Views
10 months ago

Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

O pacote da extração

O pacote da extração Minas Gerais, no século XVII, era conhecida como “quitandeira”, por conta da alta produção de comércios de pequeno porte. As mulheres livres lideraram essa forma de renda, mas a sociedade na época considerava a atividade efêmera. Já a extração era vista como um ofício de alto escalão. Por isso, a nobreza impulsionou essa atividade e apesar de não ser a única forma de renda, tornou-se a principal. Assim, o resultado da extração foi se reverberando ao longo dos anos. A Samarco é uma consequência de quase três séculos desse extrativismo que antecedem a empresa. Falar de Samarco hoje é, na verdade, falar de seus acionistas: BHP Billiton Brasil Ltda e Vale S.A, que possuem partes iguais na divisão do bolo, ou melhor do ouro. A australiana BHP Billiton é uma das maiores mineradoras do mundo. Em 2012, segundo a revista Exame, a empresa bateu pelo 12° ano seguido o recorde de produção de minério de ferro. “De acordo com a mineradora, sua produção aumentou 19% no ano fiscal encerrado em junho, para 159,5 milhões de toneladas”. Em 2015, menos de um mês antes do rompimento da barragem de Fundão, a mineradora anunciou que “aumentou sua produção trimestral de ferro em 7%”. Nessa mesma semana, a Vale anunciou, também, um “recorde de 88,2 milhões de toneladas de minério de ferro”. A Vale é a líder mundial na produção de minério de ferro, pelotas e níquel. No penúltimo trimestre de 2016, anunciou um ganho um lucro líquido de R$ 1,842 bilhão. O historiador Danilo Souza Ferreira explica que antes de serem sócias, em Mariana, as empresas eram rivais. “A Samarco surgiu na década de 1970, como estratégia do governo civil militar, e pelo aumento do investimento do capital estrangeiro no país. Naquela época, a BHP Billiton controlava toda as ações da empresa, mas por ser construída em um território brasileiro servia de propaganda nacional.” Ele afirma que foi nessa década que surgiu o bairro Inconfidentes, na cidade de Mariana, como forma de abrigar os trabalhadores pertencentes aos maiores cargos da empresa. A Vila Samarco, outro bairro, foi construído para isolar o restante dos trabalhadores com o objetivo de facilitar o deslocamento da mão de obra “já que o que importava era a produção e não a condição.” Para isso a Samarco construiu hospital, escola e restaurante. Em paralelo, a concorrente Vale tinha estratégias diferentes. A empresa propunha que os seus trabalhadores fossem morar na cidade e tivessem um contato direto com a comunidade. Todas as vezes que os trabalhadores iam aos comércios da cidade, tinham que estar com o uniforme. Na época, a Samarco percebeu que essa estratégia resultou em uma profunda identificação com a empresa e começou a agir da mesma forma com os seus funcionários. Essa estratégia, segundo o historiador, tinha dois ápices: a identificação e a produção. Os moradores, observando os funcionários das empresas, que sempre estavam com o uniforme e alimentavam o comércio, passaram a acreditar numa suposta dependência da mineradora. “Ela realizou uma espécie de ‘manipulação’, para fazer frente a uma concorrência que mais tarde iria comprá-la.” Na década de 1990, a Vale comprou metade das ações da Samarco. E a ideia de que Mariana possui a mineração como única ou principal forma de renda foi se intensificando, inclusive pelos diversos projetos que a instituição começou a apoiar e investir nem toda a cidade. Mais de 80% da arrecadação de Mariana vinha da mineração. Porém, a relação de benefícios enfrentou uma mudança no dia 5 de novembro de 2015

Caminhos a serem percorridos Desde novembro de 2015, o trabalho da Samarco deixou de ser mineração e tornouse de controle, na tentativa de frear os danos causados pela tragédia. “O Dique S4 a ser implantado, com previsão de janeiro de 2017, formará um lago na parte já impactada de Bento Rodrigues. (...) é a nossa última etapa [de contenção] antes do rio Gualaxo do Norte”, diz o coordenador da obra do Dique, Eduardo Moreira. A empresa não confirma a volta das atividades e também não nos informou as datas previstas. O futuro dos trabalhadores ou ex-empregados da mineradora também é incerto. Segundo o diretor do Sindicato Metabase de Mariana, Sérgio Alvarenga, os funcionários que foram demitidos terão prioridade na contratação quando a empresa voltar às suas atividades, contudo estes deverão passar pelo processo seletivo novamente. Luciano Gonçalves Martins, 40 anos, trabalhou na Samarco durante oito anos até ser convidado a participar do Pedido de Demissão Voluntária (PDV), iniciado em 2016. “Esse pedido de demissão voluntária foi só uma maneira de fazer pressão porque eu não arrumei outro emprego. Ou você saía ou quando começasse as demissões você iria embora sem nada”, conta o técnico em mecânica industrial. O PDV surgiu como estratégia para reduzir 40% do quadro de funcionários, ou seja, mais de mil empregados. De acordo com o Sindicato Metabase, a proposta partiu unicamente da mineradora, mas os representantes dos trabalhadores sugeriram algumas modificações. “A colaboração do sindicato foi apenas de dar opções dos benefícios a serem incluídos no programa e lutar para que a proposta fosse decente.” Quem aderiu teve direito a plano de saúde por seis meses, meio salário por ano trabalhado - com teto máximo de R$ 7.500,00 - e cartão refeição durante seis meses”, explica o diretor do sindicato. A Samarco ainda alega que o pedido foi “construído em conjunto com os sindicatos Metabase (MG) e Sindimetal (ES) para minimizar os impactos dos desligamentos”. Luciano explica que após o PDV enfrenta dificuldades em pagar a faculdade, escola para os filhos e outras despesas. Além disso, vê problemas em voltar a trabalhar na empresa já que acredita que a prioridade não é a garantia do emprego. Por isso, resolveu se reinventar e migrar para outras atividades. O diretor do sindicato metabase Inconfidentes acredita em alguns caminhos para o futuro. “Essa empresa tem que ser estatizada e sob o controle dos trabalhadores”, explica. Também afirma que a segurança e saúde do trabalhador deve ser controlada pela própria categoria. “Nós acreditamos que todas as empresas de mineração, que têm maiores risco em atividade econômica, deveriam eleger comissões de trabalhadores para que eles mesmos assegurassem que acidentes como o rompimento da barragem de Fundão não acontecessem novamente”. O lugar que recebeu escravos e acolheu senhores propiciou, em 2014, a receita bruta de R$7,6 bilhões à mineradora Samarco. CURINGA | EDIÇÃO 19 35

Revista Curinga Edição 16
Revista Curinga Edição 18
Revista Curinga Edição 23
Revista Curinga Edição 13
Revista Curinga Edição 12
Revista Curinga Edição 20
Revista Curinga Edição 25
Revista Curinga Edição 11
Revista Curinga Edição 17
Revista Curinga Edição 15
Revista Curinga Edição 01
Revista Curinga Edição 07
Revista Curinga Edição 06
Revista Curinga Edição 21
Revista Curinga Edição 08
Revista Curinga Edição 00
Revista Curinga Edição 24
Revista Curinga Edição 05
Revista Curinga Edição 14
Revista Curinga Edição 22
Revista Curinga Edição 10
Revista Curinga Edição 09
Revista Curinga Edição 02
Revista Curinga Edição 03
Revista Curinga Edição 04