Revista Curinga Edição 18

revistacuringa

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Revista Laboratório | Jornalismo | UFOP

Agosto de 2016 | Ano VI

18


Expediente

Curinga é uma publicação da disciplina Laboratório Impresso II.

Revista produzida pelos alunos do curso de Jornalismo da Ufop.

Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA).

Departamento de Ciências Sociais, Jornalismo e Serviço Social

(DECSO).

Universidade Federal de Ouro Preto.

Professores Responsáveis

Frederico Tavares - 11311/MG (Reportagem)

Talita Aquino (Planejamento Visual)

André Luís Carvalho (Fotografia)

Editora-Geral

Lara Cúrcio

Editora de Texto

Thaís Medeiros

Editora de Arte

Camila Gonçalves

Editor de Fotografia

Thiago Barcelos

Editores de Multimídia

Mariana Rennó e Fábio Melo

Revisores

Ingridy Silva e William Vieira

Redatores

Diagramadores

Fotógrafos

Rodrigo Almeida, Lívia Monteiro,

Wendell Soares, Francielle

Oliveira, Cleo Silva, Anna Flávia

Monteiro, Luísa Rodrigues, Caio

Aniceto, Brunello Amorim, Igor

Capanema, Gabriel Campbell, João

Vitor Marcondes

Ana Rafaela, Clarissa Castro,

Moises Mota, Gabriela Santos,

Larissa Pinto, Laene Medeiros,

Lucas Campos, Mariana Araújo,

Rayssa Amaral, Júlia Cabral,

Gabriella Pinheiro, Letícia Cristiele

Eduardo Rodrigues, Carol Rooke,

Lorena Lima, Taíssa de Faria,

Monique Torquetti, Gabriela

Ramos, Silvia Cristina Silvado,

Thatyanna Mota, Mariana Macedo

Botão, Aleone Higidio, Caroline

Hardt, Anna Chaves

Monitores

Felipe Augustos Passos e Catarina Barbosa

Endereço:

Rua do Catete, 166 - Centro

35420-000, Mariana - MG

Julho/2016

IMPRESSÃO: MJR EDITORA GRÁFICA

Rua Carlos Pinheiro Chagas, 138 - Ressaca

CEP: 32.113-460 - Contagem - MG

tel: (31) 3357-5777


Editorial

Em sua infinitude, o tempo abriga o

que é finito. O movimento dos astros

interfere desde as estações do ano à

maneira como nos comportamos. O anseio

humano pela sensação de controle sobre

o tempo data de cerca de 600 anos a. C.

- com o surgimento do relógio de Sol.

A tecnologia avança e molda relações.

Cotidianamente somos circundados pela

fluidez das realidades, sejam elas

percebidas ou imaginadas. E por falar

em imaginação, já pensou como seria

uma viagem ao passado ou se pudesse

conhecer o futuro?

A forma como encaramos e nos inserimos

no mundo desconstrói ou reforça tabus

arraigados na sociedade. O tempo deixa

marcas na pele e na memória, mas também

pode fazê-las se esvaírem com a idade.

À medida que você cresce, percebe que o

tempo se torna a grandeza mais cobiçada

e mais temida. Tudo é medido por esse

fator. Das horas de espera na fila do

banco aos minutos preciosos do almoço.

Com o passar dos anos, as roupas já

não são mais as mesmas, os amigos

ganham novos rostos, as comidas, novos

sabores. Os sonhos e ambições, novos

destinos. A vida, novas pessoas.

O jornalismo é pautado pelo tempo. E

pela novidade. O fantasma do fechamento

está sempre presente nas redações, e

na Curinga não é diferente. Prazos

precisam ser cumpridos e às vezes é

necessário correr para encontrar a

fonte ideal ou tirar a foto no instante

preciso. O relógio não para, a produção

a

também não. A 18 edição da Curinga

convida, mesmo os mais incrédulos, a

perceberem que nada permanece intacto,

ileso às engrenagens do tempo.

Lara Cúrcio e Thaís Medeiros


EU

NO

MUNDO


Identidade

Que sexo

somos

Falar sobre sexualidade vem se tornando cada vez mais comum.

Atualmente a informação é abundante. Materiais explicativos

sobre sexo e contato com vídeos pornográficos são muito mais

acessíveis que há uma geração. O assunto é discutido mais

abertamente nas escolas, na televisão e os pais também estão

mais abertos. Em estudo de 2013, realizado pela Organização das

Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)

em 13 capitais brasileiras e no Distrito Federal, mais de 40% dos

adolescentes revelaram que obtêm informações sobre sexo em

casa. Cerca de 2.700 dos quatro mil pais ouvidos na pesquisa

confirmaram que já falaram sobre o tema com seus filhos.

Apesar desse cenário, o assunto ainda é tabu para muita

gente. As sociedades são carregadas de valores que se

refletem na educação e na percepção das pessoas, criando

constrangimentos para a vivência sexual.


Texto: Rodrigo Almeida

Foto: Anna Chaves

Arte: Moises Mota

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Aceitação pessoal

Somos seres sexuais desde o nascimento. Logo na infância,

passamos por fases de descoberta dos órgãos genitais; na

adolescência, explosão hormonal e insegurança exagerada; na

fase adulta, o amadurecimento e a afirmação tanto da orientação

sexual como da forma de lidar com os impulsos sexuais.

O jornalista Gláucio Santos, 38, tinha dificuldades de falar

sobre sexo dentro de casa durante sua adolescência. “A forma

como a sexualidade era tratada nessa época era o que tensionava

esse campo para mim. Até hoje ainda existe um desconforto

ao tratar do assunto com minha família, algo que não

acontece no meu dia a dia.”

Gláucio conta que seu processo de amadurecimento foi

fundamental para que se aceitasse como homossexual. “Como

havia conflito dentro da família e isso sempre me deixava desconfortável,

eu buscava refúgio no estudo, por exemplo. Somente

depois de adulto, vivendo numa cidade e no trabalho

que permitiam que eu vivesse minha sexualidade e pudesse

me distanciar desse ambiente familiar, que me senti confiante.

A aceitação foi fácil.”

A sexóloga Josi Mota diz que,

apesar dessa aceitação ser um

processo lento, a insegurança

continua presente em todas

as fases da vida. Para ela, “a

boa prática sexual é quando

as pessoas se relacionam

com um ser humano, vivo,

adulto e com consentimento,

independente do sexo”.

Tabu social

Conversar sobre a sexualidade feminina também é um

incômodo no Brasil. Boa parte das mulheres cresce sem ter

consciência do corpo. A sexóloga Josi relata que atende várias

mulheres que “não conhecem como funciona a vagina delas,

mulheres que não aprenderam a explorar o próprio corpo”.

A produtora cultural Claudia de Cassia, 49, reafirma a

constatação da sexóloga ao dizer que só foi descobrir o orgasmo

depois dos 30 anos de idade. “Eu já era mãe, estava

divorciada e tinha uma carreira, era uma mulher mais confiante

e foi aí que descobri a masturbação. Os valores morais

com os quais cresci me impediam de trocar de parceiro toda

hora. [Depois do divórico] ter um contato maior com minha

sexualidade foi um caminho natural.”

A estudante de História Keren Amorin, 18, conta que sempre

houve dificuldade para conversar sobre o assunto dentro

de casa. “Por minha família ser sexualmente conservadora e

religiosa, o assunto surgia do nada e era logo encerrado com

um ‘não faça!’. Os homens só querem usá-la.”

Em 2016, na pesquisa Mosaico 2.0, do Instituto de Psiquiatria

do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo (USP), ficou constatado que 75%

das mulheres ainda perdem a

virgindade com um namorado

e que elas têm vidas sexuais

mais pacatas que a dos homens.

Parte disso pode ser pelo fato

de as mulheres, muitas vezes,

serem protegidas pelas famílias

de maneira excessiva.

Keren e Claudia fazem parte desse grupo

majoritário de mulheres relatado na pequisa. As duas se iniciaram

com namorados. Elas acreditam que o sexo não deve

estar dissociado do sentimento. Para a estudante, “é fundamental

que o sexo seja impulsionado pelo sentimento”. A produtora

faz uma crítica mais embasada no sociólogo polonês

Zygmunt Bauman. Segundo ela, “não é legal a flexibilização

moral que algumas pessoas têm ao separar o sexo do sentimento.

Viver o sexo pelo sexo, para mim, não agrega e nos faz

cada vez mais líquidos”.

Sexo e educação

A sexóloga Josi acredita que a escola deve ter cuidado ao

tratar sobre sexo. Para ela, “deve-se iniciar o assunto, pois assim

a escola deixa os casais jovens mais tranquilos para terem

essa conversa. Muitas vezes os pais não têm tato para tratar de

sexo com os filhos e acabam vendo o problema de uma forma

superficial e sem a sensibilidade necessária”.

Além disso, há uma distinção cultural na criação de meninos

e meninas. Os meninos são educados envoltos por uma

casca impenetrável e infalível. Quando o assunto é sexo, falhar

não é uma alternativa. Tanto que esse é o maior medo

do brasileiro até hoje. A pesquisa Mosaico 2.0 indicou que o

grande temor do homem é não conseguir satisfazer a parceria.

Ao mesmo tempo, o levantamento do estudo mostra que a

percepção feminina de ligar a relação sexual com as relações

afetivas vem diminuindo: 57,1% das mulheres

disseram que fariam sexo com outra pessoa só

por atração.

Há uma mudança comportamental em curso

na sociedade. As pessoas veem o tema com

mais liberdade do que antigamente e as famílias

estão mais abertas ao diálogo. Mesmo com

esses avanços, ainda há um caminho longo

a ser percorrido. Para que haja uma

transformação mais significativa

a escola deve fomentar o diálogo

entre pais e filhos e entre

os próprios casais.


Comecei a namorar muito cedo, com 13 anos, e o desejo e a vontade de iniciar sexualmente

só apareceram por volta dos 15. Por ser criada numa família conservadora, o diálogo era escasso,

surgia do nada, na maioria das vezes, e era logo encerrado. Mesmo assim sempre tive

curiosidade. Conversava muito com minhas amigas, éramos um grupo de oito meninas e

quase todas namoravam. Nossa vontade existia, mas apenas uma menina iniciou mais cedo,

aos 15 anos. Ela não falava sobre o assunto, tinha muito receio do que as pessoas pensariam.

Eu também pensava assim! Nessa época, me aventurava em preliminares mais quentes, até

cheguei a fazer sexo oral no meu namorado. Quando era a vez dele, eu negava. Sentia medo de

me entregar. Eu pensava que, se desse essa liberdade, talvez não conseguiria me segurar. Hoje,

mudei de cidade e ainda não tive intimidade para me relacionar com nenhuma outra pessoa. Me

sinto mais livre por poder falar sobre o assunto.

Keren Amorim, 18 anos

Eu tinha um olhar diferenciado para os meninos desde os 10 anos. Sempre me foi passado que

o sexo era algo pecaminoso, sujo, e deveria ser feito para fins de procriação. Falar sobre isso era

tabu. Existia uma tensão muito forte na minha adolescência por minha família ser muito religiosa

e ativa na comunidade. Era algo que me incomodava. Namorei meninas mesmo sabendo

que gostava de rapazes. Por mais que tentasse esconder, a sexualidade extrapolava os poros

e as pessoas ao meu redor percebiam. Aos 22 anos, chegou num ponto em que precisávamos

sentar para conversar. Para que houvesse aceitação da minha família e para que eu pudesse resolver

o conflito que existia dentro de mim, tive que me afastar um pouco deles. Hoje sou mais

resolvido, me reaproximei da minha família, mas ainda há dificuldade em falar sobre o tema.

Gláucio Santos, 38 anos

Na minha época, o homem não se importava com o prazer da mulher. Aos 18 anos, faltava

informação, vivia-se o sexo sem ter muita noção daquilo. Não existia a separação entre o

sentimento e o sexo por prazer, era uma expressão do que sentíamos. Quando me casei, o

sexo tomou um outro contorno. Meu marido era oito anos mais velho. Devido a barreiras

morais, existia muita inibição na hora de pedir um toque diferente dele. Aos 30 anos, me

divorciei e tive um contato mais profundo com minha sexualidade. Foi aí que descobri a

masturbação. Atualmente as pessoas falam mais sobre o assunto e isso é importante. Só

não acho legal a flexibilização moral que alguns têm ao separar o sexo do sentimento.

Prefiro acreditar que as duas coisas devem estar juntas, é muito mais satisfatório. Hoje

em dia, já consigo ter um diálogo mais aberto quando me relaciono com alguém. O sexo, pra

mim, é diferente, não tenho mais as necessidades de quando era jovem.

Cláudia de Cássia, 49 anos

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Texto: Gabriel Campbell

Foto: Carol Rooke

Arte: Gabriella Pinheiro

Sensação

Arte de viver a vida

Apesar da idade, seguir sempre em frente e sem medo

de errar. Esse é o lema de Elisa e Cecília, senhoras que

desejam viver acima de qualquer coisa.

Sensação

Para o psicólogo Marcos Areal, ao falarmos de mulheres que estão hoje

com mais de 60 anos não podemos deixar de lado uma contextualização

sobre sua infância, adolescência e parte da fase adulta.

Essas mulheres viviam uma ditadura tanto na política, com o regime

militar, quanto dentro dos núcleos familiares. O costume era ser donas

de casa. A princípio servindo o lar, tendo como líder maior o pai, e, depois

de casadas, servindo o marido e os filhos. Sendo assim, a sua produção

cultural ficava restrita ao ambiente doméstico, sem, na maioria dos casos, a

possibilidade de se desvencilhar dessa situação.

Ao atingirem a melhor idade, se veem como se tivessem passado pela

vida sem ter expressado tudo o que queriam ou todo o potencial que têm

para produzir. Produção essa que pode se apresentar em áreas variadas, como

acadêmica, artística, laboral, física e intelectual.

Dessa forma, quando atingem a maturidade, a busca por esse “tempo

perdido” é mais que natural. Já não há mais a opressão do pai, devido a idade

avançada ou ao falecimento do patriarca, e também os maridos deixaram de

exercer a influência que tinham antes. Sendo assim, as mulheres estão agora

livres para exercer seu potencial, interpreta o psicólogo.

Para Areal, nem mesmo o sexagésimo aniversário pode atrapalhar essa

liberdade. “A maturidade as coloca em uma condição em que o outro não tem

mais tanto poder sobre elas, agora estão buscando uma satisfação pessoal

‘self’. Tudo o que podiam fazer pela família eles já fizeram, é chegado o seu

momento”, relativiza.

Dar valor à vida e ao tempo é o que as mulheres a seguir fazem de melhor.

O passar dos anos só contribuiu para serem mais livres e fazerem o que têm

vontade. Engana-se quem pensa que o velho é aquela figura pacata e incapaz.

Hoje, de acordo com elas, são mais ativas que os próprios jovens. O tempo

corre, e essas senhoras não querem perder um só segundo.


A rotina depois dos 60

A professora Elisa Silva, 62, não se considera da

geração saúde. Adepta do Tai Chi há três anos, diz que

foi pela primeira vez por curiosidade. Pratica o exercício

para ajudar na sua psicomotricidade, e comenta que foi

somente depois de começar a fazer as aulas que percebeu

que realmente não conseguia realizar certos movimentos.

“Quando eu venho de lá, fico ótima. É um exercício não

racional. Eu anulo quaisquer pensamentos. A cabeça

vazia é completamente fantástica”, comenta.

A professora revela que consegue dar aula durante

oito horas sem se cansar e ter problemas com a voz. Além

disso, não se preocupa com as questões físicas da idade.

Para ela, o mais importante é a energia, aspecto de sua

vida que ela tem de sobra. “Uma verdade que tenho para

mim é que não tenho tempo a perder. Hoje, mais do que

nunca, eu tenho certeza disso.”

Segundo Silvia, a mudança não tem nada a ver com

o tempo. “Não existe amadurecimento com o passar dos

anos. Você precisa se questionar e estar disposto a mudar.

A idade, inclusive, pode servir para a cristalização de

maus comportamentos.”

Durante a menopausa, confessa ter ficado muito

triste devido às baixas de hormônios. “Lembro que foi

uma época péssima na minha vida. Pela primeira vez,

senti o peso da idade”. Foi depois disso que Elisa pôde

perceber que não era mais jovem. “Olhava para minhas

pernas e elas já não estavam mais durinhas”. Mesmo

assim, ela não se priva de usar um biquíni ou um short

mais curto. “Não é uma coisa que me incomoda.”

O que mais teme é ficar doente e perder sua energia.

Não faz exames regularmente. Nunca foi atenta às

questões relacionadas às rotinas de saúde. A única

doença que possui é hipertireoidismo, que, de acordo

com ela, apareceu sem sintomas.

Eu não tenho muito mais

tempo a perder com problemas.

Meu tempo é muito menor daqui

em diante.

Separada do marido desde 2001, nunca mais teve

nenhum outro companheiro fixo vivendo em sua casa.

Para ela, com o tipo de vida agitado que leva, hoje seria

difícil. “Gosto de ir aonde eu quiser na hora que quiser.

Eu adoro morar sozinha. Acho muito bom chegar em casa

e não conversar com ninguém.” Hoje não sente tanta

vontade de se relacionar sexualmente devido à queda da

libido decorrente da diminuição de hormônios da idade.

Passou a comer melhor depois dos 40 por se preocupar

com sua saúde. Elisa revela que comia muito mal e

chegava até mesmo a pular refeições ou trocá-las por

comidas pouco nutritivas. “Descobri que não sou imortal

nem a dona da razão. Para mim, nem existe razão. Temos

que nos cuidar.”

As modelos Lourdinha Mol, 60, (esquerda) e Míriam Gomes Oliveira, 28,

(direita), concordam que a aparência pode mudar com os anos, mas o

que importa é ter uma mente jovem.

Ela dá para a idade o mérito de não se importar

tanto com as coisas. “Essa é a diferença da Elisa de

30 e poucos anos: tudo antes era problema, tudo me

estressava e virava uma questão imensa. Hoje relevo

muito mais as coisas, sei que tudo vai passar e que não

adianta se estressar.”

Amante de viagens, Cecília Trópia, 66, diz que

sua maior vontade, daqui para frente, é passear cada

vez mais. Por ter se casado cedo e ter que cuidar dos

filhos, ela diz que nunca pôde viajar por conta própria.

Sempre viajou acompanhada dos filhos pequenos e do

falecido marido.

Cecília sente muitas saudades da época em que

jogava vôlei. A atividade teve que ser interrompida

porque ela não poderia mais cair, já que as chances

da fratura se tornar algo grave eram maiores devido à

idade. Foi quando começou a praticar musculação para

fortalecer os joelhos. Segundo ela, a opção pela prática

foi por causa da perda de cartilagem progressiva

durante os anos. “Comecei a fazer musculação depois

de sentir algumas dores no joelho. Faço pela saúde,

para me fortalecer, para que possa continuar fazendo

tudo que eu faço”.

O bom de ficar velha é fazer o que você quer fazer

na hora desejada. “Os filhos já estão criados e não

temos mais a obrigação dos cuidados.”

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Sensação

Memória do outro

53 anos de casamento. 16 anos convivendo com

o Alzheimer. Na vida de Antônio e Maria Efigênia, o

tempo pontua as memórias por meio das lembranças

que ele conta da esposa. “A vida com ela sempre foi

muito boa. Se não fosse ela, eu não seria o homem

que sou hoje. O que eu sou é responsabilidade dela”.


Texto: Wendell Soares

Foto: Aleone Higidio

Arte: Gabriela Santos

Maria Efigênia da Silva Pinheiro tem 73 anos. Antônio

Lourenço Pinheiro, 75. Juntos, a história dos dois remonta

53 anos. O Alzheimer perpassa mais de uma década e meia

entre eles, mas é coadjuvante na vida que criaram ao longo

de todo esse tempo.

Os dois se conheceram numa madrugada de 1961, quando,

por insistência de um amigo, ele desistiu de embarcar

para tocar na zona boêmia de Ponte Nova e foi a um casamento

em Saramenha. Ele nunca soube quem ela conhecia

para estar lá. O acaso os uniu quando, ao pegar uma bebida,

pediu que ela segurasse o bongô que trazia consigo. “Ela estava

na janela. Linda, como sempre foi. E, de propósito, eu

me aproximei.” Em 26 de outubro de 1963, casaram-se, e a

bebida, que estava presente no primeiro encontro, tornou-se

uma memória que ele ressalta ser passado. “Parei de beber

em 15 de novembro de 1966. Porque ela pediu”.

Maria Efigênia já era enfermeira quando se casou, e, para

Antônio, isso nunca foi um problema. Dos amigos, ouviu

piadas sobre mulher que trabalha poder “galhar” o homem,

mas foi conciso: “eu não sou machista, nunca fui. Eles me

perguntavam se eu ia aceitar que ela trabalhasse, e eu dizia

que não era dono dela para aceitar nada. A gente estava mais

preocupado com a família”. Por família, entendem-se o casal

e quatro filhos. “Um filho legítimo e três de criação”, como

gosta de enfatizar. O emprego de Maria Efigênia, de alguma

forma, fez com que as crianças fossem em maior número

que o planejado. Segundo ele, seria apenas um filho, Camilo.

A mãe de Edmilson teve eclâmpsia durante o parto e faleceu

sete dias após ele nascer. Renato, o segundo “de criação”,

chegou com três dias de vida. Já Ana, a terceira filha, ficaria

com uma amiga do casal. No entanto, Maria Efigênia a levou

para casa, e, quando seu Antônio a viu, decidiu que também a

adotaria. “Eu era doido com uma menina. E acho que eu não

os escolhi. Foram eles que nos escolheram”.

Como trabalhava o dia todo, o casal decidiu contratar

uma empregada para ajudá-los. Maria Efigênia era enfermeira

numa mineradora da região, onde trabalhou por quatro

anos. Depois, ambos passaram juntos em um concurso

público e se tornaram funcionários da Universidade Federal

de Ouro Preto (Ufop). Aposentaram-se no mesmo dia,

em 7 de março de 1995.

Tiveram outro filho, Rodney, que se afogou em 1983, aos

19 anos. Desta lembrança, seu Antônio se sente desconfortável

para falar. Sobre ele, pontuou apenas o que eu sabia: “é o

pai de Alice”, a única neta do casal que conheci. Em seguida,

desconversa: “quanto às adoções, em mil novecentos e antigamente

era bravo, né? Nos perguntavam por que cuidar do

filho do outro em vez de ter os nossos. Mas pra mim e Efigênia,

não havia diferença“.

Com isso, percebo a ironia de quem me deu datas exatas

para tudo que disse sobre a família, mas tratou de forma genérica

quando disse sobre os outros. E conclui: “nós nunca

tivemos problema com isso. Foram crescendo e a gente foi

explicando. Pior coisa do mundo é mentira”.

Fotos: Álbum de família

Maria Efigênia no quintal de casa, no bairro

Bauxita, em Ouro Preto. A foto foi tirada na

década de 1970.

Bilhete de Antônio Lourenço para a esposa

no verso de uma fotografia. O recado é de

um ano antes do casamento.

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Identidade

O cuidado em cinco décadas

Segundo Antônio, o cotidiano do casal é o mesmo há dezesseis

anos. Tornou-se mais intenso nos últimos oito. “Desde

aquele 10 de setembro de 2008, eu aprendi a viver com ela

de uma forma diferente. Não digo pior, digo diferente.” Nessa

data, Maria Efigênia sofreu uma queda durante o banho e nunca

mais falou. Os movimentos foram sumindo após a queda, e,

mesmo com vários exames – nenhum detectou qualquer tipo

de alteração na atividade cerebral –, ela também deixou de se

locomover. “O cérebro é engraçado.

Parece que o dela entendeu que,

após quebrar o fêmur, não conseguiria

mais andar. E paralisou uma

parte do corpo. Não houve AVC”,

teoriza seu Antônio.

Ele acorda às cinco da manhã, faz o café, ouve o rádio.

Acorda Maria Efigênia às nove para lhe dar os remédios. Tira a

esposa da cama e a ajeita no sofá. Por volta do meio-dia, almoçam.

Às quatro da tarde, seu Antônio ou a filha, Ana Regina,

prepara-lhe o banho e, às sete e meia, um talharim. Maria Efigênia

dorme por volta de nove da noite. Seu Antônio se recolhe

pouco tempo depois.

Antes do Alzheimer, Maria Efigênia era descrita como uma

mulher ativa junto à comunidade ouro-pretana. Integrante do

Emaús (um movimento missionário da Igreja Católica voltado

para jovens), estava sempre envolvida com as cerimônias religiosas

do bairro Bauxita, onde, na juventude, foi mais do que

enfermeira da Samarco e da Ufop.

Seu Antônio explica, quando abre seu primeiro sorriso durante

toda a entrevista: “no fim dos anos 1970, ela acordava de

madrugada para dar injeção em algum vizinho que precisava.

Eu tenho noção

de que eu sou a memória dela.

E eu preservo muito isso.

Nunca reclamou, não importava o horário. Eu acompanhava

para ter certeza de que ela estava segura”.

Em certo momento, falo sobre o cuidado dele com ela,

quando o vejo pedir um tempo na conversa para ir vê-la. Ele

retruca: “eu faço o possível. Ela era enfermeira 24 horas por

dia. Ela, sim, cuidava de todo mundo”.

Entre cada confissão, seu Antônio coça o bigode. Quando

pergunto sobre os planos que tinham para a velhice, ele me

interrompe, como se a resposta, engasgada,

sempre estivesse ali. Tosse e me diz: “nós tínhamos

um projeto de vida, que era:

quando casasse o último filho, nós

iríamos passear. O último filho se casou.

E a doença me fez, intimamente,

nunca mais na vida programar o dia de amanhã”.

Após o relato, o engasgo foi meu. Ele percebe, mas continua

a me dizer: “No fundo, no fundo, eu acho que, se ela soubesse

disso [do Alzheimer], ela não queria viver não. Ela nunca

dependeu de ninguém”.

Falar em dependência, no caso de Alzheimer, é falar sobretudo

de cuidado. O site da Associação Brasileira de Alzheimer

(ABRAz) reforça que “o relacionamento com o paciente passa

a ser um confronto com múltiplas e cumulativas perdas, que

precisam ser constantemente adaptadas”. O cuidador merece

atenção até maior que o paciente porque dispensa não só o

tempo para outro, como se torna parte de sua memória. É ele

que, além do cuidado, preserva a lembrança que vai se esvaindo.

Seu Antônio tem consciência disso: “eu tenho noção de que

eu sou a memória dela. E preservo muito isso. Ela não é apenas

a mulher que está aqui hoje, ela é muito mais”.


Maria Efigênia pelo olhar da filha

Ana Regina, a caçula do casal, foi a responsável, ao lado do

pai, por cuidar da mãe após a doença. “No início ele [o pai] negociava

comigo. Para sair, eu precisava ajudar a cuidar dela. Eu

era enfermeira da minha mãe. Hoje, percebo que só aproveitei a

saúde dela por isso. E agradeço.” A jovem me conta como a mãe

tinha um cuidado especial com ela: “eu era a única menina. Então

ela ficava horas fazendo tranças no meu cabelo. Me levava

ao caratê, judô, à natação, até descobrir o que eu queria”.

A mãe adotiva era amiga da mãe biológica, Terezinha, e, durante

20 anos, fez questão de que a filha tivesse contato com a

outra mãe. “Nunca consegui chamar a Terezinha de mãe porque

quem sempre esteve aqui foi ela, a Maria Efigênia. E tentar me

aproximar da outra mãe só aumentou o que eu sinto por essa

aqui”, fala enquanto aponta para Efigênia na cama ao lado. Ana

Regina possui duas certidões de nascimento porque Maria Efigênia

exigiu que ela sempre soubesse que tinha duas mães.

Esse é o meu relógio

O primeiro sintoma do Alzheimer, segundo o médico geriatra

Thiago Mônaco, é “muito lento e discreto”. Ele se dá pela

perda recente de memória e é agravado pelo aparecimento de

problemas cognitivos importantes. Foi a ex-nora de Maria Efigênia

que percebeu, no início do ano 2000, um comportamento

estranho com a sogra, quando, de frente ao sacrário, parecia

perdida. Ao saber, Seu Antônio a levou ao médico. “Os exames

são caros e feitos por eliminação. Não é coração, não é isso [outra

doença], vão fazendo até chegar ao diagnóstico.” O último

diagnóstico foi o Alzheimer. Maria Efigênia chegou a saber.

Tanto Antônio quanto Ana Regina disseram que, por cerca

de oito anos, eles apenas insistiam em ajudá-la em tarefas

simples e, mesmo nelas, Maria Efigênia se mostrava relutante.

Ana relembra: “ela sempre perguntava o porquê. A gente dava

qualquer desculpa. Até o dia em que caiu no banheiro”.

Era 2008 e, duas semanas antes do Natal, a vida da família

sofreria uma mudança irreversível. Hoje, oito anos depois

da queda, Maria Efigênia não anda, não fala e não reconhece

ninguém. A cada dois ou três meses, um médico vai visitá-la e,

todos os sábados, o ministro da comunhão lhe dá a eucaristia.

“Raros são os parentes que vêm aqui”, confessa seu Antônio

sem qualquer ressentimento.

Lembra-se do senso de responsabilidade do homem, resgatando

o sermão do casamento católico, no qual o padre repete

sobre estar junto “na saúde e doença”. Decido terminar o papo,

quando ele completa: “é questão de justiça, eu não sou bonzinho.

Se eu estivesse no lugar dela, eu estaria sendo mais bem

cuidado porque ela é enfermeira. E das boas, como te falei”.

Seu Antônio se levanta, me oferece um outro café e, ao chegar

ao portão, me pergunta se contou sobre a história que ouviu

em um encontro de casais a que foram em meados dos anos

1990. Digo que não porque queria ouvir de novo naquela última

conversa. Ele resume: “um casal muito pobre. O homem só tinha

um relógio e a mulher, um cabelo longo, bonito. No aniversário

de casamento, ele vende o relógio e compra um prendedor

caro para ela pôr no cabelo. Em casa, descobre que ela está careca,

pois vendeu o cabelo para comprar uma corrente pro relógio”.

Eu sorrio para ele. Ele arremata: “o bem mais precioso que

tenho para dar à Maria Efigênia é meu cuidado. Antes e agora.

Não mudou nada. Esse é o meu relógio”.

É questão de justiça,

eu não sou bonzinho. Se eu estivesse no

lugar dela, eu estaria sendo mais

bem cuidado porque ela é enfermeira.

E das boas, como te falei.

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Identidade


Texto: Francielle Oliveira

Foto: Mariana Botão e

Thatyanna Mota

Arte: Larissa Pinto

A fotografia permite que

enxerguemos a realidade de

um modo diferente. Desperta

em nós uma forma de perceber

a paisagem e o espaço urbano.

Retratos de cidades, pessoas,

comportamentos estimulam a

imaginação e as interpretações.

Captam fragmentos da rotina,

como o tempo destinado apenas

a se sentar (ou ficar de pé) e

esperar o meio de transporte se

locomover até o seu destino.

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CURINGA | EDIÇÃO 18 19


Nos ônibus e nas

ruas, desconhecidos

compartilham

espaços onde têm

de conviver, muitas

vezes estando bem

próximos, mas

raramente existe

real interação.

Nesse ensaio,

imagens sensíveis,

objetos e signos

representam o

passar do tempo, os

hábitos, a cultura e

as pessoas que por

ali transitam.


Texto: Cleo Silva

Foto: Silvia Cristina Silvado

Arte: Laene Medeiros

Compositor de rotinas

A existência humana é marcada pelo tempo. E provavelmente sempre será.

Habitar

CURINGA | EDIÇÃO 18

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Durante a história, foram criados vários instrumentos e formas

de medir o tempo para garantir a sobrevivência por meio

da lavoura, saber as mudanças na estação do ano, ou para se

programar. Segundo o astrônomo Marcelo Anjos, membro da

Sociedade de Estudos Astronômicos de Ouro Preto (Seaop), os

primeiros relógios usados pelo homem foram os gnômons, um

tipo de instrumento que, ao ser iluminado pelo Sol ou pela Lua,

projetava uma sombra que se deslocava pela superfície, determinando

a divisão do tempo. Ele também conta que ainda existem

lugares onde as estações do ano são bem definidas, e isso já

foi motivo de subsistência da raça humana. Como a Patagônia,

na Argentina, onde o aquecimento global ainda não chegou.

A ampulheta, ou relógio de areia, como é conhecida, também

foi um dos primeiros objetos criados para medir o tempo.

Teria sido inventada no século oito por um monge francês chamado

Luipraud. Parecia que a areia demorava para passar de

um cilindro ao outro, causando a sensação de dias longos e proporcionando

em cada pessoa uma experiência, o que também

acontece com outros marcadores temporais do cotidiano.

Marcadores pessoais

Quando ainda não existia televisão, eram os sinos, que, do

alto das igrejas, informavam a população ouropretana sobre os

acontecimentos. O sino foi considerado um importante mensageiro

e ainda está presente principalmente na religião católica.

Simbolicamente, a intensidade e o ritmo das badaladas, além

de convidar os fiéis para as celebrações, podem expressar momentos

de meditação, alegria, tristeza e respeito, entre outros.

A moradora de Ouro Preto Terezinha Vieira não perdia a

“reza”. Ouvia o sino tocar e sabia que precisava se arrumar para

a missa das 10 horas no domingo. Quando teve seu primeiro

relógio, já estava casada: “fizeram o despertador, mas a gente

não sabia olhar as horas nele”.

Hoje, com 77 anos, ela lembra que, quando jovem, acordava

às 4h30 com o cantar do galo, dos pássaros e dos porcos, os

quais, segundo ela, faziam muito barulho. Trabalhava em uma

fábrica de chá e, durante o dia, orientava-se pelo ângulo de refração

do Sol. “Quando o Sol estava bem alto, eu sabia que era

mais ou menos dez horas. Quando o Sol virava, já eram 16 horas,

então era hora de recolher o chá e voltar pra casa.”

O astrônomo Marcelo Anjos relata

que as pessoas mais velhas são observadoras

da natureza. Desconhecem

na teoria, mas sabem na prática

como funciona o tempo. No interior

do Brasil, ainda que o passar do dia

pudesse ser medido pelos relógios de

Sol, de noite e os de água, os horários

mais confiáveis ainda são a alvorada,

o Sol do meio-dia e o anoitecer.

De acordo com a moradora de Barro Branco, distrito de Mariana,

Iza Januária, 86, “é mais fácil hoje, que existe relógio,

errar as horas, do que na roça quando não tinha. Ninguém tinha

relógio, nem rádio, não tinha nada, despertava no peito mesmo”.

Muito lúcida, Iza lembra que, quando o tico-tico cantava,

ela podia se levantar que era hora de encher as marmitas e ir

para o mato cortar lenha e carregar os animais. Entre risos, ela

fala que, no canto da coruja, não dava para confiar. “Ela era

muito preguiçosa e acordava tarde!” Hoje, Iza tem um Tic Tac

na parede da cozinha, mas seu companheiro é o galo Nonô. Ela

comenta que o galo só tem um problema: começa a “abrir o

bico” às dez horas da noite.

Previsão que acompanha gerações

Quando o assunto é medir o tempo por meio dos sinais da

natureza, a Folhinha Eclesiástica de Mariana ou “Folhinha de

Mariana”, seu nome popular, é tradição na Região dos Inconfidentes,

em Minas Gerais. Existente há 145 anos, com uma tiragem

anual de cerca de 200 mil exemplares, a publicação, uma

grande folha em formato de cartaz, tem sua base no Lunário

Perpétuo, almanaque ilustrado de origem medieval, cuja sustentação

é o acompanhamento dos movimentos da Lua e como

eles interferem no clima da Terra.

Gerente da gráfica responsável pela publicação, Jair Duarte

tem contato com ela há 22 anos, e confia nas previsões do tradicional

anuário. “Corto todo ano a parte da previsão do tempo,

colo na minha agenda e vou acompanhando. Posso dizer que a

Folhinha tem uma média entre 75 e 80% de acertos.” Jair conta

que algumas pessoas ligam para saber as previsões do dia e até

as fases da Lua “porque, se cortar o cabelo na lua errada, já era”.

Apesar da imprecisão científica e da forma primitiva como

nossos antepassados marcavam a existência, a vida em comunhão

com a natureza permitiu ao homem compreender e

aperfeiçoar as diversas formas de contar e estabelecer o tempo.

Talvez, no passado, as pessoas não vivessem em um ritmo tão

alucinado como hoje. Depois da Revolução Industrial, a história

mudou, nos vimos lançados em um ritmo de vida com relógios,

horários e pressa… muita pressa.

“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em

casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...

Quando se vê, já é 6ª feira...

Quando se vê, passaram 60 anos...

Agora, é tarde demais para ser reprovado...

E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio,

seguia sempre, sempre em frente...

E iria jogando pelo caminho

a casca dourada e inútil das horas.”

Mário Quintana


travessIA

CURINGA | EDIÇÃO 17 23


Vai e olha o céu

A dança dos satélites, signos e constelações em nossas vidas

Texto: Anna Flávia Monteiro e Luísa Rodrigues

Foto: Gabriela Ramos

Arte: Lucas Campos


A posição da Lua naquela hora representa a energia que você carrega, seu estado

de humor. Cada planeta do sistema solar significa algo dentro de nós.

Depois de uma sessão de imprevistos

técnicos que deixaram tensa toda uma

equipe da Nasa, a sonda Voyager 1 ganhava

os ares na manhã de 5 de setembro

de 1977, dando os primeiros passos

de uma longa viagem. Até hoje, trata-se

do objeto lançado que está mais longe

de casa, sem previsão de retorno à origem.

As sondas Voyager 1 e Voyager 2

foram lançadas para alcançarem os perímetros

de Saturno e Júpiter, e depois

Urano e Netuno. Em 39 anos de sua jornada,

entre os tantos resultados alcançados,

o mais grandioso deles foi atingir

o espaço interestelar, a zona para além

do nosso Sistema.

Ainda em 1977, o astrônomo Charles

Kowall descobriu o asteroide 2060 Quíron.

Essa descoberta, assim como a de

alguns planetas, como Urano, Netuno e

Plutão, teve relação com eventos mundiais

importantes. Quíron foi descoberto

em dezembro, mesmo mês em que

ocorreu uma reunião entre Anwar Sadat,

então presidente do Egito, e Menachem

Begin, primeiro-ministro de Israel, para

discutir a paz entre os dois países. O resultado

do encontro foi o isolamento do

Egito em relação aos demais vizinhos

árabes e, mais tarde, o assassinato de

Sadat. Segundo se acredita, o conflito de

egos entre pessoas representaria as projeções

enérgicas de Quíron.

O movimento dos astros é parte do

anseio pelo conhecimento desde muito

cedo na história, orientando-nos em

tempo e espaço. A astronomia, por exemplo,

surgiu com as primeiras civilizações,

partindo de estudos simples como observações

do céu. Se os devaneios sobre os

astros se desenrolassem no cenário da literatura,

estariam nas linhas do realismo

fantástico, onde brincar com o tempo é

a primeira regra para melhor entendê-lo.

Na astrologia, os aspectos pessoais de

alguém podem ser esclarecidos por meio

da relação do ser humano com o cosmos.

A partir dele, interpreta-se o universo

interior, existente em nossa vida e

jeito de ser. O tempo de cada um começa

com o céu.

No princípio era a luz

A relação do claro e escuro imposta

com a alternância de Lua e Sol construiu

comportamentos, como o aproveitamento

da luz para atividades diversas

e a falta dela para quietude e descanso.

Essa forma mais básica de entendimento

do tempo foi se aprimorando, unindo o

fator contemplativo ao teor matemático,

na região da antiga Mesopotâmia, atual

localização do Iraque.

Os estudos na área da astronomia fizeram

toda a diferença na contagem do

tempo como temos hoje, como a divisão

da hora em 60 minutos compostos por

60 segundos e o conceito de semana. Aos

poucos a percepção do tempo é afinada e

toma forma, numa tentativa de se entender

melhor o mundo.

Nas primeiras civilizações, a observação

dos astros já crescia com o conceito

de previsão inserido em seu âmago, ao

passo que ganhava nuances mitológicas.

Eclipses, fases da Lua, o deslocamento

dos planetas, cometas e estrelas cadentes.

Em todo acontecimento cabia um sentido

divino. “Registros históricos sugerem

que as pedras de Stonehenge, além de

serem usadas para acompanhar o movimento

dos astros, eram também associadas

a cultos religiosos e à previsão de

eventos futuros”, conta o professor de Física

Leonardo Gabriel, do Instituto Federal

de Educação, Ciência e Tecnologia de

Minas Gerais (IFMG), em Ouro Preto.

A própria palavra desastre, num primeiro

momento, denominava o fato

que contrariava os astros. A ideia de

constelação foi desenhada relacionando

a aparência das linhas com objetos

e figuras heroicas.

A linha tênue entre os estudos dos

astros e a astrologia levou a acreditar,

por vezes, que ambas nasceram juntas.

O ponto de partida é compartilhado: anseio

por orientação. “A astrologia estuda

como as posições dos astros interferem

na vida das pessoas. É muito importante

demarcar que ela não pode ser considerada

ciência”, aponta Leonardo. Para o

professor, “não ser uma ciência não é necessariamente

uma coisa ruim. O sentimento

do amor, por exemplo, não é visto

a partir de um método científico.”

Segundo o mapa da Curinga, ela teria traços como vaidade, liderança, personalidade explosiva

e segurança de si. Confere? Saiba mais na página virtual da Revista.


A valsa

dos astros

Foi com os gregos que os apontamentos astronômicos

tomaram rumos sofisticados. Em sua cultura,

foi concebida a primeira compilação das estrelas e

medições mais precisas do percurso de corpos celestes.

O catálogo estelar foi elaborado no Almagesto

(séc. 2 d.C.), uma obra de arte do acervo científico

mundial de valor único para a teoria geocêntrica, em

que a Terra estaria no centro do Universo.

Sua autoria é de Cláudio Ptolomeu, cientista grego

que frequentemente mesclava tons de ciência e

misticismo numa coisa só. Era apaixonado pelos céus

e chegou a afirmar que ao seguir, a seu bel prazer,

rumo à densa multidão das estrelas, os pés deixavam

de tocar a Terra. Perdido na grandeza teatral do

Universo, bem como as sondas do Voyager. A teoria

geocêntrica foi aceita e repercutida durante 14 séculos,

até ser completamente refutada pelas teorias de

Copérnico (séc. 16) e Galileu (séc. 17).

Equipamentos que suportam esse tipo de

viagem, brutal em duração, distância e condições,

tiveram uma longa linhagem de desenvolvimento

tecnológico, partindo de linguagens

simples como a da luneta. Saltando

no tempo conforme os estudos seguiam

com expectativas e alguns prejuízos, Galileu

foi um dos pioneiros a se aventurar na

contemplação do céu noturno por meio de

um dispositivo óptico.

Em 2012, a sonda Voyager I adentrou o espaço

interestelar, até então nunca visitado. Sua sondairmã

tem como expectativa alcançar a mesma zona

desconhecida para enriquecer as pesquisas. Estimase

que os sinais continuarão a se comunicar com a

base da Nasa até meados de 2030, quando o contato

provavelmente estará perdido. Uma questão de sorte

ou de tempo? Uma porção de cada, quem sabe.

Buscamos incessantemente compreender do

que fazemos parte, da maneira mais competente

que nossos recursos conseguem atender. O que

pode acontecer em cem anos? Quantas são as formas

de estar vivo? Em quantos mundos? Estamos

sozinhos? Como o tempo nos rege?

A curiosidade, ingrediente principal da imaginação,

estimula diretamente nossos questionamentos

enquanto espécie e sujeito. Em fevereiro

de 2015, a Voyager 1 marcava a distância de 19,5

bilhões de km da Terra, de onde era senão um “pálido

ponto azul”, como definiu o célebre cientista

Carl Sagan na época. Quem é o homem na colcha de

retalhos do Universo?

Com a engenharia refinada que originou

o telescópio, Galileu pôde ver as irregulares

crateras da Lua, os numerosos satélites de

Júpiter, as manchas solares e as fases de Vênus.

O telescópio veio a se popularizar ainda

mais através de Isaac Newton, também no

século 17, a cabeça por trás da Lei da Gravitação

Universal. Nela, está descrita a teoria

mecânica celeste: todo corpo se atrai. Segue

a dança de todas as coisas, harmoniosa e

orquestrando com grandezas.


Entender o movimento dos astros é percorrer o entendimento do

homem entre uma infinita sequência de possibilidades. “Existem estrelas

que, se colocadas no lugar do Sol, iriam quase até a órbita de

Saturno”, conta o estudante de Estatística Bruno Fernandes, integrante

do projeto “O Céu ao Alcance de Todos”, do IFMG de Ouro

Preto. Curioso pelo espaço desde criança, Bruno idealiza que “seria

incrível que, como pessoas, crescêssemos à medida que observamos a

maravilhosa máquina do Universo”.

Touro com ascendente em câncer

Todo planeta do Sistema Solar representa algo

dentro de nós. Em cada mapa astral, o Sol, que é

o centro do Sistema Solar, representa quem nós somos,

ou seja, nosso signo. Aquela constelação que

aparece ao leste do mapa é o seu ascendente. É ele

que vai mostrar sua atitude diante da vida e das pessoas.

A posição da Lua naquela hora vai representar

a energia que você carrega, seu estado de humor.

Uma “fotografia” do céu no momento do nascimento

não basta. É preciso uma gama de cálculos

matemáticos para se chegar a quem a pessoa é e estará

propensa a ser daqui para frente. Pode-se dizer

que, apesar de trabalhar com interpretações simbólicas,

é com régua, compasso e bastante história

que cada um de nós consegue saber quais astros nos

influenciam durante todo o nosso tempo na Terra.

A astróloga Thaíse Rodrigues explica que a astrologia

tem relação direta com o tempo, porém, sempre

voltada para a pessoa. Um exemplo, segundo ela, é

o da Progressão. “Dá para ver a tendência da vida de

uma pessoa. Desde bebê, adolescente, jovem, adulto,

velho”, esclarece. Como afirma Thaíse, essa área de

estudos ajuda a lidar melhor com dificuldades e a

aceitá-las, uma vez que ela é muito mais usada, na

prática, como autoconhecimento.

Com um mapa astral, pode-se fazer um estudo

mais elaborado sobre si mesmo. Existem clientes

que fazem mapas, levam até o psicólogo e discutem

aquilo que foi revelado durante a consulta com o astrólogo.

Durante a análise, o paciente reflete sobre

metas, posturas e disciplinas. É possível perceber

o quanto a ligação da astrologia com a psicologia é

forte. O psicólogo Luiz Duarte afirma que estudos

mais sistemáticos sobre o assunto, como os do psiquiatra

e psicólogo Jung, comprovam a existência de

uma sincronicidade entre a vida humana e o posicionamento

dos astros. “Como a astrologia é representada

por meio de símbolos e mitologias, assim

como a nossa vida intrapsíquica, a leitura de mapas

astrológicos torna visível essa relação, desnudando

aspectos da personalidade da pessoa”. Luiz explica

que essa sincronicidade permite leituras do funcionamento

inconsciente do indivíduo.

Por trabalhar com símbolos, a interpretação dos

astros costuma não ser muito bem recebida por algumas

pessoas. “Para grande parte dos psicólogos,

a astrologia é vista como perda de tempo, como se

a pessoa quisesse enganar-se para achar respostas

prontas e se desresponsabilizar da própria vida, dizendo

que tudo é culpa do destino”, afirma Luiz.

Como conta a jornalista Cláudia Rocha, libriana

e paulista, existe bullying entre os signos.

“Tem gente que realmente deixa de conhecer alguém

legal por causa do signo e faz todo o mapa

astral da pessoa antes de três encontros. Além disso,

culpa os signos pelas atitudes dela.” Ela ainda

completa que algumas características podem ser

relacionadas a cada signo, porém todo ser humano

é único, e, por isso, seu mapa astral não deve

ser feito a esmo, pois é um assunto sério. “Hoje

em dia, as pessoas levam a sério até demais, comprometendo

a sanidade e a convivência social, fechando-se

em mundinhos em que apenas existem

os signos ‘aceitáveis’ por elas.”


Odisseia do espaço

Os mistérios que envolvem os astros

tornaram-se, para além de área

de estudos, um fascínio particular.

David Bowie, efervescente figura do

cenário musical e artístico, compôs

uma série de músicas que reverberavam

as curiosidades espaciais.

Por meio de personas singulares

como Ziggy Stardust, um rock star que

se comunicava com o espaço, ou de

Major Tom, um astronauta fictício que

deixa a Terra para viajar pelas estrelas

e que se perde no desconhecido, Bowie

lê o universo e traduz em música. Após

o acidente, diante da grandiosidade da

imensidão, Major Tom conclui que “o

planeta é azul e não há nada que eu possa

fazer”. Tão maravilhado quanto uma

criança observando o céu.

Hoje, como um gesto da comunidade

científica em homenagem a seu legado,

movimenta-se entre Júpiter e Marte o

asteroide David Bowie, assim batizado

logo após a morte do astro musical em

janeiro de 2016. A pedra espacial de número

342843 segue, como nossas próprias

indagações, dançando no espaço.

Antes de tomar o desconhecido espacial

como Major Tom, o Programa

Voyager está em sua terceira fase, a

exploração interestelar. Nas estruturas

físicas das sondas, uma carga simbólica:

um disco fonográfico em puro ouro,

com instruções de uso e a simples mensagem:

“para criadores de música de todos

os mundos e todos os tempos” (“For

music makers of all worlds and all times”,

no original em inglês).

O disco contém uma hora e meia

de sons e imagens da Terra. Uma verdadeira

cápsula do tempo que guarda

uma voz das nossas cultura e vida, uma

sutil demonstração de como sentimos e

o quanto, assim como a nossa expressão

e entendimento da ideia de tempo.

Entre os sons, cumprimentos em 55

línguas diferentes, Bach e Chuck Berry.

“A Astronomia nos ajuda a ter mais humildade

e sensibilidade para lidar com

os outros, para cuidar melhor de nosso

planeta”, reflete o professor Leonardo,

pensando a nossa mais antiga característica:

a curiosidade. “Penso que enviar

esse disco com nossas informações foi

um gesto de humildade.”

Em algum lugar do oceano de

astros, transita nossa identidade.

A mensagem? Passamos aqui,

deixe recado após o sinal.


o mundo em mim

CURINGA | EDIÇÃO 17 29


Sensação

Jornada atr

Buracos de minhoca, paradoxos e universos paralelos.

Na física quântica, ciência e ficção se cruzam o tempo todo .

Texto: Caio aniceto

Foto: Monique Torquetti e Taíssa faria

Arte: Mariana Araújo

Os seres humanos vivem no presente, sem acesso ao

passado e se movendo inevitavelmente em direção ao futuro.

Para a maioria das pessoas, o tempo é algo fixo – e

imutável. O relógio parece mover-se em uma única direção.

De acordo com o cientista Isaac Newton, o tempo seria

absoluto independentemente de qualquer observador

e progrediria a um ritmo consistente em todo o universo.

Newton acreditava que o tempo era imperceptível e só poderia

ser entendido matematicamente. Para o cientista, os

seres humanos só seriam capazes de perceber o tempo relativo,

que é uma medida de objetos perceptíveis em movimento

(como a Lua ou Sol). A partir desses movimentos,

seria possível perceber a passagem do tempo.

Os conceitos de espaço e tempo eram separados antes

do advento da Teoria da Relatividade especial, que ligava os

dois e demonstrou que ambos são dependentes do estado

de movimento do observador. Nas teorias do físico Albert

Einstein, as ideias de tempo e espaço absolutos foram substituídas

pela noção de espaço-tempo. Em fevereiro de 2016,

as ondas gravitacionais previstas pela relatividade geral de

Einstein foram finalmente detectadas por cientistas do Instituto

de Tecnologia da Califórnia, confirmando uma previsão

feita há quase 100 anos. Mais do que nunca, sabemos

que o tempo é, na realidade, maleável.

Algumas teorias e modelos em Física, incluindo a teoria

das cordas e algumas interpretações da mecânica quântica

atuais, sugerem que nosso universo pode ser apenas um entre

incontáveis outros. A Interpretação de Muitos Mundos

(IMM) da mecânica quântica, em particular, apoia a ideia

de que todos os possíveis resultados de eventos aleatórios (e

decisões) podem ocorrer em universos separados.


vés do tempo

Turistas do tempo

A ideia de retornar ao passado ou visitar o futuro não

surge do meio científico. São diversas as lendas e mitologias

que citam essa possibilidade, demonstrando que a vontade

de viajar no tempo acompanha a humanidade desde seus

primórdios. Teoricamente, a viagem no tempo poderia ser

feita por meio de três métodos: ao alcançar uma velocidade

maior do que a da luz, com a utilização de cordas cósmicas

ou ao atravessar os chamados buracos de minhoca.

“O buraco de minhoca é uma ‘falha’ na continuidade do

universo. Sua nave pode estar na mesma velocidade e você,

de repente, estar em um lugar muito distante do espaço”,

explica a graduanda em Física da Universidade Federal de

Ouro Preto (Ufop) Vitória Ballesteros. “Imagine um pano

sobre duas mesas. Agora imagine que você quer ir de um

ponto A, na extremidade de uma mesa, até um ponto B, na

extremidade da outra mesa. Você percorreria uma distância

grande, certo? Agora imagine que os pontos estão fixos sobre

a toalha, mas que as mesas se separam e parte do tecido

desce. Os pontos A e B estarão agora mais ‘próximos’ e sua

distância percorrida será menor porque você não terá que

atravessar todo o pano”, esclarece.

Uma das principais objeções à ideia de que a viagem

no tempo seria possível é o fato evidente de não termos

sido visitados por turistas do futuro. Se a viagem ao passado

fosse possível, é improvável que essa tecnologia jamais

fosse usada. Talvez a humanidade tenha morrido antes de

inventá-la, por exemplo.

Outra hipótese formulada por cientistas é de que, ao

mover-se no espaço-tempo, o turista não voltaria de fato

ao seu mundo de origem, mas a uma cópia dele. Ou seja,

a viagem no tempo em si cria novos universos e ramificações

da mesma forma que as outras decisões fariam,

causando os chamados “paradoxos”.

“Imagine que você é neto de Hitler e quer voltar no tempo

e matar seu avô. Se você conseguir, seu avô não fará o

seu pai e você não existirá. Mas, se você não existir, como

vai matar seu avô?”, questiona Vitória. “Uma explicação

para esse paradoxo seria que, quando você altera a realidade

dessa forma, o mundo em que você está acostumado a

viver vai mudar completamente para uma versão sem você

e você passa a existir nessa nova realidade onde seu avô

está morto. Isso criaria uma realidade paralela, um outro

‘mundo’”, esclarece a estudante.

Em escala incomparavelmente menor, viajar (sem volta)

ao futuro é um fenômeno comprovado pela física relativística,

mas percorrer qualquer “distância” significativa

requer uma velocidade próxima da luz, o que não seria

viável com a tecnologia atual.

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CURINGA | EDIÇÃO 17 18 33


Especulando sobre as consequências que poderiam ser acarretadas pelo retorno ao passado ou ida ao

futuro, pesquisadores propõem hipóteses denominadas “paradoxos” – contradições lógicas associadas

à ideia de viagem no tempo. Veja abaixo um resumo dos mais utilizados e citados pela ficção:

Paradoxo dos Gêmeos: dois gêmeos hipotéticos,

um deles fica em casa, na Terra, enquanto o

outro viaja ao espaço em um foguete ultrarrápido.

Quando os gêmeos se reúnem, o gêmeo que viajou

está mais novo que seu irmão.

Paradoxo Ontológico: quando um item,

pessoa ou informação é mandado de volta ao

tempo, criando um loop infinito em que não há

origem discernível para o objeto. Acontece na

série “O Exterminador do Futuro”.

Paradoxo da Predestinação: ocorre quando as

ações de um viajante do tempo causam o evento

que ele estava tentando evitar, criando um loop

de causalidade. Ocorre no filme “A Máquina do

Tempo”.

Paradoxo de Polchinski: uma bola de bilhar

entra por um buraco de minhoca e sai no passado,

a tempo de colidir consigo mesma e impedir que

ela entre no portal. Ocorre de forma semelhante

no filme “Interestelar”.

Gato de Schrödinger: um gato é colocado

numa caixa lacrada junto com um frasco de

veneno. Enquanto a caixa não for aberta, é

impossível saber o estado do animal – então, de

acordo com a Física Quântica, ele estaria vivo e

morto ao mesmo tempo. A provocação foi sugerida

pelo físico Erwin Schrödinger para discutir

a observação de feixes de elétrons.


Sociedade alternativa

vida.

O conceito de viagem no tempo através de

meios tecnológicos foi popularizado pela primeira

vez no romance de H. G. Wells, “A Máquina do

Tempo” (1895). Em geral, as narrativas de viagem

no tempo estão focadas nas consequências de viajar

para o passado ou futuro. A premissa central

para as jornadas no tempo envolve, muitas vezes,

a alteração da História, intencionalmente ou por

acidente, e como ela cria um presente alternativo

para o viajante quando ele retorna ao seu tempo.

Algumas narrativas focam apenas nos paradoxos ,

consequências e cronogramas paralelos causados

pela modificação do tempo, sem demonstrar a viagem

em si. Essas histórias, muitas vezes, fornecem

algum tipo de comentário social, permitindo que a

ficção científica aborde questões contemporâneas de

forma simbólica e metafórica.

A ficção há muito empresta uma ideia de

“outro mundo” de mitos e lendas. Céu, Inferno,

Olimpo e Valhalla, o mundo dos heróis nórdicos,

são todos “universos alternativos”, diferentes da

dimensão material. O conceito de universos distintos

também se coloca no quadro da mecânica

quântica, como encontrado em “O Jardim de

caminhos que se bifurcam”, conto de Jorge Luis

Borges publicado anteriormente à hipótese do

multiverso. Na história, o tempo é um labirinto

e as coisas acontecem paralelamente, de formas

infinitamente ramificadas.

Há muitos exemplos em que os autores criaram

explicitamente dimensões espaciais adicionais

para suas personagens transitarem, viajando a

universos paralelos. No seriado Doctor Who (no ar

desde 1963), o protagonista é capaz de viajar pelo

espaço-tempo. Douglas Adams, no último livro da

série “O Guia do Mochileiro das Galáxias” (2009),

usa a ideia de probabilidade como um eixo adicional

para as dimensões, semelhante à descrita pela

Interpretação de Muitos Mundos. Na maioria desses

casos, as dimensões podem ser visitadas com o

uso de máquinas e aparelhos.

Uma descrição notável de um universo paralelo

em filmes está em “De Volta para o Futuro II”,

que mostra um presente alternativo criado acidentalmente.

Outro exemplo está no longa “Donnie

Darko”, que lida com o que chama de um “universo

tangente” que irrompe do nosso próprio universo.

Os atuais filmes de “Star Trek” se passam

em um universo alternativo criado por um vilão

que volta no tempo, permitindo que a franquia

seja refeita sem afetar a continuidade de qualquer

outro produto da saga.

Em sua obra “Uma Breve História do Tempo”

(1988), Stephen Hawking afirma que o passado,

assim como o futuro, é indefinido e existe apenas

como um espectro de possibilidades. Viagem

no tempo, buracos de minhoca, múltiplos universos

– conceitos estranhos, que aparentam ter saído

diretamente da ficção. Mas, nesse caso, a arte

pode estar imitando a vida.

CURINGA | EDIÇÃO 17 18 33


Sensação

Subjetividade

das horas

A percepção do tempo no dia a dia

varia para cada pessoa.

São 45 minutos da segunda etapa de uma partida de

futebol. O time vence pela vantagem de um gol e a vitória

é suficiente para conquistar o campeonato. O juiz

assinala quatro minutos de acréscimo. Para o torcedor

do time quase campeão, cada minuto parece durar uma

hora. A torcida do time perdedor vê passar cada minuto

como se fosse um segundo. A depender da situação e

do estado emocional, o ser humano percebe a passagem

das horas de uma maneira diferente.

Esse é só um exemplo de como o cérebro humano

reage a estímulos que, agradáveis ou desagradáveis,

têm o poder de influenciar na percepção subjetiva temporal.

Para entender a relação entre o tempo humano e

o do relógio, a neurociência define um como cronológico

e outro como psicológico.

Gabriela Souza, neurocientista e coordenadora do

Laboratório de Psicofisiologia da Universidade Federal

de Ouro Preto (Ufop), explica que o tempo cronológico é

aquele medido por meio dos relógios e dos calendários.

Enquanto o psicológico é a sensação subjetiva da passagem

do tempo interpretada por cada sujeito. O modo

como percebemos o tempo passar também pode ser influenciado

pela prática de atividades, como a meditação

ou o uso de substâncias.

Uma delas é a cannabis sativa – a maconha. A. L.,

23, usa maconha desde os 17. Ele reconhece a alteração

na percepção do tempo quando recorre à substância.

Contudo, segundo ele, a maneira como reage é variável.

“Depende muito do que estou fazendo e da especificidade

da erva. Algumas vezes as horas parecem passar

mais rápido e outras mais devagar, mas dificilmente

passam na mesma velocidade.”

Jogar videogame é outro divertimento de A. L., melhor

ainda quando está junto dos amigos. O jogo virtual de

futebol é o seu preferido. A curiosidade é que, em algumas

ocasiões, ele joga depois de ter utilizado a cannabis. É

quando comprova empiricamente a alteração na velocidade

da passagem do tempo. “Já me peguei achando que a

partida estava quase acabando. Quando olhei no relógio

e vi que se passaram só 12 minutos de jogo, me assustei.

Até jogando futebol de verdade acontece algo parecido.”

Um artigo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria

em 2005, feito por um grupo de pesquisadores

da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade

Federal de São Paulo (Unifesp), evidenciar que os estudos

com usuários de maconha apresentam resultados conflitantes.

E a maioria relata que não há atrofia cerebral ou

alterações volumétricas regionais nas estruturas encefálicas.

Porém, existe uma pequena evidência de que usuários

de longo prazo, que iniciaram um uso regular no

início da adolescência, apresentam atrofia cerebral assim

como redução na substância cinzenta.

“Estudos de neuroimagem funcional (técnica que

mostra o fluxo sanguíneo cerebral) relatam aumento na

atividade neural em regiões que podem estar relacionadas

com intoxicação por cannabis. Constatou-se assim, alteração

do humor e redução na atividade de regiões relacionadas

com funções cognitivas prejudicadas durante a

intoxicação aguda.”, argumenta a neurocientista Gabriela

Souza. A consequência desse processo é que acontece

uma alteração de volume cerebral e de fluxo sanguíneo

em algumas regiões cerebrais pode contribuir para que a

interpretação de tempo fique alterada.

Texto: Brunello Amorim

Foto: Lorena Lima

Arte: Rayssa Amaral


Meditação para desacelerar

José Geraldo Silva, o mestre Geraldinho, é professor de ioga há 20 anos. Para ele, a prática de

meditação é a possibilidade de se desvencilhar da rotina corrida. Enquanto está no ioga, ele conta

que sente os minutos passarem mais devagar. “Um dos objetivos da prática do ioga é a realização

de uma avaliação interior, com o intuito de desaceleração da vida, e que influencia na sensação do

tempo que passa, resultando assim em vários benefícios”, conta.

A maneira como a meditação interfere na percepção do tempo da vida humana varia para cada

pessoa. Uma hora na aula de ioga é o momento em que o professor e seus alunos sentem a respiração

e estabelecem uma sinergia entre mente e corpo. Contudo, essa “desaceleração” dos ponteiros

do relógio pode ir além dos 60 minutos da prática e aparecer também no dia a dia dos praticantes,

trazendo reflexos para outras ações.

Geraldinho acredita que, “com a prática diária da atividade, os benefícios se intensificam,

podendo ser sentidos sempre e não somente durante a atividade. Desse modo, o praticante realiza

uma avaliação interior, que influencia no modo como ele enxerga a si mesmo, as outras pessoas,

os animais, a natureza, enfim, o mundo”.

Inclusive, a impressão de que a Terra faz o movimento de rotação cada vez mais depressa,

fazendo os dias passar mais rápido, é válida. A neurocientista Gabriela acredita que “atualmente

a quantidade de tarefas, compromissos e de informações processadas diariamente pelo cérebro

aumentou enormemente e o dia continuou tendo 24 horas (tempo cronológico inalterado). Por

isso a sensação subjetiva de que o tempo está passando mais rápido é real (tempo psicológico).”

CURINGA | EDIÇÃO 18 35


Habitar

Moda

a meu

modo

Mais do que criar tendências e padrões estéticos, a moda está,

durante toda a sua história, ligada a transformações sociais. O

modo de se vestir está relacionado às lutas de seu tempo para

alcance de espaço numa busca infinita pelo novo. A professora

Daniela Calanca afirma no livro “História Social da Moda” que

a história do vestuário não é um simples inventário de imagens,

mas sim o reflexo dos fenômenos socioeconômicos, políticos, culturais

e os costumes de determinada época.

A partir da Baixa Idade Média, desenvolve-se no indivíduo o

desejo de ter uma personalidade singular. Desta forma, passa a

existir maior possibilidade da afirmação social graças à individualidade.

Bem além da Idade Média, ícones de diferentes épocas

subverteram padrões impostos cultural e socialmente por meio

de seus estilos e protagonismo, criando possibilidades de expressão

da moda. Assim, mais do que um costume que muda, volta e

se altera, ela representa conquistas de espaço.


Texto: Lívia Monteiro

Foto: Caroline Hardt

Arte: Clarissa Castro

Ousadia

Mulheres empresárias usando terno durante o

dia. Donas de casa cuidando dos filhos à noite. A mulher

moderna é resultado da evolução dos papéis femininos

na sociedade, determinante para a mudança

de seu modo de vestir.

A partir da Primeira Guerra Mundial, as mulheres

precisam de roupas práticas para suas novas tarefas.

Elas abandonam os corpetes, libertam suas silhuetas

e passam a andar de bicicleta, o que seria impossível

com as saias longas. A calça passa a ser reivindicada,

sendo que a peça tinha uso exclusivo aos homens

e chegou a ser proibida às mulheres na França do

século 19, conforme afirma Lars Svedsen em seu livro

“A Moda: uma filosofia”.

Conhecida por ser “uma mulher à frente do seu

tempo”, Gabrielle Chanel – ou Coco Chanel – foi

inspiração para a libertação da mulher na moda

durante as décadas de 1910 e 1920. Sua audácia e

busca pela simplicidade fizeram com que ela quebrasse

padrões da época. Assim, ela insere o vestuário

masculino, saias mais curtas e o neutro vestido preto,

criando um novo paradigma para as mulheres.

Para a professora e jornalista de moda Carla

Mendonça, Chanel conseguiu trazer uma outra

atmosfera para a ideia da moda na época. “Ela teve

sucesso em entender o espírito do tempo e que a

Primeira Guerra traria outras necessidades à mulher,

relendo isso e aplicando num produto desejável. Os

paradigmas que ela quebra são de tirar a moda de um

lugar inacessível, entendendo que elegância não está

só no exagero, mas que poderia estar na simplicidade.”

Excentricidade

Nada mais simples, básico e prático do que usar

calça jeans. Mas a peça-chave do guarda-roupa atual

demorou a se popularizar. Criada no fim do século

19, por ser confeccionada em um tecido resistente

para fazendeiros, a vestimenta era exclusivamente

masculina e ligada ao trabalho pesado.

Só em 1934 a marca Levi Strauss & Co. lançou a primeira

coleção de jeans para mulheres. Mesmo assim,

esse tipo de roupa não foi popularizado rapidamente.

A professora Calanca conta que, somente no fim dos

anos 1960, após várias tentativas de conquistar um

amplo mercado de massas nas décadas precedentes,

o jeans supera todas as divisões de classe, sexo, idade.

Iris Apfel é ícone mundial da moda, decoração

e de acessórios. Em uma época em que mulheres

não usavam jeans, ela insistiu em usá-los. Eram os

anos 1940 e, até conseguir seu jeans, a excêntrica

Iris precisou ir a uma loja ao menos cinco vezes e

convencer os vendedores a encomendar uma calça

masculina que servisse nela.

Ao ser questionada sobre regras de moda no

documentário Iris (2014), dirigido por Albert Maysles,

Apfel diz que não há regras, pois ela as quebraria. Foi

exatamente essa ruptura que Iris provocou ao usar

jeans masculinos nos anos 1940.

Aos 94 anos, sua marca registrada são óculos

redondos e imensos, além de incomuns sobreposições

de colares e braceletes gigantes. A excentricidade de

Apfel deu-lhe destaque e reconhecimento no mundo

da moda, abrindo espaço para outras pessoas se

expressarem de forma mais autêntica.

Antimodas

Pense nas estrelas hollywoodianas. Ou então

nas pop stars da música. A partir da década de 1980,

elas influenciaram ainda mais os padrões de moda e

beleza, indicando formas de viver e consolidando a

busca sem fim pela jovialidade.

Como exemplo disso, as antimodas surgidas

após a Segunda Guerra Mundial buscaram, por

meio dos jovens, a ruptura da cultura dominante.

Representados por famosos, hippies na década de 1970

ou punks na década de 1980, essa contracultura trouxe

diversos ganhos à moda. Da minissaia ao jeans, do

rock ao pop, a liberdade ao se vestir e agir redefiniu

comportamentos e estilos.

Explorando um perfil jovem e extremamente sexualizado,

Madonna idealizou o culto ao corpo, tornando-se

um ideal de beleza e moda. Em seu livro Ensaios

sobre Moda, Arte e Globalização Cultural, Diana

Crane afirma que, por sua capacidade de se identificar

com os diferentes estados de espírito das jovens – e

interpretá-los –, Madonna afetou o mundo da moda.

Com seu icônico sutiã em forma de cone, crucifixos,

luvas sem dedos, renda e meias-calças rasgadas,

Madonna mostrou-se uma mulher livre e sempre

jovial, como até hoje se mantém, exibindo à sociedade

a possibilidade eterna de buscar a jovialidade. Para

Carla, “assim como na época da Chanel, Madonna faz

tanto sucesso exatamente por entender a década de

1980. É a década do crescimento das academias, da

ginástica aeróbica, da mulher construindo seu corpo

como corpo mais forte. A Madonna não inventa isso,

mas populariza”, interpreta.

CURINGA | EDIÇÃO 17 37


Habitar

Atualmente, fala-se não somente a respeito da moda unissex, mas da moda sem gênero e sem padrões

determinados para homens e mulheres. Na música brasileira, vemos cantores que quebram e

buscam desconstruir o padrão de gênero ao se vestirem. É o caso do mineiro Lineker, 29, expoente

da nova MPB. Maquiado, com salto de 15 centímetros e usando brincos, o cantor, performer, bailarino

e diretor recebeu a equipe da Curinga antes de seu show em Ouro Preto para conversar sobre

a quebra do padrão da masculinidade e sobre a liberdade para se vestir.

REVISTA CURINGA: Como você define o seu estilo?

LINEKER: Não tenho estilo, gente! Eu uso realmente o que

tenho vontade de usar!

RC: No seu site, você fala sobre querer a

desconstrução de normatividades de gênero

e sexualidade. Como você trabalha isso na sua

vida profissional e pessoal?

L: Se, em algum aspecto, meu trabalho toca na

questão de gênero, ele toca sobre discutir masculinidades.

Nunca me enquadrei no padrão de masculinidade imposto

pela nossa cultura. O fato de ser gay já me fez desviar

desse padrão. A partir disso, passei por uma série de

transformações, tanto na minha vida quanto

no meu trabalho, muito ligado às questões que

me interessam e que estão pulsando em mim.

Como o lugar de fala do artista é, de certo modo,

privilegiado, tento usar este lugar para dar

visibilidade a certas questões.

RC: Quando você começou a abdicar dessa

masculinidade?

L: Acho que a gente está sempre em processo de

desconstrução. Participei de alguns processos de criação

em que eu nem sabia que estava falando de gênero. A partir

disso, fui entrando em contato, buscando referências. 2013

foi o ano em que tomei consciência de que, ao usar um vestido, eu

estava falando de gênero. Em 2007 eu já usava saia pra fazer show,

mas, pra mim, eu não estava falando de gênero, estava fazendo o

que eu queria fazer, sabe?

RC: E como tem sido esse processo de transição?

L: A cada vez, estou mais tranquilo de fazer o que eu quiser, sem me

importar se as pessoas vão me achar masculino ou feminino.

Hoje olho pra uma roupa e penso: “é uma roupa, né?”. Posso usar

o que tiver vontade. Em um dia, posso estar usando um brinco; no

outro posso estar usando uma maquiagem e, no outro dia, não.

RC: Como pessoa pública, como você vê as pessoas sendo

tocadas pela sua liberdade em se vestir?

L: Se o que faço está inspirando e colabora de alguma forma para o

processo de alguém, fico muito feliz. Porque eu gostaria de, nos meus

16 anos, ter encontrado pessoas e artistas que tivessem me inspirado

e me ajudado a vivenciar de forma mais rápida e menos dolorosa o

meu processo.


Tecnologia, aliada

dos amantes

Identidade

A utilização de cartas em

um relacionamento já foi

um hábito comum. Décadas

atrás, a saída era escrever várias

folhas de um sentimento

enclausurado. Se era comum esperar vários dias pela resposta

do endereçado, nesta segunda década do século 21, parece uma

eternidade se levarmos em conta a quantidade de recursos para

a comunicação e suas velocidades. Passar horas escrevendo em

uma folha de papel ainda é uma atividade existente entre remetentes

e destinatários. Porém, em 2014, as agências dos Correios

registraram 2,4 bilhões de cartas enviadas por brasileiros. Um

número bem menor do que em 2001, quando o índice apontou

6,1 bilhões de cartas encaminhadas pelo território nacional. A

queda foi de 60% do valor inicial.

Uma pesquisa de 2013 da Universidade Northwestern, dos

Estados Unidos, aponta que três cartas são suficientes para deixar

o relacionamento mais feliz. O estudo contou com 120 casais

que se relacionavam há mais de 11 anos. A cada quatro meses,

a pessoa mandava uma carta para sua

alma gêmea e, segundo os resultados, os

casais se sentiam mais felizes. Apesar da

constatação, metade deles não manteve

o hábito no ano seguinte.

A funcionária pública de Florianópolis

Sônia Mognon, 48, relacionou-se por

quatro anos com um homem. O casal

se conheceu em 1985. O último ano do

namoro foi marcado por cartas porque

Sônia mudou de Lagoa Vermelha, Rio

Grande do Sul, para a capital catarinense.

“Não existiam os meios de comunicação

de hoje. Se a data de envio da carta fosse

o dia primeiro de qualquer mês, chegaria

ao remetente no término do mesmo mês.

Levaria de 20 a 30 dias para chegar”, diz.

Para a entrevistada, o envio de cartas

em tempos atuais demonstra o afeto de

uma forma diferenciada. “As cartas ainda

Rapidez, agilidade e escolhas.

Tudo isso em suas mãos. Antes,

eram outras tecnologias. Hoje,

conhecer pessoas é possível pela

internet, aplicativos e redes sociais.

Conteúdo ficcional meramente ilustrativo

são um meio de comunicação,

mas, hoje em dia, de modo

sentimental. Você consegue

passar seus sentimentos para

outra pessoa por ali. Claro que

abdicar desse modelo é compreensível por conta dos recursos

que temos hoje: celular, e-mail, aplicativos, por exemplo.”

A educadora aposentada Marly Moysés Silva Araujo tem antepassados

libaneses que viveram em terras marianenses e estabeleceram

laços familiares dentro da Região dos Inconfidentes.

Ela afirma que, desde a chegada de seus ancestrais ao Brasil, os

relacionamentos amorosos dos imigrantes aconteciam por proximidade

étnica. Os patrícios, nome dado aos compatriotas do

Líbano, eram preferência entre os próprios imigrantes.

“Entre os meus avós, três pessoas eram libanesas e, com

isso, os hábitos e os relacionamentos sociais eram diferentes do

Brasil. A proximidade dos patrícios era algo muito bom, afinal,

eles cultivavam os costumes. Como estavam longe da terra natal,

era é uma espécie de união, mesmo com a distância.”

Segundo ela, os motivos que levavam

aos casamentos por conveniência geográfica

e étnica iam muito além do interesse

financeiro. “Segurança, confiança e afetividade

muito grande. A conduta na educação

dos filhos era extremamente preservada.

Por isso, também havia prioridades em casamentos

entre libaneses. Então, na minha

família, parentes mais distantes, mais velhos,

tiveram seus casamentos realizados

entre libaneses”, afirma.

Sobre a cultura na cidade de Mariana, a

entrevistada relata que “tinha tios libaneses

no Rio de Janeiro, outra parte da família

morava em Belo Horizonte e havia libaneses

aqui em Mariana. Na região marianense,

havia libaneses donos de fazenda e eles

tinham uma cultura muito preservada”.

Marly encerra relatando a preservação

dos costumes como hábito dos libanenses.

CURINGA | EDIÇÃO 17 18

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“Mesmo com uma longa distância de casa e em sistemas

familiares e de relacionamento diferenciados,

havia um esforço enorme por parte dos libaneses para

(nós descendentes) mantermos a cultura, aprendermos

a língua. Sempre que vinha alguém do Líbano,

havia um almoço especial para celebrar a vinda de um

patrício. Um exemplo de boas vindas”, completa.

João Paulo Vizioli mora há vinte anos no Japão e

namorou à distância em três ocasiões. Ele já utilizou

redes sociais e aplicativos para se relacionar, mas, no

primeiro relacionamento, as ligações telefônicas foram

o principal meio de romper as barreiras geográficas.

“Cada relacionamento teve suas particularidades.

A minha primeira relação a distância foi lá pelos anos

de 1999/2000. Conheci a garota quando voltei ao Brasil

para tirar a carta de motorista. Eu estava em Brasília

e ela em Anápolis. Conheci-a enquanto fui visitar

uns parentes nesta cidade.”

A lamentação de João Paulo foi o custo-benefício

da telefonia, um dos meios de comunicação que serviu

de apoio para o casal. “A gente conversava por telefone

e eu ia visitar ela toda semana. Porém, tive que voltar

ao Japão e ela ficou no Brasil. Nos primeiros meses, a

gente se comunicava por carta e telefone público para

ter maior privacidade na conversa. Eu comprava cartões

pré-pagos, que eram caros (cerca de 30 reais) e

duravam pouco (no máximo 20 minutos).”

João Paulo afirmou que era inviável utilizar os novos

meios. Na época, a internet ainda não era tão popular

no Brasil e a amada não tinha computador em

casa. “Mas não durou muito. Cerca de dois meses depois

que voltei ao Japão, a gente terminou.”

Amor com novas tecnologias

Nathalie Gonçalves de Melo e Fernando Lopes de

Melo se conheceram em 2008 e ambos são do Rio de Janeiro. Fernando

adicionou Nathalie no MSN, programa on-line de mensagens instantâneas.

Segundo a entrevistada, o perfil do desconhecido impossibilitava saber

quem era o usuário. Mesmo assim, ela aceitou o convite de Fernando. Não

conversaram durante 30 dias, até ele se identificar. Depois do primeiro

contato, não pararam de conversar, e hoje estão casados.

“Nós nos conhecemos dia 16 de abril. No dia 21 do mesmo mês, ele retornou

de viagem dizendo que não conseguia ficar um minuto sem mim.

E, no dia primeiro de maio, ele estava morando comigo na casa dos meus

pais. Minha mãe achou que eu estava louca, eu nunca tinha tomado uma

decisão dessa magnitude. Meus pais acharam que eu estava com alguma

alteração comportamental.”

Uma pesquisa de

2013 da Universidade

Northwestern, dos

Estados Unidos,

aponta que três

cartas são suficientes

para deixar o

relacionamento mais

feliz.


Texto: João Vitor Marcondes

Foto: Eduardo Rodrigues

Arte: Letícia Cristiele

Em dezembro de 2008, sete meses depois, Fernando

pediu Nathalie em noivado. Em agosto de 2009, o

casamento no cartório estava consumado. Em setembro

do mesmo ano, ocorreu a cerimônia religiosa.

O engenheiro Renato Passos entrou no Tinder em

2015 passado, após um fim de namoro que, segundo

ele, foi traumático. “Minha ex-namorada se mudou

no meio de nosso relacionamento – e isso foi parte da

ruína dele. Utilizava, basicamente, WhatsApp e telefone

(aplicativo de mensagens instantâneas) para me

comunicar diariamente com ela.” O principal motivo

para ele ter começado a utilizar o recurso foi o anseio

por conhecer gente nova e ter atividades diferenciadas

depois do término do namoro.

Renato disse que alguns amigos da faculdade

usavam o Tinder, então decidiu se juntar a eles. Ele

afirmou também que o aplicativo é um método moderno

de conhecer pessoas fora dos lugares comuns.

Questionado sobre a possibilidade de ter um relacionamento

sério, o morador de Belo Horizonte acredita

que nada é impossível, e não descarta essa possibilidade.

Em 12 meses, ele se relacionou com 20 mulheres.

“As pessoas precisam se desapegar de preconceitos e se

adaptar aos novos tempos.”

O psicólogo Cristiano Nabuco comentou em seu

blog, que recebe o nome do próprio especialista, sobre

as relações no Tinder e seus efeitos. “A personalidade

eletrônica possibilita uma oportunidade para que as

vivências da vida virtual possam se sobrepor às limitações

encontradas no cotidiano.”

O Tinder se alastrou pelos smartphones. Segundo o

seu cofundador, Justin Mateen, a criação dessa ferramenta

promove “o fim da rejeição” por se tratar de

uma plataforma de descoberta social. O Brasil é o

terceiro país que mais utiliza o aplicativo, sendo responsável

por 8% das contas. Estados Unidos e Reino

Unido são, respectivamente, primeiro e segundo colocados.

Conforme nota da instituição, “a maior faixa

etária é de 18 a 24 anos, e mais de 93% dos usuários

nunca foram casados, de acordo com o Instituto Nacional

de Estatísticas do Reino Unido”.

O Brasil é o terceiro

país que mais utiliza

o Tinder, sendo

responsável por 8%

das contas.


Opinião

Com a

palavra,

Texto: Igor Capanema

Foto: Thiago Barcelos

Arte: Júlia Cabral

Quanto de mim ainda lhe resta? Quantas voltas ainda terei que dar para que você me entenda,

me encare e, principalmente, me note? Foi ao longo desses anos que diversas gerações

transitaram por mim. Anos. Palavra engraçada que criaram. Durante o trajeto, inventaram

ferramentas, modos de existir e diversas convenções que permeiam a vida humana. Seguindo

à risca, então, as criações realizadas pelos que em mim habitam, começaremos primeiro

pela apresentação. Inclusive, você sabe se já passou do meio-dia?

Não tenho cara, cor, forma. Não tenho cheiro. E, por mais que alguns ainda insistam em

me dar tudo isso – sem o meu consentimento –, costumo dizer que sou um fenômeno inerente

a quaisquer classificações. Mas, na maioria das vezes, ninguém me escuta. Aliás, só me

veem passar. E eu passo, mas não sozinho. Você sabe que dia é hoje?

E, por não saberem de onde vim e nem para onde vou, comentam entre si que não tenho

piedade. Mas, na verdade, acabei percebendo que alguns ainda não sabem o quão piedoso

posso ser. Sou como um amigo íntimo, daqueles que você conhece desde o nascimento e que

o acompanha pelo resto da vida. Apesar de que a vida é mais uma das formas de me contar.

Porém, mesmo com ela ou com a ajuda de ponteiros, sombras e posições astrológicas, ainda

consigo nos guiar por conta própria. Eu e você. Mas não tenho certeza se você, sem eles,

conseguirá apreciar nossa viagem. Já é noite? Não se perca no caminho!

Durante esses mesmos anos, percebi que sou temido por uns e esperado por outros. E

posso ser, de fato, um pouco impiedoso. Quando passo por alguns, deixo rastros que podem

não ser bons. Rastros na mente, na memória, no corpo e na história. Amarelo fotografias,

desfaço promessas, altero a libido e deixo pistas para que os meus habitantes percebam que

um dos maiores erros da humanidade é acreditar que tudo dura para sempre. Sendo que

o sempre pode durar apenas uma fração de mim. O mundo gira em um segundo. Quantos

segundos já se passaram até aqui?

Mas não se apegue a só isso. Também sou cura, também sou porto, também sou casa.

Posso ser como o mar, que, quando passa, leva tudo. Inclusive aquilo que não se quer mais.

Meu conselho é simples: não se fixem às minhas rochas, não se prendam ao meu cais e não

se percam nas minhas ondas. Eu não paro, não espero e não retorno. Sou veneno e antídoto.

E, antes que seja tarde demais, prazer, meu nome é Tempo.

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