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11 months ago

Revista Curinga Edição 18

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Aceitação pessoal

Aceitação pessoal Somos seres sexuais desde o nascimento. Logo na infância, passamos por fases de descoberta dos órgãos genitais; na adolescência, explosão hormonal e insegurança exagerada; na fase adulta, o amadurecimento e a afirmação tanto da orientação sexual como da forma de lidar com os impulsos sexuais. O jornalista Gláucio Santos, 38, tinha dificuldades de falar sobre sexo dentro de casa durante sua adolescência. “A forma como a sexualidade era tratada nessa época era o que tensionava esse campo para mim. Até hoje ainda existe um desconforto ao tratar do assunto com minha família, algo que não acontece no meu dia a dia.” Gláucio conta que seu processo de amadurecimento foi fundamental para que se aceitasse como homossexual. “Como havia conflito dentro da família e isso sempre me deixava desconfortável, eu buscava refúgio no estudo, por exemplo. Somente depois de adulto, vivendo numa cidade e no trabalho que permitiam que eu vivesse minha sexualidade e pudesse me distanciar desse ambiente familiar, que me senti confiante. A aceitação foi fácil.” A sexóloga Josi Mota diz que, apesar dessa aceitação ser um processo lento, a insegurança continua presente em todas as fases da vida. Para ela, “a boa prática sexual é quando as pessoas se relacionam com um ser humano, vivo, adulto e com consentimento, independente do sexo”. Tabu social Conversar sobre a sexualidade feminina também é um incômodo no Brasil. Boa parte das mulheres cresce sem ter consciência do corpo. A sexóloga Josi relata que atende várias mulheres que “não conhecem como funciona a vagina delas, mulheres que não aprenderam a explorar o próprio corpo”. A produtora cultural Claudia de Cassia, 49, reafirma a constatação da sexóloga ao dizer que só foi descobrir o orgasmo depois dos 30 anos de idade. “Eu já era mãe, estava divorciada e tinha uma carreira, era uma mulher mais confiante e foi aí que descobri a masturbação. Os valores morais com os quais cresci me impediam de trocar de parceiro toda hora. [Depois do divórico] ter um contato maior com minha sexualidade foi um caminho natural.” A estudante de História Keren Amorin, 18, conta que sempre houve dificuldade para conversar sobre o assunto dentro de casa. “Por minha família ser sexualmente conservadora e religiosa, o assunto surgia do nada e era logo encerrado com um ‘não faça!’. Os homens só querem usá-la.” Em 2016, na pesquisa Mosaico 2.0, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), ficou constatado que 75% das mulheres ainda perdem a virgindade com um namorado e que elas têm vidas sexuais mais pacatas que a dos homens. Parte disso pode ser pelo fato de as mulheres, muitas vezes, serem protegidas pelas famílias de maneira excessiva. Keren e Claudia fazem parte desse grupo majoritário de mulheres relatado na pequisa. As duas se iniciaram com namorados. Elas acreditam que o sexo não deve estar dissociado do sentimento. Para a estudante, “é fundamental que o sexo seja impulsionado pelo sentimento”. A produtora faz uma crítica mais embasada no sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Segundo ela, “não é legal a flexibilização moral que algumas pessoas têm ao separar o sexo do sentimento. Viver o sexo pelo sexo, para mim, não agrega e nos faz cada vez mais líquidos”. Sexo e educação A sexóloga Josi acredita que a escola deve ter cuidado ao tratar sobre sexo. Para ela, “deve-se iniciar o assunto, pois assim a escola deixa os casais jovens mais tranquilos para terem essa conversa. Muitas vezes os pais não têm tato para tratar de sexo com os filhos e acabam vendo o problema de uma forma superficial e sem a sensibilidade necessária”. Além disso, há uma distinção cultural na criação de meninos e meninas. Os meninos são educados envoltos por uma casca impenetrável e infalível. Quando o assunto é sexo, falhar não é uma alternativa. Tanto que esse é o maior medo do brasileiro até hoje. A pesquisa Mosaico 2.0 indicou que o grande temor do homem é não conseguir satisfazer a parceria. Ao mesmo tempo, o levantamento do estudo mostra que a percepção feminina de ligar a relação sexual com as relações afetivas vem diminuindo: 57,1% das mulheres disseram que fariam sexo com outra pessoa só por atração. Há uma mudança comportamental em curso na sociedade. As pessoas veem o tema com mais liberdade do que antigamente e as famílias estão mais abertas ao diálogo. Mesmo com esses avanços, ainda há um caminho longo a ser percorrido. Para que haja uma transformação mais significativa a escola deve fomentar o diálogo entre pais e filhos e entre os próprios casais.

Comecei a namorar muito cedo, com 13 anos, e o desejo e a vontade de iniciar sexualmente só apareceram por volta dos 15. Por ser criada numa família conservadora, o diálogo era escasso, surgia do nada, na maioria das vezes, e era logo encerrado. Mesmo assim sempre tive curiosidade. Conversava muito com minhas amigas, éramos um grupo de oito meninas e quase todas namoravam. Nossa vontade existia, mas apenas uma menina iniciou mais cedo, aos 15 anos. Ela não falava sobre o assunto, tinha muito receio do que as pessoas pensariam. Eu também pensava assim! Nessa época, me aventurava em preliminares mais quentes, até cheguei a fazer sexo oral no meu namorado. Quando era a vez dele, eu negava. Sentia medo de me entregar. Eu pensava que, se desse essa liberdade, talvez não conseguiria me segurar. Hoje, mudei de cidade e ainda não tive intimidade para me relacionar com nenhuma outra pessoa. Me sinto mais livre por poder falar sobre o assunto. Keren Amorim, 18 anos Eu tinha um olhar diferenciado para os meninos desde os 10 anos. Sempre me foi passado que o sexo era algo pecaminoso, sujo, e deveria ser feito para fins de procriação. Falar sobre isso era tabu. Existia uma tensão muito forte na minha adolescência por minha família ser muito religiosa e ativa na comunidade. Era algo que me incomodava. Namorei meninas mesmo sabendo que gostava de rapazes. Por mais que tentasse esconder, a sexualidade extrapolava os poros e as pessoas ao meu redor percebiam. Aos 22 anos, chegou num ponto em que precisávamos sentar para conversar. Para que houvesse aceitação da minha família e para que eu pudesse resolver o conflito que existia dentro de mim, tive que me afastar um pouco deles. Hoje sou mais resolvido, me reaproximei da minha família, mas ainda há dificuldade em falar sobre o tema. Gláucio Santos, 38 anos Na minha época, o homem não se importava com o prazer da mulher. Aos 18 anos, faltava informação, vivia-se o sexo sem ter muita noção daquilo. Não existia a separação entre o sentimento e o sexo por prazer, era uma expressão do que sentíamos. Quando me casei, o sexo tomou um outro contorno. Meu marido era oito anos mais velho. Devido a barreiras morais, existia muita inibição na hora de pedir um toque diferente dele. Aos 30 anos, me divorciei e tive um contato mais profundo com minha sexualidade. Foi aí que descobri a masturbação. Atualmente as pessoas falam mais sobre o assunto e isso é importante. Só não acho legal a flexibilização moral que alguns têm ao separar o sexo do sentimento. Prefiro acreditar que as duas coisas devem estar juntas, é muito mais satisfatório. Hoje em dia, já consigo ter um diálogo mais aberto quando me relaciono com alguém. O sexo, pra mim, é diferente, não tenho mais as necessidades de quando era jovem. Cláudia de Cássia, 49 anos CURINGA | EDIÇÃO 17 18 9

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