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7 months ago

Revista Curinga Edição 22

Revista Laboratorial do Curso de Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto.

Identidade Jeitinho

Identidade Jeitinho Nosso Criatividade e malandragem como ícones nacionais Texto: Eric Castro Foto: Jéssica Avelar e Mariana Brito Arte: Matheus Gramigna O Brasil é conhecido como o “país do jeito”. Na nossa cultura, para todos os problemas existem possibilidades de se contornar e resolver situações adversas. Essa destreza em superar as dificuldades da vida se mostra benéfica quando caminha pela espera do favor, em prestar ajuda ao outro ou ser ajudado. E isso se deve a inventividade do brasileiro, que consegue encontrar saídas criativas mesmo em meio a circunstâncias desfavoráveis. Por outro lado, esse subterfúgio pode estar relacionado a tomar vantagem ou a uma estratégia desonesta para conseguir o que se deseja. Pensando nisso, vem a mente a imagem do malandro, o sujeito que utiliza de uma série de artimanhas para se dar bem, e que com sua lábia e carisma consegue, por vezes, manipular pessoas e resultados. A figura do malandro foi representada através de diversos personagens na literatura e cinema, como o famoso Zé Carioca. Criação de Walt Disney, do início da década de 1940, “Zé” fazia uma ode à imagem do malandro carioca, na figura de um papagaio bem-humorado que vivia de pequenas espertezas. Embora um tanto romântica e caricatural, essa imagem aproxima-se do lado negativo do “jeitinho”, pautado pela ilegalidade e corrupção. No livro “Dando um jeito no jeitinho” (2000), o autor e especialista em ética, Lourenço Stelio Rega, explica que quando se fala em jeitinho brasileiro, logo se pensa em esperteza, em ludibriar alguém, pagar suborno e assim por diante. Para o autor, isto é uma espécie de jogo que demonstra a liberdade que o homem quer ter, não se prendendo às malhas da lei, mostrando-se, portanto, superior à própria norma. Essa flexibilidade de consciência, segundo ele, faz com que a pessoa que deseja dar um jeito não se preocupe com as leis ou regras.

Raíz histórica O professor de Sociologia da SEE-MG (Secretaria de Educação de Minas Gerais), Rodrigo Furtado Costa, explica que esse traço marcante do comportamento do brasileiro é histórico. Desde a colonização do Brasil por Portugal, tinha-se idéia que por essas terras, de alguma forma, alguém tentaria levar vantagem ou “roubar”, especialmente no que diz respeito a impostos. Tanto que a própria Derrama - imposto cobrado para complementar os débitos que os mineradores acumulavam junto à Coroa Portuguesa -, que tinha em torno de si a dureza da lei, previa quase por “intuição” que alguém não pagaria o imposto previsto. Outro exemplo lembrado pelo professor é a forma como se entende e vive os valores sociais: “Uma pessoa nos Estados Unidos ou Europa teria como palavra final um NÃO ou um SIM de um policial e isso seria suficiente para a maioria entender que a regra deve ser respeitada. Já entre nós, a percepção que se construiu nesse sentido é que a lei é lei mas pode ser descumprida”. “Somos um povo que gosta muito de relativizar e questionar, inclusive protocolos e regras”, sintetiza Costa. O questionamento do brasileiro em relação às regras, explica o professor, se dá sobretudo quando elas não o beneficiam diretamente. Rodrigo cita o que o historiador Sérgio Buarque de Holanda nomeou como o “homem cordial”. “Essa cordialidade não tem a ver com ser amável ou simpático, mas com a passionalidade. O mesmo homem dito honesto e trabalhador pode matar em uma situação de estresse em trânsito”, afirma. Ou, num ato passional, “descumprir regras que coloquem a todos em segurança, para se livrar de uma adversidade ou problema”, complementa. O especialista em ética, Lourenço Rega, propõe a existência de um círculo vicioso para o qual o brasileiro comum é empurrado. Ele diz que, em primeiro lugar, há um generalizado descaso das autoridades públicas em relação às necessidades do povo. Esse descaso alimenta o jeito, que é induzido pelo espírito livre e pela consciência “elástica”. O povo sente-se no direito de transgredir as normas, já que “os impostos são pagos e o governo faz pouco caso disso”. Depois, para não ser punido por causa da transgressão, novamente o brasileiro dá um jeito na situação - paga suborno. É o ato da corrupção. Por um lado, esse procedimento protege o transgressor, mas de outro, estimula o corrupto a continuar no erro, explica Lourenço. O pagamento do suborno gera a impunidade, fechando o ciclo com a continuidade do descaso e assim sucessivamente. Dilema Ético De fato, os artifícios do “jeitinho” estão inseridos na estrutura cultural do nosso povo. Mas é possível sobreviver a essa sociedade afeita ao jeito? Lourenço responde que sim. Segundo o autor, para subverter essa situação é necessário ter “decisão e caráter” diante das situações que provoquem alternativas dúbias. Seria essa conscientização moral que capacitaria o brasileiro comum a superar o dilema ético sobre escolher entre o fácil e o correto. O professor Rodrigo pontua: “Embora pareça uma estratégia de sobrevivência inofensiva, o ‘jeitinho’ na verdade satisfaz os desejos pessoais em detrimento da maioria”. Questão a se pensar. Na terra onde para tudo há uma improvisação, o que está em jogo é a cidadania. Da criatividade à malandragem o povo brasileiro utiliza o seu jeitnho para transformar a realidade. CURINGA | EDIÇÃO 22 7

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