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4 months ago

Revista Apólice #210

entrevista | Gustavo

entrevista | Gustavo Cunha Mello Mais gerenciamento de risco, por favor! Gustavo Cunha Mello, corretor de seguros e especialista em gerenciamento de riscos, fala sobre os problemas que podem ocorrer quando este trabalho é deixado de lado APÓLICE: Nas grandes obras no Brasil, falta gerenciamento de risco? Gustavo Cunha Mello: Falta gerenciamento de risco no Brasil como um todo. As pessoas somente se lembram do risco depois de tomarem grandes prejuízos e é um problema cultural ainda. APÓLICE: E as grandes obras? Gustavo Cunha Mello: Mesmo supondo que não haja corrupção, o modelo de licitação, pela Lei 8.666, é melhor do que no passado, mas ainda não é o ideal. O órgão público cria um edital de licitação com um projeto. Muitas vezes, ele é quase arquitetônico. A preocupação é com a beleza e funcionalidade do equipamento, mas não está preocupado com detalhes da obra. Quando licitam isso, não exigem um padrão mínimo de qualidade. O projeto é mais robusto quando é pensado primeiro em sua estrutura, com uma licitação, e depois com outra licitação para a obra. Quando cai na mão do engenheiro que ganhou a licitação, ele tem que gerir com poucos recursos um projeto. APÓLICE: Quais são os exemplos? Gustavo Cunha Mello: O Maracanã foi reformado para a Copa e já apresenta 6 diversos problemas em sua estrutura, como banheiros vazando, paredes com rachaduras, escadas problemáticas. Outro exemplo seria o Engenhão, que foi construído para os Jogos Panamericanos, na gestão do prefeito Cesar Maia. O maior estádio dos Jogos Panamericanos do Rio já foi fechado porque a sua torre e a cobertura poderiam desabar. Estes são exemplos de obras públicas realizadas sem a qualidade devida. Uma das razões é o modelo de licitação que é não é adequado, pois licita projeto e construção conjuntamente. APÓLICE: Neste cenário, como entra o mercado de seguros? Gustavo Cunha Mello: O mercado de seguros tem a visão de outra ponta do triângulo, pois são players diferentes: a seguradora, a empreiteira e o Poder Público. Este último deveria estar preocupado com a qualidade desta obra e o seu gerenciamento de risco. Há muitas obras que acabam matando pessoas. A obra do BRT (Trânsito Rápido por Ônibus), no Rio, simplesmente tirou uma faixa de circulação de carros e pintou o chão. Ninguém pensou que se está colocando um ônibus de alta velocidade, com risco de atropelar as pessoas. Não há preocupação em criar barreiras para que as pessoas não circulem próximas à pista. No Rio de Janeiro há, pelo menos, um acidente grave, com vítima, por mês. Foi uma construção não pensada. Na Avenida Rio Branco, também no Rio, está sendo construído o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), onde há grande fluxo de pessoas, sem nenhuma barreira, no fluxo e contra-fluxo. Não foi pensado no gerenciamento de risco para a população, que está acostumada com mão única de veículos. APÓLICE: E sob a ótica da seguradora? Gustavo Cunha Mello: A seguradora faz o gerenciamento de risco de sua carteira de seguro, pois ela está pensando no seu interesse, como empresa. Ela tem que prestar o serviço do seguro, dar cobertura aos sinistros que acontecerem, mas ela tem o objetivo de manter carteiras de seguro saudáveis, até para manter o mutualismo no seguro. Neste gerenciamento de risco ela recebe o contrato de um projeto de engenharia para construir um estádio, por exemplo, e basicamente vai ver se há capacidade técnica e financeira para construir. Quem manda no seguro é o cronograma financeiro e o projeto. Ela vende a cobertura de erro de projeto para aquilo que está no papel. Ela não interfere na relação Poder Público/Empreiteira e apenas atende ao que foi contratado. Se houve erro de projeto no caso da ciclovia Tim Maia, de ausência de projeção para o suporte de ondas fortes, para a seguradora não é erro de projeto, se isso não foi pedido. APÓLICE: Só seria erro de projeto se estivesse no papel e a empreiteira não tivesse cumprido o projeto? Gustavo Cunha Mello: Exatamente. Quando eu considero um projeto, é de acordo com aquilo que foi contratado. Se teve erros de cálculo de engenharia, erros de execução (cobertura básica de riscos de engenharia) e erros de projeto seria considerado que o sujeito não calculou direito as vigas, a amarração etc. Em parte, no final da história, nesta perícia pode ser que se encontre erro de todo mundo, inclusive da empresa que construiu (se a plataforma não fosse de concreto, mas de metal vazado talvez não tivesse sido levantada). APÓLICE: Os gerentes de risco podem ser considerados uma espécie em extinção? Gustavo Cunha Mello: Existem pouquíssimos destes profissionais, em-

ora muita gente erradamente se julgue gerente de risco. Para isto, é preciso formação acadêmica própria e especialização. Outra questão é que os corretores podem contribuir, mas jamais assinar relatórios de gerenciamento de risco, e a mesma coisa para as seguradoras, pois poucos vistoriadores são gerentes de risco. Dizer que faz gerenciamento de risco quando você basicamente instala um rastreador em um caminhão, sem de fato ter a técnica, é perigoso. As pessoas talvez não percebam que o gerenciamento de risco é uma metodologia científica que tem uma série de ferramentas matemáticas para levar a uma tomada de decisão e para apontar os riscos. É um processo. Primeiro identifico os riscos, avalio e analiso a probabilidade deles acontecerem e coloco nesta análise a avaliação do prejuízo que eles possam causar, a severidade deles. Frequência e severidade, utilizando a estatística. A partir disso se aponta o tratamento, entre criar provisões técnicas, não correr o risco ou abdicar do risco, ou ainda transferir o risco para a seguradora. Quando o sujeito trabalha com o seguro, ele cuida apenas do tratamento, que é a transferência do risco, mais simples 7

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