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REVISTA_DO_INSTITUTO_GEOGRAFICO_E_HISTOR

A minha primeira fonte

A minha primeira fonte de pesquisa, não podendo ser de outra forma, foi o professor Veiga. Dele foi possível registrar depoimentos enriquecedores, de quem foi próximo ao monge beneditino. Com ele também tive acesso a outros trabalhos gráficos, muitos deles originais, a exemplo do seu ex-libris finalizado em nanquim sobre papel. Surpreendentemente, ao abrir meu raio de pesquisa, constatei que Irmão Paulo Lachenmayer era um artista desconhecido inclusive no meio acadêmico. Apesar de alguns artigos encontrados em periódicos, foi percebida uma ausência de informações que fossem além dos dados biográficos, dos elogios às suas virtudes de caráter e artística, como também de reconhecimento e gratidão. Em verdade, muito pouco havia sido escrito sobre o monge artista. Nenhuma biografia, poucas análises, nenhuma taxologia. Intrigava-me aquele desinteresse por um artista tão raro. Quando, ainda sem muita experiência em pesquisa acadêmica, iniciei as investigações, tive a oportunidade, graças à confiança do Abade Dom Emanuel d’Able do Amaral de me confrontar com um extenso arquivo de Irmão Paulo. Sem uma metodologia pré-estabelecida, o desfecho daquela fase de pesquisa foi uma coletânea fotográfica dos documentos disponíveis, que foram impressos e organizados por temas. Brasões, capas de livros, plantas arquitetônicas, ex-libris, ilustrações sacras, rascunhos, identidades visuais, fotografias pessoais e correspondências. Já em outra etapa, foram mantidos contatos com os amigos remanescentes de Irmão Paulo, entre eles o historiador Cândido da Costa e Silva, o artista plástico Mário Cravo Junior, o crítico de arte Pedro Moacir Maia, o Abade Dom Emanuel do Amaral, o embaixador português Jorge Preto, Dom Gregório Paixão OSB, Dom Ivan Andrade OSB e Madre Elisabeth, do Carmelo da Bahia. Ao concluir aquela fase de entrevistas pude descobrir que o meu vínculo com Irmão Paulo se tratava, em verdade, de uma missão. A missão de levar o nome e a obra de Irmão Paulo Lachenmayer para um lugar merecido na história das nossas artes. Em movimento de grande confiança, trabalhos feitos por Irmão Paulo me foram oferecidos por pessoas que enxergaram a necessidade de um estudo sobre o artista 168 | Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 165/176, jan./dez. 2013

de São Bento. Passei a ter em mãos um material que demandava uma sistematização. A pergunta que surgiu foi: Como organizar tantas informações? A resposta encontrada foi o Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Belas Artes da UFBA, a quem sou muitíssimo grato. Ao concluir o mestrado em 2012, mais do que responder as hipóteses de um trabalho acadêmico, havia conquistado a certeza de que estava lidando com um artista diferenciado em nosso acervo, graças à sua rica história pessoal e à sua formação artística ímpar em nossa cultura. Irmão Paulo nasceu em 1903, sendo seu nome de batismo Ernst Lachenmayer. Sua pequena cidade natal, Langenargen, está situada no sudoeste alemão, no Estado de Baden-Wurttemberg, às margens do Lago de Constança que faz fronteira também com a Suíça e a Áustria. Naquela passagem de século, os alemães viveram, nas palavras do germanista francês Louis Dupeux, “[...] a mais rica e certamente a mais complexa história cultural do continente europeu” (DUPEUX, 1992, p. 13). Inserido naquela realidade, Irmão Paulo testemunhou, de perto, as consequências de três grandes momentos da história da Alemanha: A unificação alemã, a Revolução Industrial e a Primeira Guerra Mundial. A unificação dos reinos germânicos aconteceu apenas 32 anos antes do nascimento de Irmão Paulo. Isto é, em 1871. A afirmação do germanismo, o pensamento subjetivo do romantismo, a oposição ao racionalismo mediterrâneo, a busca de uma identidade nacional, faziam parte da mentalidade alemã onde o jovem Lachenmayer se formou. A consolidação do capitalismo financeiro atingiu gravemente a maior fatia de trabalhadores alemães, composta em sua maioria de camponeses e artesãos, categorias que estavam incluídos, respectivamente, a mãe de Irmão Paulo, Mathilde Bachmor e o pai, Albert Lachenmayer. Os efeitos das mudanças acontecidas na sociedade alemã foram sentidos pela família Lachenmayer. Irmão Paulo nasceu em família humilde e católica. Quando tinha apenas dois anos de idade, o pai se mudou com a família para Ravensburgo, cidade vizinha e mais promissora. Fugindo da crise, montou um Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 165/176, jan./dez. 2013 | 169

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