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Untitled - Ordem de Cristo

Ordem oficial, a um determinado momento, poderíamos compreender muito bem que alguns ritos possam ter deixado, com o tempo, de ser compreendidos e aplicados ao nível onde deveriam tê-lo sido. Quanto a determinados autores, pensaram que os Templários faziam uma distinção entre dois Jesus: o «filho de Deus» e aquele que morre na cruz, que não teriam sido uma mesma e única pessoa. Louis Charpentier escreve: A cruz é um suplício que, na Palestina, é exclusivamente romano. Sabe-se que os judeus lapidavam - se tivessem decidido a condenação à morte de Jesus, tê-lo-iam lapidado, como foi o caso de Estêvão. E acrescenta: Nunca um procurador romano teria condenado um homem por uma razão religiosa, se este não tivesse originado tumultos contra Roma. Aliás, a inscrição que figurava na cruz com as razões da execução não referia que Cristo se dizia filho de Deus, mas Rei dos judeus. O homem crucificado teria, pois, sido martirizado por ter querido proclamar-se rei, escarnecendo assim da autoridade romana na Palestina. A existência de duas personagens diferentes, depois amalgamadas nos textos sagrados, explicaria aliás muitos enigmas. Sem dúvida que isso permitiria compreender por que razão o Cristo que prega que deve estender-se a outra face quando nos batem, que declara que aquele que puxa da espada morrerá pela espada, pode, ao mesmo tempo, desculpar numa parábola (Lucas XIX, 27) um rei que diz: Tragam-me aqui os meus inimigos que não quiseram ter-me como rei e degolem-nos na minha presença. É também Cristo que afirma: Não penseis que vim trazer a paz à Terra, vim trazer não a paz mas a espada. Como conciliar: «Honra teu pai e tua mãe e que aquele que amaldiçoar o seu pai seja punido com a morte» e «Vim pôr a divisão entre o filho e o pai». Parece-nos que é este segundo aspecto de Jesus que pode parecer coerente com o que o Sinédrio diz a Pilatos: Eis aquele que encontrámos a agitar o nosso povo, a proibir que se pagasse o tributo a César e dizendo-se Cristo, o Rei. Não iremos emitir qualquer opinião sobre este tema aventureiro mas, de qualquer modo, temos de o analisar, na medida em que um dos segredos dos Templários teria sido, para alguns, a descoberta de documentos que revelavam esta dualidade da personagem de Jesus’. Alguns, entre os quais Robert Ambelain, não hesitam em ver nesta dualidade o sinal de que Cristo tinha um gémeo. Dois homens: o santo e o rei guerreiro. Entraríamos então no simbolismo da Ordem do Templo, o do monge e do guerreiro, o dos dois homens em cima do mesmo cavalo como mostra o seu selo mais célebre. Esses dois seres que, tal como Castor e Pólux, podem participar alternadamente no mundo celeste e no da matéria, circulando sobre esse eixo do mundo que a sua lança representa e montados num cavalo, animal psicopompo, enquanto o seu escudo ostenta o raio do carbúnculo, uma das formas do jogo que liga o Céu e a Terra. Se os Templários se inseriam efectivamente nesta lógica, seria compreensível que tenham visto no dualismo dos gnósticos uma abordagem interessante da divindade, mas também que tenham conservado o seu segredo para um círculo interior. É exacto que observamos, nos Evangelhos, a existência de um gémeo: Tomé, a quem São João chama Dídimo. Ora, em grego, dídimo significa gêmeo. O mais curioso é que Tomé também tem o sentido de gémeo, que vem do hebreu taoma. Tomé não seria um apelido ou um nome, mas sim uma designação. Acrescentemos que algumas passagens do Evangelho de São João podem fazer pensar que Jesus tinha irmãos. Uma vez mais, o que nos interessa aqui não é a validade destas teses. Bastaria que tivessem sido partilhadas, pouco ou muito, pelos Templários para se tornarem explicativas de um determinado número de mistérios. Mas digamos também que nada, absolutamente nada, permite afirmar que essas crenças tenham existido mesmo na Ordem do Templo; simplesmente, isso simplificaria a compreensão do enigma templário. A existência de uma dupla pessoa explicaria também a ambiguidade das relações que alguns julgaram poder discernir entre Jesus e Maria Madalena. Se Cristo é duplo e tem um irmão, se um é santo e o outro não o é... Observemos, de passagem, que os Templários dedicaram inúmeras casas e capelas a Maria Madalena, como, por exemplo, em Provins. Não ficaremos surpreendidos ao saber que Maria Madalena desempenha um papel importante nos escritos gnósticos fundamentais: a PistisSophia, os Livros do Salvador, o Evangelho de Maria, a Sophia de Jesus, o Evangelho de Filipe, o Evangelho de Pedro e o Evangelho de Tomé. No Evangelho de Filipe, lê-se: Cristo amava Madalena mais do que a todos os discípulos. Eles disseram-lhe: «Por que a amas mais do que a nós?» e Jesus respondeu: «Por que não vos amo como a ela?» Neste evangelho, Filipe precisa mesmo que Jesus beijava muitas vezes Maria Madalena na boca. Teriam os Templários conhecimento destes textos gnósticos? No caso afirmativo, que efeito teve isso sobre eles? É impossível dizê-lo. Talvez, um dia, a descoberta de um manuscrito esquecido numa cripta templária... Quem sabe? São Pedro e as chaves do Templo

73 De fato, quem detém as chaves do Templo é, sem dúvida, São Pedro. Alguns irmãos da Ordem afirmaram-no, aliás, asseverando que a negação de Cristo era feita para lembrar que também Pedro negara Jesus. Acompanhemos São Lucas, ao descrever a prisão de Cristo: Prenderam-no e levaram-no, introduzindo-o na casa do Sumo Sacerdote. Pedro seguia de longe. Tendo eles acendido uma fogueira no meio do pátio, sentaram-se ao redor, e Pedro sentou-se no meio deles. Ora, uma criada viu-o sentado perto do fogo e, encarando-o, disse: «Este também estava em companhia dele!» Ele, porém, negou: «Mulher, eu não o conheço.» Pouco depois, um outro, tendo-o visto, afirmou: «Tu também és um deles!» Mas Pedro declarou: «Homem, não sou.» Decorrida mais ou menos uma hora, outro insistia: «Certamente, este também estava com ele, pois é galileu!» Pedro disse: «Homem, não sei o que dizes!» Imediatamente, enquanto ele ainda falava, o galo cantou, e o Senhor, voltando-se, fixou o olhar em Pedro. Pedro então lembrou-se da palavra que o Senhor lhe dissera: «Antes que o galo cante hoje, tu me terás negado três vezes.» E saindo, chorou amargamente. Ora, inúmeros Templários afirmaram que lhes era pedido que negassem Cristo três vezes, como São Pedro. Mas, quem era Pedro? Na verdade, chamava-se Simão, filho de Jonas . «Pedro» era apenas um apodo. Nota: Foi nas «grutas de Jortas» que alguns templários se refugiaram, aquando da queda da Ordem, para fugirem à detenção. Seria interessante saber se foram eles que deram esse nome às grutas. Alain Marcillac lembra-nos que Petros, em hebreu, significa «aquele que abre», o que explica que detenha as chaves como atributos. Cristo disse-lhe: Tu és Pedro e sobre essa Pedra edificarei a minha Igreja e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus, tudo o que ligares na terra será ligado nos céus e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus. Existe um evangelho de Pedro particularmente querido da seita gnóstica dos Docetas. É interessante levantarmos a questão de saber qual era a ideia que se fazia de São Pedro na época dos Templários. Para tal, o melhor é socorrermo-nos de Jacques de Voragine, que escreveu a sua Lenda Dourada em meados do século XIII. Pedro «recebeu do Senhor as chaves do Reino dos Céus», é, portanto, o intermediário sonhado para aceder à iniciação. Segundo São Clemente, São Pedro tinha o hábito de se levantar, todas as manhãs, «ao cantar do galo» para fazer o exame de consciência e chorar abundantemente. O galo, presente no abraxas, acompanha, aliás, muitas vezes São Pedro, na iconografia. A propósito de Simão o mágico, Pedro teria dito a Nero: Tal como em Jesus Cristo há duas substâncias, a saber, a de Deus e a do homem, também neste mágico se encontram duas substâncias, a do homem e a do diabo. Acrescentemos que São Pedro esteve envolvido numa cena durante a qual Simão o mágico fez mexer a cabeça de um morto. Essa cabeça teria as características de um «baphomet»? Pedro tem a sua festa a 29 de Junho, no signo de Cancer, o signo oposto ao do nascimento de Jesus. Fica nesta terra para cumprir a sua missão depois do desaparecimento de Cristo. Na óptica dos Gémeos, Castor e Pólux, um está no Céu quando o outro está na Terra. Assim, em relação a Cristo, Pedro faz parte do mundo inverso. Aliás, não foi ele crucificado de cabeça para baixo? Na data de 29 de Junho, segundo Maurice Guingand, a constelação de Ofloco forma, com a cabeça e a cauda da serpente, aquele conjunto de estrelas a que os antigos chamavam serpentário. Este, que parece brandir duas serpentes, foi assimilado a São Pedro segurando as chaves do Paraíso. Mas, então, como não pensar no abraxas com cabeça de galo que figura no selo secreto da Ordem do Templo e que, ele próprio, segura na mão duas serpentes? E, depois, Pedro tem um ponto em comum com Maria Madalena. Segundo os textos (incluindo os heterodoxos), são, quer ela, quer ele, as primeiras pessoas com quem Cristo se encontra, depois da sua morte. A cena do encontro é relatada, nomeadamente, no Apocalipse de Pedro, um texto descoberto em Nag-Hammadi. É, sem dúvida, o único ponto comum, na medida em que Pedro não gosta nada de Maria Madalena e até «detesta a raça das mulheres». Daí que alguns ritos que instituem relações ambíguas entre homens estejam ligados a esta fama de Pedro detestar as mulheres? De qualquer modo, ele figura de chaves na mão, à direita de Cristo, no portal de Vézelay, tendo a seu lado Maria Madalena. Estou consciente de que, para muitos leitores que se interessam pela Ordem do Templo, ouvir falar de São Pedro como uma das chaves essenciais do seu conteúdo iniciático, constitui um espanto. Com efeito, para aqueles que se interessam pelo esoterismo, Pedro não apresenta, de um modo geral, qualquer interesse, ao contrário de João. Disse-se tanto que os Templários eram «Joanistas» que nos tornámos míopes, se não mesmo cegos, na análise dos seus mistérios. Em sentido estrito, nada confirma a ideia de que os Templários teriam podido privilegiar apenas o ensinamento de São João. Dedicaram-lhe um determinado número de capelas mas muito menos do que se afirmou. Teremos ocasião de voltar a esse ponto. Ademais, o acesso à palavra de São João pode exigir fases preliminares. Finalmente, fazemos mal em desprezar São Pedro que, ao fim e ao cabo, é o detentor das chaves. Correndo o risco de espantar

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