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Ecos-da-alma-número-1

01 DE NOVEMBRO DE 2016

01 DE NOVEMBRO DE 2016 Nº 1 CIVITAS SOLIS PUBLICAÇÕES próprio, distinto da linguagem corrente, traduzindo noções abstratas. Esse vocabulário expressa conceitos como “saber-poder criador”, “completude”, “força espiritual” e outros nunca utilizados fora de seu contexto sagrado. Nomeia de forma poética os objetos também, dizendo, por exemplo,“florzinha do arco” e não flecha; “o que vossos dedos afloram” e não “plantação”. Para o Mbiá, a linguagem cotidiana apenas designa as coisas, só a linguagem formosa as nomeia. A linguagem utilizada destina-se ao canto que traz o conhecimento sagrado e por isso é formosa. O centro da vida espiritual dos Mbiás é o “opy”, onde todas as atividades religiosas são executadas. O opy é uma casa central de uma aldeia mbiá, ao redor da qual as outras casas são dispostas em círculo ou semicírculo. Ainda segundo Hélène Castres 3, o opy é “uma construção mais comprida, retangular, sempre orientada de leste para oeste: a porta está a oeste, uma janelinha dá para o sol nascente. O mobiliário é muito simples: dois bancos ao longo das paredes sem janela ou porta, a rede do xamã disposta num certo ângulo, flechas apoiadas contra as paredes; às vezes, três bastões (utilizados nas danças) cravados no chão e enfeitados com um buquê de penas. É nessa casa que se cumprem todas as atividades religiosas: danças, cantos, relatos e comentários das tradições sagradas (...) É ali que, ao alvorecer, são proferidas as ñe ‘ë porä, as palavras formosas, diante do sol nascente”. O Ensinamento Sagrado Guarani Também podemos ler no livro “Tupã Tenondé” 4: ‘Ñande Ru Tenondé’ é uma expressão que significa ‘Nosso Pai Primeiro’, é um dos vários nomes que se atribuem à Suprema Consciência, cujo corpo é o espaço imanifestado e cuja essência manifestada é o ritmo, o Espírito-Música, ou Grande Som Primeiro, (...) também chamado Tupã Tenondé. (...) Tupã Tenondé apresenta-se como colibri, a grande expressão do sagrado para o povo Guarani, pois é uma das suas primeiras formas de manifestação – o que vê a totalidade a partir dos mundos sutis do espírito. (...) O colibri traz em seu enredo o significado de ser a própria essência divina primeva, e, de acordo com o pensamento Guarani, cada ser humano tem O Paraíso Terreal “Havia (…) figuras misteriosas que viviam às margens de todas as tribos. Os índios denominavam-nos Caraís e acreditavam que haviam nascido somente de mãe, sem intervenção paterna. Segundo a t e o r i a d e c o n c e p ç ã o patrilinear tupi-guarani, o homem é quem definia a linhagem e o parentesco. Sendo assim, os Caraís não p e r t e n c i a m à l i n h a g e m alguma, considerados como homens-deuses. Este estatuto marginal permitia que, ao contrário da gente comum, eles pudessem transitar livremente entre aldeias e territórios inimigos. Viviam afastados, diferindo assim dos xamãs que tinham atribuições referenciadas a determinado grupo ou aldeia. Os caraÍs possuíam uma vida errante, circulando constantemente entre as tribos. Não se misturavam com os comuns n e m p a r t i c i p a v a m d o s t r a b a l h o s c o l e t i v o s e recusavam alimentos que lhes eram oferecidos. Acreditavam os índios que estes homensdeuses tinham poderes de transformar aos outros e a si mesmos (...). Ao que tudo indica, os Caraís viviam como a s c e t a s , j e j u a n d o o u a l i m e n t a n d o - s e exclusivamente de vegetais”. (LECVOVITZ, 1998) 3 4 CASTRES, HÉLÈNE. A Terra sem Mal: O Profetismo Tupi-Guarani. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978. JECUPÉ, KAKÁ WERÁ. Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani - São Paulo: Peirópolis, 2001. CIVITASSOLIS.ORG.BR 8

01 DE NOVEMBRO DE 2016 Nº 1 CIVITAS SOLIS PUBLICAÇÕES Alma-Colibri sua alma-colibri que habita na morada do coração, território de Tupã. Quando a alma-colibri eleva-se ao apyte, a flor sagrada que reside um palmo acima da cabeça humana (...) inspira e transmite sabedoria profunda”. ‘Ñe ‘ë’, significa palavra ou voz, mas também ‘alma’, o que dá o ânimo, mas é ao mesmo tempo o que é divino e imortal no homem. A palavra, a alma, é justamente o que mantém o homem em pé, ereto, distinguindo-o dos animais, como expresso na ideia de que a palavra circula no esqueleto humano. É somente quando a criança consegue ficar em pé e andar que lhe é atribuído um nome. A morte é a perda da palavra; a alma, o princípio vital, é “e”, o “falar”. Essa alma-palavra é também o que faz o homem participar da divindade, e por isso, segundo as palavras formosas, é dito a cada uma que vai encarnar-se numa criança 5: O colibri traz em seu enredo o significado de ser a própria essência divina primeva e, de acordo com o pensamento guarani, cada ser humano tem sua alma-colibri que habita na morada do coração, território de Tupã. Quando a alma-colibri eleva-se ao apyte, a flor sagrada que reside um palmo acima da caberça humana – espaço de Jakaira Ru Ete – inspira e transmite sabedoria profunda. (JECUPÉ, 2001) “Irás bem, filhinho do Grande Espírito, considera com fortaleza a morada terrena e, mesmo que todas as coisas, em sua diversidade, apresentem-se por vezes horrorosas, deves enfrentá-los com coragem. (...) Irás a terra. Recordarás de mim em teu coração. Assim eu farei que circule minha Palavra por haveres acordado a mim. Assim eu farei que pronunciem palavras aos inumeráveis e excelsos filhos que abarco. Falar será vosso valor, calar será o mais alto. (...) Por isso tu, enquanto habitares a terra, de minha morada formosa haverás de recordar-te. Eu inspiro palavras formosas em teu coração, de modo que não podes igualar-te às imperfeições da morada terrena.” 6 É a “reminiscência da estada entre os deuses” que é mantida através da palavra sagrada, pois ela tem o poder de recuperar essa comunicação privilegiada com o mundo divino, animando o homem e conduzindo-o à saudade dos deuses. 5 6 CADOGAN, LÉON. Antología de literatura guaraní. México: Editorial Joaquín Mortiz, 1965. CASTRES, HÉLÈNE. A Terra sem Mal: O Profetismo Tupi-Guarani. São Paulo: Editora Brasiliense, 1978. CIVITASSOLIS.ORG.BR 9

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