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Revista Dr Plinio 239

Fevereiro de 2018

O pensamento filosófico

O pensamento filosófico de Dr. Plinio Instintos e senso do ser Samuel Holanda O Batismo dá ao senso do ser a luz que ele procura, proporcionando um equilíbrio de todos os instintos, sem o qual o homem cai nos desatinos característicos do mundo de hoje. O desvario dos instintos é um fator muito importante do progresso da Revolução. O grande instinto fundamental é o senso do ser, que o indivíduo conhece por conaturalidade e por evidência absoluta. As leis de funcionamento dos instintos constituem princípios muito claros que ajudam enormemente a compreender a história da Revolução tendencial. Porque os instintos humanos não jogam apenas em função de coisas materiais, mas, colocados diante de quadros de caráter intelectivo, são também capazes de reação. Sobretudo quando se trata de quadros que, por meios sensíveis, fazem-lhes perceber coisas intelectivas. Por exemplo, uma cerimônia eclesiástica faz entender ao homem realidades doutrinárias – como normas, princípios, verdades – através de meios sensíveis. Equilíbrio instintivo e santidade Essa correlação é evidente e tem por efeito que o instinto, com as suas mutabilidades, possui capacidade de saciar-se de verdades, como de erros, e querer modificações, porque é próprio do instinto mover-se assim. Essa mobilidade dos instintos, essa espécie de desconjuntamento do instinto com a razão constitui uma causa profunda do perpétuo sofrimento do homem concebido no pecado original. O homem sem o pecado original não tinha isso. É muito bonito ver como a graça atua na alma humana, porque ela dá ao homem, por uma espécie de experiência mística, um prenúncio do Céu e da vida de Deus, o sabor de uma eternidade longínqua da qual se tem uma antecipa- São Domingos de Gusmão (por Fra Angelico) Convento de São Marcos, Florença, Itália Divulgação (CC3.0) 8

ção aqui na Terra, e que é uma certa degustação – dentro de um caos que é preciso aceitar na batalha, no ardor, na consolação, no sacrifício – sempre acompanhada de algum elemento que tem seu papel no jogo dos instintos, enquanto ordenativo e que eleva. É a graça de Deus, única e incomparável, atuando até o fundo e dando um equilíbrio que o homem, pelos seus instintos, não seria capaz de conceber, mas que pacifica seus instintos e lhe confere santidade. A meu ver, um exemplo magnífico disso são as obras de muitos pintores do século XV, mas de Fra Angelico de modo muito saliente e excelente. Por exemplo, aquele quadro que representa São Domingos meditando provavelmente o Evangelho. O que há de equilíbrio instintivo ali, na linha do que estou dizendo, é um tesouro tal que, olhando para aquela pintura, não se sabe o que dizer. Faria bem ter esse quadro na sala de trabalho, com o intuito de embeber os próprios instintos daquele equilíbrio e daquela paz conferidos pela Escritura e pela graça. Em grande parte, por sermos católicos, sentimos em nós o sumo equilíbrio e a santidade que esse fator coloca, pois o Batismo dá ao senso do ser, na sua inocência primeira, a luz que ele procura, proporcionando, in radice, um equilíbrio de todos os instintos. A pessoa que não tenha esse equilíbrio cai em convulsões, exageros, espasmos, torvelinhos, doidices, característicos desse mundo que estamos vendo. O gótico flamboyant Com efeito, é preciso olhar para o desvario dos instintos como um fator muito importante, embora não seja o único, do progresso da Revolução. Exemplifico com o fim do gótico. Quando chegou o gótico flamboyant, sentia-se que o gótico tinha dado de si tudo quanto devia. Entretanto, o gótico é tão excelente que se diria ser um estilo perfeito e, uma vez abandonado, qualquer outra coisa que viesse depois corresponderia a uma prevaricação. Ora, há qualquer coisa por onde, se a virtude tivesse continuado, ter- -se-ia a percepção artística de qual era o caminho por onde, continuando o gótico, ir-se-ia, entretanto, além dele. Mas como entrou a degenerescência da Idade Média, os homens não foram capazes de prolongar o gótico. Veio a Revolução que apresentou a Renascença. Por quê? Porque os instintos estavam exaustos do Catedral de Burgos, Espanha gótico também. A perpétua ogiva, o perpétuo vitral... De fato, o perpétuo equilíbrio também precisa encontrar as suas variedades harmônicas ousadas, porque, do contrário, neste vale de lágrimas, até o equilíbrio perfeito cansa. Então, o próprio equilíbrio deve saber gerar, não os desequilíbrios, mas as unilateralidades harmônicas que tocam para um lado e depois para outro, fazendo disso um equilíbrio original. Quer dizer, ir para a frente na linha da tradição, inovar no sentido da continuidade, tudo isso está relacionado com as leis de como os ins- Jose Luis Filpo Cabana (CC3.0)