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Untitled - Ordem de Cristo

Templo iria resolver

Templo iria resolver esse problema. Beneficiando de uma formidável implantação, viria a transformar as suas comendas em balcões e agências bancárias e a criar um bom número de instrumentos financeiros novos. Assim, o Templo foi não só um grande proprietário fundiário, um produtor, um transportador e até, por vezes, comerciante, mas também um banqueiro, tudo isso concebido no mesmo espírito que as multinacionais modernas. Em cada província da Ordem foi designado um irmão tesoureiro. Foi encarregado de coordenar o conjunto das operações financeiras e de verificar toda a contabilidade das casas. Com efeito, perante qualquer pedido da Ordem, deveriam poder ser apresentadas de imediato todas as contas de receitas e despesas de qualquer casa. Os tesoureiros da comenda de Paris desempenharam um papel de especial importância dado que, desde o início do século XIII, foram administradores do tesouro do rei de França. Geriram os fundos do Estado assumindo em muitos aspectos, se não totalmente, o mesmo papel que os futuros superintendentes de finanças. Em caso de necessidade, isto é, freqüentemente, avançavam dinheiro ao rei. Por vezes, eram forçados a contrair empréstimos em nome do Tesouro real, junto dos banqueiros italianos, apresentando a sua garantia de pagamento. Verificavam as contas dos contabilistas e recebedores dos dinheiros públicos. Assim, a comenda de Payns estava encarregada de receber as taxas devidas ao reino de Champagne e na Flandres. Algumas comendas importantes viam-se investidas de responsabilidades financeiras suficientemente pesadas para que fosse julgado necessário juntar ao tesoureiro alguns contabilistas ou caixas. Apesar dos cuidados postos na proteção das estradas, não valia a pena tentar o diabo transportando consigo somas consideráveis. Ora, as transações realizadas por altura das feiras podiam pôr em jogo enormes quantias em dinheiro. O problema das transferências de fundos assumia também uma importância crucial em relação ao Oriente. Os cruzados eram amiúde obrigados a contrair empréstimos consideráveis no local que se comprometiam a reembolsar com os seus rendimentos na Europa. Como tornar mais fácil esse jogo financeiro sem correr demasiados riscos? Banqueiros na Idade média Os irmãos do Templo criaram uma panóplia de instrumentos financeiros práticos e seguros, em relação aos quais podemos dizer que não diferiam nada, nos princípios, dos utilizados pelos bancos modernos. As comendas da Ordem transformaram-se, antes de mais, em bancos de depósitos. Aliás, não eram as únicas nem as primeiras a desempenharem esse papel. Era muitas vezes o caso dos mosteiros, bastante seguros na medida em que os malfeitores hesitavam em violar os locais de culto. No caso dos Templários, para além da proteção do príncipe, os depositantes podiam contar com uma defesa musculada dos seus bens. Aqueles monges eram soldados e isso constituía uma garantia suplementar apreciável, caso a outra não tivesse sido suficiente. Aliás, isso não impediu o Templo de Londres de ser atacado duas vezes. Em 1263, o jovem príncipe Eduardo, que se encontrava sem dinheiro, forçou os cofres do Templo e apoderou-se de dez mil libras pertencentes a cidadãos de Londres e, em 1307, Eduardo II roubou ao Templo cinqüenta mil libras em dinheiro, jóias e pedras preciosas. Fosse como fosse, e apesar de o rei de Inglaterra nem sempre ter sido honesto, os soberanos desse país tiveram suficiente confiança na probidade e segurança da Ordem para lhe confiarem, como aconteceu aliás com a França, a guarda do tesouro real. Um tal «Roger o Templário», recebedor do Templo de Londres, foi também esmoler do rei Henrique II de Inglaterra e era ele que repartia, como bem entendia, as esmolas reais entre os pobres que vinham pedir com insistência ao palácio. Templários como Ugoccione de Vercelli e Giacomo de Montecuco foram também conselheiros financeiros do papa. Para além desses clientes célebres, muitos havia que recorriam aos serviços do Templo para lá depositarem as suas riquezas. O dinheiro de cada depositante era encerrado numa arca que, por vezes, estava equipada com duas fechaduras, com uma chave para o cliente e outra para o tesoureiro. Depositavam-se também jóias no templo, bem como objetos preciosos e até títulos de rendimentos e de propriedades. Por vezes, os depósitos serviam de caução a empréstimos pedidos por particulares. Com efeito, os Templários praticavam o empréstimo sobre penhores e o empréstimo hipotecário. Também faziam de notários, conservando registros e servindo de executores testamentários. Eram também administradores de bens por conta de outrem mas, neste caso, era designado um irmão diferente do tesoureiro. Não se misturavam as funções. Como banqueiros, mantinham contas-correntes com particulares que depositavam o seu dinheiro com eles e podiam levantá-lo, mandar fazer pagamentos através da sua conta ou encarregar os Templários de fazerem recebimentos por eles. Regularmente, procedia-se a um acerto de contas. Recomeçava-se então a partir do saldo resultante do período precedente. Em geral, salvo motivo especial, a Ordem do Templo fazia acertos de contas três vezes por ano: na Ascensão, no dia de Todos os Santos e na Candelária. Ademais, os Templários tinham, para os seus grandes clientes, uma contabilidade por tipos de operações. Jules Piquet apresenta o exemplo das rubricas que figuram nas contas entregues a Branca de Castela:

51 Receitas financeiras: • Reembolsos de empréstimos concedidos a diversos particulares e abadias; • Proveniente da exploração do domínio das arras da rainha-mãe: - entregas dos prebostes; - entrega dos bailios; Subtotal: - entregas referentes aos particulares. • Receita proveniente da exploração do domínio de Crépy: - entregas de impostos; - entregas dos bailios; Total. • Uma entrega da rainha ao Templo: + Total das receitas durante quatro meses; - Total das despesas durante quatro meses; =Total geral e novo saldo credor da rainha junto do Templo. O capítulo das despesas era menos dividido (empréstimos, dádivas, despesas de habitação da rainha). A conta era acompanhada por um extrato que mencionava os diversos devedores da rainha-mãe. Nele se encontravam vestígios de adiantamentos muito importantes concedidos a mosteiros e abadias. No dorso do documento, o contabilista inscrevera também outras informações que testemunhavam a sua preocupação de enviar um extrato de conta explícito e que evitasse qualquer má interpretação ou erro. Ademais, a comparação das duas contabilidades - a mantida para a conta do cliente e a das comendas - constituía um embrião da contabilidade por partidas dobradas. É certo que os Templários dedicavam um interesse muito especial, em França, à prestação de contas dos bailios, prebostes, mestres das moedas, etc., no quadro da missão de gestão do tesouro real, quando esta lhes estava confiada. De igual modo, tinham um extremo cuidado com as contas abertas em nome da Santa Sé para as quais centralizavam o produto de um determinado número de foros, nomeadamente os ligados ao financiamento das cruzadas. Financeiros poderosos e inflexíveis A importância de alguns tesoureiros da Ordem foi considerável. Foi o caso do irmão Aymard, homem de confiança de Filipe Augusto. Viram-no administrar o tesouro real, velar pelo valor das moedas, presidir às sessões do Tribunal Superior da Normandia e figurar entre os três executores testamentários de Filipe Augusto. Devem citar-se também Jean de Milli, o irmão Gillon e muitos outros. Convém, aliás, referir que, quando o tesoureiro do Templo de Paris geria o Tesouro real, era, na verdade, funcionário real e, nessa qualidade, era admitido no conselho do rei onde se decidiam as medidas relativas às finanças do reino. Isso chega para demonstrar a importância desse papel e o lobby financeiro que, na época, podia constituir a Ordem do Templo. No plano técnico, a gama de instrumentos desenvolvida pela Ordem era bastante vasta. Assim, Jules Piquet lembra que: Quando o Templo tinha de fazer um pagamento por débito numa conta, exigia uma carta emitida pelo cliente e pelo menos selada com o seu selo. Esse escrito era necessário para evitar as conseqüências jurídicas de um pagamento feito com ausência da vontade do titular da conta. Nesses «mandatos» do Templo figuravam a data de emissão, a quantia, o nome do beneficiário e do emitente, com o seu selo; o que equivale a dizer o conjunto de informações que figuram nos nossos cheques modernos. E, efetivamente, essas ordens funcionavam como cheques. Eram inclusive endossáveis, comportando menções que permitiam o pagamento a um terceiro ou a um representante. Ademais, uma forma de correspondência devia figurar na Ordem, indicando o motivo do pagamento, de modo a permitir a contabilização por tipo de

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