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4 months ago

Revista Curinga Edição 19

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Habitar Reação à lama

Habitar Reação à lama O rompimento da barragem de Fundão despertou resistências. Apesar dos rejeitos, a luta surge, a casa permanece e a vida continua.

Texto: Fernando Cássio Fotos: Caio Gomes e Gabriella Visciglia Arte: Camila Guardiola Constrói-se uma ideia de que o povo de Mariana é que depende da empresa , quando na verdade é ao contrário, é a empresa quem depende das pessoas daqui e da região. Há uma inversão de valores Joceli Andriolli “O lugar da minha vida é aqui, se eu for pra cidade não aguento ficar lá não. Eu tenho as minhas criações e cuido delas aqui. O meu prazer é esse, é a roça. O lugar da minha vida é aqui!”, afirma João Celestino Arcângelo Filho, 56 anos, morador de Paracatu, subdistrito de Mariana. João sabe dos riscos que a sua decisão de permanecer implica e reconhece que a sua realidade mudou, mas prefere continuar onde está. “Não vai voltar a ser como era antes. A gente não vai ter mais sossego, por causa dessas outras [barragens] que estão lá ainda. Se essa rompeu as outras também podem.” O lavrador nasceu, cresceu e ainda mora na área rural de Paracatu. Sem fazer parte de movimentos de mobilização, ele mostra resistência optando por continuar em seu lar. João recebeu uma notificação da Defesa Civil por estar em um local de risco, mas nem mesmo isso fez com que ele rompa o laço com o palco de suas histórias. Resistir é lutar por aquilo que se acredita. É aguentar, persistir e não padecer. Resistir é o que muitas pessoas fazem quando compreendem que seus direitos foram desrespeitados. Assim como João, o também morador do subdistrito há 26 anos, Marino D’ Ângelo, 47 anos, viu a lama chegar até a sua porta. Diferente de João, ele deixou o lar por motivos de segurança. Marino é Presidente da Associação dos Produtores de Leite de Águas Claras e região, além de ser membro da Comissão dos Atingidos de Paracatu. Por não se ver como vítima, já que os rejeitos não haviam destruído sua residência, ele não correu atrás dos seus direitos após os primeiros meses do rompimento. Quando se identificou como atingido, abraçou a causa. “Meu universo havia sido transformado.” Agora, sua batalha vai além, ela é em prol de vários outros afetados pelo desastre. É sobretudo, resistir e seguir “apoiando, ajudando e buscando resgatar o direito dos atingidos”. O produtor de leite afirma que suas atividades foram prejudicadas. O que antes era rentável, após a tragédia passou a trazer prejuízos. A insegurança sobre o que pode acontecer é algo que também tem prejudicado sua saúde. “Eu tinha uma vida simples e feliz, agora tomo dois antidepressivos por dia. Cheguei a pensar que se a minha casa tivesse sido destruída que eu não teria sofrido tanto”, conta emocionado. Marino encontrou no Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) uma forma de entender e lutar pelos seus direitos. Hoje, é militante do movimento. Diversos motivos fazem com que uma pessoa decida participar de um movimento popular, como por exemplo, a identificação com a causa ou a luta por direitos. Joceli Andriolli, 37 anos, é integrante do MAB desde que era criança, mas foi na juventude que ele assumiu a militância. “Já milito há 20 anos. Dedico 100% do meu tempo ao movimento.” Sua família foi atingida pela Usina Hidrelétrica de Itá, localizada no rio Uruguai, em Santa Catarina. O MAB é uma organização que luta pelos direitos de pessoas que foram afetadas por barragens, fundado em 1991, chegando à região dos Inconfidentes em 1995. Membro da coordenação nacional do MAB, Joceli enxerga a relação de dependência de Mariana com a mineração. “Existe uma questão histórica na cidade, que é a cultura do colonialismo. Especialmente o colonialismo mental, que cria uma consciência coletiva de que as mineradoras são um mal necessário. Constrói-se uma ideia de que o povo de Mariana é que depende da empresa [Samarco], quando na verdade é ao contrário, é a empresa quem depende das pessoas daqui e da região. Há uma inversão de valores”. Resistir aos abusos e a negligência da mineradora Samarco se torna ainda mais fundamental para o militante. “A Samarco chegou a chantagear as pessoas, dizendo que só daria os cartões de auxílio [cartões fornecidos aos atingidos] se elas saíssem do movimento dos atingidos por barragens, e várias saíram pra poder ganhar o cartão”, ressalta. CURINGA | EDIÇÃO 19 9

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