Views
8 months ago

Revista Curinga Edição 18

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Identidade O cuidado em

Identidade O cuidado em cinco décadas Segundo Antônio, o cotidiano do casal é o mesmo há dezesseis anos. Tornou-se mais intenso nos últimos oito. “Desde aquele 10 de setembro de 2008, eu aprendi a viver com ela de uma forma diferente. Não digo pior, digo diferente.” Nessa data, Maria Efigênia sofreu uma queda durante o banho e nunca mais falou. Os movimentos foram sumindo após a queda, e, mesmo com vários exames – nenhum detectou qualquer tipo de alteração na atividade cerebral –, ela também deixou de se locomover. “O cérebro é engraçado. Parece que o dela entendeu que, após quebrar o fêmur, não conseguiria mais andar. E paralisou uma parte do corpo. Não houve AVC”, teoriza seu Antônio. Ele acorda às cinco da manhã, faz o café, ouve o rádio. Acorda Maria Efigênia às nove para lhe dar os remédios. Tira a esposa da cama e a ajeita no sofá. Por volta do meio-dia, almoçam. Às quatro da tarde, seu Antônio ou a filha, Ana Regina, prepara-lhe o banho e, às sete e meia, um talharim. Maria Efigênia dorme por volta de nove da noite. Seu Antônio se recolhe pouco tempo depois. Antes do Alzheimer, Maria Efigênia era descrita como uma mulher ativa junto à comunidade ouro-pretana. Integrante do Emaús (um movimento missionário da Igreja Católica voltado para jovens), estava sempre envolvida com as cerimônias religiosas do bairro Bauxita, onde, na juventude, foi mais do que enfermeira da Samarco e da Ufop. Seu Antônio explica, quando abre seu primeiro sorriso durante toda a entrevista: “no fim dos anos 1970, ela acordava de madrugada para dar injeção em algum vizinho que precisava. Eu tenho noção de que eu sou a memória dela. E eu preservo muito isso. Nunca reclamou, não importava o horário. Eu acompanhava para ter certeza de que ela estava segura”. Em certo momento, falo sobre o cuidado dele com ela, quando o vejo pedir um tempo na conversa para ir vê-la. Ele retruca: “eu faço o possível. Ela era enfermeira 24 horas por dia. Ela, sim, cuidava de todo mundo”. Entre cada confissão, seu Antônio coça o bigode. Quando pergunto sobre os planos que tinham para a velhice, ele me interrompe, como se a resposta, engasgada, sempre estivesse ali. Tosse e me diz: “nós tínhamos um projeto de vida, que era: quando casasse o último filho, nós iríamos passear. O último filho se casou. E a doença me fez, intimamente, nunca mais na vida programar o dia de amanhã”. Após o relato, o engasgo foi meu. Ele percebe, mas continua a me dizer: “No fundo, no fundo, eu acho que, se ela soubesse disso [do Alzheimer], ela não queria viver não. Ela nunca dependeu de ninguém”. Falar em dependência, no caso de Alzheimer, é falar sobretudo de cuidado. O site da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) reforça que “o relacionamento com o paciente passa a ser um confronto com múltiplas e cumulativas perdas, que precisam ser constantemente adaptadas”. O cuidador merece atenção até maior que o paciente porque dispensa não só o tempo para outro, como se torna parte de sua memória. É ele que, além do cuidado, preserva a lembrança que vai se esvaindo. Seu Antônio tem consciência disso: “eu tenho noção de que eu sou a memória dela. E preservo muito isso. Ela não é apenas a mulher que está aqui hoje, ela é muito mais”.

Maria Efigênia pelo olhar da filha Ana Regina, a caçula do casal, foi a responsável, ao lado do pai, por cuidar da mãe após a doença. “No início ele [o pai] negociava comigo. Para sair, eu precisava ajudar a cuidar dela. Eu era enfermeira da minha mãe. Hoje, percebo que só aproveitei a saúde dela por isso. E agradeço.” A jovem me conta como a mãe tinha um cuidado especial com ela: “eu era a única menina. Então ela ficava horas fazendo tranças no meu cabelo. Me levava ao caratê, judô, à natação, até descobrir o que eu queria”. A mãe adotiva era amiga da mãe biológica, Terezinha, e, durante 20 anos, fez questão de que a filha tivesse contato com a outra mãe. “Nunca consegui chamar a Terezinha de mãe porque quem sempre esteve aqui foi ela, a Maria Efigênia. E tentar me aproximar da outra mãe só aumentou o que eu sinto por essa aqui”, fala enquanto aponta para Efigênia na cama ao lado. Ana Regina possui duas certidões de nascimento porque Maria Efigênia exigiu que ela sempre soubesse que tinha duas mães. Esse é o meu relógio O primeiro sintoma do Alzheimer, segundo o médico geriatra Thiago Mônaco, é “muito lento e discreto”. Ele se dá pela perda recente de memória e é agravado pelo aparecimento de problemas cognitivos importantes. Foi a ex-nora de Maria Efigênia que percebeu, no início do ano 2000, um comportamento estranho com a sogra, quando, de frente ao sacrário, parecia perdida. Ao saber, Seu Antônio a levou ao médico. “Os exames são caros e feitos por eliminação. Não é coração, não é isso [outra doença], vão fazendo até chegar ao diagnóstico.” O último diagnóstico foi o Alzheimer. Maria Efigênia chegou a saber. Tanto Antônio quanto Ana Regina disseram que, por cerca de oito anos, eles apenas insistiam em ajudá-la em tarefas simples e, mesmo nelas, Maria Efigênia se mostrava relutante. Ana relembra: “ela sempre perguntava o porquê. A gente dava qualquer desculpa. Até o dia em que caiu no banheiro”. Era 2008 e, duas semanas antes do Natal, a vida da família sofreria uma mudança irreversível. Hoje, oito anos depois da queda, Maria Efigênia não anda, não fala e não reconhece ninguém. A cada dois ou três meses, um médico vai visitá-la e, todos os sábados, o ministro da comunhão lhe dá a eucaristia. “Raros são os parentes que vêm aqui”, confessa seu Antônio sem qualquer ressentimento. Lembra-se do senso de responsabilidade do homem, resgatando o sermão do casamento católico, no qual o padre repete sobre estar junto “na saúde e doença”. Decido terminar o papo, quando ele completa: “é questão de justiça, eu não sou bonzinho. Se eu estivesse no lugar dela, eu estaria sendo mais bem cuidado porque ela é enfermeira. E das boas, como te falei”. Seu Antônio se levanta, me oferece um outro café e, ao chegar ao portão, me pergunta se contou sobre a história que ouviu em um encontro de casais a que foram em meados dos anos 1990. Digo que não porque queria ouvir de novo naquela última conversa. Ele resume: “um casal muito pobre. O homem só tinha um relógio e a mulher, um cabelo longo, bonito. No aniversário de casamento, ele vende o relógio e compra um prendedor caro para ela pôr no cabelo. Em casa, descobre que ela está careca, pois vendeu o cabelo para comprar uma corrente pro relógio”. Eu sorrio para ele. Ele arremata: “o bem mais precioso que tenho para dar à Maria Efigênia é meu cuidado. Antes e agora. Não mudou nada. Esse é o meu relógio”. É questão de justiça, eu não sou bonzinho. Se eu estivesse no lugar dela, eu estaria sendo mais bem cuidado porque ela é enfermeira. E das boas, como te falei. 15 CURINGA | EDIÇÃO 17 18 15

Revista Curinga Edição 23
Revista Curinga Edição 17
Revista Curinga Edição 15
Revista Curinga Edição 11
Revista Curinga Edição 13
Revista Curinga Edição 20
Revista Curinga Edição 05
Revista Curinga Edição 08
Revista Curinga Edição 12
Revista Curinga Edição 21
Revista Curinga Edição 01
Revista Curinga Edição 19
Revista Curinga Edição 25
Revista Curinga Edição 06
Revista Curinga Edição 16
Revista Curinga Edição 00
Revista Curinga Edição 07
Revista Curinga Edição 24
edicao-86-revista-entre-lagos
Revista UnicaPhoto - Edição 06 - Maio/2016
A SAGA DO JORNALISMO LIVRE - Koosb
Revista literalivre - 7ª edição
Revista LiteraLivre 9ª edição
Smurfs Reviva essa emoção - Revista Hadar!
revista I edicao 3_2.indd - Portal da Imprensa Regional
Revista UnicaPhoto - Ed09
02-edicao-revista-lika-agosto (1)