Revista Curinga Edição 15

revistacuringa

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Revista Laboratório | Jornalismo | UFOP Julho de 2015 | Ano V

15


Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II.

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop.

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA). Departamento de

Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social (DECSO).

Universidade Federal de Ouro Preto.

Professores Responsáveis

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem)

Lucília Borges (Planejamento Visual)

André Luiz Carvalho (Fotografia)

Editor geral

Ana Clara Oliveira

Subeditora

Marília Ferreira

Editor de Arte

Renatta de Castro

Subeditora de Arte

Daiane Bento

Editor de Fotografia

Ariadne Selene

Subeditor de Fotografia

Inaê Costa

Editora de Multimídia

Amanda Sereno

Redatores

Diagramadores

Adrean Larisse, Cíntia Adriana,

Danielle Campez, Doulgas Gomes,

Katiusca Demetino, Letícia

Afonso, Luiza Mascari, Matheus

Maritan, Pamela Moraes, Pedro

Ewers, Raquel Satto, Samuel

Perpétuo.

Charles Santos, Débora Simões,

Edmar Borges, Elis Regina, Fran

Vilas Boas, Isânia Silva, Júlia, Laís

Diniz, Natane Generoso, Núbia

Azevedo, Paloma Ávila.

Fotógrafos

Alessandra Alves, Aprigio Vilanova,

Bruno Arita, Edione Abreu,

Eduardo Moreira, Hugo Coelho,

Kaio Barreto, Lucimara Leandro,

Pedro Magalhães, Raquel Lima.

Monitor: Túlio dos Anjos

Agradecimentos especiais à Loja Bela

Noiva, Thiago Sabino e Fredd Amorim.

Endereço:

Rua do Catete, 166 - Centro

35420-000, Mariana - MG

Julho/2015

IMPRESSÃO: MJR EDITORA GRÁFICA

Rua Carlos Pinheiro Chagas, 138 - Ressaca

CEP: 32.113-460 - Contagem - MG

tel: (31) 3357-5777


Revista Curinga

Convida você para a comemoração de sua 15ª edição

Atrações

06

16

22

30

33

38

Amor (entre) Divas

Ensaio: Ouro Preta

Corpos Ditos e Sentidos

Ocupe-se, pois Ocupa-se

Cidade em Palavras

Um Novo Quadro Negro


Editorial

“O mundo não é. O mundo está sendo. (...) meu

papel no mundo não é só o de quem constata o que ocorre, mas também

o de quem intervém como sujeito de ocorrências.” (Paulo Freire)

Dar voz ao outro. Uma das principais funções do jornalismo.

Dar voz e visibilidade para aqueles que, marginalizados, lutam

por um espaço na sociedade. Lutam por maior participação política,

por educação, por moradia, por respeito, pela liberdade de

ser quem se é... Lutam por voz! Resistem!

Resistir é preciso porque vivemos em uma sociedade ainda

desigual. Resistir é preciso porque o mundo ainda oprime. Resistir

é preciso porque vozes ainda são caladas. Resistir é preciso

porque a mídia ainda é dominada por interesses econômicos e

políticos. Resistir é preciso porque a intolerância existe.

E foi isso que - em sua 15ª edição - a debutante Curinga quis

fazer: dar voz aos que precisam e querem ser ouvidos. Sejam

eles sujeitos, movimentos, grupos sociais. Dar voz a essa luta

diária que é resistir em meio ao preconceito, à marginalização,

à intolerância.

Nas próximas páginas, vamos além: servir à; servir como

instrumento de intervenção e não fazer das histórias aqui presentes

apenas relatos. Resistir. Como diz o dicionário: não ceder

ao choque de outro corpo; opor força à força, defender-se.

Essa edição é expressão. É saída do armário. É romper com

os estereótipos e permanecer forte na luta por um mundo com

mais igualdade e respeito. A Curinga é resistência!

Ana Clara Oliveira e Marília Ferreira

Cartas do Leitor

Para comentar as matérias ou sugerir

pautas para a nossa próxima edição, envie

e-mail para: revistacuringa@icsa.ufop.br


EU

NO

MUNDO


Identidade

Amor

(entre)

divas

Texto: Douglas Gomes

Foto: Débora Spanhol/Divulgação

Arte: Júlia Pinheiro


Paetês.

Brocados.

Cristais.

Saltos altíssimos.

Brilho.

Cor.

Laquê.

Glamour em sua expressão mais icônica.

Poder de um arco-íris de luxo.

Sempre impecáveis, seja na performance, seja na

indumentária, divas são sempre divas! Esse substantivo

feminino refere-se não apenas às divindades

mitológicas; também fala de “deusas” dos palcos, telas,

revistas e passarelas. E quando duas divas se encontram, o

que acontece? Overdose de clicks e flashes? Sim. Mas, nesse

caso, o resultado é um casal de drag queens.

Isso mesmo: não apenas um par, mas um casal.

Há 12 anos, se conheceram em Curitiba,

capital do Paraná. Vinicius Lavezzo, make

up artist e Thiago Vilas Boas, hair stylist. Há 11,

formam a dupla de drag queens “As Deendjers”.

Tiveram seu nome inspirado na atriz Ginger Rogers,

que flutuava no sapateado ao lado do astro

Fred Asteire em musicais clássicos de Hollywood.

Vinicius, a “Deendjer V” é de Astorga, interior

do Paraná. Thiago, a “Deendjer T” é de Piranguinho,

interior de Minas Gerais. A noite gay curitibana

era o ponto de encontro desde o início do

namoro. Fizeram amizade com agentes desse meio

e, influenciados por algumas drag queens famosas

da cidade como Brigitte Beaulieu, estrearam suas

próprias personagens exatamente um ano depois,

na Parada do Orgulho LGBT’s da cidade.

Além do amor que une o casal há mais de uma

década, os dois rapazes têm em comum a paixão

pelas artes e pelo mundo glamouroso das divas

hollywoodianas da Era do Ouro. Neste período,

entre as décadas de 1930 e 1940 o cinema norteamericano

produziu clássicos de estilo, atrizes que

representavam o que havia de mais feminino, luxuoso

e digno de ser copiado na época.

Nessa última década, Vinicius e Thiago têm-se

dedicado a “se montar” e se apresentam por boates

pelo país e paradas do orgulho LGBT’s. A primeira

vez em que as Deendjers ganharam vida foi

em uma parada da capital paranaense e, desde então,

têm conquistado uma legião de fãs. Com mais

de 21 mil seguidores em seu perfil no Instagram

(@deendjers) e 17 mil na página do Facebook (facebook.com/as.deendjers),

os fãs das Deendjers

aclamam e acompanham a carreira de suas musas

e verdadeiras rainhas. Viagens, shows, escolha e

criação de figurinos, tudo registrado pelo casal que

compartilha um pouco de sua intimidade e, além

da admiração, serve de inspiração para seus fãs.

CURINGA | EDIÇÃO 15 7


NO PAIN, NO QUEEN

Desde o início da trajetória, muitas companheiras de “montação”

das Deendjers desapareceram da cena drag, atribuindo a

dificuldade à renovação e lutas constantes. O trabalho envolvido

na concepção de uma drag queen requer dedicação e reinvenção

a cada aparição ao público. Artesãs de várias habilidades,

elas confeccionam pessoalmente todos os figurinos com tecidos

preciosíssimos e acabamento elaborado, assim como todo

o processo. As perucas imponentes, maquiagem

exuberante e coreografias milimetricamente

ensaiadas e executadas, presentes no clipe

da música Right Now, do grupo pop estadunidense

Pussycat Dolls, dublado e

gravado pelas Deendjers são exemplo

disso. Tudo isso, a fim de exibir um

resultado “o mais perfeito possível”

quando as luzes se acendem e o show

começa.

Por trás das cortinas dessa magia

incorruptível, encontram-se artistas que

trabalham incansavelmente para realizar seus

sonhos. Vinicius se dedicou às artes cênicas, fez teatro

itinerante durante cinco anos de sua vida e tentou investir em

uma carreira, antes de encontrar com Thiago, que já fez aulas

circenses de malabares e pirofagia. Nasceram para brilhar

e através das Deendjers eles se realizaram, juntos. Dividem sua

rotina em dupla jornada entre o salão de cabeleireiro, onde

atendem por agendamento de clientes. É comum irem para

casa nos intervalos do trabalho para costurar os vestidos das

apresentações, que acontecem geralmente em fins de semana

que não estão maquiando alguma noiva, por exemplo.

Outras drag queens do mundo pop contemporâneo também

estão presentes na carreira das Deendjers, inspirando-as. Da

paixão pelo cinema hollywoodiano, têm Carmen Miranda, Rita

Hayworth, Liz Taylor e Jean Harlow como divas inspiradoras.

Porém, a musa das musas das Deendjers é a atriz Marilyn Monroe,

nascida Norma Jeane Mortenson, que despontou como um

dos ícones eternos de estilo e feminilidade.

Polêmicas à parte, os cabelos loiros laqueados, batom vermelho,

vestidos justos-justíssimos e a pinta no canto da boca

são marcas icônicas de Monroe. São essas referências que o casal

evidencia em suas personagens. No começo deste ano, realizaram

o sonho de visitar Los Angeles: estiveram na calçada

da fama e no túmulo de Marilyn, onde prestaram homenagens

e reverenciaram a diva-musa-inspiradora. Vinícius coleciona,

desde criança, lembranças que remetem a atriz. Nessa mistura,

ainda há espaço para as princesas da Disney e seu mundo mágico.

Essa é a expressão das Deendjers: a divindade do glamour

e da feminilidade.

TIME TO BE FREE!

Conhecidos pela aparência exagerada

e o porte imponente, as drag queens

surgiram como um movimento urbano

e tem conquistado cada vez mais

espaço e reconhecimento. São uma

representação caricata do feminino,

em seu expoente mais exuberante e expandido.

Elas usam de alegorias com fins

artísticos para criação e sua definição não é

associada a orientação sexual ou de gênero, e, sim,

pelo seu trabalho artístico como personagem. As drags se

apresentam não apenas em festas de boates LGBT’s, mas em

festas particulares.

Desde 2009, o reality show exibido na tv norteamericana

RuPaul’s Drag Race, apresentado pela drag RuPaul é sucesso de

audiência. Com participantes de diversos tipos físicos, gêneros

e orientações sexuais, o reality tem sido um espaço de visibilidade,

não apenas para o backstage da vida das artistas drag queens,

mas para reflexão de questões sociais que envolvem preconceitos

sobre sexualidade e gênero. É um sonho das Deendjers

participar do programa e mostrar seu trabalho para o mundo.

Qualidade e perseverança não faltam a elas! No Brasil, seguindo

moldes parecidos, o reality show “Academia de Drags”, disponível

no Youtube e apresentado pela veterana e ícone da cena

drag brasileira, Silvetty Montilla, também é um sucesso. As

Deendjers acreditam na imponência desses espaços, pois dão

reconhecimento ao caráter artístico das legítimas perfomers que

são as drag queens.


Quando a opressão vira arte

No auge da ditadura militar, o regime censurou

e oprimiu a classe artística. O teatro era um dos meios de expressão

impedidos de ganhar força. Com toda pressão sofrida,

os artistas da época tentavam buscar formas de expor sua

arte. Então, surgiu a ideia do Teatro do Oprimido: a oportunidade

de representar, nos palcos, as vivências do dia a dia.

Um dos atores da época, Augusto Boal foi destaque da luta pelo

teatro através dos textos emblemáticos que produzia; e por isso partiu

para o exílio, em 1969. Quando voltou ao país, criou o Teatro do

Oprimido (TO). Em 1986, surgiu o Centro do Teatro do Oprimido

(CTO), no Rio de Janeiro.

O TO é a forma de expressão das camadas oprimidas da população,

que pressupõe valorizar a resistência dessa classe. A proposta

é que as próprias pessoas levem suas histórias de problemas e situações

que viveram, mas não conseguiram resolver. Assim, através das

encenações do Teatro do Oprimido, elas podem buscar alternativas

pra modificar essa relação e tornam-se protagonistas de suas próprias

vidas. O grande diferencial do TO é a participação da plateia,

entrando em cena para resolver a questão proposta pelos atores.

Na Maré

Em 2015, o CTO está com novo projeto no complexo de favelas

da Maré, zona norte do Rio de Janeiro. A área tem cerca de 130 mil

moradores e uma das piores rendas per capita da cidade, com baixíssimos

indicadores de desenvolvimento humano. Geo Britto, coordenador

político-artistico do CTO acredita que o local tem uma grande

história de resistência, coincidindo com as atenções e interesses do

TO. “São pessoas que saíram de várias regiões do Brasil e lutam para

montar uma casa própria”, conta.

“A ideia do CTO na Maré é potencializar uma rede de parceiros

para construir políticas públicas em prol da juventude, a fim de auxiliar

na superação das dificuldades de se viver numa comunidade”,

explica Geo. Os jovens participantes tem a oportunidade de transmitir

nas peças, situações de opressão como, por exemplo, o preconceito

no mercado de trabalho com moradores de comunidades pobres, o

machismo, a questão de gênero, a violência sexual dentro de casa.

Habitar

TexTO: DAnielle CAMpez

FOTO: peDrO MAgAlhães

ArTe: elis reginA

CURINGA | EDIÇÃO 15 9


Sensação

Livre Resistência

TexTO: KATiusCA DeMenTinO

FOTO: eDuArDO MOreirA

ArTe: FrAn vilAs bOAss

“Eu sou um nômade.” Assim se autodenomina

Newton. Quinze minutos de trilha dentro de uma área de preservação

ambiental, sem mapas ou placas, chega-se ao lugar

no qual ele habita. Newton possui uma habitação e não uma

moradia. Essa distinção é muito importante para compreender

seu estilo de vida, pois, quem reside possui vínculos administrativos

com a sociedade. Contas à pagar, serviços à cumprir,

normas à respeitar, além de uma série de outras convenções

sociais. Newton não tem endereço, inscrição cadastral, contrato

de locação, escritura. Seu nome não está na lista telefônica, seu

perfil não está no Facebook, e seu currículo não está no Linkedin.

Em cima de uma pedra, está sua cabana, construída por ele

mesmo, a quarta desde que chegou em Ouro Preto. Dentro, a

falta de mobília, roupas e utensílios abre espaço para os livros,

os minerais, e algumas plantas. Fora, a mata é seu quintal;

sua horta, seu galinheiro; sua terra, suas plantas. Assim vive

Newton, resistente aos meios tecnológicos e ao sistema que ele

considera antiquado e opressor. Por mais que seja praticamente

invisível nas redes sociais, e viva mato a dentro, ele mantem

sua relação com as pessoas da cidade e participa das atividades

sociais comuns a todos os cidadãos.

Das coisas que cultiva, uma parte é para sua alimentação, e

outra parte é para sua fonte de renda. O que é plantado, utiliza

para o seu próprio bem-estar; e o que sobra, ele vende para

pessoas conhecidas. Com o dinheiro arrecadado, Newton ajuda

algumas pessoas da região que sofrem vulnerabilidade social;

compra alguns alimentos mais difíceis de produzir, como arroz,

feijão e café, além de guardar uma parte desse valor para um

tratamento dentário que necessita.

Comportamento partilhado

Como Newton, existem outras pessoas, grupos, e comunidades

que mantem um estilo de vida diferenciado, no qual outros

valores e costumes são agregados aos seus cotidianos, como é o

caso da comunidade Temple Source em Cunha, São Paulo. Neste

local, as pessoas pregam o altruísmo e o amor ao próximo. Deixaram

pra trás suas rotinas, seus trabalhos, suas famílias para

se dedicarem à evolução espiritual. Segundo “Chris”, morador

do Temple Source, esse mundo no qual estamos adaptados é uma

virtualidade. Para ele, as sensações verdadeiramente reais estão

dentro de cada um, e podemos exercer o domínio de filtrar o

que é bom ou ruim.

Na comunidade Temple Source vivem pessoas de diversas

partes do mundo, quase uma Torre de Babel, repleta de idiomas.

Ainda assim, a comunicação acontece de maneira fluida e


eficaz. Diferente de Newton, eles utilizam as redes sociais para

propagar o que consideram relevante na vida, como as diretrizes

do livro “Curso dos Milagres” e a ideologia de persistir no

amor ou persist love, como é conhecida mundialmente. Apesar

de terem acesso à internet, utilizarem serviços bancários e possuírem

um endereço, também são nômades. Estão sempre em

fluxo, seja de lugares ou de ideias. Muitas pessoas, inclusive, já

extinguiram seu nome de registro e adotaram outro que, segundo

eles, condiz mais com essa nova etapa de vida e “evolução”.

Tanto Newton quanto as pessoas do Temple Source se relacionam

de maneira muito harmônica com a natureza, não apenas

na relação de plantio e cultivo de alimentos e plantas medicinais,

mas também, na forma como os bens de consumo são

utilizados, descartados e/ou reciclados, além das construções

serem ecologicamente sustentáveis. Resistência, liberdade e

ideologia se confundem nesses estilos de vida, pois são diversas

forças que influenciam nas tomadas de decisões das pessoas e

na forma como elas enxergam a sociedade. No caso de Newton,

a influencia para o nomadismo começou cedo e se estendeu à

vida adulta. Órfão de pai e de mãe, ele foi criado pela madrinha

em torno de uma grande vulnerabilidade social, e já adolescente

seguia a vida de maneira independente.

Há quem diga que é loucura abdicar-se de hábitos que proporcionam

nosso conforto. Mas o que é conforto para uns, não é

conforto para outros, porque o bem-estar é algo muito particular.

Ao ser questionado se é um resistente, Newton afirma que

sempre considerou seu comportamento como um movimento

próprio da sua individualidade. Acredita que o afastamento

territorial proporciona uma mente mais livre para obter as reflexões

que considera necessárias à sua sanidade: “eu enxergo

a sociedade como um corpo social. Sendo um corpo social e fazendo

parte dessa espécie, eu sou atuante, dentro ou fora. Eu

estou dentro para as questões relevantes, mas estou fora para as

questões superficiais”.

CURINGA | EDIÇÃO 15 11


Sensação

Resistir não é

remediar

Medicina tradicional ou alternativa? A escolha por diferentes

tratamentos significa mais que a busca pela cura do corpo.

G

Texto: Samuel Perpéuo

Foto: Alessandra Alves

Arte: Charles Santos


O abuso de remédios tarja preta,

além de causar dependência pode desencadear

outras doenças. Primeiro começa com

um antidepressivo, que causa problemas na

pressão. Da pressão o medicamento acelera o

coração. Do coração o diabetes, e quando se

percebe, a pessoa está consumido mais de 20

tipos de medicamentos, diariamente. Em comprimidos

e capsulas, parece existir uma solução

na dose exata para cada problema da vida.

Segundo a Organização das Nações Unidas

(ONU), o Brasil está entre os três maiores consumidores

de remédio controlado do mundo,

junto com os Estados Unidos e Argentina. O uso

de medicamentos tarja preta disparou nas últimas

décadas. Karen Rafaela Santos, psicóloga do

CAPS em Mariana, revela que um dos grandes

desafios do profissional, atualmente, é diagnosticar

e diferenciar o sofrimento da depressão.

As pessoas não encaram mais adversidades

humanas como tristeza, medo e sofrimento.

“Nosso desafio é entender que as pessoas podem

sofrer. Hoje em dia a gente vive em uma sociedade

em que as pessoas não podem mais sofrer, não

podem mais chorar, não podem mais entristecer.

Quando se entristecem e choram é depressão,

precisam de remédio. O que esse remédio vai calar?

Algumas coisas precisam aparecer”, afirma

Karen.

A procura de uma saída rápida para um problema

que deveria ser encarado e não mascarado

com medicações, vem aumentando cada vez

mais o abuso de remédios, o que Karen chama de

“Medicação da Vida”.

que o sintomas que eles tratam. Tomar um chá de

boldo, por exemplo, cura bem mais sua ressaca

do que um Engov. Quando você toma uma remédio

pra queimação no estômago, o remédio pode

afetar seu fígado e assim por diante”.

Outra medicina alternativa de grande adesão

é a homeopatia. A homeopatia surgiu há pouco

mais de 200 anos com os estudos do médico

alemão Samuel Hahnemann. Considera doença

como o desequilíbrio da energia vital. Diferente

da alopatia, que é conhecida como medicina tradicional

e busca tratar os sintomas das doenças,

a homeopatia não busca combater ou anular sintomas,

mas sim compreender o seu significado

e importância de medicar o paciente no sentido

total da sua recuperação, fazer com que a força

vital volte ao seu equilíbrio.

Em Mariana, a farmacêutica homeopata

Gishia de Fátima Horta Moreira trabalha com

essa medicina há mais de cinco anos. “Cansados

dos tratamentos tradicionais, alguns pacientes

procuram outra forma para tratar a sua doença”,

comentou. Ela acredita que apesar da medicina

tradicional ainda ser a primeira opção da maioria,

a procura pela homeopatia tem aumentado.

Segundo a farmacêutica, uma boa parte das pessoas

que vão ao médico alopata se queixam de

não ser bem atendidas. Com isso, cria-se um mal

estar para o paciente e ele procura outras alter-

nativas de tratamento. “No meu ponto de vista,

a medicina tradicional é mecanizada e as medicinas

alternativas e a homeopatia são humanizadas”,

afirma. De qualquer forma, procurar um

profissional antes de iniciar qualquer tratamento

é sempre a melhor opção.

Existem outras alternativas?

Por outro lado, as terapias não convencionais

estão se tornando cada vez mais populares entre

um grupo de pessoas. Deles destaca-se duas populares

que são a fitoterapia e a homeopatia.

A fitoterapia acredita na “cura através das

plantas”. Surgiu na medicina chinesa e é um

conhecimento que muitas pessoas usam mesmo

que desconheçam seu poder curativo, mas que

foram passados de geração em geração.

Um dos adeptos dessa medicina, o estudante

de Pedagogia Edson Vinício de Oliveira Soares,

só utiliza a medicina tradicional em casos graves

onde não resta outro recurso. “Eu nasci na roça

e tomava chá quase todos os dias. Os efeitos colaterais

dos remédios tradicionais são bem piores

CURINGA | EDIÇÃO 15 13


Identidade

Religião

para todos

A historiadora Sidnéia dos Santos, 39, conta detalhes sobre a existência

de quatro gerações de escravos que tiveram seus cantos e ritos

perdidos, na hoje chamada Região dos Inconfidentes. Os negros que

trabalhavam na extração do ouro, em Ouro Preto, eram trazidos de

uma região da África conhecida como Costa da Mina, que atualmente

abrange Gana, Togo, Benim, Nigéria e parte da Angola. Os reinos

que pertenciam a região possuíam mais de 1.500 dialetos diferentes.

Eram estrangeiros entre si, tentando se reorganizar socialmente, além

de proibidos de praticarem suas crenças.

Uma das poucas formas de culto permitidas na colônia acontecia

através das irmandades de negros, como a do Rosário, de Santa Efigênia,

de Santo Elesbão, São Raimundo e de São Benedito. Assim nasceu

o sincretismo, em que divindades africanas se tornavam santos católicos

aos domingos, único dia da semana em que o escravo podia ir à

missa e também trabalhar por conta própria, para subsidiar a existência

da irmandade.

Hoje, as religiões de origem africana resistem em terreiros espalhados

pela cidade, que é famosa por suas igrejas centenárias.


Um dia no terreiro

Na descida da Igreja Matriz de Nossa Senhora

do Pilar até as proximidades da Estação Ferroviária de Ouro

Preto está localizado o Centro Sete Poderes. São cinco da tarde

de uma segunda-feira e junto com um fotógrafo da Revista

Curinga estou indo, pela primeira vez, a um centro de Umbanda.

Sou recebida por Seu Zequinha, 61, aposentado, pai

de dois filhos, que reserva boa parte do tempo como diretor

do centro instalado em sua própria casa e que abre as portas

toda segunda e quarta-feira. Pouco a pouco pessoas chegam

para o atendimento com os médiuns. São eles que incorporam

as entidades que irão dar conselhos aos que estão ali.

Com a casa já cheia, me sento com Zequinha. Para ele, a

principal dificuldade no entendimento social da religião de

matriz afro-brasileira é que poucos médiuns divulgam a doutrina

de forma mais aberta. Quando falamos em Ouro Preto o

problema se agrava: praticar umbanda em uma cidade muito

católica pode trazer riscos.

Em outro espaço do centro, sentado enrolando fumo, está

um médium que nos fala um pouco mais sobre as peculiaridades

da umbanda. Mesmo sendo kardecista fico um pouco

nervosa com a ideia, pois não sei muito bem o que perguntar

ou como devo me portar diante da entidade. O médium,

enquanto fuma, explica que as ervas usadas nos rituais são

geralmente conseguidas em matas próximas ao centro. Ao fim

da conversa, ganho um rosário e um preparo para banho. O

Texto: Adrean Larisse Nunes

Fotos: Aprígio Vilanova e Edione Abreu

Arte: Laís Diniz

A fala de Pai Jacó me faz perceber o quanto a umbanda

está sincretizada com o catolicismo, uma herança de quando

os escravos não podiam cultuar os deuses africanos de forma

livre em terras brasileiras. Depois disso procuro saber mais

sobre como essa religião e outras de matrizes africanas foram

abafadas pela coroa portuguesa.

Do meu mergulho em religiões que antes, por medo ou

preconceito, nunca tive coragem de saber mais, ficou só uma

certeza: assim como Pai Jacó revelou, o que é preservado é o

amor, que mesmo sincretizando Ogum em São Jorge, Iansã

em Santa Bárbara e Oxalá em Jesus, é o mesmo que se busca

em qualquer outra crença. Voltei para casa acreditando mais

no respeito a outros credos. Como disse Pai Jacó, o que deve

prevalecer é o amor ao próximo, seja ele da umbanda, do

candomblé, catolicismo ou qualquer outra doutrina. Afinal,

de axé e amor todo mundo precisa.

A religião verdadeira cada um de vocês carrega

em seu coração. É através do amor, da

fraternidade um com o outro. Fui descrente.

Hoje estou na verdadeira fé. A fé não está

escrita em nenhum livro. A fé está dentro de vocês.

Pai Jacó da Jaula

rosário é emprestado, para que eu volte. Pouco depois sou

levada ao Preto Velho, conhecido como Pai Jacó da Jaula. É

ele quem começa a falar.

Pai Jacó diz que veio de um mundo espiritual que muitos

chamam de Aruanda. Segundo ele, na existência carnal foi

trazido da Guiné em um navio quando criança e começou

a trabalhar como escravo em uma fazenda de café. Diz que

aceitou a condição de escravo “para aprender a necessidade

dos filhos”, sendo que, em outra vida havia os rejeitado.

Ele então vê o rosário em meu pescoço e pergunta se eu o

ganhei, assim como o banho de ervas. Quando respondo que

sim, que o banho irá me ajudar com problemas de saúde, Pai

Jacó diz que “pode ver de nada que tá com medo de tudo”,

fazendo menção a uma gastrite nervosa para a qual o banho

irá servir.

CURINGA | EDIÇÃO 15

15


Identidade

Foto: Bruno Arita e Eduardo Moreira


Arte: Edmar Borges CURINGA | EDIÇÃO 15 17


CURINGA | EDIÇÃO 15 19


TRAVESSIA


Corpos ditos

e sentidos


TexTO: leTíCiA AFOnsO

FOTO: KAiO bArreTO

ArTe: nATAne generOsO

Limitar um corpo é impor que suas emoções, gestos, palavras,

sejam enquadrados em padrões de comportamento.

Cerceada a liberdade, delimitadas as regras que oprimem...

Ao corpo feminino foram atribuídas diversas características

que restringiram e ainda restringem suas escolhas. Opressões

que vêm disfarçadas em atos cotidianos. Assim, libertar

os corpos é justo e necessário... Resistir às opressões, experimentar

o mundo, expressar os afetos. Há quem faça isso!

CURINGA | EDIÇÃO 15 23


Ao olhar para cada indivíduo notamos algo diferente. Isso

porque o corpo carrega classificações sociais. Por exemplo: Este

corpo é de uma mulher ou de um homem; Este corpo de mulher

tem a pele negra; Este corpo veste roupas femininas. Portamos

rótulos para que sejamos identificadas e aceitas por todas as

outras pessoas. De acordo com a historiadora Guacira Lopes

Louro, professora da Universidade Federal do Rio Grande do

Sul (UFRGS), as pessoas são percebidas por sua aparência, que

é “algo que se apresenta ou que se representa. Vê-se o que se

mostra, o que aparece; e ao que se vê se atribui significados.

Pele, pêlos, seios, olhos são significados culturalmente”.

Uma das formas de classificar e rotular o ser humano é o gênero,

construído e mantido pelas pessoas organizadas em instituições.

Na maioria das sociedades, os corpos são diferenciados

como feminino ou masculino, e é comum vê-los reduzido ao

determinismo biológico, uma delimitação pautada nas verdades

aparentes de um corpo. Nesse processo, as características

culturais da humanidade são reduzidas à fisiologia em detrimento

da cultura.

Os rótulos dados às pessoas evidenciam os modos aceitáveis

de serem percebidas. Em tal processo, por vezes, a imagem

exterior do corpo torna-se justificativa para as limitações

do indivíduo ante a sociedade, e assim, é necessário resistir a

alguma situação de opressão no cotidiano. As lutas travadas

pelo feminismo em busca da igualdade de gênero advêm desse

processo. Questionam os lugares subalternos reservados para o

feminino na sociedade, impostos, historicamente, pela autoridade

e prestígio social atribuídos à figura do patriarca. Conforme

os ideais de gênero pautados no patriarcalismo presente em

diversas culturas, as mulheres não poderiam atuar dentro de

esferas sociais, como instituições de ensino, políticas, jurídicas,

econômicas e religiosas. Nesse viés, cada uma dessas organizações

sociais, à sua maneira, teria um papel conformador na

identidade de todas as pessoas.

Por muito tempo, não foi aceitável que as mulheres fossem

matriculadas em instituições de ensino. Isso era uma regra, e

quem ousasse quebrá-la sofreria com as punições. O ingresso

das mulheres na educação pública no Brasil, por exemplo, se deu

apenas em 1880, com a fundação da Escola Normal no Rio de Janeiro.

Apesar disso, o conhecimento passado ao ser feminino era

censurado. Somente homens aprendiam matemática e física, e

tinham acesso às leis conformadoras da sociedade. A prioridade

na educação para mulheres era ensiná-las a portar-se diante das

outras pessoas, e principalmente do seu companheiro.

De acordo com Josenia Antunes Vieira, professora aposentada

da Universidade de Brasília (UnB), a identidade feminina

abriga experiências particulares, emoções e vivências culturais,

pelo fato estar sujeita aos discursos restritivos em momentos

históricos específicos. Em artigo de 2005, a professora afirma:

“determinados comportamentos discursivos comuns à cultura

masculina são proibidos à feminina e vice-versa. No universo

das mulheres, pela construção social a que está sujeita a linguagem,

geralmente são interditadas certas palavras relativas

ao sexo e às partes sexuais”. A educação seria um dos fatores

que contribuiria para a exigência e o exercício de direitos civis,

sociais, econômicos e políticos. Para garantir espaços sociais, é

necessário conhecer e ter acesso às possibilidades de atuação

diante dos outros indivíduos. O conhecimento, atrelado a ideais

políticos e comportamentos questionadores, foi importante elemento

para a busca da liberdade corporal e mental da mulher

ao longo da história.

Autonomia sexual

O corpo não deve ser desassociado da mente, pois ambos

coexistem e são afetados pelo estar no mundo. A sexualidade,

tal qual o gênero, está atrelada a ambos e pode ser pensada em

termos psicológicos, biológicos, e culturais, uma construção do

convívio social. É também uma maneira de experimentar o que

nos afeta. Quando a identidade sexual dos indivíduos é limitada

por padrões repressivos, pode haver culpabilidade ao ato

sexual, gerando traumas psicológicos e comportamentais. Esse

processo é usual, pois a sexualidade foi e ainda é rigidamente

controlada por normas corretas de conduta.

Há papéis sexuais atribuídos a cada gênero. Para as mulheres,

o prazer foi edificado como motivo de penitência, pois seu

sexo era estritamente procriativo e limitado pelo gozo do homem.

A conduta sexual feminina foi mitificada de acordo com

os padrões de gênero, e controlada por meio da culpa gerada

pela moralidade. Isso evidencia o processo de repressão sexual

comum às minorias, que não se reconhecem na binaridade de

gêneros homem/mulher, masculino/feminino.

Tendo a sexualidade praticamente anulada e pouca possibilidade

de atuação no domínio público, a mulher foi reduzida

ao âmbito doméstico. Onde deveria expressar virtudes e dons

que transpusessem a fraqueza da carne por meio da libido. Sua

função era cuidar dos afazeres domésticos e da família. Ainda

hoje, para muitas daquelas que trabalham fora, a casa e os filhos

permanecem exclusivamente sobre seus cuidados.


CURINGA | EDIÇÃO 15 25


O desejo sexual das mulheres foi inibido por processos de

repressão social. No estudo publicado em 2008 por Wânia Ribeiro

Trindade e Márcia de Assunção Ferreira, professoras da

Faculdades Integradas Espírito-Santenses (FAESA) e da Universidade

Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), baseado em entrevistas

com mulheres em um posto de saúde em Vila Velha – ES,

a ausência de desejo sexual feminino aparece relacionado “ao

esforço das mulheres na luta diária, numa tentativa de garantir

com seu trabalho a independência, sua afirmação pessoal e

profissional, mas que consequentemente repercutem negativamente

nas suas condições de saúde”. As estudiosas defendem

a existência de espaços de “discussão coletiva entre as próprias

mulheres”, para que compartilhem experiências e se percebam

na vivência uma da outra. Isso possibilitaria o reconhecimento

de diversos problemas comuns à condição feminina.

Termos de libertação

Os estudos feministas traçaram formas de resistência para

que as mulheres pudessem ocupar espaços e atuar nas instituições.

Foram desenvolvidos à partir dos movimentos sociais

femininos, como a convenção dos direitos da mulher em Nova

York em 1848. Nesse contexto, a mulher deve ser vista como

alguém que resiste às classificações limitantes de sua atuação

na esfera pública, posicionando-se como um “segmento” diante

das lutas de gênero, classe social, etnia, dentre outras. A partir

desses estudos, pautas acerca da vivência feminina vêm sendo

levantadas nos últimos anos. E diversos elementos formadores

de sua identidade estão presentes no processo de elaboração de

pesquisas e debates.

A partir da segunda metade do séc. XX passou-se a considerar

a inclusão da mulher no mercado de trabalho, o papel dos

meios de comunicação na formação identitária da mulher, as

discussões acerca do aborto, a abertura de espaços para discutir

gênero e sexualidade nas instituições de ensino, dentre outras.

Passou-se a considerar também sua representatividade nas

áreas de produção do conhecimento da humanidade. Agora a

mulher também tem a possibilidade de se expressar por meio de

livros, como a escritora Adélia Prado, artigos científicos como a

estudiosa Simone de Beauvoir, músicas como a cantora “Cris”

do extinto grupo de rap SNJ, filmes como a cineasta Anna

Muylaert. Todas, a sua maneira, empoderam e libertam a figura

feminina de estereótipos limitante.

Eu mesma, a outra mulher

Ao final desse texto, conto um pouco da minha história e

trago com ela o pulso da minha intimidade. Carrego significados

em meu corpo, sou indivíduo. Me porto diante da sociedade

de acordo com normas compartilhadas. Me reconheço como

mulher e, para mim, foi simples a adaptação de alguns padrões

de sexualidade. Quando menina, não me perguntava acerca das

normas sociais que poderiam cercear minha capacidade de expressão.

Mesmo assim, em algum momento de minha história,

quis ocupar espaços predominantemente masculinos. Presumia,

então, que o melhor seria suprimir características de minha

construção identitária como mulher. Me machuquei, mas

ainda obtive vantagens na corrida para ocupar espaços na sociedade.

Tive acesso ao ensino, saúde, e não precisei resistir às

opressões étnicas e sociais.

Alguns de nós possuímos meios para se desviar das opressões

colocadas no cotidiano. Mas a quem oprimimos, mesmo

sem perceber, para que pudéssemos manter nosso conforto e

modo de vida?


O

MUNDO

EM

MIM


Sensação

Ladainha da

persistência

“Que Navio é esse, é o navio negreiro, aqui chegando não

perderam sua fé”. É através de cânticos como esta ladainha ,

escrita pelo mestre Camisa, que os capoeiristas retratam histórias.


A mochila está nas costas e o

berimbau permanece entre os dedos. É

possível perceber algumas pessoas vestindo

calça branca e segurando instrumentos

como pandeiro e agogô. O cenário é o

da ação do grupo Oxalufã, que pratica a

capoeira, na praça Gomes Freire, em Mariana,

Minas Gerais. O som do gunga indica

que a rodada de gingado irá começar

a qualquer momento. Progressivamente

dezenas de pessoas vão se rendendo ao

encanto da melodia e formando uma

roda de espectadores em volta do grupo.

O professor Damião Cosmi Leonel, 54

anos, lembra que antes de ser aplaudido

e elogiado pelas pessoas por causa do trabalho

que desenvolve na capoeira, já sofreu

repressão social e racial. Relata, ainda,

que em determinadas instâncias foi

até perseguido pela polícia por conta da

dedicação ao ofício. Para ele, muitos indivíduos

ainda persistem em não aceitar a

capoeira como uma prática cultural, livre

dos preconceitos e da marginalidade.

Ser capoeirista

A capoeira surgiu no século XVI. Segundo

o pesquisador Matthias Röhring

Assunção, que leciona história na University

of Essex, ela originou-se na África

e veio para o Brasil através dos navios

negreiros. Baseada em tradicionais danças

e ritmos africanos, a capoeira é uma

mistura de esporte, luta e brincadeiras.

Ela pode dividir-se em duas vertentes. A

primeira é a capoeira Angola, cujo o estilo

se aproxima de suas raízes e a principal

característica são os movimentos lentos.

O segundo segmento é caracterizado pela

capoeira Regional, que incorpora golpes

contemporâneos, acompanhados por movimentos

rápidos.

O mestre Aloísio Augusto, de 43 anos,

trabalha como professor de capoeira há

mais de 30 anos. Ele conta que se encantou

pelo gingado quando ainda era

criança, “desde pequeno eu gostava de

observar a roda de capoeira, não demorei

muito para começar a praticar e logo

em seguida tive a certeza que era isto que

gostaria de fazer”, lembra. Aloísio explica

que a capoeira é um oficio sério e para se

tornar mestre as pessoas devem se dedicar.

Como o mestre Damião, Aloísio ressalta

que ainda há resistência das pessoas

em acolher a capoeira como profissão:

“muitos nem sabem do percurso que caminhamos

e acabam fazendo interpretações

erradas sobre nós”.

Conflitos e perspectivas

A capoeirista Mara Silva, 38 anos, frequenta

o grupo Oxalufã há cerca de dois

meses. Para ela ainda há persistência da

sociedade em não concordar que mulheres

também podem praticar a capoeira,

por ser uma manifestação artística que

utiliza movimentos de luta. Mara completa

dizendo que “a capoeira ainda é mal

interpretada pela sociedade. As pessoas

só conhecem superficialmente, elas precisam

entender a verdadeira filosofia que

propagamos. Muitos acham que a roda é

um ambiente perigoso para as mulheres”.

O mestre Damião relembra as dificuldades

que sofreu quando chegou em

Mariana para trabalhar como capoeirista.

Segundo ele, houve muita dificuldade em

aceitar a capoeira como uma modalidade

de arte. A polícia foi uma das principais

repressoras, muitos diziam que “nós estávamos

trazendo a marginalidade para

o município”, relata. O mestre Damião

ainda enfatiza que muitas pessoas não

aprovam a capoeira por não conseguirem

distinguir da religião.

A capoeira vai além do que uma simples

atividade física. Ela é um dos componentes

que definem a identidade brasileira.

No dia 26 de novembro de 2014,

a Organização das Nações Unidas para

Educação, Ciência e Cultura (UNESCO),

reconheceu a capoeira como Patrimônio

Imaterial da Humanidade. Isso reforça a

importância desta arte para a sociedade.

Mesmo diante de todas as dificuldades

e resistência, o jovem capoeirista de 21

anos, Denis Patrick Vieira, enxerga o futuro

da capoeira com otimismo. Segundo

ele, a globalização e o fácil acesso da informação

está ajudando as pessoas a entenderem

o verdadeiro sentido desta arte:

“os valores culturais não estão ligados

especificamente na performance do gingado,

eles estão incorporados na música,

nos trajes, nos instrumentos e no comportamento.”

TexTO : MATheus MAriTAn

FOTO: AprígiO vilAnOvA

ArTe: isÂniA silvA sAnTOs

CURINGA | EDIÇÃO 15

29


Identidade

Ocupe-se,

pois

ocupa-se

texto: Raquel Satto

Foto: Lucimara Leandro

Arte: Débora Simòes


Wall Street, Rosa Leão, Flaskô, Mercado

Sul, Ufop. Ocupa-se. Seja contra um sistema

econômico ou a especulação que empurra

a população para fora de suas casas,

ocupar é reivindicar direitos e também a

solução para a falta de um deles. Existem

ocupações de fábricas falidas, realizadas

por operários que são gestores e ressignificam

relações trabalhistas, ocupações de

caráter colaborativo artístico, que se engajam

questionando a função social de construções

e o direito à cidade...

Occupy, 17 de setembro de 2011. Wall

Street como cenário de críticas ao capitalismo

financeiro. Com o slogan “Nós somos

os 99%” - a população maior em número e

menor em poder monetário - o movimento

ocupou um lugar simbólico para o sistema

que viveu profunda crise. Suas influências

foram a Geração à Rasca e o Movimento

dos Indignados; que por sua vez bebeu da

fonte da Primavera Árabe e de movimentos

que derrubaram governos na Tunísia

e Egito. Depois de Wall Street, o Occupy

se alastrou do México ao Nepal. Com suas

particularidades mas semelhantes na mudança.

Segundo Felipe de Oliveira, jornalista e

doutorando em Ciências da Comunicação,

os movimentos de ocupação global “são

novas formas de intervenção na esfera

pública, antes mesmo de se constituírem

como movimentos sociais na plena acepção

da definição”. Além disso, as ações

contemporâneas constituem “uma proposta

de nova esquerda mundial, com lastro

na democracia real e em princípios como

a horizontalidade para a tomada de decisões,

o que gera perplexidade nos campos

político, acadêmico e da comunicação.”

Um caso representativo da situação de

ocupações habitacionais é o da região do

Isidoro, em Belo Horizonte. Segundo publicação

no site das Brigadas Populares, as

ocupações Rosa Leão, Vitória e Esperança

sofrem perseguição por parte do Estado,

mesmo após o governador ter se comprometido

a não despejar nenhuma comunidade

sem alternativa de moradia. Assim

como em diversos casos, a grande mídia

adota o discurso governista de criminalização

dos movimentos e a falta de abertura

para se posicionarem.

Ocupações também estão presentes no

movimento estudantil. Em artigo de 2011,

“O espetáculo das ocupações: Estudantes

ou Vilões?”, Elionay Marques e Lucas Fano

explicam o significado de ocupar: “as ocupações

são uma resposta contrária às constantes

tentativas de diminuição do espaço

público e da autonomia universitária, um

ato estratégico na luta pela defesa da universidade

pública e, num sentido maior,

pela defesa da educação para todos”. É colocado

que a mídia se aproveita de casos

controversos para espetacularizá-los e não

problematizam suas raízes. Em 2015, nos

movimentos da Educação, Ocupa é recorrente

- de OcupaUFPB a OcupaUFOP - e as

reflexões de 2011 são atuais.

Cortes de 9,4 bilhões na Educação.

Ampliação nas terceirizações. Restrições

à pensão por morte e fator previdenciário.

Acesso dificultado a seguro-desemprego

e abono salarial. O cenário colocado no

início de 2015 é caótico para estudantes

e trabalhadores, a crise bateu na porta e

os movimentos respondem. Lutando, ocupando

e incomodando.

CURINGA | EDIÇÃO 15 31


Ocupando entre ladeiras: um relato.

(Ouro Preto, junho de 2015)

Café e luta são combustíveis. Assembleia e encaminhamento

penetram no vocabulário. Qualquer conversa é debate

e qualquer lugar é cama. A vivência de uma ocupação estudantil

traz reflexões sobre coletividade, seja em revindicações

ou no convívio de pessoas diferentes que se unem em prol de

um bem comum.

O movimento OcupaUfop nasceu, frente a burocracias e

apatia geral, para que pautas fossem esclarecidas e atendidas.

A “casa” respira, come e bebe política. Histórias de outrora,

PLs e MPs se misturam à conversa besta do café. Tudo faz

refletir a necessidade da política no dia-a-dia, em pequenas e

grandes coisas. Não podemos nos alienar do contexto maior,

enquanto indivíduos somos seres históricos e políticos.

Não se negocia apenas com a Reitoria, diariamente se vê

a necessidade de respeitar lugares de fala e pontos de vista.

Saber contrapor o que não é concordado e prestar atenção no

que pode ferir se tratado com desleixo. Daí, tudo é problematizado.

Urgência e política exalam da ocupação. As emoções

ficam à flor da pele, a ansiedade e o cansaço são perceptíveis.

Apesar dos desentendimentos ocasionais, é como se os ocupantes

se conhecessem há tempos e fizessem parte de uma

grande comunidade, onde se divide desde comida até toalha.

Além de discordâncias internas, existem as pressões externas,

da Universidade ou da parcela que se coloca contra o

grupo autônomo. Difícil saber qual a mais persistente. Apesar

disso, o foco é o coletivo e a defesa de uma universidade pública

de qualidade, acessível e plural. Ninguém faz ocupação

porque gosta: é um processo desgastante psicológica e fisicamente.

Mas ainda uma ferramenta válida.

Quem trabalha na reitoria se junta aos ocupantes, no café

ou ao conversarem sobre a situação delicada em que o país e

a universidade se encontram. Um apoio que se sente, cara a

cara. A maior manifestação pode ser um simples “que bom

que vocês entendem”. A troca de saberes é constante, cada

um ensina o que sabe, aprende com a outra, ajuda no que

pode. Entre cartas e manifestos, deliberações e protestos, os

trabalhos acadêmicos. O período letivo continua.

Há marcas em quem participa. Tudo é intensificado e

pensado profundamente, as concepções são reavaliadas. O

mundo externo é mais difícil de ser encarado quando há o estranhamento.

O mundo interno pode parecer uma fuga, mas

na verdade é o olho do furacão. Tudo parece estar na ordem

enquanto o frenesi reina da porta para dentro.

Na timeline, críticas e apoios, notas e fotos. Na linha do

tempo da vida que segue, aniversários comemorados, horas

de sono perdidas, laços feitos e desfeitos. Uma realidade palpável

ao alcance das mãos. Pena que são poucas as dispostas

a se colocarem na massa. Mesmo que o horizonte pareça ser

distante, as pessoas perdidas e o panorama, conturbado, ainda

há quem acredite. Pois como diria Síntese: “Não se ilhe,

sonho que se sonha junto é o maior louvor”.


Identidade

Cidade em palavras

Curinga entrevista Ferréz, autor do livro

“Os ricos também morrem”, lançado em 2015.

CURINGA | EDIÇÃO 15 33


Morador do Capão Redondo, periferia de São Paulo, Reginaldo Ferreira da Silva,

39 anos, é um escritor renomado. Com textos traduzidos em mais de seis países, Ferréz como é conhecido,

traz em suas obras um olhar mais próximo da realidade das favelas. Mostra de forma simples e verossímil

que o morro tem muito mais para contar do que só as mortes e os problemas exibidos pela grande mídias.

Ferréz é lembrado também por ser um dos fundadores da “Literatura Marginal”, gênero no qual os

textos refletem a realidade e o cotidiano das periferias. Ele e outros autores utilizam-se do estilo para

permitir que a voz das favelas seja ouvida e que estas pessoas possam ser vistas de uma nova forma.

Fazem da literatura um dispositivo de resistência, contra uma realidade mascarada e distorcida.

Curinga: Como o livro e a leitura influenciaram sua

vida?

Ferréz: Em tudo, aos 12 anos li meu primeiro livro e

comecei a ter uma visão de mundo, fora que desde que li

meu primeiro gibi quando tinha 7 anos, que sempre me

diverti muito lendo.

C: Quais livros e autores te inspiraram?

F: Hermann Hesse, Plínio Marcos, João Antônio, e

hoje tem muitos outros, como Marcelino Freire, Lourenço

Mutarelli.

C: Quando surgiu a ideia de escrever sobre/para a periferia?

F: Foi no primeiro livro oficial, o Capão Pecado, que

ficou pronto em 2000, nele pude abranger esse lado, que

muita gente não queria falar sobre isso, foi uma coisa natural,

me senti mais a vontade falando sobre o universo

que eu conhecia.

C: Como se desenvolve seu trabalho na periferia? E

como as pessoas se envolvem com o movimento?

F: Começou numa crença, eu acreditava que as pessoas

tinham que ter acesso a esse mundo que eu estava

entrando, o da leitura, e fui organizando pequenos eventos

onde lia meus poemas, falava da maravilha de se ler,

foi natural querer passar isso para frente, então eu pedia

para falar em eventos políticos, em shows de hip-hop e

assim fui sendo conhecido como o escritor da periferia.

C: Como é pra você ver seus textos traduzidos em vários

países e saber que a voz da periferia está sendo representada

e conhecida?

F: É uma coisa que trago com muito orgulho, mas

também com responsabilidade, saber falar em plural em

vez de ter uma opinião fechada, saber representar essas

pessoas que as vezes não se veem bem representadas por

onde passam os meios de comunicação.

C: Quando você escreve para as crianças, como deseja

entrar na cabeça delas? Com que tipo de informação?

F: Tento falar de assuntos que geralmente não são

abordados, os livros infantis geralmente não abordam

nada real, e quando fazem creio que eles menosprezam

o saber da criança, então trago temas que geralmente são

desconfortantes, mas necessários. Sempre penso que ao

terminar o livro ela tenha que ter aprendido algo.

C: É mais fácil instigar uma criança ou um adulto a

ler? Como uma geração de leitores pode melhorar o senso

crítico da população?


F: Mais fácil é criança mesmo, adulto é teimoso, tem

pensamentos já concretos, mesmo que errados. Na criança

você consegue dar a ideia de aventura, de se divertir e

aprender ao mesmo tempo. A leitura melhora e cria o senso

crítico, você toma atitudes mais pensadas, vai saber viver

com decisões que lhe fazem sofrer menos na sua vida.

C: O que é resistência pra você?

F: Ficar firme em meio a tanto caos, saber que somos

únicos e podemos sim fazer uma grande diferença

na vida do outro, se nos importamos e decidimos também

não desistir jamais.

C: Como a literatura pode ser utilizada como ferramenta

de resistência?

F: Em todos os casos, sem informação não tomamos

decisões sábias, e ai a vida nos machuca, com a leitura,

você vai saber ser resistente a uma mídia massificante,

mentirosa, estereotipada, vai saber se defender dessa

grande mentira que nos vendem.

C: Você é apresentado como um escritor da Literatura

Marginal. Qual o significado disso para você?

F: Poder falar sobre temas que são estigmas para a

população, saber que temos uma responsabilidade com

a periferia.

C: Como você se sente em poder representar a periferia

através de um olhar diferente daquele que é veiculado

nas grandes mídias?

F: Me sinto bem em não engrossar esse coro dos descontentes,

onde só se vende morte em jornais, e medo em

toda a programação ou jornal que você lê, eu não participo

disso, sou livre na minha vida.

C: A poesia pode tudo? Pode fazer revolução?

F: Sim, o amor é mais forte que a dor, e mostrar o

amor pela palavra, pela história do outro, isso é ajudar a

mudar o mundo.

Foto: Marcus Kawada /Arquivo Ferréz

Obras

Fortaleza da desilusão - 1997

Capão pecado - 2000

Manual prático do ódio - 2003

Amanhecer esmeralda - 2005

Ninguém é inocente em São Paulo - 2006

Deus foi almoçar - 2011

O pote mágico - 2012

Os ricos também morrem - 2015

Acesse: http://www.ferrez.com.br/

Texto: Cíntia Magela

Foto: Hugo Coelho

Arte: Paloma Ávila

CURINGA | EDIÇÃO 15 35


Habitar


TexTO: peDrO eWers

FOTO: rAquel esTevãO liMA

ArTe: ChArles sAnTOs

Cerco aos Coronéis

Combater o oligopólio da midia é lutar por uma

comunicação livre e plural.

A Constituição Federal Brasileira determina que

os canais de rádio e tv devem ser divididos em três sistemas

de comunicação diferentes e de forma equilibrada:

o sistema público, estatal e privado. O sistema público

abrigaria os canais sem fins lucrativos, o estatal existiria

para dar transparência e comunicar o que acontece no

governo e parlamento, já o privado seria financiado por

empresas que fazem comunicação a fim de obter lucro.

Em teoria, os canais de rádio e televisão do Brasil são

públicos e concedidos a terceiros. Devem ter a obrigação de

veicular conteúdos culturais e educativos que expressem a

pluralidade regional do país. Entretanto, são os políticos

que detêm a maioria dessas concessões, criando, historicamente,

um oligopólio da comunicação, uma estrutura

de mercado caracterizada pelo alto grau de concentração,

centralizado em um número pequeno de empresas. Segundo

o site Donos da Mídia, que reúne dados públicos e

informações sobre os conjuntos de meios da comunicação

brasileiros, os políticos com participação direta em emissoras

de rádio e TV representam 271 sócios ou diretores, que

atuam em 324 veículos. Para a ex-coordenadora da Executiva

Nacional dos Estudantes de Comunicação (ENE-

COS), Mari Buent, “a diversidade cultural, em todos os

seus aspectos, não encontra espaço nos grandes meios de

comunicação de massa, as definições do setor continuam

sendo tomadas em gabinetes, ouvindo apenas o interesse

do empresariado”.

Para tentar barrar o oligopólio da comunicação, existem

organizações independentes e sem fins lucrativos. Os

jornalistas dessas mídias trabalham de forma colaborativa.

Essas organizações lutam pela democratização da comunicação

e junto a algumas entidades como a Intervozes, Sindicados

de Jornalistas Profissionais (FENAJ) e ENECOS,

fazem linha de frente a campanha “Para expressar a liberdade”,

de 2012, que tem como objetivo retirar a concentração

das concessões públicas da comunicação das mãos de

políticos e transferir o seu controle para a sociedade civil.

Libertar a expressão

Além dos danos políticos à sociedade, a concentração de

poder midiático provoca redução de postos de trabalho e superexploração

da mão-de-obra, gerando concorrência entre

os próprios jornalistas. Nos últimos anos, trava-se no país

uma batalha de suma importância: o oligopólio da mídia

procura convencer a sociedade de que há, na democratização

dos meios, uma ameaça à liberdade de imprensa. Mas

o que acontece é exatamente o contrário: o Brasil e outros

países da América Latina procuram ampliar e arejar os espaços

midiáticos, o que resultaria na pluralização do setor.

A Constituição Federal de 1988, assegura, no Art. 5º,

a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica

e de comunicação, independentemente de censura

ou licença; uma forma de proteger a sociedade de opressão,

sendo um elemento fundamental nos pilares de uma

sociedade democrática. Entretanto, de acordo com a assessoria

da FENAJ, no Brasil a liberdade de expressão “é

algo que estamos muito longe de conquistar, se por ela

entendemos a capacidade e possibilidade de se expressar

livremente (e a respeito de todo e qualquer assunto) ao

alcance de toda a sociedade, de toda a população, de todos

os grupos sociais e étnicos, sem exceção”.

A luta pela democratização dos meios de comunicação

tornou-se uma bandeira central para os movimentos sociais

e os partidos de esquerda que combatem as desigualdades

e injustiças de no Brasil. Enquanto esse processo de

democratização ainda não é consolidado, essas organizações

independentes lutam pelos diversos movimentos sociais

e grupos de minorias, promovendo uma organização

social verdadeiramente democrática, permitindo o debate

jornalístico e a quebra de um domínio tradicional dos

meios de comunicação.

CURINGA | EDIÇÃO 15 37


Identidade

Um novo

quadro negro

Em 1997, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

(IBGE) apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros, com idade entre 18 e 24

anos, cursavam ou haviam concluído o ensino superior no Brasil. Os números

alarmantes indicavam que algo precisava ser feito. A adoção de

políticas de Ações Afirmativas, em benefício de pessoas pertencentes a

grupos discriminados pela exclusão socioeconômica, entrou em pauta.

Estava aberta a discussão sobre as cotas na universidade brasileira.

Texto: Pamela Moraes

Foto: Hugo Coelho

Arte: Núbia Azevedo


As cotas raciais fazem parte de políticas de reserva de vaga, que teve início na década

de 1960 nos Estados Unidos, com o intuito de diminuir a desigualdade entre brancos e

negros. No Brasil, ganharam visibilidade em meados dos anos 2000, quando a Universidade

de Brasília (UnB) aderiu a esse sistema. Mais de uma década após a pesquisa

do IBGE de 1997, a pesquisa de 2011, do Instituto, indicou que o percentual de negros

no ensino superior saltou para 35,8%. Segundo Nelson Inocêncio da Silva, professor

e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UnB, o processo de cotas naquela

universidade foi desencadeado a partir da reprovação, no final dos anos 1990,

de um doutorando negro e homossexual sem justificativas plausíveis, com repercussão

negativa para uma parcela expressiva da comunidade universitária. Em sintonia

com o movimento negro, dois professores brancos do Departamento de Antropologia

assumiram o desafio de formular uma proposta de políticas de inclusão de estudantes

negros nos cursos de graduação, apoiados por um conjunto de docentes, discentes e

técnicos da UnB. Eles acreditavam que a presença mais significativa de alunos negros

representaria um modo eficaz de enfrentamento ao racismo no ensino superior. Foi

um longo percurso, que levou anos, desde a formulação da proposta até a aprovação

do projeto em 2003. O Sistema de cotas raciais começou a ser implantado no segundo

semestre de 2004 com o objetivo de que ao final de uma década o corpo discente

da universidade fosse composto pelo percentual mínimo de 20% de alunos negros.

CURINGA | EDIÇÃO 15 39


Inclusão tardia

No início do ano 2000 não havia nas universidades

brasileiras registros sobre a identidade

racial ou de cor de seus alunos. A demanda por

ações afirmativas para a educação superior começou

a surgir, inaugurando as primeiras iniciativas,

na forma de censos e de pesquisas por

amostra, a fim de reparar tal deficiência. Essas

medidas se espalharam pelo país, e hoje fazem

parte da seleção da maioria das Universidades.

Para o pedagogo e professor da Universidade Federal

de Ouro Preto (UFOP), Adilson Pereira dos

Santos, a ausência histórica de políticas públicas

sociais de inclusão dos negros na sociedade, justificam

a adoção de ações afirmativas. “O Sistema

de Cotas é o resultado da luta do movimento

social negro, que as reivindicou como uma medida

de ‘reparação’ da dívida histórica do Brasil

com o povo negro”, explica.

No momento da pós-abolição não havia políticas

institucionais de inclusão do negro nos

círculos de exercício de direitos sociais e políticos.

Problema que persiste, de muitas maneiras,

na sociedade brasileira. Para o estudante e cotista

da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Danilo

Araújo, a política de cotas, enquanto uma

das modalidades de ações afirmativas promovidas

pelo governo federal tem relevância fundamental

para a transformação deste cenário e

tem o papel de incluir o negro e de trazê-lo para

o exercício deste direito social que é a educação.

“A partir da implementação das políticas de cotas

nas universidades, o que se intenta é que o

acesso dos negros às cadeiras universitárias seja

facilitado em resposta às determinantes históricas

que o impediram de reunir as mesmas condições

dos brancos para chegar a elas”, concluiu

o estudante.

Se por um lado as medidas foram colocadas

em prática pelo governo, cabe a universidade,

seja ela pública ou privada, o papel predominante

de inclusão, e segundo Adilson, ela não deve se

limitar à garantia do simples acesso dos negros,

mas deve comprometer-se com a permanência e

o seu sucesso acadêmico. “A universidade deve

se reconhecer como produtora e reprodutora da

exclusão, devendo posicionar-se criticamente e

atuar na perspectiva da inclusão”, afirma o pedagogo.

Adilson acrescenta também que devem

ser incorporados na grade acadêmica aspectos

da história e cultura afro-brasileira e africana,

historicamente negligenciados nos currículos

dos diversos cursos.

Controvérsias e ganhos

Com o efeito causado pelas cotas, ouviu-se

muito sobre o mérito de cada aluno, seja qual for

a definição de raça, como critério para a obtenção

de vaga na universidade. No entanto, como


explica o professor Nelson, da UnB, o mérito só

pode servir como parâmetro quando, em uma

sociedade, todos os indivíduos partilhem das

mesmas oportunidades, o que ainda não acontece

no Brasil. “Somos desiguais quando tratamos

de questões étnico-raciais, quando lidamos

com questões de gênero, quando falamos de

classe social entre outras iniquidades”, salienta.

O estudante Danilo, da UFV, reforça essa ideia,

apontando para a inclusão como efeito de redução

dessa desigualdade: “como a universidade é

no Brasil um dos principais meios de ascensão

social, na medida em que os sujeitos negros forem

incluídos neste espaço, a sua participação

em outros setores da sociedade brasileira poderá

ser transformada, alcançando-se mais espaço

e representação e combatendo cada vez mais a

imposição do racismo sobre sua vida cotidiana”.

Walliston dos Santos Fernandes é Engenheiro

Civil formado na UFOP, concluiu o mestrado

e hoje é o único negro na sua turma de doutorado

na Universidade Federal de Minas Gerais

(UFMG). Walliston não usou o Sistema de Cotas,

pois inicialmente era contra esse sistema e acredita

que as pessoas precisam saber a hora de usar

quaisquer benefícios, sem tirar do mais necessitado.

“Hoje percebi que ele é necessário até que

uma quantidade considerável de negros alcance

um nível de estudos suficiente ou até que uma

parcela significativa de negros termine o ensino

superior, pelo menos”, avalia o engenheiro. O

número de negros que terminam o ensino superior

e se dedicam ao mestrado e doutorado ainda

é baixo. Para que esse índice cresça, Walliston

acredita que é preciso ter incentivo à educação

e políticas de cotas após a graduação. Segundo

a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade

Racial do Governo Federal (SEPIR) até o

final do primeiro semestre de 2015 haverá uma

proposta de cotas para estudantes negros na pósgraduação,

garantindo não apenas o ingresso,

mas a diversidade de temas pesquisados. Para o

professor Nelson, o fato da ausência de docentes

negros ter sido tratada de forma natural por décadas,

permitiu que a categoria dos docentes nas

universidades brasileiras se acostumasse com tamanha

exclusão.

Onze anos após a implantação, o Sistema

de Cotas na universidade brasileira logrou êxito,

pois, segundo o professor Nelson, garantiu

o acesso de estudantes negros, jovens em sua

grande maioria, ao ensino superior. A iniciativa

da UnB serviu como estímulo para as demais

universidades federais e estaduais, habitualmente

responsáveis pela formação das elites culturais

desse país. “Até o fim desta segunda década do

século XXI acredito que colheremos com maior

intensidade os frutos dos investimentos feitos

desde 2004. Obviamente que estamos apenas começando,”

completa.

Foto: Thiago Sabino

CURINGA | EDIÇÃO 15 41


Opinião

Porque

Menina não fala palavrão.

Menino não chora. Negro não sofre

preconceito. Grafite não é arte.

Funk não é música. Você NÃO

pode. Você NÃO deve. Você NÃO é...

Do momento em que nascemos,

e durante toda a nossa existência no

mundo, somos cerceados pelo que podemos

e devemos, de acordo com a

noção que outras pessoas tem de qual

seria nosso lugar, nosso papel social,

determinado pelo gênero, etnia, classe,

sexualidade e uma infinidade de

outros fatores. Os NÃOs se acumulam

ao longo de nossa infância e nos acompanham

por toda a vida.

Aprendemos que desobedecer os

padrões é errado, feio e algumas vezes

até pecaminoso.

O NÃO é muro, barreira, porta que

se fecha? Seria permanente, limitador?

Ou seria ele o berço da resistência? Resistir

é uma outra forma de dizer não.

Dizer não aos padrões pré-estabelecidos,

que nos enquadram nos papéis

sociais, aos pré-conceitos, ao machismo,

à homofobia, ao racismo.

A resistência nasce daqueles que

tem a coragem e a disposição para enfrentar

os NÃOs da vida, reverter os

conceitos e compreender que longe de

nos limitar, eles nos impulsionam a

pensar e agir diferente, encontrar outros

caminhos, outras oportunidades.

Em uma sociedade tão cheia de

negações, há aqueles que lutam para

reverter os padrões e se libertar das

amarras que nos são impostas e há

aqueles que param, se aquietam, se escondem,

com medo da palavra de três

letras que carrega consigo tanto peso.

Para esses, o NÃO é o fim. Para os que

resistem é SIM.

Texto: Luiza Mascari

Arte: Elis Regina


CURINGA

Online

www.revistacuringa.ufop.br

@revistacuringa

Revista Curinga

@RevistaCuringa

/revistacuringa

More magazines by this user
Similar magazines