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Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Identidade Identidade

Identidade Identidade Sensação Texto: Priscilla Santos Foto: Pedro Guimarães Arte: Paloma Demartini Ponte do Gama. Bento Rodrigues. Paracatu. A lama afundou histórias e tantas raras recordações, mas elas resistem. Saudade é motor para superar a tragédia.

Histórias soterradas O rompimento da barragem de Fundão levou muito consigo. A lama soterrou sonhos e modificou de forma permanente centenas de vidas nascidas e criadas em Bento Rodrigues e Paracatu, em Mariana, MG. Mas não somente. Ao se estender ao longo do rio, outras famílias e histórias foram atingidas de formas diferentes. Ao fugirem dos rejeitos que rapidamente tomaram as localidades, deixaram para trás os resquícios da vida que tiveram até o 05 de novembro. Nada jamais seria igual. A esperança e fé na força do coletivo é o que manteve unido Ponte do Gama. José Silvério, morador do distrito há mais de 50 anos, se recorda de uma enchente ocorrida no fim da década de 1970 e chegou até a estrada. Quando alertado sobre o rompimento da barragem de Fundão, acreditava que não teria consequências graves para sua região. No entanto, enquanto se aglomeravam na porta da igreja para a tradicional reza, no entardecer do dia 05, avistaram a lama, implacável, vindo com toda a força. “Quando vi, tava subindo uma onda que parecia do mar. Todo mundo correu e quando olhamos para trás, a lama já tinha coberto a igreja”, recorda-se. O recomeço da comunidade veio este ano, durante a tradicional festa de 12 de outubro, comemoração pelo dia de Nossa Senhora Aparecida, que foi diferente. “Foi mais especial que das outras vezes. Se a gente não ficar unido a gente tá perdido. É assim que precisa ser e sem dúvida Ponte do Gama está mais forte hoje”, acredita o morador. O comerciante José Barbosa dos Santos viveu 45 dos seus 69 anos em Bento Rodrigues. Ao fechar os olhos, lembra-se da reação que teve ao sair da mercearia que era dono e ver a onda de mais de 5 metros de lama que vinha arrasando tudo, inclusive sua casa e a de seus filhos. Em estado de choque, correu para o alto de um morro. “Se eu tivesse chegado lá e meu povo não estivesse, eu voltava e caía na lama. O que eu ia ficar fazendo sozinho no mundo?”, pergunta. Sobrevivente, a dor do trauma queima em carne-viva. Sente fraquezas, tonturas, o corpo já não responde como antes. “Lá, minha vida era muito boa. Eu sinto saudade de tudo. Tinha freguês que eu via todo dia e não vejo mais. A vida pra mim praticamente acabou. É tanto baque que a cabeça da gente não aguenta. A vida tá ruim”. A rotina de Barbosa em nada lembra o que já foi. Os dias se arrastam enquanto passa deitado acompanhado de Bentinha, cadela que nasceu em Bento Rodrigues durante o rompimento e que foi encontrada após permanecer 15 dias, sem comida nem água, em cima de um telhado de uma casa. Antes, a mercearia lhe tomava todo o tempo. Recebia os clientes com sinuca, mesa de pebolim e até uma máquina de música. Para não se esquecer, ganhou de presente uma pintura de seu comércio, fiel ao que era. “Eu sou muito sentimental, mas parece que eu fiquei ainda mais de lá pra cá. Qualquer coisa eu derreto. No início, quando era tudo lama, muitas vezes eu ia lá só pra chorar”, emocionase. Sua força vem do sonho de, um dia, reabrir o Bar do Barbosa no “Novo Bento”. Diante das recordações, a família vê o passado como um filme. Filha de José, Marinalva questiona com o pai a veracidade da história que ouvia quando ainda era criança, sobre a mata que preenchia toda a região. Segundo a lenda, quando a última das tantas palmeiras que existiam na redondeza do subdistrito caísse, o lugar não existiria mais. Elas se esgotaram dois anos antes da barragem romper. E Bento Rodrigues não existe mais. Nem tudo que a lama destrói é de imediato. No sábado, 15 de outubro deste ano, a tragédia fez mais uma vítima e Barbosa perdia um amigo, Henrique Bretas. Criador de gado, sentava-se na porta de casa e conversava com quem passava. Andava a cavalo, comprava ração no Bar do Barbosa, cuidava das vacas e das plantações. Desenvolveu um problema no coração, mas controla com medicação. A tristeza o consumiu. “Ele perdeu tudo, era apaixonado com a criação de gado que tinha. Foi fi- José Barbosa contempla a saudade dos amigos, de sua mercearia, e principalmente, de seu Bento Rodrigues. CURINGA | EDIÇÃO 19 13

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