Views
11 months ago

Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Sensação Texto: Alicia

Sensação Texto: Alicia Milhorance Arte: Pedro Menegheti Watu Kwen, o rio que morreu Na língua dos Krenaks, a expressão Watu Kwen quer dizer: o Rio Doce morreu. Hoje não sei se quem fala é o Rio morto ou o morto Rio. Se ele pudesse voltar no tempo, teria tomado um outro rumo. Se estivesse congelado, talvez esse limo marrom não o tomaria por inteiro, nem conseguiria arrastar suas tristezas ao longo do seu leito.

Após 17 dias do rompimento da barragem de Fundão, a força destruídora dos rejeitos tomou conta de 663 km ao longo de toda a bacia do Rio Doce - pelos afluentes Gualaxo do Norte e do Carmo, na região central de Minas Gerais - consolidando o que ele vinha sentindo há algum tempo. Seu curso estava amargo e seu perecimento já era certo. A partir desse momento, a tragédia de Mariana deixava de ser o responsável somente pela morte do Watu, mas também a causadora de uma catástrofe em sequência em grande parte do litoral dos estados do Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro. Destruição das matas ciliares, soterramento da serapilheira e do banco de semente, comprometimento da estrutura e função de ecossistemas, foram algumas das consequências que a devastação de 1.469 hectares. O duto aberto pela lama só acelerou o processo de degradação que já caminhava por uma amarga trajetória. Na última seca, suas forças já estavam muito reduzidas e era difícil conseguir desaguar no Oceano Atlântico. Abrangendo 83.400 km², sua bacia hidrográfica conseguia sustentar uma população de 3,5 milhões de habitantes e mesmo assim seu manancial era o 10º mais poluído do país. Hoje, a composição dos sedimentos encontrados em suas águas não é diferente dos componentes que eram detectados antes da tragédia, mas as concentrações estão muito mais acentuadas. Foram identificados 36 elementos da tabela periódica, dos 118 existentes. Por isso, não é de agora que sofre com o acúmulo de metais pesados lançados pela indústria siderúrgica e pela mineração, e seus “filhos” são os mais afetados. Para os índios da etnia Krenak, o Watu (nome dado por eles ao Rio Doce) é considerado mãe e pai do povo. Seus peixes servem para a alimentação, sua água para matar a sede, para limpeza e rituais. Seu território para os animais, sobretudo daqueles que vivem nas matas em seu entorno. Eles não dependem apenas dessa área para sobrevivência, mas também para a manutenção de sua cultura. Para os índios, o Rio Doce é a sagrada fonte de vida. Uma pena que os outros filhos (boa parte dos homens brancos) não pensem assim. Prova disso é a falta de cuidado do lado de fora da reserva indígena, onde a sua saúde estava mais frágil. A história do Rio Doce e a dos Krenaks nunca foi fácil. Originários do Baixo Recôncavo Baiano, eles chegaram até o Rio Doce, no século XIX. A partir de 1903, milhares de Krenaks foram sumindo à medida que fazendeiros vieram apossar-se das matas do rio para abrir seus latifúndios no espaço geográfico onde se localizam hoje os municípios de Resplendor e Conselheiro Pena, em Minas Gerais. Nessa época, o território por eles habitado foi palco da construção da ferrovia Vitória/Minas, da mineradora Vale, que atualmente é responsável pela Samarco, juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton. Mineradoras, hidrelétricas e siderúrgicas, não é fácil aguentar. Não é nada fácil viver assim, com tanta exploração. Ele sentia que algo tinha acontecido, poderia acontecer, estava acontecendo... CURINGA | EDIÇÃO 17 19 31

Revista Curinga Edição 16
Revista Curinga Edição 18
Revista Curinga Edição 23
Revista Curinga Edição 13
Revista Curinga Edição 12
Revista Curinga Edição 20
Revista Curinga Edição 17
Revista Curinga Edição 15
Revista Curinga Edição 01
Revista Curinga Edição 25
Revista Curinga Edição 11
Revista Curinga Edição 07
Revista Curinga Edição 06
Revista Curinga Edição 21
Revista Curinga Edição 08
Revista Curinga Edição 00
Revista Curinga Edição 05
Revista Curinga Edição 24
Revista Curinga Edição 14
Revista Curinga Edição 22
Revista Curinga Edição 10
Revista Curinga Edição 09
Revista Curinga Edição 02
Revista Curinga Edição 03
Revista Curinga Edição 04