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3 months ago

Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Opinião A cobertura

Opinião A cobertura midiática do maior desastre ambiental do Brasil O primeiro contato dos atingidos com a mídia ocorreu logo após o rompimento da barragem de Fundão, no dia 05 de novembro de 2015. Eles avistaram helicópteros de emissoras de televisão sobrevoando Bento Rodrigues enquanto ainda aguardavam resgate. Na mesma noite, Mariana foi invadida por inúmeros profissionais dos mais variados veículos. Drones, câmeras de última geração, bloquinhos, canetas, gravadores. Para cima e para baixo. Em todos os cantos. Por uma, duas, três semanas. Depois, foram embora. As visitas começaram a ser bem menos frequentes. Deixaram a impressão de que haviam se esquecido do caminho, ou acabado o combustível. Mas neste último mês resolveram voltar. Drones, câmeras de última geração, bloquinhos, canetas, gravadores. Tudo outra vez. Passados 12 meses, a forma como a mídia retrata o maior desastre ambiental do Brasil ainda é discutida. A jornalista Márcia Amaral conta que existe um padrão entre as coberturas de catástrofes ambientais. Ela defende que os acontecimentos envolvidos em desastres exigem coberturas complexas, onde os veículos midiáticos deveriam exercer um trabalho crucial de investigação. Entretanto, não é o que acontece em grande parte das produções jornalísticas. Especialista em estudos das relações entre jornalismo e catástrofes, Márcia conta que, dificilmente, em uma primeira fase, o jornalismo dará conta de algo mais do que as consequências do desastre. “Pressionado pela necessidade de audiência e pela concorrência, raramente os veículos tradicionais conseguem ultrapassar o tom do espetáculo. Temos uma cobertura centrada no dia do desastre, com muitas dificuldades de configurar o antes (suas causas), o entorno (complexidade) e suas consequências”, afirma a jornalista. O infográfico apresentado no início desta reportagem comprova a teoria da jornalista, ao mostrar que os jornais “Folha de S. Paulo” e “Estado de Minas” priorizaram, em um primeiro momento, notícias relacionadas a busca pelos desaparecidos, desesperos, luto, dor e sofrimento. Para Márcia, o jornalismo deveria tomar para si um papel na comunicação de risco e na prevenção e alerta sobre desastres, o que não tem sido prática em nosso país. Outro desafio da mídia seria relacionar os desastres ambientais com as forças econômicas e sociais que os cercam e os interesses envolvidos no caso. “O que faz um desastre chamado ambiental em países como o Brasil é muito mais do que a força da natureza, é, sobretudo, a vulnerabilidade social”. A estudante de jornalismo Marina Fortes pesquisa sobre a cobertura da mídia tradicional sobre o rompimento da barragem de Fundão, mas enfatiza o papel dos veículos independentes: “Acredito que são formas de enxergarmos além do que a mídia tradicional nos mostra”. A existência dessa “alternativa” é ilustrada no infográfico, pois nota-se como a cobertura do “Brasil de Fato”, feita por uma equipe de jornalistas, articulistas e movimentos populares, se diferencia dos demais veículos midiáticos. As reportagens se deslocam do nicho “espetáculo”, para se aprofundar em outras problemáticas, como o histórico da mineração no Brasil. Marina também defende a importância das redes sociais nos dias de hoje: “No Facebook do jornal Zero Hora, por exemplo, os leitores reclamaram e pediram por uma reportagem mais aprofundada. Era uma cobertura com poucas fontes, sem estabelecer quem foi culpado, falando mais das consequências do desastre. Essa cobrança desencadeou a série de reportagens especiais entitulada “Rota da Lama”. O que mostra que com a tecnologia o público pode influenciar e modificar a agenda midiática”. Segundo a estudante, ambas as alternativas surgem como uma possibilidade de não deixar a tragédia cair no esquecimento. O jornalista Reges Schwaab insiste que o trabalho de “nomear, juntar as peças, estender a cobertura a danos que seguem afetando muitas pessoas e lugares assim será por muito tempo. Essa cobertura não tem hora pra fechar, nem pode parar.” Evitar que as localidades afetadas pela lama desapareçam é, inclusive, é uma pauta amplamente discutida e definida como uma das principais funções dos veículos de comunicação. Entretanto, nota-se que a mídia, depois de um certo tempo, tende a perder o interesse por determinado assunto. Ao mesmo tempo, deixa de explorar alguns acontecimentos em detrimento de outros, como mostra o infográfico. Termos como “Rio Doce”, “Valadares”, “Vale” e “BHP” possuem uma oscilação de frequência muito maior que “Mariana”, “Bento Rodrigues” e “Samarco”, pioneiros na coleta dos dados. A lama é também da cobertura.

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