Gestão Hospitalar 2002
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Setembro de <strong>2002</strong> • € 7<br />
Nos próximos quatro anos<br />
Portugal ·preside<br />
à Associacão ,<br />
Eurepeia de Gestores<br />
.. HoSpitalares<br />
Maria de Belém<br />
Vice-pr.esidente<br />
do Grupo<br />
Parlamentar do PS<br />
As opiniões de:<br />
Aranda da Silva<br />
· Bastonário<br />
da Ordem<br />
dos Farmacêuticos<br />
Prémio para <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>
\<br />
1<br />
- ui i retoma o contacto com os seus kitores numa época<br />
de grandes expectativas ele mwlança na área da Saúde.<br />
Interessa--nos manter uma revista viva e actualizada<br />
em que as novidades da política se misturem com a opinião<br />
e com artigos ele natureza técnico--cientifica.<br />
Por isso, a participação do kitor, administrador hospitalar<br />
ou de outra área profissional será sempre bem--vinda.<br />
Pretendemos ser um espaço aberto às diferentes correntes<br />
de opinião, sem tiques ou preconceitos ideológicos,<br />
ele conveniência politico--partidária ou outros.<br />
• A reforma da Saúde está na ordem do dia!<br />
Parece nunca ter deixado ele estar, pois há bem mais<br />
de 20 anos que os responsáveis políticos e os especialistas<br />
têm utilizado o "slogan". Mas as decisões vêm--se perdendo<br />
nos labirintos da oportunidade, dos interesses mais ou menos<br />
rivais, dos ciclos políticos.<br />
• O actual Governo parece decidido em introduzir mwlanças<br />
importantes na Saúde.<br />
A nova ki de gestão hospitalar e o regime jurídico<br />
das parce1ias recentemente publicado são sementes novas<br />
das quais se esperam frutos apetitosos e bem calibrados para a<br />
eficiência e qualidade dos nossos hospitais e para a descoberta<br />
de novas e mais fáceis f antes de investimento.<br />
• O modelo parece tender, inexoravelmente, para menos<br />
Estado (no investimento e na prestação) e melhor Estado<br />
(na responsabilidade e na regulação) .<br />
Mas há, pelo contrário, quem veja na privatização<br />
de algumas funções do sistema, a marca ideológica<br />
do liberalismo, do mercado sem regras, da iniquidade e da<br />
queda fragorosa dos valores fundamentais com que foi tecido<br />
o SNS (gratuitidade, generalidade, universalidade).<br />
• As decisões políticas são aparentemente mais fáceis<br />
do que a sua impkmentação técnica e jurídica, na forma<br />
de equilibrar valores ele um Sistema de Saúde europeu<br />
actualizado com a versatilidade inerente a mecanismos<br />
de privatização e competitividade.<br />
• Mas era e é indispensável mwlar o Sistema, tal a natureza<br />
e o circunstancialismo dos problemas com que os portugueses<br />
se defrontam diariamente quando procuram um médico<br />
ou um hospital. E as resistências à mwlança apenas confirmam<br />
a justeza das intenções.<br />
• A atitude defensiva dos que invocam o honroso 12 º lugar ele<br />
Portugal no ranking da OMS ou os resultados ele um ou outro<br />
estudo que, excepcionalmente, "demonstram" a satisfação<br />
dos portugueses com o SNS, para que nada se mude, esquece<br />
a fragilidade dessas demonstrações perante o dia--a--dia das<br />
organizações ele Saúde , o desnorte , a humilhação e a resigrwção<br />
ele muitos doentes sem "almofada", o desperdício, sem nome,<br />
de horas de trabalho pagas, os excessos no consumo ele<br />
medicamentos ou ele meios compkmentares ele diagnóstico.<br />
E tudo isto com um crescimento brutal da despesa corrente.<br />
• Mas o serviço público, designadamente nos hospitais, não<br />
deve ser visto com as kntes do fundamentalismo liberalizador<br />
que percorre vários sectores do "politicamente correcto"<br />
nacional. É nos hospitais públicos que se encontra<br />
os melhores recursos humanos da Saúde<br />
(ao nível médico, de enfermagem, técnico e de gestão) , os<br />
melhores e mais diversificados equipamentos médicos , o melhor<br />
e o mais compkxo sistema de inf armação e, apesar ele tudo,<br />
a melhor organização ( ! ) . Não tenhamos dúvidas que o sector<br />
público é o sustentáculo do sistema de Saúde português, a<br />
quem recorrem todas as classes sociais (e muitos doentes que<br />
vêm recomendados por prestadores privados ... ) . O "know-<br />
how" privado em matéria ele gestão hospitalar é, entre nós,<br />
muito limitado em qualidade e dimensão, e basta percebermos<br />
o regime de funcionamento da maioria das clínicas privadas<br />
portuguesas para verificarmos a "ligeireza" da sua organização,<br />
a fragilidade do seu "staff', a ekvada dependência<br />
da experiência e dimensão dos recursos públicos.<br />
• Os administradores hospitalares há muito que vêm<br />
apontando os probkmas e a sua génese. Estão disponíveis<br />
para se associar às ref armas que agora parecem de facto ,<br />
iniciar--se. Mas precisam de ter as condições ele reconhecimento<br />
e autoridade que lhes permita liderar e conduzir as<br />
transformações necessárias. Não se fazem reformas na Saúde<br />
contra os profissionais, diz--se e é verdade. Mas também não se<br />
pode introduzir mais e melhor gestão no sistema sem gestores.<br />
• É, por isso, no mínimo estranho, que cerca de 90<br />
administradores hospitalares, devidamente habilitados, na sua<br />
esmagadora maioria jovens profissionais com provas dadas,<br />
com espírito aberto e adaptável a mwlanças, exerçam, alguns<br />
há mais de seis anos, a sua actividade de gestores em hospitais<br />
portugueses com contratos precários de 3 meses e sujeitos<br />
à situação humilhante de verem os seus contratos objecto<br />
ele ratificações autorizadoras periódicas.<br />
Sucessivos governos têm negligenciado esta questão, num<br />
aparente desinteresse em reforçar, ele facto, a componente da<br />
gestão profissional dos nossos hospitais. Esperemos que o actual<br />
Governo tenha, na política dos recursos humanos, uma visão<br />
menos imediatista e ao sabor das pressões e tenha a coerência<br />
de reconhecer a importância dos gestores hospitalares.<br />
GESTÃO HOSPITALAR ~
R evista da Associação Portuguesa<br />
de A dministradores H ospitalares<br />
Membro da A ssociação Europeia<br />
de Directores H ospitalares<br />
DIRECTORA<br />
Armanda Miranda<br />
CONSELHO REDACTORIAL<br />
Ana Isabel Gonçalves<br />
Teresa Sustelo<br />
Jorge Poole da Costa<br />
Manuel Ligeiro<br />
Manuel Delgado<br />
Pedro Lopes<br />
PROPRIEDADE<br />
Associação Portuguesa de<br />
Administradores <strong>Hospitalar</strong>es<br />
Empresa jornalística n º 209259<br />
Apartado 22801<br />
1146 Lisboa Codex<br />
ADMINISTRAÇÃO E ASSINATURAS<br />
APAH Apartado 22801<br />
1146 Lisboa Codex<br />
PRODUÇÃO GRÁFICA<br />
A ugusto Teixeira<br />
ASSINATURA ANUAL ~ € 25<br />
PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL<br />
TIRAGEM ~ 2.000 exemplares<br />
Nº Registo 109060<br />
Depósito legal nº 16288/87<br />
ISSN: 0871 - 0776<br />
NORMAS EDITORIAIS<br />
I º A Revista aceita trabalhos sobre qua/,quer assunto relacionado<br />
com o tema geral da gestão de serviços de saúde entendida esta<br />
no seu mais amplo sentido.<br />
2º Os artigos deverão ser enviados ao Director. A este caberá<br />
a responsabilidade de aceitar, rejeitar ou propor modificações.<br />
3º Os artigos deverão ser enviados em duplicado (incluindo quadros<br />
e figuras), dactilografados a duas entrelinhas em folha<br />
de formato A4. Em cada folha não deverão ser dactilografadas<br />
mais de 35 linhas . As folhas serão numeradas em ordem sequencial.<br />
4 º Os artigos deverão ser acompanhados, sempre que possível,<br />
por fotografia do( s) autor( es), tipo passe.<br />
5º Os trabalhos deverão conter em folhas separadas o seguinte.<br />
a)~ Título do trabalho , nome(s) do(s) autor(es) e pequeno esboço<br />
curricular do( s) autor( es), principais funções ou títulos,<br />
até ao máximo de dois;<br />
b) - Pequena introdução ao artigo até ao máximo de uma página<br />
dactilografada;<br />
c)- O texto;<br />
d) - Quadros com títulos e legendas (folhas autónomas);<br />
e)- Gráficos desenhados a traço de tinta-da-china sobre papel<br />
vegetal sem números ou palavras;<br />
Editorial ........................................... Pág. 3<br />
Opinião<br />
• Manuel Delgado ...................... Pág. 5<br />
• M.A. Pereira Barbosa ............. Pág. 9<br />
• Menezes Correia .................... Pág. 12<br />
• Jorge Varanda ......................... Pág. 14<br />
Espaço Aberto<br />
Sistema de saúde em questão<br />
por Maria de Belém,<br />
Aranda da Silva<br />
e Bernardino Soares .................. Pág. 16<br />
Destaque<br />
Nova Lei de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />
- Proposta de Lei n 2 15/IX,<br />
Regime Jurídico da <strong>Gestão</strong><br />
<strong>Hospitalar</strong> e a posição<br />
da APAH ...................................... Pág. 26<br />
Notícias<br />
Portugal preside<br />
à Associação Europeia<br />
de Gestores <strong>Hospitalar</strong>es .......... Pág. 32<br />
Investigação<br />
• Avaliação de serviços de saúde:<br />
uma reflexão urgente ............. Pág. 38<br />
• Variação na Codificação<br />
dos Procedimentos ICD-9-CM:<br />
As suas implicações para avaliação<br />
da utilização dos recursos<br />
hospitalares ............................ Pág. 44<br />
Setembro de <strong>2002</strong> • 7<br />
Prémio<br />
para <strong>Gestão</strong><br />
<strong>Hospitalar</strong><br />
Pág.37<br />
19~ Congresso<br />
daEAHM<br />
em Cracóvia<br />
Pág. 33<br />
APAH recebida<br />
pelo Ministro<br />
da Saúde<br />
Pág.34<br />
Secretário de<br />
Estado Adjunto<br />
do Ministro da<br />
Saúde reuniu<br />
com a Direcção<br />
da Associação de<br />
Administradores<br />
<strong>Hospitalar</strong>es<br />
Pág.35<br />
f)- Títulos, legendas nu elementos dns gráficos escritos em folhas<br />
de fotocópias destes , à parte;<br />
g)- Fotografias numeradas no verso, a lápis , segundn a nrdem<br />
de entrada no texto e respectivas legendas;<br />
h) - Pequenos resumos do artigo em língua francesa e inglesa,<br />
incluindo títulos;<br />
i)-Os originais, não deverão conter pés-de página. Tndas as<br />
referências bibliográficas completas serão inseridas no final<br />
do artigo.<br />
6 º Nas referências bibliográficas , os autores são colocados por ordem<br />
alfabética (apelido seguido das iniciais do nome) , seguindo~se o título<br />
completo do artigo, o título abreviado da Revista, o número<br />
do volume, os números da primeira e última páginas e o ano<br />
da publicação .<br />
O Editorial e os Artigos não assinados são da responsabilidade<br />
da Direcção da Associação .<br />
Os Artigos assinados são ela exclusiva responsabilidade dos seus<br />
autores, não comprometendo a Associação com os pontos de vista<br />
neles expressos. Embora merecendo a melhor atenção, a colaboração<br />
-não solicitada não será devolvida, reservando-se o direito<br />
de a publicar ou não.<br />
' 1<br />
•,<br />
'Os traços<br />
•<br />
mais<br />
marcantes<br />
do programa<br />
do Gov~rno<br />
para<br />
a Saúde são<br />
a abertura<br />
do sector<br />
' . . . .<br />
a iniciativa<br />
privada,<br />
comum<br />
modelo mais<br />
concorrencial<br />
•<br />
e com maior<br />
liberdade<br />
de escolha.<br />
,<br />
PROGRAMA DASAUDE:<br />
CONTINUIDADE OU MUDANÇA?<br />
Po r Manuel Delgado*<br />
D<br />
A abertura do sector da Saúde<br />
à iniciativa privada, quer<br />
na vertente do financiamento,<br />
quer na vertente da prestação, são,<br />
a par de um modelo mais concorrencial<br />
e com maior liberdade de escolha para<br />
os utentes, os traços mais marcantes do<br />
programa da Saúde do actual Governo.<br />
Diga ~ se, em abono da verdade, que<br />
a política seguida pelo último ministro<br />
socialista, Correia de Campos,<br />
apontava já caminhos semelhantes<br />
nalguns domínios, designadamente<br />
nas referências às parcerias<br />
público~privado e na admissão<br />
de modelos de gestão hospitalar<br />
de natureza empresarial, incluindo<br />
a própria gestão privada<br />
de estabelecimentos públicos.<br />
Mas o actual Governo vai, porventura,<br />
mais longe nas suas intenções,<br />
designadamente no domínio<br />
do mercado da Saúde e dos respectivos<br />
fluxos da procura e da oferta<br />
de cuidados e os correspondentes<br />
fluxos financeiros.<br />
ri] Há quem veja neste tipo de<br />
~ estratégias o "canto do cisne"<br />
do SNS enquanto referencial de valores<br />
estruturantes da nossa sociedade<br />
e da nossa Lei fundamental:<br />
a universalidade, a equidade<br />
e a gratuitidade tendencial.<br />
Essencialmente porque pensam<br />
que estes valores só serão asseguráveis<br />
com dispositivos de propriedade,<br />
organização, financiamento<br />
e prestação públicos, num modelo<br />
único, compacto e integrado,<br />
ao serviço do cidadão.<br />
Percebe~se a preocupação, mas apenas<br />
por rigidez ideológica se aceita<br />
o "fixismo" neste modelo público<br />
integrado, cujos resultados,<br />
para além de evidentes bolsas<br />
de desperdício e do aumento<br />
incontrolável dos custos, tem provocado<br />
nos cidadãos sinais evidentes<br />
de insatisfação e a procura, quando<br />
podem, de sub ~ s istemas paralelos<br />
de prestação de cuidados.<br />
[jl O programa do G overno parece<br />
11.J assentar num arquétipo que está<br />
de acordo com o sentido das Reformas<br />
da Saúde ocorridas na Europa e noutros<br />
continentes e que os peritos, nacionais<br />
e internacionais, vêm recomendando:<br />
um Estado mais regulador do que<br />
prestador, o princípio da concorrência<br />
entre prestadores, sem pôr em causa<br />
a cooperação e a complementaridade,<br />
a ideia de que financiamento<br />
e prestação de cuidados devem ser<br />
funções exercidas por entidades<br />
separadas, cuja "mediação" se exercita<br />
por modelos contratuais, a assumpção<br />
da liberdade de escolha por parte<br />
dos cidadãos, como forma mais eficaz<br />
de o colocar no centro do sistema.<br />
lfl Este enunciado de princípios deve,<br />
íi j no entanto, ser encarado com<br />
flexibilidade, perspicácia e bom senso.<br />
Cada país é uma combinação especifica<br />
de características estruturais, logísticas<br />
e operacionais e cada um daqueles<br />
objectivos dever ser integrado<br />
com maior ou menor radicalismo<br />
ou aprofundamento e ao ritmo que -'.,<br />
as circunstâncias melhor aconselhem.<br />
Até porque o peso exces ·<br />
qualquer das recomenda ões s~ge · ~CfSUBUCA<br />
pode contrariar outros v<br />
sobretudo, pôr em causa<br />
útil de qualquer reforma<br />
acesso equitativo a cuid dos p<br />
de Saúde de qualidade a lrc:iiu
( ... )<br />
para o cidadão<br />
doente será<br />
relativamente<br />
indiferente<br />
saber se o<br />
hospital em que<br />
é tratado é<br />
pertença do<br />
Estado ou<br />
de particulares,<br />
desde que o seu<br />
contributo ou<br />
pagamento seja<br />
zero ou próximo<br />
do zero, em<br />
qualquer<br />
circunstância.<br />
E a equidade<br />
no acesso fica<br />
assegurada.<br />
~ Vem isto a propósito de algumas<br />
~ propostas do Governo em matéria<br />
de financiamento. Refira,se, desde já,<br />
que esta é, porventura, a dimensão<br />
essencial de qualquer sistema<br />
de Saúde quando se põe a ênfase<br />
na equidade no acesso aos cuidados.<br />
Na realidade este não depende<br />
tanto de quem é proprietário dos meios<br />
de produção, antes, essencialmente,<br />
de quem dispõe dos meios<br />
de pagamento.<br />
Isto é, se por absurdo o Estado<br />
abandonasse completamente<br />
a responsabilidade de financiar<br />
a Saúde, esta seria paga pelas pessoas<br />
doentes ou as que tivessem<br />
disponibilidade ou possibilidade<br />
de aderir a seguros de Saúde.<br />
A equidade seria severamente<br />
posta em causa.<br />
Pelo contrário, se o Estado, ou uma<br />
entidade pública por ele supervisionada,<br />
garantirem o financiamento da Saúde,<br />
para o cidadão doente será<br />
relativamente indiferente saber se<br />
o hospital em que é tratado é pertença<br />
do Estado ou de particulares,<br />
desde que o seu contributo ou<br />
pagamento seja zero ou próximo<br />
do zero, em qualquer circunstância.<br />
E a equidade no acesso fica assegurada.<br />
No programa do Governo o Estado<br />
compromete,se, perante o cidadão,<br />
a custear as despesas "essenciais" (1)<br />
de Saúde, independentemente da<br />
natureza pública, social ou privada<br />
dos prestadores. É esta noção, assente<br />
numa "tabela de preços para a Saúde"<br />
- supõe,se que de aplicação universal -<br />
que pe~mitirá ao utente movimentar~se<br />
com total liberdade de escolha<br />
entre os diferentes sectores.<br />
Ou seja, se por hipótese num hospital<br />
público a realização da sua cirurgia<br />
é diferida por 30 dias, o utente<br />
pode optar por se dirigir a uma clínica<br />
privada onde tal prazo seja encurtado<br />
para metade.<br />
O pagamento público desse episódio,<br />
com base na referida tabela,<br />
será "transferido" do hospital<br />
público para a clínica privada.<br />
Do mesmo modo, se o utente, por<br />
questões de confiança ou de conforto,<br />
optar desde logo, por uma clínica<br />
privada, a verba prevista será também<br />
transferida do financiador público<br />
para o prestador privado.<br />
Por razões de mercado, as clínicas<br />
privadas poderão oferecer serviços<br />
complementares em matéria<br />
de privacidade e conforto que,<br />
naturalmente, representarão<br />
acréscimos à "tabela de preços"<br />
pública e que serão suportadas<br />
pelo doente, directamente ou através<br />
de seguros privados de<br />
complementaridade que ele<br />
previamente contratualize.<br />
Em tese, tal modelo não fere o princípio<br />
de equidade, utiliza a concorrência<br />
entre o público e o privado<br />
em benefício do utente<br />
e pode promover a eficiência.<br />
~ Todavia, as características dos<br />
llJ prestadores de cuidados de Saúde<br />
são em Portugal factor perturbador<br />
da lógica que vimos referindo. O facto<br />
de muitos profissionais acumularem<br />
funções públicas com funções privadas,<br />
designadamente na área médica,<br />
pode desvirtuar seriamente o princípio<br />
da concorrência, designadamente,<br />
como é o caso de Portugal, se nos<br />
serviços públicos se ganhar por salário<br />
e na privada se receber por acto.<br />
É óbvio que o privilégio a atribuir a<br />
esta modalidade remuneratória poderá<br />
favorecer as clínicas privadas<br />
em detrimento do serviço público.<br />
Por outro lado, os serviços públicos<br />
encontram~se numa situação adversa<br />
relativamente às clínicas privadas<br />
no que toca à oferta de cuidados que<br />
ambos disponibilizam. Em princípio,<br />
os serviços públicos oferecem uma gama<br />
diversificada e completa de cuidados<br />
de Saúde, muito mais de acordo<br />
com as necessidades da população<br />
e com uma capacidade de resposta<br />
ao longo das 24 horas do dia.<br />
As clínicas privadas procuram<br />
legitimamente nichos de mercado,<br />
em função de teçnologias específicas<br />
em geral destinadas a doentes<br />
programados.<br />
Tal cenário, se nada nos seus<br />
pressupostos for alterado, permitirá<br />
às clínicas privadas actuar com mais<br />
racionalidade, maior previsibilidade<br />
nos meios a afectar e melhor adequação<br />
da sua escala de produção.<br />
líiJ Deste modo, a introdução<br />
ri das regras de concorrência<br />
e de livre circulação dos doentes<br />
dentro do sistema encaminhará os<br />
fluxos da procura em determ inado tipo<br />
de patologias específicas, programáveis<br />
e não catastróficas ou crónicas, para<br />
a prestação privada, ficando os serviços<br />
públicos com as situações clínicas<br />
mais severas. Isto está tambétn muito<br />
associado à idade dos doentes, sendo<br />
os mais idosos geralmente portadores<br />
das doenças de abordagem mais difícil<br />
e de prognóstico mais reservado.<br />
Concomitantemente, as<br />
complementaridades oferecidas<br />
pelas clínicas privadas - em matéria<br />
de personalização e conforto - são uma<br />
mais,valia atractiva, designadamente,<br />
para os estratos sociais que possam pagar<br />
esses complementos, com vantagem não<br />
negligenciável nos benefícios fiscais.<br />
É o que os peritos denominam como<br />
a "desnatação" dos serviços públicos<br />
com graves consequências, em matéria<br />
de financiamento e qualidade para estes<br />
e, principaltnente, para os doentes que<br />
aí ficam, tendencialmente mais velhos,<br />
mais doentes e mais pobres.<br />
fel O mercado, a todos os títulos<br />
r..J imperfeito e essencialmente<br />
comandado pelos prestadores,<br />
concorreria assim para um Sistema<br />
de Saúde dual, com serviços privados<br />
cada vez mais sofisticados a funcionar<br />
para nichos de mercado específicos,<br />
e serviços públicos empobrecidos,<br />
de resposta diversificada e urgente para<br />
os pobres, os idosos e os mais doentes.<br />
O princípio da equidade no acesso,<br />
que se pretendia enaltecer, ficaria assim<br />
irremediavelmente comprometido.<br />
Por outro lado, a passagem do actual<br />
modelo - integrado e monopolista -<br />
para o novo modelo - contratualizado<br />
e competitivo - deve ser realizada num<br />
processo gradual e sustentado que não<br />
provoque a ruptura do sistema. De facto,<br />
o florescimento rápido de uma oferta<br />
privada ou social de cuidados de<br />
Saúde (incentivada pela introdução<br />
das regras agora enunciadas pelo<br />
Governo), pode, de forma dramática,<br />
aumentar ainda mais a subutilização<br />
dos recursos públicos instalados.<br />
E como não detemos instrumentos<br />
que flexibilizem a aquisição ou dispensa<br />
de recursos - quer humanos, quer<br />
materiais - o cenário poderia ser<br />
economicamente insustentável.<br />
rii O programa do Governo parece<br />
~ querer acautelar este cenário<br />
pessimista, retomando algumas das<br />
propostas avançadas por anteriores<br />
governos, principalmente no que toca<br />
à gestão hospitalar: tornar os hospitais<br />
públicos mais eficientes e competitivos,<br />
através de um novo estatuto jurídico<br />
e do desenvolvimento dos Centros de<br />
Responsabilidade parecem, de facto,<br />
ser medidas positivas e que os podem<br />
proteger dentro do modelo competitivo<br />
que se pretende adaptar.<br />
Já o reforço do poder dos Directores<br />
de Serviço hospitalares parece ser uma<br />
medida pouco coerente com a noção<br />
dos Centros de Responsabilidade, que<br />
por definição, devem corresponder a<br />
universos de gestão mais extensos<br />
que não se conformam com a visão<br />
atomizada do Serviço.<br />
É de facto muito importante promover<br />
uma reorganização funcional dos<br />
hospitais, na sua vertente clínica,<br />
criando áreas de gestão homogéneas,<br />
mas de dimensão suficiente para delas<br />
se obterem sinergias evidentes para<br />
a eficiência e para a qualidade dos<br />
serviços prestados. A lógica do serviço,<br />
tal como existe hoje nos nossos<br />
hospitais, não resistirá por muito mais<br />
tempo a uma abordagem deste tipo.<br />
É, portanto, pouco perceptível a ideia<br />
de simultaneamente se desenvolverem<br />
Centros de Responsabilidade e<br />
se reforçarem os poderes dos Directores<br />
de Serviço.<br />
l"rã1 As propostas de reorganização da<br />
ln actual rede de cuidados primários<br />
parecem assentar em bons princípios:<br />
a noção de médico,assistente e<br />
a ideia do modelo remuneratório<br />
( ... )<br />
o florescimento<br />
rápido de uma<br />
oferta privada<br />
ou social de<br />
cuidados de<br />
Saúde<br />
(incentivada<br />
pela introdução<br />
das regras<br />
agora<br />
enunciadas<br />
pelo Governo),<br />
pode, de forma<br />
dramática,<br />
aumentar<br />
ainda mais<br />
a subutilização<br />
dos recursos<br />
públicos<br />
instalados.<br />
nJ GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR ~
de base capitacional, com contratos<br />
a estabelecer com os médicos.<br />
Parece afastar,se assim a predominância<br />
da estrutura sobre as pessoas, o que,<br />
infelizmente, tem dominado a política<br />
de Saúde para os cuidados primários nos<br />
últimos 30 anos. Na realidade, conceber<br />
este tipo de cuidados apenas orientado<br />
pela noção de Centros de Saúde, com<br />
a multiplicidade de serviços e estruturas<br />
burocráticas que lhe estão associadas,<br />
é um erro grave de planeamento<br />
e de organização que se repercute<br />
depois na rigidez do modelo,<br />
na sua falta de eficiência e, sobretudo,<br />
na insensibilidade que daí resulta n a<br />
resposta aos problemas dos cidadãos.<br />
m<br />
Quanto à política do<br />
medicamento, o Governo parece<br />
querer dar con tinuidade às orientações<br />
de anteriores governos: a expansão do<br />
mercado de genéricos e a introdução<br />
dos preços de referên cia. É óbvio que<br />
uma estratégia assen te na diminuição<br />
dos preços dos medicamentos provocará<br />
alguma poupança na factura dos<br />
produtos farmacêuticos.<br />
Mas é importante reflectir também<br />
- e o caso português é, nessa<br />
matéria, paradigmático - no volume<br />
dos consumos de medicamentos.<br />
Este só será controlável com regras<br />
de prescrição 1nais custo,efectivas<br />
e em que o prescritor seja directamente<br />
envolvido.<br />
É, indiscutivelmente, a parte mais difícil<br />
do problema, mas será também aquela<br />
em que os ganhos de eficiência poderão<br />
ser maiores.<br />
l'li] Uma nota final sobre as listas<br />
~ de espera. Noventa mil, oitenta<br />
mil, cinquenta mil ? Ninguém sabe<br />
ao certo o número de doentes em<br />
espera para uma intervenção cirúrgica.<br />
O fenómeno é universal, e nalguns<br />
casos, dramático. Serve também, muitas<br />
vezes, como pretexto para agenciar<br />
doentes dos serviços públicos para<br />
a prestação privada.<br />
Lembro,me sempre, quando se fala em<br />
listas de espera, da decisão salomónica<br />
do Ministro da Sanidad y Consumo<br />
de Espanha no 1 º Governo de Aznar:<br />
1/3 das listas de espera teriam que<br />
ser resolvidas pelos serviços públicos,<br />
com aumento da produtividade, outro<br />
terço com pagainentos adicionais ou<br />
incentivos e o restante seria distribuído<br />
por prestadores privados. Confesso que<br />
não sei o impacte desta decisão.<br />
Mas que, em si mesmo, ela encerra<br />
a percepção das várias facetas<br />
que o problema nos apresenta,<br />
disso não tenhamos dúvidas.<br />
l'liJ Em síntese, estamos perante um<br />
l& programa estimulante e, de certa<br />
f arma de ruptura. Encerra desafios de<br />
alto risco para o equilíbrio do Sistema<br />
de Saúde, designadamen te em matéria<br />
de equidade, mesmo considerando útil e<br />
necessária a abertura à concorrência e à<br />
iniciativa privada.<br />
Será indispensável introduzir regras<br />
públicas que reduzam esses riscos<br />
a três níveis:<br />
a)- A liberdade de escolha do doen te<br />
ser condicionada pela acreditação<br />
das instituições que, em número<br />
limitado, ele poderá escolher,<br />
sempre sob orientação<br />
do seu médico,assisten te;<br />
b )- As regras de acreditação<br />
con templarem pressupostos<br />
mín imos de diversificação<br />
e qualidade na oferta de cuidados,<br />
quer em termos de especialidades<br />
quer em termos de horários<br />
de funcionamento;<br />
c)- Os profissionais de Saúde<br />
só poderem prestar serviços<br />
numa e numa só das instituições<br />
contempladas pelo financiamento<br />
público.<br />
Diz,se que as reformas não podem ser<br />
fe itas contra os profissionais. De acordo.<br />
Mas os seus interesses e as suas<br />
expectativas devem ser condicionadas,<br />
primordialmente, ao interesse dos<br />
doentes. E nem sempre são<br />
coincidentes, o que cria uma margem<br />
de conflitualidade para a qual se<br />
exige conhecimento, estudo, bom senso<br />
e capacidade de decisão. Temos a<br />
esperança de que as decisões difíceis,<br />
mas acertadas, irão ser tomadas.
( ... )os su<br />
devem preparar<br />
e implementar<br />
modelos<br />
de triagem<br />
de prioridades<br />
•<br />
e reorganizar o<br />
funcionamento<br />
das Salas<br />
de Emergência<br />
para que<br />
o atendimento<br />
das situações<br />
de prioridade<br />
maxima se1a<br />
efectuado<br />
por pessoal<br />
altamente<br />
treinado<br />
e qualificado.<br />
,. . .<br />
e algumas situações de elevada<br />
gravidade mas baixa prevalência<br />
(os grandes queimados, por exemplo)<br />
a cobertura nacional pode,se considerar<br />
muito boa, perfeitamente<br />
comparável à dos países europeus<br />
nossos parceiros na EU.<br />
Até aqui tudo parece bem e o modelo<br />
de organização é sólido, está bem<br />
fundamentado, fo i exaustivamente<br />
estudado e até é consensual.<br />
Mas para que este processo<br />
de restruturação seja bem sucedido<br />
muitas outras condições são necessárias.<br />
Podemos enumerar algumas:<br />
em primeiro lugar a necessidade<br />
de encerrar múltiplas "pequenas<br />
urgências" hospitalares<br />
ou, pelo menos, retirá, las do circuito<br />
da responsabilidade de referenciação<br />
pré hospitalar, a cargo do INEM;<br />
em segundo lugar cada sub região<br />
tem que definir, com clareza,<br />
os circuitos de referenciação<br />
inter,hospitalar da sua responsabilidade<br />
e articular,se com o INEM<br />
e com as outras unidades hospitalares<br />
da sua Região caso não disponha<br />
dos dois níveis de atendimento,<br />
em terceiro lugar é crucial que as Regiões<br />
criem estruturas "ligeiras" de avaliação<br />
e acompanhamento do processo<br />
e que este seja auditado frequentemente<br />
e que estas auditorias/avaliações<br />
tenham consequências; em quarto lugar<br />
os Serviços de Urgência têm que sofrer<br />
profundas alterações na sua estrutura<br />
organizativa e nos seus modelos<br />
de funcionamento.<br />
Este é o ponto em que gostaria<br />
de me deter e desenvolver, embora<br />
limitadamente,as linhas gerais que,<br />
no meu entender, devem orientar<br />
esta reorganização.<br />
Comecemos pela Medicina<br />
de Emergência; em alguns países<br />
desde há muitos anos se reconheceu<br />
que o atendimento das situações<br />
de emergência exigia aprendizagem<br />
e treino específicos.<br />
Esta aprendizagem<br />
e treino não eram, nem são!<br />
, exclusivos dos médicos mas<br />
estendiam,se a um conjunto de<br />
profissionais que vão dos enfermeiros,<br />
aos tripulantes de ambulâncias,<br />
aos paramédicos (uma figura<br />
profissional h á muito reconhecida<br />
nos países anglo saxônicos) ,<br />
aos operadores das centrais de orientação<br />
de doentes, etc .. Em Portugal a Ordem<br />
dos Médicos reconheceu a Competência<br />
em Emergência em 2001 e este pequeno<br />
passo pode representar uma profunda<br />
mudança na organização dos Serviços<br />
de Urgência <strong>Hospitalar</strong>.<br />
E em <strong>2002</strong> o Ministério da Saúde,<br />
por Despacho, formalizou - finalmente<br />
- a criação dos Serviços de Urgência<br />
atribuindo,lhes a função de Serviço<br />
de Acção Médica. E por aqui tudo<br />
pode e deve começar, os hospitais<br />
da Rede devem criar os Serviços<br />
de Urgência e, rapidamente,<br />
atribuir,lhes equipas fixas de médicos,<br />
idealmente com a Competência<br />
em Emergência (aproveitando,<br />
numa fase inicial aqueles que<br />
a vão obter por consenso e todos<br />
os que, voluntariamente, o desejem).<br />
Concomitantemente os SU devem<br />
preparar e implementar modelos<br />
de triagem de prioridades e reorganizar<br />
o funcionamento das Salas de<br />
Emergência para que o atendimento<br />
das situações de prioridade máxima<br />
seja efectuado por pessoal altamente<br />
treinado e qualificado.<br />
As vantagens deste modelo vão<br />
desde a garantia de qualidade<br />
assistencial elevada até à normalização<br />
de processos com todas as consequências<br />
positivas que daí decorrem naturalmente.<br />
É fundamental, ainda, que os SU<br />
se transformem, progressivamente,<br />
em unidades com um tempo limite<br />
de internamento (salvo situações<br />
de excepção) de 24 horas.<br />
Este ponto é fundamental e é forçoso<br />
reconhecer que o surgimento de equipas<br />
fixas poderá levar "à tentação"<br />
de prolongar os cuidados para além<br />
dos tempos aceitáveis. Talvez não seja<br />
demais salientar que um SU tem que<br />
ter um regulamento de funcionamento,<br />
aprovado pela Direcção C línica,<br />
em que todos estes aspectos têm<br />
que ser considerados.<br />
Ainda no que concerne ao regulamento<br />
é minha opinião que alguns outros<br />
pontos - e não quero ser exaustivo -<br />
devem ser bem esclarecidos tais como<br />
a circulação exclusiva a pessoal<br />
em serviço e utentes (com regras,<br />
também, para visitas e acompanhantes),<br />
o registo "on line" de todos os actos<br />
praticados (o que implica<br />
uma informatização específica<br />
mas compatível com o SONHO),<br />
a definição de tarefas e cadeias<br />
hierárquicas e a relação do SU<br />
com os outros serviços do hospital,<br />
quer os de Acção Médica quer os<br />
Serviços de apoio geral e logístico<br />
(<strong>Gestão</strong> de Doentes, SIE, Serviço<br />
de Pessoal, Gabinete do Utente,<br />
Serviço Social, etc.).<br />
Alguns aspectos mais devem<br />
ser salientados antes de analisar<br />
as consequências mais importantes<br />
para a organização hospitalar<br />
que uma mudança tão radical acarreta.<br />
Apenas dois quero referir, o primeiro<br />
tem a ver com o programa curricular<br />
da formação dos Internos das diversas<br />
especialidades, o segundo com uma fase<br />
de transição em que coexistirão equipas<br />
fixas e equipas tradicionais com escala<br />
por serviços e especialidades.<br />
Quanto ao primeiro será desejável<br />
que num futuro próximo seja possível<br />
programar estágios de duração variável,<br />
em função da área de formação,<br />
que permitam um período de treino,<br />
aprendizagem e avaliação, programado,<br />
em Medicina de Emergência.<br />
Cabe à Ordem e aos Colégios<br />
das Especialidades o papel fundamental<br />
nesta revisão dos regulamentos<br />
dos Internatos. O segundo é,<br />
aparentemente, mais difícil porque,<br />
a meu ver, cada hospital tem<br />
que adaptar progressivamente<br />
o seu modo de funcionamento<br />
e é evidente que não é possível,<br />
nem desej ável, aplicar<br />
(( . ,, ,, .<br />
uma receita un1ca.<br />
De uma forma geral parece,me que será<br />
possível definir, para cada instituição,<br />
um cronograma de mudança que respeite<br />
as tradições e os hábitos não forçando<br />
uma solução imposta. Terá que ser<br />
uma solução negociada e partilhada<br />
por todos os intervenientes e liderada<br />
por um elemento interessado<br />
na restruturação (este aspecto<br />
é condição absolutamente necessária<br />
para o sucesso do processo).<br />
E quais as consequências de uma<br />
restruturação desta dimensão?<br />
Analiso, brevemente, apenas duas;<br />
a qualidade da assistência prestada<br />
e o papel estruturante na organização<br />
do trabalho hospitalar.<br />
A primeira é evidente: a Medicina<br />
de emergência é, hoje em dia, uma área<br />
do conhecimento médico perfeitamente<br />
definida, com regras de boas práticas<br />
que necessita de pessoal altamente<br />
qualificado para a sua prática.<br />
As janelas diagnosticas e terapêuticas<br />
das situações de urgência/emergência<br />
mais prevalentes são conhecidas<br />
e sabe,se que a actuação correcta não só<br />
diminui a mortalidade como, na grande<br />
maioria das situações, diminui de forma<br />
significativa a morbilidade.<br />
Basta pensar o que está definitivamente<br />
demonstrado para a doença coronária<br />
aguda, para os acidentes vasculares<br />
cerebrais e para o grande trauma.<br />
Bastavam estas razões para se avançar<br />
na restruturação das urgências desde<br />
o pré hospitalar até ao hospitalar.<br />
A segunda consequência é vasta<br />
na amplitude; pensemos, de imediato,<br />
na possibilidade de cobrança dos actos<br />
praticados nos SU que procedimentos<br />
regularizados e registados,<br />
informaticamente, na "hora" permitem;<br />
e na possibilidade de reorganizar<br />
o trabalho médico, quer no ambulatório<br />
quer no internamento, que se pode<br />
conseguir com equipas fixas apoiadas<br />
pelas especialidades necessárias num<br />
modelo deste tipo, e, ainda, a<br />
possibilidade de melhorar a informação<br />
aos utentes e acompanhantes que será<br />
possível com circuitos bem estabelecidos<br />
e definidos. Tenho a convicção profunda<br />
que uma vantagem adicional e<br />
não desprezível existe; todos ansiamos<br />
por mudanças significativas<br />
nas Urgências <strong>Hospitalar</strong>es<br />
e um processo deste tipo pode<br />
mobilizar vontades e criar<br />
um entusiasmo e participação<br />
dos profissionais que não sendo<br />
condição suficiente é, seguramente,<br />
a condição necessária<br />
para o sucesso. <br />
* Assessor do Director-Geral da Saúde<br />
e Professor de Medicina Interna<br />
(...) será<br />
possível<br />
definir, para<br />
cada<br />
. . . ,.,,.,<br />
instituiçao,<br />
um cronograma<br />
de mudança<br />
que respeite<br />
as tradições<br />
e os hábitos<br />
não forçando<br />
uma solução<br />
imposta.<br />
[I!] GESTÃO HOSPTTALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Poucos<br />
contestarão<br />
a necessidade<br />
de reforma<br />
estrutural<br />
do sistema,<br />
sendo certo<br />
que as decisões<br />
de contenção<br />
da despesa,<br />
decretadas<br />
por via<br />
administrativa,<br />
estarão votadas<br />
a um rotundo<br />
•<br />
insucesso.<br />
SABER, SABER FAZER<br />
-<br />
E A REFORMA DA SAUDE<br />
Por Menezes Correia*<br />
A<br />
arte e a técnic:a nem sempre<br />
foram pensadas de forma<br />
separada. A cultura grega<br />
utilizava mesmo um só vocábulo<br />
para designar os dois conceitos.<br />
No renascimento o artista era ainda<br />
um homem com capacidades para<br />
desempenhar múltiplas funções.<br />
Leonardo da Vinci é o exemplo<br />
paradigmático. Síntese dos ideais<br />
estéticos que deram origem ao<br />
Renascimento, a obra de Leonardo,<br />
abrange diversos domínios da ciência<br />
e da arte. Um dos mais notáveis pintores<br />
do Renascimento e possivelmente seu<br />
maior génio, ele foi também anatomista,<br />
engenheiro, matemático, músico,<br />
naturalista, arquitecto e escultor.<br />
A fragmentação do saber não permite<br />
ao homem contemporâneo possuir<br />
as muitas capacidades do homem<br />
renascentista. Estabeleceu,se até uma<br />
hierarquia de mérito entre os que sabem<br />
e os que fazem.<br />
Interpretando o pensamento do Conde<br />
de Abranhos, diz Zagalo : "a primeira<br />
vantagem da Universidade como<br />
instituição social é a separação que<br />
se forma naturalmente entre estudantes<br />
e futricas, entre os que apenas vivem<br />
de revolver ideias e teorias e aqueles<br />
que vivem do trabalho". Desta forma,<br />
"o estudante fica para sempre<br />
compenetrado desta grande ideia social:<br />
que há duas classes - uma que sabe<br />
e outra que pro d uz. "<br />
No início do século XX Taylor estuda<br />
em pormenor a tarefa dos operários,<br />
decompõena nos elementos mais simples<br />
e redesenha,a utilizando métodos,<br />
equipamentos e tempos padronizados,<br />
sem esquecer o tempo de descanso<br />
e os atrasos inevitáveis. O trabalhador<br />
de Taylor não tem que pensar:<br />
basta, lhe executar o trabalho<br />
preparado no gabinete<br />
pelos engenheiros da produção.<br />
O "modelo ideal" de Max Weber, matriz<br />
da administração pública de muitos<br />
estados modernos, caracteriza,se<br />
por uma grande divisão do trabalho e,<br />
mais uma vez, pela separação<br />
dos que pensam e dos que executam.<br />
Como o sistema pretende maximizar<br />
a independência pessoal, evitar o livre<br />
arbítrio e assegurar a igualdade,<br />
as decisões devem ser tomadas<br />
ao abrigo das pressões e, portanto,<br />
a um nível elevado da hierarquia.<br />
No topo da pirâmide situam,se<br />
as instâncias de decisão e na sua base os<br />
operacionais encarregados da execução.<br />
O que se ganha em independência<br />
perde,se todavia em conhecimento<br />
qualitativo da realidade.<br />
Por isso assistimos, com frequência,<br />
a uma ruptura na passagem dos princípios<br />
à prática e ao diálogo de surdos entre<br />
os que pensam e os que executam. Vêm<br />
estas considerações a propósito<br />
da reforma da Saúde. Poucos contestarão<br />
a necessidade de reforma estrutural do<br />
sistema, sendo certo que as decisões de<br />
contenção da despesa, decretadas por<br />
via administrativa, estarão votadas a um<br />
rotundo insucesso. Um movimento de<br />
reforma desenvolve,se sempre a partir<br />
duma visão do futuro e de algumas<br />
orientações fortes. A partir daqui<br />
os caminhos podem ser diferentes.<br />
De forma empírica, e porventura<br />
simplista, podemos tipificar as diferentes<br />
soluções em três grandes categorias;<br />
reforma tecnocrática, reforma pragmática<br />
e reforma democrática.<br />
A solução tecnocrática procura traduzir<br />
directamente a visão de futuro num<br />
programa de medidas, exclusivamente<br />
justificadas pela referência aos princípios<br />
que elas supostamente vão concretizar.<br />
O reformador tecnocrático reúne<br />
um grande conjunto de saberes para<br />
construir um modelo teórico destinado<br />
a moldar o sistema social que<br />
se pretende reformar.<br />
A reforma pragmática surge como<br />
reacção ao idealismo tecnocrático.<br />
O reformador pragmático não perde<br />
muito tempo a estudar e discutir<br />
modelos teóricos.<br />
"Basta de tanto estudo e de tanto saber.<br />
Posto que o diagnóstico é conhecido,<br />
passemos imediatamente à acção."<br />
É a reforma dos "fazedores".<br />
A reforma democrática procura<br />
reconstituir a unidade entre o saber<br />
e o saber fazer. Tão importante como<br />
o conhecimento aprofundado<br />
dos modelos teóricos é o conhecimento<br />
dos factos. O s objectivos não são fixados<br />
à priori, mas condicionados<br />
pelos recursos disponíveis.<br />
A primeira destas vias está<br />
inelutavelmente votada ao fracasso.<br />
O reformador tecnocrático, de esquerda<br />
ou de direita, não respeita a sociedade<br />
tal como ela é.<br />
Em particular não compreende;<br />
- que os agentes da mudança<br />
são elementos do sistema social<br />
que pretende modificar,<br />
- que uma reforma é o resultado<br />
dum conjunto de aprendizagens,<br />
- que só a capacidade de aprendizagem<br />
das pessoas torna a mudança<br />
possível e aceitável.<br />
A abordagem pragmática inverte a<br />
hierarquia do saber e do saber fazer.<br />
Nos casos extremos, assumirá mesmo,<br />
para citar Eduardo Prado Coelho, "a<br />
tendência para denunciar os "intelectuais<br />
que pensam" de modo a deixar todo<br />
o espaço livre àqueles que pensam que<br />
estão a agir, quando desistem de pensar."<br />
Este tipo de abordagem caracteriza,se<br />
por múltiplas intervenções pontuais. N a<br />
melhor das hipóteses não sucede nada:<br />
a resistência homeostática do sistema<br />
neutraliza as alterações introduzidas.<br />
Politicamente isso até pode ter interesse;<br />
é preciso que alguma coisa mude<br />
para que tudo fique na mesma. N a<br />
hipótese mais nefasta as alterações<br />
cortam ciclos de estabilização e<br />
aumentam a desorganização do sistema.<br />
Sem prescindir duma visão do futuro e<br />
da definição dos grandes princípios de<br />
política, a reforma democrática escolhe,<br />
como processo de implementação, o<br />
gradualismo, a experimentação e a<br />
avaliação sistemática. Não há certezas<br />
absolutas nem reformas pronto a vestir:<br />
"Al andar se hace camino,/ y al volver<br />
Ia vista atrás / se ve la senda que<br />
nunca/ se há de volver a pisar."<br />
Uma reforma deste tipo não cabe no<br />
prazo temporal duma legislatura e menos<br />
ainda dum mandato ministerial, tão<br />
voláteis têm estes sido.<br />
Na última década o Ministério da<br />
Saúde conheceu 6 Ministros. Quando<br />
muda o Ministro não muda apenas<br />
o seu gabinete. Frequentemente muda<br />
a estratégia, alteram,se as políticas,<br />
travam,se os projectos, abandonam,se<br />
os estudos e recomeça,se de novo. De<br />
preferência com outros intérpretes: novos<br />
Directores Gerais, novos Conselhos de<br />
Administração dos Institutos, das ARS,<br />
dos H osp itais, novos Coordenadores<br />
SubRegionais etc.<br />
Nestas condições não é possível<br />
desenvolver a reforma de saúde que<br />
o país precisa. Como defende o Prof.<br />
Manuel Antunes " uma actuação<br />
sustentada de reforma pressupõe a<br />
existência de um Pacto de Regime que<br />
comprometa as principais forças políticas<br />
em relação ao conjunto de soluções a<br />
adaptar e de cuja execução resultará<br />
a viragem do actual sistema de saúde.<br />
Só assim se poderão promover reformas<br />
a médio e longo prazo que tenham<br />
condições para sobreviver à alternância<br />
de poder que caracteriza o regime<br />
democrático."<br />
Esse pacto é indispensável e o início<br />
duma legislatura o momento adequado<br />
para se tentar a sua possibilidade.<br />
Caso se desperdice mais uma<br />
oportunidade, resta,nos sugerir aos<br />
partidos com vocação do poder que ,<br />
em próximas eleições, não desperdicem<br />
energias a divulgar promessas na área da<br />
saúde: todos sabemos que não serão para<br />
cumprir. <br />
* Administrador hospitalar<br />
Sem prescindir<br />
duma visão<br />
do fUturo<br />
e da definição<br />
dos grandes<br />
princípios<br />
de política,<br />
a reforma<br />
democrática<br />
escolhe, como<br />
processo de<br />
implementação,<br />
o gradualismo,<br />
a experimentação<br />
e<br />
a avaliação<br />
. /<br />
.<br />
sistematica.<br />
Não há certezas<br />
absolutas<br />
nem reformas<br />
pronto a vestir.<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR ~
(...) a gestão<br />
política dos hospitais<br />
tem sido um erro<br />
primário de gestão.<br />
As mudanças<br />
frequentes<br />
de gestores<br />
nada mais são<br />
do que uma doença<br />
mortal da gestão<br />
hospitalar<br />
portuguesa.<br />
ffi GESTÃO HOSPITALA R<br />
ADMINISTRADORES<br />
HOSPITALARES EM TEMPO<br />
DE MUDANÇA<br />
Por Jorge Varanda*<br />
E<br />
m 1982, se a memória não me falha,<br />
o Ministro dos Assuntos Sociais<br />
Dr. Luís Barbosa, em audiência<br />
com a Direcção da Associação Portuguesa<br />
dos Administradores <strong>Hospitalar</strong>es,<br />
ofereceu a possibilidade da<br />
empresarialização dos Hospitais,<br />
vinte anos antes do fenómeno<br />
se tornar inevitável.<br />
A Direcção da APAH pedia maior<br />
autonomia para os Hospitais, maior<br />
capacidade de gestão, mas, visivelmente,<br />
não estava em condições de aceitar<br />
a transformação dos hospitais<br />
em empresas públicas, por receios diversos.<br />
Achei o repto interessante,<br />
mas o peso que tinha um jovem<br />
administrador, o mais jovem do elenco<br />
directivo, e os fundamentos da minha<br />
convicção não eram suficientes<br />
para mudar a orientação associativa.<br />
A oposição e o medo à mudança<br />
do estatuto dos hospitais situavam-se<br />
na partidarização dos lugares de gestão.<br />
"<br />
Paradoxalmente, esse medo<br />
era a seu tempo justificado<br />
e injustificado. Justificado,<br />
pois os Partidos no poder<br />
não têm parado de usar<br />
critérios partidários para<br />
nomear os gestores e tomar<br />
decisões críticas de<br />
planeamento. Injustificado,<br />
porque os administradores se<br />
afirmaram ao longo dos anos<br />
como um corpo profissional<br />
com capacidades suficientes<br />
para suportar as flutuações<br />
de administração política<br />
dos hospitais.<br />
Com isto, porém, não quero<br />
significar que a evolução<br />
tenha sido positiva.<br />
Longe disso, a gestão política<br />
dos hospitais tem sido<br />
um erro primário de gestão.<br />
As mudanças frequentes de gestores<br />
nada mais são do que uma doença mortal<br />
da gestão hospitalar portuguesa.<br />
O período que se avizinha vai<br />
inevitavelmente trazer mais turbulência<br />
desse tipo. Poderá perguntar-se: qual a<br />
melhor atitude para enfrentar a mudança,<br />
ou melhor, as mudanças, pois há<br />
as alterações legislativas que o sistema<br />
de saúde português vai sofrer e há<br />
mudanças de fundo em curso na saúde<br />
e que vão implicar com a gestão hospitalar?<br />
A única resposta de fundo é<br />
a do desenvolvimento contínuo e veloz<br />
do conhecimento e da capacidade<br />
profissional e operacional.<br />
Num meio hospitalar em que<br />
se perspectiva o alargamento<br />
da intervenção privada, é sabido<br />
que vai aumentar a concorrência<br />
de profissionais com profissões afins<br />
e até não afins. Os administradores<br />
hospitalares têm por base uma formação<br />
multifacetada, mas essencialmente<br />
generalista. Muitos, entretanto,<br />
têm-se especializado em áreas específicas,<br />
muito embora a maioria se mantenha<br />
num quadro de trabalho generalista,<br />
com versatilidade de adaptação.<br />
Essa concorrência é natural que se faça<br />
sentir com mais acuidade em áreas<br />
especializadas de gestão.<br />
Há alguns domínios que me parece<br />
deverem merecer uma atenção redobrada,<br />
em termos de conhecimento e de<br />
capacidade operativa: o da direcção<br />
estratégica da instituição, o dos sistemas<br />
de informação para a gestão, do controlo<br />
e correcção dos erros e desperdícios que<br />
todas as organizações, em maior ou menor<br />
medida produzem e o do desenvolvimento<br />
emocional e positivo dos profissionais<br />
que constituem cada hospital.<br />
( ••• ) é necessário<br />
que o sistema<br />
de financiamento<br />
seja moldado<br />
aos objectivos elevados<br />
de eficiência<br />
e de qualidade<br />
e não apenas uma<br />
lista de preços<br />
reflectores dos custos.<br />
Sou um homem do serviço público,<br />
sem complexos, nem ilusões, relativamente<br />
ao privado. Sei mesmo que se podem<br />
construir organizações privadas de saúde,<br />
na mais exigente linha do serviço público.<br />
Sei também que se podem constituir<br />
organizações privadas e também públicas,<br />
ao arrepio dos princípios humanos<br />
de cooperação social e de progresso.<br />
Considero ainda que a pressão<br />
que o privado vai exercer obrigará<br />
os hospitais de gestão pública a<br />
qualificarem-se, melhorando<br />
significativamente os seus padrões<br />
de gestão. Chegando os poderes, vão<br />
chegar as responsabilidades, não estando,<br />
porém, afastada a gestação de novas crises,<br />
se o novo modelo de sistema de saúde<br />
e de financiamento nele incorporado,<br />
não for adaptado às expectativas<br />
e necessidades da sociedade portuguesa.<br />
E é aqui que se situa um ponto nevrálgico<br />
da reforma do sistema: o que se pretende<br />
é aumentar a produção (acabar com<br />
as listas de espera), por ganhos de gestão<br />
e de produtividade e de acréscimo<br />
de capacidade produtiva (mais hospitais<br />
e mais camas hospitalares) ou pretende-se<br />
que tudo seja dirigido por um princípio<br />
de produção de mais saúde e de mais<br />
qualidade de vida?<br />
Se o princípio básico é este, então<br />
a produtividade deve ser dirigida pelo<br />
objectivo mais geral de evitar mais<br />
doença e de produzir mais saúde.<br />
Apesar de crítico, este ponto não<br />
está esclarecido, longe disso.<br />
Isto implica que os administradores<br />
hospitalares portugueses aprendam<br />
a gerir organizações mais vastas<br />
que os hospitais, ou seja, redes<br />
e sistemas integrados de cuidados,<br />
estabelecendo objectivos e caminhos<br />
que permitam reduzir o fardo das doenças<br />
crónicas, responsáveis por mais de 80%<br />
dos gastos em saúde.<br />
Para tanto, é necessário que o sistema<br />
de financiamento seja moldado<br />
aos objectivos elevados de eficiência<br />
e de qualidade e não apenas uma lista<br />
de preços reflectores dos custos.<br />
Mais ainda do que reduzir os tempos<br />
de espera para cirurgias relacionadas<br />
com o cancro do colo do útero,<br />
por exemplo, há que construir sistemas<br />
de cuidados que sejam inerentemente<br />
movidos pela necessidade de prevenir<br />
esse tipo de cancro, sendo que este caso<br />
é apenas um da miríade de casos de<br />
que se poderá falar.<br />
Para além de tudo, a medicina está<br />
à beira de mais uma revolução altamente<br />
benigna por via da genética.<br />
Cumpre-nos, a nós, neste momento,<br />
exigir que Portugal enverede por reformas<br />
que coloquem o sistema de saúde<br />
(todo o sistema e não apenas aquilo<br />
a que se possa chamar de sistema<br />
de saúde) entre os melhores.<br />
Não por ambição, mas por exigência<br />
racional e ética, exigência das nossas<br />
consciências profissionais e das nossas<br />
consciências sociais.<br />
Compete aos administradores<br />
hospitalares portugueses pela<br />
sua capacidade de intervenção<br />
e pela sua abertura à Europa<br />
e ao Mundo mais evoluído<br />
ajudar a criar hospitais,<br />
organizações integradas e um<br />
sistema de saúde capazes de<br />
produzir na população<br />
portuguesa os melhores<br />
resultados de saúde com o<br />
melhor uso dos recursos<br />
disponíveis, inconformados<br />
com tudo o que tenha a<br />
ver com erros, desperdício e<br />
produção de doença.
_.<br />
SISTEMA DE SAUDE<br />
#Ili#<br />
EMQUESTAO<br />
"Espaço Aberto" é uma nova secção nesta versão renovada<br />
da "<strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>'~ na qual iremos registar, de forma plural,<br />
o pensamento dos principais líderes de opinião<br />
sobre saúde em Portugal. Primeiro tema: "Sistema de Saúde<br />
em Questão". Para já, três líderes. Mas o tema aí fica,<br />
com as mesmas seis questões, para o "Espaço Aberto"<br />
1- O nosso Sistema de Saúde e, em<br />
particular, o SNS é geralmente considerado<br />
como despesista e incapaz de conter a subida<br />
dos custos. Concorda com esta afirmação?<br />
E, se for o caso, que medidas consideraria<br />
fundamentais para corrigir a situação?<br />
2- O novo governo propõe-se flexibilizar<br />
o mercado da Saúde, admitindo a livre<br />
circulação dos doentes entre os sectores<br />
público e privado (lucrativo ou social) baseada<br />
num financiamento público, cuja referência<br />
será uma tabela de preços a criar. Concorda<br />
ou não com esta decisão e que vantagens<br />
e/ou inconvenientes poderãcfdaí advir?<br />
3- A acumulação de funções públicas com<br />
funções privadas é muitas vezes referida como<br />
factor impeditivo de um desempenho eficiente<br />
dos profissionais de Saúde, designadamente<br />
na área médica. Concorda com esta<br />
afirmação?<br />
E como promover a clarificação desses<br />
regimes ou , se for a sua opção, o fim das<br />
acumulações?<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
da próxima edição.<br />
4- Afirma-se com frequência que a medicina<br />
familiar, exercida de forma não institucional,<br />
personalizada e de proximidade, concorreria<br />
decisivamente para a diminuição das<br />
urgências hospitalares e, desta forma,<br />
contribuiria para a eficiência do Sistema.<br />
Como encara a situação dos cuidados<br />
primários em Portugal e que soluções<br />
preconiza?<br />
5- O programa do governo, ao referir-se<br />
ao financiamento público dos cuidados de<br />
Saúde "essenciais" e ao incentivar seguros<br />
complementares, parece querer clarificar a<br />
natureza e o âmbito dos subsistemas e dos<br />
seguros comerciais. Em que medida considera<br />
esta matéria importante para a racionalização<br />
do sistema de Saúde?<br />
6- A gestão dos hospitais públicos está<br />
sujeita a um modelo jurídico, designadamente<br />
na área das compras, recursos humanos e<br />
dos órgãos de gestão, fortemente criticado<br />
por diferentes quadrantes da opinião pública.<br />
Concorda com esse tipo de críticas?<br />
E que soluções preconizaria para a gestão dos<br />
hospitais públicos?<br />
Maria de Belém Roseira, vice-presidente<br />
do Grupo Parlamentar do PS<br />
Rótulo de 'despesista'<br />
é acção de propaganda<br />
1<br />
Esta questão merece, desde logo,<br />
um comentário relativamente<br />
à sua formulação.<br />
O rótulo de "despesista" ao sistema<br />
teve que ver, em minha opinião,<br />
muito mais com acções de propaganda<br />
de quem pretendia mudar a sua<br />
natureza pública do que com quem<br />
estava preocupado com a permanente<br />
adopção de medidas que assegurassem<br />
a sua gestão correcta.<br />
Falar sistematicamente em<br />
despesismo, por outro lado, é esconder<br />
a componente de investimento<br />
que a despesa da saúde tem.<br />
Com efeito, sem saúde não há<br />
bem~estar nem produtividade.<br />
Não há desenvolvimento.<br />
Feito o comentário, a resposta<br />
à questão colocada, mesmo simples,<br />
tem que ser vista, pelo menos,<br />
sob dois aspectos: um deles<br />
o da subida de custos determinada<br />
pelo próprio aperfeiçoamento<br />
do sistema e expectativas<br />
crescentemente exigentes que<br />
sobre ele têm os cidadãos e, um outro<br />
mais ligado ás questões da gestão<br />
do sistema que deve e tem que ser<br />
cada vez mais eficaz e eficiente.<br />
Para o primeiro dos aspectos e para<br />
a crescente pressão exercida sobre<br />
o sistema, a questão é política.<br />
Face ao crescente grau de prioridade<br />
que a saúde representa para os<br />
portugueses, de acordo com os mais<br />
recentes inquéritos de opinião,<br />
a sua importância é incontornável<br />
e haverá tendência, para quem não<br />
fizer política com verdade, para tudo<br />
prometer. Populismo e demagogia<br />
encontram aqui terreno fértil.<br />
Mas isto significa, também,<br />
que face ao crescente volume<br />
de recursos que tem que ser afecto<br />
ao sector, as escolhas e as opções<br />
devem ser sempre precedidas de<br />
amplos e participados debates que<br />
permitam o envolvimento das pessoas<br />
e das entidades interessadas.<br />
Quanto ao segundo dos aspectos,<br />
este é um campo em que as técnicas<br />
de gestão devem cruzar~se com as<br />
especificidades do sector.<br />
Quero eu dizer com isto que<br />
as primeiras não são suficientes,<br />
porque nem sempre têm aplicação<br />
directa pelos efeitos adversos<br />
que provocariam e terão sempre<br />
que ser ponderadas com os critérios<br />
ajustados à adequada execução<br />
de uma política de saúde pautada,<br />
necessariamente, em meu entender,<br />
por critérios de qualidade, eficácia,<br />
eficiência e equidade.<br />
2<br />
A flexibilização anunciada que<br />
parte do princípio de que público<br />
e privado é todo igual, é errada nos<br />
seus fundamentos e profundamente<br />
perigosa nas suas consequências,<br />
uma vez que não estamos a partir<br />
do zero mas sim de uma situação<br />
em que as capacidades instaladas<br />
nos sectores público e privado<br />
são profundamente diferentes<br />
e assimétricas em termos do País.<br />
Quanto aos fundamentos, enquanto<br />
o Serviço Nacional de Saúde visa<br />
objectivos de prestação de serviço<br />
público e, como tal, deve ser<br />
o instrumento de que o Estado dispõe<br />
para garantir a execução da política<br />
de saúde, o serviço privado pressupõe<br />
Não faz nenhum<br />
sentido que haja<br />
benefícios fiscais<br />
relativamente<br />
a seguros de saúde<br />
e depois não haja<br />
qualquer possibilidade ·<br />
prática de facturação<br />
. a terceiro responsável,<br />
quando for caso disso.<br />
o lucro como remuneração do capital<br />
investido. Tal não significa que não<br />
possam existir - até devem - contratos<br />
entre serviços públicos e privados mas,<br />
a serem financiados por dinheiros<br />
públicos, apenas para prosseguir os<br />
objectivos de política<br />
de saúde definidos.<br />
Por sua vez, o sector social, embora<br />
privado, tem natureza não lucrativa<br />
- aplica os proveitos no<br />
desenvolvimento da actividade<br />
que prossegue e não na remuneração<br />
de capital. Por isso lhe é reconhecido,<br />
normalmente, interesse público<br />
e o seu relacionamento com o Estado é<br />
feito através de acordos e protocolos e<br />
não contratos.<br />
Considerar que o financiamento<br />
deve ser igual para quem tem os<br />
ónus inerentes ao serviço público<br />
- assegurar a prestação de forma<br />
equilibrada , garantir a formação,<br />
pré e pós graduada e a investigação<br />
- e para quem não os temencontra<br />
ou abre serviços em função<br />
das expectativas ou da rentabilidade<br />
do "negócio,, - é profundamente<br />
errado.<br />
Pode trazer como consequência<br />
imediata a não rentabilização da<br />
capacidade instalada nas unidades<br />
públicas e o progressivo<br />
desmantelamento destas<br />
por subfinanciamento serrL a sua<br />
substituição possível por serviços<br />
de natureza privada que se guiam<br />
GESTÃO HOSPITALAR ffi
por critérios de natureza económica.<br />
Quando isto acontece, a médio<br />
e longo prazo arrasta sempre o Estado<br />
para a dependência, o que constituí<br />
um factor de pressão sobre os preços,<br />
pois o Estado não tem recurso<br />
alternativo nem defesa. Isto provoca,<br />
como é óbvio, a subida dos custos.<br />
É falso portanto, quando se invoca<br />
a privatização como medida<br />
racionalizadora.<br />
É importante não esquecer também<br />
que, no contexto actual, quando se<br />
retira a prestação da responsabilidade<br />
pública se abre o caminho para<br />
a sua integração no conceito de<br />
"mercado interno". O que significa<br />
que as prestações de saúde passam<br />
a ser regidas pelas regras aplicáveis<br />
a outros bens, designadamente<br />
as que se referem às aquisições de bens<br />
e serviços definidas e reguladas pelo<br />
direito comunitário.<br />
Considero que a orientação política<br />
anunciada é contrária ao artigo 64º<br />
da Constituição que assenta<br />
o exercício do direito à saúde<br />
num Serviço Nacional de Saúde, sem<br />
prejuízo deste articular com o sector<br />
privado e - acrescento eu - o sector<br />
social as prestações de cuidados de<br />
saúde que se integrem na execução<br />
da política de saúde.<br />
3<br />
A falha existe não na possibilidade<br />
de acumulação de funções públicas<br />
com funções privadas mas, sim,<br />
na possibilidade de acumulação de<br />
funções públicas com "convenções".<br />
Esta última determina a existência<br />
de dois vínculos de natureza diferente<br />
entre a mesma entidade patronal -<br />
o Serviço N acional de Saúde - e<br />
a mesma pessoa - funcionária pública<br />
e prestadora de serviços. Esta situação<br />
é geradora de incompatibilidades de<br />
natureza formal e material, altamente<br />
perniciosas para o sistema e para os<br />
trabalhadores. Defendo a existência<br />
de incompatibilidades acompanhada<br />
de um sistema remuneratório na<br />
Administração Pública que permeie<br />
o desempenho, que remunere de<br />
forma justa o serviço efectivamente<br />
prestado em termos de qualidade<br />
e quantidade, que evite o que<br />
hoje acontece de necessidade<br />
de acumulações várias. O diploma<br />
relativo à regulamentação<br />
das convenções que preparei e foi<br />
publicado contém, genericamente,<br />
o meu pensamento sobre esta matéria.<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
E<br />
~<br />
falso quando<br />
•<br />
se invoca<br />
a privatização<br />
como medida<br />
racionalizadora.<br />
4<br />
A legislação preparada e publicada<br />
durante o meu exercício de funções<br />
de Ministra da Saúde para os Centros<br />
de Saúde de 3ª Geração, associada<br />
à remuneração experimental para<br />
os médicos de família, a ter sido<br />
executada, asseguraria o objectivo<br />
enunciado de eficiência do sistema,<br />
juntamente com uma remuneração<br />
mais justa e virtuosa, porque estava<br />
construído de forma a assegurar o<br />
cumprimento dos objectivos de<br />
política de saúde. Deveria, pois,<br />
em meu entender ser posta em<br />
prática, pois garantia muito maior<br />
grau de satisfação aos cidadãos<br />
e aos profissionais, racionalizando<br />
a utilização do sistema.<br />
5<br />
Falta o essencial: definir o que se<br />
consideram ser cuidados de saúde<br />
"essenciais". O seu contrário, isto é,<br />
Um dos maiores erros<br />
políticos que se<br />
cometeu reiteradamente<br />
em Portugal é o de,<br />
em sectores onde<br />
é fundamental<br />
a estabilidade política,<br />
pois os resultados só<br />
são avaliáveis a longo<br />
prazo, tudo pretender<br />
mudar porque se<br />
privilegiam os<br />
protagonismos pessoais<br />
em detrimento do<br />
interesse público.<br />
o que não é essencial, é fácil definir,<br />
agora o que é ...<br />
Anúncios de carácter vago e genérico<br />
pretendem dar resposta a expectativas<br />
do sector comercial dos seguros mas<br />
não existem prenúncios de que ela<br />
seja clara. Os sinais são até de<br />
natureza contraditória e preocupantes.<br />
Nesta matéria é indispensável que haja<br />
cruzamento de informação. Não faz<br />
nenhum sentido que haja benefícios<br />
fiscais relativamente a seguros de<br />
saúde e depois não haja qualquer<br />
possibilidade prática de facturação a<br />
terceiro responsável, quando for caso<br />
disso. Para isso também servia e<br />
devia servia o cartão de utente!<br />
Evidentemente que se trata de matéria<br />
importante para a racionalização do<br />
sistema até pelo universo de pessoas<br />
que abrange, mas não estou a ver que<br />
sobre a matéria existam ideias claras<br />
e defensoras do interesse público,<br />
que é inegável nesta área.<br />
6<br />
As que consagrei nas experiências<br />
inovadoras de gestão do Hospital<br />
da Feira, da Unidade Local de Saúde<br />
de Matosinhos e a que deixei preparada<br />
para o Hospital do Barlavento<br />
Algarvio, cuja avaliação não deixa<br />
margem para dúvidas.<br />
Independentemente de outras<br />
alterações de natureza jurídica que<br />
se revelem necessárias para melhor<br />
cumprimento dos critérios de<br />
convergência impostos a nível da<br />
União Europeia, sempre considerei<br />
que era um imperativo, quase de<br />
"consciência", para o serviço público<br />
de saúde, face ao enorme volume de<br />
recursos públicos que lhe está afecto,<br />
contribuir para a modernização da<br />
Administração Pública em Portugal, o<br />
que podia fazer pela sua especificidade<br />
e pelo fino e porfiado trabalho<br />
desenvolvido, designadamente com<br />
os parceiros sociais e com grupos<br />
alargados de reflexão. Um dos maiores<br />
erros políticos que se cometeu<br />
reiteradamente em Portugal é o de,<br />
em sectores onde é fundamental a<br />
estabilidade política, pois os resultados<br />
só são avaliáveis a longo prazo,<br />
tudo pretender mudar porque se<br />
privilegiam os protagonismos pessoais<br />
em detrimento do interesse público.<br />
Grande parte do nosso atraso neste,<br />
como noutros domínios estruturantes<br />
para o País, dependem desta forma<br />
que considero profundamente errada<br />
de estar e de fazer política.
acional do medicamento, com<br />
ganhos significativos ao nível da<br />
saúde dos doentes e com economia de<br />
recursos.<br />
2<br />
Conforme referi, o SNS cumpriu<br />
a sua função durante muitos anos,<br />
mas atravessa actualmente uma crise<br />
que torna a mudança inevitável. Tem<br />
que haver coragem para assumir que o<br />
SNS, da forma como está estruturado,<br />
atingiu um ponto crítico.<br />
Entendo no entanto que num país<br />
como Portugal, o Sistema de Saúde<br />
tem de passar sempre por um serviço<br />
público com uma determinada<br />
dimensão. As medidas a adaptar<br />
não passam pela sua destruição,<br />
mas pelo seu reajustamento, criando<br />
oportunidades para o sector privado,<br />
que passam pela melhoria dos serviços<br />
prestados, independentemente se são<br />
entidades públicas, sociais ou privadas<br />
a prestá, los.<br />
O Estado para cumprir os preceitos<br />
constitucionais deve reforçar<br />
qualitativamente a sua função<br />
reguladora, garantido a qualidade da<br />
oferta em tempo útil, autonomizando<br />
a função prestadora.<br />
A oferta privada poderá ser<br />
desenvolvida e a concorrência com o<br />
sistema público poderá ser salutar e<br />
contribuir para a melhoria global da<br />
eficiência de todo o sistema de saúde.<br />
O Estado não deve ter complexos na<br />
celebração de acordos com entidades<br />
privadas mantendo o seu papel<br />
regulador e fiscalizador nessas áreas,<br />
podendo, nalguns casos, partilhar essas<br />
funções com as ordens profissionais.<br />
A Farmácia é um bom exemplo,<br />
com plena satisfação dos cidadãos, de<br />
como o sistema privado de dimensão<br />
adequada funciona bem em aliança<br />
com o sector público, neste caso<br />
em complementaridade e com custos<br />
baixos para o sistema de saúde.<br />
As soluções mistas podem conter<br />
virtualidades que devem ser<br />
exploradas, de acordo com as<br />
realidades regionais e a própria<br />
natureza das instituições. Não há uma<br />
solução única.Ao mesmo tempo, tem<br />
que se evitar rupturas que prejudiquem<br />
os cidadãos. O aspecto financeiro<br />
é também importante; se houver<br />
quem preste o mesmo serviço,<br />
com a mesma qualidade, a custos<br />
mais baixos e, possivelmente,<br />
em menor tempo, devem escolher,se<br />
as alternativas mais convenientes<br />
para o cidadão.<br />
~ GESTÃO HOSPITALAR<br />
Neste momento, não é ainda<br />
conhecida a proposta referenciada<br />
pelo que me parece difícil fazer juízos<br />
mais concretos sobre a mesma.<br />
3<br />
Este tem sido um dos factores<br />
geradores de ineficiência no<br />
Sistema de Saúde. A Ordem dos<br />
Farmacêuticos tem defendido desde<br />
sempre, por razões de transparência,<br />
a necessidade de separação clara<br />
entre o público e privado.<br />
O actual enquadramento legal<br />
já prevê esta situação, mas não foi<br />
tão longe como devia, uma vez<br />
que permite a existência de interesses<br />
privados misturados com interesses<br />
públicos. Tínhamos chamado<br />
a atenção para esta situação<br />
e o enquadramento actual das<br />
convenções não contribui para um<br />
sistema transparente.<br />
Consideramos fundamental<br />
a separação objectiva e clara<br />
dos interesses públicos dos interesses<br />
privados, pondo fim à promiscuidade<br />
(...) o SNS cumpriu<br />
a sua função<br />
durante<br />
muitos anos,<br />
mas atravessa<br />
actualmente<br />
•<br />
uma crise que<br />
torna a mudança<br />
inevitável.<br />
que é hoje um factor de ineficiência<br />
do próprio Sistema de Saúde.<br />
É, igualmente, imprescindível garantir<br />
ao doente a liberdade de escolha e<br />
acessibilidade aos cuidados de saúde,<br />
independentemente da sua situação<br />
económica. Só assim será possível<br />
pôr cobro a uma situação que enviesa<br />
o sistema e alcançar a tão desejada<br />
separação das águas.<br />
4<br />
Deve-se dar maior atenção,<br />
investir de forma mais acentuada<br />
nos cuidados primários de saúde.<br />
Há hoje muito mais recursos<br />
investidos nos hospitais do que<br />
nos cuidados primários.<br />
Esta situação tem de ser invertida.<br />
Tem de se afastar<br />
os doentes dos hospitais,<br />
aproximando a prestação<br />
dos cuidados à comunidade.<br />
Esta poderá ser entregue<br />
aos profissionais, médicos de família<br />
e outros especialistas, recorrendo<br />
à celebração de convenções<br />
e modelos de remuneração<br />
com estruturas flexíveis ajustáveis<br />
às diferentes situações.<br />
Desse modo, melhoramos<br />
a assistência, economizamos tempo<br />
e dinheiro, humanizamos a relação<br />
com o doente e contribuímos<br />
para pôr cobro à cultura<br />
da urgência hospitalar.<br />
A "hospitalização" dos cuidados<br />
primários, transformando os centros<br />
de saúde em verdadeiros hospitais,<br />
distanciando os doentes, é também<br />
uma tendência que nos preocupa.<br />
O exemplo das farmácias,<br />
quer pela sua acessibilidade,<br />
quer pela sua disponibilidade,<br />
é muito paradigmático.<br />
No entanto, estamos muito longe<br />
de aproveitar toda a capacidade<br />
técnica e competência do<br />
farmacêutico para melhorar o<br />
tratamento do doente.<br />
Existe massa crítica,<br />
infra,estruturas e uma rede<br />
de cuidados farmacêuticos<br />
que podem ser prestados<br />
em qualquer ponto do País.<br />
A grande necessidade é aproveitar<br />
o potencial que as farmácias têm<br />
e integrá,las melhor no Sistema de<br />
Saúde. Hoje, a Farmácia é uma porta<br />
de entrada do Sistema de Saúde<br />
que demonstra grande qualidade<br />
de serviços, tem uma boa imagem<br />
junto do cidadão e que não está<br />
devidamente aproveitada.<br />
Há um potencial enorme<br />
de prestação de serviços que<br />
não está a ser desenvolvido.<br />
O farmacêutico é hoje, até<br />
estatutariamente, um profissional<br />
de saúde que tem como objectivo<br />
a pessoa do doente. O farmacêutico<br />
está a deixar de ser só um especialista<br />
do medicamento e a tornar,se,<br />
cada vez mais, um especialista do<br />
medicamento que se preocupa com a<br />
sua boa utilização e com a sua ligação<br />
ao doente.<br />
Essa mudança na profissão tem s<br />
ido concretizada através de muitos<br />
projectos farmacêuticos, que<br />
demonstram a nossa capacidade<br />
1<br />
~<br />
..<br />
411:.<br />
•<br />
de intervir em áreas de promoção<br />
da saúde e prevenção da doença.<br />
Neste sentido, a evolução da rede<br />
de cuidados primários em Portugal<br />
deveria aproveitar melhor<br />
as competências do farmacêutico.<br />
O Sistema de Saúde e os programas<br />
do Ministério da Saúde,<br />
por apostarem muito na prevenção<br />
da doença e na promoção da saúde,<br />
deveriam tirar partido de toda esta<br />
rede de prestação de serviços,<br />
em que o Estado, sem abdicar<br />
dos seus poderes tutelares sobre<br />
o sector, confiaria aos farmacêuticos<br />
o exercício pleno da sua actividade<br />
profissional.<br />
5<br />
Acima de tudo, o sistema deve<br />
estar vocacionado para quem<br />
mais precisa. O objectivo é garantir<br />
a cada cidadão o acesso aos cuidados<br />
de saúde de que necessita<br />
com garantia da sua qualidade.<br />
A existência de outros sistemas<br />
ou subsistemas não é, no entanto,<br />
incompatível com este objecti vo.<br />
Enquanto o Estado não determinar<br />
um valor adequado para gastos<br />
com cada utente, continuar,se,á<br />
a desperdiçar recursos financeiros<br />
numa estrutura de serviços<br />
que esgota sucessivamente<br />
o orçamento para a saúde sem<br />
se responsabilizarem os que geram<br />
despesas desnecessárias<br />
e os que praticam formas de gestão<br />
ineficientes.<br />
6<br />
A gestão dos hospitais públicos<br />
tem sido comprometida<br />
por questões de ordem estrutural<br />
e conjuntural, muitas delas<br />
identificadas pela Ordem<br />
dos Farmacêuticos e confirmadas<br />
pela Inspecção Geral de Saúde.<br />
A ausência de informatização<br />
dos serviços, a ausência<br />
de sistemas de informação<br />
adequados e uniformizados<br />
a nível nacional e a morosidade<br />
na conclusão dos concursos<br />
centralizados no IGIF<br />
são algumas das situações<br />
que comprometem uma gestão<br />
equilibrada.<br />
A introdução de novas formas<br />
de gestão e controlo,<br />
com introdução de formas mais<br />
flexíveis de gestão e responsabilização<br />
dos gestores, poderá contribuir<br />
para alterar a situação. ~<br />
o<br />
a:<br />
w<br />
(9<br />
o<br />
:J<br />
_J<br />
o<br />
ü<br />
'
comprovada falta de capacidade dos<br />
serviços públicos, se recorrer à oferta<br />
privada. O que não aceitamos é que<br />
alguns interesses floresçam à sombra<br />
da diminuição de capacidades dos<br />
serviços públicos e da consentida<br />
promiscuidade entre a prestação<br />
pública e a prestação privada.<br />
É por isso que não compreendemos<br />
que sistematicamente se comprem<br />
ao sector privado serviços que a<br />
prestação pública tem capacidade para<br />
assegurar, como o prova a "Carta de<br />
equipamentos hospitalares" elaborada<br />
há alguns anos, em relação, por<br />
exemplo, aos meios complementares<br />
de diagnóstico.<br />
Quanto aos medicamentos, e a par<br />
da resistência em instituir a prescrição<br />
pelo princípio activo, continua por<br />
explicar a recusa sistemática da<br />
proposta, já apresentada pelo PCP,<br />
de dispensar nas urgências e consultas<br />
externas dos hospitais os<br />
medicamentos cujo custo seja aí<br />
mais baixo do que o montante pago<br />
como comparticipação n as farmácias<br />
comerciais.<br />
2<br />
A livre circulação dos doentes,<br />
ou, noutra versão, a liberdade<br />
de escolha do utente, é um<br />
eufemismo criado pela doutrina<br />
neo-liberal para esconder uma<br />
política que tenciona remeter<br />
o Estado e a prestação de cuidados<br />
por entidades públicas, para um<br />
papel meramente financiador<br />
e aparentemente regulador.<br />
Na saúde como em outras áreas, o<br />
que há de fundamental a garantir<br />
e defender é o direito à saúde<br />
de todos os cidadãos em condições<br />
de igualdade. Ora uma lógica que<br />
assente no predomínio do<br />
funcionamento do mercado em<br />
detrimento de uma forte intervenção<br />
do Estado na prestação de cuidados<br />
(que ainda assim deixará sempre<br />
espaço suficiente para outros<br />
sectores), acaba por deixar<br />
subordinada aos naturais interesses<br />
lucrativos dos privados a garantia dos<br />
cuidados de saúde aos cidadãos.<br />
E nem no que toca a uma aparente<br />
reserva da função reguladora para<br />
o Estado estariam com esta política<br />
garantidos os requisitos mínimos,<br />
uma vez que, sem capacidade<br />
produtiva suficiente, o Estado ficaria<br />
à mercê dos ditames dos interesses<br />
privados e da mão bem visível do<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
mercado. Atente-se aliás no exemplo<br />
da hemodiálise onde o "mercado"<br />
impôs há uns anos um aumento<br />
dos montantes pagos pelo Estado<br />
ameaçando com a recusa de receber<br />
novos doentes, o que, face à<br />
insuficiente rede pública, não deixou<br />
qualquer alternativa ao governo de<br />
então.<br />
Tal política encobre portanto uma<br />
estratégia deliberada de privatização<br />
da prestação de cuidados e a clara<br />
intenção de aumentar o mercado<br />
disponível para os privados.<br />
Quanto à tabela de preços, veremos<br />
em que termos será elaborada e<br />
como serão contabilizados os custos<br />
públicos, designadamente aqueles<br />
que não são dispensáveis e que<br />
nunca serão atribuídos aos privados.<br />
(...) continua por<br />
explicar a recusa<br />
sistemática<br />
da proposta, já<br />
apresentada pelo<br />
PCP, de dispensar<br />
A<br />
•<br />
nas urgencias<br />
e consultas externas<br />
dos hospitais<br />
os medicamentos<br />
. . ,<br />
cu10 custo se1a ai<br />
mais baixo do que<br />
o montante pago como<br />
comparticipação nas<br />
farmácias comerciais.<br />
Veremos também se não serão<br />
cirurgicamente seleccionadas as áreas<br />
com maior potencial lucrativo,<br />
menos riscos e custos para a<br />
implementação da anunciada tabela<br />
e consequente benefício do sector<br />
privado.<br />
Importa ainda, para finalizar, dizer<br />
que experiências de outros países<br />
estão longe de provar que este<br />
caminho signifique poupança para<br />
a despesa pública e muito menos<br />
melhoria de cuidados para os utentes,<br />
pelo menos a médio e longo prazo.<br />
A promiscuidade entre a prestação<br />
3 pública e a privada de cuidados<br />
de saúde é uma das principais razões<br />
da ineficiência dos serviços públicos e<br />
do aumento de gastos com a compra<br />
de serviços aos privados sem esgotar a<br />
capacidade pública instalada.<br />
O tímido regime de<br />
incompatibilidades aprovado pelo 1 º<br />
governo do PS foi mesmo assim<br />
escassamente respeitado. É<br />
inexplicável que continue a ser<br />
possível prestar cuidados de saúde em<br />
regime privado dentro dos próprios<br />
hospitais públicos, o que constitui<br />
inevitavelmente terreno fértil para<br />
abusos e promiscuidades.<br />
Precisamos de um regime de<br />
separação da prestação pública da<br />
privada que caminhe para a<br />
exclusividade dos profissionais. Tal<br />
objectivo só pode ser atingido através<br />
do estabelecimento de regras eficazes<br />
de separação, do aumento da<br />
formação de profissionais em áreas<br />
carenciadas, e de uma fiscalização<br />
férrea e independente.<br />
Entretanto há que acautelar a forma<br />
de proceder a esta separação<br />
completa. Em algumas áreas e<br />
especialidades mais carenciadas de<br />
profissionais e onde a acumulação de<br />
funções públicas e privadas é mais<br />
frequente, a imposição da opção pela<br />
exclusividade de forma imediata e<br />
sem a criação de condições para<br />
a existência de mais profissionais,<br />
como alguns defendem, conduziria<br />
a uma imediata e dificilmente<br />
reversível falta de resposta pública<br />
e à consequente privatização<br />
da prestação dos cuidados<br />
nessas áreas.<br />
4<br />
É lugar comum defender-se a<br />
prioridade aos cuidados primários<br />
de saúde como vector fundamental<br />
de uma política de saúde. Contudo<br />
a prática tem diferido muito de tais<br />
declarações de intenções. Quer ao<br />
nível do investimento em instalações<br />
e equipamentos, quer no que diz<br />
respeito aos recursos humanos, os<br />
cuidados primários estão de tal forma<br />
depauperados que limitam<br />
decisivamente a prestação na escala<br />
necessária de cu idadas personalizados,<br />
de proximidade e em certas situações<br />
põem até em risco as necessidades<br />
básicas de cuidados de saúde.<br />
É decisiva uma intervenção que<br />
aumente o investimento nesta área,<br />
•<br />
priorize - no quadro de um<br />
indispensável aumento geral de<br />
recursos humanos - a área dos<br />
cuidados primários, aumente a<br />
capacidade de gestão própria e<br />
autónoma dos centros de saúde,<br />
mantenha e aumente os incentivos<br />
aos profissionais e à sua produtividade<br />
e garanta a articulação vantajosa<br />
com as unidades hospitalares.<br />
Este caminho não se faz privatizando<br />
a prestação de cuidados, mesmo que<br />
numa primeira fase para pequenas<br />
e médias empresas de profissionais<br />
de saúde que, para além de tenderem<br />
a funcionar menos integradas no<br />
restante sistema de saúde, dificilmente<br />
resistem à concentração a médio<br />
prazo nas mãos de grandes grupos<br />
económicos, que acabam<br />
por cartelizar o funcionamento<br />
do mercado. Assim nos mostra<br />
a experiência de outros países.<br />
5<br />
O programa de governo faz vista<br />
grossa ao texto constitucional,<br />
onde se garante a universalidade<br />
do Serviço Nacional de Saúde.<br />
É o regresso da política do "pacote<br />
mínimo" já avançada pelo último<br />
governo do PS. É útil lembrar aliás<br />
que na última revisão constitucional<br />
ordinária (1997) a grande discussão<br />
no que diz respeito ao artigo referente<br />
ao "direito à saúde" foi entre a<br />
proposta de PSD e CDS/PP, que não<br />
vingou, de introduzir a referência<br />
a "Sistema de saúde", em detrimento<br />
da referência ao Serviço Nacional<br />
de Saúde como vector estruturante.<br />
O texto actual não significa que não<br />
se reconheça a existência de sectores<br />
Contracapa<br />
O programa<br />
de governo faz vista<br />
grossa ao texto<br />
constitucional,<br />
onde se garante<br />
a universalidade<br />
do Serviço Nacional<br />
de Saúde.<br />
não públicos, mas sim que é ao SNS<br />
que cabe assegurar cuidados de saúde<br />
gerais, universais e tendencialmente<br />
gratuitos. O que agora se vislumbra<br />
nas intenções do governo é<br />
a tentativa de abrir espaço para<br />
os privados e reduzir o âmbito de<br />
influência do SNS, remetendo-o para<br />
uma versão reduzida de intervenção<br />
assistencialista destinada àqueles que<br />
não podem aceder a outros sistemas.<br />
6<br />
Manda a justiça que se lembre<br />
que algumas das forças partidárias<br />
que agora reclamam por melhores<br />
regras de gestão foram quem instituiu<br />
e manteve as que hoje existem.<br />
Não está escrito em nenhum<br />
mandamento da gestão pública que<br />
as suas regras têm de ser ineficazes<br />
e pouco adequadas às necessidades.<br />
Senão vejamos. O que impede<br />
o estabelecimento de regras em<br />
relação às compras que permitam<br />
uma melhor defesa do interesse<br />
público, e uma maior agilidade<br />
Cores<br />
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Verso de capa<br />
e contracapa €1500<br />
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1 /2 Página<br />
1 /4 Página<br />
ou rodapé<br />
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e rapidez, mesmo mantendo a<br />
necessária segurança e transparência<br />
dos procedimentos públicos? E não é<br />
verdade que um dos entraves à boa<br />
gestão mais geradores de despesismo<br />
nas aquisições,<br />
é o crónico subfinanciamento das<br />
instituições, que as obriga a pagar<br />
preços que incorporam_ à cabeça<br />
um acréscimo proporcional ao atraso<br />
com que a despesa irá ser paga?<br />
E no que toca ao pessoal não<br />
são o congelamento das vagas nos<br />
quadros e a escassa formação de<br />
profissionais os maiores entraves<br />
à política de recursos humanos?<br />
E a falta de responsabilização da<br />
gestão, alicerçada num sistema de<br />
nomeação que privilegia critérios<br />
partidários<br />
e não de competência não tem sido<br />
a raiz de muitos problemas?<br />
Propomos um modelo em que a<br />
gestão seja escolhida por concurso<br />
de entre equipas de profissionais do<br />
SNS, com um programa concreto<br />
a que se obrigam e que é fiscalizável<br />
a todo o tempo; em que o sistema<br />
local de saúde e portanto<br />
a articulação entre os diferentes<br />
níveis de cuidados seja pedra basilar;<br />
em que a contratação de pessoal<br />
se faça em função das necessidades,<br />
da programação de actividade<br />
e dos recursos existentes,<br />
mas esteja na disponibilidade<br />
das instituições e salvaguarde<br />
o regime de emprego público como<br />
regra (e não o contrato individual<br />
de trabalho); em que os mecanismos<br />
jurídicos de gestão sejam adequados<br />
e eficientes.
Nova Lei de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />
Em 26 de ] unho o Governo apresen tou à Assembleia da<br />
República um projecto de Lei com vista à alteração do<br />
regime juridico da gestão hospitalar, entretanto aprovado<br />
na generalidade.<br />
Dadas as importantes alterações introduzidas - que<br />
implicaram, inclusivamente, ajustamentos na Lei de Bases<br />
da Saúde - "G.H ." publica, na integra, o texto aprovado<br />
e a apreciação geral que a Direcção da A PAH elaborou<br />
e deixou aos diferentes grupos parlamentares na audição<br />
pública realizada no dia 2 de] ulho na Comissão<br />
Parlamen tar do Trabalho e Assuntos Sociais.<br />
_,proP.osta de Lei ~"º 15LIX ~<br />
N os termos da alínea d ) do nº 1 do artigo 197º .<br />
da Constituição, o Governo apresenta à A ssembleia<br />
da República, a seguinte Proposta de Lei, para ser<br />
aprovada, com pedido de prioridade e urgência:<br />
Artigo 1º<br />
(Alterações)<br />
São alteradas as Bases XXXI e XXXIII da Lei n. º 48/90, de<br />
24 de Agosto, que passam a ter a seguinte redacção:<br />
"a) Base XXXI - Estatuto dos profissionais de saúde do<br />
Serviço Nacional de Saúde (alteração)<br />
l. Os profissionais de saúde que trabalham no Serviço<br />
N acional de Saúde estão submetidos às regras próprias<br />
da Administração Pública e podem constituir-se em<br />
corpos especiais, podendo ser alargado o regime laboral<br />
aplicável, de futuro, à Lei do Contrato Individual de<br />
Trabalho.<br />
b) Base XXXIII - Financiamento (alteração)<br />
2.<br />
h)- O pagamen to dos actos e actividades efectivamente<br />
realizados através .de uma classificação de actos<br />
médicos, técnicas e serviços de saúde, a consagrar numa<br />
tabela de preços de referéncia."<br />
Artigo 2º<br />
(<strong>Gestão</strong> hospitalar)<br />
É aprovado o regime jurídico da gestão hospitalar, o qual<br />
consta em anexo ao presente diploma .. e do qual faz parte<br />
integrante.<br />
Artigo 3º<br />
(Disposição Transitória)<br />
Até à publicação da regulamentação prevista no presente<br />
diploma mantém-se em vigor o Decreto Regulamentar nº<br />
3/88, de 22 de Janeiro.<br />
Artigo 4º<br />
(Norma Revogatória)<br />
É revogado o Decreto-Lei nº 19/88, de 21 de Janeiro.<br />
Artigo 5. 0<br />
(Entrada em Vigor)<br />
O presente diploma entra em vigor no prazo de 60 dias<br />
após a publicação.<br />
Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 27 de Junho de <strong>2002</strong><br />
O Primeiro-Ministro<br />
O Ministro dos Assuntos Parlamentares<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
Regime Jurídico<br />
.. ,, .. ""''·,··"'~'···"~ ....... da < <strong>Gestão</strong> ·' lrlosgit~ .lat ··· ··· · .<br />
Capítulo J, Disposições Gerais<br />
Artigo 1 º<br />
(Âmbito)<br />
1. O presente diploma aplica-se aos hospitais integrados na Rede<br />
de Prestação de Cuidados de Saúde.<br />
2. A Rede de Prestação de Cuidados de Saúde abrange<br />
os estabelecimentos do Serviço N acional de Saúde (SNS),<br />
os estabelecimentos privados que prestem cuidados e outros serviços<br />
de saúde aos utentes do SNS nos termos de contratos celebrados<br />
ao abrigo do disposto no Capitulo IV e os profissionais em regime<br />
liberal com quem sejam celebrados contratos.<br />
Artigo 2º<br />
(Natureza Jurídica)<br />
1. O s hospitais integrados na Rede de Prestação de Cuidados<br />
de Saúde podem revestir urna das seguintes figuras jurídicas:<br />
a) Estabelecimentos públicos, dotados de person alidade<br />
jurídica, autonomia administrativa e financeira, com ou sem<br />
autonomia patrimonial;<br />
b) Estabelecimento públicos, dotados de personalidade<br />
jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial<br />
e natureza empresarial;<br />
c ) Sociedades anónimas de capitais exclusivamente públicos;<br />
d) Estabelecimento privados com ou sem. fins lucrativos<br />
com quem sejam celebrados contratos, nos termos<br />
do nº 2 do artigo anterior.<br />
2. O disposto no número anterior não prejudica a gestão<br />
de instituições e serviços do SN S por outras entidades,<br />
públicas ou privadas, mediante contrato de gestão<br />
ou a grupos de médicos em regime de convenção, nos termos<br />
do Estatuto do SNS.<br />
Artigo 3º<br />
(Exercício da Actividade)<br />
1. A capacidade jurídica dos hospitais abrange todos os direitos<br />
e obrigações necessários à prossecução dos seus fins.<br />
2. O exercício da actividade hospitalar pelas entidades referidas<br />
na alínea d ) do n º 1 do artigo anterior está sujeito a licenciamen to<br />
prévio, nos termos da legislação aplicável.<br />
Artigo 4º<br />
(Princípios Gerais na Prestação de Cuidados de Saúde)<br />
N a prestação de cuidados de saúde observam-se os seguintes princípios<br />
gerais:<br />
a)- Liberdade de escolha do estabelecimento hospitalar,<br />
em articulação com a rede de cuidados de saúde primários;<br />
b)- Prestação de cuidados de saúde, com humanidade<br />
e respeito pelos uten tes;<br />
Atendimento de qualidade, com eficácia e em tempo<br />
útil aos utentes;<br />
d )- C umprimento das normas de ética e deontologia<br />
profissionais.<br />
Artigo 5º<br />
(Princípios Específicos da G estão <strong>Hospitalar</strong>)<br />
Os H ospitais devem pautar a respectiva gestão pelos seguintes princípios:<br />
a)- Desenvolvimento da actividade de acordo com<br />
instrumen tos de gestão provisional, designadamente planos<br />
de actividade, anuais e plurianuais,<br />
orçamen tos e outros;<br />
b)- Garan tia aos uten tes da prestação de cuidados<br />
de saúde com um controlo rigoroso dos recursos;<br />
c)- Desenvolvimento de uma gestão criteriosa no respeito<br />
pelo cumprimento dos objectivos definidos<br />
pelo Ministro da Saúde;<br />
d)- Financiamen to das suas actividades em função da<br />
valorização dos actos e serviços efectivamente prestados,<br />
tendo por base a tabela de preços e os acordos<br />
que se encontrem em vigor no Serviço N acional de Saúde;<br />
e)- Promoção da articulação funcional da Rede<br />
de Prestação de Cuidados de Saúde;<br />
f)- A plicação do Plan o O ficial de Contas do Ministério da Saúde.<br />
Artigo 6º<br />
(Tutela)<br />
1. O Ministro da Saúde exerce em relação aos hospitais integrados<br />
na Rede de Prestação de Cuidados de Saúde,<br />
os seguintes poderes:<br />
a)- Definir as normas e critérios de actuação hospitalar;<br />
b)- Fixar as directrizes a que devem obedecer os planos<br />
e programas de acção, bem como a avaliação<br />
da qualidade dos resultados obtidos nos cuidados<br />
prestados à população;<br />
c)- Exigir todas as informações julgadas necessárias<br />
ao acompanhamento da actividade dos hospitais;<br />
d)- Determinar auditorias e inspeçções ao<br />
seu funcionamento, nos termos da legislação aplicável.<br />
2. Os hospitais devem facultar ao Ministro da Saúde,<br />
sem prejuízo da prestação de outras informações<br />
legalmente exigíveis, os seguintes elementos, visando<br />
o seu acompanhamento e controlo:<br />
a)- Os documentos oficiais de prestação de con tas,<br />
confo rme definido no Plano O ficial de Contas<br />
do Ministério da Saúde;<br />
b)- Informação periódica de gestão sobre a actividade<br />
prestada e respectivos indicadores.<br />
Artigo 7º<br />
(Órgãos)<br />
Os hospitais integrados na Rede de Prestação de Cuidados de Saúde<br />
compreendem órgãos de administração, de fiscalização,<br />
de apoio técnico e de consulta.<br />
Artigo 8º<br />
(Informação Pública)<br />
O Ministério da Saúde divulga, anualmente, um relatório<br />
com os resultados da avaliação dos hospitais que integram<br />
a Rede de Prestação de Cuidados de Saúde mediante um conjunto<br />
de indicadores que evidencie o seu desempenho e eficiência.<br />
Capitulo II ~Hospitais do Sector Público Administrativo (SPA)<br />
Secção 1, Estabelecimentos Públicos<br />
Artigo 9º<br />
(Regime aplicável)<br />
1. Os h ospitais previstos na alínea a) do n º 1 do artigo 2º regem-se<br />
pelas normas do Capítulo I, pelo presente Capítulo, pelas normas<br />
do SN S, pelos regulamentos internos e, subsidiariamente,<br />
pelas normas aplicáveis ao Sector Público Administrativo.<br />
2. A atribuição da natureza jurídica referida no número anterior<br />
a hospitais integrados n a Rede de Prestação de Cuidados de Saúde<br />
efectua-se mediante, diploma próprio do Governo.<br />
Artigo 10º<br />
(Princípios Específicos da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong> do SPA)<br />
1. A gestão dos hospitais abrangidos pelo nº 1 do artigo 9º observa<br />
os seguintes princípios específicos:<br />
a)- Garantia da eficiente utilização da capacidade<br />
instalada, designadamente pelo pleno aproveitamento<br />
dos equipamentos e infra-estruturas existentes e pela<br />
diversificação do regime de horário de trabalho,<br />
de modo a alcançar uma taxa óptima da utilização<br />
dos recursos disponíveis;<br />
b )- Elaboração de planos anuais e plurianuais e<br />
celebração de contratos-programa com a Administração<br />
Regional de Saúde (ARS) respectiva, de acordo<br />
com o princípio contido na alínea d) do artigo 5º,<br />
nos quais sejam definidos os objectivos a atingir e acordados<br />
com a tutela, e os indicadores de actividade que permitam<br />
aferir o desempenho das respect ivas unidades e equipas<br />
de gestão;<br />
c)- Avaliação dos titulares dos órgãos de administração,<br />
dos directores dos departamen tos e de serviços e dos restantes<br />
profiss ionais, de acordo com o mérito do seu desempenh o,<br />
sendo este aferido pela eficiência demonstrada na gestão<br />
dos recursos e pela qualidade dos cuidados prestados<br />
aos utentes;<br />
d)- Promoção de um sistema de incentivos<br />
com o objectivo de apoiar e estimular o desempenho<br />
dos profissionais envolvidos, com base nos ganhos<br />
de eficiência conseguidos, incentivos que se traduzem<br />
na melhoria das condições de trabalho, na participação<br />
em acções de formação e estágios, no apoio<br />
à investigação e em prémios de desempenho;<br />
e)- A rticulação das funções essenciais da prestação<br />
de cuidados e de gestão dos recursos em torno dos directores<br />
de departamento e de serviço, sendo-lhes reconhecido,<br />
sem prejuízo das competências dos órgãos de administração,<br />
autonomia na organização do trabalho e os correspondentes<br />
poderes de direcção e disciplinar sobre todo o pessoal<br />
que integra o seu departamento ou serviço,<br />
independen temente da sua carreira ou categoria profissional;<br />
f) - Nos casos em que a garantia da satisfação dos utentes<br />
de acordo com padrões de qualidade e a preços<br />
competitivos o justifique, a possibilidade de cessão<br />
de exploração ou subtratação, nos termos da alínea g)<br />
do artigo 12 º, de um centro de responsabilidade,<br />
ou de um serviço de acção médica, a grupos de profissionais<br />
de saúde ou a entidades públicas ou privadas<br />
que demon strem capacidade e competência técnicas.<br />
2º Os directores de departamento e de serviço respondem perante<br />
os conselhos de administração dos respectivos<br />
hospitais, que fixam os objectivos e os meios necessários para os atingir<br />
e definem os mecanismos de avaliação periódica.<br />
3º A s comissões de serviço dos directores de departamento<br />
e de serviço, para além das situações previstas no artigo 43º<br />
do Decreto-Lei nº 73/90, de 6 de Março, podem ainda<br />
ser dadas por findas, a todo o tempo, pelo respectivo conselho<br />
de administração, em resultado do incumprimento dos objectivos<br />
previamente definidos.<br />
Artigo 11 º<br />
(Organização Interna)<br />
1. A estrutura orgânica dos hospitais, bem como a composição,<br />
competências e funcionamento dos órgãos hospitalares, constam<br />
de regulamento a aprovar por diploma próprio do Governo.<br />
2. Os hospitais dispõem de um regulamen to in terno,<br />
aprovado nos termos definidos pelo diploma a que se refere<br />
o n úmero anterior.<br />
3. Para a prossecução dos princípios definidos no artigo anterior,<br />
os hospitais devem organizar-se e desenvolver<br />
a sua acção por centros de responsabilidade e de custos.<br />
GESTÃO HOSPITALAR ffi
Artigo 12º<br />
(Tutela Específica)<br />
1. Para além das competências referidas no artigo 6Q compete ainda<br />
ao Ministro da Saúde, com faculdade de delegação na ARS:<br />
a)- Aprovar os planos de actividade e financeiros plurianuais;<br />
b)- Aprovar os planos de actividade e os orçamentos<br />
de exploração e investimento anuais, bem como as respectivas<br />
alterações;<br />
c)- Aprovar os documentos de prestação de contas;<br />
d)- Aprovar as tabelas de preços a cobrar nos casos previstos na lei;<br />
e)- Homologar os contratos-programa;<br />
f)- Autorizar os contratos de cessão de exploração<br />
ou sub-contratações previstas na alínea f) do artigo lOQ;<br />
g)- Criar, extinguir ou modificar departamentos,<br />
serviços e unidades hospitalares.<br />
2. Compete aos Ministros das Finanças e da Saúde:<br />
a)- Autorizar, nos termos da lei e nos limites das suas<br />
competências, a compra ou alienação de imóveis;<br />
b)- Definir, os parâmetros da negociação a incluir<br />
nos instrumentos de regulamentação colectiva.<br />
Artigo 13º<br />
(Receitas dos Hospitais)<br />
Constituem receitas dos hospitais:<br />
a)- As dotações do orçamento do Estado produto<br />
dos contratos-programa, previstos na alínea b)<br />
do nº 1 do artigo 10º;<br />
b)- O pagamento de serviços prestados a terceiros<br />
nos termos da legislação em vigor e dos acordos e tabelas<br />
aprovados, bem como as taxas moderadoras;<br />
c)- Outras dotações, comparticipações e subsídios<br />
do Estado ou de outras entidades;<br />
d)- O rendimento de bens próprios;<br />
e)- O produto da alienação de bens próprios<br />
e da constituição de direitos, sobre os mesmos;<br />
f)- As doações, heranças ou legados;<br />
g)- Quaisquer outros rendimentos ou valores<br />
que resultem da sua actividade ou que, por lei ou contrato,<br />
lhe devam pertencer.<br />
Artigo 14º<br />
(Pessoal)<br />
1. Os funcionários e agentes da Administração Pública que prestam<br />
serviço nos hospitais à data da entrada em vigor do presente<br />
diploma, regem-se pelas normas gerais aplicáveis, de acordo<br />
com o disposto na Base XXXI da Lei n.º 48/90, de 24 de Agosto.<br />
2. A admissão de pessoal pelos hospitais, apó's a entrada<br />
em vigor do presente diploma, pode reger-se, de acordo<br />
com os princípios da publicidade, da igualdade,<br />
da proporcionalidade e da prossecução do interesse público,<br />
pelas normas aplicáveis ao contrato individual de trabalho.<br />
3. Exceptua-se do disposto no número anterior, o pessoal<br />
em formação que esteja ou venha a ser contratado,<br />
para esse fim, ao qual se aplica o contrato administrativo<br />
de provimento.<br />
4. Ao pessoal com relação jurídica de emprego público<br />
que opte pelo regime de contratação individual de trabalho<br />
é aplicável o disposto nos artigos 21 º e 22 Q do Estatuto<br />
do Serviço Nacional de Saúde, aprovado pelo Decreto-Lei nQ 11/93,<br />
de 15 de Janeiro.<br />
Artigo 15º<br />
(Hospitais com Ensino e Investigação)<br />
Sem prejuízo da aplicação do presente diploma aos hospitais com<br />
ensino médico, pré e pós graduado, e de investigação científica,<br />
os mesmos são objecto de diploma próprio quanto aos aspectos<br />
relacionados com a interligação<br />
entre o exercício médico e as actividades da formação e<br />
da investigação, no domínio do ensino da profissão médica.<br />
Artigo 16º<br />
(Acordos com Entidades Privadas)<br />
Mediante autorização do Ministro da Saúde, os hospitais podem<br />
associar-se e celebrar acordos com entidades<br />
privadas que visem a prestação de cuidados de saúde,<br />
com o objectivo de optirnizar os recursos disponíveis.<br />
Artigo 17º<br />
(Grupos e Centros <strong>Hospitalar</strong>es)<br />
1. Aos centros hospitalares aplica-se uma única estrutura de órgãos<br />
nos termos previstos neste diploma.<br />
2. Cada estabelecimento hospitalar integrado em grupo hospitalar<br />
pode ter urna estrutura de órgãos própria, nos termos previstos no<br />
presente diploma.<br />
Secção II , Estabelecimentos Públicos<br />
com natureza Empresarial<br />
Artigo 18º<br />
(Regime Aplicável)<br />
1. Os hospitais previstos na alínea b) do nQ 1 do artigo 2º,<br />
regem-se pelo respectivo diploma de criação, pelos seus<br />
regulamentos internos, pelas normas em vigor para os hospitais<br />
do SNS que não sejam incompatíveis com a sua natureza jurídica e,<br />
subsidiariarnente, pelo regime jurídico geral aplicável<br />
às entidades públicas empresariais, não estando sujeitos às normas<br />
aplicáveis aos institutos públicos que revistam a natureza de serviços<br />
personalizados ou de fundos autónomos.<br />
2. O disposto no número anterior não prejudica<br />
o cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />
3. Os hospitais que revistam a natureza jurídica de<br />
estabelecimentos públicos, dotados de personalidade jurídica,<br />
autonomia administrativa, financeira e patrimonial<br />
e natureza empresari al constam de diploma próprio.<br />
Capítulo III, Sociedades Anónimas de Capitais Públicos<br />
Artigo 19º<br />
(Regime)<br />
l. Os hospitais previstos na alínea c) do nº 1 do artigo 2º,<br />
regem-se pelo disposto nos respectivos diplomas<br />
de criação, onde constam os estatutos necessários ao seu<br />
funcionamento e, subsidiaramente, pela lei geral aplicável.<br />
2. O disposto no número anterior não prejudica<br />
o cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />
4. Os poderes de tutela económica e financeira dos<br />
hospitais integrados no presente Capítulo, bem como<br />
o exercício da função accionista do Estado são exercidos<br />
pelos Ministros das Finanças e da Saüde, nos termos a definir<br />
nos respectivos diplomas de criação.<br />
Capítulo IV, Estabelecimentos Privados<br />
Artigo 20º<br />
(Regime)<br />
1. Os hospitais previstos na alínea d) do n º 1 do artigo 2 º<br />
regem-se:<br />
a)- No caso de revestirem a natureza de entidades<br />
privadas com fins lucrativos, pelos respectivos estatutos<br />
e pelas disposições do Código das Sociedades Comerciais;<br />
b)- No caso de revestirem a natureza de entidades privadas<br />
sem fins lucrativos regem-se pelo disposto nos<br />
respectivos diplomas orgânicos e, subsidiariamente,<br />
pela lei geral aplicável.<br />
2. O disposto no número anterior não prejudica o<br />
cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />
IA proposta de Lei do Governo sobre <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />
e designadamente o regime jurídico de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />
que lhe está anexado, parece assentar num conjunto<br />
de princípios ajustados e oportunos, face aos problemas<br />
consensualmente diagnosticados na actividade dos hospitais<br />
públicos. Destacaríamos, neste contexto, os seguintes princípios:<br />
•A promoção do mérito no desempenho e o Sistema<br />
de Incentivos;<br />
• O Contrato Individual de Trabalho como possibilidade<br />
para as futuras contratações e como opção para os actuais<br />
funcionários;<br />
• O financiamento pela produção.<br />
Quanto ao contrato individual de trabalho, importa reflectir<br />
sobre o futuro das carreiras, cuja transformação radical se<br />
impõe, mas cuja existência, como instrumento de regulação de<br />
competências e estímulo à formação é indispensável.<br />
Diga-se, a propósito, que estranhamos a ausência de referência às<br />
regras de aquisição de bens e serviços, normalmente associadas às<br />
reformas propostas para o estatuto jurídico dos hospitais e de vital<br />
importância para a agilização das compras, obtenção de melhores<br />
preços e incremento na qualidade do aprovisionamento.<br />
Merece-nos particular atenção o modelo do financiamento<br />
2 hospitalar referido, pese embora a generalidade das<br />
disposições propostas. O programa do Governo prevê já a criação<br />
de uma tabela de preços de aplicação universal, que nos suscita<br />
várias preocupações e que agora, com a presente proposta, se<br />
avolumam. Em todos os sistemas de saúde se evolui para formas<br />
de pagamento compreensivas, centradas no doente e não em<br />
actos avulsos desligados do seu objecto. É aliás esta a perspectiva<br />
defendida por todos os especialistas mundiais, e o caminho que<br />
em Portugal fomos percorrendo a partir da década de 80, com os<br />
G.D.H. e, mais recentemente, com os G.D.A.<br />
A criação de uma tabela de actos como base de pagamento,<br />
toma o sistema de financiamento mais aleatório e irracional,<br />
com clara tendência para a multiplicação de actos e consequente<br />
crescimento de gastos. Poderá ser, objectivamente, um retrocesso<br />
de consequências imprevisíveis.<br />
A liberdade de escolha do estabelecimento hospitalar por parte<br />
3 do utente é à partida um bom princípio, desde que sujeita<br />
a uma orientação clínica centrada no médico-assistente (médico<br />
de família). Mas é particularmente delicado observar essa regra<br />
num contexto em que se admite que a escolha se pode vir a<br />
fazer entre instituições públicas, privadas e sociais, conforme se<br />
refere no programa do Governo. O princípio que se quer consagrar,<br />
de que o dinheiro segue o doente, deve ser condicionado a<br />
certos pressupostos de regulação e controlo que, designadamente,<br />
impeçam o agendamento de doentes, situação para a qual o duplo<br />
emprego médico é mecanismo fortemente facilitador.<br />
Cumpre referir, a propósito, que a base XXXI da lei de Bases<br />
da Saúde, no seu nº 3 (matéria não objecto de proposta de<br />
alteração) refere que não poderá resultar nenhum encargo para o<br />
SNS, pelo exercício dos "seus" profissionais de saúde, em regime<br />
privado. O presente projecto de diploma, inserido num contexto<br />
de financiamento público de prestações privadas, sem excluir<br />
profissionais em acumulação, contrariará aquele princípio.<br />
4<br />
O reforço dos poderes dos Directores de Serviço <strong>Hospitalar</strong>es,<br />
matéria aliás já prevista também no programa do<br />
Governo, suscita-nos sérias reservas e alguma perplexidade,<br />
designadamente face ao sentido da empresarialização que<br />
percorre todo o Diploma.<br />
Um dos aspectos mais críticos da actividade hospitalar, e<br />
infelizmente pouco desenvolvido na presente proposta, é a forma<br />
como está estruturada a produção clínica nos nossos hospitais<br />
públicos. Os serviços hospitalares são a unidade estrutural de<br />
referência há dezenas de anos e todos temos consciência de<br />
que este modelo está esgotado, pelas ineficiências que provoca:<br />
pulverização do poder e da autoridade, rigidez na oferta de<br />
cuidados, não aproveitamento de sinergias, "espírito de quinta",<br />
são consequências com que hoje nos confrontamos diariamente<br />
na gestão global de uma instituição hospitalar. Precisamos de<br />
um novo formato que associe, integrando, áreas clínicas afins,<br />
num processo de exploração sistemática de sinergias, criação<br />
de um ambiente clínico mais favorável à continuidade dos<br />
cuidados, redução de lideranças e rivalidades e melhor eficiência<br />
na utilização de recursos.<br />
A noção de centros de responsabilidade parece-nos muito mais<br />
ajustada à reestruturação que defendemos, criando-se assim,<br />
áreas intermédias de administração, com recursos próprios,<br />
objectivos específicos e liderança multidisciplinar, com forte<br />
intervenção de gestores profissionais. Nesta matéria, a presente<br />
proposta acaba por ser incoerente, muito pouco trabalhada,<br />
desvalorizando ) aparentemente, um dos aspectos mais relevantes<br />
da empresarialização dos hospitais. Cotejando com a actual lei de<br />
gestão hospitalar, o diploma em apreço, representa até um claro<br />
retrocesso.<br />
Quanto à economia de órgãos prevista no artigo 7º,<br />
5 consideramos uma omissão grave a não inclusão de órgãos de<br />
direcção técnica, essenciais na gestão dos hospitais.<br />
6<br />
Parece-nos, por outro lado, ser de louvar a ideia de se vir a<br />
criar um ranking dos hospitais segundo modelo de avaliação<br />
a implementar (cf. Artº 8º). Defendemos esse modelo, mas<br />
pensamos que o mesmo encerra riscos e incompreensões para as<br />
quais se exige muito rigor, algum consenso e muita ponderação.<br />
7<br />
Não podemos, a finalizar, deixar de lamentar a total ausência<br />
de referências aos profissionais de administração hospitalar,<br />
ao longo de todo o diploma. Trata-se de uma classe dirigente<br />
dos quadros dos hospitais públicos, com competências específicas<br />
de gestão e que poderão dar um contributo importante para a<br />
modernização da gestão hospitalar, matéria pela qual nos temos<br />
batido ao longo da última década. Para além das actividades<br />
específicas da área logística, os administradores hospitalares<br />
serão elementos preponderantes na reestruturação da actividade<br />
produtiva dos nossos hospitais e deverão assumir, em conjunto<br />
com outros profissionais, as funções de administração intermédia<br />
que atrás referimos.<br />
Em conclusão, reiteramos o nosso apreço pelos princípios<br />
8 subjacentes à presente proposta de lei. Todavia a generalidade<br />
do seu articulado e os aspectos controversos e lacunares<br />
que deixamos expressos, suscitam-nos sérias reservas, cujo<br />
esclarecimento muito dependerá dos documentos legais de<br />
natureza regulamentar que vierem a ser apresentados. Relevamos,<br />
por fim, a necessidade de dotar os hospitais de uma<br />
gestão tendencialmente profissional, equidistante dos interesses<br />
corporativos, como elemento basilar para a empresarialização<br />
dos hospitais, questão para a qual a presente proposta não dá<br />
respostas minimamente consistentes.<br />
rn GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Reforma <strong>Hospitalar</strong> brasileira<br />
consagra gestão profissional<br />
Num momento em que, no<br />
nosso país, se assiste à<br />
introdução de um novo<br />
enquadramento jurídico na<br />
gestão hospitalar, tambem no<br />
Brasil está em fase de debate<br />
público uma profunda<br />
reforma do sistema hospitalar.<br />
Ressalvadas as diferenças<br />
socio-culturais existentes<br />
entre os dois países irmãos<br />
e os incomparáveis níveis de<br />
desenvolvimento económico<br />
e dos respectivos sistemas de<br />
saúde, é curiosa a verificação<br />
de preocupações semelhantes.<br />
Com base num modelo tipo<br />
"SNS" - Sistema Único de<br />
Saúde (SUS) - o sistema<br />
hospitalar público brasileiro<br />
tem, todavia, características<br />
de financiamento,<br />
organização e utilização<br />
muito diferentes<br />
relativamente a Portugal:<br />
dispõe de muito menos<br />
recursos humanos e<br />
financeiros, as estruturas e os<br />
equipamentos são<br />
incomparavelmente piores e<br />
os utilizadores pertencem<br />
quase exclusivamente à classe<br />
média baixa e aos grupos<br />
populacionais de menores<br />
O Ministro de Estado da Saúde, no uso de suas atribuições legais,<br />
Considerando os avanços tecnológicos e o incremento da<br />
complexidade das acções assistenciais de saúde;<br />
Considerando a necessidade de implementar modelos gercnciais que<br />
permitam planejar, quantificar, avaliar, acompanhar e controlar a<br />
prestação da assistência hospitalar;<br />
Considerando a importância da inserção do Ministério da Saúde<br />
no processo de modernização gerencial da rede hospitalar vinculada<br />
ao Sistema único de Saúde, visando um sistema de saúde resolutivo,<br />
de qualidade e adequada relação custo/ benefício;<br />
Considerando a necessidade de promover a utilização de práticas<br />
gerenciais que possibilitem maior eficácia e eficiência na aplicação<br />
dos recursos públicos;<br />
Considerando a necessidade de profissionalizar e qualificar a gestão<br />
hospitalar no âmbito do sistema Único de Saúde;<br />
Considerando a Portaria que cria o sistema de Classificação<br />
<strong>Hospitalar</strong> do Sistema Único de Saúde, o Ministério da Saúde<br />
resolve:<br />
Art. 1 º - Estabelecer exigências mínimas de estruturação técnico/<br />
administrativa das direções dos hospitais viq.culados ao Sistema<br />
único de Saúde e critérios de qualificação profissional exigíveis<br />
para o exercício de funções nestas direções, de acordo com o Porte<br />
do hospital segundo sua classificação atribuída de acordo com os<br />
critérios do sistema de Classificação <strong>Hospitalar</strong> do Sistema único<br />
de Saúde, como segue:<br />
A - Hospital de Porte I<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Geral - Profissional com nível<br />
superior, com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />
com no mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino<br />
superior legalmente reconhecida;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - Profissional médico<br />
Obs - Se o responsável pela Direção Geral for profissional médico, o<br />
mesmo poderá acumular as funções de responsável pela Direção Técnica<br />
B - Hospital de Porte II<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Geral - Profissional de nível<br />
superior, com curso de extensão em Administração, com no<br />
mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />
legalmente reconhecida;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional de<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
rendimentos.<br />
Mas lá como cá, as<br />
preocupações dos políticos<br />
situam-se na promoção da<br />
eficácia e da eficiência das<br />
unidades hospitalares e,<br />
sobretudo, na utilização de<br />
políticas de gestão adequadas<br />
aos recursos disponibilizados.<br />
Na consulta pública que<br />
decorre neste momento no<br />
Brasil, chamou-nos<br />
particularmente a atenção a<br />
proposta do governo com<br />
vista à profissionalização e<br />
qualificação dos gestores<br />
hospitalares, numa<br />
perspectiva porventura mais<br />
avançada e<br />
despreconceituosa do que a<br />
que estamos habituados em<br />
Portugal.<br />
Com base numa classificação<br />
da rede hospitalar que<br />
contempla 4 níveis (ou<br />
"portes"), assim o legislador<br />
pretende identificar niveis<br />
de habilitação e experiência<br />
técnico-profissional para os<br />
respectivos gestores, que<br />
garantam profissionalismo na<br />
gestão hospitalar.<br />
Como curiosidade e para<br />
que os leitores da "G.H."<br />
se apercebam bem do tipo<br />
de mudanças propostas no<br />
Brasil, a seguir se publica<br />
um excerto dos diplomas do<br />
governo sujeitos à discussão<br />
pública.<br />
nível superior, com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />
com no mínimo 180 horas/aula em instituição de ensino legalmente<br />
reconhecida;<br />
C - Hospital de Porte III<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Geral - profissional com nível<br />
superior, experiência comprovada de 02 (dois) anos na função<br />
e curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong> com no<br />
mínimo 360 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />
legalmente reconhecida;<br />
- O 1 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico<br />
com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />
mínimo 180horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />
legalmente reconhecida;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional<br />
de nível superior com experiência comprovada de 02 (dois) anos<br />
na função e com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />
com no mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino<br />
legalmente reconhecida;<br />
D - Hospital de Porte IV<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Geral - profissional de nível<br />
superior, com 02 (dois) anos de experiência comprovada na função,<br />
com curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />
mínimo 360 hora/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />
legalmente reconhecida;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico<br />
com experiência de O 1 (um) ano na função e com curso de<br />
especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no mínimo 360<br />
horas/a ula, realizado em instituição de ensino superior legalmente<br />
reconhecida;<br />
- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional de<br />
nível superior, com experiência de 02 (dois) dois anos na função e<br />
com curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />
mínimo 360 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />
legalmente reconhecida.<br />
§ 10- As exigências estabelecidas neste Artigo, de acordo com<br />
o Porte do hospital, são válidas para totalidade dos hospitais<br />
cadastrados e que prestam serviços ao Sistema Unico de Saúde,<br />
independentemente de sua situação jurídica;<br />
§ 20 - Aqueles profissionais de nível superior que sejam responsáveis<br />
por qualquer uma das direções estabelecidas no caput deste<br />
Artigo, em hospital de qualquer Porte, e que tenham curso<br />
de graduação em Administração H ospitalar estão dispensados da<br />
realização/comprovação de cursos de extensão e/ou especialização<br />
em Administração <strong>Hospitalar</strong>, estabelecidos como exigências de<br />
qualificação profissional neste Artigo.<br />
( ... )Não se concretizam<br />
reformas com consensos<br />
nem com pactos de regime.<br />
As reformas dignas desse<br />
nome são rupturas,<br />
não são arranjos para<br />
acomodar toda a gente,<br />
evitando fazer ondas.<br />
Francisco Sarsfield Cabral<br />
Diário de Notícias, 30/07/<strong>2002</strong><br />
( ... ) Denunciarei todos<br />
os primeiros,ministros,<br />
mas todos, que têm medo<br />
das reformas drásticas<br />
na Saúde: Soares que<br />
mandou Maldonado fazer<br />
tudo menos ondas; Cavaco<br />
que, traumatizado com<br />
o acti vismo de Leonor,<br />
mandou Arlindo almoçar<br />
com o bastonário e paralisou<br />
Mendo no financiamento;<br />
Guterres que recusou<br />
apaixonar,se pela Saúde,<br />
extinguindo,a de fome<br />
financeira e de decisões,<br />
Durão que previne Luís<br />
Filipe de que não quer<br />
mais conflitos "sociais"<br />
no próximo Outono.<br />
Correia de Campos<br />
O Público, 13/08/<strong>2002</strong><br />
( ... ) Há um elemento<br />
radicalmente oposto<br />
à mentalidade médica:<br />
um espírito clínico nunca<br />
conseguirá dominar a lógica<br />
económica. (. .. ) Por isso lhe<br />
é tão difícil compreender<br />
as subtilezas da negociação,<br />
do compromisso,<br />
do equilíbrio. ( ... )<br />
Não se pode pedir a alguém<br />
que passou o dia a decidir<br />
sobre a vida de outros que<br />
entenda os detalhes<br />
de um orçamento.<br />
( ... ) Vivemos num tempo<br />
obcecado com a saúde,<br />
que exige ao sistema<br />
o impossível e o utiliza<br />
para esconder a morte.<br />
( ... ) Esta é a razão do actual<br />
prestígio da classe médica,<br />
tão elevado desde<br />
os cirurgiões, barbeiros.<br />
E da sua eficácia<br />
na chantagem política.<br />
] oão César das Neves<br />
Diário de Notícias, 19/08/<strong>2002</strong><br />
( ... )Na opinião de muitos<br />
gestores, que eu comungo,<br />
com uma reforma profunda<br />
das metodologias de gestão,<br />
o sistema público seria<br />
perfeitamente capaz de<br />
resolver a maior parte dos<br />
problemas que o afligem.<br />
Nesse sentido,<br />
é absolutamente essencial<br />
que a Saúde seja<br />
desburocratizada e libertada<br />
das amarras da ac tual<br />
administração pública,<br />
de modo a que possa ser<br />
gerida por gestores<br />
competentes, utilizando<br />
metodologias modernas.<br />
Manuel]. Antunes<br />
O Público, 22/08/<strong>2002</strong><br />
Marco tio correio<br />
( ... ) Por proposta do<br />
Conselho Regional do Sul<br />
( CRS), a Ordem dos<br />
Médicos ( OM) está<br />
a elaborar um programa<br />
de formação pós,graduada<br />
em gestão, que se destina<br />
a preparar, nos próximos<br />
cinco a oito anos,<br />
os clínicos com as<br />
ferramentas necessárias<br />
para que possam dirigir<br />
hospitais e centros de saúde,<br />
podendo deste modo assumir<br />
funções que têm estado<br />
adstritas aos administradores<br />
hospitalares.<br />
Medi .com, 15/05/<strong>2002</strong><br />
( ... ) O que o governo<br />
anterior fez durante muitos<br />
anos foi atirar dinheiro aos<br />
problemas. ( ... ) Há pessoas<br />
que julgam que tudo se<br />
resolve com a privatização<br />
pura e simples, e há outras<br />
que pensam que se resolve<br />
mantendo tudo com a<br />
intervenção estatal. Entre<br />
estas duas posições há uma<br />
de equilíbrio, a que eu estou<br />
a procurar adaptar.<br />
Luís Filipe Pereira<br />
Independente, 05/07/<strong>2002</strong><br />
Todos os jornais e revistas, qualquer que seja a periodici,<br />
dade, destinam aos seus leitores um espaço especial para<br />
publicação do que lhes vai na alma. É a secção das cartas, ·<br />
para onde vai a correspondência, escrita e enviada ao<br />
director do periódico, umas vezes pelos melhores motivos<br />
e tantas outras pelas piores razões.<br />
A revista da APAH não é excepção. E este espaço aqui<br />
está, à mercê dos seus leitores. A revista aparece<br />
com um new look, mas a designação da secção mantém,se<br />
com o nome de baptismo da versão anterior - "Marco do<br />
Correio". Escrevam!<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Portugal preside à Associação Europeia<br />
de Gestores <strong>Hospitalar</strong>es<br />
nos próximos quatro anos<br />
Sede da EAHM,<br />
em Bruxelas<br />
rn GESTÃO HOSPITALAR<br />
Na próxima Assembleia Geral da<br />
EAHM, a realizar no âmbito do<br />
Congresso de Cracóvia, proceder,se,á<br />
à eleição dos órgãos sociais, para os<br />
próximos 4 anos.<br />
Na linha de continuidade que tem<br />
marcado sempre as passagens de<br />
testemunho, a actual Direcção e em<br />
particular o Presidente, promoveram a<br />
apresentação de uma lista de consenso.<br />
Desse trabalho resultou a proposta para<br />
Presidente da Associação Europeia<br />
do nosso colega Manuel Delgado,<br />
indigitação já ratificada na reunião<br />
da Comissão Executiva realizada no<br />
Luxemburgo no passado dia 12 de<br />
Abril.<br />
A indigitação do Presidente da APAH<br />
para a Presidência da Associação<br />
Europeia, para além do prestígio e<br />
do reconhecimento que isso representa<br />
para os administradores hospitalares<br />
portugueses, é também um desafio<br />
singular à nossa capacidade de<br />
liderança e de organização para o qual<br />
temos que estar preparados.<br />
O presidente da EAHM, Asger Hansen<br />
(à esq.), com Manuel Delgado e o vicepresidente<br />
Miecszlaw Pasowicz (à dir.).<br />
Willy Heuschen, secretário-geral da EAHM<br />
(à esq.), Manuel Delgado, presidente da APAH<br />
(ao centro) e Miecszlaw Pasowicz (à dir.).<br />
Associação Europeia: quem é e o que faz<br />
A Associação Portuguesa de<br />
Administradores <strong>Hospitalar</strong>es (APAH)<br />
é membro da European Association of<br />
Hospital Managers (EAHM) desde 1982.<br />
Fundada em 1970, em Estrasburgo,<br />
a EAHM congrega hoje 23 países<br />
representando cerca de 22.000 gestores<br />
hospitalçi.res. É de salientar o ingresso, nos<br />
últimos dez anos, de muitos países do leste,<br />
como a Polónia, a Hungria, a Lituânia, a<br />
República Checa, a Eslováquia e a Croácia.<br />
A EAHM tem como objectivos essenciais<br />
da sua missão promover a autoridade<br />
profissional e evidenciar a responsabilidade<br />
dos gestores hospitalares e, nessa<br />
perspectiva, influenciar as decisões da UE<br />
que afectem a actividade dos hospitais.<br />
Por outro lado, compete à Associação<br />
Europeia apresentar propostas que<br />
contribuam para a integração, numa<br />
"Europa Social", de princípios comuns na<br />
organização hospitalar, e no acesso<br />
e direitos dos doentes.<br />
A EAHM tem também um papel<br />
importante na defesa dos interesses<br />
dos seus membros, representando,os em<br />
comissões e instituições internacionais da<br />
maior relevância. A Associação Europeia<br />
tem,se desenvolvido significativamente nos<br />
últimos anos graças, essencialmente,<br />
à profissionalização do cargo<br />
de Secretário,Geral. Foram criadas<br />
duas Sub,Comissões das quais se esperam<br />
frutos muito positivos para o futuro:<br />
a Sub,Comissão Científica e a<br />
Sub,Comissão para os Assuntos Europeus.<br />
Da primeira, espera,se um novo impulso<br />
no campo doutrinário, científico e técnico,<br />
que congregue mais gestores hospitalares<br />
europeus à volta de temas específicos<br />
que envolvam a sua prática profissional.<br />
Da segunda, aguarda,se uma permanente<br />
atenção para as questões europeias, através,<br />
designadamente, do acompanhamento<br />
sistemático da agenda da Comissão<br />
Europeia, tentando contribuir para que as<br />
suas recomendações, iniciativas e decisões<br />
promovam a acessibilidade, eficiência<br />
e a qualidade dos hospitais europeus.<br />
A EAHM tem hoje uma sede, com logística<br />
própria, em Bruxelas. Bem localizada<br />
e com excelentes instalações, a sede da<br />
EAHM dispõe ainda de um pequeno<br />
auditório para conferências ou sessões<br />
cientificas. Dispõe também,<br />
desde há 2 anos a esta parte, de<br />
uma Revista mensal que se vem<br />
afirmando no panorama europeu de<br />
publicações especializadas na área da<br />
gestão hospitalar. A Revista "Hospital"<br />
- que todos os associados da APAH<br />
recebem - vive dos contributos dos<br />
seus diferentes membros e tem uma<br />
gestão profissional.<br />
Estamos, recentemente, numa fase<br />
importante da Revista, já que, para<br />
aumentar a sua credibilidade e<br />
prestigio, será submetida à BPA<br />
(Business Press Audit), o processo<br />
de acreditação mais exigente para os<br />
jornais de todo o mundo.<br />
Os actuais estatutos da Associação<br />
Europeia contemplam cinco órgãos<br />
na sua estrutura directiva:<br />
• A Assembleia Geral, constituída<br />
por todos os países membros e<br />
em que podem participar todos os<br />
gestores integrados nas Associações<br />
nacionais; reúne,se, ordinariamente,<br />
uma vez por ano e é a sede essencial<br />
para a eleição dos órgãos sociais,<br />
aprovação de orçamentos, relatórios<br />
e contas, etc.;<br />
• A Comissão Executiva,<br />
constituída pelos representantes de<br />
cada Associação Nacional e que<br />
reúne, pelo menos, 3 vezes por<br />
ano. É um órgão essencialmente de<br />
ratificação das decisões da Direcção<br />
da Associação e que submete<br />
propostas à Assembleia Geral;<br />
• A Direcção, que para além de<br />
integrar a Comissão Executiva, tem<br />
a responsabilidade de conduzir as<br />
actividades correntes da Associação,<br />
tomar decisões, definir e propor<br />
estratégias, planos de acção,<br />
orçamentos, etc.;<br />
• O Presidente, que para além das<br />
tarefas de representação que lhe são<br />
inerentes, preside às reuniões da<br />
Direcção, da Comissão Executiva e<br />
da Assembleia Geral e promove a<br />
execução das decisões aí tomadas;<br />
• O Secretário,Geral que, por<br />
excelência, executa as decisões<br />
tomadas aos diferentes níveis e<br />
cuida da logística e das finanças da<br />
Associação.<br />
Todos os órgãos da Associação são<br />
eleitos por períodos de 4 anos,<br />
com a excepção do Secretário,Geral,<br />
que é eleito por 5 anos. Este<br />
é também o único cargo<br />
remunerado, dadas as tarefas<br />
absorventes e constantes que<br />
tem de desempenhar.<br />
O membro eleito para<br />
Presidente só pode exercer o<br />
cargo por um único mandato.<br />
A Associação Europeia realiza<br />
de 2 em 2 anos o seu Congresso.<br />
Até á aprovação recente dos<br />
novos estatutos, tal realização<br />
era de periodicidade anual, mas<br />
considerou,se mais ajustado e<br />
propiciador de maior impacte a<br />
EAHM: 19º Congresso em Cracóvia<br />
de 19 a 21 de Setembro de <strong>2002</strong><br />
O próximo Congresso<br />
da EAHM decorrerá este ano,<br />
de 19 a 21 de Setembro,<br />
em Cracóvia, na Polónia,<br />
e será organizado pela<br />
Associação Polaca de<br />
Directores de Hospitais.<br />
O tema do Congresso<br />
- os cuidados de Saúde<br />
centrados no doente: da<br />
reforma estrutural aos<br />
cuidados integrados - é<br />
extremamente oportuno, num<br />
momento em que as questões<br />
da cidadania e da participação<br />
cívica na defesa dos interesses<br />
dos utilizadores assumem uma<br />
importância crescente no<br />
espaço europeu.<br />
O programa Cientifico está<br />
dividido em seis secções:<br />
realização dos Congressos de forma<br />
bienal.<br />
Os Congressos da Associação são,<br />
indiscutivelmente, os momentos de<br />
maior visibilidade e interesse da vida<br />
associativa. Durante 3 dias, gestores<br />
hospitalares de toda a Europa, trocam<br />
as suas experiências profissionais,<br />
participam em conferências ou mesas,<br />
redondas e tomam contacto com<br />
novas ideias, novos projectos ou novas<br />
metodologias.<br />
Portugal já foi anfitrião de dois<br />
Congressos da Associação Europeia:<br />
em 1984, em Espinho e, mais<br />
recentemente, em 1999, em Lisboa.<br />
O desempenho de Portugal foi<br />
reconhecido, quer pela competência<br />
da organização e qualidade do<br />
programa científico, quer pelo<br />
interesse do programa social.<br />
Isso contribuiu decisivamente para o<br />
prestígio que a APAH hoje tem no<br />
seio da EAHM, ocupando desde 1998<br />
uma das Vice, Presidências.<br />
todos os países membros<br />
daEAHM.<br />
Oportunamente foi dado<br />
1- Uma nova cultura organizacional que ponha o doente<br />
no centro do sistema;<br />
li - A humanização, a arquitectura e as artes<br />
no meio hospitalar;<br />
Ili- A gestão da mudança nos Cuidados de Saúde;<br />
IV- A gestão hospitalar e a nova ênfase na Qualidade;<br />
V- A colaboração transfronteiriça entre hospitais europeus;<br />
VI- Parcerias público-privado no sector da Saúde.<br />
O programa será preenchido<br />
por conferências, mesas,<br />
redondas e "case studies"<br />
e incluirá intervenções<br />
de representantes de quase<br />
conhecimento do programa<br />
final do Congresso,<br />
através do envio<br />
do respectivo desdobrável<br />
para todos os associados.<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Concurso para<br />
provimento<br />
de lugares de<br />
administradores<br />
hospitalares<br />
publicado na<br />
li Série do DR<br />
n 2 • 282, de 6-12-01<br />
Encontram .. se<br />
a decorrer com<br />
normalidade os trabalhos<br />
de análise dos curricula<br />
dos candidatos ao<br />
concurso, prevendo .. se<br />
que o júri elabore a lista<br />
classificativa provisória<br />
até ao final<br />
do corrente ano.<br />
Forum Gulbenkian de Saúde<br />
No passado mês de Junho terminou mais um<br />
Ciclo de Conferências integradas no Forum<br />
Gulbenkian de Saúde. Iniciado em 1997, com<br />
base numa iniciativa conjunta da Fundação<br />
Calouste Gulbenkian, Escola Nacional de<br />
Saúde Pública/UNL e Associação Portuguesa<br />
de Administradores <strong>Hospitalar</strong>es, o Forum<br />
revelou,se, desde logo, um espaço privilegiado<br />
de debate nas áreas da política de saúde e<br />
da gestão hospitalar, sem paralelo ao nível<br />
nacional. Ao longo destes anos , foi possível<br />
trazer ao Forum, as principais figuras nacionais<br />
da área da administração da Saúde, peritos<br />
internacionais de reconhecido mérito nas<br />
mais importantes áreas da gestão dos serviços<br />
de Saúde e, também, líderes de opinião e<br />
representantes proeminentes da comunicação<br />
social portuguesa.<br />
Os temas em debate, sempre de grande<br />
importância e oportunidade, e a qualidade<br />
dos conferencistas e dos comentadores, foram<br />
grangeando prestígio junto dos profissioanis<br />
da Saúde, dos investigadores e dos estudantes,<br />
tomando estas sessões da Gulbenkian um<br />
ponto de convergência quase obrigatório.<br />
APAH recebida pelo Ministro da Saúde<br />
A Direcção da APAH foi<br />
recebida, em primeira<br />
audiência pelo Ministro da<br />
Saúde, no dia 8 de Maio.<br />
Foram analisados os principais<br />
problemas que afectam a<br />
gestão hospitalar e houve um<br />
acordo generalizado de pontos<br />
de vista sobre o diagnóstico<br />
da situação e as principais<br />
medidas a empreender.<br />
A Direcção da APAH expôs<br />
de seguida os problemas de<br />
emprego que envolvem cerca<br />
de 80 administradores<br />
ffl GESTÃO HOSPITALAR<br />
hospitalares em efectivo<br />
exercício de funções,<br />
salientando a situação<br />
precária e humilhante em<br />
que se encontram, no<br />
desempenho de cargos<br />
dirigentes.<br />
O Ministro da Saúde, Luis<br />
Filipe Pereira, mostrou,se<br />
preocupado com o problema e<br />
disposto a encontrar soluções<br />
avançando, desde logo, que<br />
a sua posição seria manter<br />
transitoriamente tais<br />
contratos, desde que<br />
devidamente justificada a<br />
necessidade de cada um desses<br />
profissionais, até se encontrar<br />
uma solução adequada, que<br />
segundo as suas palavras,<br />
passaria pela abertura de<br />
quotas de descongelamento<br />
para ingresso no quadro único<br />
da carreira de administração<br />
hospitalar.<br />
Posteriormente, e já após a<br />
publicação da resolução do<br />
Conselho de Ministros sobre<br />
a contratação de pessoal,<br />
Luis Filipe Pereira reiterou<br />
'r. wngulbenkían<br />
, saua'e<br />
O último ciclo (<strong>2002</strong>) foi, claramente,<br />
de consolidação deste projecto. O número<br />
e diversidade profissional dos participantes<br />
excedeu, este ano, todas as expectativas e foi<br />
com satisfação que os organizadores registaram<br />
salas cheias em varias sessões.<br />
É, assim, com muito orgulho, que a APAH<br />
realça a sua participação nesta iniciativa, para<br />
a qual muito contribuíram a visão e o apoio<br />
desde a primeira hora, do Senhor Presidente<br />
da Fundação Calouste Gulbenkian, Dr Victor<br />
Sá Machado, a ideia antiga do Prof. Caldeira<br />
da Silva em ver concretizado cm Lisboa,<br />
um Forum anual com estas características,<br />
e a perseverança, a dedicação e a liderança<br />
do Prof. Manuel Rodrigues Gomes, lutador<br />
incansável para o sucesso deste projecto na sua<br />
qualidade de Director dos Serviços de Saúde<br />
e Desenvolvimento Humano da Fundação.<br />
Da nossa parte tudo fizemos e continuaremos<br />
a fazer para que, dentro dos nossos modestos<br />
préstimos, os temas e os convidados<br />
do Forum satisfaçam as expectativas<br />
da audiência exigente que habitualmente<br />
acorre à Gulbenkian.<br />
a sua posição de princípio,<br />
de despachar favoravelmente<br />
todos os contratos de<br />
administradores hospitalares<br />
desde que devidamente<br />
justificados.<br />
A Direcção da APAH<br />
considerou positiva a reunião<br />
com o Ministro e espera que<br />
os problemas que hoje se<br />
. colocam a muitos profissionais<br />
da administração hospitalar -<br />
que querem, legitimamente,<br />
ver a sua situação de trabalho<br />
devidamente estabilizada -<br />
irão a breve trecho<br />
resolver,se.<br />
Congresso de Aprovisionamento:<br />
um êxito das Conferências APAH<br />
A Associação Portuguesa de<br />
Administradores <strong>Hospitalar</strong>es realizou, em<br />
16 e 1 7 de Maio, com o apoio do<br />
Instituto da Qualidade em Saúde, o IV<br />
Congresso N acional de Aprovisionamento<br />
<strong>Hospitalar</strong>.<br />
Considerado um autêntico êxito quer<br />
pelo elevado número de presenças de<br />
profissionais ligados à gestão de serviços<br />
de saúde, quer pela qualidade dos<br />
especialistas convidados e dos temas<br />
desenvolvidos, este Congresso, levado a<br />
efeito no âmbito das Conferências APAH,<br />
abrangeu o aprovisionamento e a logísitica<br />
hospitalares na perspectiva da eficácia e da<br />
eficiência da organização.<br />
A sessão de abertura foi presidida, em<br />
representação do Ministro da Saúde, por<br />
um membro do seu Gabinete, Dr. Mendes<br />
Ribeiro.<br />
O primeiro dia foi preenchido com<br />
o desenvolvimento dos seguintes temas:<br />
"Logística: conceito e práticas<br />
empresariais; da gestão de actividades<br />
ao fluxo físico integrado", "A logística<br />
de produtos farmacêuticos em hospital<br />
central", "A organização das compras na<br />
unidade local de saúde de Matosinhos",<br />
"<strong>Gestão</strong> de materiais nos hospitais públicos<br />
portugueses", "O projecto de qualificação<br />
dos serviços de aprovision amento<br />
hospitalar" e "Repercussões da nova<br />
legislação das compras hospitalares".<br />
Os especialistas que intervieram nesses<br />
temas foram, respectivamente, o Prof.<br />
Doutor José Mexia Crespo de Carvalho<br />
(ISCTE), Prof. Doutor João Menezes<br />
(ISCTE), Dr. Eurico Brilhante Dias<br />
(ISCTE), Prof. Doutor Lopes dos Reis<br />
(administrador do Hospital de Santo<br />
António dos Capuchos), Dr. Alves Dias<br />
(administrador do Hospital de Santo<br />
António), Dr. Pedro Esteves<br />
(administrador delegado do Hospital de<br />
IV CONGRESSO<br />
NACIONAL<br />
DE<br />
APROVISIONAMENTO<br />
HOSPITALAR<br />
Matosinhos), Dr. Vítor da Fonseca, Dra.<br />
Anabela Antunes de Almeida (docente),<br />
Dr. Manuel Ligeiro (administrador<br />
hospitalar), Dra. Maria da Luz Gonçalves<br />
(administradora do Hospital Pulido<br />
Valente), Dr. Meneses Duarte, Dr. Pedro<br />
Brito (consultor jurídico), Dra. Mariana<br />
Peres (administradora do Hospital de<br />
Santa Maria), Rodrigues Lobo (chefe do<br />
Seriço de Aprovisionamento do Centro<br />
<strong>Hospitalar</strong> de Torres Vedras) e Dr.<br />
Manuel Delgado (administrador delegado<br />
do Hospital dos Capuchos).<br />
O segundo dia do IV Congresso foi<br />
dedicado a debater os temas seguintes:<br />
"Uma estrutura de logística<br />
multidisciplinar" (Dr. Pedro Bastos e José<br />
de Mello Saúde) e "Excelência logística.<br />
Componente de eficácia hospitalar" (Dr.<br />
Vítor de Carvalho e Dr. José Carlos Lopes<br />
Martins, moderador).<br />
O evento terminou com uma conferência<br />
sobre "Como adaptar os processos<br />
logísticos hospitalares para satisfazer os<br />
nossos clientes internos", tendo como<br />
principal protagonista o Dr. Eugéni<br />
Freixas, chefe de compras da Corporacion<br />
Sanitaria Clinic, Barcelona.<br />
A Associação Portuguesa de<br />
Administradores H ospitalares<br />
congratula,se particularmente com o<br />
resultado desta realização, ciente da sua<br />
oportunidade e dos novos desafios que se<br />
colocam aos profissionais do sector.<br />
Audição da APAH<br />
na Comissão<br />
Parlamentar do<br />
Trabalho e dos<br />
Assuntos Sociais<br />
A Direcção da APAH<br />
foi ouvida, no passado<br />
dia 2 de Julho,<br />
e por solicitação da<br />
Comissão Parlamentar<br />
do Trabalho e dos<br />
Assuntos Sociais,<br />
em sessão pública,<br />
a propósito do projecto<br />
de lei proposto pelo<br />
Governo sobre<br />
a <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />
O Presidente da Direcção,<br />
Manuel Delgado,<br />
fez uma apresentação<br />
sucinta dos pontos<br />
de vista da APAH<br />
e entregou ao Presidente<br />
da Comissão, Pina<br />
Moura, um documento,<br />
de apreciação do projecto<br />
(incluído no dossier<br />
sobre a Lei de <strong>Gestão</strong><br />
<strong>Hospitalar</strong>, na presente<br />
edição de "G.H.").<br />
Os deputados<br />
reconheceram<br />
a importância<br />
dos administradores<br />
hospitalares<br />
no desenvolvimento<br />
e modernização<br />
da gestão dos hospitais<br />
e concordaram com<br />
a posição da APAH<br />
de que a actual lei<br />
deverá enquadrar<br />
melhor o seu papel,<br />
na liderança dessas<br />
instituições.<br />
Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde reúne com APAH<br />
A Direcção da Associação de Administradores<br />
<strong>Hospitalar</strong>es foi recebida, no dia 28 de Agosto,<br />
pelo secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde,<br />
Adão Silva.<br />
Acompanhado por elementos do seu gabinete e pelo<br />
representante do Departamento de Modernização<br />
e Recursos da Saúde, o secretário de Estado ouviu<br />
as preocupações da Direcção quanto à situação<br />
dos administradores hospitalares ainda não integrados<br />
no quadro único em exercício de funções.<br />
Prometeu encontrar uma estratégia conjunta<br />
com o Ministro da Saúde, no sentido de alargar o quadro<br />
único e subsequentemente conseguir obter quotas<br />
de descongelamento que permitam a integração<br />
dos cerca de 90 colegas em situação de contratos precários.<br />
Atendendo a que esse processo se irá naturalmente<br />
arrastar, pelo menos, durante um ano, a solução transitória<br />
a adoptar passa pela manutenção dos modelos contratuais<br />
até agora em vigor. A Direcção da APAH concordou<br />
com esta posição, esperando, todavia, que seja desta vez<br />
que o problema tenho um desenvolvimento efectivamente<br />
concordante com o prometido.<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Comunicação para a Qualidade<br />
- curso para administradores hospitalares<br />
A qualidade dos serviços de É neste contexto que a A comunicação inovação. Importa reflectir<br />
saúde é um tema de grande APAH e o INA promovem, desempenha um papel sobre o papel da função<br />
actualidade. Contudo, nos dias 3 e 4 de Outubro, fundamental no "comunicação" e dos<br />
quem garante que cidadãos no Palácio Marquês de desenvolvimento de uma instrumentos estratégicos<br />
e profissionais da saúde Pombal, em Oeiras, o curso política de qualidade. Mas na promoção de políticas<br />
partilham a mesma ideia de "Comunicação para a o conceito de "qualidade de qualidade na saúde e<br />
"qualidade em saúde"? Qualidade nos Hospitais", em sau<br />
, d<br />
e<br />
,,<br />
, o seu<br />
identificar alternativas<br />
A fim de contribuir para destinado a administradores significado, necessita de ser práticas para fomentar as<br />
a resposta a este desafio, hospitalares. Este visa dar "comunicado" aos públicos necessárias alterações<br />
o Instituto Nacional de a conhecer os fenómenos internos e externos das comportamentais.<br />
Administração (INA) da comunicação e a sua organizações do Serviço O programa de formação<br />
iniciou este ano um relevância para a "reforma Nacional de Saúde (SNS). em comunicação para a<br />
programa de formação em cultural" subjacente a um A concretização de saúde surge no âmbito de<br />
comunicação para os programa de qualidade nos políticas de qualidade exige um programa de formação<br />
profissionais da saúde, que hospitais. O curso pode profundas alterações de mais alargado de<br />
constitui o primeiro ser completado com um comportamentos e comunicação pública,<br />
projecto na área oferecido follow upa distância, de processos para as quais oferecido pelo INA há<br />
em Portugal. Com a 7 de Outubro a 15 de a definição de planos e já alguns anos, que se<br />
colaboração de um Novembro, durante o qual estratégias de comunicação destina a promover a<br />
profissional especialista na cada formando produz o eficientes é decisiva. Com institucionalização na<br />
matéria e com experiência esboço dum plano de efeito, torna~se necessário Administração Pública de<br />
adquirida quer no comun icação para a demonstrar que as políticas<br />
estrangeiro, quer em qualidade da saúde propostas para a qualidade de comunicação enquanto<br />
Portugal, o INA pretende relevante para o seu apresentam enormes instrumentos estratégicos<br />
ir ao encontro das contexto profissional. Para vantagens para todos e de apoio<br />
necessidades há muito participar no follow up o saber como contrariar as à gestão pública.<br />
identificadas por utentes formando necessita percepções erradas Para mais informação e<br />
dos serviços de saúde, somente de ter um entretanto estabelecidas, mscrições:<br />
profissionais e responsáveis computador com acesso à responsáveis pelas isalia.casimiro@ina.pt ou<br />
políticos. internet. resistências à mudança e 2141 18741.<br />
Associação Portuguesa para o Desenvolvimento <strong>Hospitalar</strong><br />
A Associação Portuguesa para<br />
o Desenvolvimento <strong>Hospitalar</strong> -<br />
APDH - é uma pessoa colectiva<br />
de direito privado, dotada de<br />
personalidade jurídica sem fins<br />
lucrativos e que tem como sócios<br />
fundadores 8 hospitais e 5 pessoas<br />
individuais de várias regiões do<br />
país.<br />
Constituída em 4 de Abril de <strong>2002</strong>,<br />
a APDH tem por objectivos:<br />
a) promover a cooperação entre<br />
instituições hospitalares<br />
portuguesas<br />
e entre estas e as suas<br />
congéneres estrangeiras;<br />
b) promover e desenvolver<br />
a inovação<br />
no âmbito da gestão hospitalar;<br />
e) participar na reflexão<br />
sobre política de saúde;<br />
d) promover a melhoria<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
dos cuidados h ospitalares;<br />
e) promover a efectividade,<br />
eficiência<br />
e h umanização nos hospitais;<br />
f) promover e desenvolver<br />
projectos de investigação<br />
e estudo nas áreas<br />
da gestão hospitalar<br />
e clinica ou áreas conexas;<br />
g) divulgar informação técnica<br />
e em geral a que se revestir<br />
de interesse para os hospitais;<br />
h) promover e desenvolver<br />
programas de formação a nível<br />
nacional e internacional;<br />
i) representar os seus associados,<br />
quer a nível nacional,<br />
quer internacional,<br />
nomeadamente no Comité<br />
<strong>Hospitalar</strong> da União Europeia<br />
e na Federação Internacional<br />
dos Hospitais (FIH);<br />
j) promover e participar<br />
em processos de acreditação e<br />
melhoria da qualidade<br />
dos h ospitais;<br />
k) promover o intercâmbio<br />
com associações<br />
de natureza e objectivos<br />
congén eres;<br />
1) prestar serviços<br />
aos seus associados<br />
e a terceiros,<br />
ainda que remunerados.<br />
A Comissão Instaladora da A PDH<br />
está a operacionalizar a eleição<br />
dos seus órgãos sociais e pretende<br />
dar inicio ao desenvolvimento<br />
das actividades e fins a que<br />
se propõe. Neste momento a<br />
APDH já conta com cerca de<br />
40 associados e celebrou com o<br />
Ministério da Saúde um protocolo<br />
de colaboração.<br />
Prémio para <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong> •e• P<br />
A Associação Portuguesa de Administradores<br />
<strong>Hospitalar</strong>es (APAH) e a Pharmacia Corporation<br />
Laboratórios, Lda., criaram, a partir de <strong>2002</strong>, um<br />
prémio anual destinado ao melhor trabalho publicado<br />
na área da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />
A importância dos hospitais no contexto do sistema<br />
de saúde português, a complexidade e sensibilidade da<br />
sua actividade, o seu peso económico e, sobretudo,<br />
o seu impacte na saúde dos portugueses justificam<br />
plenamente a relevância com que esta iniciativa<br />
pretende distinguir a área da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />
O Prémio, no valor de cinco mil euros, tem por objecto<br />
artigos ou trabalhos que revelem características de<br />
inovação, de investigação ou de projecto operacional,<br />
•<br />
ÉM<br />
o<br />
~R<br />
sendo consideradas as seguintes áreas temáticas:<br />
<strong>Gestão</strong> Estratégica; Estrutura e Organização de<br />
Serviços; Modelos de <strong>Gestão</strong>; Sistemas de Informação;<br />
Planeamento e Controlo e <strong>Gestão</strong> da Qualidade.<br />
Os autores de trabalhos enquadráveis nos objectivos<br />
do presente Prémio poderão solicitar o respectivo<br />
regulamento, por escrito, através da APAH Apartado<br />
2281, 1147~501 Lisboa, ou pelo telefone 213555124.<br />
O regime jurídico das parcerias em Saúde<br />
O Governo pretende encontrar fontes<br />
alternativas de financiamento e de<br />
prestação para os serviços de Saúde<br />
através de parcerias com entidades<br />
privadas ou de natureza social.<br />
Para esse efeito, e no sentido de<br />
enquadrar de forma sistemática tais<br />
acordos, o Governo aprovou o D.L.<br />
n.º 185/02, de 20 de Agosto e do qual,<br />
"G.H." apresenta um resumo dos seus<br />
aspectos mais importantes.<br />
1. O que são parcerias?<br />
São acordos entre o Ministério da<br />
Saúde ou Instituições e Serviços<br />
integrados no SNS e entidades do<br />
sector privado ou social que se lhe<br />
associem, com carácter duradouro,<br />
com o fim de partilharem riscos e<br />
benefícios mútuos.<br />
2. Qual o seu objecto?<br />
As parcerias envolvem uma ou mais<br />
das seguintes actividades: concepção,<br />
construção, financiamento,<br />
conservação e exploração de<br />
estabelecimentos integrados ou a<br />
integrar no SNS.<br />
3. Quais os princípios que lhe estão<br />
subjacentes?<br />
Os ohjectivos devem assentar em<br />
resultados e não nos meios<br />
envolvidos. A duração deve ter<br />
em conta a vida útil dos activos<br />
subjacentes, não podendo exceder o<br />
prazo de 30 anos. O procedimento de<br />
contratualização deve, em regra, ter<br />
um caracter competitivo.<br />
A contratação deve ser precedida<br />
de uma avaliação prévia, mediante<br />
procedimento concursal especifico.<br />
4. Quais são os instrumentos<br />
contratuais possíveis?<br />
• O contrato de gestão, que tem por<br />
objecto principal assegurar<br />
prestações de saúde, através de um<br />
estabelecimento de saúde ou parte<br />
funcionalmente autónoma. Pode<br />
ainda ter por objecto a concepção,<br />
construção, financiamento,<br />
conservação e exploração do<br />
estabelecimento ou parte<br />
funcionalmente autónoma. (É a<br />
matriz contratual de referência para<br />
o estabelecimento de parcerias)<br />
• O contrato de prestação de serviços,<br />
em que o co~contratante da<br />
Administração realiza uma<br />
actividade de apoio à realização de<br />
prestações de saúde no âmbito de um<br />
estabelecimento de saúde.<br />
• O contrato de colaboração, que<br />
corresponde à integração no SNS<br />
de estabelecimentos de saúde<br />
pertencentes a outras entidades,<br />
aplicando~se, com as necessárias<br />
adaptações, o disposto para o<br />
contrato de gestão.<br />
5. Qual a forma de mobilidade dos<br />
funcionários públicos?<br />
O pessoal com relação jurídica de<br />
emprego público que detenha a<br />
qualidade de agente ou funcionário<br />
poder ser contratado por outras<br />
entidades em regime de comissão de<br />
serviço para as actividades a exercer<br />
em regime de parceria, mantendo<br />
todos os direitos inerentes ao seu<br />
quadro, incluindo os de aposentação<br />
ou reforma e sobrevivência, relevando<br />
o período de comissão de serviço<br />
como serviço prestado nesse quadro.<br />
Pode ainda, o referido pessoal, ser<br />
opositor a concursos de acesso da<br />
respectiva carreira, mesmo na<br />
vigência da comissão de serviço.<br />
6. Como é que a entidade gestora é<br />
remunerada?<br />
(no caso do contrato de gestão)<br />
Há, essencialmente, 3 modalidades<br />
previstas, que podem ser<br />
concomitantemente utilizadas:<br />
- por capitação, de acordo<br />
com a população abrangida pelo<br />
estabelecimento;<br />
- de acordo com uma tabela<br />
de preços<br />
especifica para as prestações;<br />
- por valor global para o conjunto<br />
das prestações.<br />
7. A entidade gestora pode realizar<br />
prestações de saúde fora do âmbito<br />
do serviço público?<br />
Pode, desde que essa prática se faça,<br />
comprovadamente, sem prejuízo das<br />
organizações de serviço público.<br />
8. Quem (e como) controla o<br />
cumprimento dos contratos de<br />
gestão?<br />
A entidade pública contratante deve<br />
regulamentar e fiscalizar o exercício<br />
do contrato de gestão. Os contratos,<br />
deverão, assim, prever,<br />
designadamente:<br />
a) Os poderes de fiscalização<br />
da entidade pública contratante;<br />
b) Os actos de gestão sujeitos<br />
a autorização, aprovação<br />
ou homologação da entidade<br />
pública contratante.<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Abordagens de Avaliacão ,<br />
Monitorizar<br />
('O que está a acontecer'<br />
- consequências)<br />
Investigar<br />
('Porque está a acontecer' -<br />
causas)<br />
Avaliação, valores e ideologia<br />
Avaliar e 'controlar'<br />
(ex.: justificar financiamento)<br />
~~ Avaliação de serviços de saúde:<br />
uma reflexão urgente<br />
Por J. Paulo Kuteev-Moreira*<br />
E<br />
ste artigo tem o propósito de<br />
introduzir um debate sobre a<br />
avaliação de serviços de saúde<br />
em Portugal. Identifica sumariamente<br />
as essências das diferentes abordagens<br />
de avaliação, nomeadamente<br />
a distinção fundamental entre<br />
monitorizar e investigar.<br />
Com estes conceitos em mente,<br />
e consciente do perigo da utilização<br />
da avaliação para exercer uma<br />
deturpação planeada da opinião<br />
pública, o texto pretende contribuir<br />
para o enriquecimento do debate<br />
entre os responsáveis do sistema de<br />
saúde português no sentido de iniciar<br />
o planeamento e implementação de<br />
estruturas concretas de avaliação dos<br />
serviços de saúde em Portugal.<br />
Um modelo em construção<br />
Figura 1: Avaliar Serviços de Saúde: Um modelo em construção<br />
(J. Paulo Moreira, <strong>2002</strong>)<br />
Observar<br />
Serviços de Saúde:<br />
Modelo<br />
em Construção<br />
Crescente atenção é dedicada a modelos<br />
e práticas de avaliação dos serviços<br />
de saúde. As duas últimas décadas<br />
assistiram à introdução e disseminação<br />
de novos (ou recorrentes) conceitos<br />
que pretendiam influenciar a política de<br />
oferta de serviços de saúde de que são<br />
Avaliação e 'boas práticas'<br />
\<br />
/<br />
Geração de E vidência<br />
Estruturas de Recolha (Informação de <strong>Gestão</strong>) - Metodologias - Estruturas de Partilha ( Co1nunicação)<br />
A Avaliação<br />
A 1 nterpretação da Evidência<br />
(quem? que valores? que poderes?)<br />
A Avaliacão da avaliacão<br />
, ,<br />
(comunidade científica independente)<br />
.<br />
-<br />
A avaliação<br />
do Desempenho<br />
Que orientação?<br />
Que indicadores ?<br />
Que abordagem modelar ?<br />
exemplo o consumismo (a luta pelos<br />
direitos dos consumidores de produtos<br />
e utilizadores de serviços públicos e<br />
privados), a cidadania (incluindo a<br />
promoção de formas de empowerment<br />
do cidadão), as inspecções a partir<br />
de reclamações, a pressão para um<br />
designado aumento de performance<br />
(infelizmente ainda centrado na<br />
produção e ignorando o impacte sobre<br />
o cidadão), a introdução de programas<br />
de qualidade, o debate da eficiência/<br />
eficácia dos serviços de saúde (ainda<br />
sem definições concretas em direcção<br />
aos 'ganhos em saúde'), a gestão do<br />
'bem público', a responsabilização do<br />
gestor público e outros conceitos ainda<br />
mais embrionários em Portugal como a<br />
'gestão da doença' (tradução do conceito<br />
de disease management) ou a clinical<br />
governance (eventualmente a traduzir<br />
como 'gestão clínica').<br />
É neste contexto de propostas de<br />
mudança em concorrência que surge<br />
a necessidade de gerar evidência para<br />
legitimar umas opções ou abandonar<br />
outras. Assim, h á que começar por<br />
estabelecer uma clara distinção entre<br />
a investigação e a monitorização no<br />
contexto da avaliação de serviços de<br />
saúde (incluindo a avaliação de projectos<br />
e modelos de gestão, tecnologias, terapias<br />
ou fármacos), assim como ampliar a<br />
nossa visão critica em relação aos<br />
processos de geração de evidência e<br />
aos momentos da sua respectiva<br />
interpretação. Só esta clarificação de<br />
abordagens de avaliação poderá auxiliar<br />
a legitimação de uma qualquer proposta<br />
social de mudança da lógica de oferta<br />
dos serviços de saúde.<br />
A reflexão objectiva e pragmática que<br />
se pretende para já introduzir é a<br />
de que há diferenças metodológicas e<br />
de propósito social entre estudos de<br />
avaliação, programas de monitorização<br />
e projectos de investigação. Os outros<br />
elementos do modelo aqui proposto<br />
(figura 1) poderão ser discutidos em<br />
texto subsequente, se tal for considerado<br />
oportuno. Portanto, este texto apresenta<br />
apenas o início de uma reflexão sobre<br />
esta questão fundamental para o apoio ao<br />
desenvolvimento estrutural dos serviços<br />
de saúde em Portugal.<br />
Tudo começa com uma clarificação de<br />
atitude. Ou seja, há que fazer um esforço<br />
para abandonar a perspectiva (muitas<br />
vezes inconsciente) segundo a qual se<br />
assume que, por exemplo, uma avaliação<br />
ou um programa de monitorização<br />
tem o propósito exclusivo de controlo<br />
social. Esta atitude é profundamente<br />
contraproducente para o<br />
desenvolvimento da gestão dos serviços<br />
de saúde. Os actos de avaliação os<br />
processos de monitorização ou os<br />
projectos de investigação não são formas<br />
de controlar. São, antes, contributos para<br />
a partilha de 'boas práticas' entre o<br />
maior número possível de profissionais<br />
de saúde. Deverão ser o reforço do<br />
positivo em detrimento do negativo.<br />
Ou seja, são uma prática da disseminação<br />
e promoção do que se faz bem em<br />
detrimento da promoção exclusiva e, por<br />
vezes irresponsável, do que se faz mal.<br />
Porquê reflectir sobre<br />
as práticas de avaliação<br />
dos serviços de saúde?<br />
Um pouco por toda a Europa, verifica,se<br />
o estabelecimento de processos de<br />
partilha de 'boas práticas' na prestação<br />
e gestão de cuidados de saúde como<br />
uma forma de contribuir para o<br />
desenvolvimento dos respectivos serviços<br />
nacionais. Esta postura, como vamos<br />
verificar, reforça uma lógica democrática<br />
que envolve os prestadores (profissionais<br />
de saúde) e os utilizadores (utentes) dos<br />
serviços de saúde.<br />
É universalmente aceite que a partilha<br />
das 'boas práticas' é prioritária para<br />
a modernização dos sistemas de saúde<br />
e do nível técnico das suas profissões.<br />
Esta partilha de 'boas práticas' deve<br />
contribuir para que as organizações de<br />
saúde desenvolvam uma postura de auto,<br />
avaliação constante com o objectivo<br />
fundamental de recolher informação<br />
para a decisão no sentido da melhoria<br />
contínua centrada na perspectiva do<br />
utente (portanto, nas suas necessidades).<br />
Assume,se, assim, que as políticas e<br />
práticas dos serviços de saúde não podem<br />
ser simplesmente 'auto,justificadas',<br />
o que origina a reflexão e o<br />
estabelecimento de diversas formas<br />
de avaliação facilmente identificáveis<br />
um pouco por toda a União Europeia.<br />
As abordagens da Avaliação<br />
Vários governos europeus (incluindo<br />
Os actos<br />
de avaliação<br />
os processos de<br />
monitorização<br />
ou os projectos<br />
de investigação<br />
não são formas<br />
de controlar.<br />
São, antes,<br />
contributos<br />
para a partilha<br />
de 'boas<br />
práticas'<br />
entre o maior<br />
número possível<br />
de profissionais<br />
de saúde.<br />
ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR ~
( ... )<br />
investigar<br />
a partir de<br />
resultados de<br />
monitorização<br />
eficiente<br />
é meio caminho<br />
para resultados<br />
que constituam<br />
uma mais-valia<br />
para a decisão<br />
de gestão.<br />
o português) têm tentado introduzir nos<br />
seus serviços nacionais de saúde uma<br />
'cultura de gestão' modelada no sector<br />
empresarial com o objectivo principal<br />
de contribuir para o controlo da despesa<br />
pública em cuidados de saúde. Esta<br />
intenção tem 'esbarrado' em vários<br />
fenómenos (muitos de natureza cultural)<br />
cuja influência e autoridade se têm<br />
sobreposto à dos responsáveis pela<br />
reforma dos serviços de saúde assim<br />
como à tentativa de aplicar a avaliação<br />
focalizada na eficiência, eficácia e<br />
produtividade dos cuidados e das<br />
tecnologias da saúde.<br />
Neste contexto, sentir,nos,famos<br />
à vontade para afirmar que os propósitos<br />
da avaliação dos serviços de saúde<br />
são muito simples: tratar,se,ia de<br />
assegurar a identificação dos seus graus<br />
de eficiência e eficácia e responsabilizar<br />
os profissionais pela utilização dos<br />
recursos disponibilizados para a saúde.<br />
Porém, esta é apenas a resposta do<br />
senso comum. A reflexão mais profunda<br />
obriga,nos a ir para além do aparente e<br />
a alargar o nosso entendimento dos<br />
propósitos da avaliação dos serviços<br />
de saúde de forma a esclarecermos a<br />
sua natureza abrangente e respectivo<br />
potencial para o planeamento e<br />
desenvolvimento dos serviços de saúde<br />
no seu Todo. Passemos, assim, a uma<br />
discussão sumária de alguns dos elementos<br />
apresentados no modelo aqui proposto.<br />
Avaliar e Monitorizar<br />
Ao contrastarmos os processos de avaliar<br />
e monitorizar, poderá parecer que<br />
estambs a falar da mesma coisa. Porém,<br />
há uma clarificação conceptual<br />
fundamental que temos que reforçar e<br />
9ue definir aqui:_'.!!lonitorizar é o processd<br />
de registar o que está a acontecer)<br />
- 1<br />
documentando a evoluçao em algum.<br />
período de tempo e, assim, identificandd<br />
os efeitos ( as consequências) da adopção<br />
~a prática monitorizada 1<br />
Avaliar e Investigar<br />
Ao contrastarmos os processos de avaliar<br />
e investigar, estamos a fazer a seguinte<br />
clarificação conceptual fundamental:<br />
investigar é o processo de identificar<br />
e explicar as causas dos efeitos (das<br />
consequências) da prática adaptada e<br />
a ser avaliada apoiando,nos na infor,<br />
mação gerada a partir do processo de<br />
monitorização, portanto interpretando,a<br />
à luz de metodologias cientificamente<br />
validadas. De forma distinta,<br />
a monitorização começa pelo desejo<br />
de simplesmente sabermos o quê está<br />
a acontecer (as consequências) em<br />
contraste com a investigação que começa<br />
com perguntas (de investigação)<br />
no sentido de entendermos porquê está<br />
acontecer (as causas) indiciadas através<br />
da reflexão inicial de como será possível<br />
investigar (explicar) tal fenómeno.<br />
Portanto, um processo de monitorização<br />
permite recolher informação sobre a<br />
evolução de determinada inovação,<br />
por exemplo uma nova forma de marcar<br />
consultas externas. Poderemos então,<br />
através do processo de monitorização,<br />
verificar que a adesão é muito baixa<br />
em um período de seis meses. Quando<br />
perguntamos porquê (por que é a<br />
adesão baixa?), teremos então que iniciar<br />
um processo de investigação. Assim,<br />
estes são dois processos que resultam<br />
de uma relação directa entre si, mas<br />
que são distintos e que devem ser<br />
'operacionalizados' em fases distintas,<br />
possivelmente por diferentes pessoas,<br />
pois não é obrigatório que quem recolhe<br />
a informação que identifica determinada<br />
tendência (portanto, monitoriza) tenha<br />
a capacidade (técnica e/ou logística)<br />
de a explicar (investigar) sequer com<br />
os mesmos dados que a permitem<br />
reconhecer.<br />
O processo de investigar será tanto mais<br />
eficaz quanto a eficácia do processo<br />
de monitorizar que permite definir a<br />
sua direcção. É a partir da eficiente<br />
monitorização que podemos identificar<br />
as perguntas de investigação correctas e,<br />
à partida, direccionadas para explicar um<br />
problema concreto. O contrário também<br />
é um dado adquirido: a deficiente<br />
monitorização (por exemplo, parcial<br />
ou redutora) ou até a sua ausência<br />
em absoluto levará à definição de<br />
perguntas de investigação deficientes<br />
que dificilmente permitirão chegar a<br />
respostas válidas ou pragmáticas que<br />
permitam identificar ou considerar<br />
alternativas concretas para corrigir<br />
os fenómenos considerados.<br />
Por outras palavras, investigar a partir<br />
de resultados de monitorização eficiente<br />
é meio caminho para resultados<br />
que constituam uma mais,valia<br />
para a decisão de gestão.<br />
Investigar a partir 'do nada' obriga,nos<br />
à reflexão seguinte.<br />
Avaliação, valores e ideologia<br />
A forma mais simples e concreta de<br />
esclarecermos este contraste de conceitos<br />
é quando identificamos um 'estudo'<br />
publicado (e que pode na verdade ser<br />
apenas o resultado de uma monitorização<br />
portanto sem estar complementado com<br />
o respectivo processo de investigação)<br />
que parece começar com questões<br />
(motivações) do género 'o projecto x<br />
está a funcionar mal, pois está?' ou, pelo<br />
contrário, 'o projecto y está a funcionar<br />
bem, pois está?'<br />
Não é simples nem fácil combater este<br />
fenómeno sendo que apenas a garantia<br />
da pluralidade de visões e actores da<br />
avaliação poderá contribuir para contra,<br />
balançar esta tendência que, no fundo,<br />
é apenas humana. Na verdade, se fosse<br />
nossa pretensão complicar este texto,<br />
poderíamos aqui iniciar uma divagação<br />
intelectual sobre 'pesquisa e verdade'<br />
apoiando,nos em autores como Karl<br />
Popper, lmre Lakatos ou Thomas Kuhn.<br />
No entanto, e uma vez que o propósito<br />
deste texto é pragmático, ficamos pela<br />
constatação de que nesta relação entre<br />
avaliação e os valores dominantes nos<br />
actores da avaliação há um reflexo<br />
complexo da relação de ideias (de facto<br />
'ideais') que informam as ideologias<br />
contemporâneas. Nada mais natural<br />
nas sociedades humanas. O importante<br />
parece ser fomentar a pluralidade das<br />
avaliações e, acima de tudo, procurar<br />
expor as perguntas (de investigação)<br />
com honestidade intelectual. Pela sua<br />
subjectividade e potencial complexidade,<br />
poder,se,á apenas acrescentar (com Karl<br />
Popper) que toda a avaliação (investigação)<br />
implica 'julgamentos' (ou juízos de<br />
valor) e que a neutralidade absoluta é<br />
inexistente. Desta forma, a pluralidade<br />
de avaliações (diferentes pessoas<br />
e diferentes organizações) será a melhor<br />
forma de gerar o debate e submeter<br />
os autores das avaliações à critica<br />
concorrencial da avaliação plural.<br />
Avaliar e 'cont rolar'<br />
Ao reflectirmos sobre a abordagem de<br />
avaliar para controlar, estamos a propor<br />
a seguinte clarificação conceptual:<br />
a avaliação com o intuito de controlar<br />
é o processo de identificar em pormenor<br />
a utilização dos recursos investidos<br />
na organização ou no programa a ser<br />
avaliado apoiando,nos, por exemplo,<br />
na informação financeira e de produção,<br />
por um lado, e na informação do impacte<br />
sobre a população, por outro. Estes<br />
dois tipos de informação teriam sido<br />
gerados a partir do respectivo processo<br />
de monitorização (portanto, estabelecido<br />
para este efeito no início da actividade<br />
da organização ou programa).<br />
Habitualmente, esta abordagem da<br />
avaliação resulta em decisões sobre o<br />
financiamento e/ou renovação/cessação<br />
de contrato com a organização avaliada.<br />
Aqui é crucial que se reforce a seguinte<br />
ideia: a avaliação com o propósito de<br />
controlar, sendo legitima e indispensável,<br />
tem necessariamente de avaliar dois<br />
aspectos: os resultados da prática da<br />
organização de saúde (ou um programa<br />
especifico) e o contexto em que estes se<br />
verificaram. Assim, toda a avaliação com<br />
o intuito de controlar o 'valor' (ou 'mais,<br />
valia') da prática de uma organização ou<br />
de um programa deve, necessariamente,<br />
possuir dados concretos sobre estes dois<br />
aspectos: os resultados e o contexto.<br />
'Des,contextualizar' a prática (a acção)<br />
do contexto em que esta ocorre é<br />
desvirtuar a avaliação da primeira,<br />
tornando,a falsa e inútil no propósito<br />
de controlar o valor da utilização<br />
dos recursos postos à sua disposição.<br />
Portanto, esta 'des,contextualização'<br />
não promove a oportunidade de aprender<br />
sobre os efeitos do contexto nas<br />
dimensões do projecto avaliado e, mais<br />
frustrante, não permite aprender sobre<br />
a capacidade da organização obter<br />
impactos sobre o contexto (por exemplo,<br />
'ganhos em saúde').<br />
As avaliações com o propósito de<br />
controlar podem ser deturpadoras<br />
quando pretendem avaliar a 'gestão'<br />
(ou os 'gestores') simplesmente do<br />
ponto de vista dos resultados porque<br />
'encoraja' a organização avaliada a<br />
reportar ' so b retu d o ' os ' sucessos ' por<br />
forma a procurar garantir a continuidade<br />
(dos responsáveis e do financiamento)<br />
e ignora a relação dos resultados com<br />
o contexto onde estes foram alcançados.<br />
Na verdade, falhas e resultados adversos<br />
( ... )<br />
a pluralidade<br />
de avaliações<br />
(diferentes<br />
pessoas<br />
e diferentes<br />
organizações)<br />
será a melhor<br />
forma de gerar<br />
o debate<br />
e submeter<br />
os autores<br />
das avaliações<br />
à critica<br />
concorrencial<br />
da avaliação<br />
plural.<br />
ai] GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR ffi
I;<br />
li<br />
Um dos<br />
principais<br />
propósitos<br />
da avaliação<br />
de serviços<br />
de saúde,<br />
sobretudo<br />
no contexto<br />
dos serviços<br />
com carácter<br />
público e social,<br />
deveria ser<br />
o de promover<br />
a partilha das<br />
'boas práticas'<br />
entre todos<br />
os profissionais<br />
de saúde.<br />
em termos de impacte na população<br />
são de esperar em muitos contextos da<br />
acção das organizações de saúde. Neste<br />
contexto, porém, estes tenderão a ser<br />
'esquecidos' por todos, uma vez que não<br />
contribuem em nada para os objectivos<br />
das organizações (e pessoas) avaliadas.<br />
A deturpação surge então na medida<br />
em que nem os resultados são da<br />
única e exclusiva responsabilidade da<br />
organização (uma vez que o contexto<br />
tanto pode ter contribuído para os<br />
melhorar como para fazer precisamente<br />
o contrário), nem a incapacidade para<br />
atingir resultados pode ser atribuída<br />
única e exclusivamente à incompetência<br />
da organização ou à sua lógica de gestão<br />
(uma vez que os resultados esperados,<br />
caso tenham sido definidos, poderiam<br />
não ter levado em consideração<br />
o contexto onde esta teria que operar).<br />
Com esta problemática em mente, é<br />
indispensável para qualquer processo<br />
de avaliação para controlar que se<br />
defina a relevância do contexto para<br />
a interpretação dos resultados obtidos<br />
pela organização de saúde. No entanto,<br />
este é um grandioso desafio académico,<br />
científico e organizacional para<br />
os profissionais do sector da saúde,<br />
uma vez que as respostas académicas<br />
ou os modelos teóricos e instrumentos<br />
de avaliação para controlo que incluam<br />
a consideração da relação com<br />
o contexto estão ainda em fase<br />
de desenvolvimento internacional.<br />
A fonna como os sistemas de saúde têm<br />
ultrapassado esta dificuldade leva,nos<br />
à reflexão seguinte.<br />
Avaliação e 'boas práticas'<br />
Um dos principais propósitos da avaliação<br />
de serviços de saúde, sobretudo no<br />
contexto dos serviços com carácter<br />
público e social, deveria ser o de promover<br />
a partilha das 'boas práticas' entre todos<br />
os profissionais de saúde. As avaliações<br />
com este propósito levam em linha<br />
de conta o contexto social, político<br />
e económico em que a organização<br />
actua e procura essencialmente identificar<br />
os processos de inovação desde o<br />
seu planeamento à sua implementação,<br />
descrevendo todos os procedimentos<br />
e dificuldades encontradas nas diferentes<br />
fases assim como as formas como<br />
eventualmente foram ultrapassadas.<br />
Esta abordagem para avaliação de serviços<br />
de saúde permite fazer o escrutínio dos<br />
serviços de saúde e das suas práticas de<br />
forma a demonstrar que é possível 'fazer<br />
bem'. Esta ainda não é uma abordagem<br />
habitual em Portugal mas é urgente que<br />
se adopte, a exemplo de outros parceiros<br />
nossos da União Europeia. Ao publicar,se<br />
e disseminar,se avaliação de 'boas<br />
práticas' está também a promover,se<br />
a detecção da 'má prática' e a torná, la<br />
visível e 'interpretável' aos olhos daqueles<br />
que tiveram contacto com a 'boa prática'.<br />
Portanto, promovendo o contacto com<br />
a 'boa prática', está a promover,se a<br />
auto,denúncia da corrosão passiva dos<br />
valores da 'boa prática', porque se assume<br />
uma postura de pedagogia social para<br />
com a inovação em serviços de saúde.<br />
Resumem,se assim os princípios que<br />
a abordagem de uma avaliação de<br />
'boas práticas' adopta para alcançar<br />
os seus propósitos construtivos (adapt.<br />
de Alkin, 1990):<br />
• Atribui grande relevância ao debate<br />
ético e moral relativamente à acção<br />
dos serviços de saúde, procurando<br />
legitimar este tipo de preocupações;<br />
• Assume uma postura de cepticismo<br />
em relação ao modos e práticas<br />
dominadas por valores exclusivamente<br />
técnico,racionais;<br />
• Reconhece a influência dos<br />
processos do Poder, da ausência<br />
de acesso a estes e ao empowerment;<br />
• O desenvolvimento de diálogo<br />
genuíno entre utentes e profissionais<br />
e entre estes dentro da própria<br />
organização;<br />
• Reforça o propósito social das<br />
organizações e é cautelosa em relação<br />
à tendência e significado de demonstrar<br />
altos níveis de produtividade;<br />
• Encoraja a abertura e a aceitação<br />
das reclamações e críticas externas à<br />
organização como pistas para a melhoria<br />
contínua do nível dos serviços;<br />
• Aproxima os profissionais e<br />
os utentes construindo uma nova<br />
imagem das organizações em que<br />
profissionais e utentes são<br />
os elementos que, juntas, constituem<br />
a organização;<br />
A partir da adopção desta abordagem de<br />
avaliação, surge,nos um grande desafio<br />
que se apresenta a seguir.<br />
Gerar Evidência<br />
para a Avaliação<br />
O primeiro grande desafio para garantir<br />
a efectiva avaliação das boas práticas<br />
consiste na constituição de quadros<br />
de referência comuns para os diversos<br />
sectores e serviços de saúde nacionais<br />
incluindo estruturas de geração de<br />
evidência e processos regulares de tratar<br />
os conteúdos gerados por estas, assim<br />
como de disseminação (comunicação)<br />
dos resultados.<br />
É fundamental que as estruturas de<br />
geração de evidência tenham uma<br />
natureza constante e que não estejam<br />
subjugadas à lógica dos subsídios ou<br />
bolsas para actos únicos de avaliação.<br />
Na verdade é um claro desperdício de<br />
recursos se após uma avaliação não<br />
se propõem medidas rectificativas que<br />
deverão ser implementadas e avaliadas<br />
em devido tempo (por exemplo, um<br />
ano depois). Para tal é fundamental<br />
que estas estruturas organizacionais (por<br />
exemplo, agências de contratualização,<br />
centros de estudos avançados, comissões<br />
científicas, etc.) estejam apetrechadas<br />
com os recursos necessários a uma<br />
acção contínua de geração de evidência<br />
das boas práticas. Estes recursos<br />
não são apenas financeiros e humanos<br />
mas também políticos: as estruturas não<br />
podem depender da boa vontade dos<br />
responsáveis do 'ministério da altura',<br />
daí deverem ser estruturas financiadas<br />
por orçainentos partilhados por vários<br />
ministérios (por exemplo, Saúde,<br />
Solidariedade Social, Educação,<br />
Ambiente, Economia, Trabalho)<br />
e outras entidades sociais ou privadas.<br />
Por outro lado, ter as estruturas in place<br />
não será suficiente se estas não gerarem<br />
evidência coerente, inteligível e de apoio<br />
à actividade dos profissionais de saúde<br />
e para a satisfação das necessidades<br />
dos cidadãos. Esta ambição leva,nos<br />
necessariamente a ter que definir<br />
metodologias de trabalho para avaliação<br />
em termos de monitorização e/ou<br />
investigação claramente orientadas para<br />
processos de apoio contínuo à inovação<br />
na prestação e na gestão dos cuidados<br />
de saúde.<br />
Mas fica tudo por responder: é possível<br />
criar estas estruturas em Portugal?<br />
Para quando a transformação<br />
dos processos de avaliação em processos<br />
responsabilizados de reforma com<br />
as seguintes fases cíclicas e contínuas:<br />
investigação - recomendação -<br />
implementação - monitorização -<br />
investigação ...<br />
O debate<br />
Este texto apresentou a 1 ª parte de<br />
um modelo para a avaliação de serviços<br />
de saúde introduzindo, sumariamente,<br />
os propósitos principais da avaliação<br />
de serviços de saúde. Consideramos<br />
sucintamente as essências e diferenças<br />
entre diversas abordagens de avaliação,<br />
nomeadamente a distinção fundamental<br />
entre monitorizar e investigar.<br />
Integramos os propósitos da avaliação<br />
nas noções de 'controlo' e 'boas práticas'<br />
e apresentamos um número de princípios<br />
subjacentes à abordagem da avaliação<br />
através da promoção do debate entre<br />
os profissionais de saúde sobre as 'boas<br />
/<br />
praticas.<br />
. '<br />
Com estes conceitos em mente, e<br />
conscientes do perigo da utilização da<br />
avaliação para exercer uma deturpação<br />
planeada da opinião pública, propomos<br />
agora que o leitor contribua para<br />
o enriquecimento desta discussão<br />
no sentido de construirmos propostas<br />
concretas de formas de avaliação<br />
dos serviços de saúde em Portugal. cm><br />
Bibliografia de apoio para<br />
aprofundamento dos conceitos expostos<br />
Alkin, M. ( 1990) 'Debates in Evaluation'. Sage<br />
Publications: London.<br />
Eyken, Van der, W. (1992) lntroducing Evaluation.<br />
Bernard van Leer Foundation: The Hague.<br />
Guba, E. & Lincoln, Y. (1991) 'Effective Evalu a,<br />
tion'. Jossey bass: S. Francisco.<br />
Layder, D. (1993) 'New Strategies in Social Research'.<br />
Polity Press: Cambridge.<br />
Philips, C., Palfrey, C. & Thomas, P. (1994)<br />
'Evaluating Health and Social Care'. Macmillan:<br />
London.<br />
Robinson, R. & Le Grand (eds) (1994) 'Evaluating<br />
the NHS Reforms'. King's Fund Institute:<br />
London.<br />
* Doutor em Marketing Social e Promoção<br />
de Saúde - University of Manchester<br />
1<br />
(•••) é<br />
fundamental<br />
que as<br />
estruturas<br />
• • •<br />
organizacionais<br />
estejam<br />
apetrechadas<br />
com os recursos<br />
,. .<br />
necessarios<br />
a uma acção<br />
,.<br />
continua<br />
de geração<br />
de evidência<br />
das boas<br />
práticas.<br />
As estruturas<br />
não podem<br />
depender<br />
da boa<br />
vontade dos<br />
,. .<br />
responsaveis<br />
do 'ministério<br />
da altura'.<br />
1<br />
1<br />
'<br />
1<br />
1<br />
'<br />
'<br />
1<br />
rn GESTÃO HOSPITALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Variação na Codificação dos Procedimentos ICD-9-CM:<br />
As suas implicações para avaliação<br />
da utilização dos recursos hospitalares<br />
Por Clara E. Dismuke*<br />
A codificação dos procedimentos pela ICD--9--CM é<br />
um assunto ainda muito pouco estudado tanto em Portugal<br />
como no país de origem dos Grupos de Diagnósticos<br />
Homogéneos (GDHs), os Estados Unidos da América.<br />
Há certos códigos de procedimentos cuja codificação<br />
é obrigatória para efeitos de agrupamento dos GDHs.<br />
Mas existem muitos procedimentos que também utilizam<br />
recursos importantes e custosos mas cuja codificação<br />
é opcional. A variação na prática de codificação destes<br />
procedimentos prejudica a capacidade de avaliar a eficiência<br />
e a qualidade dos serviços prestados nos hospitais.<br />
Esperamos que os administradores hospitalares e<br />
os codificadores portugueses possam ter um papel<br />
importante na homogeneização das práticas de codificação<br />
e consequentemente nas estatísticas nacionais<br />
e eventualmente internacionais.<br />
Nos EUA,<br />
o pagamento<br />
que cada<br />
hospital<br />
recebe<br />
por um<br />
internamento<br />
é proporcional<br />
ao peso<br />
relativo<br />
atribuído<br />
aoGDH<br />
no qual<br />
este foi<br />
classificado.<br />
O<br />
s Grupos de Diagnósticos<br />
Homogéneos ( G D Hs) foram<br />
inventados nos Estados Unidos<br />
da América (EUA) constituindo,se<br />
fundamentalmente como um importante<br />
instrumento de auxílio à gestão<br />
hospitalar. O sistema consiste em<br />
agrupamentos de doentes do<br />
internamento que têm similaridades<br />
tanto do ponto de vista clínico como em<br />
termos do valor dos recursos consumidos<br />
no tratamento desses doentes. O episódio<br />
de internamento do doente é agrupado<br />
num GDH baseado nos códigos de<br />
diagnósticos e de procedimentos da ICD,<br />
9,cM conforme constam na folha de<br />
alta do doente depois da sua saída do<br />
hospital. Para além disso, outros factores<br />
como a idade, o sexo e o destino<br />
após a alta do doente podem afectar a<br />
classificação atribuída a cada caso.<br />
De acordo com Fetter ( 1991), este<br />
sistema foi utilizado pela primeira vez<br />
em 1983 como base para cálculo do<br />
pagamento prospectivo atribuído aos<br />
hospitais norte,americanos relativo aos<br />
beneficiários do programa federal para<br />
idosos (MEDICARE). Nos EUA, o<br />
pagamento que cada hospital recebe por<br />
um internamento é proporcional ao peso<br />
relativo atribuído ao GDH no qual este<br />
foi classificado. Pelo menos em teoria,<br />
esse peso deverá reflectir o custo<br />
relativo médio dos cuidados prestados em<br />
cada GDH num hospital eficiente. Desde<br />
1986 que os pesos relativos têm sido<br />
calculados utilizando os preços praticados<br />
pelos hospitais, padronizados pelos<br />
factores que podem afectar diferenças<br />
nos custos tais como o tipo de hospital<br />
(universitário ou não, rural ou urbano), a<br />
variação geográfica nos preços dos inputs<br />
assim como a proporção de doentes sem<br />
terceiro pagador. Em 1992, os pesos<br />
passaram também a englobar os custos de<br />
capital ( Carter e Rogowski, 1992).<br />
Portugal, o primeiro país da Europa<br />
a adoptar o sistema dos GDHs<br />
nacionalmente, recolhe esta informação<br />
desde 1989. Contudo, só a partir de 1997<br />
é que o Ministério da Saúde começou<br />
a utilizar este sistema para calcular uma<br />
percentagem dos orçamentos atribuídos<br />
aos hospitais públicos (Tranquada, et al.,<br />
<strong>2002</strong>).<br />
Entretanto, o sistema dos GDHs tem<br />
sido adoptado por muitos países, muito<br />
embora, em alguns casos, este sistema<br />
seja modificado por forma a melhor<br />
reflectir as particularidades clínicas e<br />
económicas dos diferentes sistemas de<br />
saúde. Mesmo assim, a difusão global<br />
do sistema deveria permitir comparações<br />
internacionais dos dados recolhidos nas<br />
folhas de alta. No entanto a informação<br />
codificada para efeitos de cálculo de<br />
reembolso financeiro é provavelmente<br />
insuficiente para avaliar a eficiência e a<br />
qualidade dos hospitais (Pouvourville e<br />
Minvielle, <strong>2002</strong>).<br />
No ano 2000, o sistema dos GDHs<br />
utilizado nos EUA englobava<br />
aproximadamente 224 GDHs baseados<br />
em códigos de procedimentos feitos no<br />
bloco operatório, 264 GDHs baseados<br />
em códigos de diagnósticos e apenas<br />
8 GDHs baseados em procedimentos<br />
efectuados fora do bloco operatório.<br />
Existem mais do que 4.000 códigos de<br />
procedimentos no total sendo que todos<br />
os códigos associados ao bloco operatório<br />
são de codificação obrigatória (para<br />
agrupamento em GDHs) mas apenas<br />
91 dos códigos não associados ao<br />
bloco operatório servem esse propósito<br />
(Hart e Parvis, 1999). Isto implica que<br />
a codificação dos procedimentos que<br />
não são obrigatórios para agrupamento<br />
poderá estar sujeita a uma grande<br />
variação consoante a cultura, treino e<br />
capricho dos codificadores.<br />
Esta potencial variação na prática de<br />
codificação dos procedimentos não,<br />
obrigatórios nos hospitais norte,<br />
americanos poderá ter implicações<br />
económicas importantes. Actualmente,<br />
o Center for Medicare and Medicaid<br />
Services ( CMS), a entidade<br />
governamental que efectua os reembolsos<br />
do programa MEDICARE, está a propor<br />
reembolsar os hospitais pela utilização<br />
de novas tecnologias desde que estas<br />
resultem em custos excessivos (i.e.<br />
custos acima da média para o GDH<br />
ou GDHs relevantes). É obvio que<br />
muitas tecnologias são utilizadas em<br />
GDHs classificados como "médicos" e<br />
consequentemente não há obrigação<br />
de codificar os procedimentos que<br />
involvem a utilização destas tecnologias.<br />
Se os codificadores não reconhecerem<br />
a necessidade de codificar estes<br />
procedimentos, o hospital corre o risco<br />
de perder pagamentos devidos pela<br />
utilização destas tecnologias.<br />
O CMS também está preocupado com<br />
a actualização do já antiquado e quase<br />
esgotado sistema dos códigos de<br />
procedimento ICD,9,CM. Esta agência<br />
está a avaliar a capacidade de adoptar a<br />
sistema ICD, 10,pcs recomendado pela<br />
Organização Mundial da Saúde e já<br />
utilizado em alguns países. Enquanto<br />
que o ICD,9,CM permite um maximo<br />
de 10,000 códigos de procedimento,<br />
a proposta da ICD, 1 Q, PCS inclui<br />
197,769 códigos de procedimento e tem<br />
potencial para incluir ainda mais. Tanto<br />
a American Hospital Association tal<br />
como a Arnerican Health Information<br />
Management Association apoiam a<br />
adopção do I CD, 1 O, PCS mas a poderosa<br />
American Medical Association<br />
(Sindicato dos médicos<br />
norte,americanos) tem a opinião que o<br />
ICD, 10,pcs vai trazer mais burocracia<br />
a um sistema de saúde já bastante<br />
complexo (Federal Register, 7 de<br />
Setembro de 2001).<br />
Para termos urna ideia sobre o alcance<br />
deste problema de codificação podemos<br />
comparar a informação que consta dos<br />
GDHs com uma fonte alternativa de<br />
informação. O sistema norte,americano<br />
de códigos de receita (UB 92) utilizado<br />
para calcular a facturação a imputar<br />
a cada doente fornece também<br />
informação relativa à utilização de<br />
alguns procedimentos. Para o caso dos<br />
hospitais do estado de Washington,<br />
EUA, essa informação é disponibilizada<br />
por forma a permitir essa comparação.<br />
Assim, comparámos a informação de<br />
dois recursos hospitalares cuja<br />
codificação não é obrigatória no sistema<br />
de GDHs (TAC, Tomografia Axial<br />
Computorizada e RMN, Ressonância<br />
Magnética Nuclear) assim como a<br />
informação relativa a um procedimento<br />
obrigatório que não é feito no bloco<br />
operatório (litotripsia extra,corporal).<br />
Utilizando dados do ano de 1997 que<br />
incluem todas as altas hospitalares deste<br />
estado, encontrámos aproximadamente 3<br />
vezes mais códigos de receita para o TAC<br />
do que códigos de procedimento. Para<br />
a RMN, encontrámos quase o dobro do<br />
número de códigos de receita do que<br />
códigos de procedimentos da ICD,9,CM.<br />
Já para a litotripsia, cuja codificação é<br />
obrigatória, encontramos praticamente o<br />
mesmo número de códigos de receita e<br />
de procedimento. Aparentemente, como<br />
a codificação dos procedimentos não<br />
obrigatórios é inconsequente para o<br />
reembolso dos hospitais, estes não fazem<br />
qualquer esforço no sentido de garantir<br />
que haja coincidência entre a real<br />
utilização destes recursos e a informação<br />
constante da base de dados dos GDHs.<br />
Uma vez que os dados nacionais<br />
norte,americanos relativos à utilização<br />
de recursos hospitalares se baseiam<br />
exclusivamente nos códigos de<br />
procedimento, poderá haver um grande<br />
enviesamento dos resultados de<br />
Em Portugal,<br />
só a partir<br />
de 1997<br />
,<br />
e que<br />
o Ministério<br />
da Saúde<br />
começou<br />
a utilizar<br />
este sistema<br />
para<br />
calcular uma<br />
percentagem<br />
dos orçamentos<br />
atribuídos<br />
aos hospitais<br />
públicos.<br />
rn GESTÃO HOSPfTALAR<br />
GESTÃO HOSPITALAR rn
Esperamos<br />
que os<br />
administradores<br />
hospitalares e<br />
os codificadores<br />
portugueses<br />
possam ter<br />
um papel<br />
importante na<br />
homogeneização<br />
das práticas de<br />
codificação<br />
e, por<br />
"'<br />
consequencia, .<br />
nas estatísticas<br />
• •<br />
nacionais e<br />
eventualmente<br />
internacionais.<br />
Bibliografia<br />
Carter, G.M. and J.A. Rogow ki (1992) "How<br />
recalibration method, pricing and coding<br />
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Fimmcing Model: A G lobal Perspecrive, posrer<br />
apresentado no 4th European Confercnce on<br />
Healrh Economics, Paris.<br />
a3 GESTÃO HOSPITALAR<br />
investigações clínicas e económicas que<br />
utilizem esta base de dados para tirar<br />
algumas conclusões relativamente à<br />
utilização e ou eficácia da TAC,<br />
da RMN ou de qualquer outro<br />
procedimento não obrigatório para<br />
agrupamento em GDHs.<br />
Este mesmo problema poderá também<br />
estar presente nos dados relativos a<br />
outros países, importando perceber para<br />
cada caso o enquadramento específico e<br />
o modo como este poderá condicionar<br />
a recolha da informação. Não havendo<br />
esse cuidado, as comparações nacionais<br />
ou internacionais poderão resultar<br />
completamente enviesadas. A título de<br />
exemplo, a OCDE tem insistido na<br />
necessidade de avaliar diferenças na<br />
utilização de tecnologias entre países.<br />
Para esse fim podíamos utilizar a<br />
informação relativa aos procedimentos<br />
utilizados para diagnóstico das Doenças<br />
Cerebrovasculares. Esta doença tem uma<br />
das maiores taxas de mortalidade a nível<br />
mundial, e exige um diagnóstico preciso<br />
que envolve alta tecnologia tal como a<br />
Tomografia Axial Computorizada (TAC)<br />
ou a Ressonância Magnética Nuclear<br />
(RMN). Embora existam experiências<br />
clínicas com um número reduzido de<br />
doentes escolhidos para avaliação antes<br />
da difusão das tecnologias, não há<br />
estudos de utilização destas tecnologias<br />
em grandes populações (J acobzone,<br />
Moise, e Moon, <strong>2002</strong>). Seria pois<br />
natural que se utilizassem as estatísticas<br />
nacionais para efectuar comparações<br />
internacionais relativamente à utilização<br />
destas tecnologias.<br />
Quando efectuámos essa comparação<br />
entre Portugal e os EUA chegámos<br />
a resultados bastante díspares. Para os<br />
EUA utilizámos uma base de dados que<br />
tem uma amostra significativa das altas<br />
hospitalares norte,americanas (Health<br />
Care Utilization Project) e para Portugal<br />
uma base de dados nacional fornecida<br />
pelo IGIF que inclui todos os hospitais<br />
públicos. Utilizando o GDH 14 ,<br />
Doenças Cerebrovasculares excepto AIT<br />
e para o ano de 1995 concluímos que<br />
enquanto mais de 60% destes doentes<br />
receberam a TAC em Portugal, apenas<br />
aproximadamente 23 % a receberam nos<br />
EUA. Como já anteriormente referimos<br />
(e comprovámos para o caso do estado de<br />
Washington) existe provavelmente uma<br />
"sub,codificação'' substancial nos dados<br />
norte,americanos. Se extrapolarmos os<br />
dados de Washington para o total dos<br />
EUA, então a utilização do TAC seria 3<br />
vezes superior, isto é, acima da registada<br />
para o caso português.<br />
Daqui resulta claro que existe a<br />
necessidade de se harmonizarem as<br />
estatísticas dos diferentes países. A<br />
este respeito refira ~ se que aparentemente<br />
Portugal está numa posição privilegiada<br />
para liderar esse processo. Não só pela<br />
já longa experiência que tem com o<br />
sistema dos GDHs mas também porque,<br />
por consenso entre os codificadores<br />
portugueses, o número de procedimentos<br />
registados nos hospitais portugueses vai<br />
para além dos procedimentos de<br />
codificação obrigatória. Tal poderá<br />
dever~se ao facto de essa codificação<br />
em Portugal ser feita por médicos<br />
(logo, mais sensíveis e conhecedores dos<br />
aspectos relevantes), por contrapartida,<br />
por exemplo, aos EUA, onde tal<br />
não acontece. Essa experiência pode<br />
ser usada para, em conjunto com os<br />
potenciais utilizadores dessa informação,<br />
se afinar a nível nacional uma listagem<br />
dos procedimentos de registo não,<br />
obrigatório que deverão ser codificados.<br />
Uma vez na posse de tais regras seria<br />
possível actuar junto dos organismos<br />
internacionais (eg. OCDE, OMS, etc)<br />
e propor justificadamente uma prática<br />
comum a nível mundial.<br />
A codificação dos procedimentos ICD,<br />
9,cM não obrigatórios tem sido um<br />
assunto pouco estudado na literatura<br />
de medicina clínica assim como na<br />
economia da saúde mas a sua validade<br />
é imprescindível para permitir estudos<br />
credíveis de avaliação da qualidade e<br />
eficiência dos hospitais. Esperamos que<br />
os administradores hospitalares e os<br />
codificadores portugueses possam ter um<br />
papel importante na homogeneização<br />
das práticas de codificação e<br />
consequentemente nas estatísticas<br />
nacionais e eventual @ri~--------.,<br />
internacionais. <br />
""' ~ r" • i ( '<br />
* Professora de Economia -:Z-rJ (J t1,-... O. q.: ~';2.__"Ç--<br />
Escola de Economia e <strong>Gestão</strong>, Universidade do Mikho,<br />
4710-057 Braga Portugal, em il: dismuke@eeg.uminho.pt<br />
e Department of Health Admi stration and Policy, Medical<br />
University of South Carolina, e ail: dismuke@musc.edu.<br />
Agradeço ao IGIF o fornecime o dos dados, ao FC~ -~-- ~ ·<br />
pelo apoio financeiro (POCTl/3 / 2000),e ao õr.<br />
Fernando Lopes, Codificador-A ditor do Hospital São João, '<br />
pela sua ajuda técnica e pelos eu~comentários. ·<br />
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Inovamos na Saúde