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Gestão Hospitalar 2002

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Setembro de <strong>2002</strong> • € 7<br />

Nos próximos quatro anos<br />

Portugal ·preside<br />

à Associacão ,<br />

Eurepeia de Gestores<br />

.. HoSpitalares<br />

Maria de Belém<br />

Vice-pr.esidente<br />

do Grupo<br />

Parlamentar do PS<br />

As opiniões de:<br />

Aranda da Silva<br />

· Bastonário<br />

da Ordem<br />

dos Farmacêuticos<br />

Prémio para <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>


\<br />

1<br />

- ui i retoma o contacto com os seus kitores numa época<br />

de grandes expectativas ele mwlança na área da Saúde.<br />

Interessa--nos manter uma revista viva e actualizada<br />

em que as novidades da política se misturem com a opinião<br />

e com artigos ele natureza técnico--cientifica.<br />

Por isso, a participação do kitor, administrador hospitalar<br />

ou de outra área profissional será sempre bem--vinda.<br />

Pretendemos ser um espaço aberto às diferentes correntes<br />

de opinião, sem tiques ou preconceitos ideológicos,<br />

ele conveniência politico--partidária ou outros.<br />

• A reforma da Saúde está na ordem do dia!<br />

Parece nunca ter deixado ele estar, pois há bem mais<br />

de 20 anos que os responsáveis políticos e os especialistas<br />

têm utilizado o "slogan". Mas as decisões vêm--se perdendo<br />

nos labirintos da oportunidade, dos interesses mais ou menos<br />

rivais, dos ciclos políticos.<br />

• O actual Governo parece decidido em introduzir mwlanças<br />

importantes na Saúde.<br />

A nova ki de gestão hospitalar e o regime jurídico<br />

das parce1ias recentemente publicado são sementes novas<br />

das quais se esperam frutos apetitosos e bem calibrados para a<br />

eficiência e qualidade dos nossos hospitais e para a descoberta<br />

de novas e mais fáceis f antes de investimento.<br />

• O modelo parece tender, inexoravelmente, para menos<br />

Estado (no investimento e na prestação) e melhor Estado<br />

(na responsabilidade e na regulação) .<br />

Mas há, pelo contrário, quem veja na privatização<br />

de algumas funções do sistema, a marca ideológica<br />

do liberalismo, do mercado sem regras, da iniquidade e da<br />

queda fragorosa dos valores fundamentais com que foi tecido<br />

o SNS (gratuitidade, generalidade, universalidade).<br />

• As decisões políticas são aparentemente mais fáceis<br />

do que a sua impkmentação técnica e jurídica, na forma<br />

de equilibrar valores ele um Sistema de Saúde europeu<br />

actualizado com a versatilidade inerente a mecanismos<br />

de privatização e competitividade.<br />

• Mas era e é indispensável mwlar o Sistema, tal a natureza<br />

e o circunstancialismo dos problemas com que os portugueses<br />

se defrontam diariamente quando procuram um médico<br />

ou um hospital. E as resistências à mwlança apenas confirmam<br />

a justeza das intenções.<br />

• A atitude defensiva dos que invocam o honroso 12 º lugar ele<br />

Portugal no ranking da OMS ou os resultados ele um ou outro<br />

estudo que, excepcionalmente, "demonstram" a satisfação<br />

dos portugueses com o SNS, para que nada se mude, esquece<br />

a fragilidade dessas demonstrações perante o dia--a--dia das<br />

organizações ele Saúde , o desnorte , a humilhação e a resigrwção<br />

ele muitos doentes sem "almofada", o desperdício, sem nome,<br />

de horas de trabalho pagas, os excessos no consumo ele<br />

medicamentos ou ele meios compkmentares ele diagnóstico.<br />

E tudo isto com um crescimento brutal da despesa corrente.<br />

• Mas o serviço público, designadamente nos hospitais, não<br />

deve ser visto com as kntes do fundamentalismo liberalizador<br />

que percorre vários sectores do "politicamente correcto"<br />

nacional. É nos hospitais públicos que se encontra<br />

os melhores recursos humanos da Saúde<br />

(ao nível médico, de enfermagem, técnico e de gestão) , os<br />

melhores e mais diversificados equipamentos médicos , o melhor<br />

e o mais compkxo sistema de inf armação e, apesar ele tudo,<br />

a melhor organização ( ! ) . Não tenhamos dúvidas que o sector<br />

público é o sustentáculo do sistema de Saúde português, a<br />

quem recorrem todas as classes sociais (e muitos doentes que<br />

vêm recomendados por prestadores privados ... ) . O "know-­<br />

how" privado em matéria ele gestão hospitalar é, entre nós,<br />

muito limitado em qualidade e dimensão, e basta percebermos<br />

o regime de funcionamento da maioria das clínicas privadas<br />

portuguesas para verificarmos a "ligeireza" da sua organização,<br />

a fragilidade do seu "staff', a ekvada dependência<br />

da experiência e dimensão dos recursos públicos.<br />

• Os administradores hospitalares há muito que vêm<br />

apontando os probkmas e a sua génese. Estão disponíveis<br />

para se associar às ref armas que agora parecem de facto ,<br />

iniciar--se. Mas precisam de ter as condições ele reconhecimento<br />

e autoridade que lhes permita liderar e conduzir as<br />

transformações necessárias. Não se fazem reformas na Saúde<br />

contra os profissionais, diz--se e é verdade. Mas também não se<br />

pode introduzir mais e melhor gestão no sistema sem gestores.<br />

• É, por isso, no mínimo estranho, que cerca de 90<br />

administradores hospitalares, devidamente habilitados, na sua<br />

esmagadora maioria jovens profissionais com provas dadas,<br />

com espírito aberto e adaptável a mwlanças, exerçam, alguns<br />

há mais de seis anos, a sua actividade de gestores em hospitais<br />

portugueses com contratos precários de 3 meses e sujeitos<br />

à situação humilhante de verem os seus contratos objecto<br />

ele ratificações autorizadoras periódicas.<br />

Sucessivos governos têm negligenciado esta questão, num<br />

aparente desinteresse em reforçar, ele facto, a componente da<br />

gestão profissional dos nossos hospitais. Esperemos que o actual<br />

Governo tenha, na política dos recursos humanos, uma visão<br />

menos imediatista e ao sabor das pressões e tenha a coerência<br />

de reconhecer a importância dos gestores hospitalares.<br />

GESTÃO HOSPITALAR ~


R evista da Associação Portuguesa<br />

de A dministradores H ospitalares<br />

Membro da A ssociação Europeia<br />

de Directores H ospitalares<br />

DIRECTORA<br />

Armanda Miranda<br />

CONSELHO REDACTORIAL<br />

Ana Isabel Gonçalves<br />

Teresa Sustelo<br />

Jorge Poole da Costa<br />

Manuel Ligeiro<br />

Manuel Delgado<br />

Pedro Lopes<br />

PROPRIEDADE<br />

Associação Portuguesa de<br />

Administradores <strong>Hospitalar</strong>es<br />

Empresa jornalística n º 209259<br />

Apartado 22801<br />

1146 Lisboa Codex<br />

ADMINISTRAÇÃO E ASSINATURAS<br />

APAH Apartado 22801<br />

1146 Lisboa Codex<br />

PRODUÇÃO GRÁFICA<br />

A ugusto Teixeira<br />

ASSINATURA ANUAL ~ € 25<br />

PUBLICAÇÃO TRIMESTRAL<br />

TIRAGEM ~ 2.000 exemplares<br />

Nº Registo 109060<br />

Depósito legal nº 16288/87<br />

ISSN: 0871 - 0776<br />

NORMAS EDITORIAIS<br />

I º A Revista aceita trabalhos sobre qua/,quer assunto relacionado<br />

com o tema geral da gestão de serviços de saúde entendida esta<br />

no seu mais amplo sentido.<br />

2º Os artigos deverão ser enviados ao Director. A este caberá<br />

a responsabilidade de aceitar, rejeitar ou propor modificações.<br />

3º Os artigos deverão ser enviados em duplicado (incluindo quadros<br />

e figuras), dactilografados a duas entrelinhas em folha<br />

de formato A4. Em cada folha não deverão ser dactilografadas<br />

mais de 35 linhas . As folhas serão numeradas em ordem sequencial.<br />

4 º Os artigos deverão ser acompanhados, sempre que possível,<br />

por fotografia do( s) autor( es), tipo passe.<br />

5º Os trabalhos deverão conter em folhas separadas o seguinte.<br />

a)~ Título do trabalho , nome(s) do(s) autor(es) e pequeno esboço<br />

curricular do( s) autor( es), principais funções ou títulos,<br />

até ao máximo de dois;<br />

b) - Pequena introdução ao artigo até ao máximo de uma página<br />

dactilografada;<br />

c)- O texto;<br />

d) - Quadros com títulos e legendas (folhas autónomas);<br />

e)- Gráficos desenhados a traço de tinta-da-china sobre papel<br />

vegetal sem números ou palavras;<br />

Editorial ........................................... Pág. 3<br />

Opinião<br />

• Manuel Delgado ...................... Pág. 5<br />

• M.A. Pereira Barbosa ............. Pág. 9<br />

• Menezes Correia .................... Pág. 12<br />

• Jorge Varanda ......................... Pág. 14<br />

Espaço Aberto<br />

Sistema de saúde em questão<br />

por Maria de Belém,<br />

Aranda da Silva<br />

e Bernardino Soares .................. Pág. 16<br />

Destaque<br />

Nova Lei de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />

- Proposta de Lei n 2 15/IX,<br />

Regime Jurídico da <strong>Gestão</strong><br />

<strong>Hospitalar</strong> e a posição<br />

da APAH ...................................... Pág. 26<br />

Notícias<br />

Portugal preside<br />

à Associação Europeia<br />

de Gestores <strong>Hospitalar</strong>es .......... Pág. 32<br />

Investigação<br />

• Avaliação de serviços de saúde:<br />

uma reflexão urgente ............. Pág. 38<br />

• Variação na Codificação<br />

dos Procedimentos ICD-9-CM:<br />

As suas implicações para avaliação<br />

da utilização dos recursos<br />

hospitalares ............................ Pág. 44<br />

Setembro de <strong>2002</strong> • 7<br />

Prémio<br />

para <strong>Gestão</strong><br />

<strong>Hospitalar</strong><br />

Pág.37<br />

19~ Congresso<br />

daEAHM<br />

em Cracóvia<br />

Pág. 33<br />

APAH recebida<br />

pelo Ministro<br />

da Saúde<br />

Pág.34<br />

Secretário de<br />

Estado Adjunto<br />

do Ministro da<br />

Saúde reuniu<br />

com a Direcção<br />

da Associação de<br />

Administradores<br />

<strong>Hospitalar</strong>es<br />

Pág.35<br />

f)- Títulos, legendas nu elementos dns gráficos escritos em folhas<br />

de fotocópias destes , à parte;<br />

g)- Fotografias numeradas no verso, a lápis , segundn a nrdem<br />

de entrada no texto e respectivas legendas;<br />

h) - Pequenos resumos do artigo em língua francesa e inglesa,<br />

incluindo títulos;<br />

i)-Os originais, não deverão conter pés-de página. Tndas as<br />

referências bibliográficas completas serão inseridas no final<br />

do artigo.<br />

6 º Nas referências bibliográficas , os autores são colocados por ordem<br />

alfabética (apelido seguido das iniciais do nome) , seguindo~se o título<br />

completo do artigo, o título abreviado da Revista, o número<br />

do volume, os números da primeira e última páginas e o ano<br />

da publicação .<br />

O Editorial e os Artigos não assinados são da responsabilidade<br />

da Direcção da Associação .<br />

Os Artigos assinados são ela exclusiva responsabilidade dos seus<br />

autores, não comprometendo a Associação com os pontos de vista<br />

neles expressos. Embora merecendo a melhor atenção, a colaboração<br />

-não solicitada não será devolvida, reservando-se o direito<br />

de a publicar ou não.<br />

' 1<br />

•,<br />

'Os traços<br />

•<br />

mais<br />

marcantes<br />

do programa<br />

do Gov~rno<br />

para<br />

a Saúde são<br />

a abertura<br />

do sector<br />

' . . . .<br />

a iniciativa<br />

privada,<br />

comum<br />

modelo mais<br />

concorrencial<br />

•<br />

e com maior<br />

liberdade<br />

de escolha.<br />

,<br />

PROGRAMA DASAUDE:<br />

CONTINUIDADE OU MUDANÇA?<br />

Po r Manuel Delgado*<br />

D<br />

A abertura do sector da Saúde<br />

à iniciativa privada, quer<br />

na vertente do financiamento,<br />

quer na vertente da prestação, são,<br />

a par de um modelo mais concorrencial<br />

e com maior liberdade de escolha para<br />

os utentes, os traços mais marcantes do<br />

programa da Saúde do actual Governo.<br />

Diga ~ se, em abono da verdade, que<br />

a política seguida pelo último ministro<br />

socialista, Correia de Campos,<br />

apontava já caminhos semelhantes<br />

nalguns domínios, designadamente<br />

nas referências às parcerias<br />

público~privado e na admissão<br />

de modelos de gestão hospitalar<br />

de natureza empresarial, incluindo<br />

a própria gestão privada<br />

de estabelecimentos públicos.<br />

Mas o actual Governo vai, porventura,<br />

mais longe nas suas intenções,<br />

designadamente no domínio<br />

do mercado da Saúde e dos respectivos<br />

fluxos da procura e da oferta<br />

de cuidados e os correspondentes<br />

fluxos financeiros.<br />

ri] Há quem veja neste tipo de<br />

~ estratégias o "canto do cisne"<br />

do SNS enquanto referencial de valores<br />

estruturantes da nossa sociedade<br />

e da nossa Lei fundamental:<br />

a universalidade, a equidade<br />

e a gratuitidade tendencial.<br />

Essencialmente porque pensam<br />

que estes valores só serão asseguráveis<br />

com dispositivos de propriedade,<br />

organização, financiamento<br />

e prestação públicos, num modelo<br />

único, compacto e integrado,<br />

ao serviço do cidadão.<br />

Percebe~se a preocupação, mas apenas<br />

por rigidez ideológica se aceita<br />

o "fixismo" neste modelo público<br />

integrado, cujos resultados,<br />

para além de evidentes bolsas<br />

de desperdício e do aumento<br />

incontrolável dos custos, tem provocado<br />

nos cidadãos sinais evidentes<br />

de insatisfação e a procura, quando<br />

podem, de sub ~ s istemas paralelos<br />

de prestação de cuidados.<br />

[jl O programa do G overno parece<br />

11.J assentar num arquétipo que está<br />

de acordo com o sentido das Reformas<br />

da Saúde ocorridas na Europa e noutros<br />

continentes e que os peritos, nacionais<br />

e internacionais, vêm recomendando:<br />

um Estado mais regulador do que<br />

prestador, o princípio da concorrência<br />

entre prestadores, sem pôr em causa<br />

a cooperação e a complementaridade,<br />

a ideia de que financiamento<br />

e prestação de cuidados devem ser<br />

funções exercidas por entidades<br />

separadas, cuja "mediação" se exercita<br />

por modelos contratuais, a assumpção<br />

da liberdade de escolha por parte<br />

dos cidadãos, como forma mais eficaz<br />

de o colocar no centro do sistema.<br />

lfl Este enunciado de princípios deve,<br />

íi j no entanto, ser encarado com<br />

flexibilidade, perspicácia e bom senso.<br />

Cada país é uma combinação especifica<br />

de características estruturais, logísticas<br />

e operacionais e cada um daqueles<br />

objectivos dever ser integrado<br />

com maior ou menor radicalismo<br />

ou aprofundamento e ao ritmo que -'.,<br />

as circunstâncias melhor aconselhem.<br />

Até porque o peso exces ·<br />

qualquer das recomenda ões s~ge · ~CfSUBUCA<br />

pode contrariar outros v<br />

sobretudo, pôr em causa<br />

útil de qualquer reforma<br />

acesso equitativo a cuid dos p<br />

de Saúde de qualidade a lrc:iiu


( ... )<br />

para o cidadão<br />

doente será<br />

relativamente<br />

indiferente<br />

saber se o<br />

hospital em que<br />

é tratado é<br />

pertença do<br />

Estado ou<br />

de particulares,<br />

desde que o seu<br />

contributo ou<br />

pagamento seja<br />

zero ou próximo<br />

do zero, em<br />

qualquer<br />

circunstância.<br />

E a equidade<br />

no acesso fica<br />

assegurada.<br />

~ Vem isto a propósito de algumas<br />

~ propostas do Governo em matéria<br />

de financiamento. Refira,se, desde já,<br />

que esta é, porventura, a dimensão<br />

essencial de qualquer sistema<br />

de Saúde quando se põe a ênfase<br />

na equidade no acesso aos cuidados.<br />

Na realidade este não depende<br />

tanto de quem é proprietário dos meios<br />

de produção, antes, essencialmente,<br />

de quem dispõe dos meios<br />

de pagamento.<br />

Isto é, se por absurdo o Estado<br />

abandonasse completamente<br />

a responsabilidade de financiar<br />

a Saúde, esta seria paga pelas pessoas<br />

doentes ou as que tivessem<br />

disponibilidade ou possibilidade<br />

de aderir a seguros de Saúde.<br />

A equidade seria severamente<br />

posta em causa.<br />

Pelo contrário, se o Estado, ou uma<br />

entidade pública por ele supervisionada,<br />

garantirem o financiamento da Saúde,<br />

para o cidadão doente será<br />

relativamente indiferente saber se<br />

o hospital em que é tratado é pertença<br />

do Estado ou de particulares,<br />

desde que o seu contributo ou<br />

pagamento seja zero ou próximo<br />

do zero, em qualquer circunstância.<br />

E a equidade no acesso fica assegurada.<br />

No programa do Governo o Estado<br />

compromete,se, perante o cidadão,<br />

a custear as despesas "essenciais" (1)<br />

de Saúde, independentemente da<br />

natureza pública, social ou privada<br />

dos prestadores. É esta noção, assente<br />

numa "tabela de preços para a Saúde"<br />

- supõe,se que de aplicação universal -<br />

que pe~mitirá ao utente movimentar~se<br />

com total liberdade de escolha<br />

entre os diferentes sectores.<br />

Ou seja, se por hipótese num hospital<br />

público a realização da sua cirurgia<br />

é diferida por 30 dias, o utente<br />

pode optar por se dirigir a uma clínica<br />

privada onde tal prazo seja encurtado<br />

para metade.<br />

O pagamento público desse episódio,<br />

com base na referida tabela,<br />

será "transferido" do hospital<br />

público para a clínica privada.<br />

Do mesmo modo, se o utente, por<br />

questões de confiança ou de conforto,<br />

optar desde logo, por uma clínica<br />

privada, a verba prevista será também<br />

transferida do financiador público<br />

para o prestador privado.<br />

Por razões de mercado, as clínicas<br />

privadas poderão oferecer serviços<br />

complementares em matéria<br />

de privacidade e conforto que,<br />

naturalmente, representarão<br />

acréscimos à "tabela de preços"<br />

pública e que serão suportadas<br />

pelo doente, directamente ou através<br />

de seguros privados de<br />

complementaridade que ele<br />

previamente contratualize.<br />

Em tese, tal modelo não fere o princípio<br />

de equidade, utiliza a concorrência<br />

entre o público e o privado<br />

em benefício do utente<br />

e pode promover a eficiência.<br />

~ Todavia, as características dos<br />

llJ prestadores de cuidados de Saúde<br />

são em Portugal factor perturbador<br />

da lógica que vimos referindo. O facto<br />

de muitos profissionais acumularem<br />

funções públicas com funções privadas,<br />

designadamente na área médica,<br />

pode desvirtuar seriamente o princípio<br />

da concorrência, designadamente,<br />

como é o caso de Portugal, se nos<br />

serviços públicos se ganhar por salário<br />

e na privada se receber por acto.<br />

É óbvio que o privilégio a atribuir a<br />

esta modalidade remuneratória poderá<br />

favorecer as clínicas privadas<br />

em detrimento do serviço público.<br />

Por outro lado, os serviços públicos<br />

encontram~se numa situação adversa<br />

relativamente às clínicas privadas<br />

no que toca à oferta de cuidados que<br />

ambos disponibilizam. Em princípio,<br />

os serviços públicos oferecem uma gama<br />

diversificada e completa de cuidados<br />

de Saúde, muito mais de acordo<br />

com as necessidades da população<br />

e com uma capacidade de resposta<br />

ao longo das 24 horas do dia.<br />

As clínicas privadas procuram<br />

legitimamente nichos de mercado,<br />

em função de teçnologias específicas<br />

em geral destinadas a doentes<br />

programados.<br />

Tal cenário, se nada nos seus<br />

pressupostos for alterado, permitirá<br />

às clínicas privadas actuar com mais<br />

racionalidade, maior previsibilidade<br />

nos meios a afectar e melhor adequação<br />

da sua escala de produção.<br />

líiJ Deste modo, a introdução<br />

ri das regras de concorrência<br />

e de livre circulação dos doentes<br />

dentro do sistema encaminhará os<br />

fluxos da procura em determ inado tipo<br />

de patologias específicas, programáveis<br />

e não catastróficas ou crónicas, para<br />

a prestação privada, ficando os serviços<br />

públicos com as situações clínicas<br />

mais severas. Isto está tambétn muito<br />

associado à idade dos doentes, sendo<br />

os mais idosos geralmente portadores<br />

das doenças de abordagem mais difícil<br />

e de prognóstico mais reservado.<br />

Concomitantemente, as<br />

complementaridades oferecidas<br />

pelas clínicas privadas - em matéria<br />

de personalização e conforto - são uma<br />

mais,valia atractiva, designadamente,<br />

para os estratos sociais que possam pagar<br />

esses complementos, com vantagem não<br />

negligenciável nos benefícios fiscais.<br />

É o que os peritos denominam como<br />

a "desnatação" dos serviços públicos<br />

com graves consequências, em matéria<br />

de financiamento e qualidade para estes<br />

e, principaltnente, para os doentes que<br />

aí ficam, tendencialmente mais velhos,<br />

mais doentes e mais pobres.<br />

fel O mercado, a todos os títulos<br />

r..J imperfeito e essencialmente<br />

comandado pelos prestadores,<br />

concorreria assim para um Sistema<br />

de Saúde dual, com serviços privados<br />

cada vez mais sofisticados a funcionar<br />

para nichos de mercado específicos,<br />

e serviços públicos empobrecidos,<br />

de resposta diversificada e urgente para<br />

os pobres, os idosos e os mais doentes.<br />

O princípio da equidade no acesso,<br />

que se pretendia enaltecer, ficaria assim<br />

irremediavelmente comprometido.<br />

Por outro lado, a passagem do actual<br />

modelo - integrado e monopolista -<br />

para o novo modelo - contratualizado<br />

e competitivo - deve ser realizada num<br />

processo gradual e sustentado que não<br />

provoque a ruptura do sistema. De facto,<br />

o florescimento rápido de uma oferta<br />

privada ou social de cuidados de<br />

Saúde (incentivada pela introdução<br />

das regras agora enunciadas pelo<br />

Governo), pode, de forma dramática,<br />

aumentar ainda mais a subutilização<br />

dos recursos públicos instalados.<br />

E como não detemos instrumentos<br />

que flexibilizem a aquisição ou dispensa<br />

de recursos - quer humanos, quer<br />

materiais - o cenário poderia ser<br />

economicamente insustentável.<br />

rii O programa do Governo parece<br />

~ querer acautelar este cenário<br />

pessimista, retomando algumas das<br />

propostas avançadas por anteriores<br />

governos, principalmente no que toca<br />

à gestão hospitalar: tornar os hospitais<br />

públicos mais eficientes e competitivos,<br />

através de um novo estatuto jurídico<br />

e do desenvolvimento dos Centros de<br />

Responsabilidade parecem, de facto,<br />

ser medidas positivas e que os podem<br />

proteger dentro do modelo competitivo<br />

que se pretende adaptar.<br />

Já o reforço do poder dos Directores<br />

de Serviço hospitalares parece ser uma<br />

medida pouco coerente com a noção<br />

dos Centros de Responsabilidade, que<br />

por definição, devem corresponder a<br />

universos de gestão mais extensos<br />

que não se conformam com a visão<br />

atomizada do Serviço.<br />

É de facto muito importante promover<br />

uma reorganização funcional dos<br />

hospitais, na sua vertente clínica,<br />

criando áreas de gestão homogéneas,<br />

mas de dimensão suficiente para delas<br />

se obterem sinergias evidentes para<br />

a eficiência e para a qualidade dos<br />

serviços prestados. A lógica do serviço,<br />

tal como existe hoje nos nossos<br />

hospitais, não resistirá por muito mais<br />

tempo a uma abordagem deste tipo.<br />

É, portanto, pouco perceptível a ideia<br />

de simultaneamente se desenvolverem<br />

Centros de Responsabilidade e<br />

se reforçarem os poderes dos Directores<br />

de Serviço.<br />

l"rã1 As propostas de reorganização da<br />

ln actual rede de cuidados primários<br />

parecem assentar em bons princípios:<br />

a noção de médico,assistente e<br />

a ideia do modelo remuneratório<br />

( ... )<br />

o florescimento<br />

rápido de uma<br />

oferta privada<br />

ou social de<br />

cuidados de<br />

Saúde<br />

(incentivada<br />

pela introdução<br />

das regras<br />

agora<br />

enunciadas<br />

pelo Governo),<br />

pode, de forma<br />

dramática,<br />

aumentar<br />

ainda mais<br />

a subutilização<br />

dos recursos<br />

públicos<br />

instalados.<br />

nJ GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR ~


de base capitacional, com contratos<br />

a estabelecer com os médicos.<br />

Parece afastar,se assim a predominância<br />

da estrutura sobre as pessoas, o que,<br />

infelizmente, tem dominado a política<br />

de Saúde para os cuidados primários nos<br />

últimos 30 anos. Na realidade, conceber<br />

este tipo de cuidados apenas orientado<br />

pela noção de Centros de Saúde, com<br />

a multiplicidade de serviços e estruturas<br />

burocráticas que lhe estão associadas,<br />

é um erro grave de planeamento<br />

e de organização que se repercute<br />

depois na rigidez do modelo,<br />

na sua falta de eficiência e, sobretudo,<br />

na insensibilidade que daí resulta n a<br />

resposta aos problemas dos cidadãos.<br />

m<br />

Quanto à política do<br />

medicamento, o Governo parece<br />

querer dar con tinuidade às orientações<br />

de anteriores governos: a expansão do<br />

mercado de genéricos e a introdução<br />

dos preços de referên cia. É óbvio que<br />

uma estratégia assen te na diminuição<br />

dos preços dos medicamentos provocará<br />

alguma poupança na factura dos<br />

produtos farmacêuticos.<br />

Mas é importante reflectir também<br />

- e o caso português é, nessa<br />

matéria, paradigmático - no volume<br />

dos consumos de medicamentos.<br />

Este só será controlável com regras<br />

de prescrição 1nais custo,efectivas<br />

e em que o prescritor seja directamente<br />

envolvido.<br />

É, indiscutivelmente, a parte mais difícil<br />

do problema, mas será também aquela<br />

em que os ganhos de eficiência poderão<br />

ser maiores.<br />

l'li] Uma nota final sobre as listas<br />

~ de espera. Noventa mil, oitenta<br />

mil, cinquenta mil ? Ninguém sabe<br />

ao certo o número de doentes em<br />

espera para uma intervenção cirúrgica.<br />

O fenómeno é universal, e nalguns<br />

casos, dramático. Serve também, muitas<br />

vezes, como pretexto para agenciar<br />

doentes dos serviços públicos para<br />

a prestação privada.<br />

Lembro,me sempre, quando se fala em<br />

listas de espera, da decisão salomónica<br />

do Ministro da Sanidad y Consumo<br />

de Espanha no 1 º Governo de Aznar:<br />

1/3 das listas de espera teriam que<br />

ser resolvidas pelos serviços públicos,<br />

com aumento da produtividade, outro<br />

terço com pagainentos adicionais ou<br />

incentivos e o restante seria distribuído<br />

por prestadores privados. Confesso que<br />

não sei o impacte desta decisão.<br />

Mas que, em si mesmo, ela encerra<br />

a percepção das várias facetas<br />

que o problema nos apresenta,<br />

disso não tenhamos dúvidas.<br />

l'liJ Em síntese, estamos perante um<br />

l& programa estimulante e, de certa<br />

f arma de ruptura. Encerra desafios de<br />

alto risco para o equilíbrio do Sistema<br />

de Saúde, designadamen te em matéria<br />

de equidade, mesmo considerando útil e<br />

necessária a abertura à concorrência e à<br />

iniciativa privada.<br />

Será indispensável introduzir regras<br />

públicas que reduzam esses riscos<br />

a três níveis:<br />

a)- A liberdade de escolha do doen te<br />

ser condicionada pela acreditação<br />

das instituições que, em número<br />

limitado, ele poderá escolher,<br />

sempre sob orientação<br />

do seu médico,assisten te;<br />

b )- As regras de acreditação<br />

con templarem pressupostos<br />

mín imos de diversificação<br />

e qualidade na oferta de cuidados,<br />

quer em termos de especialidades<br />

quer em termos de horários<br />

de funcionamento;<br />

c)- Os profissionais de Saúde<br />

só poderem prestar serviços<br />

numa e numa só das instituições<br />

contempladas pelo financiamento<br />

público.<br />

Diz,se que as reformas não podem ser<br />

fe itas contra os profissionais. De acordo.<br />

Mas os seus interesses e as suas<br />

expectativas devem ser condicionadas,<br />

primordialmente, ao interesse dos<br />

doentes. E nem sempre são<br />

coincidentes, o que cria uma margem<br />

de conflitualidade para a qual se<br />

exige conhecimento, estudo, bom senso<br />

e capacidade de decisão. Temos a<br />

esperança de que as decisões difíceis,<br />

mas acertadas, irão ser tomadas.


( ... )os su<br />

devem preparar<br />

e implementar<br />

modelos<br />

de triagem<br />

de prioridades<br />

•<br />

e reorganizar o<br />

funcionamento<br />

das Salas<br />

de Emergência<br />

para que<br />

o atendimento<br />

das situações<br />

de prioridade<br />

maxima se1a<br />

efectuado<br />

por pessoal<br />

altamente<br />

treinado<br />

e qualificado.<br />

,. . .<br />

e algumas situações de elevada<br />

gravidade mas baixa prevalência<br />

(os grandes queimados, por exemplo)<br />

a cobertura nacional pode,se considerar<br />

muito boa, perfeitamente<br />

comparável à dos países europeus<br />

nossos parceiros na EU.<br />

Até aqui tudo parece bem e o modelo<br />

de organização é sólido, está bem<br />

fundamentado, fo i exaustivamente<br />

estudado e até é consensual.<br />

Mas para que este processo<br />

de restruturação seja bem sucedido<br />

muitas outras condições são necessárias.<br />

Podemos enumerar algumas:<br />

em primeiro lugar a necessidade<br />

de encerrar múltiplas "pequenas<br />

urgências" hospitalares<br />

ou, pelo menos, retirá, las do circuito<br />

da responsabilidade de referenciação<br />

pré hospitalar, a cargo do INEM;<br />

em segundo lugar cada sub região<br />

tem que definir, com clareza,<br />

os circuitos de referenciação<br />

inter,hospitalar da sua responsabilidade<br />

e articular,se com o INEM<br />

e com as outras unidades hospitalares<br />

da sua Região caso não disponha<br />

dos dois níveis de atendimento,<br />

em terceiro lugar é crucial que as Regiões<br />

criem estruturas "ligeiras" de avaliação<br />

e acompanhamento do processo<br />

e que este seja auditado frequentemente<br />

e que estas auditorias/avaliações<br />

tenham consequências; em quarto lugar<br />

os Serviços de Urgência têm que sofrer<br />

profundas alterações na sua estrutura<br />

organizativa e nos seus modelos<br />

de funcionamento.<br />

Este é o ponto em que gostaria<br />

de me deter e desenvolver, embora<br />

limitadamente,as linhas gerais que,<br />

no meu entender, devem orientar<br />

esta reorganização.<br />

Comecemos pela Medicina<br />

de Emergência; em alguns países<br />

desde há muitos anos se reconheceu<br />

que o atendimento das situações<br />

de emergência exigia aprendizagem<br />

e treino específicos.<br />

Esta aprendizagem<br />

e treino não eram, nem são!<br />

, exclusivos dos médicos mas<br />

estendiam,se a um conjunto de<br />

profissionais que vão dos enfermeiros,<br />

aos tripulantes de ambulâncias,<br />

aos paramédicos (uma figura<br />

profissional h á muito reconhecida<br />

nos países anglo saxônicos) ,<br />

aos operadores das centrais de orientação<br />

de doentes, etc .. Em Portugal a Ordem<br />

dos Médicos reconheceu a Competência<br />

em Emergência em 2001 e este pequeno<br />

passo pode representar uma profunda<br />

mudança na organização dos Serviços<br />

de Urgência <strong>Hospitalar</strong>.<br />

E em <strong>2002</strong> o Ministério da Saúde,<br />

por Despacho, formalizou - finalmente<br />

- a criação dos Serviços de Urgência<br />

atribuindo,lhes a função de Serviço<br />

de Acção Médica. E por aqui tudo<br />

pode e deve começar, os hospitais<br />

da Rede devem criar os Serviços<br />

de Urgência e, rapidamente,<br />

atribuir,lhes equipas fixas de médicos,<br />

idealmente com a Competência<br />

em Emergência (aproveitando,<br />

numa fase inicial aqueles que<br />

a vão obter por consenso e todos<br />

os que, voluntariamente, o desejem).<br />

Concomitantemente os SU devem<br />

preparar e implementar modelos<br />

de triagem de prioridades e reorganizar<br />

o funcionamento das Salas de<br />

Emergência para que o atendimento<br />

das situações de prioridade máxima<br />

seja efectuado por pessoal altamente<br />

treinado e qualificado.<br />

As vantagens deste modelo vão<br />

desde a garantia de qualidade<br />

assistencial elevada até à normalização<br />

de processos com todas as consequências<br />

positivas que daí decorrem naturalmente.<br />

É fundamental, ainda, que os SU<br />

se transformem, progressivamente,<br />

em unidades com um tempo limite<br />

de internamento (salvo situações<br />

de excepção) de 24 horas.<br />

Este ponto é fundamental e é forçoso<br />

reconhecer que o surgimento de equipas<br />

fixas poderá levar "à tentação"<br />

de prolongar os cuidados para além<br />

dos tempos aceitáveis. Talvez não seja<br />

demais salientar que um SU tem que<br />

ter um regulamento de funcionamento,<br />

aprovado pela Direcção C línica,<br />

em que todos estes aspectos têm<br />

que ser considerados.<br />

Ainda no que concerne ao regulamento<br />

é minha opinião que alguns outros<br />

pontos - e não quero ser exaustivo -<br />

devem ser bem esclarecidos tais como<br />

a circulação exclusiva a pessoal<br />

em serviço e utentes (com regras,<br />

também, para visitas e acompanhantes),<br />

o registo "on line" de todos os actos<br />

praticados (o que implica<br />

uma informatização específica<br />

mas compatível com o SONHO),<br />

a definição de tarefas e cadeias<br />

hierárquicas e a relação do SU<br />

com os outros serviços do hospital,<br />

quer os de Acção Médica quer os<br />

Serviços de apoio geral e logístico<br />

(<strong>Gestão</strong> de Doentes, SIE, Serviço<br />

de Pessoal, Gabinete do Utente,<br />

Serviço Social, etc.).<br />

Alguns aspectos mais devem<br />

ser salientados antes de analisar<br />

as consequências mais importantes<br />

para a organização hospitalar<br />

que uma mudança tão radical acarreta.<br />

Apenas dois quero referir, o primeiro<br />

tem a ver com o programa curricular<br />

da formação dos Internos das diversas<br />

especialidades, o segundo com uma fase<br />

de transição em que coexistirão equipas<br />

fixas e equipas tradicionais com escala<br />

por serviços e especialidades.<br />

Quanto ao primeiro será desejável<br />

que num futuro próximo seja possível<br />

programar estágios de duração variável,<br />

em função da área de formação,<br />

que permitam um período de treino,<br />

aprendizagem e avaliação, programado,<br />

em Medicina de Emergência.<br />

Cabe à Ordem e aos Colégios<br />

das Especialidades o papel fundamental<br />

nesta revisão dos regulamentos<br />

dos Internatos. O segundo é,<br />

aparentemente, mais difícil porque,<br />

a meu ver, cada hospital tem<br />

que adaptar progressivamente<br />

o seu modo de funcionamento<br />

e é evidente que não é possível,<br />

nem desej ável, aplicar<br />

(( . ,, ,, .<br />

uma receita un1ca.<br />

De uma forma geral parece,me que será<br />

possível definir, para cada instituição,<br />

um cronograma de mudança que respeite<br />

as tradições e os hábitos não forçando<br />

uma solução imposta. Terá que ser<br />

uma solução negociada e partilhada<br />

por todos os intervenientes e liderada<br />

por um elemento interessado<br />

na restruturação (este aspecto<br />

é condição absolutamente necessária<br />

para o sucesso do processo).<br />

E quais as consequências de uma<br />

restruturação desta dimensão?<br />

Analiso, brevemente, apenas duas;<br />

a qualidade da assistência prestada<br />

e o papel estruturante na organização<br />

do trabalho hospitalar.<br />

A primeira é evidente: a Medicina<br />

de emergência é, hoje em dia, uma área<br />

do conhecimento médico perfeitamente<br />

definida, com regras de boas práticas<br />

que necessita de pessoal altamente<br />

qualificado para a sua prática.<br />

As janelas diagnosticas e terapêuticas<br />

das situações de urgência/emergência<br />

mais prevalentes são conhecidas<br />

e sabe,se que a actuação correcta não só<br />

diminui a mortalidade como, na grande<br />

maioria das situações, diminui de forma<br />

significativa a morbilidade.<br />

Basta pensar o que está definitivamente<br />

demonstrado para a doença coronária<br />

aguda, para os acidentes vasculares<br />

cerebrais e para o grande trauma.<br />

Bastavam estas razões para se avançar<br />

na restruturação das urgências desde<br />

o pré hospitalar até ao hospitalar.<br />

A segunda consequência é vasta<br />

na amplitude; pensemos, de imediato,<br />

na possibilidade de cobrança dos actos<br />

praticados nos SU que procedimentos<br />

regularizados e registados,<br />

informaticamente, na "hora" permitem;<br />

e na possibilidade de reorganizar<br />

o trabalho médico, quer no ambulatório<br />

quer no internamento, que se pode<br />

conseguir com equipas fixas apoiadas<br />

pelas especialidades necessárias num<br />

modelo deste tipo, e, ainda, a<br />

possibilidade de melhorar a informação<br />

aos utentes e acompanhantes que será<br />

possível com circuitos bem estabelecidos<br />

e definidos. Tenho a convicção profunda<br />

que uma vantagem adicional e<br />

não desprezível existe; todos ansiamos<br />

por mudanças significativas<br />

nas Urgências <strong>Hospitalar</strong>es<br />

e um processo deste tipo pode<br />

mobilizar vontades e criar<br />

um entusiasmo e participação<br />

dos profissionais que não sendo<br />

condição suficiente é, seguramente,<br />

a condição necessária<br />

para o sucesso. <br />

* Assessor do Director-Geral da Saúde<br />

e Professor de Medicina Interna<br />

(...) será<br />

possível<br />

definir, para<br />

cada<br />

. . . ,.,,.,<br />

instituiçao,<br />

um cronograma<br />

de mudança<br />

que respeite<br />

as tradições<br />

e os hábitos<br />

não forçando<br />

uma solução<br />

imposta.<br />

[I!] GESTÃO HOSPTTALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Poucos<br />

contestarão<br />

a necessidade<br />

de reforma<br />

estrutural<br />

do sistema,<br />

sendo certo<br />

que as decisões<br />

de contenção<br />

da despesa,<br />

decretadas<br />

por via<br />

administrativa,<br />

estarão votadas<br />

a um rotundo<br />

•<br />

insucesso.<br />

SABER, SABER FAZER<br />

-<br />

E A REFORMA DA SAUDE<br />

Por Menezes Correia*<br />

A<br />

arte e a técnic:a nem sempre<br />

foram pensadas de forma<br />

separada. A cultura grega<br />

utilizava mesmo um só vocábulo<br />

para designar os dois conceitos.<br />

No renascimento o artista era ainda<br />

um homem com capacidades para<br />

desempenhar múltiplas funções.<br />

Leonardo da Vinci é o exemplo<br />

paradigmático. Síntese dos ideais<br />

estéticos que deram origem ao<br />

Renascimento, a obra de Leonardo,<br />

abrange diversos domínios da ciência<br />

e da arte. Um dos mais notáveis pintores<br />

do Renascimento e possivelmente seu<br />

maior génio, ele foi também anatomista,<br />

engenheiro, matemático, músico,<br />

naturalista, arquitecto e escultor.<br />

A fragmentação do saber não permite<br />

ao homem contemporâneo possuir<br />

as muitas capacidades do homem<br />

renascentista. Estabeleceu,se até uma<br />

hierarquia de mérito entre os que sabem<br />

e os que fazem.<br />

Interpretando o pensamento do Conde<br />

de Abranhos, diz Zagalo : "a primeira<br />

vantagem da Universidade como<br />

instituição social é a separação que<br />

se forma naturalmente entre estudantes<br />

e futricas, entre os que apenas vivem<br />

de revolver ideias e teorias e aqueles<br />

que vivem do trabalho". Desta forma,<br />

"o estudante fica para sempre<br />

compenetrado desta grande ideia social:<br />

que há duas classes - uma que sabe<br />

e outra que pro d uz. "<br />

No início do século XX Taylor estuda<br />

em pormenor a tarefa dos operários,<br />

decompõena nos elementos mais simples<br />

e redesenha,a utilizando métodos,<br />

equipamentos e tempos padronizados,<br />

sem esquecer o tempo de descanso<br />

e os atrasos inevitáveis. O trabalhador<br />

de Taylor não tem que pensar:<br />

basta, lhe executar o trabalho<br />

preparado no gabinete<br />

pelos engenheiros da produção.<br />

O "modelo ideal" de Max Weber, matriz<br />

da administração pública de muitos<br />

estados modernos, caracteriza,se<br />

por uma grande divisão do trabalho e,<br />

mais uma vez, pela separação<br />

dos que pensam e dos que executam.<br />

Como o sistema pretende maximizar<br />

a independência pessoal, evitar o livre<br />

arbítrio e assegurar a igualdade,<br />

as decisões devem ser tomadas<br />

ao abrigo das pressões e, portanto,<br />

a um nível elevado da hierarquia.<br />

No topo da pirâmide situam,se<br />

as instâncias de decisão e na sua base os<br />

operacionais encarregados da execução.<br />

O que se ganha em independência<br />

perde,se todavia em conhecimento<br />

qualitativo da realidade.<br />

Por isso assistimos, com frequência,<br />

a uma ruptura na passagem dos princípios<br />

à prática e ao diálogo de surdos entre<br />

os que pensam e os que executam. Vêm<br />

estas considerações a propósito<br />

da reforma da Saúde. Poucos contestarão<br />

a necessidade de reforma estrutural do<br />

sistema, sendo certo que as decisões de<br />

contenção da despesa, decretadas por<br />

via administrativa, estarão votadas a um<br />

rotundo insucesso. Um movimento de<br />

reforma desenvolve,se sempre a partir<br />

duma visão do futuro e de algumas<br />

orientações fortes. A partir daqui<br />

os caminhos podem ser diferentes.<br />

De forma empírica, e porventura<br />

simplista, podemos tipificar as diferentes<br />

soluções em três grandes categorias;<br />

reforma tecnocrática, reforma pragmática<br />

e reforma democrática.<br />

A solução tecnocrática procura traduzir<br />

directamente a visão de futuro num<br />

programa de medidas, exclusivamente<br />

justificadas pela referência aos princípios<br />

que elas supostamente vão concretizar.<br />

O reformador tecnocrático reúne<br />

um grande conjunto de saberes para<br />

construir um modelo teórico destinado<br />

a moldar o sistema social que<br />

se pretende reformar.<br />

A reforma pragmática surge como<br />

reacção ao idealismo tecnocrático.<br />

O reformador pragmático não perde<br />

muito tempo a estudar e discutir<br />

modelos teóricos.<br />

"Basta de tanto estudo e de tanto saber.<br />

Posto que o diagnóstico é conhecido,<br />

passemos imediatamente à acção."<br />

É a reforma dos "fazedores".<br />

A reforma democrática procura<br />

reconstituir a unidade entre o saber<br />

e o saber fazer. Tão importante como<br />

o conhecimento aprofundado<br />

dos modelos teóricos é o conhecimento<br />

dos factos. O s objectivos não são fixados<br />

à priori, mas condicionados<br />

pelos recursos disponíveis.<br />

A primeira destas vias está<br />

inelutavelmente votada ao fracasso.<br />

O reformador tecnocrático, de esquerda<br />

ou de direita, não respeita a sociedade<br />

tal como ela é.<br />

Em particular não compreende;<br />

- que os agentes da mudança<br />

são elementos do sistema social<br />

que pretende modificar,<br />

- que uma reforma é o resultado<br />

dum conjunto de aprendizagens,<br />

- que só a capacidade de aprendizagem<br />

das pessoas torna a mudança<br />

possível e aceitável.<br />

A abordagem pragmática inverte a<br />

hierarquia do saber e do saber fazer.<br />

Nos casos extremos, assumirá mesmo,<br />

para citar Eduardo Prado Coelho, "a<br />

tendência para denunciar os "intelectuais<br />

que pensam" de modo a deixar todo<br />

o espaço livre àqueles que pensam que<br />

estão a agir, quando desistem de pensar."<br />

Este tipo de abordagem caracteriza,se<br />

por múltiplas intervenções pontuais. N a<br />

melhor das hipóteses não sucede nada:<br />

a resistência homeostática do sistema<br />

neutraliza as alterações introduzidas.<br />

Politicamente isso até pode ter interesse;<br />

é preciso que alguma coisa mude<br />

para que tudo fique na mesma. N a<br />

hipótese mais nefasta as alterações<br />

cortam ciclos de estabilização e<br />

aumentam a desorganização do sistema.<br />

Sem prescindir duma visão do futuro e<br />

da definição dos grandes princípios de<br />

política, a reforma democrática escolhe,<br />

como processo de implementação, o<br />

gradualismo, a experimentação e a<br />

avaliação sistemática. Não há certezas<br />

absolutas nem reformas pronto a vestir:<br />

"Al andar se hace camino,/ y al volver<br />

Ia vista atrás / se ve la senda que<br />

nunca/ se há de volver a pisar."<br />

Uma reforma deste tipo não cabe no<br />

prazo temporal duma legislatura e menos<br />

ainda dum mandato ministerial, tão<br />

voláteis têm estes sido.<br />

Na última década o Ministério da<br />

Saúde conheceu 6 Ministros. Quando<br />

muda o Ministro não muda apenas<br />

o seu gabinete. Frequentemente muda<br />

a estratégia, alteram,se as políticas,<br />

travam,se os projectos, abandonam,se<br />

os estudos e recomeça,se de novo. De<br />

preferência com outros intérpretes: novos<br />

Directores Gerais, novos Conselhos de<br />

Administração dos Institutos, das ARS,<br />

dos H osp itais, novos Coordenadores<br />

SubRegionais etc.<br />

Nestas condições não é possível<br />

desenvolver a reforma de saúde que<br />

o país precisa. Como defende o Prof.<br />

Manuel Antunes " uma actuação<br />

sustentada de reforma pressupõe a<br />

existência de um Pacto de Regime que<br />

comprometa as principais forças políticas<br />

em relação ao conjunto de soluções a<br />

adaptar e de cuja execução resultará<br />

a viragem do actual sistema de saúde.<br />

Só assim se poderão promover reformas<br />

a médio e longo prazo que tenham<br />

condições para sobreviver à alternância<br />

de poder que caracteriza o regime<br />

democrático."<br />

Esse pacto é indispensável e o início<br />

duma legislatura o momento adequado<br />

para se tentar a sua possibilidade.<br />

Caso se desperdice mais uma<br />

oportunidade, resta,nos sugerir aos<br />

partidos com vocação do poder que ,<br />

em próximas eleições, não desperdicem<br />

energias a divulgar promessas na área da<br />

saúde: todos sabemos que não serão para<br />

cumprir. <br />

* Administrador hospitalar<br />

Sem prescindir<br />

duma visão<br />

do fUturo<br />

e da definição<br />

dos grandes<br />

princípios<br />

de política,<br />

a reforma<br />

democrática<br />

escolhe, como<br />

processo de<br />

implementação,<br />

o gradualismo,<br />

a experimentação<br />

e<br />

a avaliação<br />

. /<br />

.<br />

sistematica.<br />

Não há certezas<br />

absolutas<br />

nem reformas<br />

pronto a vestir.<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR ~


(...) a gestão<br />

política dos hospitais<br />

tem sido um erro<br />

primário de gestão.<br />

As mudanças<br />

frequentes<br />

de gestores<br />

nada mais são<br />

do que uma doença<br />

mortal da gestão<br />

hospitalar<br />

portuguesa.<br />

ffi GESTÃO HOSPITALA R<br />

ADMINISTRADORES<br />

HOSPITALARES EM TEMPO<br />

DE MUDANÇA<br />

Por Jorge Varanda*<br />

E<br />

m 1982, se a memória não me falha,<br />

o Ministro dos Assuntos Sociais<br />

Dr. Luís Barbosa, em audiência<br />

com a Direcção da Associação Portuguesa<br />

dos Administradores <strong>Hospitalar</strong>es,<br />

ofereceu a possibilidade da<br />

empresarialização dos Hospitais,<br />

vinte anos antes do fenómeno<br />

se tornar inevitável.<br />

A Direcção da APAH pedia maior<br />

autonomia para os Hospitais, maior<br />

capacidade de gestão, mas, visivelmente,<br />

não estava em condições de aceitar<br />

a transformação dos hospitais<br />

em empresas públicas, por receios diversos.<br />

Achei o repto interessante,<br />

mas o peso que tinha um jovem<br />

administrador, o mais jovem do elenco<br />

directivo, e os fundamentos da minha<br />

convicção não eram suficientes<br />

para mudar a orientação associativa.<br />

A oposição e o medo à mudança<br />

do estatuto dos hospitais situavam-se<br />

na partidarização dos lugares de gestão.<br />

"<br />

Paradoxalmente, esse medo<br />

era a seu tempo justificado<br />

e injustificado. Justificado,<br />

pois os Partidos no poder<br />

não têm parado de usar<br />

critérios partidários para<br />

nomear os gestores e tomar<br />

decisões críticas de<br />

planeamento. Injustificado,<br />

porque os administradores se<br />

afirmaram ao longo dos anos<br />

como um corpo profissional<br />

com capacidades suficientes<br />

para suportar as flutuações<br />

de administração política<br />

dos hospitais.<br />

Com isto, porém, não quero<br />

significar que a evolução<br />

tenha sido positiva.<br />

Longe disso, a gestão política<br />

dos hospitais tem sido<br />

um erro primário de gestão.<br />

As mudanças frequentes de gestores<br />

nada mais são do que uma doença mortal<br />

da gestão hospitalar portuguesa.<br />

O período que se avizinha vai<br />

inevitavelmente trazer mais turbulência<br />

desse tipo. Poderá perguntar-se: qual a<br />

melhor atitude para enfrentar a mudança,<br />

ou melhor, as mudanças, pois há<br />

as alterações legislativas que o sistema<br />

de saúde português vai sofrer e há<br />

mudanças de fundo em curso na saúde<br />

e que vão implicar com a gestão hospitalar?<br />

A única resposta de fundo é<br />

a do desenvolvimento contínuo e veloz<br />

do conhecimento e da capacidade<br />

profissional e operacional.<br />

Num meio hospitalar em que<br />

se perspectiva o alargamento<br />

da intervenção privada, é sabido<br />

que vai aumentar a concorrência<br />

de profissionais com profissões afins<br />

e até não afins. Os administradores<br />

hospitalares têm por base uma formação<br />

multifacetada, mas essencialmente<br />

generalista. Muitos, entretanto,<br />

têm-se especializado em áreas específicas,<br />

muito embora a maioria se mantenha<br />

num quadro de trabalho generalista,<br />

com versatilidade de adaptação.<br />

Essa concorrência é natural que se faça<br />

sentir com mais acuidade em áreas<br />

especializadas de gestão.<br />

Há alguns domínios que me parece<br />

deverem merecer uma atenção redobrada,<br />

em termos de conhecimento e de<br />

capacidade operativa: o da direcção<br />

estratégica da instituição, o dos sistemas<br />

de informação para a gestão, do controlo<br />

e correcção dos erros e desperdícios que<br />

todas as organizações, em maior ou menor<br />

medida produzem e o do desenvolvimento<br />

emocional e positivo dos profissionais<br />

que constituem cada hospital.<br />

( ••• ) é necessário<br />

que o sistema<br />

de financiamento<br />

seja moldado<br />

aos objectivos elevados<br />

de eficiência<br />

e de qualidade<br />

e não apenas uma<br />

lista de preços<br />

reflectores dos custos.<br />

Sou um homem do serviço público,<br />

sem complexos, nem ilusões, relativamente<br />

ao privado. Sei mesmo que se podem<br />

construir organizações privadas de saúde,<br />

na mais exigente linha do serviço público.<br />

Sei também que se podem constituir<br />

organizações privadas e também públicas,<br />

ao arrepio dos princípios humanos<br />

de cooperação social e de progresso.<br />

Considero ainda que a pressão<br />

que o privado vai exercer obrigará<br />

os hospitais de gestão pública a<br />

qualificarem-se, melhorando<br />

significativamente os seus padrões<br />

de gestão. Chegando os poderes, vão<br />

chegar as responsabilidades, não estando,<br />

porém, afastada a gestação de novas crises,<br />

se o novo modelo de sistema de saúde<br />

e de financiamento nele incorporado,<br />

não for adaptado às expectativas<br />

e necessidades da sociedade portuguesa.<br />

E é aqui que se situa um ponto nevrálgico<br />

da reforma do sistema: o que se pretende<br />

é aumentar a produção (acabar com<br />

as listas de espera), por ganhos de gestão<br />

e de produtividade e de acréscimo<br />

de capacidade produtiva (mais hospitais<br />

e mais camas hospitalares) ou pretende-se<br />

que tudo seja dirigido por um princípio<br />

de produção de mais saúde e de mais<br />

qualidade de vida?<br />

Se o princípio básico é este, então<br />

a produtividade deve ser dirigida pelo<br />

objectivo mais geral de evitar mais<br />

doença e de produzir mais saúde.<br />

Apesar de crítico, este ponto não<br />

está esclarecido, longe disso.<br />

Isto implica que os administradores<br />

hospitalares portugueses aprendam<br />

a gerir organizações mais vastas<br />

que os hospitais, ou seja, redes<br />

e sistemas integrados de cuidados,<br />

estabelecendo objectivos e caminhos<br />

que permitam reduzir o fardo das doenças<br />

crónicas, responsáveis por mais de 80%<br />

dos gastos em saúde.<br />

Para tanto, é necessário que o sistema<br />

de financiamento seja moldado<br />

aos objectivos elevados de eficiência<br />

e de qualidade e não apenas uma lista<br />

de preços reflectores dos custos.<br />

Mais ainda do que reduzir os tempos<br />

de espera para cirurgias relacionadas<br />

com o cancro do colo do útero,<br />

por exemplo, há que construir sistemas<br />

de cuidados que sejam inerentemente<br />

movidos pela necessidade de prevenir<br />

esse tipo de cancro, sendo que este caso<br />

é apenas um da miríade de casos de<br />

que se poderá falar.<br />

Para além de tudo, a medicina está<br />

à beira de mais uma revolução altamente<br />

benigna por via da genética.<br />

Cumpre-nos, a nós, neste momento,<br />

exigir que Portugal enverede por reformas<br />

que coloquem o sistema de saúde<br />

(todo o sistema e não apenas aquilo<br />

a que se possa chamar de sistema<br />

de saúde) entre os melhores.<br />

Não por ambição, mas por exigência<br />

racional e ética, exigência das nossas<br />

consciências profissionais e das nossas<br />

consciências sociais.<br />

Compete aos administradores<br />

hospitalares portugueses pela<br />

sua capacidade de intervenção<br />

e pela sua abertura à Europa<br />

e ao Mundo mais evoluído<br />

ajudar a criar hospitais,<br />

organizações integradas e um<br />

sistema de saúde capazes de<br />

produzir na população<br />

portuguesa os melhores<br />

resultados de saúde com o<br />

melhor uso dos recursos<br />

disponíveis, inconformados<br />

com tudo o que tenha a<br />

ver com erros, desperdício e<br />

produção de doença.


_.<br />

SISTEMA DE SAUDE<br />

#Ili#<br />

EMQUESTAO<br />

"Espaço Aberto" é uma nova secção nesta versão renovada<br />

da "<strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>'~ na qual iremos registar, de forma plural,<br />

o pensamento dos principais líderes de opinião<br />

sobre saúde em Portugal. Primeiro tema: "Sistema de Saúde<br />

em Questão". Para já, três líderes. Mas o tema aí fica,<br />

com as mesmas seis questões, para o "Espaço Aberto"<br />

1- O nosso Sistema de Saúde e, em<br />

particular, o SNS é geralmente considerado<br />

como despesista e incapaz de conter a subida<br />

dos custos. Concorda com esta afirmação?<br />

E, se for o caso, que medidas consideraria<br />

fundamentais para corrigir a situação?<br />

2- O novo governo propõe-se flexibilizar<br />

o mercado da Saúde, admitindo a livre<br />

circulação dos doentes entre os sectores<br />

público e privado (lucrativo ou social) baseada<br />

num financiamento público, cuja referência<br />

será uma tabela de preços a criar. Concorda<br />

ou não com esta decisão e que vantagens<br />

e/ou inconvenientes poderãcfdaí advir?<br />

3- A acumulação de funções públicas com<br />

funções privadas é muitas vezes referida como<br />

factor impeditivo de um desempenho eficiente<br />

dos profissionais de Saúde, designadamente<br />

na área médica. Concorda com esta<br />

afirmação?<br />

E como promover a clarificação desses<br />

regimes ou , se for a sua opção, o fim das<br />

acumulações?<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

da próxima edição.<br />

4- Afirma-se com frequência que a medicina<br />

familiar, exercida de forma não institucional,<br />

personalizada e de proximidade, concorreria<br />

decisivamente para a diminuição das<br />

urgências hospitalares e, desta forma,<br />

contribuiria para a eficiência do Sistema.<br />

Como encara a situação dos cuidados<br />

primários em Portugal e que soluções<br />

preconiza?<br />

5- O programa do governo, ao referir-se<br />

ao financiamento público dos cuidados de<br />

Saúde "essenciais" e ao incentivar seguros<br />

complementares, parece querer clarificar a<br />

natureza e o âmbito dos subsistemas e dos<br />

seguros comerciais. Em que medida considera<br />

esta matéria importante para a racionalização<br />

do sistema de Saúde?<br />

6- A gestão dos hospitais públicos está<br />

sujeita a um modelo jurídico, designadamente<br />

na área das compras, recursos humanos e<br />

dos órgãos de gestão, fortemente criticado<br />

por diferentes quadrantes da opinião pública.<br />

Concorda com esse tipo de críticas?<br />

E que soluções preconizaria para a gestão dos<br />

hospitais públicos?<br />

Maria de Belém Roseira, vice-presidente<br />

do Grupo Parlamentar do PS<br />

Rótulo de 'despesista'<br />

é acção de propaganda<br />

1<br />

Esta questão merece, desde logo,<br />

um comentário relativamente<br />

à sua formulação.<br />

O rótulo de "despesista" ao sistema<br />

teve que ver, em minha opinião,<br />

muito mais com acções de propaganda<br />

de quem pretendia mudar a sua<br />

natureza pública do que com quem<br />

estava preocupado com a permanente<br />

adopção de medidas que assegurassem<br />

a sua gestão correcta.<br />

Falar sistematicamente em<br />

despesismo, por outro lado, é esconder<br />

a componente de investimento<br />

que a despesa da saúde tem.<br />

Com efeito, sem saúde não há<br />

bem~estar nem produtividade.<br />

Não há desenvolvimento.<br />

Feito o comentário, a resposta<br />

à questão colocada, mesmo simples,<br />

tem que ser vista, pelo menos,<br />

sob dois aspectos: um deles<br />

o da subida de custos determinada<br />

pelo próprio aperfeiçoamento<br />

do sistema e expectativas<br />

crescentemente exigentes que<br />

sobre ele têm os cidadãos e, um outro<br />

mais ligado ás questões da gestão<br />

do sistema que deve e tem que ser<br />

cada vez mais eficaz e eficiente.<br />

Para o primeiro dos aspectos e para<br />

a crescente pressão exercida sobre<br />

o sistema, a questão é política.<br />

Face ao crescente grau de prioridade<br />

que a saúde representa para os<br />

portugueses, de acordo com os mais<br />

recentes inquéritos de opinião,<br />

a sua importância é incontornável<br />

e haverá tendência, para quem não<br />

fizer política com verdade, para tudo<br />

prometer. Populismo e demagogia<br />

encontram aqui terreno fértil.<br />

Mas isto significa, também,<br />

que face ao crescente volume<br />

de recursos que tem que ser afecto<br />

ao sector, as escolhas e as opções<br />

devem ser sempre precedidas de<br />

amplos e participados debates que<br />

permitam o envolvimento das pessoas<br />

e das entidades interessadas.<br />

Quanto ao segundo dos aspectos,<br />

este é um campo em que as técnicas<br />

de gestão devem cruzar~se com as<br />

especificidades do sector.<br />

Quero eu dizer com isto que<br />

as primeiras não são suficientes,<br />

porque nem sempre têm aplicação<br />

directa pelos efeitos adversos<br />

que provocariam e terão sempre<br />

que ser ponderadas com os critérios<br />

ajustados à adequada execução<br />

de uma política de saúde pautada,<br />

necessariamente, em meu entender,<br />

por critérios de qualidade, eficácia,<br />

eficiência e equidade.<br />

2<br />

A flexibilização anunciada que<br />

parte do princípio de que público<br />

e privado é todo igual, é errada nos<br />

seus fundamentos e profundamente<br />

perigosa nas suas consequências,<br />

uma vez que não estamos a partir<br />

do zero mas sim de uma situação<br />

em que as capacidades instaladas<br />

nos sectores público e privado<br />

são profundamente diferentes<br />

e assimétricas em termos do País.<br />

Quanto aos fundamentos, enquanto<br />

o Serviço Nacional de Saúde visa<br />

objectivos de prestação de serviço<br />

público e, como tal, deve ser<br />

o instrumento de que o Estado dispõe<br />

para garantir a execução da política<br />

de saúde, o serviço privado pressupõe<br />

Não faz nenhum<br />

sentido que haja<br />

benefícios fiscais<br />

relativamente<br />

a seguros de saúde<br />

e depois não haja<br />

qualquer possibilidade ·<br />

prática de facturação<br />

. a terceiro responsável,<br />

quando for caso disso.<br />

o lucro como remuneração do capital<br />

investido. Tal não significa que não<br />

possam existir - até devem - contratos<br />

entre serviços públicos e privados mas,<br />

a serem financiados por dinheiros<br />

públicos, apenas para prosseguir os<br />

objectivos de política<br />

de saúde definidos.<br />

Por sua vez, o sector social, embora<br />

privado, tem natureza não lucrativa<br />

- aplica os proveitos no<br />

desenvolvimento da actividade<br />

que prossegue e não na remuneração<br />

de capital. Por isso lhe é reconhecido,<br />

normalmente, interesse público<br />

e o seu relacionamento com o Estado é<br />

feito através de acordos e protocolos e<br />

não contratos.<br />

Considerar que o financiamento<br />

deve ser igual para quem tem os<br />

ónus inerentes ao serviço público<br />

- assegurar a prestação de forma<br />

equilibrada , garantir a formação,<br />

pré e pós graduada e a investigação<br />

- e para quem não os temencontra<br />

ou abre serviços em função<br />

das expectativas ou da rentabilidade<br />

do "negócio,, - é profundamente<br />

errado.<br />

Pode trazer como consequência<br />

imediata a não rentabilização da<br />

capacidade instalada nas unidades<br />

públicas e o progressivo<br />

desmantelamento destas<br />

por subfinanciamento serrL a sua<br />

substituição possível por serviços<br />

de natureza privada que se guiam<br />

GESTÃO HOSPITALAR ffi


por critérios de natureza económica.<br />

Quando isto acontece, a médio<br />

e longo prazo arrasta sempre o Estado<br />

para a dependência, o que constituí<br />

um factor de pressão sobre os preços,<br />

pois o Estado não tem recurso<br />

alternativo nem defesa. Isto provoca,<br />

como é óbvio, a subida dos custos.<br />

É falso portanto, quando se invoca<br />

a privatização como medida<br />

racionalizadora.<br />

É importante não esquecer também<br />

que, no contexto actual, quando se<br />

retira a prestação da responsabilidade<br />

pública se abre o caminho para<br />

a sua integração no conceito de<br />

"mercado interno". O que significa<br />

que as prestações de saúde passam<br />

a ser regidas pelas regras aplicáveis<br />

a outros bens, designadamente<br />

as que se referem às aquisições de bens<br />

e serviços definidas e reguladas pelo<br />

direito comunitário.<br />

Considero que a orientação política<br />

anunciada é contrária ao artigo 64º<br />

da Constituição que assenta<br />

o exercício do direito à saúde<br />

num Serviço Nacional de Saúde, sem<br />

prejuízo deste articular com o sector<br />

privado e - acrescento eu - o sector<br />

social as prestações de cuidados de<br />

saúde que se integrem na execução<br />

da política de saúde.<br />

3<br />

A falha existe não na possibilidade<br />

de acumulação de funções públicas<br />

com funções privadas mas, sim,<br />

na possibilidade de acumulação de<br />

funções públicas com "convenções".<br />

Esta última determina a existência<br />

de dois vínculos de natureza diferente<br />

entre a mesma entidade patronal -<br />

o Serviço N acional de Saúde - e<br />

a mesma pessoa - funcionária pública<br />

e prestadora de serviços. Esta situação<br />

é geradora de incompatibilidades de<br />

natureza formal e material, altamente<br />

perniciosas para o sistema e para os<br />

trabalhadores. Defendo a existência<br />

de incompatibilidades acompanhada<br />

de um sistema remuneratório na<br />

Administração Pública que permeie<br />

o desempenho, que remunere de<br />

forma justa o serviço efectivamente<br />

prestado em termos de qualidade<br />

e quantidade, que evite o que<br />

hoje acontece de necessidade<br />

de acumulações várias. O diploma<br />

relativo à regulamentação<br />

das convenções que preparei e foi<br />

publicado contém, genericamente,<br />

o meu pensamento sobre esta matéria.<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

E<br />

~<br />

falso quando<br />

•<br />

se invoca<br />

a privatização<br />

como medida<br />

racionalizadora.<br />

4<br />

A legislação preparada e publicada<br />

durante o meu exercício de funções<br />

de Ministra da Saúde para os Centros<br />

de Saúde de 3ª Geração, associada<br />

à remuneração experimental para<br />

os médicos de família, a ter sido<br />

executada, asseguraria o objectivo<br />

enunciado de eficiência do sistema,<br />

juntamente com uma remuneração<br />

mais justa e virtuosa, porque estava<br />

construído de forma a assegurar o<br />

cumprimento dos objectivos de<br />

política de saúde. Deveria, pois,<br />

em meu entender ser posta em<br />

prática, pois garantia muito maior<br />

grau de satisfação aos cidadãos<br />

e aos profissionais, racionalizando<br />

a utilização do sistema.<br />

5<br />

Falta o essencial: definir o que se<br />

consideram ser cuidados de saúde<br />

"essenciais". O seu contrário, isto é,<br />

Um dos maiores erros<br />

políticos que se<br />

cometeu reiteradamente<br />

em Portugal é o de,<br />

em sectores onde<br />

é fundamental<br />

a estabilidade política,<br />

pois os resultados só<br />

são avaliáveis a longo<br />

prazo, tudo pretender<br />

mudar porque se<br />

privilegiam os<br />

protagonismos pessoais<br />

em detrimento do<br />

interesse público.<br />

o que não é essencial, é fácil definir,<br />

agora o que é ...<br />

Anúncios de carácter vago e genérico<br />

pretendem dar resposta a expectativas<br />

do sector comercial dos seguros mas<br />

não existem prenúncios de que ela<br />

seja clara. Os sinais são até de<br />

natureza contraditória e preocupantes.<br />

Nesta matéria é indispensável que haja<br />

cruzamento de informação. Não faz<br />

nenhum sentido que haja benefícios<br />

fiscais relativamente a seguros de<br />

saúde e depois não haja qualquer<br />

possibilidade prática de facturação a<br />

terceiro responsável, quando for caso<br />

disso. Para isso também servia e<br />

devia servia o cartão de utente!<br />

Evidentemente que se trata de matéria<br />

importante para a racionalização do<br />

sistema até pelo universo de pessoas<br />

que abrange, mas não estou a ver que<br />

sobre a matéria existam ideias claras<br />

e defensoras do interesse público,<br />

que é inegável nesta área.<br />

6<br />

As que consagrei nas experiências<br />

inovadoras de gestão do Hospital<br />

da Feira, da Unidade Local de Saúde<br />

de Matosinhos e a que deixei preparada<br />

para o Hospital do Barlavento<br />

Algarvio, cuja avaliação não deixa<br />

margem para dúvidas.<br />

Independentemente de outras<br />

alterações de natureza jurídica que<br />

se revelem necessárias para melhor<br />

cumprimento dos critérios de<br />

convergência impostos a nível da<br />

União Europeia, sempre considerei<br />

que era um imperativo, quase de<br />

"consciência", para o serviço público<br />

de saúde, face ao enorme volume de<br />

recursos públicos que lhe está afecto,<br />

contribuir para a modernização da<br />

Administração Pública em Portugal, o<br />

que podia fazer pela sua especificidade<br />

e pelo fino e porfiado trabalho<br />

desenvolvido, designadamente com<br />

os parceiros sociais e com grupos<br />

alargados de reflexão. Um dos maiores<br />

erros políticos que se cometeu<br />

reiteradamente em Portugal é o de,<br />

em sectores onde é fundamental a<br />

estabilidade política, pois os resultados<br />

só são avaliáveis a longo prazo,<br />

tudo pretender mudar porque se<br />

privilegiam os protagonismos pessoais<br />

em detrimento do interesse público.<br />

Grande parte do nosso atraso neste,<br />

como noutros domínios estruturantes<br />

para o País, dependem desta forma<br />

que considero profundamente errada<br />

de estar e de fazer política.


acional do medicamento, com<br />

ganhos significativos ao nível da<br />

saúde dos doentes e com economia de<br />

recursos.<br />

2<br />

Conforme referi, o SNS cumpriu<br />

a sua função durante muitos anos,<br />

mas atravessa actualmente uma crise<br />

que torna a mudança inevitável. Tem<br />

que haver coragem para assumir que o<br />

SNS, da forma como está estruturado,<br />

atingiu um ponto crítico.<br />

Entendo no entanto que num país<br />

como Portugal, o Sistema de Saúde<br />

tem de passar sempre por um serviço<br />

público com uma determinada<br />

dimensão. As medidas a adaptar<br />

não passam pela sua destruição,<br />

mas pelo seu reajustamento, criando<br />

oportunidades para o sector privado,<br />

que passam pela melhoria dos serviços<br />

prestados, independentemente se são<br />

entidades públicas, sociais ou privadas<br />

a prestá, los.<br />

O Estado para cumprir os preceitos<br />

constitucionais deve reforçar<br />

qualitativamente a sua função<br />

reguladora, garantido a qualidade da<br />

oferta em tempo útil, autonomizando<br />

a função prestadora.<br />

A oferta privada poderá ser<br />

desenvolvida e a concorrência com o<br />

sistema público poderá ser salutar e<br />

contribuir para a melhoria global da<br />

eficiência de todo o sistema de saúde.<br />

O Estado não deve ter complexos na<br />

celebração de acordos com entidades<br />

privadas mantendo o seu papel<br />

regulador e fiscalizador nessas áreas,<br />

podendo, nalguns casos, partilhar essas<br />

funções com as ordens profissionais.<br />

A Farmácia é um bom exemplo,<br />

com plena satisfação dos cidadãos, de<br />

como o sistema privado de dimensão<br />

adequada funciona bem em aliança<br />

com o sector público, neste caso<br />

em complementaridade e com custos<br />

baixos para o sistema de saúde.<br />

As soluções mistas podem conter<br />

virtualidades que devem ser<br />

exploradas, de acordo com as<br />

realidades regionais e a própria<br />

natureza das instituições. Não há uma<br />

solução única.Ao mesmo tempo, tem<br />

que se evitar rupturas que prejudiquem<br />

os cidadãos. O aspecto financeiro<br />

é também importante; se houver<br />

quem preste o mesmo serviço,<br />

com a mesma qualidade, a custos<br />

mais baixos e, possivelmente,<br />

em menor tempo, devem escolher,se<br />

as alternativas mais convenientes<br />

para o cidadão.<br />

~ GESTÃO HOSPITALAR<br />

Neste momento, não é ainda<br />

conhecida a proposta referenciada<br />

pelo que me parece difícil fazer juízos<br />

mais concretos sobre a mesma.<br />

3<br />

Este tem sido um dos factores<br />

geradores de ineficiência no<br />

Sistema de Saúde. A Ordem dos<br />

Farmacêuticos tem defendido desde<br />

sempre, por razões de transparência,<br />

a necessidade de separação clara<br />

entre o público e privado.<br />

O actual enquadramento legal<br />

já prevê esta situação, mas não foi<br />

tão longe como devia, uma vez<br />

que permite a existência de interesses<br />

privados misturados com interesses<br />

públicos. Tínhamos chamado<br />

a atenção para esta situação<br />

e o enquadramento actual das<br />

convenções não contribui para um<br />

sistema transparente.<br />

Consideramos fundamental<br />

a separação objectiva e clara<br />

dos interesses públicos dos interesses<br />

privados, pondo fim à promiscuidade<br />

(...) o SNS cumpriu<br />

a sua função<br />

durante<br />

muitos anos,<br />

mas atravessa<br />

actualmente<br />

•<br />

uma crise que<br />

torna a mudança<br />

inevitável.<br />

que é hoje um factor de ineficiência<br />

do próprio Sistema de Saúde.<br />

É, igualmente, imprescindível garantir<br />

ao doente a liberdade de escolha e<br />

acessibilidade aos cuidados de saúde,<br />

independentemente da sua situação<br />

económica. Só assim será possível<br />

pôr cobro a uma situação que enviesa<br />

o sistema e alcançar a tão desejada<br />

separação das águas.<br />

4<br />

Deve-se dar maior atenção,<br />

investir de forma mais acentuada<br />

nos cuidados primários de saúde.<br />

Há hoje muito mais recursos<br />

investidos nos hospitais do que<br />

nos cuidados primários.<br />

Esta situação tem de ser invertida.<br />

Tem de se afastar<br />

os doentes dos hospitais,<br />

aproximando a prestação<br />

dos cuidados à comunidade.<br />

Esta poderá ser entregue<br />

aos profissionais, médicos de família<br />

e outros especialistas, recorrendo<br />

à celebração de convenções<br />

e modelos de remuneração<br />

com estruturas flexíveis ajustáveis<br />

às diferentes situações.<br />

Desse modo, melhoramos<br />

a assistência, economizamos tempo<br />

e dinheiro, humanizamos a relação<br />

com o doente e contribuímos<br />

para pôr cobro à cultura<br />

da urgência hospitalar.<br />

A "hospitalização" dos cuidados<br />

primários, transformando os centros<br />

de saúde em verdadeiros hospitais,<br />

distanciando os doentes, é também<br />

uma tendência que nos preocupa.<br />

O exemplo das farmácias,<br />

quer pela sua acessibilidade,<br />

quer pela sua disponibilidade,<br />

é muito paradigmático.<br />

No entanto, estamos muito longe<br />

de aproveitar toda a capacidade<br />

técnica e competência do<br />

farmacêutico para melhorar o<br />

tratamento do doente.<br />

Existe massa crítica,<br />

infra,estruturas e uma rede<br />

de cuidados farmacêuticos<br />

que podem ser prestados<br />

em qualquer ponto do País.<br />

A grande necessidade é aproveitar<br />

o potencial que as farmácias têm<br />

e integrá,las melhor no Sistema de<br />

Saúde. Hoje, a Farmácia é uma porta<br />

de entrada do Sistema de Saúde<br />

que demonstra grande qualidade<br />

de serviços, tem uma boa imagem<br />

junto do cidadão e que não está<br />

devidamente aproveitada.<br />

Há um potencial enorme<br />

de prestação de serviços que<br />

não está a ser desenvolvido.<br />

O farmacêutico é hoje, até<br />

estatutariamente, um profissional<br />

de saúde que tem como objectivo<br />

a pessoa do doente. O farmacêutico<br />

está a deixar de ser só um especialista<br />

do medicamento e a tornar,se,<br />

cada vez mais, um especialista do<br />

medicamento que se preocupa com a<br />

sua boa utilização e com a sua ligação<br />

ao doente.<br />

Essa mudança na profissão tem s<br />

ido concretizada através de muitos<br />

projectos farmacêuticos, que<br />

demonstram a nossa capacidade<br />

1<br />

~<br />

..<br />

411:.<br />

•<br />

de intervir em áreas de promoção<br />

da saúde e prevenção da doença.<br />

Neste sentido, a evolução da rede<br />

de cuidados primários em Portugal<br />

deveria aproveitar melhor<br />

as competências do farmacêutico.<br />

O Sistema de Saúde e os programas<br />

do Ministério da Saúde,<br />

por apostarem muito na prevenção<br />

da doença e na promoção da saúde,<br />

deveriam tirar partido de toda esta<br />

rede de prestação de serviços,<br />

em que o Estado, sem abdicar<br />

dos seus poderes tutelares sobre<br />

o sector, confiaria aos farmacêuticos<br />

o exercício pleno da sua actividade<br />

profissional.<br />

5<br />

Acima de tudo, o sistema deve<br />

estar vocacionado para quem<br />

mais precisa. O objectivo é garantir<br />

a cada cidadão o acesso aos cuidados<br />

de saúde de que necessita<br />

com garantia da sua qualidade.<br />

A existência de outros sistemas<br />

ou subsistemas não é, no entanto,<br />

incompatível com este objecti vo.<br />

Enquanto o Estado não determinar<br />

um valor adequado para gastos<br />

com cada utente, continuar,se,á<br />

a desperdiçar recursos financeiros<br />

numa estrutura de serviços<br />

que esgota sucessivamente<br />

o orçamento para a saúde sem<br />

se responsabilizarem os que geram<br />

despesas desnecessárias<br />

e os que praticam formas de gestão<br />

ineficientes.<br />

6<br />

A gestão dos hospitais públicos<br />

tem sido comprometida<br />

por questões de ordem estrutural<br />

e conjuntural, muitas delas<br />

identificadas pela Ordem<br />

dos Farmacêuticos e confirmadas<br />

pela Inspecção Geral de Saúde.<br />

A ausência de informatização<br />

dos serviços, a ausência<br />

de sistemas de informação<br />

adequados e uniformizados<br />

a nível nacional e a morosidade<br />

na conclusão dos concursos<br />

centralizados no IGIF<br />

são algumas das situações<br />

que comprometem uma gestão<br />

equilibrada.<br />

A introdução de novas formas<br />

de gestão e controlo,<br />

com introdução de formas mais<br />

flexíveis de gestão e responsabilização<br />

dos gestores, poderá contribuir<br />

para alterar a situação. ~<br />

o<br />

a:<br />

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(9<br />

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comprovada falta de capacidade dos<br />

serviços públicos, se recorrer à oferta<br />

privada. O que não aceitamos é que<br />

alguns interesses floresçam à sombra<br />

da diminuição de capacidades dos<br />

serviços públicos e da consentida<br />

promiscuidade entre a prestação<br />

pública e a prestação privada.<br />

É por isso que não compreendemos<br />

que sistematicamente se comprem<br />

ao sector privado serviços que a<br />

prestação pública tem capacidade para<br />

assegurar, como o prova a "Carta de<br />

equipamentos hospitalares" elaborada<br />

há alguns anos, em relação, por<br />

exemplo, aos meios complementares<br />

de diagnóstico.<br />

Quanto aos medicamentos, e a par<br />

da resistência em instituir a prescrição<br />

pelo princípio activo, continua por<br />

explicar a recusa sistemática da<br />

proposta, já apresentada pelo PCP,<br />

de dispensar nas urgências e consultas<br />

externas dos hospitais os<br />

medicamentos cujo custo seja aí<br />

mais baixo do que o montante pago<br />

como comparticipação n as farmácias<br />

comerciais.<br />

2<br />

A livre circulação dos doentes,<br />

ou, noutra versão, a liberdade<br />

de escolha do utente, é um<br />

eufemismo criado pela doutrina<br />

neo-liberal para esconder uma<br />

política que tenciona remeter<br />

o Estado e a prestação de cuidados<br />

por entidades públicas, para um<br />

papel meramente financiador<br />

e aparentemente regulador.<br />

Na saúde como em outras áreas, o<br />

que há de fundamental a garantir<br />

e defender é o direito à saúde<br />

de todos os cidadãos em condições<br />

de igualdade. Ora uma lógica que<br />

assente no predomínio do<br />

funcionamento do mercado em<br />

detrimento de uma forte intervenção<br />

do Estado na prestação de cuidados<br />

(que ainda assim deixará sempre<br />

espaço suficiente para outros<br />

sectores), acaba por deixar<br />

subordinada aos naturais interesses<br />

lucrativos dos privados a garantia dos<br />

cuidados de saúde aos cidadãos.<br />

E nem no que toca a uma aparente<br />

reserva da função reguladora para<br />

o Estado estariam com esta política<br />

garantidos os requisitos mínimos,<br />

uma vez que, sem capacidade<br />

produtiva suficiente, o Estado ficaria<br />

à mercê dos ditames dos interesses<br />

privados e da mão bem visível do<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

mercado. Atente-se aliás no exemplo<br />

da hemodiálise onde o "mercado"<br />

impôs há uns anos um aumento<br />

dos montantes pagos pelo Estado<br />

ameaçando com a recusa de receber<br />

novos doentes, o que, face à<br />

insuficiente rede pública, não deixou<br />

qualquer alternativa ao governo de<br />

então.<br />

Tal política encobre portanto uma<br />

estratégia deliberada de privatização<br />

da prestação de cuidados e a clara<br />

intenção de aumentar o mercado<br />

disponível para os privados.<br />

Quanto à tabela de preços, veremos<br />

em que termos será elaborada e<br />

como serão contabilizados os custos<br />

públicos, designadamente aqueles<br />

que não são dispensáveis e que<br />

nunca serão atribuídos aos privados.<br />

(...) continua por<br />

explicar a recusa<br />

sistemática<br />

da proposta, já<br />

apresentada pelo<br />

PCP, de dispensar<br />

A<br />

•<br />

nas urgencias<br />

e consultas externas<br />

dos hospitais<br />

os medicamentos<br />

. . ,<br />

cu10 custo se1a ai<br />

mais baixo do que<br />

o montante pago como<br />

comparticipação nas<br />

farmácias comerciais.<br />

Veremos também se não serão<br />

cirurgicamente seleccionadas as áreas<br />

com maior potencial lucrativo,<br />

menos riscos e custos para a<br />

implementação da anunciada tabela<br />

e consequente benefício do sector<br />

privado.<br />

Importa ainda, para finalizar, dizer<br />

que experiências de outros países<br />

estão longe de provar que este<br />

caminho signifique poupança para<br />

a despesa pública e muito menos<br />

melhoria de cuidados para os utentes,<br />

pelo menos a médio e longo prazo.<br />

A promiscuidade entre a prestação<br />

3 pública e a privada de cuidados<br />

de saúde é uma das principais razões<br />

da ineficiência dos serviços públicos e<br />

do aumento de gastos com a compra<br />

de serviços aos privados sem esgotar a<br />

capacidade pública instalada.<br />

O tímido regime de<br />

incompatibilidades aprovado pelo 1 º<br />

governo do PS foi mesmo assim<br />

escassamente respeitado. É<br />

inexplicável que continue a ser<br />

possível prestar cuidados de saúde em<br />

regime privado dentro dos próprios<br />

hospitais públicos, o que constitui<br />

inevitavelmente terreno fértil para<br />

abusos e promiscuidades.<br />

Precisamos de um regime de<br />

separação da prestação pública da<br />

privada que caminhe para a<br />

exclusividade dos profissionais. Tal<br />

objectivo só pode ser atingido através<br />

do estabelecimento de regras eficazes<br />

de separação, do aumento da<br />

formação de profissionais em áreas<br />

carenciadas, e de uma fiscalização<br />

férrea e independente.<br />

Entretanto há que acautelar a forma<br />

de proceder a esta separação<br />

completa. Em algumas áreas e<br />

especialidades mais carenciadas de<br />

profissionais e onde a acumulação de<br />

funções públicas e privadas é mais<br />

frequente, a imposição da opção pela<br />

exclusividade de forma imediata e<br />

sem a criação de condições para<br />

a existência de mais profissionais,<br />

como alguns defendem, conduziria<br />

a uma imediata e dificilmente<br />

reversível falta de resposta pública<br />

e à consequente privatização<br />

da prestação dos cuidados<br />

nessas áreas.<br />

4<br />

É lugar comum defender-se a<br />

prioridade aos cuidados primários<br />

de saúde como vector fundamental<br />

de uma política de saúde. Contudo<br />

a prática tem diferido muito de tais<br />

declarações de intenções. Quer ao<br />

nível do investimento em instalações<br />

e equipamentos, quer no que diz<br />

respeito aos recursos humanos, os<br />

cuidados primários estão de tal forma<br />

depauperados que limitam<br />

decisivamente a prestação na escala<br />

necessária de cu idadas personalizados,<br />

de proximidade e em certas situações<br />

põem até em risco as necessidades<br />

básicas de cuidados de saúde.<br />

É decisiva uma intervenção que<br />

aumente o investimento nesta área,<br />

•<br />

priorize - no quadro de um<br />

indispensável aumento geral de<br />

recursos humanos - a área dos<br />

cuidados primários, aumente a<br />

capacidade de gestão própria e<br />

autónoma dos centros de saúde,<br />

mantenha e aumente os incentivos<br />

aos profissionais e à sua produtividade<br />

e garanta a articulação vantajosa<br />

com as unidades hospitalares.<br />

Este caminho não se faz privatizando<br />

a prestação de cuidados, mesmo que<br />

numa primeira fase para pequenas<br />

e médias empresas de profissionais<br />

de saúde que, para além de tenderem<br />

a funcionar menos integradas no<br />

restante sistema de saúde, dificilmente<br />

resistem à concentração a médio<br />

prazo nas mãos de grandes grupos<br />

económicos, que acabam<br />

por cartelizar o funcionamento<br />

do mercado. Assim nos mostra<br />

a experiência de outros países.<br />

5<br />

O programa de governo faz vista<br />

grossa ao texto constitucional,<br />

onde se garante a universalidade<br />

do Serviço Nacional de Saúde.<br />

É o regresso da política do "pacote<br />

mínimo" já avançada pelo último<br />

governo do PS. É útil lembrar aliás<br />

que na última revisão constitucional<br />

ordinária (1997) a grande discussão<br />

no que diz respeito ao artigo referente<br />

ao "direito à saúde" foi entre a<br />

proposta de PSD e CDS/PP, que não<br />

vingou, de introduzir a referência<br />

a "Sistema de saúde", em detrimento<br />

da referência ao Serviço Nacional<br />

de Saúde como vector estruturante.<br />

O texto actual não significa que não<br />

se reconheça a existência de sectores<br />

Contracapa<br />

O programa<br />

de governo faz vista<br />

grossa ao texto<br />

constitucional,<br />

onde se garante<br />

a universalidade<br />

do Serviço Nacional<br />

de Saúde.<br />

não públicos, mas sim que é ao SNS<br />

que cabe assegurar cuidados de saúde<br />

gerais, universais e tendencialmente<br />

gratuitos. O que agora se vislumbra<br />

nas intenções do governo é<br />

a tentativa de abrir espaço para<br />

os privados e reduzir o âmbito de<br />

influência do SNS, remetendo-o para<br />

uma versão reduzida de intervenção<br />

assistencialista destinada àqueles que<br />

não podem aceder a outros sistemas.<br />

6<br />

Manda a justiça que se lembre<br />

que algumas das forças partidárias<br />

que agora reclamam por melhores<br />

regras de gestão foram quem instituiu<br />

e manteve as que hoje existem.<br />

Não está escrito em nenhum<br />

mandamento da gestão pública que<br />

as suas regras têm de ser ineficazes<br />

e pouco adequadas às necessidades.<br />

Senão vejamos. O que impede<br />

o estabelecimento de regras em<br />

relação às compras que permitam<br />

uma melhor defesa do interesse<br />

público, e uma maior agilidade<br />

Cores<br />

€2000<br />

Verso de capa<br />

e contracapa €1500<br />

Página<br />

1 /2 Página<br />

1 /4 Página<br />

ou rodapé<br />

€7000<br />

€600<br />

€300<br />

e rapidez, mesmo mantendo a<br />

necessária segurança e transparência<br />

dos procedimentos públicos? E não é<br />

verdade que um dos entraves à boa<br />

gestão mais geradores de despesismo<br />

nas aquisições,<br />

é o crónico subfinanciamento das<br />

instituições, que as obriga a pagar<br />

preços que incorporam_ à cabeça<br />

um acréscimo proporcional ao atraso<br />

com que a despesa irá ser paga?<br />

E no que toca ao pessoal não<br />

são o congelamento das vagas nos<br />

quadros e a escassa formação de<br />

profissionais os maiores entraves<br />

à política de recursos humanos?<br />

E a falta de responsabilização da<br />

gestão, alicerçada num sistema de<br />

nomeação que privilegia critérios<br />

partidários<br />

e não de competência não tem sido<br />

a raiz de muitos problemas?<br />

Propomos um modelo em que a<br />

gestão seja escolhida por concurso<br />

de entre equipas de profissionais do<br />

SNS, com um programa concreto<br />

a que se obrigam e que é fiscalizável<br />

a todo o tempo; em que o sistema<br />

local de saúde e portanto<br />

a articulação entre os diferentes<br />

níveis de cuidados seja pedra basilar;<br />

em que a contratação de pessoal<br />

se faça em função das necessidades,<br />

da programação de actividade<br />

e dos recursos existentes,<br />

mas esteja na disponibilidade<br />

das instituições e salvaguarde<br />

o regime de emprego público como<br />

regra (e não o contrato individual<br />

de trabalho); em que os mecanismos<br />

jurídicos de gestão sejam adequados<br />

e eficientes.


Nova Lei de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />

Em 26 de ] unho o Governo apresen tou à Assembleia da<br />

República um projecto de Lei com vista à alteração do<br />

regime juridico da gestão hospitalar, entretanto aprovado<br />

na generalidade.<br />

Dadas as importantes alterações introduzidas - que<br />

implicaram, inclusivamente, ajustamentos na Lei de Bases<br />

da Saúde - "G.H ." publica, na integra, o texto aprovado<br />

e a apreciação geral que a Direcção da A PAH elaborou<br />

e deixou aos diferentes grupos parlamentares na audição<br />

pública realizada no dia 2 de] ulho na Comissão<br />

Parlamen tar do Trabalho e Assuntos Sociais.<br />

_,proP.osta de Lei ~"º 15LIX ~<br />

N os termos da alínea d ) do nº 1 do artigo 197º .<br />

da Constituição, o Governo apresenta à A ssembleia<br />

da República, a seguinte Proposta de Lei, para ser<br />

aprovada, com pedido de prioridade e urgência:<br />

Artigo 1º<br />

(Alterações)<br />

São alteradas as Bases XXXI e XXXIII da Lei n. º 48/90, de<br />

24 de Agosto, que passam a ter a seguinte redacção:<br />

"a) Base XXXI - Estatuto dos profissionais de saúde do<br />

Serviço Nacional de Saúde (alteração)<br />

l. Os profissionais de saúde que trabalham no Serviço<br />

N acional de Saúde estão submetidos às regras próprias<br />

da Administração Pública e podem constituir-se em<br />

corpos especiais, podendo ser alargado o regime laboral<br />

aplicável, de futuro, à Lei do Contrato Individual de<br />

Trabalho.<br />

b) Base XXXIII - Financiamento (alteração)<br />

2.<br />

h)- O pagamen to dos actos e actividades efectivamente<br />

realizados através .de uma classificação de actos<br />

médicos, técnicas e serviços de saúde, a consagrar numa<br />

tabela de preços de referéncia."<br />

Artigo 2º<br />

(<strong>Gestão</strong> hospitalar)<br />

É aprovado o regime jurídico da gestão hospitalar, o qual<br />

consta em anexo ao presente diploma .. e do qual faz parte<br />

integrante.<br />

Artigo 3º<br />

(Disposição Transitória)<br />

Até à publicação da regulamentação prevista no presente<br />

diploma mantém-se em vigor o Decreto Regulamentar nº<br />

3/88, de 22 de Janeiro.<br />

Artigo 4º<br />

(Norma Revogatória)<br />

É revogado o Decreto-Lei nº 19/88, de 21 de Janeiro.<br />

Artigo 5. 0<br />

(Entrada em Vigor)<br />

O presente diploma entra em vigor no prazo de 60 dias<br />

após a publicação.<br />

Visto e aprovado em Conselho de Ministros de 27 de Junho de <strong>2002</strong><br />

O Primeiro-Ministro<br />

O Ministro dos Assuntos Parlamentares<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

Regime Jurídico<br />

.. ,, .. ""''·,··"'~'···"~ ....... da < <strong>Gestão</strong> ·' lrlosgit~ .lat ··· ··· · .<br />

Capítulo J, Disposições Gerais<br />

Artigo 1 º<br />

(Âmbito)<br />

1. O presente diploma aplica-se aos hospitais integrados na Rede<br />

de Prestação de Cuidados de Saúde.<br />

2. A Rede de Prestação de Cuidados de Saúde abrange<br />

os estabelecimentos do Serviço N acional de Saúde (SNS),<br />

os estabelecimentos privados que prestem cuidados e outros serviços<br />

de saúde aos utentes do SNS nos termos de contratos celebrados<br />

ao abrigo do disposto no Capitulo IV e os profissionais em regime<br />

liberal com quem sejam celebrados contratos.<br />

Artigo 2º<br />

(Natureza Jurídica)<br />

1. O s hospitais integrados na Rede de Prestação de Cuidados<br />

de Saúde podem revestir urna das seguintes figuras jurídicas:<br />

a) Estabelecimentos públicos, dotados de person alidade<br />

jurídica, autonomia administrativa e financeira, com ou sem<br />

autonomia patrimonial;<br />

b) Estabelecimento públicos, dotados de personalidade<br />

jurídica, autonomia administrativa, financeira e patrimonial<br />

e natureza empresarial;<br />

c ) Sociedades anónimas de capitais exclusivamente públicos;<br />

d) Estabelecimento privados com ou sem. fins lucrativos<br />

com quem sejam celebrados contratos, nos termos<br />

do nº 2 do artigo anterior.<br />

2. O disposto no número anterior não prejudica a gestão<br />

de instituições e serviços do SN S por outras entidades,<br />

públicas ou privadas, mediante contrato de gestão<br />

ou a grupos de médicos em regime de convenção, nos termos<br />

do Estatuto do SNS.<br />

Artigo 3º<br />

(Exercício da Actividade)<br />

1. A capacidade jurídica dos hospitais abrange todos os direitos<br />

e obrigações necessários à prossecução dos seus fins.<br />

2. O exercício da actividade hospitalar pelas entidades referidas<br />

na alínea d ) do n º 1 do artigo anterior está sujeito a licenciamen to<br />

prévio, nos termos da legislação aplicável.<br />

Artigo 4º<br />

(Princípios Gerais na Prestação de Cuidados de Saúde)<br />

N a prestação de cuidados de saúde observam-se os seguintes princípios<br />

gerais:<br />

a)- Liberdade de escolha do estabelecimento hospitalar,<br />

em articulação com a rede de cuidados de saúde primários;<br />

b)- Prestação de cuidados de saúde, com humanidade<br />

e respeito pelos uten tes;<br />

Atendimento de qualidade, com eficácia e em tempo<br />

útil aos utentes;<br />

d )- C umprimento das normas de ética e deontologia<br />

profissionais.<br />

Artigo 5º<br />

(Princípios Específicos da G estão <strong>Hospitalar</strong>)<br />

Os H ospitais devem pautar a respectiva gestão pelos seguintes princípios:<br />

a)- Desenvolvimento da actividade de acordo com<br />

instrumen tos de gestão provisional, designadamente planos<br />

de actividade, anuais e plurianuais,<br />

orçamen tos e outros;<br />

b)- Garan tia aos uten tes da prestação de cuidados<br />

de saúde com um controlo rigoroso dos recursos;<br />

c)- Desenvolvimento de uma gestão criteriosa no respeito<br />

pelo cumprimento dos objectivos definidos<br />

pelo Ministro da Saúde;<br />

d)- Financiamen to das suas actividades em função da<br />

valorização dos actos e serviços efectivamente prestados,<br />

tendo por base a tabela de preços e os acordos<br />

que se encontrem em vigor no Serviço N acional de Saúde;<br />

e)- Promoção da articulação funcional da Rede<br />

de Prestação de Cuidados de Saúde;<br />

f)- A plicação do Plan o O ficial de Contas do Ministério da Saúde.<br />

Artigo 6º<br />

(Tutela)<br />

1. O Ministro da Saúde exerce em relação aos hospitais integrados<br />

na Rede de Prestação de Cuidados de Saúde,<br />

os seguintes poderes:<br />

a)- Definir as normas e critérios de actuação hospitalar;<br />

b)- Fixar as directrizes a que devem obedecer os planos<br />

e programas de acção, bem como a avaliação<br />

da qualidade dos resultados obtidos nos cuidados<br />

prestados à população;<br />

c)- Exigir todas as informações julgadas necessárias<br />

ao acompanhamento da actividade dos hospitais;<br />

d)- Determinar auditorias e inspeçções ao<br />

seu funcionamento, nos termos da legislação aplicável.<br />

2. Os hospitais devem facultar ao Ministro da Saúde,<br />

sem prejuízo da prestação de outras informações<br />

legalmente exigíveis, os seguintes elementos, visando<br />

o seu acompanhamento e controlo:<br />

a)- Os documentos oficiais de prestação de con tas,<br />

confo rme definido no Plano O ficial de Contas<br />

do Ministério da Saúde;<br />

b)- Informação periódica de gestão sobre a actividade<br />

prestada e respectivos indicadores.<br />

Artigo 7º<br />

(Órgãos)<br />

Os hospitais integrados na Rede de Prestação de Cuidados de Saúde<br />

compreendem órgãos de administração, de fiscalização,<br />

de apoio técnico e de consulta.<br />

Artigo 8º<br />

(Informação Pública)<br />

O Ministério da Saúde divulga, anualmente, um relatório<br />

com os resultados da avaliação dos hospitais que integram<br />

a Rede de Prestação de Cuidados de Saúde mediante um conjunto<br />

de indicadores que evidencie o seu desempenho e eficiência.<br />

Capitulo II ~Hospitais do Sector Público Administrativo (SPA)<br />

Secção 1, Estabelecimentos Públicos<br />

Artigo 9º<br />

(Regime aplicável)<br />

1. Os h ospitais previstos na alínea a) do n º 1 do artigo 2º regem-se<br />

pelas normas do Capítulo I, pelo presente Capítulo, pelas normas<br />

do SN S, pelos regulamentos internos e, subsidiariamente,<br />

pelas normas aplicáveis ao Sector Público Administrativo.<br />

2. A atribuição da natureza jurídica referida no número anterior<br />

a hospitais integrados n a Rede de Prestação de Cuidados de Saúde<br />

efectua-se mediante, diploma próprio do Governo.<br />

Artigo 10º<br />

(Princípios Específicos da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong> do SPA)<br />

1. A gestão dos hospitais abrangidos pelo nº 1 do artigo 9º observa<br />

os seguintes princípios específicos:<br />

a)- Garantia da eficiente utilização da capacidade<br />

instalada, designadamente pelo pleno aproveitamento<br />

dos equipamentos e infra-estruturas existentes e pela<br />

diversificação do regime de horário de trabalho,<br />

de modo a alcançar uma taxa óptima da utilização<br />

dos recursos disponíveis;<br />

b )- Elaboração de planos anuais e plurianuais e<br />

celebração de contratos-programa com a Administração<br />

Regional de Saúde (ARS) respectiva, de acordo<br />

com o princípio contido na alínea d) do artigo 5º,<br />

nos quais sejam definidos os objectivos a atingir e acordados<br />

com a tutela, e os indicadores de actividade que permitam<br />

aferir o desempenho das respect ivas unidades e equipas<br />

de gestão;<br />

c)- Avaliação dos titulares dos órgãos de administração,<br />

dos directores dos departamen tos e de serviços e dos restantes<br />

profiss ionais, de acordo com o mérito do seu desempenh o,<br />

sendo este aferido pela eficiência demonstrada na gestão<br />

dos recursos e pela qualidade dos cuidados prestados<br />

aos utentes;<br />

d)- Promoção de um sistema de incentivos<br />

com o objectivo de apoiar e estimular o desempenho<br />

dos profissionais envolvidos, com base nos ganhos<br />

de eficiência conseguidos, incentivos que se traduzem<br />

na melhoria das condições de trabalho, na participação<br />

em acções de formação e estágios, no apoio<br />

à investigação e em prémios de desempenho;<br />

e)- A rticulação das funções essenciais da prestação<br />

de cuidados e de gestão dos recursos em torno dos directores<br />

de departamento e de serviço, sendo-lhes reconhecido,<br />

sem prejuízo das competências dos órgãos de administração,<br />

autonomia na organização do trabalho e os correspondentes<br />

poderes de direcção e disciplinar sobre todo o pessoal<br />

que integra o seu departamento ou serviço,<br />

independen temente da sua carreira ou categoria profissional;<br />

f) - Nos casos em que a garantia da satisfação dos utentes<br />

de acordo com padrões de qualidade e a preços<br />

competitivos o justifique, a possibilidade de cessão<br />

de exploração ou subtratação, nos termos da alínea g)<br />

do artigo 12 º, de um centro de responsabilidade,<br />

ou de um serviço de acção médica, a grupos de profissionais<br />

de saúde ou a entidades públicas ou privadas<br />

que demon strem capacidade e competência técnicas.<br />

2º Os directores de departamento e de serviço respondem perante<br />

os conselhos de administração dos respectivos<br />

hospitais, que fixam os objectivos e os meios necessários para os atingir<br />

e definem os mecanismos de avaliação periódica.<br />

3º A s comissões de serviço dos directores de departamento<br />

e de serviço, para além das situações previstas no artigo 43º<br />

do Decreto-Lei nº 73/90, de 6 de Março, podem ainda<br />

ser dadas por findas, a todo o tempo, pelo respectivo conselho<br />

de administração, em resultado do incumprimento dos objectivos<br />

previamente definidos.<br />

Artigo 11 º<br />

(Organização Interna)<br />

1. A estrutura orgânica dos hospitais, bem como a composição,<br />

competências e funcionamento dos órgãos hospitalares, constam<br />

de regulamento a aprovar por diploma próprio do Governo.<br />

2. Os hospitais dispõem de um regulamen to in terno,<br />

aprovado nos termos definidos pelo diploma a que se refere<br />

o n úmero anterior.<br />

3. Para a prossecução dos princípios definidos no artigo anterior,<br />

os hospitais devem organizar-se e desenvolver<br />

a sua acção por centros de responsabilidade e de custos.<br />

GESTÃO HOSPITALAR ffi


Artigo 12º<br />

(Tutela Específica)<br />

1. Para além das competências referidas no artigo 6Q compete ainda<br />

ao Ministro da Saúde, com faculdade de delegação na ARS:<br />

a)- Aprovar os planos de actividade e financeiros plurianuais;<br />

b)- Aprovar os planos de actividade e os orçamentos<br />

de exploração e investimento anuais, bem como as respectivas<br />

alterações;<br />

c)- Aprovar os documentos de prestação de contas;<br />

d)- Aprovar as tabelas de preços a cobrar nos casos previstos na lei;<br />

e)- Homologar os contratos-programa;<br />

f)- Autorizar os contratos de cessão de exploração<br />

ou sub-contratações previstas na alínea f) do artigo lOQ;<br />

g)- Criar, extinguir ou modificar departamentos,<br />

serviços e unidades hospitalares.<br />

2. Compete aos Ministros das Finanças e da Saúde:<br />

a)- Autorizar, nos termos da lei e nos limites das suas<br />

competências, a compra ou alienação de imóveis;<br />

b)- Definir, os parâmetros da negociação a incluir<br />

nos instrumentos de regulamentação colectiva.<br />

Artigo 13º<br />

(Receitas dos Hospitais)<br />

Constituem receitas dos hospitais:<br />

a)- As dotações do orçamento do Estado produto<br />

dos contratos-programa, previstos na alínea b)<br />

do nº 1 do artigo 10º;<br />

b)- O pagamento de serviços prestados a terceiros<br />

nos termos da legislação em vigor e dos acordos e tabelas<br />

aprovados, bem como as taxas moderadoras;<br />

c)- Outras dotações, comparticipações e subsídios<br />

do Estado ou de outras entidades;<br />

d)- O rendimento de bens próprios;<br />

e)- O produto da alienação de bens próprios<br />

e da constituição de direitos, sobre os mesmos;<br />

f)- As doações, heranças ou legados;<br />

g)- Quaisquer outros rendimentos ou valores<br />

que resultem da sua actividade ou que, por lei ou contrato,<br />

lhe devam pertencer.<br />

Artigo 14º<br />

(Pessoal)<br />

1. Os funcionários e agentes da Administração Pública que prestam<br />

serviço nos hospitais à data da entrada em vigor do presente<br />

diploma, regem-se pelas normas gerais aplicáveis, de acordo<br />

com o disposto na Base XXXI da Lei n.º 48/90, de 24 de Agosto.<br />

2. A admissão de pessoal pelos hospitais, apó's a entrada<br />

em vigor do presente diploma, pode reger-se, de acordo<br />

com os princípios da publicidade, da igualdade,<br />

da proporcionalidade e da prossecução do interesse público,<br />

pelas normas aplicáveis ao contrato individual de trabalho.<br />

3. Exceptua-se do disposto no número anterior, o pessoal<br />

em formação que esteja ou venha a ser contratado,<br />

para esse fim, ao qual se aplica o contrato administrativo<br />

de provimento.<br />

4. Ao pessoal com relação jurídica de emprego público<br />

que opte pelo regime de contratação individual de trabalho<br />

é aplicável o disposto nos artigos 21 º e 22 Q do Estatuto<br />

do Serviço Nacional de Saúde, aprovado pelo Decreto-Lei nQ 11/93,<br />

de 15 de Janeiro.<br />

Artigo 15º<br />

(Hospitais com Ensino e Investigação)<br />

Sem prejuízo da aplicação do presente diploma aos hospitais com<br />

ensino médico, pré e pós graduado, e de investigação científica,<br />

os mesmos são objecto de diploma próprio quanto aos aspectos<br />

relacionados com a interligação<br />

entre o exercício médico e as actividades da formação e<br />

da investigação, no domínio do ensino da profissão médica.<br />

Artigo 16º<br />

(Acordos com Entidades Privadas)<br />

Mediante autorização do Ministro da Saúde, os hospitais podem<br />

associar-se e celebrar acordos com entidades<br />

privadas que visem a prestação de cuidados de saúde,<br />

com o objectivo de optirnizar os recursos disponíveis.<br />

Artigo 17º<br />

(Grupos e Centros <strong>Hospitalar</strong>es)<br />

1. Aos centros hospitalares aplica-se uma única estrutura de órgãos<br />

nos termos previstos neste diploma.<br />

2. Cada estabelecimento hospitalar integrado em grupo hospitalar<br />

pode ter urna estrutura de órgãos própria, nos termos previstos no<br />

presente diploma.<br />

Secção II , Estabelecimentos Públicos<br />

com natureza Empresarial<br />

Artigo 18º<br />

(Regime Aplicável)<br />

1. Os hospitais previstos na alínea b) do nQ 1 do artigo 2º,<br />

regem-se pelo respectivo diploma de criação, pelos seus<br />

regulamentos internos, pelas normas em vigor para os hospitais<br />

do SNS que não sejam incompatíveis com a sua natureza jurídica e,<br />

subsidiariarnente, pelo regime jurídico geral aplicável<br />

às entidades públicas empresariais, não estando sujeitos às normas<br />

aplicáveis aos institutos públicos que revistam a natureza de serviços<br />

personalizados ou de fundos autónomos.<br />

2. O disposto no número anterior não prejudica<br />

o cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />

3. Os hospitais que revistam a natureza jurídica de<br />

estabelecimentos públicos, dotados de personalidade jurídica,<br />

autonomia administrativa, financeira e patrimonial<br />

e natureza empresari al constam de diploma próprio.<br />

Capítulo III, Sociedades Anónimas de Capitais Públicos<br />

Artigo 19º<br />

(Regime)<br />

l. Os hospitais previstos na alínea c) do nº 1 do artigo 2º,<br />

regem-se pelo disposto nos respectivos diplomas<br />

de criação, onde constam os estatutos necessários ao seu<br />

funcionamento e, subsidiaramente, pela lei geral aplicável.<br />

2. O disposto no número anterior não prejudica<br />

o cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />

4. Os poderes de tutela económica e financeira dos<br />

hospitais integrados no presente Capítulo, bem como<br />

o exercício da função accionista do Estado são exercidos<br />

pelos Ministros das Finanças e da Saüde, nos termos a definir<br />

nos respectivos diplomas de criação.<br />

Capítulo IV, Estabelecimentos Privados<br />

Artigo 20º<br />

(Regime)<br />

1. Os hospitais previstos na alínea d) do n º 1 do artigo 2 º<br />

regem-se:<br />

a)- No caso de revestirem a natureza de entidades<br />

privadas com fins lucrativos, pelos respectivos estatutos<br />

e pelas disposições do Código das Sociedades Comerciais;<br />

b)- No caso de revestirem a natureza de entidades privadas<br />

sem fins lucrativos regem-se pelo disposto nos<br />

respectivos diplomas orgânicos e, subsidiariamente,<br />

pela lei geral aplicável.<br />

2. O disposto no número anterior não prejudica o<br />

cumprimento das disposições gerais constantes do Capítulo 1.<br />

IA proposta de Lei do Governo sobre <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />

e designadamente o regime jurídico de <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong><br />

que lhe está anexado, parece assentar num conjunto<br />

de princípios ajustados e oportunos, face aos problemas<br />

consensualmente diagnosticados na actividade dos hospitais<br />

públicos. Destacaríamos, neste contexto, os seguintes princípios:<br />

•A promoção do mérito no desempenho e o Sistema<br />

de Incentivos;<br />

• O Contrato Individual de Trabalho como possibilidade<br />

para as futuras contratações e como opção para os actuais<br />

funcionários;<br />

• O financiamento pela produção.<br />

Quanto ao contrato individual de trabalho, importa reflectir<br />

sobre o futuro das carreiras, cuja transformação radical se<br />

impõe, mas cuja existência, como instrumento de regulação de<br />

competências e estímulo à formação é indispensável.<br />

Diga-se, a propósito, que estranhamos a ausência de referência às<br />

regras de aquisição de bens e serviços, normalmente associadas às<br />

reformas propostas para o estatuto jurídico dos hospitais e de vital<br />

importância para a agilização das compras, obtenção de melhores<br />

preços e incremento na qualidade do aprovisionamento.<br />

Merece-nos particular atenção o modelo do financiamento<br />

2 hospitalar referido, pese embora a generalidade das<br />

disposições propostas. O programa do Governo prevê já a criação<br />

de uma tabela de preços de aplicação universal, que nos suscita<br />

várias preocupações e que agora, com a presente proposta, se<br />

avolumam. Em todos os sistemas de saúde se evolui para formas<br />

de pagamento compreensivas, centradas no doente e não em<br />

actos avulsos desligados do seu objecto. É aliás esta a perspectiva<br />

defendida por todos os especialistas mundiais, e o caminho que<br />

em Portugal fomos percorrendo a partir da década de 80, com os<br />

G.D.H. e, mais recentemente, com os G.D.A.<br />

A criação de uma tabela de actos como base de pagamento,<br />

toma o sistema de financiamento mais aleatório e irracional,<br />

com clara tendência para a multiplicação de actos e consequente<br />

crescimento de gastos. Poderá ser, objectivamente, um retrocesso<br />

de consequências imprevisíveis.<br />

A liberdade de escolha do estabelecimento hospitalar por parte<br />

3 do utente é à partida um bom princípio, desde que sujeita<br />

a uma orientação clínica centrada no médico-assistente (médico<br />

de família). Mas é particularmente delicado observar essa regra<br />

num contexto em que se admite que a escolha se pode vir a<br />

fazer entre instituições públicas, privadas e sociais, conforme se<br />

refere no programa do Governo. O princípio que se quer consagrar,<br />

de que o dinheiro segue o doente, deve ser condicionado a<br />

certos pressupostos de regulação e controlo que, designadamente,<br />

impeçam o agendamento de doentes, situação para a qual o duplo<br />

emprego médico é mecanismo fortemente facilitador.<br />

Cumpre referir, a propósito, que a base XXXI da lei de Bases<br />

da Saúde, no seu nº 3 (matéria não objecto de proposta de<br />

alteração) refere que não poderá resultar nenhum encargo para o<br />

SNS, pelo exercício dos "seus" profissionais de saúde, em regime<br />

privado. O presente projecto de diploma, inserido num contexto<br />

de financiamento público de prestações privadas, sem excluir<br />

profissionais em acumulação, contrariará aquele princípio.<br />

4<br />

O reforço dos poderes dos Directores de Serviço <strong>Hospitalar</strong>es,<br />

matéria aliás já prevista também no programa do<br />

Governo, suscita-nos sérias reservas e alguma perplexidade,<br />

designadamente face ao sentido da empresarialização que<br />

percorre todo o Diploma.<br />

Um dos aspectos mais críticos da actividade hospitalar, e<br />

infelizmente pouco desenvolvido na presente proposta, é a forma<br />

como está estruturada a produção clínica nos nossos hospitais<br />

públicos. Os serviços hospitalares são a unidade estrutural de<br />

referência há dezenas de anos e todos temos consciência de<br />

que este modelo está esgotado, pelas ineficiências que provoca:<br />

pulverização do poder e da autoridade, rigidez na oferta de<br />

cuidados, não aproveitamento de sinergias, "espírito de quinta",<br />

são consequências com que hoje nos confrontamos diariamente<br />

na gestão global de uma instituição hospitalar. Precisamos de<br />

um novo formato que associe, integrando, áreas clínicas afins,<br />

num processo de exploração sistemática de sinergias, criação<br />

de um ambiente clínico mais favorável à continuidade dos<br />

cuidados, redução de lideranças e rivalidades e melhor eficiência<br />

na utilização de recursos.<br />

A noção de centros de responsabilidade parece-nos muito mais<br />

ajustada à reestruturação que defendemos, criando-se assim,<br />

áreas intermédias de administração, com recursos próprios,<br />

objectivos específicos e liderança multidisciplinar, com forte<br />

intervenção de gestores profissionais. Nesta matéria, a presente<br />

proposta acaba por ser incoerente, muito pouco trabalhada,<br />

desvalorizando ) aparentemente, um dos aspectos mais relevantes<br />

da empresarialização dos hospitais. Cotejando com a actual lei de<br />

gestão hospitalar, o diploma em apreço, representa até um claro<br />

retrocesso.<br />

Quanto à economia de órgãos prevista no artigo 7º,<br />

5 consideramos uma omissão grave a não inclusão de órgãos de<br />

direcção técnica, essenciais na gestão dos hospitais.<br />

6<br />

Parece-nos, por outro lado, ser de louvar a ideia de se vir a<br />

criar um ranking dos hospitais segundo modelo de avaliação<br />

a implementar (cf. Artº 8º). Defendemos esse modelo, mas<br />

pensamos que o mesmo encerra riscos e incompreensões para as<br />

quais se exige muito rigor, algum consenso e muita ponderação.<br />

7<br />

Não podemos, a finalizar, deixar de lamentar a total ausência<br />

de referências aos profissionais de administração hospitalar,<br />

ao longo de todo o diploma. Trata-se de uma classe dirigente<br />

dos quadros dos hospitais públicos, com competências específicas<br />

de gestão e que poderão dar um contributo importante para a<br />

modernização da gestão hospitalar, matéria pela qual nos temos<br />

batido ao longo da última década. Para além das actividades<br />

específicas da área logística, os administradores hospitalares<br />

serão elementos preponderantes na reestruturação da actividade<br />

produtiva dos nossos hospitais e deverão assumir, em conjunto<br />

com outros profissionais, as funções de administração intermédia<br />

que atrás referimos.<br />

Em conclusão, reiteramos o nosso apreço pelos princípios<br />

8 subjacentes à presente proposta de lei. Todavia a generalidade<br />

do seu articulado e os aspectos controversos e lacunares<br />

que deixamos expressos, suscitam-nos sérias reservas, cujo<br />

esclarecimento muito dependerá dos documentos legais de<br />

natureza regulamentar que vierem a ser apresentados. Relevamos,<br />

por fim, a necessidade de dotar os hospitais de uma<br />

gestão tendencialmente profissional, equidistante dos interesses<br />

corporativos, como elemento basilar para a empresarialização<br />

dos hospitais, questão para a qual a presente proposta não dá<br />

respostas minimamente consistentes.<br />

rn GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Reforma <strong>Hospitalar</strong> brasileira<br />

consagra gestão profissional<br />

Num momento em que, no<br />

nosso país, se assiste à<br />

introdução de um novo<br />

enquadramento jurídico na<br />

gestão hospitalar, tambem no<br />

Brasil está em fase de debate<br />

público uma profunda<br />

reforma do sistema hospitalar.<br />

Ressalvadas as diferenças<br />

socio-culturais existentes<br />

entre os dois países irmãos<br />

e os incomparáveis níveis de<br />

desenvolvimento económico<br />

e dos respectivos sistemas de<br />

saúde, é curiosa a verificação<br />

de preocupações semelhantes.<br />

Com base num modelo tipo<br />

"SNS" - Sistema Único de<br />

Saúde (SUS) - o sistema<br />

hospitalar público brasileiro<br />

tem, todavia, características<br />

de financiamento,<br />

organização e utilização<br />

muito diferentes<br />

relativamente a Portugal:<br />

dispõe de muito menos<br />

recursos humanos e<br />

financeiros, as estruturas e os<br />

equipamentos são<br />

incomparavelmente piores e<br />

os utilizadores pertencem<br />

quase exclusivamente à classe<br />

média baixa e aos grupos<br />

populacionais de menores<br />

O Ministro de Estado da Saúde, no uso de suas atribuições legais,<br />

Considerando os avanços tecnológicos e o incremento da<br />

complexidade das acções assistenciais de saúde;<br />

Considerando a necessidade de implementar modelos gercnciais que<br />

permitam planejar, quantificar, avaliar, acompanhar e controlar a<br />

prestação da assistência hospitalar;<br />

Considerando a importância da inserção do Ministério da Saúde<br />

no processo de modernização gerencial da rede hospitalar vinculada<br />

ao Sistema único de Saúde, visando um sistema de saúde resolutivo,<br />

de qualidade e adequada relação custo/ benefício;<br />

Considerando a necessidade de promover a utilização de práticas<br />

gerenciais que possibilitem maior eficácia e eficiência na aplicação<br />

dos recursos públicos;<br />

Considerando a necessidade de profissionalizar e qualificar a gestão<br />

hospitalar no âmbito do sistema Único de Saúde;<br />

Considerando a Portaria que cria o sistema de Classificação<br />

<strong>Hospitalar</strong> do Sistema Único de Saúde, o Ministério da Saúde<br />

resolve:<br />

Art. 1 º - Estabelecer exigências mínimas de estruturação técnico/<br />

administrativa das direções dos hospitais viq.culados ao Sistema<br />

único de Saúde e critérios de qualificação profissional exigíveis<br />

para o exercício de funções nestas direções, de acordo com o Porte<br />

do hospital segundo sua classificação atribuída de acordo com os<br />

critérios do sistema de Classificação <strong>Hospitalar</strong> do Sistema único<br />

de Saúde, como segue:<br />

A - Hospital de Porte I<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Geral - Profissional com nível<br />

superior, com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />

com no mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino<br />

superior legalmente reconhecida;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - Profissional médico<br />

Obs - Se o responsável pela Direção Geral for profissional médico, o<br />

mesmo poderá acumular as funções de responsável pela Direção Técnica<br />

B - Hospital de Porte II<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Geral - Profissional de nível<br />

superior, com curso de extensão em Administração, com no<br />

mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />

legalmente reconhecida;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional de<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

rendimentos.<br />

Mas lá como cá, as<br />

preocupações dos políticos<br />

situam-se na promoção da<br />

eficácia e da eficiência das<br />

unidades hospitalares e,<br />

sobretudo, na utilização de<br />

políticas de gestão adequadas<br />

aos recursos disponibilizados.<br />

Na consulta pública que<br />

decorre neste momento no<br />

Brasil, chamou-nos<br />

particularmente a atenção a<br />

proposta do governo com<br />

vista à profissionalização e<br />

qualificação dos gestores<br />

hospitalares, numa<br />

perspectiva porventura mais<br />

avançada e<br />

despreconceituosa do que a<br />

que estamos habituados em<br />

Portugal.<br />

Com base numa classificação<br />

da rede hospitalar que<br />

contempla 4 níveis (ou<br />

"portes"), assim o legislador<br />

pretende identificar niveis<br />

de habilitação e experiência<br />

técnico-profissional para os<br />

respectivos gestores, que<br />

garantam profissionalismo na<br />

gestão hospitalar.<br />

Como curiosidade e para<br />

que os leitores da "G.H."<br />

se apercebam bem do tipo<br />

de mudanças propostas no<br />

Brasil, a seguir se publica<br />

um excerto dos diplomas do<br />

governo sujeitos à discussão<br />

pública.<br />

nível superior, com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />

com no mínimo 180 horas/aula em instituição de ensino legalmente<br />

reconhecida;<br />

C - Hospital de Porte III<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Geral - profissional com nível<br />

superior, experiência comprovada de 02 (dois) anos na função<br />

e curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong> com no<br />

mínimo 360 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />

legalmente reconhecida;<br />

- O 1 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico<br />

com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />

mínimo 180horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />

legalmente reconhecida;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional<br />

de nível superior com experiência comprovada de 02 (dois) anos<br />

na função e com curso de extensão em Administração <strong>Hospitalar</strong>,<br />

com no mínimo 180 horas/aula, realizado em instituição de ensino<br />

legalmente reconhecida;<br />

D - Hospital de Porte IV<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Geral - profissional de nível<br />

superior, com 02 (dois) anos de experiência comprovada na função,<br />

com curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />

mínimo 360 hora/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />

legalmente reconhecida;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Técnica - profissional médico<br />

com experiência de O 1 (um) ano na função e com curso de<br />

especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no mínimo 360<br />

horas/a ula, realizado em instituição de ensino superior legalmente<br />

reconhecida;<br />

- 01 (um) responsável pela Direção Administrativa - profissional de<br />

nível superior, com experiência de 02 (dois) dois anos na função e<br />

com curso de especialização em Administração <strong>Hospitalar</strong>, com no<br />

mínimo 360 horas/aula, realizado em instituição de ensino superior<br />

legalmente reconhecida.<br />

§ 10- As exigências estabelecidas neste Artigo, de acordo com<br />

o Porte do hospital, são válidas para totalidade dos hospitais<br />

cadastrados e que prestam serviços ao Sistema Unico de Saúde,<br />

independentemente de sua situação jurídica;<br />

§ 20 - Aqueles profissionais de nível superior que sejam responsáveis<br />

por qualquer uma das direções estabelecidas no caput deste<br />

Artigo, em hospital de qualquer Porte, e que tenham curso<br />

de graduação em Administração H ospitalar estão dispensados da<br />

realização/comprovação de cursos de extensão e/ou especialização<br />

em Administração <strong>Hospitalar</strong>, estabelecidos como exigências de<br />

qualificação profissional neste Artigo.<br />

( ... )Não se concretizam<br />

reformas com consensos<br />

nem com pactos de regime.<br />

As reformas dignas desse<br />

nome são rupturas,<br />

não são arranjos para<br />

acomodar toda a gente,<br />

evitando fazer ondas.<br />

Francisco Sarsfield Cabral<br />

Diário de Notícias, 30/07/<strong>2002</strong><br />

( ... ) Denunciarei todos<br />

os primeiros,ministros,<br />

mas todos, que têm medo<br />

das reformas drásticas<br />

na Saúde: Soares que<br />

mandou Maldonado fazer<br />

tudo menos ondas; Cavaco<br />

que, traumatizado com<br />

o acti vismo de Leonor,<br />

mandou Arlindo almoçar<br />

com o bastonário e paralisou<br />

Mendo no financiamento;<br />

Guterres que recusou<br />

apaixonar,se pela Saúde,<br />

extinguindo,a de fome<br />

financeira e de decisões,<br />

Durão que previne Luís<br />

Filipe de que não quer<br />

mais conflitos "sociais"<br />

no próximo Outono.<br />

Correia de Campos<br />

O Público, 13/08/<strong>2002</strong><br />

( ... ) Há um elemento<br />

radicalmente oposto<br />

à mentalidade médica:<br />

um espírito clínico nunca<br />

conseguirá dominar a lógica<br />

económica. (. .. ) Por isso lhe<br />

é tão difícil compreender<br />

as subtilezas da negociação,<br />

do compromisso,<br />

do equilíbrio. ( ... )<br />

Não se pode pedir a alguém<br />

que passou o dia a decidir<br />

sobre a vida de outros que<br />

entenda os detalhes<br />

de um orçamento.<br />

( ... ) Vivemos num tempo<br />

obcecado com a saúde,<br />

que exige ao sistema<br />

o impossível e o utiliza<br />

para esconder a morte.<br />

( ... ) Esta é a razão do actual<br />

prestígio da classe médica,<br />

tão elevado desde<br />

os cirurgiões, barbeiros.<br />

E da sua eficácia<br />

na chantagem política.<br />

] oão César das Neves<br />

Diário de Notícias, 19/08/<strong>2002</strong><br />

( ... )Na opinião de muitos<br />

gestores, que eu comungo,<br />

com uma reforma profunda<br />

das metodologias de gestão,<br />

o sistema público seria<br />

perfeitamente capaz de<br />

resolver a maior parte dos<br />

problemas que o afligem.<br />

Nesse sentido,<br />

é absolutamente essencial<br />

que a Saúde seja<br />

desburocratizada e libertada<br />

das amarras da ac tual<br />

administração pública,<br />

de modo a que possa ser<br />

gerida por gestores<br />

competentes, utilizando<br />

metodologias modernas.<br />

Manuel]. Antunes<br />

O Público, 22/08/<strong>2002</strong><br />

Marco tio correio<br />

( ... ) Por proposta do<br />

Conselho Regional do Sul<br />

( CRS), a Ordem dos<br />

Médicos ( OM) está<br />

a elaborar um programa<br />

de formação pós,graduada<br />

em gestão, que se destina<br />

a preparar, nos próximos<br />

cinco a oito anos,<br />

os clínicos com as<br />

ferramentas necessárias<br />

para que possam dirigir<br />

hospitais e centros de saúde,<br />

podendo deste modo assumir<br />

funções que têm estado<br />

adstritas aos administradores<br />

hospitalares.<br />

Medi .com, 15/05/<strong>2002</strong><br />

( ... ) O que o governo<br />

anterior fez durante muitos<br />

anos foi atirar dinheiro aos<br />

problemas. ( ... ) Há pessoas<br />

que julgam que tudo se<br />

resolve com a privatização<br />

pura e simples, e há outras<br />

que pensam que se resolve<br />

mantendo tudo com a<br />

intervenção estatal. Entre<br />

estas duas posições há uma<br />

de equilíbrio, a que eu estou<br />

a procurar adaptar.<br />

Luís Filipe Pereira<br />

Independente, 05/07/<strong>2002</strong><br />

Todos os jornais e revistas, qualquer que seja a periodici,<br />

dade, destinam aos seus leitores um espaço especial para<br />

publicação do que lhes vai na alma. É a secção das cartas, ·<br />

para onde vai a correspondência, escrita e enviada ao<br />

director do periódico, umas vezes pelos melhores motivos<br />

e tantas outras pelas piores razões.<br />

A revista da APAH não é excepção. E este espaço aqui<br />

está, à mercê dos seus leitores. A revista aparece<br />

com um new look, mas a designação da secção mantém,se<br />

com o nome de baptismo da versão anterior - "Marco do<br />

Correio". Escrevam!<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Portugal preside à Associação Europeia<br />

de Gestores <strong>Hospitalar</strong>es<br />

nos próximos quatro anos<br />

Sede da EAHM,<br />

em Bruxelas<br />

rn GESTÃO HOSPITALAR<br />

Na próxima Assembleia Geral da<br />

EAHM, a realizar no âmbito do<br />

Congresso de Cracóvia, proceder,se,á<br />

à eleição dos órgãos sociais, para os<br />

próximos 4 anos.<br />

Na linha de continuidade que tem<br />

marcado sempre as passagens de<br />

testemunho, a actual Direcção e em<br />

particular o Presidente, promoveram a<br />

apresentação de uma lista de consenso.<br />

Desse trabalho resultou a proposta para<br />

Presidente da Associação Europeia<br />

do nosso colega Manuel Delgado,<br />

indigitação já ratificada na reunião<br />

da Comissão Executiva realizada no<br />

Luxemburgo no passado dia 12 de<br />

Abril.<br />

A indigitação do Presidente da APAH<br />

para a Presidência da Associação<br />

Europeia, para além do prestígio e<br />

do reconhecimento que isso representa<br />

para os administradores hospitalares<br />

portugueses, é também um desafio<br />

singular à nossa capacidade de<br />

liderança e de organização para o qual<br />

temos que estar preparados.<br />

O presidente da EAHM, Asger Hansen<br />

(à esq.), com Manuel Delgado e o vicepresidente<br />

Miecszlaw Pasowicz (à dir.).<br />

Willy Heuschen, secretário-geral da EAHM<br />

(à esq.), Manuel Delgado, presidente da APAH<br />

(ao centro) e Miecszlaw Pasowicz (à dir.).<br />

Associação Europeia: quem é e o que faz<br />

A Associação Portuguesa de<br />

Administradores <strong>Hospitalar</strong>es (APAH)<br />

é membro da European Association of<br />

Hospital Managers (EAHM) desde 1982.<br />

Fundada em 1970, em Estrasburgo,<br />

a EAHM congrega hoje 23 países<br />

representando cerca de 22.000 gestores<br />

hospitalçi.res. É de salientar o ingresso, nos<br />

últimos dez anos, de muitos países do leste,<br />

como a Polónia, a Hungria, a Lituânia, a<br />

República Checa, a Eslováquia e a Croácia.<br />

A EAHM tem como objectivos essenciais<br />

da sua missão promover a autoridade<br />

profissional e evidenciar a responsabilidade<br />

dos gestores hospitalares e, nessa<br />

perspectiva, influenciar as decisões da UE<br />

que afectem a actividade dos hospitais.<br />

Por outro lado, compete à Associação<br />

Europeia apresentar propostas que<br />

contribuam para a integração, numa<br />

"Europa Social", de princípios comuns na<br />

organização hospitalar, e no acesso<br />

e direitos dos doentes.<br />

A EAHM tem também um papel<br />

importante na defesa dos interesses<br />

dos seus membros, representando,os em<br />

comissões e instituições internacionais da<br />

maior relevância. A Associação Europeia<br />

tem,se desenvolvido significativamente nos<br />

últimos anos graças, essencialmente,<br />

à profissionalização do cargo<br />

de Secretário,Geral. Foram criadas<br />

duas Sub,Comissões das quais se esperam<br />

frutos muito positivos para o futuro:<br />

a Sub,Comissão Científica e a<br />

Sub,Comissão para os Assuntos Europeus.<br />

Da primeira, espera,se um novo impulso<br />

no campo doutrinário, científico e técnico,<br />

que congregue mais gestores hospitalares<br />

europeus à volta de temas específicos<br />

que envolvam a sua prática profissional.<br />

Da segunda, aguarda,se uma permanente<br />

atenção para as questões europeias, através,<br />

designadamente, do acompanhamento<br />

sistemático da agenda da Comissão<br />

Europeia, tentando contribuir para que as<br />

suas recomendações, iniciativas e decisões<br />

promovam a acessibilidade, eficiência<br />

e a qualidade dos hospitais europeus.<br />

A EAHM tem hoje uma sede, com logística<br />

própria, em Bruxelas. Bem localizada<br />

e com excelentes instalações, a sede da<br />

EAHM dispõe ainda de um pequeno<br />

auditório para conferências ou sessões<br />

cientificas. Dispõe também,<br />

desde há 2 anos a esta parte, de<br />

uma Revista mensal que se vem<br />

afirmando no panorama europeu de<br />

publicações especializadas na área da<br />

gestão hospitalar. A Revista "Hospital"<br />

- que todos os associados da APAH<br />

recebem - vive dos contributos dos<br />

seus diferentes membros e tem uma<br />

gestão profissional.<br />

Estamos, recentemente, numa fase<br />

importante da Revista, já que, para<br />

aumentar a sua credibilidade e<br />

prestigio, será submetida à BPA<br />

(Business Press Audit), o processo<br />

de acreditação mais exigente para os<br />

jornais de todo o mundo.<br />

Os actuais estatutos da Associação<br />

Europeia contemplam cinco órgãos<br />

na sua estrutura directiva:<br />

• A Assembleia Geral, constituída<br />

por todos os países membros e<br />

em que podem participar todos os<br />

gestores integrados nas Associações<br />

nacionais; reúne,se, ordinariamente,<br />

uma vez por ano e é a sede essencial<br />

para a eleição dos órgãos sociais,<br />

aprovação de orçamentos, relatórios<br />

e contas, etc.;<br />

• A Comissão Executiva,<br />

constituída pelos representantes de<br />

cada Associação Nacional e que<br />

reúne, pelo menos, 3 vezes por<br />

ano. É um órgão essencialmente de<br />

ratificação das decisões da Direcção<br />

da Associação e que submete<br />

propostas à Assembleia Geral;<br />

• A Direcção, que para além de<br />

integrar a Comissão Executiva, tem<br />

a responsabilidade de conduzir as<br />

actividades correntes da Associação,<br />

tomar decisões, definir e propor<br />

estratégias, planos de acção,<br />

orçamentos, etc.;<br />

• O Presidente, que para além das<br />

tarefas de representação que lhe são<br />

inerentes, preside às reuniões da<br />

Direcção, da Comissão Executiva e<br />

da Assembleia Geral e promove a<br />

execução das decisões aí tomadas;<br />

• O Secretário,Geral que, por<br />

excelência, executa as decisões<br />

tomadas aos diferentes níveis e<br />

cuida da logística e das finanças da<br />

Associação.<br />

Todos os órgãos da Associação são<br />

eleitos por períodos de 4 anos,<br />

com a excepção do Secretário,Geral,<br />

que é eleito por 5 anos. Este<br />

é também o único cargo<br />

remunerado, dadas as tarefas<br />

absorventes e constantes que<br />

tem de desempenhar.<br />

O membro eleito para<br />

Presidente só pode exercer o<br />

cargo por um único mandato.<br />

A Associação Europeia realiza<br />

de 2 em 2 anos o seu Congresso.<br />

Até á aprovação recente dos<br />

novos estatutos, tal realização<br />

era de periodicidade anual, mas<br />

considerou,se mais ajustado e<br />

propiciador de maior impacte a<br />

EAHM: 19º Congresso em Cracóvia<br />

de 19 a 21 de Setembro de <strong>2002</strong><br />

O próximo Congresso<br />

da EAHM decorrerá este ano,<br />

de 19 a 21 de Setembro,<br />

em Cracóvia, na Polónia,<br />

e será organizado pela<br />

Associação Polaca de<br />

Directores de Hospitais.<br />

O tema do Congresso<br />

- os cuidados de Saúde<br />

centrados no doente: da<br />

reforma estrutural aos<br />

cuidados integrados - é<br />

extremamente oportuno, num<br />

momento em que as questões<br />

da cidadania e da participação<br />

cívica na defesa dos interesses<br />

dos utilizadores assumem uma<br />

importância crescente no<br />

espaço europeu.<br />

O programa Cientifico está<br />

dividido em seis secções:<br />

realização dos Congressos de forma<br />

bienal.<br />

Os Congressos da Associação são,<br />

indiscutivelmente, os momentos de<br />

maior visibilidade e interesse da vida<br />

associativa. Durante 3 dias, gestores<br />

hospitalares de toda a Europa, trocam<br />

as suas experiências profissionais,<br />

participam em conferências ou mesas,<br />

redondas e tomam contacto com<br />

novas ideias, novos projectos ou novas<br />

metodologias.<br />

Portugal já foi anfitrião de dois<br />

Congressos da Associação Europeia:<br />

em 1984, em Espinho e, mais<br />

recentemente, em 1999, em Lisboa.<br />

O desempenho de Portugal foi<br />

reconhecido, quer pela competência<br />

da organização e qualidade do<br />

programa científico, quer pelo<br />

interesse do programa social.<br />

Isso contribuiu decisivamente para o<br />

prestígio que a APAH hoje tem no<br />

seio da EAHM, ocupando desde 1998<br />

uma das Vice, Presidências.<br />

todos os países membros<br />

daEAHM.<br />

Oportunamente foi dado<br />

1- Uma nova cultura organizacional que ponha o doente<br />

no centro do sistema;<br />

li - A humanização, a arquitectura e as artes<br />

no meio hospitalar;<br />

Ili- A gestão da mudança nos Cuidados de Saúde;<br />

IV- A gestão hospitalar e a nova ênfase na Qualidade;<br />

V- A colaboração transfronteiriça entre hospitais europeus;<br />

VI- Parcerias público-privado no sector da Saúde.<br />

O programa será preenchido<br />

por conferências, mesas,<br />

redondas e "case studies"<br />

e incluirá intervenções<br />

de representantes de quase<br />

conhecimento do programa<br />

final do Congresso,<br />

através do envio<br />

do respectivo desdobrável<br />

para todos os associados.<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Concurso para<br />

provimento<br />

de lugares de<br />

administradores<br />

hospitalares<br />

publicado na<br />

li Série do DR<br />

n 2 • 282, de 6-12-01<br />

Encontram .. se<br />

a decorrer com<br />

normalidade os trabalhos<br />

de análise dos curricula<br />

dos candidatos ao<br />

concurso, prevendo .. se<br />

que o júri elabore a lista<br />

classificativa provisória<br />

até ao final<br />

do corrente ano.<br />

Forum Gulbenkian de Saúde<br />

No passado mês de Junho terminou mais um<br />

Ciclo de Conferências integradas no Forum<br />

Gulbenkian de Saúde. Iniciado em 1997, com<br />

base numa iniciativa conjunta da Fundação<br />

Calouste Gulbenkian, Escola Nacional de<br />

Saúde Pública/UNL e Associação Portuguesa<br />

de Administradores <strong>Hospitalar</strong>es, o Forum<br />

revelou,se, desde logo, um espaço privilegiado<br />

de debate nas áreas da política de saúde e<br />

da gestão hospitalar, sem paralelo ao nível<br />

nacional. Ao longo destes anos , foi possível<br />

trazer ao Forum, as principais figuras nacionais<br />

da área da administração da Saúde, peritos<br />

internacionais de reconhecido mérito nas<br />

mais importantes áreas da gestão dos serviços<br />

de Saúde e, também, líderes de opinião e<br />

representantes proeminentes da comunicação<br />

social portuguesa.<br />

Os temas em debate, sempre de grande<br />

importância e oportunidade, e a qualidade<br />

dos conferencistas e dos comentadores, foram<br />

grangeando prestígio junto dos profissioanis<br />

da Saúde, dos investigadores e dos estudantes,<br />

tomando estas sessões da Gulbenkian um<br />

ponto de convergência quase obrigatório.<br />

APAH recebida pelo Ministro da Saúde<br />

A Direcção da APAH foi<br />

recebida, em primeira<br />

audiência pelo Ministro da<br />

Saúde, no dia 8 de Maio.<br />

Foram analisados os principais<br />

problemas que afectam a<br />

gestão hospitalar e houve um<br />

acordo generalizado de pontos<br />

de vista sobre o diagnóstico<br />

da situação e as principais<br />

medidas a empreender.<br />

A Direcção da APAH expôs<br />

de seguida os problemas de<br />

emprego que envolvem cerca<br />

de 80 administradores<br />

ffl GESTÃO HOSPITALAR<br />

hospitalares em efectivo<br />

exercício de funções,<br />

salientando a situação<br />

precária e humilhante em<br />

que se encontram, no<br />

desempenho de cargos<br />

dirigentes.<br />

O Ministro da Saúde, Luis<br />

Filipe Pereira, mostrou,se<br />

preocupado com o problema e<br />

disposto a encontrar soluções<br />

avançando, desde logo, que<br />

a sua posição seria manter<br />

transitoriamente tais<br />

contratos, desde que<br />

devidamente justificada a<br />

necessidade de cada um desses<br />

profissionais, até se encontrar<br />

uma solução adequada, que<br />

segundo as suas palavras,<br />

passaria pela abertura de<br />

quotas de descongelamento<br />

para ingresso no quadro único<br />

da carreira de administração<br />

hospitalar.<br />

Posteriormente, e já após a<br />

publicação da resolução do<br />

Conselho de Ministros sobre<br />

a contratação de pessoal,<br />

Luis Filipe Pereira reiterou<br />

'r. wngulbenkían<br />

, saua'e<br />

O último ciclo (<strong>2002</strong>) foi, claramente,<br />

de consolidação deste projecto. O número<br />

e diversidade profissional dos participantes<br />

excedeu, este ano, todas as expectativas e foi<br />

com satisfação que os organizadores registaram<br />

salas cheias em varias sessões.<br />

É, assim, com muito orgulho, que a APAH<br />

realça a sua participação nesta iniciativa, para<br />

a qual muito contribuíram a visão e o apoio<br />

desde a primeira hora, do Senhor Presidente<br />

da Fundação Calouste Gulbenkian, Dr Victor<br />

Sá Machado, a ideia antiga do Prof. Caldeira<br />

da Silva em ver concretizado cm Lisboa,<br />

um Forum anual com estas características,<br />

e a perseverança, a dedicação e a liderança<br />

do Prof. Manuel Rodrigues Gomes, lutador<br />

incansável para o sucesso deste projecto na sua<br />

qualidade de Director dos Serviços de Saúde<br />

e Desenvolvimento Humano da Fundação.<br />

Da nossa parte tudo fizemos e continuaremos<br />

a fazer para que, dentro dos nossos modestos<br />

préstimos, os temas e os convidados<br />

do Forum satisfaçam as expectativas<br />

da audiência exigente que habitualmente<br />

acorre à Gulbenkian.<br />

a sua posição de princípio,<br />

de despachar favoravelmente<br />

todos os contratos de<br />

administradores hospitalares<br />

desde que devidamente<br />

justificados.<br />

A Direcção da APAH<br />

considerou positiva a reunião<br />

com o Ministro e espera que<br />

os problemas que hoje se<br />

. colocam a muitos profissionais<br />

da administração hospitalar -<br />

que querem, legitimamente,<br />

ver a sua situação de trabalho<br />

devidamente estabilizada -<br />

irão a breve trecho<br />

resolver,se.<br />

Congresso de Aprovisionamento:<br />

um êxito das Conferências APAH<br />

A Associação Portuguesa de<br />

Administradores <strong>Hospitalar</strong>es realizou, em<br />

16 e 1 7 de Maio, com o apoio do<br />

Instituto da Qualidade em Saúde, o IV<br />

Congresso N acional de Aprovisionamento<br />

<strong>Hospitalar</strong>.<br />

Considerado um autêntico êxito quer<br />

pelo elevado número de presenças de<br />

profissionais ligados à gestão de serviços<br />

de saúde, quer pela qualidade dos<br />

especialistas convidados e dos temas<br />

desenvolvidos, este Congresso, levado a<br />

efeito no âmbito das Conferências APAH,<br />

abrangeu o aprovisionamento e a logísitica<br />

hospitalares na perspectiva da eficácia e da<br />

eficiência da organização.<br />

A sessão de abertura foi presidida, em<br />

representação do Ministro da Saúde, por<br />

um membro do seu Gabinete, Dr. Mendes<br />

Ribeiro.<br />

O primeiro dia foi preenchido com<br />

o desenvolvimento dos seguintes temas:<br />

"Logística: conceito e práticas<br />

empresariais; da gestão de actividades<br />

ao fluxo físico integrado", "A logística<br />

de produtos farmacêuticos em hospital<br />

central", "A organização das compras na<br />

unidade local de saúde de Matosinhos",<br />

"<strong>Gestão</strong> de materiais nos hospitais públicos<br />

portugueses", "O projecto de qualificação<br />

dos serviços de aprovision amento<br />

hospitalar" e "Repercussões da nova<br />

legislação das compras hospitalares".<br />

Os especialistas que intervieram nesses<br />

temas foram, respectivamente, o Prof.<br />

Doutor José Mexia Crespo de Carvalho<br />

(ISCTE), Prof. Doutor João Menezes<br />

(ISCTE), Dr. Eurico Brilhante Dias<br />

(ISCTE), Prof. Doutor Lopes dos Reis<br />

(administrador do Hospital de Santo<br />

António dos Capuchos), Dr. Alves Dias<br />

(administrador do Hospital de Santo<br />

António), Dr. Pedro Esteves<br />

(administrador delegado do Hospital de<br />

IV CONGRESSO<br />

NACIONAL<br />

DE<br />

APROVISIONAMENTO<br />

HOSPITALAR<br />

Matosinhos), Dr. Vítor da Fonseca, Dra.<br />

Anabela Antunes de Almeida (docente),<br />

Dr. Manuel Ligeiro (administrador<br />

hospitalar), Dra. Maria da Luz Gonçalves<br />

(administradora do Hospital Pulido<br />

Valente), Dr. Meneses Duarte, Dr. Pedro<br />

Brito (consultor jurídico), Dra. Mariana<br />

Peres (administradora do Hospital de<br />

Santa Maria), Rodrigues Lobo (chefe do<br />

Seriço de Aprovisionamento do Centro<br />

<strong>Hospitalar</strong> de Torres Vedras) e Dr.<br />

Manuel Delgado (administrador delegado<br />

do Hospital dos Capuchos).<br />

O segundo dia do IV Congresso foi<br />

dedicado a debater os temas seguintes:<br />

"Uma estrutura de logística<br />

multidisciplinar" (Dr. Pedro Bastos e José<br />

de Mello Saúde) e "Excelência logística.<br />

Componente de eficácia hospitalar" (Dr.<br />

Vítor de Carvalho e Dr. José Carlos Lopes<br />

Martins, moderador).<br />

O evento terminou com uma conferência<br />

sobre "Como adaptar os processos<br />

logísticos hospitalares para satisfazer os<br />

nossos clientes internos", tendo como<br />

principal protagonista o Dr. Eugéni<br />

Freixas, chefe de compras da Corporacion<br />

Sanitaria Clinic, Barcelona.<br />

A Associação Portuguesa de<br />

Administradores H ospitalares<br />

congratula,se particularmente com o<br />

resultado desta realização, ciente da sua<br />

oportunidade e dos novos desafios que se<br />

colocam aos profissionais do sector.<br />

Audição da APAH<br />

na Comissão<br />

Parlamentar do<br />

Trabalho e dos<br />

Assuntos Sociais<br />

A Direcção da APAH<br />

foi ouvida, no passado<br />

dia 2 de Julho,<br />

e por solicitação da<br />

Comissão Parlamentar<br />

do Trabalho e dos<br />

Assuntos Sociais,<br />

em sessão pública,<br />

a propósito do projecto<br />

de lei proposto pelo<br />

Governo sobre<br />

a <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />

O Presidente da Direcção,<br />

Manuel Delgado,<br />

fez uma apresentação<br />

sucinta dos pontos<br />

de vista da APAH<br />

e entregou ao Presidente<br />

da Comissão, Pina<br />

Moura, um documento,<br />

de apreciação do projecto<br />

(incluído no dossier<br />

sobre a Lei de <strong>Gestão</strong><br />

<strong>Hospitalar</strong>, na presente<br />

edição de "G.H.").<br />

Os deputados<br />

reconheceram<br />

a importância<br />

dos administradores<br />

hospitalares<br />

no desenvolvimento<br />

e modernização<br />

da gestão dos hospitais<br />

e concordaram com<br />

a posição da APAH<br />

de que a actual lei<br />

deverá enquadrar<br />

melhor o seu papel,<br />

na liderança dessas<br />

instituições.<br />

Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde reúne com APAH<br />

A Direcção da Associação de Administradores<br />

<strong>Hospitalar</strong>es foi recebida, no dia 28 de Agosto,<br />

pelo secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde,<br />

Adão Silva.<br />

Acompanhado por elementos do seu gabinete e pelo<br />

representante do Departamento de Modernização<br />

e Recursos da Saúde, o secretário de Estado ouviu<br />

as preocupações da Direcção quanto à situação<br />

dos administradores hospitalares ainda não integrados<br />

no quadro único em exercício de funções.<br />

Prometeu encontrar uma estratégia conjunta<br />

com o Ministro da Saúde, no sentido de alargar o quadro<br />

único e subsequentemente conseguir obter quotas<br />

de descongelamento que permitam a integração<br />

dos cerca de 90 colegas em situação de contratos precários.<br />

Atendendo a que esse processo se irá naturalmente<br />

arrastar, pelo menos, durante um ano, a solução transitória<br />

a adoptar passa pela manutenção dos modelos contratuais<br />

até agora em vigor. A Direcção da APAH concordou<br />

com esta posição, esperando, todavia, que seja desta vez<br />

que o problema tenho um desenvolvimento efectivamente<br />

concordante com o prometido.<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Comunicação para a Qualidade<br />

- curso para administradores hospitalares<br />

A qualidade dos serviços de É neste contexto que a A comunicação inovação. Importa reflectir<br />

saúde é um tema de grande APAH e o INA promovem, desempenha um papel sobre o papel da função<br />

actualidade. Contudo, nos dias 3 e 4 de Outubro, fundamental no "comunicação" e dos<br />

quem garante que cidadãos no Palácio Marquês de desenvolvimento de uma instrumentos estratégicos<br />

e profissionais da saúde Pombal, em Oeiras, o curso política de qualidade. Mas na promoção de políticas<br />

partilham a mesma ideia de "Comunicação para a o conceito de "qualidade de qualidade na saúde e<br />

"qualidade em saúde"? Qualidade nos Hospitais", em sau<br />

, d<br />

e<br />

,,<br />

, o seu<br />

identificar alternativas<br />

A fim de contribuir para destinado a administradores significado, necessita de ser práticas para fomentar as<br />

a resposta a este desafio, hospitalares. Este visa dar "comunicado" aos públicos necessárias alterações<br />

o Instituto Nacional de a conhecer os fenómenos internos e externos das comportamentais.<br />

Administração (INA) da comunicação e a sua organizações do Serviço O programa de formação<br />

iniciou este ano um relevância para a "reforma Nacional de Saúde (SNS). em comunicação para a<br />

programa de formação em cultural" subjacente a um A concretização de saúde surge no âmbito de<br />

comunicação para os programa de qualidade nos políticas de qualidade exige um programa de formação<br />

profissionais da saúde, que hospitais. O curso pode profundas alterações de mais alargado de<br />

constitui o primeiro ser completado com um comportamentos e comunicação pública,<br />

projecto na área oferecido follow upa distância, de processos para as quais oferecido pelo INA há<br />

em Portugal. Com a 7 de Outubro a 15 de a definição de planos e já alguns anos, que se<br />

colaboração de um Novembro, durante o qual estratégias de comunicação destina a promover a<br />

profissional especialista na cada formando produz o eficientes é decisiva. Com institucionalização na<br />

matéria e com experiência esboço dum plano de efeito, torna~se necessário Administração Pública de<br />

adquirida quer no comun icação para a demonstrar que as políticas<br />

estrangeiro, quer em qualidade da saúde propostas para a qualidade de comunicação enquanto<br />

Portugal, o INA pretende relevante para o seu apresentam enormes instrumentos estratégicos<br />

ir ao encontro das contexto profissional. Para vantagens para todos e de apoio<br />

necessidades há muito participar no follow up o saber como contrariar as à gestão pública.<br />

identificadas por utentes formando necessita percepções erradas Para mais informação e<br />

dos serviços de saúde, somente de ter um entretanto estabelecidas, mscrições:<br />

profissionais e responsáveis computador com acesso à responsáveis pelas isalia.casimiro@ina.pt ou<br />

políticos. internet. resistências à mudança e 2141 18741.<br />

Associação Portuguesa para o Desenvolvimento <strong>Hospitalar</strong><br />

A Associação Portuguesa para<br />

o Desenvolvimento <strong>Hospitalar</strong> -<br />

APDH - é uma pessoa colectiva<br />

de direito privado, dotada de<br />

personalidade jurídica sem fins<br />

lucrativos e que tem como sócios<br />

fundadores 8 hospitais e 5 pessoas<br />

individuais de várias regiões do<br />

país.<br />

Constituída em 4 de Abril de <strong>2002</strong>,<br />

a APDH tem por objectivos:<br />

a) promover a cooperação entre<br />

instituições hospitalares<br />

portuguesas<br />

e entre estas e as suas<br />

congéneres estrangeiras;<br />

b) promover e desenvolver<br />

a inovação<br />

no âmbito da gestão hospitalar;<br />

e) participar na reflexão<br />

sobre política de saúde;<br />

d) promover a melhoria<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

dos cuidados h ospitalares;<br />

e) promover a efectividade,<br />

eficiência<br />

e h umanização nos hospitais;<br />

f) promover e desenvolver<br />

projectos de investigação<br />

e estudo nas áreas<br />

da gestão hospitalar<br />

e clinica ou áreas conexas;<br />

g) divulgar informação técnica<br />

e em geral a que se revestir<br />

de interesse para os hospitais;<br />

h) promover e desenvolver<br />

programas de formação a nível<br />

nacional e internacional;<br />

i) representar os seus associados,<br />

quer a nível nacional,<br />

quer internacional,<br />

nomeadamente no Comité<br />

<strong>Hospitalar</strong> da União Europeia<br />

e na Federação Internacional<br />

dos Hospitais (FIH);<br />

j) promover e participar<br />

em processos de acreditação e<br />

melhoria da qualidade<br />

dos h ospitais;<br />

k) promover o intercâmbio<br />

com associações<br />

de natureza e objectivos<br />

congén eres;<br />

1) prestar serviços<br />

aos seus associados<br />

e a terceiros,<br />

ainda que remunerados.<br />

A Comissão Instaladora da A PDH<br />

está a operacionalizar a eleição<br />

dos seus órgãos sociais e pretende<br />

dar inicio ao desenvolvimento<br />

das actividades e fins a que<br />

se propõe. Neste momento a<br />

APDH já conta com cerca de<br />

40 associados e celebrou com o<br />

Ministério da Saúde um protocolo<br />

de colaboração.<br />

Prémio para <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong> •e• P<br />

A Associação Portuguesa de Administradores<br />

<strong>Hospitalar</strong>es (APAH) e a Pharmacia Corporation<br />

Laboratórios, Lda., criaram, a partir de <strong>2002</strong>, um<br />

prémio anual destinado ao melhor trabalho publicado<br />

na área da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />

A importância dos hospitais no contexto do sistema<br />

de saúde português, a complexidade e sensibilidade da<br />

sua actividade, o seu peso económico e, sobretudo,<br />

o seu impacte na saúde dos portugueses justificam<br />

plenamente a relevância com que esta iniciativa<br />

pretende distinguir a área da <strong>Gestão</strong> <strong>Hospitalar</strong>.<br />

O Prémio, no valor de cinco mil euros, tem por objecto<br />

artigos ou trabalhos que revelem características de<br />

inovação, de investigação ou de projecto operacional,<br />

•<br />

ÉM<br />

o<br />

~R<br />

sendo consideradas as seguintes áreas temáticas:<br />

<strong>Gestão</strong> Estratégica; Estrutura e Organização de<br />

Serviços; Modelos de <strong>Gestão</strong>; Sistemas de Informação;<br />

Planeamento e Controlo e <strong>Gestão</strong> da Qualidade.<br />

Os autores de trabalhos enquadráveis nos objectivos<br />

do presente Prémio poderão solicitar o respectivo<br />

regulamento, por escrito, através da APAH Apartado<br />

2281, 1147~501 Lisboa, ou pelo telefone 213555124.<br />

O regime jurídico das parcerias em Saúde<br />

O Governo pretende encontrar fontes<br />

alternativas de financiamento e de<br />

prestação para os serviços de Saúde<br />

através de parcerias com entidades<br />

privadas ou de natureza social.<br />

Para esse efeito, e no sentido de<br />

enquadrar de forma sistemática tais<br />

acordos, o Governo aprovou o D.L.<br />

n.º 185/02, de 20 de Agosto e do qual,<br />

"G.H." apresenta um resumo dos seus<br />

aspectos mais importantes.<br />

1. O que são parcerias?<br />

São acordos entre o Ministério da<br />

Saúde ou Instituições e Serviços<br />

integrados no SNS e entidades do<br />

sector privado ou social que se lhe<br />

associem, com carácter duradouro,<br />

com o fim de partilharem riscos e<br />

benefícios mútuos.<br />

2. Qual o seu objecto?<br />

As parcerias envolvem uma ou mais<br />

das seguintes actividades: concepção,<br />

construção, financiamento,<br />

conservação e exploração de<br />

estabelecimentos integrados ou a<br />

integrar no SNS.<br />

3. Quais os princípios que lhe estão<br />

subjacentes?<br />

Os ohjectivos devem assentar em<br />

resultados e não nos meios<br />

envolvidos. A duração deve ter<br />

em conta a vida útil dos activos<br />

subjacentes, não podendo exceder o<br />

prazo de 30 anos. O procedimento de<br />

contratualização deve, em regra, ter<br />

um caracter competitivo.<br />

A contratação deve ser precedida<br />

de uma avaliação prévia, mediante<br />

procedimento concursal especifico.<br />

4. Quais são os instrumentos<br />

contratuais possíveis?<br />

• O contrato de gestão, que tem por<br />

objecto principal assegurar<br />

prestações de saúde, através de um<br />

estabelecimento de saúde ou parte<br />

funcionalmente autónoma. Pode<br />

ainda ter por objecto a concepção,<br />

construção, financiamento,<br />

conservação e exploração do<br />

estabelecimento ou parte<br />

funcionalmente autónoma. (É a<br />

matriz contratual de referência para<br />

o estabelecimento de parcerias)<br />

• O contrato de prestação de serviços,<br />

em que o co~contratante da<br />

Administração realiza uma<br />

actividade de apoio à realização de<br />

prestações de saúde no âmbito de um<br />

estabelecimento de saúde.<br />

• O contrato de colaboração, que<br />

corresponde à integração no SNS<br />

de estabelecimentos de saúde<br />

pertencentes a outras entidades,<br />

aplicando~se, com as necessárias<br />

adaptações, o disposto para o<br />

contrato de gestão.<br />

5. Qual a forma de mobilidade dos<br />

funcionários públicos?<br />

O pessoal com relação jurídica de<br />

emprego público que detenha a<br />

qualidade de agente ou funcionário<br />

poder ser contratado por outras<br />

entidades em regime de comissão de<br />

serviço para as actividades a exercer<br />

em regime de parceria, mantendo<br />

todos os direitos inerentes ao seu<br />

quadro, incluindo os de aposentação<br />

ou reforma e sobrevivência, relevando<br />

o período de comissão de serviço<br />

como serviço prestado nesse quadro.<br />

Pode ainda, o referido pessoal, ser<br />

opositor a concursos de acesso da<br />

respectiva carreira, mesmo na<br />

vigência da comissão de serviço.<br />

6. Como é que a entidade gestora é<br />

remunerada?<br />

(no caso do contrato de gestão)<br />

Há, essencialmente, 3 modalidades<br />

previstas, que podem ser<br />

concomitantemente utilizadas:<br />

- por capitação, de acordo<br />

com a população abrangida pelo<br />

estabelecimento;<br />

- de acordo com uma tabela<br />

de preços<br />

especifica para as prestações;<br />

- por valor global para o conjunto<br />

das prestações.<br />

7. A entidade gestora pode realizar<br />

prestações de saúde fora do âmbito<br />

do serviço público?<br />

Pode, desde que essa prática se faça,<br />

comprovadamente, sem prejuízo das<br />

organizações de serviço público.<br />

8. Quem (e como) controla o<br />

cumprimento dos contratos de<br />

gestão?<br />

A entidade pública contratante deve<br />

regulamentar e fiscalizar o exercício<br />

do contrato de gestão. Os contratos,<br />

deverão, assim, prever,<br />

designadamente:<br />

a) Os poderes de fiscalização<br />

da entidade pública contratante;<br />

b) Os actos de gestão sujeitos<br />

a autorização, aprovação<br />

ou homologação da entidade<br />

pública contratante.<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Abordagens de Avaliacão ,<br />

Monitorizar<br />

('O que está a acontecer'<br />

- consequências)<br />

Investigar<br />

('Porque está a acontecer' -<br />

causas)<br />

Avaliação, valores e ideologia<br />

Avaliar e 'controlar'<br />

(ex.: justificar financiamento)<br />

~~ Avaliação de serviços de saúde:<br />

uma reflexão urgente<br />

Por J. Paulo Kuteev-Moreira*<br />

E<br />

ste artigo tem o propósito de<br />

introduzir um debate sobre a<br />

avaliação de serviços de saúde<br />

em Portugal. Identifica sumariamente<br />

as essências das diferentes abordagens<br />

de avaliação, nomeadamente<br />

a distinção fundamental entre<br />

monitorizar e investigar.<br />

Com estes conceitos em mente,<br />

e consciente do perigo da utilização<br />

da avaliação para exercer uma<br />

deturpação planeada da opinião<br />

pública, o texto pretende contribuir<br />

para o enriquecimento do debate<br />

entre os responsáveis do sistema de<br />

saúde português no sentido de iniciar<br />

o planeamento e implementação de<br />

estruturas concretas de avaliação dos<br />

serviços de saúde em Portugal.<br />

Um modelo em construção<br />

Figura 1: Avaliar Serviços de Saúde: Um modelo em construção<br />

(J. Paulo Moreira, <strong>2002</strong>)<br />

Observar<br />

Serviços de Saúde:<br />

Modelo<br />

em Construção<br />

Crescente atenção é dedicada a modelos<br />

e práticas de avaliação dos serviços<br />

de saúde. As duas últimas décadas<br />

assistiram à introdução e disseminação<br />

de novos (ou recorrentes) conceitos<br />

que pretendiam influenciar a política de<br />

oferta de serviços de saúde de que são<br />

Avaliação e 'boas práticas'<br />

\<br />

/<br />

Geração de E vidência<br />

Estruturas de Recolha (Informação de <strong>Gestão</strong>) - Metodologias - Estruturas de Partilha ( Co1nunicação)<br />

A Avaliação<br />

A 1 nterpretação da Evidência<br />

(quem? que valores? que poderes?)<br />

A Avaliacão da avaliacão<br />

, ,<br />

(comunidade científica independente)<br />

.<br />

-<br />

A avaliação<br />

do Desempenho<br />

Que orientação?<br />

Que indicadores ?<br />

Que abordagem modelar ?<br />

exemplo o consumismo (a luta pelos<br />

direitos dos consumidores de produtos<br />

e utilizadores de serviços públicos e<br />

privados), a cidadania (incluindo a<br />

promoção de formas de empowerment<br />

do cidadão), as inspecções a partir<br />

de reclamações, a pressão para um<br />

designado aumento de performance<br />

(infelizmente ainda centrado na<br />

produção e ignorando o impacte sobre<br />

o cidadão), a introdução de programas<br />

de qualidade, o debate da eficiência/<br />

eficácia dos serviços de saúde (ainda<br />

sem definições concretas em direcção<br />

aos 'ganhos em saúde'), a gestão do<br />

'bem público', a responsabilização do<br />

gestor público e outros conceitos ainda<br />

mais embrionários em Portugal como a<br />

'gestão da doença' (tradução do conceito<br />

de disease management) ou a clinical<br />

governance (eventualmente a traduzir<br />

como 'gestão clínica').<br />

É neste contexto de propostas de<br />

mudança em concorrência que surge<br />

a necessidade de gerar evidência para<br />

legitimar umas opções ou abandonar<br />

outras. Assim, h á que começar por<br />

estabelecer uma clara distinção entre<br />

a investigação e a monitorização no<br />

contexto da avaliação de serviços de<br />

saúde (incluindo a avaliação de projectos<br />

e modelos de gestão, tecnologias, terapias<br />

ou fármacos), assim como ampliar a<br />

nossa visão critica em relação aos<br />

processos de geração de evidência e<br />

aos momentos da sua respectiva<br />

interpretação. Só esta clarificação de<br />

abordagens de avaliação poderá auxiliar<br />

a legitimação de uma qualquer proposta<br />

social de mudança da lógica de oferta<br />

dos serviços de saúde.<br />

A reflexão objectiva e pragmática que<br />

se pretende para já introduzir é a<br />

de que há diferenças metodológicas e<br />

de propósito social entre estudos de<br />

avaliação, programas de monitorização<br />

e projectos de investigação. Os outros<br />

elementos do modelo aqui proposto<br />

(figura 1) poderão ser discutidos em<br />

texto subsequente, se tal for considerado<br />

oportuno. Portanto, este texto apresenta<br />

apenas o início de uma reflexão sobre<br />

esta questão fundamental para o apoio ao<br />

desenvolvimento estrutural dos serviços<br />

de saúde em Portugal.<br />

Tudo começa com uma clarificação de<br />

atitude. Ou seja, há que fazer um esforço<br />

para abandonar a perspectiva (muitas<br />

vezes inconsciente) segundo a qual se<br />

assume que, por exemplo, uma avaliação<br />

ou um programa de monitorização<br />

tem o propósito exclusivo de controlo<br />

social. Esta atitude é profundamente<br />

contraproducente para o<br />

desenvolvimento da gestão dos serviços<br />

de saúde. Os actos de avaliação os<br />

processos de monitorização ou os<br />

projectos de investigação não são formas<br />

de controlar. São, antes, contributos para<br />

a partilha de 'boas práticas' entre o<br />

maior número possível de profissionais<br />

de saúde. Deverão ser o reforço do<br />

positivo em detrimento do negativo.<br />

Ou seja, são uma prática da disseminação<br />

e promoção do que se faz bem em<br />

detrimento da promoção exclusiva e, por<br />

vezes irresponsável, do que se faz mal.<br />

Porquê reflectir sobre<br />

as práticas de avaliação<br />

dos serviços de saúde?<br />

Um pouco por toda a Europa, verifica,se<br />

o estabelecimento de processos de<br />

partilha de 'boas práticas' na prestação<br />

e gestão de cuidados de saúde como<br />

uma forma de contribuir para o<br />

desenvolvimento dos respectivos serviços<br />

nacionais. Esta postura, como vamos<br />

verificar, reforça uma lógica democrática<br />

que envolve os prestadores (profissionais<br />

de saúde) e os utilizadores (utentes) dos<br />

serviços de saúde.<br />

É universalmente aceite que a partilha<br />

das 'boas práticas' é prioritária para<br />

a modernização dos sistemas de saúde<br />

e do nível técnico das suas profissões.<br />

Esta partilha de 'boas práticas' deve<br />

contribuir para que as organizações de<br />

saúde desenvolvam uma postura de auto,<br />

avaliação constante com o objectivo<br />

fundamental de recolher informação<br />

para a decisão no sentido da melhoria<br />

contínua centrada na perspectiva do<br />

utente (portanto, nas suas necessidades).<br />

Assume,se, assim, que as políticas e<br />

práticas dos serviços de saúde não podem<br />

ser simplesmente 'auto,justificadas',<br />

o que origina a reflexão e o<br />

estabelecimento de diversas formas<br />

de avaliação facilmente identificáveis<br />

um pouco por toda a União Europeia.<br />

As abordagens da Avaliação<br />

Vários governos europeus (incluindo<br />

Os actos<br />

de avaliação<br />

os processos de<br />

monitorização<br />

ou os projectos<br />

de investigação<br />

não são formas<br />

de controlar.<br />

São, antes,<br />

contributos<br />

para a partilha<br />

de 'boas<br />

práticas'<br />

entre o maior<br />

número possível<br />

de profissionais<br />

de saúde.<br />

ffi GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR ~


( ... )<br />

investigar<br />

a partir de<br />

resultados de<br />

monitorização<br />

eficiente<br />

é meio caminho<br />

para resultados<br />

que constituam<br />

uma mais-valia<br />

para a decisão<br />

de gestão.<br />

o português) têm tentado introduzir nos<br />

seus serviços nacionais de saúde uma<br />

'cultura de gestão' modelada no sector<br />

empresarial com o objectivo principal<br />

de contribuir para o controlo da despesa<br />

pública em cuidados de saúde. Esta<br />

intenção tem 'esbarrado' em vários<br />

fenómenos (muitos de natureza cultural)<br />

cuja influência e autoridade se têm<br />

sobreposto à dos responsáveis pela<br />

reforma dos serviços de saúde assim<br />

como à tentativa de aplicar a avaliação<br />

focalizada na eficiência, eficácia e<br />

produtividade dos cuidados e das<br />

tecnologias da saúde.<br />

Neste contexto, sentir,nos,famos<br />

à vontade para afirmar que os propósitos<br />

da avaliação dos serviços de saúde<br />

são muito simples: tratar,se,ia de<br />

assegurar a identificação dos seus graus<br />

de eficiência e eficácia e responsabilizar<br />

os profissionais pela utilização dos<br />

recursos disponibilizados para a saúde.<br />

Porém, esta é apenas a resposta do<br />

senso comum. A reflexão mais profunda<br />

obriga,nos a ir para além do aparente e<br />

a alargar o nosso entendimento dos<br />

propósitos da avaliação dos serviços<br />

de saúde de forma a esclarecermos a<br />

sua natureza abrangente e respectivo<br />

potencial para o planeamento e<br />

desenvolvimento dos serviços de saúde<br />

no seu Todo. Passemos, assim, a uma<br />

discussão sumária de alguns dos elementos<br />

apresentados no modelo aqui proposto.<br />

Avaliar e Monitorizar<br />

Ao contrastarmos os processos de avaliar<br />

e monitorizar, poderá parecer que<br />

estambs a falar da mesma coisa. Porém,<br />

há uma clarificação conceptual<br />

fundamental que temos que reforçar e<br />

9ue definir aqui:_'.!!lonitorizar é o processd<br />

de registar o que está a acontecer)<br />

- 1<br />

documentando a evoluçao em algum.<br />

período de tempo e, assim, identificandd<br />

os efeitos ( as consequências) da adopção<br />

~a prática monitorizada 1<br />

Avaliar e Investigar<br />

Ao contrastarmos os processos de avaliar<br />

e investigar, estamos a fazer a seguinte<br />

clarificação conceptual fundamental:<br />

investigar é o processo de identificar<br />

e explicar as causas dos efeitos (das<br />

consequências) da prática adaptada e<br />

a ser avaliada apoiando,nos na infor,<br />

mação gerada a partir do processo de<br />

monitorização, portanto interpretando,a<br />

à luz de metodologias cientificamente<br />

validadas. De forma distinta,<br />

a monitorização começa pelo desejo<br />

de simplesmente sabermos o quê está<br />

a acontecer (as consequências) em<br />

contraste com a investigação que começa<br />

com perguntas (de investigação)<br />

no sentido de entendermos porquê está<br />

acontecer (as causas) indiciadas através<br />

da reflexão inicial de como será possível<br />

investigar (explicar) tal fenómeno.<br />

Portanto, um processo de monitorização<br />

permite recolher informação sobre a<br />

evolução de determinada inovação,<br />

por exemplo uma nova forma de marcar<br />

consultas externas. Poderemos então,<br />

através do processo de monitorização,<br />

verificar que a adesão é muito baixa<br />

em um período de seis meses. Quando<br />

perguntamos porquê (por que é a<br />

adesão baixa?), teremos então que iniciar<br />

um processo de investigação. Assim,<br />

estes são dois processos que resultam<br />

de uma relação directa entre si, mas<br />

que são distintos e que devem ser<br />

'operacionalizados' em fases distintas,<br />

possivelmente por diferentes pessoas,<br />

pois não é obrigatório que quem recolhe<br />

a informação que identifica determinada<br />

tendência (portanto, monitoriza) tenha<br />

a capacidade (técnica e/ou logística)<br />

de a explicar (investigar) sequer com<br />

os mesmos dados que a permitem<br />

reconhecer.<br />

O processo de investigar será tanto mais<br />

eficaz quanto a eficácia do processo<br />

de monitorizar que permite definir a<br />

sua direcção. É a partir da eficiente<br />

monitorização que podemos identificar<br />

as perguntas de investigação correctas e,<br />

à partida, direccionadas para explicar um<br />

problema concreto. O contrário também<br />

é um dado adquirido: a deficiente<br />

monitorização (por exemplo, parcial<br />

ou redutora) ou até a sua ausência<br />

em absoluto levará à definição de<br />

perguntas de investigação deficientes<br />

que dificilmente permitirão chegar a<br />

respostas válidas ou pragmáticas que<br />

permitam identificar ou considerar<br />

alternativas concretas para corrigir<br />

os fenómenos considerados.<br />

Por outras palavras, investigar a partir<br />

de resultados de monitorização eficiente<br />

é meio caminho para resultados<br />

que constituam uma mais,valia<br />

para a decisão de gestão.<br />

Investigar a partir 'do nada' obriga,nos<br />

à reflexão seguinte.<br />

Avaliação, valores e ideologia<br />

A forma mais simples e concreta de<br />

esclarecermos este contraste de conceitos<br />

é quando identificamos um 'estudo'<br />

publicado (e que pode na verdade ser<br />

apenas o resultado de uma monitorização<br />

portanto sem estar complementado com<br />

o respectivo processo de investigação)<br />

que parece começar com questões<br />

(motivações) do género 'o projecto x<br />

está a funcionar mal, pois está?' ou, pelo<br />

contrário, 'o projecto y está a funcionar<br />

bem, pois está?'<br />

Não é simples nem fácil combater este<br />

fenómeno sendo que apenas a garantia<br />

da pluralidade de visões e actores da<br />

avaliação poderá contribuir para contra,<br />

balançar esta tendência que, no fundo,<br />

é apenas humana. Na verdade, se fosse<br />

nossa pretensão complicar este texto,<br />

poderíamos aqui iniciar uma divagação<br />

intelectual sobre 'pesquisa e verdade'<br />

apoiando,nos em autores como Karl<br />

Popper, lmre Lakatos ou Thomas Kuhn.<br />

No entanto, e uma vez que o propósito<br />

deste texto é pragmático, ficamos pela<br />

constatação de que nesta relação entre<br />

avaliação e os valores dominantes nos<br />

actores da avaliação há um reflexo<br />

complexo da relação de ideias (de facto<br />

'ideais') que informam as ideologias<br />

contemporâneas. Nada mais natural<br />

nas sociedades humanas. O importante<br />

parece ser fomentar a pluralidade das<br />

avaliações e, acima de tudo, procurar<br />

expor as perguntas (de investigação)<br />

com honestidade intelectual. Pela sua<br />

subjectividade e potencial complexidade,<br />

poder,se,á apenas acrescentar (com Karl<br />

Popper) que toda a avaliação (investigação)<br />

implica 'julgamentos' (ou juízos de<br />

valor) e que a neutralidade absoluta é<br />

inexistente. Desta forma, a pluralidade<br />

de avaliações (diferentes pessoas<br />

e diferentes organizações) será a melhor<br />

forma de gerar o debate e submeter<br />

os autores das avaliações à critica<br />

concorrencial da avaliação plural.<br />

Avaliar e 'cont rolar'<br />

Ao reflectirmos sobre a abordagem de<br />

avaliar para controlar, estamos a propor<br />

a seguinte clarificação conceptual:<br />

a avaliação com o intuito de controlar<br />

é o processo de identificar em pormenor<br />

a utilização dos recursos investidos<br />

na organização ou no programa a ser<br />

avaliado apoiando,nos, por exemplo,<br />

na informação financeira e de produção,<br />

por um lado, e na informação do impacte<br />

sobre a população, por outro. Estes<br />

dois tipos de informação teriam sido<br />

gerados a partir do respectivo processo<br />

de monitorização (portanto, estabelecido<br />

para este efeito no início da actividade<br />

da organização ou programa).<br />

Habitualmente, esta abordagem da<br />

avaliação resulta em decisões sobre o<br />

financiamento e/ou renovação/cessação<br />

de contrato com a organização avaliada.<br />

Aqui é crucial que se reforce a seguinte<br />

ideia: a avaliação com o propósito de<br />

controlar, sendo legitima e indispensável,<br />

tem necessariamente de avaliar dois<br />

aspectos: os resultados da prática da<br />

organização de saúde (ou um programa<br />

especifico) e o contexto em que estes se<br />

verificaram. Assim, toda a avaliação com<br />

o intuito de controlar o 'valor' (ou 'mais,<br />

valia') da prática de uma organização ou<br />

de um programa deve, necessariamente,<br />

possuir dados concretos sobre estes dois<br />

aspectos: os resultados e o contexto.<br />

'Des,contextualizar' a prática (a acção)<br />

do contexto em que esta ocorre é<br />

desvirtuar a avaliação da primeira,<br />

tornando,a falsa e inútil no propósito<br />

de controlar o valor da utilização<br />

dos recursos postos à sua disposição.<br />

Portanto, esta 'des,contextualização'<br />

não promove a oportunidade de aprender<br />

sobre os efeitos do contexto nas<br />

dimensões do projecto avaliado e, mais<br />

frustrante, não permite aprender sobre<br />

a capacidade da organização obter<br />

impactos sobre o contexto (por exemplo,<br />

'ganhos em saúde').<br />

As avaliações com o propósito de<br />

controlar podem ser deturpadoras<br />

quando pretendem avaliar a 'gestão'<br />

(ou os 'gestores') simplesmente do<br />

ponto de vista dos resultados porque<br />

'encoraja' a organização avaliada a<br />

reportar ' so b retu d o ' os ' sucessos ' por<br />

forma a procurar garantir a continuidade<br />

(dos responsáveis e do financiamento)<br />

e ignora a relação dos resultados com<br />

o contexto onde estes foram alcançados.<br />

Na verdade, falhas e resultados adversos<br />

( ... )<br />

a pluralidade<br />

de avaliações<br />

(diferentes<br />

pessoas<br />

e diferentes<br />

organizações)<br />

será a melhor<br />

forma de gerar<br />

o debate<br />

e submeter<br />

os autores<br />

das avaliações<br />

à critica<br />

concorrencial<br />

da avaliação<br />

plural.<br />

ai] GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR ffi


I;<br />

li<br />

Um dos<br />

principais<br />

propósitos<br />

da avaliação<br />

de serviços<br />

de saúde,<br />

sobretudo<br />

no contexto<br />

dos serviços<br />

com carácter<br />

público e social,<br />

deveria ser<br />

o de promover<br />

a partilha das<br />

'boas práticas'<br />

entre todos<br />

os profissionais<br />

de saúde.<br />

em termos de impacte na população<br />

são de esperar em muitos contextos da<br />

acção das organizações de saúde. Neste<br />

contexto, porém, estes tenderão a ser<br />

'esquecidos' por todos, uma vez que não<br />

contribuem em nada para os objectivos<br />

das organizações (e pessoas) avaliadas.<br />

A deturpação surge então na medida<br />

em que nem os resultados são da<br />

única e exclusiva responsabilidade da<br />

organização (uma vez que o contexto<br />

tanto pode ter contribuído para os<br />

melhorar como para fazer precisamente<br />

o contrário), nem a incapacidade para<br />

atingir resultados pode ser atribuída<br />

única e exclusivamente à incompetência<br />

da organização ou à sua lógica de gestão<br />

(uma vez que os resultados esperados,<br />

caso tenham sido definidos, poderiam<br />

não ter levado em consideração<br />

o contexto onde esta teria que operar).<br />

Com esta problemática em mente, é<br />

indispensável para qualquer processo<br />

de avaliação para controlar que se<br />

defina a relevância do contexto para<br />

a interpretação dos resultados obtidos<br />

pela organização de saúde. No entanto,<br />

este é um grandioso desafio académico,<br />

científico e organizacional para<br />

os profissionais do sector da saúde,<br />

uma vez que as respostas académicas<br />

ou os modelos teóricos e instrumentos<br />

de avaliação para controlo que incluam<br />

a consideração da relação com<br />

o contexto estão ainda em fase<br />

de desenvolvimento internacional.<br />

A fonna como os sistemas de saúde têm<br />

ultrapassado esta dificuldade leva,nos<br />

à reflexão seguinte.<br />

Avaliação e 'boas práticas'<br />

Um dos principais propósitos da avaliação<br />

de serviços de saúde, sobretudo no<br />

contexto dos serviços com carácter<br />

público e social, deveria ser o de promover<br />

a partilha das 'boas práticas' entre todos<br />

os profissionais de saúde. As avaliações<br />

com este propósito levam em linha<br />

de conta o contexto social, político<br />

e económico em que a organização<br />

actua e procura essencialmente identificar<br />

os processos de inovação desde o<br />

seu planeamento à sua implementação,<br />

descrevendo todos os procedimentos<br />

e dificuldades encontradas nas diferentes<br />

fases assim como as formas como<br />

eventualmente foram ultrapassadas.<br />

Esta abordagem para avaliação de serviços<br />

de saúde permite fazer o escrutínio dos<br />

serviços de saúde e das suas práticas de<br />

forma a demonstrar que é possível 'fazer<br />

bem'. Esta ainda não é uma abordagem<br />

habitual em Portugal mas é urgente que<br />

se adopte, a exemplo de outros parceiros<br />

nossos da União Europeia. Ao publicar,se<br />

e disseminar,se avaliação de 'boas<br />

práticas' está também a promover,se<br />

a detecção da 'má prática' e a torná, la<br />

visível e 'interpretável' aos olhos daqueles<br />

que tiveram contacto com a 'boa prática'.<br />

Portanto, promovendo o contacto com<br />

a 'boa prática', está a promover,se a<br />

auto,denúncia da corrosão passiva dos<br />

valores da 'boa prática', porque se assume<br />

uma postura de pedagogia social para<br />

com a inovação em serviços de saúde.<br />

Resumem,se assim os princípios que<br />

a abordagem de uma avaliação de<br />

'boas práticas' adopta para alcançar<br />

os seus propósitos construtivos (adapt.<br />

de Alkin, 1990):<br />

• Atribui grande relevância ao debate<br />

ético e moral relativamente à acção<br />

dos serviços de saúde, procurando<br />

legitimar este tipo de preocupações;<br />

• Assume uma postura de cepticismo<br />

em relação ao modos e práticas<br />

dominadas por valores exclusivamente<br />

técnico,racionais;<br />

• Reconhece a influência dos<br />

processos do Poder, da ausência<br />

de acesso a estes e ao empowerment;<br />

• O desenvolvimento de diálogo<br />

genuíno entre utentes e profissionais<br />

e entre estes dentro da própria<br />

organização;<br />

• Reforça o propósito social das<br />

organizações e é cautelosa em relação<br />

à tendência e significado de demonstrar<br />

altos níveis de produtividade;<br />

• Encoraja a abertura e a aceitação<br />

das reclamações e críticas externas à<br />

organização como pistas para a melhoria<br />

contínua do nível dos serviços;<br />

• Aproxima os profissionais e<br />

os utentes construindo uma nova<br />

imagem das organizações em que<br />

profissionais e utentes são<br />

os elementos que, juntas, constituem<br />

a organização;<br />

A partir da adopção desta abordagem de<br />

avaliação, surge,nos um grande desafio<br />

que se apresenta a seguir.<br />

Gerar Evidência<br />

para a Avaliação<br />

O primeiro grande desafio para garantir<br />

a efectiva avaliação das boas práticas<br />

consiste na constituição de quadros<br />

de referência comuns para os diversos<br />

sectores e serviços de saúde nacionais<br />

incluindo estruturas de geração de<br />

evidência e processos regulares de tratar<br />

os conteúdos gerados por estas, assim<br />

como de disseminação (comunicação)<br />

dos resultados.<br />

É fundamental que as estruturas de<br />

geração de evidência tenham uma<br />

natureza constante e que não estejam<br />

subjugadas à lógica dos subsídios ou<br />

bolsas para actos únicos de avaliação.<br />

Na verdade é um claro desperdício de<br />

recursos se após uma avaliação não<br />

se propõem medidas rectificativas que<br />

deverão ser implementadas e avaliadas<br />

em devido tempo (por exemplo, um<br />

ano depois). Para tal é fundamental<br />

que estas estruturas organizacionais (por<br />

exemplo, agências de contratualização,<br />

centros de estudos avançados, comissões<br />

científicas, etc.) estejam apetrechadas<br />

com os recursos necessários a uma<br />

acção contínua de geração de evidência<br />

das boas práticas. Estes recursos<br />

não são apenas financeiros e humanos<br />

mas também políticos: as estruturas não<br />

podem depender da boa vontade dos<br />

responsáveis do 'ministério da altura',<br />

daí deverem ser estruturas financiadas<br />

por orçainentos partilhados por vários<br />

ministérios (por exemplo, Saúde,<br />

Solidariedade Social, Educação,<br />

Ambiente, Economia, Trabalho)<br />

e outras entidades sociais ou privadas.<br />

Por outro lado, ter as estruturas in place<br />

não será suficiente se estas não gerarem<br />

evidência coerente, inteligível e de apoio<br />

à actividade dos profissionais de saúde<br />

e para a satisfação das necessidades<br />

dos cidadãos. Esta ambição leva,nos<br />

necessariamente a ter que definir<br />

metodologias de trabalho para avaliação<br />

em termos de monitorização e/ou<br />

investigação claramente orientadas para<br />

processos de apoio contínuo à inovação<br />

na prestação e na gestão dos cuidados<br />

de saúde.<br />

Mas fica tudo por responder: é possível<br />

criar estas estruturas em Portugal?<br />

Para quando a transformação<br />

dos processos de avaliação em processos<br />

responsabilizados de reforma com<br />

as seguintes fases cíclicas e contínuas:<br />

investigação - recomendação -<br />

implementação - monitorização -<br />

investigação ...<br />

O debate<br />

Este texto apresentou a 1 ª parte de<br />

um modelo para a avaliação de serviços<br />

de saúde introduzindo, sumariamente,<br />

os propósitos principais da avaliação<br />

de serviços de saúde. Consideramos<br />

sucintamente as essências e diferenças<br />

entre diversas abordagens de avaliação,<br />

nomeadamente a distinção fundamental<br />

entre monitorizar e investigar.<br />

Integramos os propósitos da avaliação<br />

nas noções de 'controlo' e 'boas práticas'<br />

e apresentamos um número de princípios<br />

subjacentes à abordagem da avaliação<br />

através da promoção do debate entre<br />

os profissionais de saúde sobre as 'boas<br />

/<br />

praticas.<br />

. '<br />

Com estes conceitos em mente, e<br />

conscientes do perigo da utilização da<br />

avaliação para exercer uma deturpação<br />

planeada da opinião pública, propomos<br />

agora que o leitor contribua para<br />

o enriquecimento desta discussão<br />

no sentido de construirmos propostas<br />

concretas de formas de avaliação<br />

dos serviços de saúde em Portugal. cm><br />

Bibliografia de apoio para<br />

aprofundamento dos conceitos expostos<br />

Alkin, M. ( 1990) 'Debates in Evaluation'. Sage<br />

Publications: London.<br />

Eyken, Van der, W. (1992) lntroducing Evaluation.<br />

Bernard van Leer Foundation: The Hague.<br />

Guba, E. & Lincoln, Y. (1991) 'Effective Evalu a,<br />

tion'. Jossey bass: S. Francisco.<br />

Layder, D. (1993) 'New Strategies in Social Research'.<br />

Polity Press: Cambridge.<br />

Philips, C., Palfrey, C. & Thomas, P. (1994)<br />

'Evaluating Health and Social Care'. Macmillan:<br />

London.<br />

Robinson, R. & Le Grand (eds) (1994) 'Evaluating<br />

the NHS Reforms'. King's Fund Institute:<br />

London.<br />

* Doutor em Marketing Social e Promoção<br />

de Saúde - University of Manchester<br />

1<br />

(•••) é<br />

fundamental<br />

que as<br />

estruturas<br />

• • •<br />

organizacionais<br />

estejam<br />

apetrechadas<br />

com os recursos<br />

,. .<br />

necessarios<br />

a uma acção<br />

,.<br />

continua<br />

de geração<br />

de evidência<br />

das boas<br />

práticas.<br />

As estruturas<br />

não podem<br />

depender<br />

da boa<br />

vontade dos<br />

,. .<br />

responsaveis<br />

do 'ministério<br />

da altura'.<br />

1<br />

1<br />

'<br />

1<br />

1<br />

'<br />

'<br />

1<br />

rn GESTÃO HOSPITALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Variação na Codificação dos Procedimentos ICD-9-CM:<br />

As suas implicações para avaliação<br />

da utilização dos recursos hospitalares<br />

Por Clara E. Dismuke*<br />

A codificação dos procedimentos pela ICD--9--CM é<br />

um assunto ainda muito pouco estudado tanto em Portugal<br />

como no país de origem dos Grupos de Diagnósticos<br />

Homogéneos (GDHs), os Estados Unidos da América.<br />

Há certos códigos de procedimentos cuja codificação<br />

é obrigatória para efeitos de agrupamento dos GDHs.<br />

Mas existem muitos procedimentos que também utilizam<br />

recursos importantes e custosos mas cuja codificação<br />

é opcional. A variação na prática de codificação destes<br />

procedimentos prejudica a capacidade de avaliar a eficiência<br />

e a qualidade dos serviços prestados nos hospitais.<br />

Esperamos que os administradores hospitalares e<br />

os codificadores portugueses possam ter um papel<br />

importante na homogeneização das práticas de codificação<br />

e consequentemente nas estatísticas nacionais<br />

e eventualmente internacionais.<br />

Nos EUA,<br />

o pagamento<br />

que cada<br />

hospital<br />

recebe<br />

por um<br />

internamento<br />

é proporcional<br />

ao peso<br />

relativo<br />

atribuído<br />

aoGDH<br />

no qual<br />

este foi<br />

classificado.<br />

O<br />

s Grupos de Diagnósticos<br />

Homogéneos ( G D Hs) foram<br />

inventados nos Estados Unidos<br />

da América (EUA) constituindo,se<br />

fundamentalmente como um importante<br />

instrumento de auxílio à gestão<br />

hospitalar. O sistema consiste em<br />

agrupamentos de doentes do<br />

internamento que têm similaridades<br />

tanto do ponto de vista clínico como em<br />

termos do valor dos recursos consumidos<br />

no tratamento desses doentes. O episódio<br />

de internamento do doente é agrupado<br />

num GDH baseado nos códigos de<br />

diagnósticos e de procedimentos da ICD,<br />

9,cM conforme constam na folha de<br />

alta do doente depois da sua saída do<br />

hospital. Para além disso, outros factores<br />

como a idade, o sexo e o destino<br />

após a alta do doente podem afectar a<br />

classificação atribuída a cada caso.<br />

De acordo com Fetter ( 1991), este<br />

sistema foi utilizado pela primeira vez<br />

em 1983 como base para cálculo do<br />

pagamento prospectivo atribuído aos<br />

hospitais norte,americanos relativo aos<br />

beneficiários do programa federal para<br />

idosos (MEDICARE). Nos EUA, o<br />

pagamento que cada hospital recebe por<br />

um internamento é proporcional ao peso<br />

relativo atribuído ao GDH no qual este<br />

foi classificado. Pelo menos em teoria,<br />

esse peso deverá reflectir o custo<br />

relativo médio dos cuidados prestados em<br />

cada GDH num hospital eficiente. Desde<br />

1986 que os pesos relativos têm sido<br />

calculados utilizando os preços praticados<br />

pelos hospitais, padronizados pelos<br />

factores que podem afectar diferenças<br />

nos custos tais como o tipo de hospital<br />

(universitário ou não, rural ou urbano), a<br />

variação geográfica nos preços dos inputs<br />

assim como a proporção de doentes sem<br />

terceiro pagador. Em 1992, os pesos<br />

passaram também a englobar os custos de<br />

capital ( Carter e Rogowski, 1992).<br />

Portugal, o primeiro país da Europa<br />

a adoptar o sistema dos GDHs<br />

nacionalmente, recolhe esta informação<br />

desde 1989. Contudo, só a partir de 1997<br />

é que o Ministério da Saúde começou<br />

a utilizar este sistema para calcular uma<br />

percentagem dos orçamentos atribuídos<br />

aos hospitais públicos (Tranquada, et al.,<br />

<strong>2002</strong>).<br />

Entretanto, o sistema dos GDHs tem<br />

sido adoptado por muitos países, muito<br />

embora, em alguns casos, este sistema<br />

seja modificado por forma a melhor<br />

reflectir as particularidades clínicas e<br />

económicas dos diferentes sistemas de<br />

saúde. Mesmo assim, a difusão global<br />

do sistema deveria permitir comparações<br />

internacionais dos dados recolhidos nas<br />

folhas de alta. No entanto a informação<br />

codificada para efeitos de cálculo de<br />

reembolso financeiro é provavelmente<br />

insuficiente para avaliar a eficiência e a<br />

qualidade dos hospitais (Pouvourville e<br />

Minvielle, <strong>2002</strong>).<br />

No ano 2000, o sistema dos GDHs<br />

utilizado nos EUA englobava<br />

aproximadamente 224 GDHs baseados<br />

em códigos de procedimentos feitos no<br />

bloco operatório, 264 GDHs baseados<br />

em códigos de diagnósticos e apenas<br />

8 GDHs baseados em procedimentos<br />

efectuados fora do bloco operatório.<br />

Existem mais do que 4.000 códigos de<br />

procedimentos no total sendo que todos<br />

os códigos associados ao bloco operatório<br />

são de codificação obrigatória (para<br />

agrupamento em GDHs) mas apenas<br />

91 dos códigos não associados ao<br />

bloco operatório servem esse propósito<br />

(Hart e Parvis, 1999). Isto implica que<br />

a codificação dos procedimentos que<br />

não são obrigatórios para agrupamento<br />

poderá estar sujeita a uma grande<br />

variação consoante a cultura, treino e<br />

capricho dos codificadores.<br />

Esta potencial variação na prática de<br />

codificação dos procedimentos não,<br />

obrigatórios nos hospitais norte,<br />

americanos poderá ter implicações<br />

económicas importantes. Actualmente,<br />

o Center for Medicare and Medicaid<br />

Services ( CMS), a entidade<br />

governamental que efectua os reembolsos<br />

do programa MEDICARE, está a propor<br />

reembolsar os hospitais pela utilização<br />

de novas tecnologias desde que estas<br />

resultem em custos excessivos (i.e.<br />

custos acima da média para o GDH<br />

ou GDHs relevantes). É obvio que<br />

muitas tecnologias são utilizadas em<br />

GDHs classificados como "médicos" e<br />

consequentemente não há obrigação<br />

de codificar os procedimentos que<br />

involvem a utilização destas tecnologias.<br />

Se os codificadores não reconhecerem<br />

a necessidade de codificar estes<br />

procedimentos, o hospital corre o risco<br />

de perder pagamentos devidos pela<br />

utilização destas tecnologias.<br />

O CMS também está preocupado com<br />

a actualização do já antiquado e quase<br />

esgotado sistema dos códigos de<br />

procedimento ICD,9,CM. Esta agência<br />

está a avaliar a capacidade de adoptar a<br />

sistema ICD, 10,pcs recomendado pela<br />

Organização Mundial da Saúde e já<br />

utilizado em alguns países. Enquanto<br />

que o ICD,9,CM permite um maximo<br />

de 10,000 códigos de procedimento,<br />

a proposta da ICD, 1 Q, PCS inclui<br />

197,769 códigos de procedimento e tem<br />

potencial para incluir ainda mais. Tanto<br />

a American Hospital Association tal<br />

como a Arnerican Health Information<br />

Management Association apoiam a<br />

adopção do I CD, 1 O, PCS mas a poderosa<br />

American Medical Association<br />

(Sindicato dos médicos<br />

norte,americanos) tem a opinião que o<br />

ICD, 10,pcs vai trazer mais burocracia<br />

a um sistema de saúde já bastante<br />

complexo (Federal Register, 7 de<br />

Setembro de 2001).<br />

Para termos urna ideia sobre o alcance<br />

deste problema de codificação podemos<br />

comparar a informação que consta dos<br />

GDHs com uma fonte alternativa de<br />

informação. O sistema norte,americano<br />

de códigos de receita (UB 92) utilizado<br />

para calcular a facturação a imputar<br />

a cada doente fornece também<br />

informação relativa à utilização de<br />

alguns procedimentos. Para o caso dos<br />

hospitais do estado de Washington,<br />

EUA, essa informação é disponibilizada<br />

por forma a permitir essa comparação.<br />

Assim, comparámos a informação de<br />

dois recursos hospitalares cuja<br />

codificação não é obrigatória no sistema<br />

de GDHs (TAC, Tomografia Axial<br />

Computorizada e RMN, Ressonância<br />

Magnética Nuclear) assim como a<br />

informação relativa a um procedimento<br />

obrigatório que não é feito no bloco<br />

operatório (litotripsia extra,corporal).<br />

Utilizando dados do ano de 1997 que<br />

incluem todas as altas hospitalares deste<br />

estado, encontrámos aproximadamente 3<br />

vezes mais códigos de receita para o TAC<br />

do que códigos de procedimento. Para<br />

a RMN, encontrámos quase o dobro do<br />

número de códigos de receita do que<br />

códigos de procedimentos da ICD,9,CM.<br />

Já para a litotripsia, cuja codificação é<br />

obrigatória, encontramos praticamente o<br />

mesmo número de códigos de receita e<br />

de procedimento. Aparentemente, como<br />

a codificação dos procedimentos não<br />

obrigatórios é inconsequente para o<br />

reembolso dos hospitais, estes não fazem<br />

qualquer esforço no sentido de garantir<br />

que haja coincidência entre a real<br />

utilização destes recursos e a informação<br />

constante da base de dados dos GDHs.<br />

Uma vez que os dados nacionais<br />

norte,americanos relativos à utilização<br />

de recursos hospitalares se baseiam<br />

exclusivamente nos códigos de<br />

procedimento, poderá haver um grande<br />

enviesamento dos resultados de<br />

Em Portugal,<br />

só a partir<br />

de 1997<br />

,<br />

e que<br />

o Ministério<br />

da Saúde<br />

começou<br />

a utilizar<br />

este sistema<br />

para<br />

calcular uma<br />

percentagem<br />

dos orçamentos<br />

atribuídos<br />

aos hospitais<br />

públicos.<br />

rn GESTÃO HOSPfTALAR<br />

GESTÃO HOSPITALAR rn


Esperamos<br />

que os<br />

administradores<br />

hospitalares e<br />

os codificadores<br />

portugueses<br />

possam ter<br />

um papel<br />

importante na<br />

homogeneização<br />

das práticas de<br />

codificação<br />

e, por<br />

"'<br />

consequencia, .<br />

nas estatísticas<br />

• •<br />

nacionais e<br />

eventualmente<br />

internacionais.<br />

Bibliografia<br />

Carter, G.M. and J.A. Rogow ki (1992) "How<br />

recalibration method, pricing and coding<br />

affecr DRG weighrs", Health Care Financing<br />

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Human Services, Center for MeJicare and<br />

Medicaid Services, 42 CFR Part 412, Mcdicarc<br />

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System: Final Rule, September 7, 200 1.<br />

Ferter, R.B., Brand, O.A. e Gamache,<br />

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Forgione, O.A. and C.M. D'Annunzio ( 1999)<br />

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Hart, A.C. and S.R. Parvis ( 1999) DRG<br />

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Jacobzone, S., Moise,P. e L. Moon (<strong>2002</strong>)<br />

Üpening The Block Box : What Can Be<br />

Learned From a Disease-Based Approach!<br />

Measuring Up: l mproving Health Sysrem<br />

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Pouvourville, G . e E. Minvielle (<strong>2002</strong>)<br />

"Mcasuring rhc Q ualiry of Hospital Carc The<br />

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Tranquada, S., Henriques, M., Moura, A. e<br />

P. Barisra (<strong>2002</strong>) Porrugal's Public Hospital<br />

Fimmcing Model: A G lobal Perspecrive, posrer<br />

apresentado no 4th European Confercnce on<br />

Healrh Economics, Paris.<br />

a3 GESTÃO HOSPITALAR<br />

investigações clínicas e económicas que<br />

utilizem esta base de dados para tirar<br />

algumas conclusões relativamente à<br />

utilização e ou eficácia da TAC,<br />

da RMN ou de qualquer outro<br />

procedimento não obrigatório para<br />

agrupamento em GDHs.<br />

Este mesmo problema poderá também<br />

estar presente nos dados relativos a<br />

outros países, importando perceber para<br />

cada caso o enquadramento específico e<br />

o modo como este poderá condicionar<br />

a recolha da informação. Não havendo<br />

esse cuidado, as comparações nacionais<br />

ou internacionais poderão resultar<br />

completamente enviesadas. A título de<br />

exemplo, a OCDE tem insistido na<br />

necessidade de avaliar diferenças na<br />

utilização de tecnologias entre países.<br />

Para esse fim podíamos utilizar a<br />

informação relativa aos procedimentos<br />

utilizados para diagnóstico das Doenças<br />

Cerebrovasculares. Esta doença tem uma<br />

das maiores taxas de mortalidade a nível<br />

mundial, e exige um diagnóstico preciso<br />

que envolve alta tecnologia tal como a<br />

Tomografia Axial Computorizada (TAC)<br />

ou a Ressonância Magnética Nuclear<br />

(RMN). Embora existam experiências<br />

clínicas com um número reduzido de<br />

doentes escolhidos para avaliação antes<br />

da difusão das tecnologias, não há<br />

estudos de utilização destas tecnologias<br />

em grandes populações (J acobzone,<br />

Moise, e Moon, <strong>2002</strong>). Seria pois<br />

natural que se utilizassem as estatísticas<br />

nacionais para efectuar comparações<br />

internacionais relativamente à utilização<br />

destas tecnologias.<br />

Quando efectuámos essa comparação<br />

entre Portugal e os EUA chegámos<br />

a resultados bastante díspares. Para os<br />

EUA utilizámos uma base de dados que<br />

tem uma amostra significativa das altas<br />

hospitalares norte,americanas (Health<br />

Care Utilization Project) e para Portugal<br />

uma base de dados nacional fornecida<br />

pelo IGIF que inclui todos os hospitais<br />

públicos. Utilizando o GDH 14 ,<br />

Doenças Cerebrovasculares excepto AIT<br />

e para o ano de 1995 concluímos que<br />

enquanto mais de 60% destes doentes<br />

receberam a TAC em Portugal, apenas<br />

aproximadamente 23 % a receberam nos<br />

EUA. Como já anteriormente referimos<br />

(e comprovámos para o caso do estado de<br />

Washington) existe provavelmente uma<br />

"sub,codificação'' substancial nos dados<br />

norte,americanos. Se extrapolarmos os<br />

dados de Washington para o total dos<br />

EUA, então a utilização do TAC seria 3<br />

vezes superior, isto é, acima da registada<br />

para o caso português.<br />

Daqui resulta claro que existe a<br />

necessidade de se harmonizarem as<br />

estatísticas dos diferentes países. A<br />

este respeito refira ~ se que aparentemente<br />

Portugal está numa posição privilegiada<br />

para liderar esse processo. Não só pela<br />

já longa experiência que tem com o<br />

sistema dos GDHs mas também porque,<br />

por consenso entre os codificadores<br />

portugueses, o número de procedimentos<br />

registados nos hospitais portugueses vai<br />

para além dos procedimentos de<br />

codificação obrigatória. Tal poderá<br />

dever~se ao facto de essa codificação<br />

em Portugal ser feita por médicos<br />

(logo, mais sensíveis e conhecedores dos<br />

aspectos relevantes), por contrapartida,<br />

por exemplo, aos EUA, onde tal<br />

não acontece. Essa experiência pode<br />

ser usada para, em conjunto com os<br />

potenciais utilizadores dessa informação,<br />

se afinar a nível nacional uma listagem<br />

dos procedimentos de registo não,<br />

obrigatório que deverão ser codificados.<br />

Uma vez na posse de tais regras seria<br />

possível actuar junto dos organismos<br />

internacionais (eg. OCDE, OMS, etc)<br />

e propor justificadamente uma prática<br />

comum a nível mundial.<br />

A codificação dos procedimentos ICD,<br />

9,cM não obrigatórios tem sido um<br />

assunto pouco estudado na literatura<br />

de medicina clínica assim como na<br />

economia da saúde mas a sua validade<br />

é imprescindível para permitir estudos<br />

credíveis de avaliação da qualidade e<br />

eficiência dos hospitais. Esperamos que<br />

os administradores hospitalares e os<br />

codificadores portugueses possam ter um<br />

papel importante na homogeneização<br />

das práticas de codificação e<br />

consequentemente nas estatísticas<br />

nacionais e eventual @ri~--------.,<br />

internacionais. <br />

""' ~ r" • i ( '<br />

* Professora de Economia -:Z-rJ (J t1,-... O. q.: ~';2.__"Ç--<br />

Escola de Economia e <strong>Gestão</strong>, Universidade do Mikho,<br />

4710-057 Braga Portugal, em il: dismuke@eeg.uminho.pt<br />

e Department of Health Admi stration and Policy, Medical<br />

University of South Carolina, e ail: dismuke@musc.edu.<br />

Agradeço ao IGIF o fornecime o dos dados, ao FC~ -~-- ~ ·<br />

pelo apoio financeiro (POCTl/3 / 2000),e ao õr.<br />

Fernando Lopes, Codificador-A ditor do Hospital São João, '<br />

pela sua ajuda técnica e pelos eu~comentários. ·<br />

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Roche<br />

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