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Revista Curinga Edição 22

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Comendo pelas beiradas

Comendo pelas beiradas De​​grão​​em​​grão​, ​a​raposa​​encheu​​o papo.​​ O​​político​​retratado​​neste​​perfil​​que​​o​​diga. Sorrateiro, entrou na vida de todos, a contragosto de muitos. Considera-se cidadão de bem. Há quem diga que use do poder para conquistar benefícios próprios. Há quem lhe dê a tarefa de um messias, que veio para salvar a população dos tropeços causados por seus colegas de ofício. Quando precisa se expressar por meio da escrita, opta por protocolos, documentos e pelo português elegante, ao menos no entendimento dele. Em 2015, escreveu uma carta com a seguinte previsão para o futuro do Brasil: “passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o país terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais”. Era o gatilho, juntamente com outras revelações políticas, para o golpe à democracia vivido atualmente. Recapitulando esse episódio de grande burburinho midiático, vê-se que os rumos pensados são outros. Mais legalista que legal, assumiu ilegítimo papel de destaque. Elaborou discursos prolixos. Alçou um importante posto por meio de recursos não muito éticos. Com cautela, fez promessas às elites. Trouxe à tona, com seu protagonismo, opiniões conservadoras. Alinhado com nomes poderosos e controversos, gosta de conversas de bastidores, noturnas. No dia 27 de junho de 2017, reuniu-se na casa de Gilmar Mendes, junto com os amigos Moreira Franco e Eliseu Padilha. A ocasião foi tratada com desconfiança, pois a reunião não estava em sua agenda oficial. A lista das 60 pessoas mais poderosas do Brasil, eleitas pelo portal Último Segundo em 2013, o define como “protocolar, litúrgico, e um dos poucos políticos que, em vez da voz alta, usa os ouvidos para tomar decisões”. Os adjetivos usados para caracterizá-lo seguem sempre a ideia de que se trata de um homem comedido. Passado à limpo Formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) em 1963, seguiu os estudos até concluir o doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1974, instituição na qual ministrou aulas de Direito Constitucional e coordenou pós-graduações na área jurídica. De sua formação surtiram alguns frutos: livros. O primeiro deles é de 1982, sobre Direito Constitucional, e colaborou para torná-lo uma referência bibliográfica. Escreveu outra obra em 2006 sobre política e democracia, e recentemente, em 2012, um livro sobre poesias. Ironicamente, obteve sucesso enquanto jurista há 35 anos e atualmente sua literatura vive às sombras de poesias transformadas em piadas. Exerceu o ofício da advocacia por sete anos e foi também Procurador do Estado de São Paulo – cargo esse que conseguiu por indicação do então governador Franco Montoro - entre 1983 e 1984. Na esteira das nomeações foi responsável pela segurança do estado paulista de 1984 a 1986. Defendeu posições conservadoras, dentre elas o aumento da estrutura da Polícia Militar e a legalização das empresas de segurança privada. À época, o estado enfrentava uma onda de violência. Em 1993, voltou à Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Nesta época ocorreu o Massacre do Carandiru, resultando em um grave dilema ético após 111 presos terem sido assassinados em uma rebelião com a Tropa de Choque da Polícia Militar. O então Secretário buscou dialogar com órgãos dos direitos humanos, e como medida para a situação, exigiu que os policiais envolvidos no caso buscassem tratamentos psiquiátricos. Em 1992, ocupou o cargo de Procurador do Estado tendo se licenciado da reeleição como Depu-

tado Federal após dois dias de mandato para isso. Esteve à frente de outras Secretarias também. Ocupou o cargo de Deputado Federal em 1987 como suplente, participando da Assembleia Constituinte. Votou contra a pena de morte, a favor da legalização do aborto e a favor do presidencialismo. Posições isoladas, perdidas no tempo. Sua história hoje evidencia que é de seu agrado misturar mercado, política e moral cristã. Um discurso do ano de 2016, deixa isso claro: “Peço a Deus que nos abençoe a todos. A mim, aos congressistas, aos membros do Poder Judiciário e ao povo brasileiro para estarmos sempre à altura dos desafios. E aos brasileiros, para que em breve tempo, possamos agradecer a Ele pelo trabalho que, a partir de agora, será feito”. Texto: Caio Franco Foto: Samuel Consentino Arte: Júlia Rocha Ilustre impopular Durante dois anos comandou a Presidência da Câmara, fase em que procurou benefícios para o grupo partidário ao qual pertencia. Era 1997. Foi eleito para presidir a cadeira novamente em 1999. Nesse mandato negou o impeachment de Fernando Henrique Cardoso. Entre 2009 e 2010, voltou a assumir o cargo. Tornou-se próximo do governo petista, do qual se afastou ao perceber que seus interesses não eram acatados, como informou na carta mencionada no início deste texto: “Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas”. O destaque que afirma ter alcançado perante a sociedade pode ser questionado. Afinal, justo quando chegou ao momento de maior visibilidade, sua popularidade caiu. De acordo com pesquisa divulgada em julho de 2017 pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), apenas 5% da população aprova as decisões que tem tomado junto à sua equipe. Segundo a BBC Brasil , “aos 75 anos, o paulista de Tietê teve uma trajetória discreta, mesmo acumulando, até pouco tempo atrás, quase 15 anos no comando do PMDB”. É coerente afirmar que conseguiu fama como autor de um dos livros mais estudados sobre direito constitucional. Porém, seus predicados acadêmicos e profissionais não podem ser endeusados, já que defende reformas trabalhistas e previdenciárias não democráticas. Mais ainda, é intrigante saber que um dos livros sobre Direito mais estudados no país seja de autoria de alguém que toma posições consideradas inconstitucionais. Instável como o Brasil, o personagem retratado neste perfil tem procurado de todas as maneiras continuar onde está, mesmo que o custo das manipulações feitas em nome do poder seja sua impopularidade e a ruptura de direitos adquiridos pela sociedade. Temê-lo? Não! É preciso buscar soluções enquanto as conquistas sociais vão se esvaindo. CURINGA | EDIÇÃO 22 23

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