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Revista Digital Copiosa Redenção Fevereiro

Em comunhão com a Igreja no Brasil e o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, nos propomos a refletir sobre a realidade da violência no contexto da drogadição.

Matéria de Capa FRA TER

Matéria de Capa FRA TER NI DADE E SUPERAÇÃO DA VIOLÊNCIA O tempo da quaresma inicia um período mais intenso de conversão pessoal, com o objetivo de preparar o coração do cristão para a celebração da Páscoa do Senhor, centro da fé da Igreja. Durante a quaresma, a Igreja no Brasil, ciente da importância de uma conversão que se traduza em atos concretos, convida a refletir sobre os problemas humanos e sociais que se manifestam na sociedade. Todo esse convite é rezado, pensado, discutido e concretizado através da Campanha da Fraternidade, uma iniciativa da CNBB que envolve todo o âmbito nacional, na intenção de promover uma maior solidariedade na sociedade brasileira. Neste ano, a Campanha da Fraternidade traz como tema: “Fraternidade e superação da violência”; e como lema: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8). Com esta moção, refletir sobre a violência e como transformá-la em fraternidade, será o apelo de conversão para esta quaresma. O tema já fora abordado na década de 80. Lá, o conceito de violência referia-se àquele situado no contexto próprio das necessidades sociais da época. Ainda hoje, é claro que a violência continua a ferir a dignidade humana e, desde aquele tempo, apresenta- -se apenas de maneira mais criativa e progressiva à medida que o ser humano se demonstra menos tolerante e mais individualista. Partindo da lógica do ver, julgar e agir, a Campanha da Fraternidade pretende conduzir a pensar a violência segundo as necessidades próprias do tempo presente. São diversas as formas de violência que acometem a sociedade atual: violência racial, no trânsito, contra o jovem, exploração sexual e tráfico humano, narcotráfico, ineficiência do aparato judicial... todas como formas de violação dos direitos fundamentais da pessoa humana. Em comunhão com a Igreja no Brasil, a Copiosa Redenção se propõe, nesta quaresma, a refletir sobre a realidade da violência no contexto da drogadição, dois males conexos entre si, mas com suas es- 10 Revista COPIOSA REDENÇÃO Fevereiro 2018

pecificidades. Um questionamento que frequentemente surge ao se refletir acerca dessa relação é: o uso de drogas é alimentado pela cultura da violência, ou a violência é alimentada pelo uso de drogas? É muito comum associar a violência com o uso de drogas. E é mais comum ainda abordar e justificar ambos os problemas nos dias atuais, enquanto não são tratadas as especificidades de cada um da maneira correta. São dois fenômenos que estão conexos, como já foi dito. No entanto, essa associação feita de forma linear e parcial, pode resultar no aumento de políticas repressivas em detrimento das políticas de saúde, assistência e educação. Isto é, entender a drogadição como causa da violência pode dar margem para a perpetuação do sistema disfuncional da sociedade, superando o problema somente a partir de políticas de segurança e não de políticas que ofereçam dignidade e formação para as pessoas que são mais afetadas pelo problema das drogas. Segundo o texto base da CNBB para a Campanha da Fraternidade desse ano, “o combate às drogas tornouse uma ação articulada por vários países utilizando-se de estratégias de guerra, camuflada de política de segurança pública [...]”. Essa estratégia de guerra, apenas colabora para o crescimento da violência de maneira geral, visto que “o resultado da guerra às drogas produziu, em termos mundiais, o incremento da indústria armamentista; mais mortes em conflitos entre policiais, usuários e traficantes; mais prisões; mais criminalização de estratos sociais empobrecidos” – explica o texto da CNBB. Por isso, os fatores econômicos – como a pobreza – e sociais – como a falta de acesso à educação de qualidade, à cultura e à saúde – influenciam muito na propagação da cultura das drogas, pois a falta desses recursos dificultam as expectativas de tantas crianças e jovens, mantendo a estrutura social fragmentada. Assim sendo, o fenômeno do uso de drogas necessita ser compreendido em sua amplitude e, a partir disso, compreender a sua relação com a violência. As taxas de violência e criminalidade, muitas vezes associadas antecipadamente ao dependente químico, camuflam a verdadeira violência a qual essas pessoas também estão expostas: o narcotráfico. O texto da CNBB aponta que o narcotráfico é um dos setores mais lucrativos da economia mundial, movimentando cerca de 400 bilhões de dólares por ano. O texto aponta ainda que: “A guerra às drogas criminaliza o pequeno varejista e o usuário e favorece os grandes empresários de drogas e o sistema financeiro internacional”. Além do mais, o narcotráfico movimenta a atividade carcerária indistintamente, quando gera um “[...] impacto do aprisionamento em massa decorrente do tráfico de drogas [...]. Segundo a London School of Economics, 40% dos nove milhões de presos em todo o mundo foram aprisionados em razão do comércio e do uso de substâncias consideradas ilícitas”. Enquanto isso, quantos, em especial os jovens e adolescentes, são expostos à cultura das drogas e vivem graves situações de vulnerabilidade? E, além disso, o quanto são negligenciados e, por isso, continuam a reproduzir suas vivências violentas do meio social? Perante tantos que sofrem com essa negligência, não seria justo generalizar a relação entre violência O uso de DROGAS é alimentado pela cultura da VIOLÊNCIA, ou a VIOLÊNCIA é alimentada pelo uso de DROGAS? Fevereiro 2018 Revista COPIOSA REDENÇÃO 11

campanha da fraternidade 2013 - Curia Diocesana
campanha da fraternidade 2012 - Paróquia Bom Jesus dos Migrantes