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Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Documentos aos quais a

Documentos aos quais a Curinga teve acesso revelam que o Sistema de Disposição de Rejeitos (SDR) - projeto que pretendia construir uma barragem a 1,2 km no subdistrito de Mariana - estava nos planos da Samarco desde 2009. Com análises que acumulam quase 600 páginas, a mineradora tinha informações detalhadas sobre a comunidade, com o propósito de transferir os 418 habitantes daquela época para um dos 12 possíveis locais na cidade. Nomeada como Barragem de Rejeitos Mirandinha, o projeto teria capacidade para armazenar 417 milhões de metros cúbicos de rejeitos - uma espécie de sobra da extração do minério. A quantidade equivale a 167 piscinas olímpicas, e representa sete vezes mais do que comportava a barragem de Fundão. Ainda de acordo com os documentos da Samarco, a conclusão do projeto garantiria “a continuidade e expansão da empresa” por mais 30 anos. Os estudos sobre Bento Rodrigues realizados pela consultoria YKS Serviços, em junho de 2013, incluíam relatórios sobre o perfil dos moradores, como por exemplo, quem eles visitavam, como se transportavam e porque faziam isso, além de como sustentavam a casa e se dependiam de auxílios como o Bolsa Família. Reunido em cinco relatórios, o estudo apresenta o perfil do projeto SDR e a análise das famílias daquela região, as possibilidades de remanejamento e as pesquisas sobre os locais pretendidos para o futuro da comunidade. O documento ainda traz uma recomendação sobre o que deveria ser feito em caso de falha de leitura de segurança da barragem. De acordo com a avaliação, o impacto de um possível rompimento da barragem projetada seria um “acidente fatal, com destruição da comunidade”. Como medida de correção de uma possível tragédia, a análise aponta o pagamento de indenizações às famílias das vítimas. Os relatórios apontam que durante a fase inicial do projeto, por volta de 2013, a Samarco já havia contratado ao menos três empresas para iniciar estudos relacionados à Barragem Mirandinha, sendo elas a Lume Estratégia Ambiental (2009), a Geoestável - Consultoria e Projetos (2011) e a Agroflor Engenharia e Meio Ambiente (2013). Importante ressaltar que a primeira das três fases de implementação do projeto SDR previa o alteamento - processo de aumento da capacidade de armazenamento de rejeitos - das barragens de Fundão e Germano e, em seguida, a unificação dos dois reservatórios. A terceira fase seria a construção da Barragem Mirandinha, sendo justificada - no tópico “objetivo” do estudo feito pela consultoria YKS - como uma “necessidade de viabilizar novas áreas para a disposição [de rejeitos]”. Conforme laudo do Ministério Público Federal de 2016, a barragem de Fundão chegaria ao esgotamento da sua capacidade já em 2009. Segundo o parecer técnico expedido pela Superintendência Regional de Regularização Ambiental Central Metropolitana (Supram CM, MG) - proveniente de dois relatórios de vistoria realizados pela consultoria Sete Soluções e Tecnologia Ambiental, em dezembro de 2013 e junho de 2014 -, a Samarco obteve licença para altear e unificar as barragens de rejeitos de Fundão e Germano pelo prazo de seis anos. Enquanto o planejamento do SDR continuou, se tornava cada vez mais provável o “esvaziamento incentivado” da comunidade. Descrita como uma das possibilidades de realocação dos moradores, tal proposta tinha como objetivo a indenização pelas propriedades e o afastamento da vizinhança indesejada. Optando por essa alternativa, não haveria “a necessidade de construção de novas residências por parte da Samarco”, diz um trecho dos relatórios.

Et labo. Lit vitia quatur sam fuga. Ut vitiuri scius, corporecusam nonsendam, ut volo omni utem. Ut dillab intor re destibus. A construção do Dique S4 afetará o acesso aos monumentos não destruídos pela lama. Vista panorâmica de parte da região que será alagada em Bento Rodrigues. Cerco fechado A exemplo do que apontam a consultoria contratada e pedidos da Samarco encaminhados aos órgãos públicos, moradores e familiares de proprietários de terrenos da região confirmam as especulações por parte da empresa. Paulo Henrique de Andrade, 39 anos, conta que a Samarco sempre fez a sondagem de fazendas e terrenos que cercavam o subdistrito, o que evidencia a possibilidade de expansão das obras da empresa, em função da crescente extração de minério. A mineradora tentou negociar uma das fazendas em nome de José Felipe dos Santos (ex-sogro de Paulo Henrique) no distrito de Camargos, próxima à divisa com Bento Rodrigues. Simária Quintão, 42, moradora do subdistrito desde que nasceu, relata que, apesar dos rumores e das conversas amedrontadas, funcionários da mineradora garantiam que a empresa não pretendia tirá-los do local para construir outras barragens, e nem mesmo continuar expandindo as já existentes, destacando sempre que “o lugar deles [dos moradores] era ali”. Quando fala sobre as tentativas de compra dos terrenos por parte da Samarco dentro do subdistrito, Simária nega qualquer investimento da mineradora. “Não, lá eles só compraram ao redor. Somente as partes maiores. A gente questionava, perguntava se iam tirar a gente… nunca falaram que iam tirar a gente de lá.” Documentos obtidos pela reportagem da Curinga atestam que a empresa efetuou, entre outros, a compra de propriedade medindo mais de 234 hectares de terra. A certidão de compra comprova que o loteamento está “próximo ao povoado de Bento Rodrigues”, fazendo divisas com o próprio terreno de José Felipe, além do Córrego Santarém, do Rio Gualaxo e do Córrego Mirandinha - áreas essas que seriam afetadas pelo projeto SDR Mirandinha. Na descrição dos relatórios de 2013, as planilhas de informações sobre a comunidade dão conta de que, ao final de cada entrevista, os pesquisadores contratados respondiam questões de percepção e análise comportamental em relação às respostas dos moradores. Naquele período foram estimados - sem que a população pudesse saber, de acordo com CURINGA | EDIÇÃO 19 25

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