Views
8 months ago

Revista Curinga Edição 13

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

A Mina “Du Veloso”

A Mina “Du Veloso” é uma das principais minas abertas ao público. A curiosidade dos turistas e até dos nativos é aguçada, principalmente pelo fato da mina ter sido interditada em 2010. Um desabamento fez com que a sua entrada ficasse obstruída, sendo fechada para visitantes. Há 4 meses as obras foram concluídas e os turistas puderam novamente apreciar as belezas da mina. “Ainda há marcas preservadas das ferramentas de corte utilizadas pelos escravos. Foi um trabalho técnico, pois apesar da rocha ser bem resistente, ela tem as camadas de foliação que facilita a abertura, portanto os escravos que ali trabalharam, vieram de uma região da África chamada Costa da Mina, eram escravos especializados em técnicas de mineração”, conta Eduardo Evangelista, proprietário do imóvel e responsável pela mina, conhecido como Du do Veloso. No total, é permitido que cerca de 250 metros sejam percorridos entre as galerias da mina. A galeria principal possui dois poços de água cristalina. Para Du, um dos fatos mais interessantes e que ainda pode ser percebido no local, é a capacidade empreendedora dos povos que lá trabalhavam. “Se pararmos para observar, temos escavações perfeitas, onde formam-se pilares naturais e estrategicamente pensados para sustentação e segurança aqui dentro. Os desvios do fluxo de água também são incríveis, vê-se que eles tinham controle total sobre o direcionamento hidráulico. Enfim, foi um trabalho fantástico de engenharia”, afirma. Também tem destaque no turismo subterrâneo a Mina do Chico Rei, conhecida anteriormente como “Encardideira”, e redescoberta em 1950 ganhando o nome de “Chico Rei”, a mina é um marco para a história da escravidão, já que pertenceu ao escravo Chico Rei, que com o suor de seu trabalho, comprou a sua alforria e mais tarde a mina, tornando-se rico, coisa rara de ser acontecer nos tempos coloniais. Segundo histórias populares, Chico Rei e alguns colegas colocavam, todos os dias, lascas de ouro no meio dos cabelos ao fim da jornada de trabalho, e lavavam-os na pia batismal da igreja, tendo os religiosos como seus cúmplices. A mina também localiza-se nos fundos de uma propriedade particular, e em suas paredes, é possível ver as cavidades onde o ouro recolhido era depositado pelos escravos. A área total é de 80Km² e possui 175 galerias abertas, escavadas em três níveis de profundidade. Uma outra Mina que não escapa dos roteiros turísticos, é a Mina do Jeje, onde também foram extraídos muitos quilos de ouro a um alto preço. As péssimas condições de trabalho num ambiente insalubre, contribuíam para uma baixa expectativa de vida dos escravos que ali trabalhavam. Mal passavam dos 20 anos, em decorrência de silicose, a mais antiga e mais grave das doenças pulmonares proveniente da inalação de poeiras minerais. Crianças de 6 anos já trabalhavam na retirada da terra para o exterior da mina. Para Gustavo Barbosa, um dos gestores da mina, o que os turistas mais buscam é o “conhecimento africano. Poucos historiadores falam profundamente no conhecimento do negro africano. E quem vem aqui quer resgatar e ver de perto essa história”, conta Gustavo. A professora Dinamene Godinho, veio da cidade de Avaré, SP, e fez questão de ver de perto a história que tanto está acostumada a ler nos livros: “nós sabemos a história da escravidão, a triste realidade da exploração do negro, mas quando chegamos aqui e vemos de perto, sentimos que a situação foi muito pior do que a palavra consegue expressar, e isso acaba nos abrindo os olhos, para que não fiquemos presos apenas no que aconteceu no passado, mas também para refletirmos sobre a descriminação racial que acontece hoje em dia”, diz a professora.

Mapa dos Geossítios da Serra de Ouro Preto cedido pelo PET Engenharia Geológica - Projeto Geossitios Cadastrar para preservar Muitas outras minas contemplam a cidade, como a Mina da Rainha, Mina de Santa Rita, Mina Fonte do Meu Bem Querer e Mina Velha. Cada uma com as suas histórias e peculiaridades, são verdadeiras máquinas do tempo, que permitem ao visitante fazer uma viagem e resgatar uma realidade, muitas vezes chocante. Além das minas mais conhecidas e visitadas, a cidade possui inúmeras outras espalhadas, e até escondidas em fundos de quintais. Minas que ainda não foram cadastradas, mapeadas, e, portanto não possuem a concessão do corpo de bombeiros. A aposentada Maria Aparecida Queiroga, moradora do bairro Alto da Cruz, possui no fundo de sua casa, uma destas escavações seculares. A família sempre soube tratar-se de uma relíquia, refletiu sobre a importância de se cadastrar, preservar e fazer o mapeamento geológico da mina. “Não faz muito tempo que ficamos sabendo desta questão do mapeamento. Não temos interesse em abrir a mina para visitação turística, mas estamos interessados em mapear, para justamente preservar não apenas a história, mas também por questões de prevenção”, conta Maria. Estima-se que na cidade, existam mais de 300 minas espalhadas. Uma das entidades que faz esse cadastro e mapeamento das minas é a SEE - Sociedade Excursionista Espeleológica. O foco de estudo do grupo é a Espeleologia - ciência que estuda as cavidades naturais. Formada por estudantes da UFOP, e amparada pelo DEGEO (Departamento de Geologia UFOP) a SEE faz um estudo de risco individual das minas, tornando possível identificar as áreas transitáveis ou não. “Este mapa é indispensável para que o proprietário do terreno consiga o alvará com os bombeiros, já que é a partir destas coordenadas, que é feita a estrutura de iluminação, analisa necessidades de pontes, enfim, delimita a parte turística da mina de forma a dar segurança a todos os visitantes”, conta Lorena Oliveira, integrante da SEE e Estudante de Geologia. A equipe também possui projetos de conscientização patrimonial da população. “A nossa idéia é fazer conscientizar a população a respeito da importância social e valor cultural que possuem estas minas. Há muitas casas na cidade que possuem minas em seus quintais, e muitas destas famílias as utilizam cono depósitos de lixo, por pura falta de informação”, diz Lorena. Uma outra equipe também que possui projetos e estudos nas áreas das minas é o PET-GEO, formado por estudantes de geologia, o grupo busca inserir a comunidade no contexto histórico, geológico e social que representam as minas. Para o estudante de Engenharia Ambiental, e componente do PET, Lucas Rodrigues, “a ideia central foi valorizar a riqueza geológica e histórica da nossa região junto à comunidade local, mas também levar informação e medidas de prevenção a todos. Promovemos palestras para associações de bairros, aulas para escolas da rede municipal, um jogo educativo e material didático sobre o Geoturismo, qualidade das águas e risco geológico que será em breve publicado e distribuído à uma parcela da população”, conta. Não há como saber ao certo o quanto foi extraído de ouro na região. Mas há pesquisas históricas que relatam que em 100 anos extraiu-se aproximadamente 650 toneladas. A coroa portuguesa arrecadou com impostos neste período, um quinto de tudo o que foi extraído. O “quinto”, 20% do metal coletado tinha de ser entregue à coroa, estando os proprietários das minas sujeitos a pena de morte por enforcamento, decapitação, entre outras punições. A busca ao ouro custou muito caro aos escravos e seus donos. Se valeu à pena, nas se sabe. Esta busca custa hoje ao turista aproximadamente R$15,00. Um tributo que, este sim, vale a pena. CURINGA | EDIÇÃO 13 41

Revista Curinga Edição 21
Revista Curinga Edição 23
Revista Curinga Edição 18
Revista Curinga Edição 15
Revista Curinga Edição 12
Revista Curinga Edição 05
Revista Curinga Edição 11
Revista Curinga Edição 25
Revista Curinga Edição 20
Revista Curinga Edição 17
Revista Curinga Edição 19
Revista Curinga Edição 08
Revista Curinga Edição 07
Revista Curinga Edição 01
Revista Curinga Edição 16
Revista Curinga Edição 06
Revista Curinga Edição 24
Revista Curinga Edição 00
edicao-86-revista-entre-lagos
Revista UnicaPhoto - Edição 06 - Maio/2016
Empreenda Revista - Edição Junho
Smurfs Reviva essa emoção - Revista Hadar!
OBSERVATORIO DO ANALISTA EM REVISTA - 1 EDICAO
Empreenda Revista - Edição Junho