BRASIL COMBATE MAGAZINE | EDIÇÃO #2 | MAR 2018

brasilcombate

Revista digital especializada em esportes de combate, com periodicidade bimestral. Nesta edição trazemos um tema polêmico - Farra da graduação atinge espírito da arte suave.

Sem dúvida, de alguma forma, a conta vai chegar para os CHARLATÃES, que pensam em burlar as regras dessa cultura viva, porém em transformação.

Nada, nada poderá esconder a vergonha que, em dia e hora estabelecidos, desfilará a humilhação alheia em tatame aberto.

Nesse dia serão eviscerados o suor jamais derramado, a técnica nunca apreendida, a ausência do equilíbrio só vivenciado no tatame, sem malandragem. Quem chorou ali um dia, esteja certo, sabe.

Boa leitura e boa reflexão. Oss.

Edição #2 • Ano I • Março 2018

BRASILCOMBATE

MAGAZINE

FARRA DA GRADUAÇÃO ATINGE

ESPÍRITO DA ARTE SUAVE

ABRINDO

O JOGO

LEANDRO BRASSOLOTO,

DA EQUIPE ATOS JIU JITSU

QUARTEL

GENERAL

CEI JIU JITSU

PRATAS DA CASA: ENTREVISTA EXCLUSIVA COM AILSON BRITES “JUCÃO”


18

ÍNDICE

08

04 Quartel General - QG

Conheça a CEI Jiu Jitsu.

06 Mulheres de luta

Luana Fiquene (Ribeiro JJ).

08 A bela é fera

Michelle Santana.

34

10 Capa

Farra das graduações.

14 Conditioning Training

Preparação física - Negligências.

26

10

28

16 Medalhou

Guto Inocente (RKT).

18 Pratas da casa

Ailson Brites “Jucão”.

22 Enciclopédia

Mestre Orlando Saraiva.

25 Alimentação afiada

Ah, o ovo...

26 Superação

Patologia sem cura.

28 Abrindo o jogo

Leandro Brassoloto (Atos JJ).

30 Feras do MMA

UFC 223.

31 Siga

Os influentes do instagram.

32 Fisioterapia Esportiva

Fadiga muscular.

34 Cobertura

Brasília Golden Cup.

2 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


EDITORIAL

Graduações forjadas no dinheiro e na influência

A arte suave navega na filosofia da técnica e marca na alma

do praticante o controle, o autoconhecimento e o equilíbrio.

Ela imprime um selo de qualidade na conduta do homem

e faz dele um modelo social de retidão. Claro, tudo sob a

perspectiva do mestre.

A questão dos atalhos, ao propor a quebra de regras a

partir da imposição de sentimentos mesquinhos na busca

por faixas e graduações, demonstra que a leveza da arte

precisa despertar a indignação dos velhos mestres ao

apontar novos caminhos.

Parodiando o eterno exemplo, que foi o mestre Hélio Gracie,

“se a faixa não for conquistada em cima do tatame com

sacrifício, aplicação e lágrimas” ela se torna um reles pedaço

de pano, que só serve para limpar vidraças. Esse conjunto,

quando bem aplicado, deixa a pele cascuda ao preparar o

corpo para o próximo desafio.

Afinal, fraudar métodos com objetivos pessoais, sem se dar

ao cuidado de aplicar os princípios mais basilares dessa

arte secular, pode comprometer a respeitabilidade que

envolve mestres e alunos.

Ao destruir o conceito de convivência à procura de vantagens,

perde-se a essência que alimenta, prepara e molda

a conduta dos adeptos do jiu jitsu. Assim, no contraponto

da suavidade da arte, fica a rigidez de propósitos que caminham

na linha oposta à da arte, dando peso à leveza,

que deveria ser regra.

Faz-se urgente a intervenção dos verdadeiros mestres,

autoridades no assunto para reescrever, com sangue, novas

convenções que mudem a realidade do oportunismo.

Sem dúvida, de alguma forma, a conta vai chegar para os

CHARLATÃES, que pensam em burlar as regras dessa cultura

viva, porém em transformação.

Nada, nada poderá esconder a vergonha que, em dia e hora

estabelecidos, desfilará a humilhação alheia em tatame

aberto.

Nesse dia serão eviscerados o suor jamais derramado, a

técnica nunca apreendida, a ausência do equilíbrio só vivenciado

no tatame, sem malandragem. Quem chorou ali

um dia, esteja certo, sabe.

Boa leitura e boa reflexão. Oss.

Editor Chefe

Wesley Moura

editor@brasilcombate.com.br

Diretor Comercial

Eduardo Lustosa

+55 (61) 98133-9544

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Revisão

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Colaboradores

Bruno Santos, Fábio Quio, Kleber

Santos, Sabrina Cavalcanti, Jéssica

Máximo e Gabrielle Estrêla

Editor de Fotografia

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Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 3


CONHEÇA A

CEI JIU JITSU

QUARTEL GENERAL

Elton Costa

Repórter

Cláudio Márcio Nunes Menezes,

mais conhecido como Cláudio Careca,

líder da equipe CEI Jiu Jitsu,

coleciona em seu currículo, além

da humildade, diversos títulos: 2x

campeão mundial (CBJJO), 2x campeão

internacional master (IBJJF),

2x campeão internacional (IBJJF),

2x campeão Sul-americano (CBJJ)

entre outros.

Aos sete anos de idade, iniciou nas

artes marciais, tendo como principal

influência Bruce Lee. Na época,

os amigos Luís Carlos e Manuel o

incentivaram a treinar Kung Fu, e

foi aí que careca se tornou fã das

artes marciais, chegando a treinar

kung fu, karatê, capoeira, taekwondo,

judô, boxe, luta olímpica e jiu jitsu.

Com toda essa experiência, criou

a primeira academia de jiu jitsu

da cidade de Ceilândia, satélite de

Brasília, a CEI Jiu Jitsu.

BRASIL COMBATE: Antes, você

representava a Banni Fight Club.

Como aconteceu a migração para

a equipe do Cassio Werneck?

CLÁUDIO CARECA: Conheci o jiu

jitsu com o Mestre Banni Cavalcante,

treinei com ele até a faixa roxa. É

uma grande personalidade, muito

técnico, muito profissional. Na época

ele parou de ministrar aulas temporariamente

e me encaminhou para o

professor Campeão Mundial (IBJJF)

Cassio Werneck, com quem tive a

honra de ser formado faixa preta e

com quem também comecei uma

nova etapa, subindo para um nível

competitivo e de alto rendimento.

Ambos os professores são meus

amigos pessoais e, além de termos

afinidade ideológica, com eles aprendi

muito, tanto no tatame como na

vida pessoal. Eles foram de suma

importância na minha formação,

amadurecimento e melhoria como

ser humano.

BC: Qual foi o dia mais feliz da sua

vida no jiu jitsu?

CC: O dia em que recebi a faixa

preta. Creio que não só para mim,

mas para todos que a conquistam.

Tê-la recebido foi uma recapitulação

da vida, de quem eu fui, quem sou e

quem serei. Então, a ficha cai e, no

outro dia, você acorda e, com muito

orgulho, se vê faixa preta, até porque

dormi de kimono, com a faixa (risos).

BC: Quantos alunos a CEI Jiu Jitsu

tem atualmente? Houve expansão

para outras cidades? Se sim, onde

estão localizadas as unidades?

CC: A CEI Jiu Jitsu tem 21 anos.

Somos 15 filiais, totalizando 600

alunos, uma das maiores equipes de

Brasília e do Entorno, genuinamente

do DF. Chegamos a esta posição, de

uma grande equipe, sem termos nos

filiado a franquias ou a outras equipes

maiores. Também não tivemos

reforço de graduados oriundos de

outras equipes.

BC: Algum aluno tem se destacado?

CC: Temos vários alunos que se destacam.

Atualmente, podemos citar o

Yuri Alves e Humberto Carrilho, que

estão fazendo uma bela campanha

na faixa preta. Há também o Matheus

Apolinário na marrom, Diego Tank

na faixa roxa e a Welma Moreira

na Azul.

BC: Como você enxerga aqueles

alunos que lapidou? E como se sente

quando eles chegam ao patamar de

competição e te abandonam?

CC: Encaro com naturalidade. Quando

um aluno se destaca e resolve sair,

de uma forma ou de outra, acabamos

sempre por cumprir a nossa missão,

atingindo nosso objetivo, que é contribuir

para formar pessoas melhores

e também proporcionar outras

perspectivas de vida. Fazemos isso

oferecendo opções e oportunidades

que, em decorrência da realidade

vivida aqui, não seriam possíveis se

não fosse o jiu jitsu. Infelizmente,

a vaidade e o ego estão antes do

jiu jitsu, em algumas situações. Na

nossa cultura, em alguns casos, os

garotos não entendem que há um

longo caminho a ser percorrido e

4 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


somente na faixa preta será alguém.

Em muitos casos, os faixas amarela

e laranja são verdadeiras estrelas,

enquanto os roxa e marrom estão

quase aposentados. Perde-se um

pouco da filosofia. Para muitos dos

nossos, em relação ao resto do País,

ainda falta maturidade. Somos uma

cidade cuja ideologia é a do funcionalismo

público: as pessoas não querem

sair da zona de conforto, acabam

acomodadas e não acreditam tanto

quanto deveriam. Prova disso é que

só temos dois campeões mundiais,

o Cassio Werneck e o Bernardo Pitel

e, há aproximadamente quinze anos,

não formamos um Campeão Mundial.

Esses fatos sinalizam que alguma

coisa estamos fazendo de errado.

Falo isso, porque também saiu uma

pesquisa da revista

Gracie Magazine

que nos posiciona,

juntamente com

Goiânia, em último

lugar. Agora, reflitam:

nós formamos

apenas dois campeões

mundiais há

quinze anos, já as grandes equipes

de fora de Brasília, tem em cada

uma delas no mínimo um ou dois

campeões. Se juntarmos toda a

nação do jiu jitsu em Brasília, não

conseguimos um. Espero que, ao

lerem isso, encarem com uma crítica

construtiva. Aí me vem um cidadão

e diz: “Meu aluno já foi Campeão

Mundial na Marrom ou na azul, ou

na categoria master”. Parabéns! Só

que, sem querer desmerecer e muito

menos ofender as outras faixas,

categorias, equipes e professores,

longe disso: temos muitos e muito

bons competidores que fizeram e

fazem um bom papel no cenário do

jiu jitsu, mas nos faltam atletas de

alto rendimento.

BC: A CEI Jiu Jitsu está sempre trabalhando

com bolsa para atletas.

Como é possível manter os custos

operacionais da academia?

CC: Sempre trabalhamos com bolsas

para alunos. É nosso dever para com

o próximo. Dentro das possibilidades,

"Prova disso é que só temos

dois campeões mundiais, o

Cassio Werneck e o Bernardo

Pitel, e, há aproximadamente

quinze anos, não

formamos um Campeão

Mundial".

usamos o jiu jitsu como ferramenta

de transformação social. Na nossa

concepção, acreditamos no homem

novo, equilibrado, dono de autoestima

elevada, harmonizado, forte e

saudável. Todas essas características

são trabalhadas no jiu jitsu e, desta

forma, contribuímos com a paz social.

BC: Há alguns anos você foi vice-

-presidente de uma federação de

jiu jitsu que iniciava os projetos em

Brasília. O projeto se desenvolveu,

mas depois desapareceu. Por que

você não quis continuar no projeto?

CC: A época da Federação teve o

seu momento bom. Conseguimos

revolucionar e democratizar o jiu

jitsu competitivo no Distrito Federal,

trouxemos atletas de alto nível,

criamos e profissionalizamos equipe

de arbitragem,

juntamente com

equipe de trabalho

em campeonatos,

formamos uma seleção

Brasiliense

de jiu jitsu, que por

duas vezes lutou

fora de Brasília.

Demos uma chacoalhada na cidade

e, logo depois de ter cumprido essa

missão, resolvi deixar a federação.

Não sou muito político. Dei a minha

contribuição no que foi possível.

BC: Hoje em dia, há muitas federações

e confederações. Já ocorreu de

o atleta lutar uma ou duas vezes e

ser considerado campeão mundial

de jiu jitsu. O que você tem a dizer

sobre isso?

CC: Penso que o indivíduo tem que

criar a sua própria história, não adianta

tapar o sol com a peneira. Hoje

o jiu jitsu está muito profissional;

chegar até que não é muito difícil,

o difícil é se manter. Não há espaço

para o camarada se esconder, tudo é

muito explícito, tanto o atleta, quanto

o público, patrocinadores, etc. Todos

acompanham o cenário.

BC: É verdade que, após alguns anos

como vice-presidente da federação

citada acima, você não teve seus

graus reconhecidos pela CBJJ, mesmo

com intermédio do seu professor

Cassio Weneck e do Mestre Deoclécio?

Poderia explicar este episódio?

CC: Eu recebi a faixa preta das mãos

do meu mestre Cassio Werneck, no

ano de 2004, e os graus, de acordo

com a norma da CBJJ/IBJJF, do Mestre

Deo, que também atestou a minha

graduação. Sou filiado à CBJJ/IBJJF

desde 1999 e, por alguns anos, por

não ter lutado e nem me filiado, mas

em plena atividade com o jiu jitsu,

reconheceram apenas dois graus na

minha graduação, sendo que, neste

ano, serei graduado ao quarto grau.

Não entendi, mas respeitei a decisão.

BC: Para você, a graduação dos alunos

é um termômetro secundário

nas artes marciais em geral? Qual

sua opinião sobre a graduação

acelerada?

CC: A graduação acelerada sem o

aluno estar pronto é uma tendência

que não vai parar. Para muitos,

tornou-se vaidade e quem não gradua

se sente envergonhado e, em

alguns casos, até sai da academia.

O indivíduo deve receber a faixa no

tempo que o professor competente

julgar necessário. A graduação não

é algo pessoal, muito pelo contrário

:precisa ser muito profissional neste

momento e ter discernimento. O motivo

da aceleração da graduação sem

o aluno estar preparado prejudica a

todos envolvidos.

BC: Nesta edição, o tema é a farra

das graduações. Você realmente acha

que estamos vivendo um momento

exacerbado das graduações no jiu

jitsu e que, com isso, surgem os faixa

pretas fake?

CC: É muito triste, mas real. Há alguns

casos em Brasília que chegam a ser

ridículos e, quando só falamos e não

tomamos providências, nos tornamos

omissos. Além disso, há também a

questão de graduação pela internet.

Ambas as práticas contribuem para

um declínio na qualidade da arte

suave. Por isso, acho que deveria

ser criado um conselho regional de

faixas pretas, sem nenhum vínculo

com políticos ou instituições, para

fiscalizar as graduações, a fim de

coibir o aumento dos fakes. BC

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 5


MULHERES

DE LUTA

Gabrielle Estrêla

gabibapestrela@hotmail.com

PERSISTÊNCIA: A MARCA DE LUANA FIQUENE

Olá, guerreiras!

Graças a vocês, a edição

inaugural da revista

Brasil Combate foi um

sucesso. Nesta edição, o quadro

Mulheres de Luta traz mais novidades

sobre o mundo feminino no

jiu jitsu. Diante de toda a receptividade,

manteremos nossa proposta:

trazer informações sobre o esporte

e compartilhar histórias de grandes

guerreiras, que lutam dentro e fora

dos tatames.

Atualmente, o público feminino

está cada vez mais presente nas

academias de jiu jitsu, realidade há

pouco tempo desconhecida. Se antes

encontrar mulheres nos treinos era

incomum, hoje não o é mais. Esses

são os paradigmas que precisam ser

quebrados, afinal lugar de mulher é

onde ela quiser.

Para confirmar esta evolução, apresentamos

uma atleta que vivenciou

essa reviravolta na arte suave: a

faixa preta terceiro grau da equipe

Ribeiro Jiu Jitsu, Luana Fiquene,

que, aos 38 anos, faz jus ao título

Mulheres de Luta.

A atleta começou no jiu jitsu aos 18

anos, mas não foi apenas o amor pela

arte suave que a fez permanecer

no tatame, como veremos a seguir.

Luana se formou faixa preta e teve

a honra de receber a tão sonhada

graduação das mãos do professor

Adimilson Brites “Juquinha”. Além de

atleta, é mãe e professora —“posso

dizer que hoje sou uma mulher

realizada na minha trajetória”.

Não é para menos. Em seu currículo,

há títulos importantes, tais como

campeã mundial, duas vezes campeã

Pan-americana, quatro vezes campeã

Brasileira, quatro vezes campeã sul-

-americana, quatro vezes campeã

internacional master, dentre outros.

BRASIL COMBATE: Quando você

iniciou no jiu jitsu e quais foram

as maiores dificuldades para permanecer

no esporte, sendo uma

das poucas mulheres praticantes?

LUANA: A primeira pessoa que me

apresentou o jiu jitsu, quando eu

tinha 15 anos, foi o sensei Juquinha,

mas na época eu achava o

jiu jitsu muito feio, pois era muita

intimidade para uma menina de

apenas 15 anos treinar no meio de

tantos homens. Não havia mulheres

treinando, sequer passava pela

minha cabeça treinar. Em 1998,

fui a Salvador e conheci meu ex-

-marido, que também é faixa preta,

e, já com maior maturidade, além do

fato de ter alguém conhecido para

treinar, me senti à vontade e não

parei mais. Foi amor pelo marido e

pela arte suave (risos). Quando fiz

as primeiras aulas, quebrei todos

os paradigmas sobre o jiu jitsu: vi

que o olhar de fora é bem diferente

do que se tem quando se coloca o

kimono. Os pré-conceitos ficaram de

lado. Continuei treinando por mim

mesma, pois me fazia tão bem que

nem ligava para as “dificuldades”, na

época, a pouca presença feminina.

Claro que meu ex-companheiro me

ajudou bastante, me incentivando.

BC: Você já passou por algum tipo

de preconceito por ser mulher em

alguma situação dentro do jiu-jítsu?

LU: Nunca sofri nenhum preconceito

por ser mulher treinando jiu jitsu e,

se houve, nunca chegou aos meus

ouvidos de fato, até porque eu nem

ligava, estava mais preocupada

com o que me fazia bem. Senti um

tratamento diferente não por ser

mulher, mas, como sempre lutei

em categorias pesadas, sempre

rolavam as conversas de que, quem

é pesado (gordinho ou gordinha),

6 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


não dava para o jiu jitsu, que não

era esporte de pessoas gordinhas e

tal. Nunca liguei para isso, porque

quem treinava, quem saía do treino

morta de cansaço e quem subia no

pódio para receber a medalha era

eu. Então, não precisava provar nada

para ninguém. Trouxe respostas com

meus títulos e com muitas mulheres

alunas, inclusive várias gordinhas

que consegui trazer para o tatame

e mostrar para elas que elas podem

sim ter flexibilidade, serem fortes,

resistentes e guerreiras. Se tem uma

arte marcial ou esporte que é para

todos, é o jiu jitsu.

BC: Qual sua opinião sobre a comercialização

do jiu jitsu, a troca

de faixas precoces? No que a “farra

das graduações” pode refletir na

arte suave?

LU: O jiu jitsu evoluiu em todos os

setores, no ensino, na qualificação

dos professores, nas academias,

nas competições, nas instituições

(federações e confederações) e,

principalmente, na condição que o

atleta tem para treinar. O jiu jitsu

passou de esporte amador para

esporte profissional e, com isso, é

normal que as equipes se tornem

empresas e que os atletas craques

profissionais, sujeitos a receberem

propostas melhores. Antes, quem

mudasse de equipe era creonte;

hoje, cada caso é um. Temos vários

atletas e professores que vivem

do jiu jitsu. Não concordo com a

banalização da graduação. Isso foi

um fator que sempre existiu e hoje

existe menos, até porque a Confederação

controla as graduações de

seus afiliados, então é preciso ter

carência nas faixas. O atleta pode

até receber uma graduação que não

seja certa, mas vai ficar no anonimato.

É aquela coisa: se você recebe uma

faixa indevida para seu nível, quem

vai sofrer as consequências e ter que

segurar a onda é você, mas, como em

todos os esportes, existem os maus

profissionais.

BC: O que você acha da rivalidade

dentro do jiu jitsu feminino?

LU: Eu acho que a rivalidade não

é a saída, já que fica mais fora do

que dentro do tatame. Acho que a

mulherada está sabendo lidar bem

dentro dos tatames. Fiz grandes

amizades com adversárias minhas,

mas sabemos que temos que ser profissionais

na hora certa, até porque

sua adversária quer a mesma coisa

que você.

BC: Em sua opinião, qual principal

fator que contribuiu para o contínuo

crescimento do jiu jitsu feminino?

LU: A mulher vem conquistando muito

espaço no jiu jitsu. Hoje é possível

assistir a lutas muito mais interessantes

das mulheres que de alguns

homens, até eles admitem isso. Tenho

vários amigos que admiram e se

espelham em outras mulheres lutadoras.

Nós conquistamos este espaço,

perseverando, nunca desistindo. Os

eventos estão investindo mais nas

mulheres porque elas sempre estão

batalhando por melhorias e nunca

deixando de competir.

BC: Qual foi seu principal título e

como foi viver essa conquista?

LU: Participei de vários eventos ao

longo dos meus 18 anos de jiu jitsu e

já ganhei cinco mundiais pela CBJJE,

mas nunca havia conquistado um título

mundial pela IBJJF, muito menos

fora do país, em um lugar incrível

como Las Vegas (EUA). Lá, em 2017,

conquistei o ouro duplo (categoria

e absoluto) no Mundial Master. Este

evento, particularmente, foi superação,

pois havia me machucado um

mês antes no Internacional Master,

ocasião em que também havia conquistado

o ouro duplo. Foi incrível

poder estar junto com meus mestres

e minha família de tatame lá.

BC: Deixe uma dica para nossas guerreiras

leitoras, que estão iniciando

a prática da arte suave e querem

chegar à sonhada faixa preta.

LU: O jiu jitsu é minha terapia diária,

meu investimento na minha

felicidade. Por experiência própria:

coloquem o kimono e façam uma

aula, pois olhar de fora com pré-

-julgamentos é furada. BC

Luana Fiquene ouro na categoria e no absoluto do World Master 2017, em Las Vegas (EUA)

Foto: Arquivo Pessoal

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 7


Foto: Click Tropicalia

A BELA É FERA

MIA ASSIS

Aos 33 anos, a paulistana Michelle Santana Novaes de Assis, a Mia, deixou sua terra

natal para morar no Rio de Janeiro. Lá, no bairro da Tijuca, descobriu o amor pela arte

suave. Formada em turismo, chegou a atuar como comissária de voo, mas, em um

romance com o jiu jitsu, abandonou a carreira nos ares e decidiu cursar educação física.

A faixa roxa da equipe Soul Fighters Tijuca também busca ampliar seu leque nas artes

marciais e, paralelamente ao jiu jitsu, nas horas de descanso, investe na luta livre e na

musculação, sua terceira paixão.

Mia não perde a pose após os treinos e sempre tem uma escova para ajeitar os cabelos

para as fotos. Na parede do quarto, estão expostas suas 33 medalhas obtidas no jiu jitsu.

Ela é vaidosa, mas, cuidado: além da vaidade, domina técnicas que podem fazer dormir.

De kimono, está muito bem vestida, mas seu melhor traje mesmo é o sorriso. BC

8 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


Foto: Jack Taketsugo

FARRA DA GRADUAÇÃO (CAPA)

ATINGE EM CHEIO O ESPÍRITO DA ARTE SUAVE

Wesley Moura

editor@brasilcombate.com.br

A

população brasileira

detém um dos melhores

jiu jitsu mundial e

paga uma das tarifas

mais altas por graus – aquela tarja

branca, feita por esparadrapos, que

envolve a ponteira preta na faixa

dos atletas e indica uma “promoção”

dentro da arte suave.

O jiu jitsu é também campeão na

promoção de faixa para atletas:

alguns dormem faixa marrom e

amanhecem faixa preta dois graus.

Há uma verdadeira farra de graduação

e de graus.

O sistema de graduação da arte

suave foi criado para uniformizar o

ensino e a prática desta arte marcial,

bem como padronizar os modelos

de competição. A ideia é tornar mais

simples o entendimento de todo o

processo de evolução do praticante,

desde a faixa branca até a faixa

vermelha, sendo que a graduação

ocorre por meio da troca de faixas

e da concessão de graus.

A evolução do jiu jitsu no mundo é

uma constante e, com isso, é preciso

ampliar a compreensão do processo

de amadurecimento de cada praticante

do esporte. Avançar naquilo

que se faz é sempre motivador, mas,

infelizmente, as graduações tornaram-se

fonte de renda para alguns

professores, que, frequentemente,

fazem delas o seu 13º salário.

Para o praticante da arte suave, a

conquista da faixa preta é um ideal

a ser alcançado. Tornar-se um black

belt é um dos principais objetivos

do menos graduado. Com o decorrer

dos anos, todavia, percebe-se que

alcançar a faixa preta é apenas o

começo de uma longa trajetória, cujo

maior peso é o da responsabilidade.

Para Kiko Santoro, faixa preta de

judô do sensei Miura e também

faixa preta 4º grau de jiu jitsu do

professor Ataíde Jr, “ser um faixa preta

de jiu jitsu é, primeiramente, ter sido

graduado de fato por seu professor,

por mérito, tempo e reconhecimento”.

Junior Mesquita, da Barreto Jiu Jitsu,

complementa: “receber a faixa preta

é o reconhecimento de uma trajetória

de vida, luta e superação. É o começo

de uma nova etapa, é ser exemplo e

transmissor da filosofia e estilo de

vida do esporte”.

Em regra, a promoção para uma

nova fase pode ocorrer das seguintes

formas: por exame de faixa, por

merecimento ou por tempo. Esses

três critérios são subjetivos, uma

questão particular do doutrinador.

A troca de faixa mostra que o aluno

está em outro nível e alcançou um

degrau mais elevado na arte suave.

Já a concessão de graus marca o

tempo de prática do jiu jitsu dentro

de cada cor de faixa.

Há quem diga que o famoso supletivo

também é visto como uma forma

de graduação. E como funciona o supletivo?

O aluno se inscreve em um

curso de jiu jitsu online, a distância

(isso mesmo). Nele, o “professor” cria

um roteiro de posições e, ao final

de cada módulo do “curso”, o aluno

deverá gravar um vídeo mostrando a

execução das posições que aprendeu.

Se aprovado, receberá em sua casa

um certificado e uma faixa de acordo

com o módulo que cursou.

Sobre o assunto, Leonardo Queiroz,

faixa preta 3º grau, da equipe Checkmat

Jiu Jitsu, opina: "isso é caso

de polícia".

isso é caso de

polícia".

Kiko Santoro endossa:“é uma vergonha

isso acontecer, ainda mais

partindo de um Gracie. É a maior

falta de respeito com a nossa arte; é a

coisa mais antiética que pode existir

na arte marcial, coisa de charlatão”.

Junior Mesquita vai além, e afirma

ser a graduação online “um dos

10 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


maiores absurdos que já vi. Quando

falamos em aspectos técnicos, sou

completamente a favor da utilização

da tecnologia. O jiu jitsu, contudo, tem

em sua estrutura aspectos filosóficos,

comportamentais e o convívio social,

que jamais poderão ser transmitidos

online. Como poderemos dar educação,

melhorar a autoestima, trabalhar

a parte física de nossos alunos pelo

computador? ”.

COLORAÇÃO E IDADE

As regras abordadas nesta matéria

são as estabelecidas pela International

Brazilian Jiu Jitsu Federation

(IBJJF). No jiu jitsu há um sistema de

graduação que divide os praticantes

em dois grupos, sendo que o primeiro

vai dos 4 aos 15 anos. Ao atingir

16 anos, o atleta passa a integrar o

segundo grupo - a categoria juvenil

- e pode iniciar sua graduação da

mesma forma que um adulto, com

a faixa azul.

Uma inovação que a IBJJF trouxe foi

o sistema de graduação de faixas

para os praticantes do primeiro grupo

(4 a 15 anos). Aqui, o atleta pode

conquistar as faixas: Branca; Cinza e

Branca, Cinza, Cinza e Preta, Amarela

e Branca, Amarela, Amarela e Preta,

Laranja e Branca, Laranja, Laranja e

Preta, Verde e Branca, Verde, Verde

e Preta.

Já para os praticantes do segundo

grupo (a partir dos 16 anos), a federação

estipulou a seguinte classificação:

Branca, Azul, Roxa, Marrom,

Preta, Vermelha e Preta, Vermelha

e Branca e Vermelha. A faixa preta

terá uma barra vermelha, a qual será

delineada por duas barras brancas, e

receberá de uma a seis marcações de

graus. Já as faixas vermelha e preta

(7° grau) e vermelha e branca (8°

grau) são faixas de Mestre.

A faixa vermelha é dedicada aos

Grandes Mestres (9° e 10° graus)

e tem uma barra branca e uma das

extremidades delineada por duas

barras douradas de 2cm, em que

receberá as marcações dos graus.

PERÍODO DE PERMANÊNCIA

Nos primórdios da arte suave, havia

a faixa branca e a faixa preta, o que

persistiu por muito tempo. Algumas

artes tradicionais, como o Aikido,

mantêm até hoje este sistema de

graduação.

Hodiernamente, o tempo que o

praticante de jiu jitsu levará para

ser graduado da faixa branca à faixa

preta fica a critério de cada professor,

devendo ser obrigatoriamente

respeitado o período mínimo de

permanência em cada cor de faixa.

Ressalte-se que a contagem do

período começa a partir do dia do

cadastro do atleta na IBJJF, em cada

faixa. Não é raro encontrar faixas azul

com quase 10 anos de jiu jitsu, assim

como faixas preta com apenas 4 ou

5 anos de prática da arte marcial.

Leonardo Queiroz exemplifica: “A

CBJJ/IBJJF dispõe sobre o tempo

mínimo de graduação a ser seguido.

Acho que este tempo mínimo tem

que ser só para os ‘fenômenos’, tipo

Buchecha, Rodolfo Vieira e outros.

Quem irá dizer que eles não são

faixas preta de verdade? Eles receberam

esta graduação mais rápido

que muitos por aí, porém no tempo

mínimo exigido pela federação. Agora

tem uns orelhas seca que pegam

a faixa neste tempo, mas não tem

qualificação alguma para serem faixa

preta. Isso é um absurdo”.

Para Kiko Santoro, as graduações

expressas fazem com que o jiu jitsu

perca a credibilidade, pois “antigamente,

para se pegar uma faixa preta,

tinha que ser cascudo de verdade.

Quando se falava que o cara era

faixa preta de jiu jitsu, você poderia

ter certeza de que o cara era sinistro,

poderoso, temido e respeitado. Hoje,

todavia, ser faixa preta é algo muito

comum: em toda esquina tem”.

“Os professores precisam estabelecer

critérios rígidos e um tempo mínimo

para graduarem seus alunos. Hoje

vemos uma verdadeira ‘farra’ das

faixas, principalmente em razão de

muitos professores lucrarem com as

graduações — logo, vendem faixa a

quem não possui a menor condição

de ser graduado. Infelizmente, isso

é muito comum nos dias de hoje”,

esclarece Junior Mesquita.

Para os atletas entre 4 e 15 anos não

há período mínimo de permanência

em cada faixa. Já para os atletas de 16

e 17 anos o período de permanência,

quando alcançam a faixa roxa, é de

2 anos. A partir dos 18 anos, da faixa

azul à marrom há período mínimo de

permanência: Azul – 2 anos; Roxa – 1

ano e meio; Marrom – 1 ano. Para a

faixa Branca não há tempo mínimo.

Diferentemente disso, o sistema para

graduação a partir da faixa preta é

mais rígido, obedecendo ao seguinte

tempo mínimo de permanência: Preta

– 31 anos; Vermelha e preta – 7

anos; Vermelha e branca – 10 anos;

Vermelha – indefinido.

De acordo com a IBJJF, os períodos

são fixos - não mínimos - e determinam

o tempo em que cada praticante

deverá permanecer em cada faixa.

Ainda de acordo com as regras previstas

pela federação, a graduação

de um atleta à faixa preta só poderá

ser assinada por um professor faixa

preta de, no mínimo, segundo grau,

diplomado pela federação.

OS GRAUS

De acordo com as regras estipuladas

pela IBJJF, o sistema de graus, a

partir da faixa preta, evidencia que

a obtenção de novo grau na faixa

só será válida a partir de emissão

de diploma pela federação, após o

requerente cumprir os requisitos

básicos estipulados pela própria

federação.

Na faixa preta, o 1º grau só pode ser

requerido após um mínimo de 3 anos

da graduação à faixa preta, já o 2º e

o 3º graus após período mínimo de 3

anos a partir da graduação anterior.

Os 4º, 5º e 6º graus só podem ser

requeridos após um período mínimo

de 5 anos, a partir da graduação

anterior, do mesmo modo que os 7º

e 8º graus (faixa vermelha e preta e

faixa vermelha e branca) só podem

ser requeridos após um período

de 7 anos, contados da graduação

anterior. O 9º grau (faixa vermelha)

só pode ser requerido após um período

mínimo de 10 anos a partir da

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 11


graduação anterior.

O 10º grau (faixa vermelha) foi reservado

apenas para os pioneiros

do jiu jitsu. Como é quase hábito

nas modalidades de luta oriental, o

último dan é privativo dos fundadores

da arte marcial. Na arte suave, os

nomes que obtiveram tal honraria

foram Carlos Gracie, George Gracie,

Oswaldo Gracie, Gastão Gracie, Helio

Gracie, Julio Secco e Armando Wriedt,

bem como o japonês Conde Koma.

A teoria é clara. A prática, nem sempre.

Kiko denuncia: “Já vi gente aqui

de Brasília de faixa marrom que

sumiu e apareceu de preta, falando

que fulano o graduou faixa preta.

Isso já vi vários. Por exemplo, quando

peguei a faixa preta em 2003, o cara

era faixa roxa. Hoje esse mesmo cara

aparece na foto de faixa preta e com

quatro graus. Outro pegou faixa preta

na mesma época em que a gente,

e hoje o cara tem cinco graus na

faixa. Aqui é a terra da charlatagem

e da farsa!”.

Mesquita confidencia promoções a

jato: “Conheço muitos casos. Inclusive

o de um atual lutador de MMA de

Brasília, que lutava jiu jitsu na minha

Aqui é a terra

da charlatagem e da

farsa!"

época de faixa azul/roxa, jamais

ganhou um campeonato (inclusive

perdeu para mim em algumas ocasiões),

mas foi graduado marrom e

depois preta 'a jato', muito antes de

mim e dos meus contemporâneos.

Tudo isso pelo simples fato de ter

migrado para o MMA. E esse não é

um caso isolado, vemos isso com

bastante frequência”.

Leonardo endossa: “Eu sei de muitos,

mas não vou citar nomes. Na Espanha,

tem um cara com menos tempo

que eu de faixa preta e já com cinco

graus na faixa, não entendo como.

Dia 24 de julho deste ano, faço 14

anos de faixa preta: tenho três graus

na minha faixa. Aí dá para ver o nível

desse cara de pau, sei que ele é de

Minas Gerais. Há uma federação na

Espanha que deu um diploma de

faixa preta três Graus para um cara

que tinha oito anos e meio de preta”.

“O problema são os farsantes que

se espelham nos fenômenos e

acabam fazendo a mesma coisa.

Se ganha a copa barriga d’água, de

azul já sobe para roxa; aí ganha a

copa unha encravada na roxa e sobe

para marrom; depois se inscreve no

brasiliense, fica em 4º lugar e já se

acha no direito de ser faixa preta”,

conclui Kiko Santoro.

O 13º

Um faixa preta — habilitado a graduar

seu aluno — normalmente o

autoriza a fazer o exame de faixa

quando achar que este é merecedor

ou entender que o atleta está apto

para nova graduação. Em algumas

academias, contudo, a realidade foge

à regra - ou inexiste regra, a não

ser a do 13º salário, já que graduar

alunos passou a ser um negócio

rentável financeiramente, por conta

da cobrança exorbitante pelas faixas

ou pelos graus. Não há valores fixos,

e o critério de cobrança pode variar

de professor para professor.

“Acho justa a cobrança, desde que o

aluno tenha a prestação de serviço

em troca, como por exemplo, em

algumas academias são realizados

exames de faixa, curso para faixa,

diplomas, etc. Tais serviços devem,

de fato, ser remunerados, como qualquer

outro. O que ocorre na maioria

dos casos, contudo, é uma venda

de faixas, na qual quem paga mais

gradua mais, sem nenhum retorno

dos professores, jogando a imagem

do jiu jitsu no lixo”, pondera Junior

Mesquita.

“Vejo academias que esperam o

fim do ano para graduar alunos e

arrecadar dinheiro, uma forma de

13º salário, mas não posso dizer que

isso seja errado”, polemiza Kiko. “O

professor dedica sua vida a isso e,

infelizmente, o esporte no Brasil não

é reconhecido. Quem vive de dar aula

acaba tendo que se virar da forma

que pode. Não acho errado cobrar

a graduação, contanto que seja um

preço justo, haja uma confraternização

decente. Não sou a favor daquele

professor que cobra uma grana alta

nas faixas e, no dia da graduação,

entrega a faixa da pior qualidade e

embolsa o dinheiro, apenas visando

o lucro próprio”, finaliza.

Em um cálculo simples, com valores

aproximados, a impressão de um

diploma custa em média R$ 5 por

folha e uma faixa de boa qualidade,

R$ 25, totalizando um custo de R$

30. Um valor ainda menor é o do

rolo de esparadrapo 4,5m, que custa

em média R$ 10 e daria para vários

anos de graduação. Diante disso, é

inexplicável o professor cobrar de R$

150 a R$ 500 para graduar alunos.

Além dessas despesas, há os valores

que as federações cobram

pela diplomação e filiação, o que

daria outra pauta. É sabido que o

jiu jitsu é um esporte rentável para

os detentores do conhecimento da

arte suave e donos de federações.

Não estranhe o termo “dono”, pois

as diversas federações de jiu jitsu

espalhadas pelo mundo têm donos

e não são nada democráticas. Há

uma verdadeira ditadura imposta

pelos seus fundadores, o que fez

com que se tornassem puramente

comerciais. O que causa estranheza é

o lucro arrecadado não retornar em

investimento para o esporte.

Quando o assunto é valores cobrados

pela diplomação nas federações,

Mesquita dispara: “Acho um valor

elevado demais, em comparação ao

serviço de fato prestado”.

“Eu acho meio caro, eles poderiam

rever estes preços. Por outro lado,

isso é uma maneira de tentar acabar

com os charlatões, porque não é só

pagar: há uma documentação a ser

aprovada pela federação, antes de

aceitarem o pagamento”, concorda,

em parte, Queiroz.

Kiko destoa, quando diz “Sou a favor

do diploma de faixa preta ser cobrado

e acho que deveria ser mais caro, pois

o valor de R$350 é muito barato pelo

12 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


proveito que os faixa preta professores

daqui tiram. Inclusive, penso

que a federação, antes de diplomar

o faixa preta, deveria fazer um curso

de formação, para auferir se o atleta

tem condição de ser diplomado”.

UM ÓRGÃO FISCALIZADOR

Os atletas entrevistados foram

unânimes: é preciso fiscalização das

federações de jiu jitsu nas academias,

Não existe

mais desempregado

em Brasília: os farsantes

descobriram

como tornou-se fácil

ser faixa preta e dar

aulas por aqui".

principalmente no que tange as

graduações. Esta é uma tarefa árdua,

já que inexiste comunicação entre

as tantas federações e as equipes.

Por conta deste entrave, o papel

de fiscalização da arte suave acaba

ficando a cargo das academias.

“Creio que precisamos de uma federação

e confederação mais presentes,

bem como maturidade dentro do

esporte. A organização é necessária

para que todas as graduações

sejam registradas em algum órgão

superior, e sejam respeitados os

critérios mínimos para graduação,

assim como é realizado no judô. Vejo

que estamos evoluindo, mas ainda

precisamos melhorar muito”, sugere

Junior Mesquita.

Leonardo Queiroz desabafa: “Se as

federações fizessem um trabalho em

conjunto para pararem esta palhaçada,

acho que melhoraria”.

“Há muito mentiroso por aí, ministrando

aulas e enganando os outros.

Não existe mais desempregado em

Brasília: os farsantes descobriram

como tornou-se fácil ser faixa preta e

dar aulas por aqui, isso porque não há

uma fiscalização. Parece brincadeira,

mas não é: tem faixa azul fazendo

patch com o próprio nome, querendo

fazer a própria equipe”, denuncia Kiko.

O CAMINHO

Como dizia o Mestre Helio Gracie,

“faixa só serve para amarrar as

calças”, então não se atenha à cor

de sua faixa, mas sim à evolução

do seu jogo dentro do jiu jitsu. O

que se deve buscar é o constante

aperfeiçoamento da técnica, pois

os movimentos estão sempre em

evolução. Assim, independentemente

da graduação, o que importa é a

disposição para aprender todos os

dias, sair de cada treino um pouco

melhor do que quando entrou. Este

é um ensinamento para a arte suave

e para a vida.

Uma faixa é algo que se veste e não

discrimina os que estão ao seu lado

no tatame. É mais valioso o que foi

forjado no seu caráter no dia a dia

do tatame, com sacrifício, sangue

suor e lágrimas. O que foi criado por

meio da força, desgaste, dor, medo,

coragem e também por meio das

amizades, desafios, lesões.

Por isso, não se apresse por uma

graduação. Se não merece aquele

nível, cedo ou tarde o jiu jitsu irá te

expor, e o preço pode ser alto. Não é

possível se esconder na arte suave, e

ela falará quem você é e o respeito

que você merece por meio da sua

habilidade de luta, força interior e

caráter. Se você não é digno, falarão

de você pelas costas e, por mais que

se imponha pela força da autoridade,

nunca terá respeito. Por outro lado,

se o seu nível for bom, ainda que

isso não seja ainda refletido em sua

faixa, todos saberão.

“Se você que quer ser um faixa

preta, não desista. O caminho é

difícil, árduo, mas gratificante. Siga

em frente! O faixa preta de hoje é o

faixa branca que não desistiu ontem.

Persista, vale a pena!”, encoraja Kiko

Santoro.

“A faixa é apenas o reconhecimento

de seus objetivos alcançados. Se

pensa apenas na faixa, está no caminho

errado. O jiu jitsu vai muito

além. Foque no seu aprendizado, nos

seus objetivos e não desista. Perseverança

é a chave para o sucesso”,

reforça Mesquita.

Um símbolo: é isso o que a faixa é.

Deseje a habilidade, a verdade e não

o status deste ícone. A faixa só pode

representar algo se ele existe. Apenas

vesti-la não trará conhecimento.

Nossos entrevistados:

KIKO SANTORO

Equipe: Five Round Brasil

Graduação: Faixa Preta 4º Grau

Principais títulos: Campeão Mundial;

Campeão Brasileiro; Campeão

Grand Slam de Abhu Dhabi

Rio; Campeão Sul Americano e

outros.

Categoria: 105 kg

LEONARDO QUEIROZ

Equipe: Checkmat Jiu Jitsu

Graduação: Faixa Preta 3º Grau

Principais títulos: Campeão Mundial;

Campeão Europeu GI e No-GI;

Campeão Britânico; Campeão

Alemão e outros.

Categoria: 91 kg

JUNIOR MESQUISTA

Equipe: Barreto Jiu Jitsu

Graduação: Faixa Preta 3º Grau

Principais títulos: 7x Campeão

Brasiliense; 5x Campeão Centro

Oeste; Campeão seletiva europeia

ADCC; 2x campeão Finlandês e

outros.

Categoria: 85 kg

BC

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 13


CONDITIONING

TRAINING

Bruno Santos

Educador Físico e atleta de jiu jitsu

personal.brunosantos@gmail.com

PREPARAÇÃO FÍSICA E

SUAS NEGLIGÊNCIAS

P

ara atletas de alta performance,

o condicionamento

físico é um dos

fatores determinantes

para se alcançar a vitória, em alguns

casos superando o talento. Para isso,

a preparação física deve ser feita

respeitando as especificidades da

modalidade praticada.

No caso do jiu jitsu, a preparação

física deve ser específica e englobar

força, flexibilidade, velocidade,

potência aeróbia e anaeróbia e

necessita de um treino de condicionamento

específico.

SISTEMAS ENERGÉTICOS APLICADOS

AO JIU JITSU

A principal característica fisiológica

do jiu jitsu é a intermitência, que

consiste em uma série de esforços

supra máximos intercalados por

alguns instantes de recuperação,

em que são realizadas atividades

de pequena intensidade ou repouso.

A proporção é de 15 a 30 segundos

de luta por 10 a 15 segundos de

intervalo.

Nesses curtos intervalos, não há

tempo suficiente para a ressíntese

de ATP pelas vias aeróbias, o que

torna os esforços dependentes da

via anaeróbia láctica. Em virtude

da elevada concentração de lactato

sanguíneo, a via glicolítica torna-se

fundamental.

FREQUÊNCIA CARDÍACA APLICADA

AO JIU JITSU

A frequência cardíaca (FC) pode

ser um indicativo da intensidade

do esporte e da predominância de

sistema fornecedor de energia (PO-

WERS; HOWLEY, 2000; WILMORE;

COSTIL, 2001).

Seu aumento de forma não linear

pode ter relação com a predominância

de pontuação até o 3º minuto

da luta, quando os atletas ainda

apresentam níveis inferiores de

fadiga neuromuscular. Em algumas

situações, contudo, as pontuações

acontecem com maior intensidade

no final do combate, ensejando que

atletas mais bem condicionados

tendem a deixar a luta correr para,

só então, esforçarem-se após o 5º

minuto de luta (DEL VECCHIO et

al., 2007).

FORÇA MUSCULAR APLICADA AO

JIU JITSU

Força é uma grandeza física expressa

pela massa versus aceleração. No

treinamento físico, é mais correto

o uso da expressão força muscular

(BARBANTI, 2001), entendida como

a força máxima que pode ser gerada

por um músculo ou grupo muscular

(POWERS; HOWLEY, 2000).

Para os praticantes de jiu jitsu é

fundamental um bom desenvolvimento

da força, principalmente a

de membros superiores, por meio

de contrações isométricas por sua

utilização, devido à técnica ser, em

geral, de extremo contato e não proporcionar

espaços para movimentos

dinâmicos (MOREIRA et al., 2003).

A bibliografia científica moderna

aponta que os atletas de jiu jitsu

necessitam de alta força isométrica

(Del Vecchio et al. 2007).

FLEXIBILIDADE APLICADA AO JIU

JITSU

A flexibilidade tóraxico lombar se

destaca por conta da constante

utilização de diferentes articulações

na luta de solo (SOUZA; SILVA E

CAMÕES, 2005). Nos movimentos

do jiu jitsu, são exigidos níveis de

amplitude, flexão e extensão do tronco

específicos, o que disponibiliza

maior campo de ação entre origem

e inserção muscular, permitindo

maior velocidade de execução dos

movimentos (ANDREATO, 2010).

Diante de todas essas peculiaridades,

para aperfeiçoar o preparo físico

dos atletas não bastam apenas os

treinamentos resistidos: é preciso

acrescentar os dois para que possam

chegar a uma performance de alto

nível. Isso, porque a valência física

do jiu jitsu é totalmente diferente

dos demais esportes. Se você correr

todos os dias 10 km, terá o mesmo

condicionamento se fizer 3 treinos

seguidos de jiu jitsu? Com certeza,

não. Assim, deve-se conduzir o treinamento

com a maior especificidade

possível, evitando a inclusão de

exercício as gerais e que não se enquadrem

nas demandas energéticas

da modalidade.

Foco no condicionamento e na preparação,

bons treinos. Oss. BC

14 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 15


MEDALHOU

GUTO INOCENTE

Wesley Moura

editor@brasilcombate.com.br

"Infelizmente, sofri um corte no

supercílio que atrapalhou o plano de

vencer o torneio".

L

iteralmente nascido no mundo dos esportes

de combate, aos 32 anos, Guto Inocente

coleciona títulos nacionais e internacionais

dentro da sua especialidade, o kickboxing,

que aprendeu em casa. Com a modalidade, chegou aos

grandes eventos do esporte e também aos eventos de

Mixed Martial Arts (MMA).

Foi na garagem de casa onde tudo começou. Naquele

ambiente tinha tudo o que precisava para se tornar um

dos maiores strikers mundiais: um pneu de trator, uma

marreta de 32kg’s, alguns sacos de pancadas, um tatame,

seus parceiros de rua e de treinos e, claro, o seu pai,

mestre e principal patrocinador, Carlos Inocente.

“Comecei a aprender em casa, com meu pai, depois

entrei no karatê com o Mestre Didi (Altamiro Cruz),

então, passei a competir. Gostei de competir e fui

testar outras modalidades, com o intuito de me tornar

um atleta completo nas artes marciais. Participei de

todos os tipos de competições e consegui chegar ao

mais alto nível do esporte”, relembra.

No ano de 2016, Guto fez sua estreia no Glory

Kickboxing, maior evento de kickboxing

mundial, em que conseguiu nocautear,

aos 40 segundos do primeiro round, o

americano Demoreo Dennis. Já em 2017,

conquistou o lugar mais alto do pódio do

Kickboxing nos Jogos Mundiais, categoria

super pesado (+91 kg). O atleta já

deteve dois títulos simultaneamente

no WGP Kickboxing, maior organização

de kickboxing da américa latina,

nas categorias dos pesados e dos

super pesados.

Bebendo na fonte,

diante deste currículo, o atleta

brasiliense não poderia deixar de

ser referência, quando o assunto é

trocação. Lutadores como Antônio

Silva “Big Foot”, Rani Yayha, Tyrone

Spong e outros gostam de fazer uma luvinha

com Inocente e, de quebra, aprender com seu pai

técnicas que, muitas das vezes, fazem a diferença em

seus combates.

Inocente está entre os top 3 do Glory, atualmente a

maior empresa de kickboxing mundial. O ex-UFC sente

saudade do MMA, já que fez sua última luta nas artes

mistas em 2016, quando nocauteou Cristiano Souza

“Bob Sap”, no Capital Fight, e garante que as propostas

estão acontecendo.

“Atualmente, sou o número dois do ranking do Glory, e

o meu foco é ser o campeão da organização, mas estou

estudando algumas propostas para voltar ao

MMA. Recebo diversas ofertas para voltar a

lutar, que deixo na mão dos empresários "eu

só penso em ir para a guerra”, explica.

Dentro da organização, Inocente tem 7 lutas

e 6 vitórias, perdendo apenas para Jamal Ben

Saddik, no Glory 39. “Só tive uma derrota no

Glory que foi para o Jamal Bensadik. Para

esta luta, fui chamado de última hora

para substituir outro lutador, que

havia se machucado. Eu não me

preparei bem e acabei sendo

derrotado, mas, bem preparado,

não perco para ele de jeito

nenhum”, confidencia.

Para os que acompanham

o Glory, é fácil dizer que a

luta inesquecível de Guto

Inocente aconteceu contra

o gigante D’Angelo Marshall.

Inocente relembra alguns

fatores daquela guerra.

“A luta contra o D’Angelo

Marshal foi muito dura. Ele

é um atleta muito bom

e muito grande e, coincidentemente

no evento

em que lutamos, o ringue

era menor, o que acabou ajudando

16 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


o D’angelo, que tem a maior envergadura

da categoria, maior até que o

Bensadik. E isso foi o que dificultou

aquele combate, mas deu tudo certo:

travamos uma guerra e saímos com

a vitória, após um round extra”.

Recentemente, o canal Combate

adquiriu os direitos de transmissão

do Glory e transmite ao vivo as edições

do torneio. A organização já se

mostrou interessada em fazer um

evento em solo tupiniquin, mas não

aconteceu. Nada melhor do que o top

2 da organização explicar o motivo:

“Estava tudo certo para ter o Glory

no Brasil no mês de abril, mas

aconteceram algumas mudanças

internas na organização e o novo

CEO decidiu não fazer o evento no

Brasil, pelo menos por enquanto. Eu,

com certeza, lutaria, já estava tudo

certo para fazer a luta principal do

Super Fights, mas ainda não tinham

me prometido nenhum adversário,

apenas a super luta”, explica.

No mês passado, Guto Inocente

participou do torneio para nomear

o novo candidato ao título dos pesos

pesados do Glory, agora nas mãos

de Rico Verhoeven. O evento contou

com Benjamin Adegbuyi, D'Angelo

Marshall e Junior Tafa. Sua participação

no final do torneio, contudo, não

ocorreu, mesmo Inocente vencendo

Junior Tafa, já que a Comissão Atlética

não permitiu Inocente prosseguir no

evento, por intervenção médica.

“Lutei o GP de desafiante ao cinturão

no Glory 50. Infelizmente, sofri um

corte no supercílio que atrapalhou

o plano de vencer o torneio. Estava

tudo acontecendo dentro do previsto,

mas o corte atrapalhou os planos e

a comissão atlética não me deixou

passar para final do GP. De toda

forma, acho que essa final está para

acontecer, sou o segundo colocado

do ranking e já venci todos os atletas

que estavam no GP. Então, nada mais

justo do que acontecer essa final antes

de sair um verdadeiro desafiante

ao título”, diz.

Benjamin Adegbuyi deixou claro

que queria Guto Inocente na final do

torneio do Glory, pois, desta forma,

Guto Inocente é apontado como um dos maiores kickboxers brasileiro de todos os tempos

vingaria a derrota que teve para o

brasiliense, que ele julga injusta,

no GLORY 43. Guto não esconde a

ansiedade de calar Adegbuyi: “Estou

esperando uma resposta da organização

para saber com quem vou lutar,

mas estou pedindo para lutar com o

Adegbuyi, assim vamos ver quem é o

verdadeiro número um da categoria”.

Quem segue o brasiliense nas redes

já deve ter se perguntado o que é

esse tal de Thug Kickboxing, e o

atleta responde: “Thug Kickboxing

é o Kickboxing brasileiro (risos). É

o kickboxing de malandro. Fomos

aprendendo muitos estilos de luta

e formamos o nosso jeito de lutar.

Atacamos e fazemos pontos; eles

atacam e fazemos pontos. É mais

ou menos por aí o segredo do Thug

Kickboxing”, revela.

Inocente ganhou tudo de que chegou

a participar no kickboxing amador.

Hoje, profissional, diz que tem que

derrubar muita gente ainda e comenta

sobre um possível retorno

ao UFC: ”Eu ainda tenho muito para

provar e muito mais para mostrar

dentro do kickboxing. Tenho que

bater em muita gente por aí e eternizar

grandes nocautes, mas estou

pensando em voltar a fazer umas

lutas de MMA e, quem sabe, retornar

ao UFC. Mas estou muito feliz com o

que estou fazendo e com tudo o que

está acontecendo na minha carreira”,

evidencia.

Enquanto aguarda seu próximo

confronto pelo Glory, Guto segue

treinando na Real Kombat Team, em

Brasília, onde frequentemente aparecem

nomes conhecidos do cenário

MMA. “Vamos dominar o mundo,

segue o combate”, brada.

Tenho que bater

em muita gente

por aí e eternizar

grandes nocautes,

mas estou pensando

em voltar a

fazer umas lutas

de MMA e, quem

sabe, retornar ao

UFC".

BC

Foto: Matheus Leal Fortes

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 17


PRATAS DA CASA

Wesley Moura

editor@brasilcombate.com.br

AILSON BRITES "JUCÃO", TRAZ

REVELAÇÕES DE UM PASSADO

Ailson Henrique Brites, carioca de 52 anos,

conhecido como Jucão (ou Tio, para os mais

íntimos), iniciou sua carreia no jiu jitsu aos

10 anos de idade, com os mestres Elias

Martins e Geny Rebello e, logo em seguida, com Cirillo

Azevedo, na cidade de Teresópolis no Rio de Janeiro.

Seu tio, Amilton Brites, o levou junto com seu irmão,

Admilson Henrique Brites — o Juquinha — para a academia

de artes marciais, já que os dois adoravam sair

na porrada em casa: “Brigávamos muito e ele resolveu

nos levar para brigar na academia (risos). Gostei demais

e me dediquei ao máximo, junto com meu irmão. Já se

passaram 42 anos”.

Ailson Brites também é conhecido por

sua incrível árvore genealógica: é sobrinho

do grande mestre Geny Rebell e do

Mestre Armando Wriedt, primo de Cirillo

Azevedo e irmão de Admilson Brites

“Juquinha”. Em uma entrevista descontraída e cheia de

polêmicas, o faixa preta de Carlos Gracie Jr., relembra

fatos por muitos desconhecidos e por outros ocultados.

Brasil Combate: Em janeiro deste ano você completou

25 anos de faixa preta, recebida das mãos do mestre

Carlos Gracie Junior, no mesmo dia que outros nomes

"Por algumas vezes, perdi o

último ônibus para minha

cidade e tive que dormir na

rodoviária".

conhecidos mundialmente também receberam — Renzo

Gracie, Roberto "Gordo" Corrêa, Redley Vigio, entre outros.

Como foi sua chegada a Gracie Barra e a graduação a

tão esperada faixa preta?

Jucão: Fui treinar na Gracie Barra a convite dos irmãos

Machado. Ali, começava uma nova etapa, novas dificuldades.

Eu morava em Teresópolis e descia para o Rio de

Janeiro duas vezes por semana para poder treinar. Por

algumas vezes, perdi o último ônibus para minha cidade

e tive que dormir na rodoviária. Não era fácil, mas foi lá

que meu jiu jitsu foi lapidado, com excelentes treinos.

Ali fiz grandes amigos. Me destaquei na época e, na

faixa marrom, tornei-me campeão em

várias competições. Eventos realizados

pela Liga de Niterói, Federação do Rio

de Janeiro, Confederação Brasileira de

Jiu Jitsu. Ganhei muitos, mas também

perdi muitos. A maior conquista sem

dúvida foi ter aprendido que não são as vitórias ou

derrotas que farão você ser um campeão, mas sim a

oportunidade de ter convivido com excelentes pessoas,

grandes exemplos, dentro e fora dos tatames. E foi

justamente ao lado desses grandes nomes que eu tive a

honra de receber, das mãos do mestre Carlos Gracie Jr, a

18 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


tão esperada faixa preta, há 25 anos.

BC: Ainda na faixa marrom, você

lutou em alguns eventos contra

Wallid Ismail. Em um deles, você

chegou a quebrar o braço dele e,

ainda assim, ele ganhou de você.

Poderia compartilhar com nossos

leitores essa façanha?

JC: Wallid Ismail, duro demais! Essa

luta foi na Urca, Copa Nastra Com

trinta segundos de luta, eu estava

ganhando de 6x0, mas o Wallid virou

o jogo para 13x6. Faltando um

minuto para o término, eu encaixei

uma americana de baixo para cima,

neutralizando todas as possibilidades

de defesa. O ginásio ficou em silêncio,

tamanha a importância

da luta para

a época. Ele não

bateu, o que já

era de se esperar

de um atleta duro

como ele, então

quebrei o braço

dele ao som do relógio tocando o

final do combate. Foi uma grande

luta, em que demos o máximo de

nossas condições.

BC: Em 1994, surgiu o convite para

ensinar o jiu jitsu em Brasília. Como

foi?

JC: O convite veio por meio do grande

mestre Armando Wriedt (meu tio).

Estudei a possibilidade e decidi

tentar uma nova trajetória, já que em

minha cidade eu tinha uma grande

equipe. Ir pra Brasília foi um certo

desafio. Começar do nada, em uma

cidade nova, em que o jiu jitsu estava

engatinhando. Quando visitei a academia

Dalmo Ribeiro, onde trabalhei

por todos os anos em que morei em

Brasília, o dono do espaço, Dalmo,

me mostrou a sala e eu disse que

gostaria de uma sala maior, ao que

respondeu achar o espaço suficiente

na época, para cerca de 25 alunos. E

eu disse a ele que, em um mês, colocaria

100 alunos. Ele não acreditou

muito, mas concordou em fazer um

espaço maior. Quando completei um

mês ministrando, as aulas, tínhamos

105 alunos matriculados.

BC: Você foi o fundador da Gracie

"Ele 'Wallid' não bateu, o

que já era de se esperar de

um atleta duro como ele,

então quebrei o braço dele

ao som do relógio tocando

o final do combate".

Barra Brasília. Como e quando surgiu

essa ideia?

JC: Quando iniciei o trabalho em

Brasília, usava o nome de Equipe

Jucão, porém representava a Gracie

Barra. Em 1998, decidi fundar a

Gracie Barra Brasília, depois de uma

reunião com os alunos sobre a ideia

e excelente oportunidade de não só

levar o nome de uma grande equipe,

mas dar sequência a um trabalho

feito pelo mestre Carlos Gracie Jr.

Foi assim que nasceu a Gracie Barra

Brasília.

BC: Temos muitos atletas em Brasília

que se destacam no jiu jitsu mundial

e que iniciaram com você e, em algumas

entrevistas,

eles sequer destacam

o seu nome.

Como você se sente

em relação a isso?

JC: Eu tenho orgulho

de dizer que

criei uma grande família.

Cada um que passou por nossa

academia deixou sua história, seja

como atleta, como pessoa ou como

amigo. Alunos de diferentes idades,

uns que começaram com cinco anos,

outros com um pouco mais e outros

ainda até com sessenta anos. Iniciar

algo não é nada fácil, porém não fiz

e não faço nada com a intenção de

reconhecimento. Quando se faz por

amor e carinho, o resultado surge de

uma forma natural. O campeão não

é aquele que vence nos tatames. A

medalha ou os troféus estarão em

uma caixa ou em outro lugar qualquer,

mas o campeão de verdade

é aquele que vence no dia a dia

com caráter, disciplina e honra. Na

vida, estamos sempre aprendendo.

Se não conseguirmos nos lembrar

dos caminhos percorridos, como

reconheceremos os sinais que nos

alertam para o futuro?

Quem constroi um fusca, sabe exatamente

o tamanho do seu sonho.

Da mesma forma ocorre com quem

constroi uma Ferrari, porém pode-se

não ter noção de que a velocidade

pode acabar com ela. Assim, o que

ensina com humildade não conhece

o ego, já o que aprende com a falta

de humildade se fartará dele.

BC: Por que você resolveu voltar

para Teresópolis-RJ, depois de oito

anos vivendo em Brasília?

JC: Voltei para Teresópolis porque

acho que tudo na vida é um ciclo.

Alguns capítulos precisam ser encerrados

para que outros se iniciem

outros. Voltei por minha família. Entre

erros e acertos que cometemos, é

necessário parar, respirar, pensar

em tudo o que foi feito e em todas

as oportunidades que tivemos. Às

vezes, tomamos decisões precipitadas

e nos arrependemos, mas feliz é

aquele que reconhece o próprio erro

e ainda tem a chance de recomeçar.

Todos esses anos em Brasília foram

muito bons, fiz muitos amigos que

levarei para toda a vida.

BC: Quando você saiu de Teresópolis-

-RJ, tinha uma equipe campeã, assim

como em Brasília. Quando voltou,

precisou iniciar um trabalho novamente

e voltou a ficar em destaque

nas competições. O que considera

Jucão ministrando seminário de inverno em 2017 no Holiday Inn Hotel, Clark em New Jersey

Fotos: David Aristich

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 19


importante para esse fato?

JC: Não foi fácil deixar Teresópolis.

Com a minha mudança para

Brasília-DF, muitos

alunos pararam

de treinar, outros

foram para equipe

diversas, enfim,

quando voltei para

Teresópolis-RJ, tive

que começar tudo

novamente. Mas,

quando se faz o que gosta tudo fica

mais simples, não importa onde

esteja. Se fizer com determinação, o

resultado aparece com qualidade e

sucesso. E foi assim que, novamente,

nossa equipe voltou a se destacar

nas competições.

BC: Você levou seu irmão Admilson

Brites para Brasília. Foi você quem o

graduou faixa preta? Fale um pouco

sobre essa experiência em graduar

um irmão, que sempre se destaca nas

competições mundo a fora.

JC: Falar do meu irmão é complicado,

sou suspeito (risos). Tive a oportunidade

de levá-lo para Brasília para

trabalhar comigo. Ele teve uma escala

maior de crescimento como professor,

já que ficou responsável pela equipe

em Teresópolis-RJ, quando me mudei

para Brasília-DF. Graduá-lo a faixa

preta foi simplesmente sensacional,

não só por se tratar do meu irmão,

Ailson Henrique Brites, carioca de 52 anos,

conhecido como Jucão.

"Graduá-lo a faixa preta foi

simplesmente sensacional,

não só por se tratar do meu

irmão 'Juquinha', mas de

um atleta com um talento

admirável. Me senti muito

honrado".

mas de um atleta com um talento

admirável. Me senti muito honrado.

BC: Você e seu irmão chegaram

a usar The Brites

Family, uma junção

das duas equipes

de jiu jitsu. Por que

não deram continuidade?

JC: Quando levei

meu irmão para

Brasília, a ideia era

trabalharmos juntos, porém as

oportunidades foram surgindo e ele

resolveu seguir os desejos de ter sua

própria equipe. A The Brites Family

surgiu quando comecei a perceber

que nossos alunos estavam se enfrentando

demais nas competições.

A ideia de unir foi muito boa, os

alunos gostaram, pois muitos deles

já eram amigos e até já haviam

treinado juntos. Mas, infelizmente,

com a mesma velocidade com que

se iniciou, terminou. Foi uma pena!

Tenho admiração por cada um que

representou essa bandeira.

BC: Todos os brasileiros, em sua grande

maioria, enfrentam dificuldades

nos EUA. Poderia

falar quais dificuldades

enfrentou na

terra do Tio Sam?

JC: Dificuldades na

terra do Tio Sam

(risos)!? A maior

de todas foi o idioma. Cheguei aqui

falando "Hi e Bye" (risos), mesmo assim

logo no primeiro dia já dei aulas.

De toda forma, a vontade que eles

(americanos) têm para aprender e o

modo com que valorizaram meu trabalho,

transformou toda dificuldade

em vontade de crescer todos os dias.

A saudade da família pesou muito,

a falta dos amigos, os treinos que

tínhamos no Brasil. Outro fator, foi

o frio absurdo que passamos, já que

estou em Nova York. E, infelizmente,

os muitos brasileiros que se acham

espertos e querem passar os outros

para trás, agindo com deslealdade

e má fé, mas, quando Deus tem um

propósito em sua vida, não tem jeito,

toda dificuldade se transforma em

"Com a decisão do meu

irmão de representar uma

nova equipe e não usar

mais o nome dele, me achei

no direito (...)".

vitória.

BC: Em 2007, o Brasil Combate publicou

uma entrevista sua, no início

da sua adaptação nos EUA. O que

mudou de lá para cá?

JC: Muita coisa. Já se passaram 11

anos. O inglês melhorou (risos), as

oportunidades aumentaram, o nosso

trabalho vem sendo reconhecido, os

resultados positivos estão surgindo

em eventos de diversos níveis. Hoje,

posso dizer que ainda temos muito a

conquistar, mas estamos mais perto.

BC: Hoje a Team Jucão BJJ se tornou

uma franquia e vem ganhando espaço

com diversas escolas pelo EUA

e representantes em países como

Portugal, Irlanda, Londres, Espanha

e Brasil. Como você vê esse crescimento?

O segredo da expansão é

ter franquia?

JC: O crescimento é fruto de um

trabalho em equipe e o crescimento

de uma equipe não se faz somente

por meio de franquia. Para expandir,

é necessário um grupo que tenha

vontade de estar junto — a união é

o melhor caminho para crescer. Com

isso, todos os professores ficam na

mesma página, independentemente

de qualquer lugar

em que estejam no

mundo. Na verdade,

não há segredo

para esse crescimento,

já que os representantes da

equipe sabem que, para chegarmos

ao objetivo, é preciso ter humildade,

disciplina, respeito, amor pelo que

faz, honrar o esporte que se pratica

e defender a nossa bandeira com o

coração.

BC: No Brasil, você tem franquias

espalhadas no Rio de Janeiro, Goiás

e agora em Brasília. O que te levou

a voltar com seu nome para Brasília?

JC: Enquanto meu irmão ainda usava

o nome JUQUINHA JIU JITSU, eu

não pretendia voltar com a equipe,

até porque, quando saí de Brasília,

muitos alunos foram treinar com

ele. Então, não faria sentido voltar

com meu nome para Brasília. Com a

decisão do meu irmão de representar

20 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


uma nova equipe e não usar mais o

nome dele, me achei no direito de

permitir aos alunos e professores

que queriam representar a nossa

equipe novamente que voltassem

a usar Equipe Jucão. Com isso, voltamos

com a equipe — Team Jucão,

que também tem se expandido para

outras capitais brasileiras.

BC: Quantos alunos a Team Jucão

tem atualmente?

JC: É difícil estipular um número

exato. A família está crescendo a cada

dia. Temos mais de 60 associações

espalhadas pelo

mundo, em que

grandes professores

levantam a

nossa bandeira e

me ajudam a manter

viva a essência

do nosso esporte.

BC: Aos 52 anos,

você continua

competindo, e sagrou-se campeão

Europeu em Portugal em 2018, pela

IBJJF. Este é o terceiro World Camp

Team Jucão em Portugal. Como surgiu

essa ideia? E como tem sido essa

experiência de reunir os atletas da

sua equipe do mundo nesse evento?

JC: A ideia do camp surgiu por meio

do professor e amigo Leonardo Costa,

meu aluno desde faixa branca, responsável

pelo Team Jucão na Europa.

Decidimos que esta seria uma boa

ideia, visto que os atletas já estariam

em Portugal para lutar o Europeu de

Jiu Jitsu. Então, pensamos em algo que

pudesse unir mais a nossa equipe,

fazendo com que os professores e

alunos tivessem a oportunidade de

treinar juntos, de se conhecer e de

traçar metas para o desenvolvimento

da equipe. Tem dado certo: a cada ano,

o número de participantes aumenta e,

neste ano, atingimos 140 inscritos na

competição, somente representantes

do Team Jucão de Portugal, Brasil,

Espanha, Irlanda Londres e Estados

Unidos. Juntar parte da nossa grande

família não tem preço, é um presente

de DEUS.

BC: Nesta edição, trouxemos o tema a

farra das graduações. Você acha que

"São muitas falcatruas que

saem do Brasil, decolam

num voo sendo faixa branca,

faixa azul e, no meio da

conexão, são graduados e

chegam ao lugar de destino

com a preta na cintura.

Banalidade total".

vivemos um momento exacerbado

das graduações no jiu jitsu e isso

colabora para o surgimento de faixa

pretas fakes?

JC: Infelizmente, isso sempre aconteceu.

De um tempo para cá, com

o crescimento da arte suave, essa

situação ficou mais visível, mas

quem é de verdade sabe quem é

de mentira. O cara começa a treinar

querendo saber qual o dia da graduação.

São muitas falcatruas que

saem do Brasil, decolam em um voo

sendo faixa branca, faixa azul e, no

meio da conexão,

são graduados e

chegam ao lugar

de destino com a

preta na cintura.

Banalidade total.

De repente você vê

um atleta que inicia

no jiu jitsu; em tão

pouco tempo, está

de faixa preta e se intitula “mestre”,

sem saber o significado desta palavra.

A primeira coisa que ele faz é ir às

redes sociais e colocar o título de

Mestre antes do próprio nome, chega

a ser uma piada. O pior ainda é ver

alunos destes supostos “mestres”

sendo levados para uma ilusão. Assim,

vira uma bola de neve e os “mestres”

falcatruas vão se reproduzindo. Os

órgãos responsáveis por esse esporte

brilhante podem mudar isso. Basta

querer.

BC: Já se arrependeu de ter graduado

algum aluno? Se sim, qual o

desfecho?

JC: Sim, e como (risos). Não me arrependo

por questão de merecimento

e conquista, mas sim pelo "status"

ter mudado alguns desses atletas.

Não tinha noção do quanto uma

faixa preta poderia transformar o

ser humano.

O respeito e a sabedoria vêm daqueles

que aprendem com orgulho

o seu agir, o seu falar e o seu viver,

sem precisar passar por cima de

ninguém. O problema é continuar

achando que o mundo é grande, pois

nele só há espaço para os pequenos,

os menores de coração. Geralmente,

esses que têm a faixa preta na cintura

e que permitiram que o orgulho e

o ego subissem para a cabeça, só

alcançarão o caminho do sucesso

quando deixarem o ego de lado.

O pior ainda é ver

alunos destes supostos

'mestres'

sendo levados

para uma ilusão".

Seminário de verão de 2017 no Cruz Golf Club, Farmingdale em New Jersey

BC

Fotos: David Aristich

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 21


ENCICLOPÉDIA

Demonstração de jiu jitsu infantil em Mogi Mirim (São Paulo) no ano de 1976. Saraiva retribuindo a sociedade com o jiu jitsu.

MESTRE ORLANDO SARAIVA – RETRIBUINDO A SOCIEDADE

Fabio Quio Takao

fabio.quio1@gmail.com

Órfão, criado na FUNABEM, aos 14 anos conheceu

o jiu jitsu.

A história do Mestre Orlando Saraiva

é um tanto inspiradora e prova que

capacidade de superação pode vencer

qualquer obstáculo. Órfão, aos sete

anos foi internado na FUNABEM

(Fundação do Bem-Estar do Menor),

onde foi criado, e aos 14 anos conheceu

o jiu jitsu, com o Mestre Osvaldo

Gomes da Rosa "PAQUETÁ". Treinou

na FUNABEM até a faixa verde e, a

convite de seu mestre, fez um treino

na academia do Mestre Carlson Gracie,

destacando-se entre os demais

garotos da sua idade. Por conta disso,

foi convidado por Carlson a continuar

treinando lá, local em que chegou a

ser um dos instrutores e, finalmente,

recebeu a faixa preta em 1969.

Com um talento nato para as lutas,

treinou judô com o Mestre "De Lucas",

sendo um dos raros atletas a conseguir

títulos expressivos no jiu jitsu e

no judô. Formado no ambiente competitivo

da academia Carlson Gracie,

Saraiva competia simultaneamente

nos campeonatos de judô e jiu jitsu.

Mestre Saraiva lembra com satisfação

dos treinos conduzidos por Carlson

Gracie, acompanhado de Rolls Gracie,

Rocian Gracie, Reyson Gracie, Sérgio

Iris "Serginho de Niterói", Fabinho,

Carley Gracie e outros nomes que

fizeram história no jiu jitsu.

Além de ser um dos responsáveis por

disseminar o jiu jitsu pelo interior

paulista, Mestre Orlando Saraiva era

constantemente citado pelo seu professor

Osvaldo Paquetá como sendo

o único lutador capaz de fazer frente

a um dos maiores nomes da família

Gracie: Rolls Gracie.

Sempre acompanhando a evolução

do jiu jitsu, o Mestre visitou a academia

de Joe Moreira nos Estados

Unidos na década de 90, chegando

inclusive a dar uma aula para Kimo

Leopoldo, um dos adversários mais

difíceis de Royce Gracie. Atualmente,

seu filho, Henrique Saraiva, ensina jiu

jitsu em Dublin, na Irlanda, enquanto

Mestre Orlando se mantem em plena

atividade no Brasil, cuidando de sua

equipe e ministrando seminários.

Brasil Combate: Quando e onde o

Sr. Nasceu?

Orlando Saraiva: Eu nasci em 10 de

março de 1951, em Belem do Pará.

Mudei-me para o Rio de Janeiro aos

dois meses de idade.

BC: Quando teve o primeiro contato

com o jiu jitsu?

OS: Fui criado pela minha irmã.

Infelizmente, ela teve problemas

com uma separação e, aos 10 anos,

fui morar no antigo Sam (Serviço de

Assistência ao Menor) que depois de

1965 viria a se chamar Funabem. Foi

lá que conheci o Osvaldo Gomes da

Rosa “Paquetá”, que era contratado

22 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


para ensinar jiu jitsu para os menores.

Após uns quatro meses do início

das aulas, eu estava assistindo a um

jogo de futebol no mesmo ginásio

onde também era a sala de jiu jitsu.

Ao ver uma concentração de gente,

notei que era uma aula de jiu jitsu

e gostei da ideia. Comecei, então, a

frequentar as aulas. Eu tinha 14 anos.

BC: Como eram os treinos?

OS: Eram treinos diários e com muitas

crianças, pois a instituição fornecia os

kimonos e as crianças não pagavam

nada. Depois de um ano de treino,

o Paquetá escolheu três alunos que

estavam se destacando: Hugo Dória,

José Aldo e eu e nos levou para Academia

do Carlson Gracie. Aliás, só para

ilustrar, essa academia era, na verdade,

um apartamento normal com

dois quartos pequenos forrados com

tatames. Em um deles aconteciam as

aulas normais e no outro quarto as

aulas individuais. Voltando ao Carlson,

ele disse que tinha dois garotos

na faixa verde que eram imbatíveis

e, como era muito competitivo, quis

tirar a prova. Eu acabei lutando com

os dois e finalizei ambos, mas não

acabou aí. O Reyson Gracie estava

lá e chamou os dois alunos para o

quarto ao lado, para dar umas dicas

e, quando retornaram, quiseram fazer

uma nova luta. Mesmo assim, finalizei

ambos mais duas vezes.

BC: O sr. treinava judô?

OS: Sim, na época eu já treinava

judô e jiu jitsu com o Paquetá. Além

desses treinos, eu fazia judô em uma

academia do centro do Rio de Janeiro,

chamada Apolo. Às vezes, treinava

também na academia do Faustino,

que ensinava judô na Marinha. Treinei

também em uma academia de Jacarepaguá,

com o Sensei Antônio da Silva

5° Dan, da academia Bandeirantes. O

Paquetá dizia que, se soubéssemos

judô, sairíamos com vantagem, pois

a maioria não sabia dar quedas.

BC: Como era sua relação com o

Carlson?

OS: Ele gostava muito de mim. Eu

treinei com o Paquetá até os 18

anos, quando parei para servir a

Aeronáutica. Depois disso, o Carlson

Mestre Orlando Saraiva competindo na década de 60.

me convidou para treinar com ele e

me deu uma bolsa, pois eu ainda não

tinha condições de pagar. Eu treinei

bastante com o Rolls também. O

Carlson era um treinador excepcional.

Ele fazia os alunos repetirem as

técnicas muitas vezes. Ele promovia

esses desafios a portas fechadas e

me lembro de um desses desafios

que aconteceu na Academia do Hélio

Gracie, em que lutou o Rolls contra

um aluno do Orlando Barradas,

chamado Cícero Sobrinho, que

já é falecido. A luta acabou

empatada, pois não tinha

contagem de pontos.

BC: O senhor competiu em

outras modalidades?

OS: Na aeronáutica, fiz parte

do time que foi campeão

por equipes de judô em

Brasília. Fui aluno de boxe

do professor Ari do Madureira,

fiz também alguns treinos de

boxe na famosa academia Santa

Rosa e fui vice-campeão Carioca

de Boxe em 1975. No Vale-Tudo, tem

uma história curiosa que aconteceu

quando eu tinha por volta de 23

anos e pesava 61kg: fui assistir a

um campeonato de Vale-Tudo no

Fotos: Arquivo Pessoal

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 23


ginásio Madureira — e quando somos

jovens fazemos muitas “besteiras”

(risos). Ao chegar lá, cismei que queria

lutar naquele evento também, então,

procurei o organizador e pedi para

lutar. Ele riu e disse que eu deveria

ter me inscrito antes. Diante da minha

insistência, ele questionou se eu já

tinha experiência com lutas e eu

confirmei. Por sorte, um dos inscritos

faltou e ele me chamou. Entrei de

improviso, consegui dar muitas quedas

no adversário, mas não consegui

finalizar. Os organizadores gostaram

tanto que me chamaram para lutar

na semana seguinte novamente, mas,

como não havia remuneração, não

prossegui.

BC: Quanto tempo o senhor morou

no Rio de Janeiro?

OS: Eu morei no Rio de Janeiro por

25 anos e me mudei em 1976. O

Paquetá, que era diretor de esportes

da Funabem, me contratou para

auxiliá-lo na instituição com menores

carentes (mas sem delitos) depois que

saí da Aeronáutica. Fui transferido

para São Paulo, na antiga Febem e

depois para Febem de Mogi Morim

em 20 de julho de 1976, atuando

com menores infratores.

BC: Como estava o nível do jiu jitsu

paulista quando o senhor chegou?

OS: Assim que cheguei a Mogi Mirim,

montei uma turma e, poucos

meses depois, participamos de um

campeonato em São Paulo, organizado

pelo Octavio de Almeida

(sênior). Esse campeonato foi muito

conturbado, pois o Pedro Hemetério

já tinha academia em São Paulo há

muitos anos, mas se especializara

em aulas de defesa pessoal e tinha

pouquíssimos competidores de jiu

jitsu esportivo. Como ele queria

participar, acabou pedindo para

o Carlson Gracie mandar alguns

atletas e ele acabou mandando 42

atletas (risos). O Otávio de Almeida

contestou, alegando que se tratava

de campeonato paulista e não queria

deixar essa turma toda lutar. Eu mesmo

acabei caindo com um atleta que

eu conhecia bem lá do Carlson e ele

nem quis lutar, alegando que éramos

da mesma academia. Finalmente,

arrumaram um faixa preta do Otavio

de Almeida de 100kg, chamado João

Marcos Flaquer, para lutar comigo,

que pesava 61kg. A luta não teria

contagem de pontos e só terminaria

com finalização. Apesar da diferença

de peso, a luta acabou empatada.

Entre os atletas que disputaram

por São Paulo, somente eu empatei

e o Lírio Carlos de Campos (aluno

do Romeu Bertho) ganhou. Todas as

outras foram vencidas por cariocas.

Acredito que o jiu jitsu paulista só

começou a e equiparar-se ao carioca

a partir do 1º UFC, que popularizou o

jiu jitsu e atraiu muitos professores

do Rio de Janeiro para trabalhar em

São Paulo.

BC: Quais lutadores o senhor poderia

destacar?

OS: Gosto demais do Rickson Gracie.

Muitos alegam que ele não sabe dar

um soco ou um chute, mas eu digo

que, em compensação, ele aplica o

jiu jitsu de uma forma muito eficaz.

O mesmo pode-se dizer do Royce

Gracie que, mesmo sem saber nada

de socos ou chutes, conseguiu ganhar

de adversários muito maiores que ele.

BC: Como está sua equipe hoje?

OS: Tenho diversos faixas pretas

espalhados pela região. São eles:

Marcelo Ferreira (Campinas), Paulo

Streckert (Indaiatuba), Newton Cadan

(Mogi Mirim), meu filho Henrique (Dublin

-Irlanda), Evandro Fogali “Japão”

(Araras), Claudio Bueno (Campinas),

Simone Pessoa (Rio Claro), Marcelo

Rodrigues (São Paulo) e o Dr. Marcos

Teixeira.

BC: Em relação ao aspecto da defesa

pessoal, os mestres mais antigos

criticam muito os professores atuais

deixarem essa parte para segundo

plano. O senhor concorda?

OS: Com certeza. Eu tive o prazer de

aprender essa parte com o Paquetá e

depois mais técnicas com o Carlson.

Os professores atuais, não só de jiu

jitsu como de outras artes marciais,

acham que somente a técnica esportiva

já garante a defesa do indivíduo,

mas não é verdade. Essa parte era

ensinada logo no início na academia

Gracie e depois é que o aluno aprendia

a parte esportiva. Sempre ensinei

essa parte nas minhas aulas e até

hoje peço para meu filho Henrique

dar pelo menos uma técnica de defesa

pessoal toda aula. Dessa forma,

após algum tempo o aluno já está

preparado para diversas situações. BC

Carlson Gracie, Henrique Saraiva (atualmente na Irlanda) e seu pai Orlando Saraiva

Fotos: Arquivo Pessoal

24 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


ALIMENTAÇÃO

AFIADA

O OVO E SEUS BENEFICIOS

Sabrina Cavalcanti

Nutricionista Esportiva

cavalcantinutriconista@hotmail.com

Durante muitas décadas, o ovo foi erroneamente incluído

na lista de alimentos prejudiciais à saúde. Após

inúmeros estudos científicos, foi absolvido.

Imaginava-se que o consumo de ovos seria capaz de

aumentar as taxas de colesterol total do sangue, no

entanto, pesquisas recentes sugerem que o alimento

não tem a capacidade de elevar o colesterol total de

forma expressiva. Além disso, descobriu-se que o ovo

não eleva o LDL (o colesterol “ruim”), em razão de ser

rico em lecitina — substância que dificulta a absorção

do LDL no intestino — e que, na verdade, o ovo teria a

capacidade de elevar o colesterol HDL (o “bom” colesterol).

O que é uma excelente notícia.

comparativa, que relaciona não só a quantidade de

proteína contida em determinado alimento, mas também

se essa quantidade será efetivamente absorvida

pelo organismo (biodisponibilidade).

As proteínas de origem animal são classificadas como

de alto valor biológico (pois são proteínas “completas”,

possuem todos os aminoácidos essenciais). Já as vegetais

são classificadas como de baixo valor biológico

(pois são proteínas “incompletas”, faltam-lhes um ou

outro aminoácido essencial). Pasmem: o ovo é o melhor

alimento natural nesta tabela.

Análises recentes, bem fundamentadas chegaram a seguinte

conclusão: o ovo, além de não ser vilão, melhora

a saúde das pessoas. Sim. Ele deixou a prateleira dos

rejeitados e foi para a dos campeões.

O OVO É RICO EM:

- Proteína, vitamina A, D e E, além de vitaminas do

complexo B;

- Zinco, fósforo, ferro, selênio, iodo e cálcio;

- Albumina, que ajuda a diminuir a retenção hídrica.

ELE AINDA É:

- Excelente opção em substituição às carnes;

- Versátil, podendo ser consumido em quaisquer refeições;

- Auxiliar na manutenção e construção muscular.

Os atletas agradecem, pois poucos alimentos são nutricionalmente

tão completos e com o valor de mercado

tão acessível quanto o querido ovo.

A Food and Agriculture Organization of the United Nations

publicou uma tabela muito interessante sobre o

valor biológico das proteínas. Trata-se de uma escala

FONTE: Food and Agriculture Organization of the United

Nations. The Amino Acid Content of Foods and Biological

Data on Proteins.

FICA A DICA: inclua ovo no seu cardápio diário. Não

sabe como? Converse com seu nutricionista.

É importante deixar claro que pacientes que apresentarem

risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares,

com diagnóstico de hipercolesterolemia ou

dislipidemias devem seguir as Diretrizes da Sociedade

Brasileira de Cardiologia, 2013, sobre dietoterapia. BC

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 25


SUPERAÇÃO

O EX-INSPETOR PENITENCIÁRIO TEVE A SUA

Jack Taketsugo

Repórter

APOSENTADORIA ADIANTADA. NESTA BRIGA,

O JIU JITSU É SUA PRINCIPAL ARMA.

A

os 38 anos, Emmerson Leandro Lopes convive

há 4 com um diagnóstico: a ataxia, doença

degenerativa, rara e desconhecida. A

moléstia tem diversos tipos e a de

Emmerson é a Doença de Machado Josefh (DMJ),

que afeta o cerebelo, atrofiando e afetando o

andar, o falar, a visão e toda a coordenação

motora, além de causar limitações à respiração

e a outras funções autônomas do organismo.

O ex-inspetor penitenciário teve a sua

aposentadoria adiantada por conta da

invalidez causada pela ataxia. Em 2014,

recebeu o diagnóstico no hospital

Sarah Kubitschek, em Brasília, e a

notícia caiu como uma bomba. Nenhum

guerreiro, contudo, mantém-se

prostrado por muito tempo.

“Eu havia tirado uma licença do trabalho

por causa das dificuldades que

surgiram com o início dos sintomas e

aí descobri a doença degenerativa. Essa

patologia não tem cura e nenhum remédio

ainda, deve ser pelo fato de ser rara e

desconhecida”, explica.

Nesta briga, o jiu jitsu é sua principal arma.

Segundo Emmerson, a prática do esporte

de alto rendimento retardou o avanço da

doença. Por isso, ele continua na luta para

vencê-la. Hoje, Emmerson é faixa azul da

equipe Checkmat Jiu Jitsu.

“Uma vida saudável inclui praticar esportes

e se alimentar corretamente. No meu caso,

isso diminui também os sintomas da ataxia.

Então procuro ter uma vida de atleta mesmo,

pelo menos na alimentação. E a palavra para

encarar as dificuldades diárias é adaptação”.

Com uma vida ativa nos esportes, essa adaptação

se tornou ainda mais tranquila: “Sempre

fui adepto ao esporte. Toda vida pratiquei. Quando era

adolescente, fiz futebol e basquete, além das experiências

nas artes marciais: fiz capoeira, karatê (uechi ryu), muay

thai e jiu jitsu, e até me arrisquei no surf”.

O SÁBIO

Em 2006, quando foi morar no Rio de Janeiro, conheceu

a arte suave. Na época, a passagem

foi breve, apenas três meses, contudo

em 2015 retornou ao esporte e não o

abandonou mais. “Retornei por meio de

um amigo e atual mestre. Nos encontramos

na academia, comentei sobre

o diagnóstico e ele me falou sobre

como o jiu jitsu poderia me ajudar.

No outro dia, fui lá treinar e até hoje

estou amarradão. Pretendo estar com

80 anos usando armadura ainda”.

O jiu jitsu, sem sombra de dúvidas,

oferece diversos benefícios aos

seus praticantes e, no caso do

Emmerson, não poderia ser diferente.

A arte suave mostra um caminho para

o seu cotidiano.

“O jiu jitsu é tão importante na minha

luta diária contra os sintomas da ataxia,

que posso dizer: tudo o que faço hoje

é devido aos benefícios que o jiu jitsu

me proporcionou e proporciona. Antes

de treinar, eu estava limitado a fazer

musculação todo dia, pois a deficiência

afeta muito o equilíbrio.

Então, esporte em pé nem cogitava.

Como no jiu jitsu mais de 90% da luta

é no chão, é perfeito, pois não fico preocupado

em cair. Ao praticar jiu jitsu,

consegui fortalecer muito a região

do abdômen e do quadril, também

26 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


Foto: Jack Taketsugo

Emmerson Leandro competindo e superando não só o adversário, mas também as dificuldades rotineiras causadas pela ataxia.

Essa patologia

não tem cura e nenhum

remédio ainda,

deve ser pelo

fato de ser rara e

desconhecida”.

melhorei minha flexibilidade. Este

é um local especial para mim, em

que fiz e faço muitas amizades no

tatame”.

O campeão vai além e enfatiza: “Fiquei

muito mais forte mentalmente

depois do jiu jitsu. Hoje, quando

tenho uma dificuldade, olho para

ela dou risada. Não me desespero”.

E emenda: “Nunca imaginei que

voltaria a competir em qualquer

esporte por causa da deficiência.

Quando comecei a entrar nos campeonatos,

todavia, vi que a deficiência

pouco importava. Era só questão de

adaptação”.

A arte suave está se firmando entre

os esportes para os para-atletas. Com

isso, os organizadores devem estar

atentos às necessidades deste público.

Em 2017, Emmerson participou

do Internacional Pro, realizado pela

UAE Jiu-Jitsu Federation (UAEJJF),

em que conquistou duas medalhas.

Ao falar sobre o suporte dado aos

para-atletas, dispara: “O melhor

campeonato de que já participei

foi o da UEAJJF, em 2017. Não só

pelo fato de ter a categoria para-jiu

jitsu, mas sim pela organização do

evento, que dispensou total atenção

aos para-atletas”.

Para a temporada de 2018, o atleta

sonha: “Pretendo ir para Abhu Dhabi,

lutar o mundial de para-jiu jitsu. Se

não acontecer, quero começar um

projeto para ensinar deficientes

físicos a praticar jiu jitsu ou surf”.

Quando questionado sobre ter se

sentido mal ao praticar algum esporte

de combate, Emmerson esclarece:

“Nunca tive nenhum problema de

saúde nas lutas. O único problema

era a emoção de estar competindo

de igual para igual com pessoas sem

deficiência”. Diante desta declaração

qual sua desculpa para não ir treinar

hoje mesmo?

Superação é a palavra que move

Emmerson Leandro Lopes. Seja

como o nosso entrevistado: legítimo

exemplo de guerreiro, em todos os

aspectos da vida, inclusive nos esportes

de combate. Vista sua armadura

e vença hoje e sempre. Oss.

Nunca imaginei

que voltaria a competir

em qualquer

esporte por causa

da deficiência.

Quando comecei a

entrar nos campeonatos,

todavia, vi

que a deficiência

pouco importava.

Era só questão de

adaptação”.

BC

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 27


ABRINDO O JOGO

LEANDRO BRASSOLOTO ENSINA COMO ANULAR A DA DE LA RIVA

O campeão Mundial Leandro Brassoloto, representante

da equipe Atos Jiu Jitsu, é formado pelo casca grossa,

Ramon Lemos. Nesta edição, ensinará como passar a

guarda De La Riva e contra-atacar com armlock.

Na posição, o faixa preta mostra como anular a progressão

da De La Riva, quando o adversário segura o pé e

domina a gola.

PASSO 3: Estique a perna; atente-se para o detalhe:

calcanhar no chão e dedão do pé para cima, para matar

o gancho da guarda.

3.

PASSO 1: A posição começa da guarda De La Riva com o

adversário segurando o pé e dominando a gola.

1.

PASSO 4: Flexione a perna apontando o joelho para fora,

assim o adversário não voltará com o gancho. Segure o

pano bem no meio do braço do adversário da mão que

está segurando no pé. Atenção ao detalhe: é importante

não soltar a perna do outro lado.

4a.

PASSO 2: Estoure a pegada da gola para conseguir começar

a trabalhar a passagem.

2.

28 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


4b. 6b.

PASSO 5: Após dominar o braço, solte a perna e faça a

pegada por dentro no barbante da calça.

5.

PASSO 7: A posição terminar partindo para o ataque

de armlock.

7a.

PASSO 6: Faça postura, e simultaneamente puxe o braço

para cima e projete o quadril do adversário para o outro

lado, posicionando o joelho na barriga.

6a.

7b.

BC

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 29


FERAS DO MMA

UFC 223: DOIS CINTURÕES EM DISPUTA E UM BRASILEIRO NO CARD

Kleber Santos

contato@ferasdomma.com.br

Opróximo evento do Ultimate Fighting Championship

(UFC) será realizado no dia 7 de

abril, no Barclays Center, Nova York (EUA). No

octógono, serão 13 lutas, sendo a principal

entre Tony Ferguson e o russo Khabib Nurmagomedov,

pela categoria dos leves. O co-main event será a revanche

de Rose Namajunas contra Joanna Jedrzejczyk, ex-campeã

da categoria palha feminino. O Brasil terá apenas um

representante no card: Renato Moicano desafia o norte-

-americano Calvin Kattar, peso pena. A quarta luta mais

importante será o ex-campeão peso leve da entidade,

Anthony Pettis, contra Michael Chiesa.

No main event, Tony Ferguson defenderá a invencibilidade

de 10 lutas e fará a segunda defesa do cinturão

interino. Dana White ainda não confirmou, mas tudo leva

a crer que este duelo será válido pelo cinturão linear,

visto que Conor McGregor não luta desde dezembro de

2016, quando conquistou o título ao bater Eddie Alvarez.

Aos 34 anos e contabilizando 10 anos de MMA, o norte-

-americano está na sua melhor fase. Das últimas seis

lutas, conseguiu cinco vezes o bônus de luta da noite

ou performance da noite. Na carreira, ganhou de nomes

importantes, como Rafael dos Anjos e Edson Barboza.

Aos 29 anos, Khabib Nurmagomedov terá seu principal

desafio na carreira, que não poderia ter sido melhor em

questão de resultado. São 25 lutas e 25 vitórias, sendo

que 9 pela organização comandada por Dana White. A

primeira chance de disputar o cinturão no UFC, em que

luta desde 2012, parece ter sido dada tarde, mas pesaram

as séries de contusões. O lutador passou 2 anos sem

lutar, entre 2014 e 2016. E um ano entre a antepenúltima

e penúltima luta. Agora, parece que o físico está em

perfeito estado; prova, disso é que, na luta de dezembro

contra Barboza, bateu o peso, um feito importante já que

falhou em outras duas oportunidades.

LUTA MUITO ESPERADA

O desafio entre o norte-americano e o russo é um

dos mais aguardados, literalmente, no UFC. É a quarta

luta marcada entre ambos. Na primeira, Ferguson era

esperado para encarar Khabib no dia 11 de dezembro

de 2015, no TUF 22 Finale. Porém, Nurmagomedov

fraturou a costela em um treino e Edson Barboza foi

escolhido como substituto. Por sua vez, o combate com

Nurmagomedov foi reprogramado para acontecer em 16

de abril de 2016, no UFC on Fox 19, mas 11 dias antes,

Ferguson saiu da luta devido a problemas pulmonares.

Ele foi substituído pelo recém-chegado Darrell Horcher. O

emparelhamento entre os dois foi agendado pela terceira

vez no UFC 209, no dia 4 de março de 2017, mas antes

das pesagens Nurmagomedov foi hospitalizado devido

aos efeitos negativos de seu corte de peso. Resultado:

luta cancelada novamente. Agora, é a vez de provarem

que toda esta espera valeu a pena.

REVANCHE ENTRE AS MULHERES

O duelo entre a norte-americana Rose Namajunas e a

polonesa Joanna Jedrzejczyk promete ser um dos mais

agitados do card. No confronto de novembro do ano passado,

o feito de Namajunas foi incrível. Além de conseguir

o cinturão do Palha feminino, Rose derrubou o reinado

invicto de Joanna de 14 lutas, que nunca havia perdido

no MMA. Foi uma vitória surpreendente, não apenas

pelo resultado, mas pela forma como foi conquistada. A

norte-americana conseguiu um nocaute técnico depois

de um massacre de socos, pouco de mais de três minutos

de luta, tornando-se a mais jovem campeã da história

do UFC (25 anos).

O combate servirá também para Rose Namajumas provar

que não estava apenas numa noite inspirada, mas que

está em uma nova fase na carreira. Isso, pois, até a luta

pelo cinturão, Rose havia conseguido seis vitórias, mas

três derrotas, sendo a mais recente na antepenúltima

luta. Pelo lado da polonesa, o combate servirá para

tentar reconquistar o domínio na categoria e apagar o

pesadelo da última derrota.

CARD DO UFC 223

Tony Ferguson x Khabib Nurmagomedov

Rose Namajunas x Joanna Jedrzejczyk

Calvin Kattar x Renato Moicano

Michael Chiesa x Anthony Pettis

Paul Felder x Al Iaquinta

Felice Herrig x Karolina Kowalkiewicz

Ray Borg x Brandon Moreno

Evan Dunham x Olivier Aubin-Mercier

Devin Clark x Mike Rodriguez

Chris Gruetzemacher x Joe Lauzon

Ashlee Evans-Smith x Bec Rawlings

Alex Caceres x Artem Lobov

Kyle Bochniak x Zabit Magomedsharipov

BC

30 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


OS INFLUENTES

DO INSTAGRAM

@JIUJITSU_BRASIL: A página foi criada em

junho de 2014, com o intuito de ajudar e incentivar

as pessoas a praticarem jiu jitsu. Hoje

é uma das maiores páginas de jiu jitsu do Brasil

e tem cumprido sua principal missão: divulgar

a verdadeira filosofia da arte suave.

@JIUJITSUVICIADOS: A missão do perfil é

apoiar os seguidores, com a divulgação de

seus trabalhos e apresentação de vídeos com

posições e novidades a respeito do jiu jitsu.

Isso, para fornecer um serviço de qualidade,

respeitando todas as equipes.

@LUTADORASDEJIUJITSU: Criado há quase

três anos para incentivar e propagar o esporte

entre as mulheres, por meio de postagens de

fotos, divulgando lutadoras jiujiteiras, que estão

conquistando seu espaço e seu valor dentro

da arte suave.

@BJJOLDSCHOOL: Jiu Jitsu Old School é uma

página dedicada a todos os amantes da arte

suave, que tem o jiu jitsu como um verdadeiro

estilo de vida. Há vídeos e publicações de todas

as melhores academias, atletas, profissionais e

professores do mundo.

@TATAME4GIRLS: Dedicado à divulgação do

jiu jitsu feminino. Disponibiliza dicas de nutrição,

técnicas de luta, divulgação de atletas

e campeonatos e tem como principal objetivo

mostrar que o jiu jitsu é um esporte que se adequa

perfeitamente às características femininas.

@JIUJITSUDAQUI: O canal objetiva divulgar

as equipes, atletas e campeonatos da região

Centro Oeste do Brasil, para tornar conhecido

o jiu jitsu de alto nível da capital federal e do

entorno.

106K

seguidores

89,7K

seguidores

55,7K

seguidores

29,8K

seguidores

12,2K

seguidores

3,4K

seguidores

Março de 2018 Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br • 31


A FADIGA MUSCULAR é responsável por

causar lesões musculoesqueléticas e reduzir

a capacidade de gerar força, podendo ou

não estar associada a dor”.

32 • Brasil Combate Magazine • www.brasilcombate.com.br Março de 2018


FISIOTERAPIA

ESPORTIVA

Jéssica Máximo

Fisioterapeuta e judoca

jessicamaximo23@gmail.com

FADIGA MUSCULAR:

O QUE VOCÊ PRECISA SABER.

C

omo prometido anteriormente,

o assunto

desta edição é fadiga

muscular (FM), aquela

famosa sensação de cansaço ou

fraqueza muscular, fenômeno frequente

nas atividades esportivas

e muito comum após atividades

de grande esforço físico — além do

que o seu músculo está habituado.

Você deve estar se perguntando: o

que é necessário saber sobre este

assunto? O que isso influenciará

nos treinos? De forma simples e

objetiva, a FM é responsável por

causar lesões musculoesqueléticas

e reduzir a capacidade de gerar

força, podendo ou não estar associada

a dor.

DICA 1: umas

1.

das terapias

mais eficazes

para controlar

e/ou amenizar

a fadiga muscular é a imersão em

crioterapia após os treinos, por pelo

menos 15 minutos, com temperatura

variando entre 10°C e 15°C. Pode-

-se usar um tonel, banheira ou até

piscina de 1000L. Vale ressaltar que

a imersão deve ser feita sempre

após a atividade física, pois tem

efeito anti-inflamatório, e nunca

antes dela.

DICA 2: massagem

desportiva

2.

e liberação miofascial.

A fáscia

é uma lâmina

extremamente resistente e elástica,

que recobre e dá sustentação para

todos os músculos, permitindo o seu

deslizamento. Assim, quando o nível

de tensão muscular está elevado, os

músculos perdem o deslizamento

ideal, o arco de movimento, a força

de contração e ficam fadigados,

acumulando toxinas nocivas ao seu

desempenho. Algumas técnicas que

ajudam a “dissolver” e a eliminar

essas tensões são a massagem

desportiva e a liberação miofascial,

que pode ser feita utilizando um

rolo de liberação, halter, bolas de

tênis ou bolas mais densas, como

na imagem abaixo. Seu custo é um

pouco mais acessível.

A liberação deve ser feita de forma

progressiva, lenta e por grupamento

muscular. Não é interessante impor

um tempo para cada músculo, pois

é subjetivo: um dia sua musculatura

pode estar mais cansada que no

dia anterior, por isso é importante

se perceber, reparando melhora

gradual nos pontos mais doloridos,

e assim por diante. Tanto o rolo de

liberação como as bolas de tênis

ou as bolas mais duras se complementam:

pode-se começar com o

rolo, que é mais superficial, depois

passar para o halter, pressionando

e deslizando o grupo muscular que

você desejar, como na figura abaixo

(essa liberação é mais profunda e

dolorosa).

Talvez algum ponto específico do

seu corpo esteja mais dolorido que

o normal. Na fisioterapia, chamamos

esses locais de trigger points

ou pontos gatilhos. Para aliviá-los,

pode-se pressionar este ponto por

cerca de 1min a 1,5min, o que ajuda

a diminuir a tensão e a dor, por

conta do estímulo mecânico contra

essa região.

DICA 3: ventosaterapia.

Com-

3.

plementando as

demais dicas, a

ventosa objetiva

melhorar o fluxo sanguíneo local,

inibir e relaxar os pontos gatilhos e

liberar os tecidos profundos.

Todas essas dicas podem e devem

ser realizadas em conjunto, e após

os treinos.

Até a próxima sessão, bons treinos.

Instagram: @maximofisioterapia

BC

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Fotos: Jack Taketsugu/Brasil Combate

foto@brasilcombate.com.br

COBERTURA: BRASÍLIA GOLDEN CUP

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COBERTURA: BRASÍLIA GOLDEN CUP - EM BRASÍLIA

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COBERTURA: BRASÍLIA GOLDEN CUP -

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