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REVISTA_DO_INSTITUTO_GEOGRAFICO_E_HISTOR

‘negro branco’

‘negro branco’ porque era tão respeitada” (Landes 1947: 14) 1 . Carneiro também aprendeu falar e escrever inglês e traduziu alguns livros do português ao inglês. A educação e classe de Carneiro ascendeu-se acima da maioria da classe baixa negra, mas ele se relacionou com o povo negro baiano e representou-o como uma escolha política. Esta posição como um mestiço chamou muito atenção no relacionamento de Carneiro com Landes, não só por causa da diferença entre suas nacionalidades e gêneros, mas também pela diferença entre suas raças. Após formar-se na faculdade de Direito na Universidade Federal da Bahia, Carneiro trabalhou como jornalista no proeminente O Estado da Bahia. Ele escrevia sobre os problemas da comunidade de candomblé e afro-brasileiros em Salvador, revisando o “discurso hostil” com reportagens que “[...] pareceriam ter marcado uma nova perspectiva dos jornais e jornalistas sobre a cultura afro-baiana” (Braga 1999: 204 2 ). Ele fazia trabalho de campo nos terreiros de candomblés e formava conexões com os líderes e membros dos terreiros para entender melhor as perspectivas de seus sujeitos e interagir com a cultura. Landes também acreditava nessa abordagem de pesquisa; ela preferia formar conexões pessoais para entender a cultura. Esta perspectiva mútua facilitou a forte ligação e colaboração inicial entre eles. Nessa época, as atividades dos terreiros eram exclusivamente para os membros; acesso por estrangeiros e pessoas de fora era proibido. Historicamente, a polícia e o governo represavam a prática de candomblé e viam-na como uma forma de magia preta, superstição e uma ameaça à sociedade brasileira. O Código Penal de 1890 na Bahia discriminava as práticas culturais dos afro-brasileiros e proibia a capoeira, a percussão da moda africana e o “comportamento errante” dos negros em público (Varela 2007: 35*). O governo tinha medo que os negros pudessem organizar-se em grupos e, por exemplo, fa- 1 Eu comecei esta pesquisa em língua inglesa e usei a versão do livro The City of Women de Ruth Landes publicada nos Estados Unidos em 1947. Minhas citações são desta versão publicada em 1947, traduzidas por este ensaio em língua portuguesa pela autora. As fontes não são do livro publicado em Português, A Cidade das Mulheres, traduzido por Maria Lúcia do Eirado Silva, no ano 1967. 2 Todas as fontes com um asterisco (*) foram traduzidas pela autora. 80 | Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 77/106, jan./dez. 2013

zer rebeliões contra o governo racista. 3 Este Código mudou com a formação da República Velha em 1930, mas as mesmas ideias e sentimentos continuavam. A proximidade que Carneiro, e especialmente Landes, tinham como pessoas fora do candomblé era bem especial e rara nessa época. Em suas pesquisas e abordagens, eles mostraram respeito e interesse verdadeiro pela religião com raízes africanas sem ser praticantes. Dona Aninha, uma mãe de santo bem prestigiosa e importante no terreiro Île Axé Opo Afonjá, na década de 1930, reconheceu Carneiro como um homem com grande potencial de servir ao seu terreiro. Para representar-se em público os terreiros elegem ogãs, ou pessoas poderosas fora da comunidade para fornecer apoio, dinheiro e proteção aos terreiros. Isso era muito importante nessa época, quando o estado e a polícia represavam o candomblé. Dona Aninha designou-o como um ogã e deu-lhe a autoridade de representar a comunidade em seus trabalhos acadêmicos e profissionais (Landes 1947: 35, 72). Carneiro usava esta designação em suas pesquisas nos terreiros, seus trabalhos etnográficos, artigos no jornal O Estado da Bahia e seu relacionamento com Landes. Os trabalhos de Carneiro e Landes nos Estudos Afro-Brasileiros responderam aos teóricos de Nina Rodrigues, Artur Ramos e Gilberto Freyre. Rodrigues, um médico baiano e pesquisador na década de 1900, foi o primeiro acadêmico a colecionar data empírica de campo para analisar fenômenos medicais na população afro-baiana. O racismo biológico guiou seus estudos e ele acreditava na igualdade de raça e genética para explicar a inferioridade dos negros. Ele produziu trabalhos importantes e complicados com uma atitude, como a historiadora Anadelia Romo descreve como “pessimismo racial e envolvimento cultural” (Romo 2010: 29*). O estudante de Rodrigues, Artur Ramos, continuou com seu legado com a perspectiva psicoanalítica. Ramos focalizou nas particularidades da população afrodescendente em termos da psicologia e da preservação dos traços africanos no contexto brasileiro. Mas essa 3 Rebeliões e revoltas já aconteceram várias vezes na história da Bahia e do Brasil. Os exemplos mais conhecidos são a Rebelião Malê e o rei Zumbi do quilombo dos Palmares. Rev. IGHB, Salvador, v. 108, p. 77/106, jan./dez. 2013 | 81

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