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Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Samarco assumiu o

Samarco assumiu o controle do território de Bento Rodrigues desde o rompimento da barragem em 05 de novembro de 2015. pedidos feitos pela própria Samarco à consultoria -, os valores de propriedades de 118 famílias. O número das indenizações, caso a mineradora decidisse comprar todas as casas no subdistrito, alcançaria cerca de R$ 19,5 milhões. Dentro desta análise, levantou-se o número de famílias proprietárias dos imóveis (quitados), a fim de diagnosticar o nível de dependência financeira e o grau de resistência dos moradores em relação à uma possível mudança do subdistrito. No processo de cruzamento dos dados a esse respeito, os relatórios constam que as pessoas que residiam entre 6 a 10 anos em Bento Rodrigues apresentaram alta resistência à possibilidade. Dentre elas, 75% revelou-se contra à mudança. As informações sobre as quais a mineradora possuía do local chegam a ultrapassar o conhecimento da Prefeitura. “É uma pena que nós não tivéssemos tido essa percepção antes. Eu não consigo nem me situar onde está essa barragem de Mirandinha”, admite o atual prefeito, Duarte Júnior (PPS). Inversão de poderes A Prefeitura de Mariana nega que a administração tivesse qualquer conhecimento oficial sobre os planos da Samarco para o subdistrito. “Nós fizemos uma reunião com a mineradora cerca de 60 dias antes do acidente [do rompimento da barragem de Fundão], mas para falar sobre os investimentos que estavam sendo feitos para a área, como o asfalto. Nunca houve por parte da empresa alguma proposta de comprar aquela região”, afirma ele. Et labo. Lit vitia quatur sam fuga. Na Ut reunião vitiuri scius, citada, corporecusam o nonsendam, prefeito Duarte ut volo Júnior omni reuniu moradores para apre- exatamente no dia 6 de outubro de 2015, sentar utem. Ut os dillab planos intor para re destibus. a comunidade. A moradora Simária Quintão, que presenciou o evento, conta que a população recebeu a notícia sobre o asfaltamento da estrada que liga o subdistrito a Mariana com entusiasmo, tendo em vista que a infraestrutura era uma promessa do atual e de governos anteriores à comunidade. Para ela, tal investimento da Prefeitura junto à Samarco simbolizava um acordo entre a empresa e o poder municipal para favorecer os projetos mantidos pela mineradora na região. “Eu vi como uma moeda de troca, assim como foi a vida inteira. A Samarco prometeu essa moeda de

troca para a prefeitura: fazer o asfalto de lá e em troca teriam a licença para fazer a Mirandinha”, suspeita Simária. O asfaltamento da estrada ligando Mariana a Bento Rodrigues se tratava, na verdade, de uma das obras incluídas no projeto “Estrada Parque - Caminhos da Mineração”, que previa ainda criar uma rota turística, com o asfalto entre Bento Rodrigues, os distritos de Santa Rita Durão e Camargos. Trechos do documento obtido pela reportagem indicam que a mudança da estrutura de transporte poderia se reverter em “credibilidade, respeito e admiração” pela mineradora. “Ainda, caso a empresa queira investir em visibilidade, poderia ser estabelecido no subdistrito um Centro de Apoio ao Visitante da Samarco, de maneira que a comunidade fosse referenciada não como impactada pelo empreendimento [Mirandinha], mas como uma parceira da empresa”, completa o trecho. Documento emitido em 2014 pela Supram CM mostra que a empresa Sete Soluções e Tecnologia Ambiental, responsável pelo registro de dados sobre o subdistrito, caracterizou a comunidade como pouco significativa economicamente: “O comércio de Bento Rodrigues é pouco diversificado, registrando-se grande dependência de Mariana. Observa-se a existência de bares e restaurantes, além de mercearias com pouca relevância em termos de geração de emprego ou mesmo de recolhimento de tributos”. Desorientado com tal afirmação, Duarte Júnior desconhecia a análise apresentada no documento, além de não possuir quaisquer dados sobre a economia do subdistrito. Para a Samarco, entretanto, o território de Bento Rodrigues havia se tornado cada vez mais importante para os negócios da empresa, conforme apontam os papeis de 2013. Em caso de não remanejamento da comunidade, a mineradora possuía como indicação elaborar um plano diretor para o subdistrito, com o objetivo “da ordenação e regularização no uso das áreas, tanto pela comunidade, quanto pelas empresas mineradoras presentes na região, pela população e eventualmente por novos investidores”. Sendo assim, a empresa se tornaria responsável por planejar o “desenvolvimento de Bento Rodrigues a curto, médio e longo prazo” - atuando, então, em uma tarefa que deveria ser exclusividade da Prefeitura. Ainda hoje, após a destruição da comunidade que já estava, indiretamente, sob seu poder, o território do que res- tou do subdistrito continua às vistas da mineradora. Em setembro de 2016, dez meses após a tragédia, a Samarco foi autorizada pelo Governo do Estado a construir o dique S4 - empreendimento que alaga cerca de 56 hectares da área já afetada, impactando o entorno de patrimônios tombados, como a Igreja de São Bento. A obra, segundo a mineradora, é uma medida “emergencial” para conter os rejeitos do Dique S3, além de controlar a lama durante o período de chuvas. De acordo com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), órgão ligado ao Governo de Minas Gerais, o não impedimento à obra do Dique S4 levou em consideração “as discussões sobre as medidas que poderiam ser adotadas após o rompimento da barragem do Fundão. Com vistas a minimizar os danos à saúde e ao meio ambiente.” Para o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), que abriu inquérito para investigar o SDR Mirandinha, a suspeita é de que o Dique S4 seja uma obra com finalidades além Ao fundo da imagem, avista-se o que restou da igreja de São Bento, do século XIX, e que agora corre o risco de ser inundado após obras da Samarco. CURINGA | EDIÇÃO 17 29 CURINGA | EDIÇÃO 19 27

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