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7 months ago

Revista Apólice #211

direto de londres por

direto de londres por Luciano Máximo* A difícil tarefa de abandonar o Tabaco Para um fumante, largar o cigarro demanda trabalho árduo. Mas como deve ser para uma seguradora abandonar esse vício? No mínimo, trata-se de uma operação complexa... Claro que estou falando da prática de investimento dos ativos e prêmios pagos por clientes em empresas da indústria do tabaco, um setor “do mal”, alvo permanente de medidas restritivas (antibusiness) de governos do mundo inteiro e perseguido por grupos antitabagistas, mas que, na ponta do lápis, entrega retorno financeiro acima da média de mercado para acionistas. Pois bem, a francesa AXA, maior seguradora da Europa, está “largando” o cigarro. A direção da empresa, responsável por um portfólio de investimentos de quase US$ 1 trilhão em ativos, tomou uma decisão emblemática e inédita no setor que está chacoalhando não apenas o mundo segurador aqui na Europa, mas também o setor de gestão de ativos financeiros em todo o mundo: a seguradora anunciou que vai cancelar ao longo dos próximos anos todas as suas aplicações em empresas listadas em bolsas de valores ligadas à indústria do tabaco. O desivestimento total em questão pode ultrapassar US$ 2 bilhões e gerar até perdas de receitas no curto prazo! Logicamente a seguradora seguiu à risca os manuais de boas práticas corporativas e capitalizou a complexa decisão financeira com um discurso bastante responsável – e hoje politicamente correto. Num grandioso evento para jornalistas e investidores no fim de maio, em Paris, o CEO interino da companhia, Thomas Buberl, apareceu ao lado de Cary Adams, CEO da União Internacional para Controle do Câncer (UICC da sigla em inglês), para falar do papel da seguradora – que tem forte atuação nos segmentos vida e saúde – não só na promoção da saúde, mas na prevenção de riscos à saúde. Portanto, nada mais óbvio do que largar o cigarro, uma das maiores causas de mortes no mundo há décadas. “Nós acreditamos fortemente no papel positivo que o setor segurador pode desempenhar na sociedade e que as seguradoras são parte da solução quando se trata de prevenção de saúde para proteger nossos clientes. Por isso, não faz sentido para nós continuar nossos investimentos na indústria do tabaco. Com esse desinvestimento, estamos fazendo a nossa parte para apoiar os esforços dos governos em todo o mundo. Esta decisão tem um custo para nós, mas nosso argumento é muito claro: o custo humano tragado pelo cigarro é trágico; o custo económico é enorme”, discursou Buberl. No evento, o executivo estava muito bem munido de informações dramáticas sobre o cigarro: líder mundial de causas de mortes evitáveis no mundo; 6 milhões de mortes por ano, incluindo 600 mil não fumantes indiretamente expostas ao cigarro; previsão de 8 milhões de mortes por ano a partir de 2030 (80% delas em países pobres). O custo econômico de tudo isso também é dramático, continuou o executivo: o tabagismo tem um custo de US$ 2,1 trilhões por ano à economia global; 15% das despesas agregadas dos sistemas de saúde de países ricos estão relacionadas aos tratamentos de problemas causados pelo cigarro. Mas a decisão da AXA não é apenas simbólica ou uma pura jogada de marketing para melhorar a imagem da companhia. O fato joga pressão sobre o destino dos investimento de outras seguradoras e gestoras de recursos e dá força a grupos ativistas muito bem organizados e conectados internacionalmente, que infernizam a vida de grandes corporações com sua luta pelo desinvestimento no mercado financeiro de setores como tabaco, petróleo e de companhias, por exemplo, que têm práticas de desmatamento ou maltrato de animais. “Como um dos principais investidores institucionais no mundo e uma seguradora líder em saúde, o Grupo AXA quer ser parte da solução, e nossa esperança é que outros em nossa indústria façam o mesmo”, acrescentou Buberl. O CEO da UICC, Cary Adams, reforçou o recado: “A UICC e seus parceiros no mundo todo têm trabalhado diligentemente ao longo dos últimos anos para envolver todas as partes da sociedade no reconhecimento dos efeitos sociais e econômicos desastrosos que a indústria do tabaco provoca sobre todos nós. Precisamos de empresas como a AXA para sinalizar que investir em uma indústria que mata seus clientes é simplesmente a coisa errada a fazer; e este anúncio de desivestimento de mais de US$ 2 bilhões é um passo marcante na direção certa. A iniciativa Carteiras Tabaco Livre, liderado pelo Dr. Bronwyn King, continuará a incentivar outras empresas a seguir o exemplo notável da AXA”, elogiou o ativista. 14

O professor de finanças Mark Wendan, especialista em seguros, concorda que o movimento da companhia é relevante num contexto mais amplo da comunidade financeira global, mas lembra que analistas financeiros, gerentes de fundos bilionários e investidores não ficam eufóricos com esse tipo de notícia. “Eles são frios e estão interessados no retorno, na lucratividade. Um processo de desinvestimento em cascata não deve ocorrer no curto e médio prazos só porque uma empresa deu o primeiro passo. Claro que tem impacto, mas estamos falando de um processo cultural lento, que depende de uma conjunção de fatores: o passo dado pela AXA é apenas um deles, mas também é preciso que as empresas tenham uma política de investimentos éticos melhor definida, que haja mais pressão por parte de ativistas e decisões de governos que continuem a afetar a lucratividade de setores ‘do mal’, como a indústria do tabaco”, analisa Wendan. O próprio caso da seguradora é exemplo do que diz o especialista. A decisão de desinvestimento vale apenas para empresas do grupo que atuam na indústria seguradora. A comercialização de títulos e ações de empresas ligadas ao tabagismo para terceiros feita pela AXA Investment Managers segue inalterada. “Um buraco na política de investimento responsável Thomas Buberl, CEO da AXA A francesa AXA é maior seguradora europeia com quase US$ 1 trilhão em ativos Ranking Seguradora País Ativos (US$ bilhões) 1 AXA França 969,9 2 Allianz Alemanha 928,2 3 Legal&General Reino Unido 585,8 4 Aviva Reino Unido 574,7 5 Prudential Reino Unido 573,4 6 Generali Itália 540,4 7 Aegon Holanda 456,4 8 CNP Assurances França 430,5 9 Zurich Suíça 381,9 10 Standard Life Reino Unido 261,8 Maiores da Europa Fonte: www.relbanks.com da companhia, tão alardeada com a divulgação do desinvestimento inédito da indústria do cigarro”, acrescenta Wendan. Os números falam por si. Nos Estados Unidos, as ações de empresas da indústria do tabaco estão pegando fogo. Nos últimos 12 meses encerrados em abril deste ano, os papeis na Bolsa de Nova York da Altria (dona da marca Philip Morris) valorizaram-se 30%. Somente na última década a média anual de retorno aos acionistas proporcionados pelas ações da tabagista Altria foi de 17%, de acordo com o site de análises financeiras Morningstar. Outra gigante da indústrica dos cigarros, a Reynolds-American (fabricantes de marcas como Pall Mall e Camel, por exemplo), entregou retorno financeiro com ganhos de 16% na última década e encerrou os últimos 12 meses, até abril, com valorização de 40%. Diante dos números do mercado financeiro e da complexidade operacional de uma seguradora do porte da AXA, é ingenuidade achar que abandonar investimentos na indústria do tabaco tenha sido guiado apenas por princípios. Claro que esse aspecto foi fundamental na inédita decisão dos diretores da seguradora francesa, e isso é muito mais que bem vindo para a sociedade global e mais ainda para os clientes da seguradora. Mas é preciso também não ignorar que conflitos entre áreas financeiras e de responsabilidade social são regras no mundo corporativo e impedem avanços institucionais como esse desinvestimento da companhia. A esperança é que o exemplo de agora ajude a equilibrar esses conflitos e inspirar outras seguradoras. * Luciano Máximo, jornalista, é repórter licenciado do jornal Valor Econômico, cobriu o setor de seguros e resseguros na Gazeta Mercantil 15