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Moda & Negócios_EDIÇÃO 14

José Urbano FEIRA DA

José Urbano FEIRA DA SULANCA E O TECIDO SOCIAL DO AGRESTE PERNAMBUCANO Pelos registros históricos, a palavra Sulanca é formada por dois termos: Sul, região geográfica do Brasil + Helanca, tecido de origem Suíça, desenvolvido nos anos 40 pela empresa Heberlein&Co, composto por fios texturizados envolvidos em processo químico semelhante ao nylon, como alternativa ao algodão, planta essa escassa no período pós segunda Guerra Mundial, na Europa. Na região agreste de Pernambuco, as cidades de Santa Cruz do Capibaribe e Brejo da Madre de Deus se destacavam como produtoras de hortaliças, como cenouras e beterrabas, sendo a maior parte da produção exportada para os estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Conta a tradição que - para os caminhões não voltarem vazios - seus proprietários tiveram a ideia de trazer “retraços de panos” adquiridos no comércio paulista, para produzir lençóis de retalhos e revender nas feiras da região agrestina. O local onde surgiu o primeiro movimento de vendas, foi exatamente na esquina entre as ruas Siqueira Campos e a Av. João Francisco Aragão, na cidade de Santa Cruz. Na década de 1950, quando os comerciantes José Morais e Manuel Francisco de Deus, além de algumas famílias tradicionais da terra, tal como a Monteiro, começaram a fabricar e vender, estava formada a matriz do lucrativo processo informal. Utilizado no fabrico de meias, collants e malhas, as características principais destes artigos são a sua elasticidade, suavidade e facilidade em vestir, além da praticidade de não “amassar” dispensando o uso do ferro elétrico, antigamente conhecido como de “engomar”. Com o campo aberto pelos empreendedores pioneiros, destacou-se por volta de 1963 o então motorista de caminhão Fernando Silvestre da Silva (Noronha), já falecido, que investiu “30 mil contos de réis” para controlar no lugar a revenda de tecidos. Para não correr o risco de perder o estoque feito, resolveu vendê-lo todo a prazo às costureiras, com base apenas na confiança. “Deu certo e a coisa não parou mais”, segundo palavras do próprio Noronha à revista VEJA, edição de 13.12.78. Depois disso, a Sulanca começou a expansão até os nossos dias. Durante vários anos, o termo “Sulanca” era associado à mercadoria de baixa qualidade, de produção caseira e para um público de baixo poder aquisitivo, aspecto que foi superado a partir de investimentos em máquinas e treinamentos de mão de obra, qualificando-as para competir no mercado regional e nacional. Na cidade de Caruaru, a feira da Sulanca chegou em meados de 1984, como uma alternativa local de vendas para as mercadorias remanescentes das feiras de Santa Cruz do Capibaribe e Toritama, realizadas nos dias anteriores. Particularmente, lembro dos primeiros bancos montados aqui, no lado sul da ponte do Colégio Sagrado Coração, na parte da frente da Casa dos Pobres São Francisco de Assis. Menos de uma década foi o suficiente para essa atividade informal acrescentar valores muitos significativos na sociedade Caruaruense, tornando a cidade um porto seco de escoamento da referida produção, bem como as transformações sociais na identidade da nossa gente, nos quesitos profissionais, expansão imobiliária, comerciais e econômicos. As cidades de Santa Cruz do Capibaribe, Toritama e Caruaru detém dois terços da produção, sendo a Capital do Agreste a que se destaca como Polo Exportador de Confecções, entre outros motivos, pela sua favorecida posição geográfica, a proximidade de capitais nordestinas, o entroncamento das BRs 232 e 104, ambas duplicadas na região agreste, entre outros fatores. Estudos feitos por órgãos governamentais, apontam a presença de 100 mil máquinas de costuras, empregando diretamente 130 mil pessoas, em 19 mil unidades 8

produtoras, espalhadas em 10 municípios. O polo da Sulanca, já é o segundo maior de confecções do Brasil - só perde para São Paulo. Atualmente, os pernambucanos produzem 900 milhões de peças em tecido, com um faturamento de R$ 1,1 bilhão por ano, equivalente a 11% da produção nacional. Nos dias atuais, a Helanca divide todos os espaços com a produção de roupas em Jeans, ditando a moda regional, e acompanhando as tendências naturais do mercado, geralmente regidas pela mídia aberta, com ênfase na televisão. Feiras de negócios atraem empresas do Brasil e do exterior, enxergando elas a oportunidade de excelentes negócios, bem como publicações específicas, como a revista Moda & Negócios, que , somada aos programas de TV local, são veículos que divulgam nacionalmente o nosso jeito de vestir. Transformando as economias regionais, criando alternativas de sobrevivência frente às adversidades climáticas no nordeste, melhorando os índices de desenvolvimento humano, diminuindo diferenças e redistribuindo trabalho e rendas, a produção têxtil do interior de Pernambuco hoje colhe frutos de sementes lançadas no século passado, a partir da soma de criatividade, força de trabalho e aproveitamento de oportunidades que a nossa gente sabe lidar como poucos. Fio a fio, construímos o valioso tecido social com a marca 100% nordestina. Prof. José Urbano Historiador; Membro da Acaccil; Técnico em Educação do Campus Agreste Universidade Federal de Pernambuco