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Revista Curinga Edição 20

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

No primeiro dia do ano

No primeiro dia do ano de 2017, Sidnei Ramis de Araújo, 46 anos, assassinou sua ex-mulher Isamara Filier, 41, seu filho João Victor, 8, e mais dez pessoas em uma festa de ano novo, na cidade de Campinas, em São Paulo. Em seguida, Araújo se matou com um tiro na cabeça. Após a chacina, foram descobertas, em cartas e áudios deixados pelo atirador, a justificativa através de um discurso repleto de misoginia e de argumentos religiosos. “Deus não crucificou o filho dele por amor aos outros filhos, como fala na Bíblia? Eu não vou deixar você sofrer na mão dessa ‘vadia’ mais não, filho” disse em uma das cartas. Ao todo, Araújo disparou contra 15 familiares e amigos de Isamara. Dos 12 mortos, nove eram mulheres. No decorrer dos milênios, a naturalização da opressão das mulheres foi uma construção eficiente, reforçada também por mitos, contos e religião, que intensificaram o papel de submissão imposto às mulheres. O criacionismo, uma das teorias para existência humana defendido por judeus e cristãos, sustenta a concepção da criação do homem por Deus, que o teria feito “à sua imagem e semelhança”. No relato da criação de Eva na Bíblia, a mulher é formada da costela de Adão, sugerindo a unidade homem/mulher. Porém, por essa teoria, a formação da mulher a partir do homem foi interpretada como superioridade masculina, o que reforçou na sociedade, sobretudo cristã, o preconceito contra as mulheres. A teóloga feminista Riane Eisler afirma em seu livro O prazer Sagrado: sexo, mito e política do corpo, de 1996, que a ira divina foi usada a partir da Bíblia para justificar a violência de gênero. Riane aponta que as mulheres seriam mais responsáveis que os homens pelo pecado original - pensamento sustentado por Eva - considerada a grande culpada pela queda do gênero humano. A mulher é interpretada como o sexo pecador, já que além de cair na tentação, ela seduz o homem a fazer o mesmo. Desta forma, a razão da submissão feminina foi ideologicamente justificada: “estarás sob o poder de teu marido e ele te dominará”, diz o Gênesis (Gn 3,16). Entretanto, a também teóloga Rosemary R. Ruther, em sua obra Sexismo e Religião, relata que os seres humanos do período paleolítico e neolítico – era pré-histórica – viviam em um sistema de igualdade entre mulheres e homens. Pesquisas arqueológicas mostram que mulheres eram veneradas em todas

as sociedades agrícolas antigas, diante de seu poder de gerar a vida e, com isso, manter a espécie. Atualmente, a dificuldade em lidar com questões de gênero começa cedo, ainda na infância. O modelo social de educação, sobretudo dentro de casa, culpabiliza meninas, as deixando submissa e, em contrapartida, é permissiva aos meninos, transferindo para si a condição de ser dominador. A Bela e a Fera Para trabalhar essas questões desde cedo, o Instituto Arte de Ser, localizado na cidade de Rio Verde (GO), atua com a proposta de empoderamento do aluno no processo de aprendizagem. Entre as atividades, há aula de feminismo para alunos desde os sete anos de idade, além do projeto Já falou para seu menino hoje?, que compartilha mensagens no Facebook com o objetivo de incentivar as famílias e a sociedade a conversarem com as crianças sobre igualdade e respeito entre os gêneros. A coordenadora dos projetos de relações de gênero Nathalia Borges, conta que, ao realizar uma oficina de emponderamento feminino, da qual ambos os gênero participavam, notaram que os meninos não desenvolviam muita empatia ou sensibilidade à causa. “Ao trabalhar a mesma temática com os garotos, eles perdem privilégios e poder. Deixam de ser legitimados por comportamentos opressivos que são tidos como da personalidade masculina porém, ganham em possibilidades de existir, tanto individualmente como socialmente.” Nathalia, que também é psicóloga, ainda conta dos desafios enfrentados para se educar crianças em uma sociedade machista. “Educar um menino para não ser machista pressupõe, antes de tudo, educarmos as pessoas adultas que cresceram nesse mesmo contexto, que viram os homens relaxarem depois do churrasquinho de domingo enquanto as mulheres lavavam a louça da família toda, que julgaram as roupas e comportamento das mulheres que um dia sofreram violência sexual. É posterior a uma reflexão dos próprios adultos”, enfatiza. Ao resgatar essas novas formas de pensar a sociedade, o Instituto Albam, fundado em 1998, em Belo Horizonte, assumiu a missão de reciclar homens autores de violência, com projetos ligados às questões de gênero. A ONG oferece cursos, capacitações, palestras e supervisões regulares ou sob encomenda para instituições e municípios que tenham a intenção de mudar essa triste realidade. Para tentar evitar que tragédias como a de Campinas, em 2017, voltem a acontecer, o Coordenador Geral do Instituto Albam e psicólogo, Felippe Lattanzio, relata que um dos principais objetivos do projeto é o de fazer com que os homens compreendam que são responsáveis pela violência. “Na maioria dos casos que chegam para nós, os homens se sentem injustiçados, tirando de si a responsabilidade pelos seus atos. Nossa função é trabalhar a masculinidade, entendendo o equilíbrio necessário para não vitimizar os homens, mas sim responsabilizá-los pelas suas ações”, conta. Com o projeto em funcionamento desde 2005, antes da Lei Maria da Penha entrar em vigor, Lattanzio relata que o processo era ainda mais falho para eventuais punições e medidas de proteção para as mulheres. “Os casos iam para juizados especiais. Geralmente as punições eram cestas básicas e prestação de serviços comunitários, quando julgados”. Apesar das conquistas legais na proteção dos direitos, ainda existe muito o que se avançar para rompermos com as opressões machistas que se perpetuam durante os séculos, à começar pela sustentação das ideologias, construídas socialmente, apenas para manter o argumento de uma sociedade violenta para mulheres. Para entender melhor como as estruturas machistas são falhas, Lattanzio também comenta a mudança de comportamento dos homens que frequentam o Instituto, que trabalham com outros tipos de questões envolvendo a masculinidade, como brigas de torcidas organizadas. Sobre isso, afirma: “Quer coisa que envolva mais a questão da masculinidade do que torcida de futebol?”. No total, os encontros se estendem por quatro meses, com duas horas de duração em cada. O projeto conta ainda com 11 psicólogos e já atendeu mais de três mil homens. “Varios querem continuar vindo aos encontros, mesmo depois de finalizar. Muitos agradecem”, conclui. Todas as informações dos projetos vinculados aos Institutos citados na matéria encontram-se nos sites albam. org.br e institutocores.org.br. As iniciativas contam com diversos parceiros, além de uma estrutura com psicólogos, pedagogos e profissionais capacitados para promover uma sociedade mais justa e igualitária entre os gêneros. CURINGA | EDIÇÃO 20 35

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