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10 months ago

Revista Curinga Edição 22

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Habitar Trambique nosso

Habitar Trambique nosso de cada dia Desde pequenas trapaças a grandes esquemas de fraude, o ato de ludibriar está mais entranhado na nossa cultura do que imaginamos.

Texto: Caroline Borges e Lorena Lima Foto: Mariana Brito e Daniel Tulher Arte: Marina Lopes A história do Brasil é marcada por diversas situações nas quais alguém tenta levar vantagem sobre outra pessoa. Até mesmo o tipo de colonização contribuiu para que as pequenas trapaças do dia a dia fossem aderidas à nossa cultura. De acordo com o historiador Alessandro Augusto, em situações de exploração, a busca por soluções fáceis pode ser considerada uma fuga da realidade. Nesses casos, é retirado das pessoas aquilo que elas têm de melhor, sem se oferecer nada em troca. “É um processo tenso no Brasil, é preocupante, porque sinalizamos o brasileiro como aquele que sempre quer levar vantagem. Temos que tomar cuidado”, afirma Alessandro. Para a cientista social Giovanna Zandonade, a corrupção no nível macro, como na esfera política, é percebida com mais facilidade que a micro, muitas vezes desconsiderada. “Esse comportamento está disseminado igualmente nas atitudes individuais. Nem todos conseguem enxergar as suas decisões rotineiras como corrupção. A pessoa fura fila e se vangloria, pega o troco a mais e deixa o caixa pagar por isso”, explica. A cientista social defende, todavia, que essa conduta é cultural. “A cultura é modificada e construída o tempo inteiro”, explica Giovanna, mas também pode ser reproduzida a cada vez que um ato é praticado. Um exemplo são as confusões de Chicó e João Grilo na obra de Ariano Suassuna, o Auto da Compadecida. A dupla vive arranjando problemas enquanto tenta, a todo custo, melhorar suas condições de vida. Na maioria das vezes, são desonestos, como quando eles tentam lucrar com o enterro de uma cachorro no cemitério da Igreja ou vendendo uma gaita que faz qualquer um “desmorrer”. De qualquer forma, uma coisa fica clara ao longo das trambicagens dos personagens: nem todo trapaceiro faz o que faz por mal. No caso de Chicó e João Grilo, é apenas a forma que encontraram para driblar a fome e a pobreza. Em estudo sobre honestidade e violação de regras nas sociedades, publicado em 2016, o professor de Psicologia da Economia na Universidade de Nottingham, Simon Gächter, e o economista Jonathan F. Schulz, perceberam que indivíduos que residem em países com altos níveis de corrupção são mais propensos a atitudes desonestas do que as que convivem em um ambiente no qual a maioria dos indivíduos preza pelo cumprimento das normas. As pessoas consideram sua desonestidade justificada pela extensão da desonestidade que eles vêem em seu ambiente social Gächter e Schulz Os pesquisadores analisaram pessoas e contextos em 23 países com diferentes níveis de desenvolvimento socioeconômico. Na avaliação, foram considerados alguns parâmetros como as leis vigentes, níveis de criminalidade e fraudes políticas. “As pessoas consideram sua desonestidade justificada pela extensão da desonestidade que eles vêem em seu ambiente social”, concluem Gächter e Schulz. Quando a pimenta é no seu olho Há também aqueles que se apropriam da trambicagem e fazem dela um golpe de publicidade. Como é o caso de Arlindo Luiz Paiva, o Capelão, dono do bar Capelão em Viçosa (MG), que usa da grosseria e dos abusos de preços como forma de marketing. Um dos casos que contribuiu para sua fama aconteceu na noite em que a lei que proíbe qualquer estabelecimento de funcionar após as duas da manhã em Viçosa entrou em vigor. O comerciante fechou o bar na hora imposta, porém, poucos minutos depois, tornou a abrir as portas, alegando que o seu expediente iniciava a partir daquele horário. O que era apenas uma brincadeira com a polícia local ganhou destaque especialmente nas redes sociais. Apesar de não ter sido uma estratégia premeditada, o comerciante que trata a clientela como “um bando de inseto que gosta de ser explorado”, beneficiou-se da popularidade em sua página no CURINGA | EDIÇÃO 22 15

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