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Revista Curinga Edição 22

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

certamente sustentado

certamente sustentado por ações que se desviaram das regras legais do país – e foi isso que comprometeu completamente o funcionamento do regime democrático”. As pedaladas fiscais foram utilizadas como forma de explicar o impeachment mas validaram algo não previsto legalmente. Chamar o processo de impeachment de golpe não é um erro. O professor Alexandre o caracteriza, no âmbito jurídico, como um golpe parlamentar. “Ele é um golpe em uma forma moderna de falar. A única razão pelo impeachment ter acontecido é o fato de a então presidente ter perdido o apoio do Congresso”. Apesar de áudios de Michel Temer, que comprovam atos passíveis de investigação, terem sido veiculados na mídia e o seu índice de reprovação ser de 95%, conforme pesquisa publicada pelo Vox Populi em 2017, nenhum dos oito processos de impeachment contra Temer foi acatado pelo Congresso. Em contraposição, quando Dilma foi impedida de governar, seu índice de reprovação era de 65%, de acordo com o Instituto de Pesquisas Datafolha. “Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode ter”, disse Dilma no discurso proferido após sua destituição, em agosto de 2016. PresidentA A falta de apoio parlamentar foi um dos principais motivos para a saída de Dilma, mas outras questões, como a de gênero, tiveram seus pesos nesse processo. Dilma, a primeira presidenta do Brasil, sofreu diversos tipos de agressões pelo simples fato de ser mulher e estar no poder. Por um lado, segundo Daniela Borges, professora especializada em Gênero e Políticas Sociais da Ufop, “a questão de gênero influenciou em grande parte a opinião pública, a sociedade brasileira, mas também não foi o suficiente para explicar o impeachment .” Para ela, o processo poderia ter acontecido com um homem, porque o impeachment é admissível pela Constituição, mas certamente não seria tão agressivo. “Se a gente for observar a subida da Dilma no poder, desde o primeiro até o último dia, o processo foi muito violento. Como exemplo, temos a polêmica de quando ela disse que queria ser chamada de presidenta, foi uma repercussão tamanha.” Quando o Senado votou a admissibilidade do impeachment, Dilma, torturada na ditadura, passou 15 horas em frente a defensores de militares e da “boa família”, sofrendo outra “tortura”: foi sabatinada por acusações destemperadas, em sua maioria de homens que pareciam não aceitar uma mulher no poder. “A questão de gênero também foi decisiva, em especial porque a sociedade brasileira – além da herança escravocrata e oligárquica que carrega – é extremamente machista”, afirma Hila. A imagem da presidenta foi difundida pelo país Hila Rodrigues como a mulher histérica que não sabia governar. Na capa da revista ISTOÉ, publicada em abril de 2016, Dilma aparece gritando. A foto original correspondia a um momento de euforia da presidenta eleita durante jogo da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 2014. Mas a revista transformou-a em sinônimo de fúria, deturpando contextos, o que ilustra bem o preconceito de gênero nesse processo. “É uma capa sexista, que só faz comprovar que o machismo é a regra para aqueles que querem as mulheres fora da política”, esclarece a professora de jornalismo. Estereotipar a mulher como alguém que só detém poder dentro de casa e possui tendência à masculinidade, quando é autoritária, é um dos exemplos que confirmam o machismo presente neste episódio da história do Brasil. Dilma também foi estampada com as pernas abertas, em adesivos colados no reservatório de combustível de carros, quando o preço da gasolina aumentou, em julho de 2015. Dois anos depois, novo aumento de preços aconteceu no governo Temer, mas nada foi feito. A comparação feita entre Marcela Temer e Dilma é outro caso. A primeira é chamada pela revista Veja de “Bela, Recatada e do Lar”, em uma A questão de gênero [...] foi decisiva [...] porque a sociedade brasileira é extremamente machista

mistura de personalidade e forma de agir. A segunda, é por vezes considerada machona e histérica, que não sabia falar em público ou articular perante os congressistas. “A Marcela é boa, do lar, da casa, ela é uma representação boa da mulher. A imagem dela não pode ser violentada, porque ela não ousa sair daquele lugar que a sociedade separou para ela. A outra não, a outra ousou sair”, complementa a professora Daniela. Outra leitura de como a mídia foi crucial para estabelecer essa relação misógina foi a expressão nacionalmente conhecida por “tchau, querida”. Apesar da expressão possuir uma entonação amigável, neste caso ela foi utilizada em tom pejorativo. Segundo Daniela, “todo mundo que a chamou de querida não a tratava como uma pessoa querida, não era essa a mensagem verdadeira. A mensagem verdadeira era um tchau a mulher no poder e um viva aos interesses da elite.” A professora Hila acrescenta que a palavra pronunciada pelos deputados soou como deboche: “na boca deles, tinha esse sentido de atribuir à figura da Dilma a incompetência e inadequação para o cargo que ocupava. Não acredito que diriam “tchau, querido” para um homem, fosse ele o Lula, o Fernando Henrique, o Fernando Collor ou o José Sarney – só para citar alguns dos homens que já ocuparam a cadeira presidencial antes dela”, enfatiza. Forças desiguais Falar de impeachment significa falar da influência que os meios de comunicação tiveram na reprodução de notícias que envolviam o governo Dilma e como isso interferiu na formação de opinião pública. Apesar do contexto existente, os veículos de comunicação nacionais corroboraram a imagem de crise e instabilidade. Além de insatisfação, isso provocou no público a ideia de que Dilma era culpada por todos os problemas que o Brasil passava. Como aponta a professora Hila, o comportamento da mídia convencional brasileira foi decisivo para a queda de Dilma Rousseff. “Os meios de comunicação mais tradicionais – a Rede Globo e as demais emissoras de TV aberta, assim como os jornais Folha de S. Paulo, o Estado de S. Paulo, as revistas ISTOÉ, Veja, Época e Exame, entre outros meios de comunicação (muitos deles, aliás, pertencentes a um mesmo grupo empresarial) – apoiaram claramente todo esse processo de sucateamento do Estado”. Embora atualmente a mídia impressa e eletrônica estejam enfrentando uma crise de credibilidade, ainda é muito expressivo o número de pessoas que se informam pela televisão. Segundo pesquisa sobre hábitos de consumo de mídia no Brasil, realizada pelo Ibope em 2016, mais de 60% dos brasileiros ainda preferem se informar pela TV quando querem acompanhar o que está acontecendo no país. Para a professora Hila, se tivéssemos uma mídia democrática, com diversidade e pluralidade de informações, teríamos uma opinião pública autônoma e talvez a ex-presidenta Dilma Rousseff “não teria sido derrotada pelas forças obscuras que atualmente conduzem o país”. Além disso, outra análise que esclarece o poder midiático perante a população é a pesquisa publicada em dezembro de 2016, coordenada pelo professor Nemézio Amaral Filho, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Nela, comprova-se que os veículos O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo contribuíram para a instauração do processo de impeachment. Foram verificadas 143 matérias, considerando se eram neutras, contra ou favor do então governo. O resultado mostrou que as notícias foram majoritariamente contra: O Globo com 77%; Folha de S. Paulo, 61%; e Estado de S. Paulo, 78%. A mídia se fez uma das grandes forças de desestabilização política e econômica, junto às manifestações conservadoras nas ruas que tiveram comandos midiáticos ativos na intenção de criar um ambiente para legitimar o impeachment. Como exemplificado pela pesquisa, do mesmo modo que a mídia “derrubou” Dilma e deu força ao impeachment, ela também age de forma aliada ao governo vigente. Manifestações contra Michel Temer não são disseminadas, ao contrário do que acontecia na outra gestão. Um exemplo são os panelaços, protestos que grupos anti-Dilma organizavam para dar estímulo à queda da presidenta eleita. Na atual conjuntura política do país, com todos os cortes na educação, saúde e programas sociais, além das reformas que prejudicam o trabalhador, as panelas estão mudas e as flores murcharam.

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