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01 DE NOVEMBRO DE 2016

01 DE NOVEMBRO DE 2016 Nº 1 CIVITAS SOLIS PUBLICAÇÕES A Sabedoria Guarani Apesar de todas as dificuldades vividas nos últimos séculos, os guaranis ainda preservam o conhecimento de uma sabedoria muito antiga, expressa em mitos. Eles falam a respeito de grandes pajés ou profetas, também conhecidos como Caraís ou Caraíbas. Segundo Hélène Castres 1, diferente do pajé comum ou do chefe da tribo, o caraí não ficava ligado a nenhuma aldeia. Era um homem conhecido por sua vida solitária, sua sabedoria, seu poder e seu silêncio. Era venerado por onde passava, indo de aldeia em aldeia. Dizia não possuir pai, estando diretamente ligado aos poderes celestiais. Terra Sem Mal A mensagem central que os grandes pajés ou Caraís levavam por onde passassem era o tema da Terra sem Males: de que o ser humano vive na segunda terra, condenada à destruição; por isso, deve dirigir-se à Terra sem Males, que no entanto não se situa na vida após a morte, mas pode ser atingida em vida. Em alguns momentos, essa Terra sem Males foi vista como um local geográfico para o qual se devia dirigir (no centro da terra; a oeste; a leste, além do mar), conduzindo assim a migrações. Mas essa Terra sem Males não se reduz à concepção espacial, a um local paradisíaco, mas é principalmente um estado de ser. Por isso, também se diz que é possível atingi-la tornando o corpo mais leve, sutil. Da mesma forma que um caraí, era possível a qualquer índio se tornar semelhante aos deuses, um homem divino, superando as limitações culturais e atingindo uma condição transcendente. Os cânticos sagrados guaranis, entremeados de frases não cantadas, descreviam as narrativas míticas, a ordem do mundo e a promessa da Nova Terra. Através desses cânticos e das narrativas, essa sabedoria foi preservada ao longo dos séculos, mantendo a tradição e mantendo vivo o anseio pela vida espiritual. Os Mbiás Entre os subgrupos guaranis atuais, os Mbiás são os que procuram com mais intensidade preservar sua identidade cultural. Os Mbiás ou Embiás são um subgrupo do povo guarani que habita a região meridional da América do Sul, em um amplo território em que se sobrepõem os Estados nacionais paraguaio, brasileiro, argentino e uruguaio. Os Guaranis buscavam a Terra Sem Mal, um lugar acessível aos vivos, aonde seria possível ir de corpo e alma, sem passar pela morte. Nela estão os ancestrais que morreram, mas a morte não seria condição necessária para atingi-la. A Terra Sem Mal é esse lugar privilegiado, indestrutível, em que a terra produz por si mesma os seus frutos e não há morte. (CLASTES, 1978) 1 CASTRES, HÉLÈNE. A Terra sem Mal: O Profetismo Tupi-Guarani. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978. CIVITASSOLIS.ORG.BR 6

01 DE NOVEMBRO DE 2016 Nº 1 CIVITAS SOLIS PUBLICAÇÕES Apesar de se reconhecer cotidianamente como Mbiás, sua autodenominação ritual é “Jeguakava Tenondé Porangue’í” (“os primeiros escolhidos para levar o adorno sagrado de plumas” ou “os primeiros adornados”). Os Mbiás são vistos muitas vezes como “fechados, desconfiados e pouco hospitaleiros”, tendo-se recusado a receber missionários. Talvez por isso, suas narrativas míticas tenham sido preservadas e finalmente transmitidas apenas em meados do século XX a Léon Cádogan, um pesquisador paraguaio, mas só após uma convivência de muitos anos com eles – e só após ser iniciado em seus mistérios através da cerimônia do Nimongarai e receber o nome índio de Tupã Kuchuvi Veve. Alguns anos depois, o cacique Pablo Werá diria a Tupã Kuchuvi e ao professor Egon Schaden, da Universidade de São Paulo, que era chegado o momento de transmitir esse ensinamento a todos 2: “Os últimos grandes pajés estão indo embora para a morada dos nossos ‘Pais Primeiros’. Existe o perigo de que, ao desaparecerem por um tempo desta morada terrena, as palavras sagradas fiquem esquecidas na fala guarani, e sem elas a verdadeira cultura ancestral degenera. Um dos nossos grandes pajés disse que mais adiante, quando o espaço abraçar um novo círculo de tempo, Tupã renascerá no coração do estrangeiro. De modo que eu gostaria que registrassem nossas palavras mais formosas, para que, quando nós formos, elas possam acordar os futuros corações”. A profecia dos Mbiás dizia o seguinte: “Depois de fundir-se o espaço e amanhecer um novo tempo, Eu hei de fazer que circule a palavra-alma novamente. Pelos ossos de quem se põe de pé E que voltem a encarnar-se as almas, Disse nosso Pai Primeiro. Quando isso acontecer Tupã renascerá no coração do estrangeiro. E os primeiro adornados novamente Se erguerão na morada terrena por toda a sua extensão.” “É possível passar da terra má para a terra sem mal sem passar pela prova da morte.” (CLASTRES, 1978) As “palavras formosas” são as palavras sagradas que só os Caraís ou profetas sabiam proferir, a linguagem comum a homens e deuses: palavras que os profetas dizem aos deuses ou que, ao mesmo tempo, os deuses dirigem a quem sabe ouvi-los. “Ayvu porä”, a linguagem formosa, é a linguagem dos deuses, dos homens divinos, e a única que apreciam ouvir. Tem um vocabulário 2 JECUPÉ, KAKÁ WERÁ. Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani - São Paulo: Peirópolis, 2001. CIVITASSOLIS.ORG.BR 7

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