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REVISTA_DO_INSTITUTO_GEOGRAFICO_E_HISTOR

Considerando o fato de

Considerando o fato de que praticamente 70% da programação da Itapoan era transmitida ao vivo, o sucesso e a popularidades dos apresentadores era um fato, mas muitas falhas, erros técnicos, alguns até considerados folclóricos, também foram cometidos. Apresentadores e artistas da emissora eram identificados nas ruas e restaurantes da cidade, sendo assediados por fãs que solicitavam autógrafos. Foi baseado nessa popularidade que Newton Paz, um diretor da emissora e apresentador do programa “Escada para o sucesso”, chegou a se candidatar, sem obter sucesso, a uma vaga na Assembleia Legislativa, usando em sua campanha o seguinte slogan: “Se em cada casa que tiver um aparelho de televisão eu tiver um voto, estou eleito”. Dentre as folclóricas gafes cometidas pela Itapoan, destaca-se a que envolveu o radialista paulista Gastão do Rego Monteiro. Como ele fazia sucesso com um programa radiofônico intitulado “Na Polícia e Nas Ruas”, acabou sendo escolhido para fazer um programa de variedades na televisão, entrecortado com quadros de entrevistas. Certo dia, irritado com o não comparecimento de uma autoridade convidada, ele resolveu dar prosseguimento ao programa, substituindo a autoridade por um jumento. O animal foi levado ao estúdio, ocupando o lugar da autoridade ausente e, enquanto as perguntas eram feitas e dirigidas em off, a imagem do jumento era transmitida em substituição a da autoridade. A partir de então, nenhuma autoridade aceitou ser entrevistada pelo “entrevistador do jegue”. Como também o convidado não gostou da substituição, o Gastão foi forçado a desaparecer de Salvador para não criar problemas maiores. O programa dele acabou deixando de ser transmitido. Dentre as inúmeras mancadas cometidas nos primeiros anos da TV Itapoan, quando todos os programas eram transmitidos ao vivo, destacam-se a acontecida no programa “Os Bichos e a Bruxa”, que acabou exatamente no dia em que os produtores resolveram fazer a bruxa voar de verdade. Deram uma vassoura à bruxa, passaram uma corda pela cintura da atriz e prenderam a outra ponta numa plataforma. Tudo foi planejado nos mínimos detalhes, mas quando o programa entrou no ar com o sensacional voo, a bruxa despencou do alto arrastando o cenário. Quem assistiu ao programa ainda se lembra da expressão assustada, ou de medo, da feiticeira. 186 | Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 177/193, jan./dez. 2013

De outra feita, uma garota-propaganda, que havia sido treinada para anunciar um produto ao vivo, vomitou no ar. No dia da estréia da propaganda, com a presença do cliente, no momento exato em que ela começou a apresentar o produto, uma mosca entrou na boca da garota, que não resistiu e vomitou no ar. Alguns telespectadores mais antigos e que assistiram a cena contam que “[...] o vômito foi tão real que parecia que era em cima da gente”. A existência de moscas nos estúdios da Itapoan era um problema e só era explicado devido à proximidade de um curral nas redondezas. Observe-se que por causa das moscas, muito artista importante também já vomitou. A atriz Sônia dos Humildes, por exemplo, bebeu chá com mosca e, profissionalmente, esperou sair do ar para dar vazão ao nojo. Na época os produtores, diretores e apresentadores não podiam contar com a ajuda de recursos tecnológicos e tudo dependia muito do poder de imaginação e de improvisação de cada um. Para fazer uma abertura de programa, ou ilustrá-lo, era preciso improvisar com cartolina ou madeira. Por muito tempo a Itapoan funcionou com apenas quatro câmeras (duas fixas, presas no chão, e duas móveis), inclusive para transmissão de novelas ao vivo. Comentando a época das improvisações na TV Itapoan, José Jorge Randam, um dos primeiros apresentadores televisivos da Bahia, relembra em depoimento a este autor: O telejornalismo era uma aventura: o cinegrafista saía com uma câmera manual, tendo ao seu lado um repórter que anotava os dados para o texto final. Chegando ao laboratório da TV, o filme era revelado e enxugado à base de ventiladores e daí seguia para a sala do chefe de jornalismo que visualizava o produto em negativo juntamente com o locutor apresentador e o repórter para a montagem do texto na sequência das imagens que seriam transmitidas. Era um verdadeiro ensaio, pois as imagens das películas só seriam positivadas na mesa da engenharia, tornando-se visível para o telespectador. [...] Foi uma época fantástica em que se conseguia substituir a tecnologia inexistente pela sensibilidade e criatividade dos profissionais que passaram a amar o novo veículo assim que ele se Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 177/193, jan./dez. 2013 | 187

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