EDIÇÃO 13 37

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