Revista Unicaphoto Ed.10

unicaphoto

Revista do curso de fotografia do curso da Universidade Católica de Pernambuco

: : Revista do Curso Superior de Tecnologia em Fotorafia da UNICAP - #10, Março 2018 : :


Editorial

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da UnicaPhoto.

/fotografiaunicap

Expediente

Coordenação: Renata Victor

Edição: Gisela Didier

Coordenação Editorial: Julianna Torezani

Programação Visual: Candeeiro Audiovisual

Diagramação: Alícia Cohim

Textos: Julianna Torezani, Marina Feldhues, Marcela Pedrosa,

Angela Grangeiro, Olavo Rosa, Juliana Galvão, Emmanuely

Ribeiro, Filipe Falcão, Douglas Fagner, Germana Soares, Ícaro

Benjamin, José Nunes, Elysangela Freitas, Bhetânia Correia.

Ensaios: Angela Grangeiro, Renata Victor, Douglas Fagner,

Emmanuely Ribeiro.

Foto da capa: Olavo Rosa

Hoje chegamos à 10º edição da UNICAPHOTO e, junto com ela, também comemoramos o início da

segunda turma da especialização As Narrativas Contemporâneas da Fotografia e do Audiovisual, da

segunda turma do curso de extensão Ganhando Asas Através da Comunicação e da Arte, a formatura

da oitava turma do curso superior de Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco

e o Prêmio Intercom Nacional, na categoria fotonovela, com o trabalho A morte amorosa, com a

orientação da professora Carolina Monteiro.

Para comemorar nossa 10º edição, apresentamos formas diferentes de ver e fazer fotografia. Na entrevista

com a diretora do Museu da Cidade do Recife, Betânia Corrêa de Araújo, ela exalta a importância

da presença da fotografia nos museus e faz um breve histórico das fotografias aéreas, ressaltando a

versatilidade que os avanços tecnológicos, como a utilização de drones, trouxeram para essa área. As

fotografias feitas com drone, pelo nosso ex-aluno do curso superior de Tecnologia em Fotografia da

Unicap, Olavo Rosa, compõem a exposição sobre o Forte das Cinco Pontas, inaugurada no último dia

12 de março.

Como de costume, trazemos um ensaio de minha autoria, desta vez, sobre a praia de Merepe, em Porto

de Galinhas; o da aluna Ângela Grangeiro, sobre uma perspectiva LGBT; o projeto fotográfico do aluno

Douglas Fagner, que objetivou retratar a simbiose das pessoas com o meio ambiente; e o da aluna

Emmanuely Ribeiro, sobre a sua avó. Os ex-alunos Olavo Rosa e José Nunes apresentam fotos que lhe

são significativas, na coluna Fotossíntese.

No campo dos ensaios teóricos, a professora Julianna Torezani discute a estetização da vida contemporânea

através de imagens e a confecção do selfie; Marina Feldhues teoriza sobre fotolivros e a importância

de se definir um conceito para a sua produção; Juliana Galvão traz uma análise sobre o

documentário Santiago; Emmanuely Ribeiro lança luzes sobre o trabalho da fotógrafa Nan Goldin; o

professor Filipe Falcão apresenta o ensaio "Fluxo acelerado como forma de sobrevivência da sétima

arte". O aluno Ícaro Benjamin compartilha a vivência o Programa de Voluntariado Universitário Unicap

- VOU.

A UnicaPhoto é uma publicação semestral do Curso Superior de

Tecnologia em Fotografia da Universidade Católica de Pernambuco.

(ISSN 2357 8793)

Também são apresentadas as fotografias vencedoras do VIII Concurso de Carnaval, com a participação

dos alunos da graduação e da especialização “As Narrativas Contemporâneas da Fotografia e do

Audiovisual”, que enviaram imagens produzidas durante o período de folia. A ex-aluna do curso de

Fotografia e da especialização "As Narrativas Contemporâneas da Fotografia e do Audiovisual" Elysangela

Freitas é a convidada da coluna O que eu estou fazendo?

Por fim, agradeço aos alunos, professores, colaboradores a editora Carol

Monteiro que contribuem ao longo das dez edições da UNICAPHOTO.

Em especial, agradeço à jornalista Gisela Didier pela edição, ao professor

Filipe Falcão pela edição do vídeo da entrevista, à aluna Alícia Cohim

pela diagramação e à professora Julianna Torezani, pois sem o apoio e

dedicação deles não teríamos a nossa décima UNICAPHOTO.

Renata Victor

Coordenadora do Curso Superior de Tecnologia

em Fotografia da Unicap

02 03

FOTO Renata Victor


sumário

Aconteceu

2017.2

06

Entrevista com

Bethânia Correia

08

A estetização

da vida

contemporânea

através de

12

Carnaval

Pernambucano

pelas

lentes dos

alunos

20

Fotolivros:

qual o

conceito

central do

meu livro?

16

Fotossíntese:

Pontes que

nos Conduzem

30

Ensaio -

Translúcido

22

Santiago

32

Direitos

Morais e

Patrimoniais

do

Fotógrafo

31

Ensaio - Um

passeio pela

praia de Merepe

42

Nan Goldin:

Balada, Sexo

e Dependência

34

Ensaio - Retratos,

Vida & Poesia

64

Fluxo narrativo

acelerado como

forma de sobrevivência

da sétima

arte

60

Formatura da

primeira turma do

Ganhando Asas

Através da Comunicação

e da Arte

78

Programa de Voluntariado

Universitário

– VOU

76

Fotossíntese – Vestido

de Brasil

94

Ensaio - Diante do

olhar dela

80

O que eu estou

fazendo?

96

Fotografia e História

95

Dica especial de

livro - O Retrato e

o Tempo

98

Dicas de livros,

sites e filmes

99

04 05


aconteceu

2017.2

Novembro

Outubro

Setembro

Dezembro

Setembro

Novembro

Agosto

- Aula inaugural 2o Turma da Especialização “As Narrativas Contemporâneas da

Fotografia e do Audiovisual”;

- Abertura de semestre 2017.2;

- Bate-papo sobre produção audiovisual com o crítico Luiz Joaquim;

- Conversa descontraída com o fotógrafo Xirumba Amorim;

- Oficina de pinhole para professores e funcionários da 2o Jornada Unicap Comunitária;

- Entrega do Prêmio Alcir Lacerda para Ana Farache e Lula Cardoso Ayres (In Memoriam)

Setembro

Outubro

- Abertura da Exposição “Imóveis Especiais de Preservação 20 anos” que homenageia a

fotógrafa Aurelina Moura (FOTO);

- Bate-papo com a fotógrafa e jornalista Cris Dias;

- Alunos de fotografia ganham prêmio no Intercom Nacional (FOTO);

- Exposição no Dia da Árvore;

- Saída fotográfica para o espetáculo O Nosso Villa, com os alunos da disciplina de Iluminação

com a professora Renata Victor;

- Palestra com o cineasta e professor Marcelo Pedroso;

- Palestra com o fotógrafo Xirumba Amorim;

- Palestra com o fotógrafo e ex-aluno Victor Muzzi;

- Comemoração do Prêmio Intercom Nacional e os dois anos do grupo de estudo;

- Turma do quarto módulo participa de bate-papo com Kety Marinho;

- Última aula de fotografia no curso Ganhando Asas Através da Comunicação e da Arte.

- Conferência do Supeior Geral dos Jesuítas, Padre Arturo Sosa;

- Exposição fotográfica em homenagem aos 30 anos da Fundação Alice Figueira no

Siucs durante Semana de Integração.

- Exposição do aluno José Nunes;

- Homenagem aos 30 anos da Fundação Alice Figueira na ALEPE;

- Oficina de roteiro para Cinema e TV movimenta coletivo Zanzar;

- Alunos da especialização participam de bate-papo sobre audiovisual com Rodrigo

Lobo (FOTO);

Novembro

Dezembro

- Encerramento de semestre (FOTO);

- Exposição a retrospectiva Unicap 2017;

- Exposição Interdisciplinar 2017.2;

- Bate-papo sobre o projeto “Nossa Vitória” do fotógrafo

e ex-aluno da especialização Rafael Martins;

- Bate-papo com o diretor de filmes Fernando Weller;

- 6o Edição do FotoVídeo 2017 (FOTO);

- Confraternização do FotoVídeo 2017;

- Exposição dos alunos de fotografia em Homenagem ao dia da Consciência Negra;

- Oficina de light painting no Festival da Vox, ministrada pela professora Renata Victor (FOTO);

- Palestra com José Roberto Gouveia e André Martins;

- Saída fotográfica noturna da disciplina de Iluminação com a professora Renata Victor;

- Sessão especial do Atelier Cinéma homenagea 100 anos de Jean-Pierre Melville, coordenada

pela professora Catarina Amorim e bate-papo com o Professor Paulo Cunha.

06 07


entrevista

Renata Victor entrevista

Betânia Corrêa

FOTOS Renata Victor

Clique aqui para

assistir ao vídeo.

Betânia - Eu sou Maria de Betânia Corrêa de Araújo, arquiteta, formada pela Universidade

Federal de Pernambuco em 1982.

Renata – Como começou sua relação com o Museu da Cidade do Recife?

B - Minha primeira relação com um museu foi no Museu do Estado, algo casual. Comecei a

trabalhar com um colega da faculdade de arquitetura, Romero Pereira. Iniciei minhas tarefas

nos museus, comprando revistas em São Paulo e pegando informações aqui. Ainda era muito

incipiente, até existia o Museu do Homem do Nordeste estruturado, mas era tudo ainda muito

amador. Depois passei pela FUNDARPE, por diversas Instituições de Cultura, de Patrimônio.

Fui convidada a trabalhar, por Roberto Peixe, na exposição sobre o Recife em Nantes, na França.

Então fui convidada, posteriormente, a trabalhar dirigindo exposições no Museu da Cidade

do Recife. Estou trabalhando lá há 13 anos, atuando não só na conservação do acervo, de formação

e de difusão, mas fazendo um trabalho de conservação do próprio edifício. Trata-se de

um forte tombado nacionalmente, em 1938, e que agora está em uma lista para ser considerado

um Patrimônio da Humanidade, ao lado dos fortes do Brum e Orange. Então, o nosso Museu

da Cidade está instalado, desde 1982, dentro de um monumento histórico, que é o Forte de

Santiago das Cinco Pontas.

R – Vocês estão com uma exposição sobre o

Forte das Cinco pontas, inaugurada no último

dia 12 de março. Como foi o processo curatorial

dessa exposição?

B – Como o Forte está sendo trabalhado para

a candidatura ao reconhecimento como Patrimônio

da Humanidade, e temos um trabalho

de educação patrimonial, que está sendo desenvolvido

com o IPHAN, as prefeituras do

Recife e de Itamaracá, e a embaixada da Holanda,

o Museu resolveu fazer uma exposição

sobre o Forte. É a primeira sobre o Forte que

acontece dentro do Museu da Cidade do Recife,

e quase uma dívida com esse monumento

que nos abriga. Então começamos a construir

um olhar sobre o Forte a partir da travessia

dos europeus que vinham para a América do

Sul na tentativa de construir um novo mundo.

Os Fortes foram as primeiras construções

para ocupar e defender esse território.

No caso do Cinco Pontas, ele foi construído

inicialmente por Holandeses, em 1630-1631,

com cinco baluartes, de onde vem o nome da

edificação. Depois, ele foi reconstruído pelos

portugueses que fizeram essa construção com

quatro baluartes, que temos hoje. Mesmo assim,

a população continuou a chamar “Forte

das Cinco Pontas”. Então, eu digo que o Forte

não é só um patrimônio material, mas, também,

imaterial devido ao seu nome.

Então, trata-se de uma exposição de longa duração,

que vai ocupar o Museu o ano inteiro,

e que foi aberta no aniversário da cidade, dia

12 de março. É um trabalho de educação, trazendo

escolas, com exposição bilíngue, dando

acessibilidade para os visitantes estrangeiros

que queiram conhecer a cidade. Nessa exposição

estamos tratando de dois Fortes, o Forte

holandês – Frederico Henrique – e o Forte

português – Forte Santiago – e uma cidade, o

Recife, que começou como um povo, depois

virou uma vila, uma cidade e, depois, a cidade

que a gente conhece hoje. É uma exposição

muito rica, com plantas, mapas, textos, fotografias,

filmes e objetos arqueológicos – é a

primeira vez que os objetos arqueológicos, encontrados

na década de 1970, estão expostos.

É uma exposição com conteúdo enorme e trata

o Forte com um novo olhar. Conta, cronologicamente,

a história do Cinco Pontas, mas

mostrando toda a ocupação que existiu no

Forte desde sua criação, inclusive o período

que o Quartel Militar ocupou o Forte.

Convido todos para conhecer essa exposição

e esse monumento. Na cidade do Recife acredito

que existam dois monumentos do século

XVII, o Forte do Brum e o Forte das Cinco

Pontas, que creio que são os mais antigos da

paisagem. O Forte do Brum e o Forte Orange,

em Itamaracá, estão na listagem dos 19 fortes

brasileiros. Todos foram construídos por holandeses

e portugueses, e todos que tiveram a

saída dos holandeses tiveram nome de santos.

O Cinco Pontas, que tem um museu público,

do município, vem fazendo o trabalho de educação

desde da década de 1980.

R – Você trouxe algumas novidades para a

exposição, o uso da fotografia em drone, por

exemplo. Qual é a importância da presença da

fotografia nessa exposição?

B – É importantíssima. A fotografia feita pelo

drone é um recurso absolutamente fantástico,

porque é uma forma nova de ver a cidade. Já

foi vista do alto desde os anos 1930, pelo Zeppelin,

depois pelos helicópteros, mas o drone

tem uma distância do solo absolutamente

nova. É muito interessante ver a cidade dessa

altura. Até digo que graças ao barqueiro, que

deu suporte ao jovem Olavo que fez as imagens

do drone, e chamou o drone de besouro.

Então, para a gente, o nome do filme é o

Voo do Besouro. Esse besouro, que vê a cidade

do Cinco Pontas até o Brum, passando pelo

mar, volta pelo rio, e nos dá uma perspectiva

do centro histórico do Recife completamente

nova. As duas Torres, que são motivo de polêmica

ali no largo das Cinco Pontas, são chocantes

sendo vistas pelo drone, porque elas

são, realmente, uma parede vertical no bairro

de São José, que até então a gente não tinha

essa possibilidade de leitura. Então o drone é

uma coisa muito interessante na exposição.

08 09


Além disso, nós convidamos a professora Renata

Victor para olhar o viaduto no primeiro

plano e o Forte no segundo, para refletir a

presença do viaduto nessa paisagem. É muito

interessante! A gente, no museu, tem uma

preocupação com relação à cidade do Recife

em não ter uma postura atávica, que o Recife

era lindo e hoje é caótico, mas a gente propõe

uma reflexão sobre a cidade. Tem um vídeo,

também, muito interessante sobre as fotografias

da demolição da Igreja dos Martírios,

ocorrida na década de 1970. A gente guarda,

no Museu da Cidade 61 objetos dessa Igreja.

É uma Igreja que foi feita com o dinheiro dos

escravos, dos negros, no século XVIII e ela foi

demolida para a abertura da Dantas Barreto.

As fotos que são do dossiê, do IPHAN, são interessantíssimas.

Ao mesmo tempo, é muito

doloroso ver aquilo.

O Museu procura ter uma visão da cidade

como um objeto de transformação. Essas fotografias

que estão expostas, mais do que uma

mera lembrança, são motivo de reflexão. Para

as pessoas verem onde é que a cidade perdeu

e, com essa reflexão, não repetir erros.

R – A fotografia possui várias funções sociais.

No Museu da Cidade do Recife a fotografia é

essencial?

B – Com certeza. O Museu guarda uma coleção

de fotografias que foi constituída a partir

de 1937 pela Diretoria de Estatística, Propaganda

e Turismo, para documentar a cidade.

Não só a fotografia, mas os filmes foram

usados. O Museu guarda hoje as 200 mil fotografias

da década de 1930 até a de 1980, de

diversos fotógrafos da cidade, como Berzin,

Sebastião, Alcir Lacerda e tantos outros, mais

de 30 fotógrafos trabalharam para essa diretoria.

A fotografia é um recurso importante para o

Museu, não só para os seus projetos, como

para atender pesquisadores. O Museu faz um

investimento muito grande na conservação

desse acervo, porque ele é a memória da cidade.

Então, são essas fotografias que o Museu

utiliza nas suas exposições e também, empresta

como material de pesquisadores, para publicitários,

para empresas e jornais.

O Museu está sempre sendo solicitado. Agora

mesmo no ano da Copa do Mundo, já estão

buscando fotografias sobre futebol. Então o

Museu tem uma ampla gama de assuntos nesse

acervo, com fotografias das construções,

demolições, das festas, do carnaval, do natal.

É um acervo que tem uma visão bastante antropológica,

da vida, do cotidiano da cidade,

das ações políticas, da moradia. É que está à

disposição dos estudantes e pesquisadores.

O papel de um museu não é só guardar,

mas também catalogar, tratar, preservar,

inventariar para oferecer para o futuro. Eu

sempre digo que o Museu da Cidade não é um

museu histórico, é um museu que guarda a

memória da cidade, mas na perspectiva do futuro,

do planejamento, até porque o Museu da

Cidade do Recife foi criado por uma secretaria

de planejamento, ele era um braço do Instituto

da Cidade. Então, a ideia do Museu é pensar a

cidade, mas de que qualquer outra coisa.

A QUEM

VOCÊ

CONFIA

SUAS

FOTOS?

Rua da Moeda, 140 | 1 Andar

Bairro do Recife | 3424-1310

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10 11


eportagem

A Moderna Estetização do Mundo é o terceiro período e trata sobre a autonomia da arte, criada

para museus e coleções de caráter comercial que visa um público para obter sucesso e lucro,

portanto, a era da arte. O quarto período chamado de Era Transestética trata do período atual, é

a era da criatividade e do mercado, a arte está nas indústrias, no comércio e na vida comum, há

uma intensa mercantilização da produção artística, também chamada de Capitalismo Artista.

O indivíduo transestético é reflexivo e eclético que busca uma estetização da sua vida, em que

o consumo estético se torna um vetor identitário, haja vista os filmes e as séries de televisão de

altos orçamentos, os grandes espetáculos e parques, numa combinação de arte e comunicação.

No processo de estetização da vida cotidiana, os autorretratos se colocam como elemento de

demostrar essa era transestética, quando o indivíduo escolher o que fotografar, onde e como,

do traje à pose tudo é produzido com uma certa intencionalidade na construção de sua própria

imagem.

A estetização da vida

contemporânea através

de imagens

TEXTO Julianna Torezani

A estética é considerada como uma ciência da percepção, do conhecimento sensível e da experiência.

Trata-se de uma forma de interpretação do mundo, a partir de determinadas ideias e

sensações. O termo foi criado pelo filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten, em 1750,

a partir da palavra grega aisthesis, como um discurso sobre o corpo. De acordo com o filósofo

britânico Terry Eagleton (1993, p. 17), a estética é “o movimento de nossos afetos e aversões, de

como o mundo atinge o corpo em suas superfícies sensoriais, tudo aquilo enfim que se enraíza

no olhar e nas vísceras e tudo o que emerge de nossa mais banal inserção biológica no mundo”.

O sensível aqui deve ser entendido como uma forma importante de conhecimento frente à racionalização,

em que o corpo revela outras informações.

Na produção fotográfica contemporânea, em especial através de retratos e autorretratos,

é interessante observar como as imagens são criadas a partir do que se abordar como uma

experiência estética. Para os filósofos franceses Gilles Lipovetsky e Jean Serroy (2015) deve-se

estudar a estética em função do capitalismo, já que a economia de mercado modifica a experiência

sensível por conta da produção e consumo de bens em escala mundial de acordo com

as estratégias das empresas e marcas, o que permitiu surgir uma economia estética vinculada à

estetização da vida cotidiana. Os filósofos dividem em quatro períodos o processo de estetização,

o primeiro, chamado de Artealização Ritual, indica a fase em que não há intenção estética,

em que os objetos foram criados para atender a uma demanda de utilização e eram descartados

após o uso. Ligadas às religiões, essa foi a era dos deuses. O segundo período, intitulado Estetização

Aristocrática aborda o período do humanismo. O artista cria obras que passam a ser

admiradas e assinadas, momento secular da produção, fase criada para os príncipes.

12 13


Fotos editadas por Zilla

Van Den Born.

Ela simulou, através de

fotografias, uma viagem

para o Sudeste Asiático

e publicou as cenas

no seu perfil do Facebook.

Contou à família

e aos amigos que estava

viajando de férias, mas

todas as imagens foram

feitas no seu apartamento

em Amsterdã,

transformado em estúdio,

e na piscina do prédio

onde morou durante

42 dias.

Na obra O show do eu: a intimidade como espetáculo, da pesquisadora argentina Paula Sibilia

(2008), há uma reflexão sobre a visibilidade que ocorre nos dias atuais, sobretudo pela internet,

os os milhões de selfies que existem nas redes sociais como o Instagram, por exemplo. A exibição

da intimidade se coloca ao lado das notícias, das questões econômicas e políticas. “Tendências

exibicionistas e performáticas alimentam a procura de um efeito: o reconhecimento

nos olhos alheios e, sobretudo, o cobiçado troféu de ser visto. Cada vez mais, é preciso aparecer

para ser. Pois tudo aquilo que permanecer oculto, fora do campo da visibilidade – seja dentro

de si, trancado no lar ou no interior do próprio quarto – corre o risco de não ser interceptado

por olho algum. E, de acordo com as premissas básicas da sociedade do espetáculo e da moral

da visibilidade, se ninguém vê alguma coisa é bem provável que essa coisa não exista” (SIBILIA,

2008, p. 111-112).

Esse “aparecer para ser” apontado por Sibilia revela uma sociedade de aparência e de espetáculo.

Segundo a historiadora Annateresa Fabris (2004, p. 35), “o retrato fotográfico é uma

afirmação pessoal, moldada pelo processo social no qual o indivíduo está inserido e do qual

derivam as diferentes modalidades de representação”. Nas produções fotográficas, sobretudo

na confecção do selfie e toda sua ergonomia própria, os indivíduos indicam uma identidade,

de como querem ser percebidos e não precisa de uma comemoração específica, pois é o cotidiano

que é registrado e produzido. Para além das questões sociais, os aspectos tecnológicos

atuais consolidam esse regime visual de ampla produção e circulação de imagens, pois através

da portabilidade, instantaneidade, ubiquidade, acessibilidade e conexão em rede dos telefones

celulares são narradas as experiências cotidianas, contando, ainda, com as ferramentas de edição

de imagens para fazer retoques ou grandes mudanças.

Assim, esses registros que surgem a todo o momento criam uma narrativa da vivência do indivíduo,

com uma aparência midiatizada, onde os diários deixam de serem íntimos para se

tornarem perfis em redes sociais podendo ser visualizados pelas pessoas que estão em conexão.

De acordo com a historiadora Silvana Boone (2007, p. 18), “através da realidade virtual e do

ciberespaço, o homem assume novas identidades, incorpora e simula novas versões de si ou escolhe

sua perpetuação através de um meio que pode torná-lo sempre presente”. Desta forma, as

fotografias estão além do real, pois imprimem acontecimentos e sensações criadas com efeito

comunicacional.

Referências

BOONE, Silvana. Fotografia, memória e tecnologia. In: Conexão – comunicação e cultura.

Universidade de Caxias do Sul. Vol. 6, n. 12. Caxias do Sul, RS: Educs, 2007.

EAGLETON, Terry. A ideologia da estética. Tradução de Mauro Sá Rego Costa. Rio de Janeiro:

Jorge Zahar, 1993. Título original: The ideology of the aesthetic.

FABRIS, Annateresa. Identidades virtuais: uma leitura do retrato fotográfico. Belo Horizonte:

Editora UFMG, 2004.

LIPOVETSKY, Gilles; SERROY, Jean. A estetização do mundo: viver na era do capitalismo

artista. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

SIBILIA, Paula. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,

2008

14 15


eportagem

Fotolivros: qual o

conceito central do

meu livro?

TEXTO Marina Feldhues

FOTO Marina Feldhues

A produção de fotolivros, já consolidada mundialmente, está em plena ascensão no cenário

nacional. É raro encontrar um fotógrafo que não queira ter sua produção autoral e/ou artística

publicada nesse formato. O livro, de certo, pode garantir uma longevidade e um alcance para

o trabalho fotográfico muito maior do que qualquer exposição. Mas, o que é mesmo um fotolivro?

Os fotolivros são livros fotográficos temáticos, que contam alguma coisa. São livros de cunho

mais autoral. Funcionam como obra (no caso dos livros de artistas fotográficos) e/ou como

projeto específico de um fotógrafo, autor do livro. São livros autônomos, que têm vida própria,

não são apêndices de exposições fotográficas (como os catálogos), antologias ou portfólios.

Ultrapassam a questão meramente expositiva. As imagens fotográficas são protagonistas, ou

dividem o protagonismo, na comunicação. Elas são consideradas mais em relação umas às outras

e ao todo do livro, do que em sua individualidade. Tais livros são gerados pela cooperação

entre imagens fotográficas, texto, design e materiais gráficos e, em geral, possuem uma potência

narrativa. Eles portam mundos, realidades que acontecem no livro, são fonte de informação

e de experiências para seus leitores.

FOTOS Silent Book, Miguel Rio Branco

Pois bem, partimos dessa definição e pensamos: certo! Quero fazer meu fotolivro. Qual o primeiro

passo que devo dar?

A primeira e fundamental atividade na produção de um fotolivro é definir o “conceito central

do livro”. O conceito central é o que vai guiar toda a produção do livro, as escolhas de materiais,

o formato, o tamanho, o peso, a tipografia, edição e sequenciamento das imagens, o uso de

texto, o layout das imagens e texto, o tipo de impressão, a encadernação, entre outras decisões.

“Seu livro deve ser moldado em torno de um conceito central – seja você como um artista e um

corpo de trabalho que você criou ou um assunto independente que você fotografou. Uma vez

que você tenha esboçado completamente esse conceito, ele irá orientar a forma como o conteúdo

do livro é moldado” (HIMES; SWANSON, 2011, p. 84).

16 17


Os fotolivros comunicam como um todo, não apenas as

imagens comunicam, mas também os materiais escolhidos,

o tamanho, o peso do livro, até o preço pelo qual é

vendido também diz muito. O conceito está relacionado

ao que o livro diz e propicia de experiência ao leitor. “O

que este livro faz? O que ele está me dizendo? Como ele

está me dizendo? O que as imagens me dizem e o que a

forma como o livro agrupa me diz?” (COLBERG, 2017,

p. 45).

O professor Jörg Colberg (2017), fotógrafo, editor de

fotolivros e autor do livro Understanding Photobooks,

recomenda que quem quiser fazer fotolivros pegue essas

quatro perguntas e as faça para cada fotolivro que

encontrar, é uma forma de ir aprendendo com quem já

fez. Que soluções estéticas foram encontradas para discutir

tais e tais questões? Para promover tais e tais experiências?

Quanto mais se investiga, mas se aprende. O

conceito do livro é fruto do conhecimento acumulado

do autor sobre o próprio trabalho fotográfico e sobre as

potencialidades dos materiais disponíveis à produção

de fotolivros. Daí porque boa parte da produção dos fotolivros

é feita com o apoio de profissionais com experiência

no trabalho com materiais gráficos. “O que o livro

deveria fazer? Que experiência o espectador deveria ter?

O que o livro dirá a seu espectador? [...] Como o livro

vai fazer isso? [...] O que as imagens estão falando para

o espectador? O que a forma como o livro agrupa diz ao

espectador?” (COLBERG, 2017, p. 49).

Estas são as mesmas quatro perguntas, só que agora feitas ao próprio livro que se quer produzir, ainda

numa fase preparatória. Fazer essas perguntas a si próprio é encontrar o conceito central do livro,

que deriva do conceito do corpo de trabalho fotográfico, “se não há clareza sobre o corpo de trabalho,

traduzi-lo no formato livro ou numa exposição normalmente apresenta problemas” (COLBERG,

2017, p. 61).

Fazer um fotolivro, portanto, não é questão de colocar as melhores fotografias num formato de livro.

Trata-se de saber o que você quer dizer, o que você quer comunicar com suas imagens e com o livro,

que experiências você quer proporcionar para quem vai vê-lo. Para tanto, vale o exercício: esquecer

todo o “background” da produção das imagens e se colocar diante delas como quem as vê pela primeira

vez. Para ser autor de um fotolivro, é preciso antes ser leitor do próprio trabalho fotográfico. E aqui,

definido o conceito central do livro, começa a grande jornada da edição.

Referências:

COLBERG, Jörg. Understanding photobooks: the form and content of the photographic book. New York:

Routledge, 2017.

FELDHUES, Marina. Conhecer fotolivros: (in) definições, histórias e processos de produção. 2017. Dissertação

(Mestrado em Comunicação) – Departamento de Comunicação, Universidade Federal de Pernambuco,

Recife. 2017.

HIMES, Darius D.; SWANSON, Mary Virginia. Publish your photography book. New York: Princeton

Architectural Press, 2011.

FOTOS Life is a Beach, Martin Parr

18 19


eportagem

Carnaval

Pernambucano

pelas lentes dos

alunos

TEXTO Marcela Pedrosa

Com a proposta de homenagear o carnaval pernambucano,

conhecido por ser uma festividade democrática

e culturalmente diversificada, o Curso Superior de

Tecnologia em Fotografia realizou o VIII Concurso de

Carnaval com a participação dos alunos da graduação

e da especialização “As Narrativas Contemporâneas da

Fotografia e do Audiovisual”, que enviaram imagens

produzidas durante o período de folia. Foram submetidas

23 imagens dos estudantes, cada um tendo a

chance de enviar até três fotos para concorrer ao prêmio.

Neste ano, o vencedor da categoria avaliada pelo júri

popular foi o aluno do primeiro módulo Tiago Britto,

que obteve o maior número de reações (173 ao total)

entre as fotos de todos os participantes publicadas

através da página oficial do curso de Fotografia no Facebook.

Já na categoria da comissão técnica avaliadora, o primeiro

lugar foi conquistado pela aluna do terceiro módulo

Thalyta Tavares, que também levou o segundo lugar

com mais uma foto. O terceiro lugar, na avaliação

do júri técnico, quem mereceu foi o aluno da especialização

Gil Vicente.

A comissão foi composta pelo ex-aluno e vencedor do

VII Concurso de Carnaval (2017) Douglas Fagner, pela

fotógrafa e ex-aluna da graduação e da especialização

Juliana Gouveia Galvão, e pela fotógrafa e ex-aluna de

jornalismo da Unicap Inês Cristina Couto Campelo.

Os vencedores receberam a impressão das fotografias

em papel alto padrão de qualidade (fineart), com durabilidade

estimada de 100 anos.

Em nenhum momento o nome dos autores das imagens

enviadas foi divulgado ao júri popular e técnico,

assim mantendo a avaliação genuinamente legítima.

2o Lugar - Thalyta Tavares - Júri Técnico

3o Lugar -Gil Vicente - Júri Técnico

1o Lugar - Thalyta Tavares

Júri Técnico

1o Lugar - Tiago Britto- Júri Popular

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ensaio

Translúcido

TEXTO e FOTOS Angela Grangeiro

A proposta de translúcido é elucidar questões certamente pouco

conhecidas pela sociedade. Vivemos um momento onde muitos

falam muito sobre muitas coisas sem a menor competência. Não

há preocupação em entender a origem dos movimentos e das lutas

sociais, defender uma causa vai muito além que pintar cartazes e

balançar bandeiras.

A bibliografia remete ao nascimento do movimento homossexual

no fim da década de 1940, quando se tem a primeira organização

destinada a desconstruir uma imagem negativa da homossexualidade:

o espaço chamado de COC (Center for Culture and Recreation), em

Amsterdam, que foi criado pelo grupo que editava uma publicação

mensal sobre homossexualidade, o Levensrecht - cujo título

pode ser traduzido para o português como “Direito de viver”. Os

organizadores desse centro investiam seu esforço na promoção de

ocasiões de sociabilidade e no trabalho junto as autoridades locais

para fomentar a tolerância para com os homossexuais.

Nascia na década de 1950, na mesma trilha, o Mattachine

Society, um grupo clandestino, que tinha como lideranças

alguns articuladores da esquerda socialista norte-americana.

O Mattachine Society também se ocupava da construção de

espaços de sociabilidade, promovendo discussões em grupo sobre

homossexualidade, às vezes acompanhadas de palestras proferidas

por psiquiatras e médicos. Ligado à Mattachine Society, também

nascia nos Estados Unidos, em meados da década de 1950, o grupo

Daughthers of Bilitis, direcionado às lésbicas.

As décadas de 1960 e 1970 marcam uma crescente visibilização

e radicalização desse incipiente movimento, caracterizadas por

um discurso de autoafirmação e liberação, a exemplo de grupos

como Society of Individual Rights, organização homossexual de São

Francisco que, pouco a pouco, acabou tomando boa parte do espaço

ocupado pela Mattachine Society. O grande marco internacional do

movimento homossexual nesse período, que perdura até hoje, foi a

revolta de Stonewall, um bar de frequência homossexual em Nova

York. Constantemente abordados pela polícia, os frequentadores

do bar partiram para o confronto aberto com os policiais em 28

de junho de 1969, data que se internacionalizou como o “Dia do

Orgulho Gay”.

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Em 25 de junho de 1978, na Parada do Dia da Liberdade Gay de San

Francisco, a bandeira criada pelo artista plástico Gilbert Baker foi orgulhosamente

exibida. Originalmente contava com oito cores, tendo cada

uma um significado especifico: rosa-choque seria sexo; vermelho seria

vida; laranja seria cura; amarelo seria luz do sol; verde seria a natureza;

azul turquesa seria arte; azul índigo seria harmonia; e violeta seria o espírito.

Naquela ocasião, 30 voluntários ajudaram Baker a pintar à mão

as duas primeiras bandeiras. Elas foram hasteadas para secar no último

andar de galeria de um centro da comunidade LGBT em San Francisco.

Mas a bandeira passou por muitas releituras ao longo do tempo, e já foi

feita com menos cores em épocas em que era difícil achar tecido rosa-

-choque, por exemplo.

Em 1994 Gilbert Baker, já em Nova York, costurou uma bandeira de 1,6

Km de extensão. Ela foi carregada por cinco mil pessoas e depois estendida

no prédio da ONU. Na época, essa bandeira quebrou o recorde

de maior do mundo. O recorde foi batido por ele mesmo em 2003, no

aniversário de 25 anos da bandeira, Baker criou uma peça de 2 km de extensão,

que atravessava a cidade de Key West, na Flórida, de lado a lado.

Em 2015, o Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMa, adquiriu a

bandeira para a sua coleção de obras, chamando-a de “poderoso marco

histórico do design”. “Decidi que tínhamos de ter uma bandeira, que uma

bandeira nos encaixasse em um símbolo, o de que somos pessoas, uma

tribo”, disse Baker ao museu em uma entrevista. “E as bandeiras são sobre

proclamar poder, então é muito apropriado”, acrescentou na ocasião.

Até o fim da vida, Gilbert Baker lutou pela causa LGBT, dando palestras

sobre a bandeira e sobre o movimento por todo o mundo. Ele estava escrevendo

uma biografia em que contava toda a história da bandeira, mas

morreu em 31 de março de 2017, sem publicá-la.

O desejo de realizar um ensaio fotográfico numa perspectiva LGBT, me

conduziu naturalmente à mundialmente famosa bandeira LGBT, e por

consequência ao criador dela, por quem me encantei, pela criatividade,

pela coragem, pelo desprendimento, considerando que o mesmo abriu

mão do direito autoral da bandeira. Mais ainda, descobri que ele morreu

há pouco. Foi inevitável, eu já estava completamente encantada, eu não

consegui conter o meu desejo de prestar-lhe uma pequena homenagem

através da minha arte, a fotografia.

Desde sua criação em 1978, a bandeira do arco-íris se transformou em

um símbolo em todo o mundo a favor dos direitos dos homossexuais,

transexuais e bissexuais e este ano completará 40 anos. Baker, com sua

criatividade e destreza para costurar à mão, substituiu o triângulo rosa

existente até então, um símbolo de opressão da classificação nazista às

pessoas LGBT na Segunda Guerra Mundial.

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foto síntese

Pontes que nos conduzem

TEXTO E FOTO Olavo Rosa

Tenho certo fascínio por esta ponte, pois, a 12 de Setembro, mais conhecida como

Ponte Giratória, é uma antiga ponte rodoferroviária do Recife e tinha a sua estrutura

central montada sobre uma coluna pivotante, que servia para liberar a navegação no Rio

Capibaribe, onde, a razão de sua construção era justamente deixar passar as embarcações

veleiras e, ao mesmo tempo, permitir a ligação do bairro de São José e o do Recife, na foz

do Rio Capibaribe. Sua construção começou em 1920 e a ponte foi inaugurada em 5 de

dezembro de 1923, funcionando até a década de 1970, quando foi desmontada por ter suas

engrenagens danificadas, não comportar mais o volume viário sobre ela e não haver mais

movimento de embarcações. No seu lugar, foi construída uma ponte fixa, de concreto, que

recebeu o nome de Ponte 12 de setembro. Esta foto foi tirada no dia 04 de Março de 2018

com a finalidade de subsidiar uma exposição no Museu do Recife. Foi utilizado um Drone

Phantom 4 com lente 23 mm.

DIREITO AUTORAL E

DIREITO À IMAGEM

Direito Autoral

Direitos Morais e

Patrimoniais do

Fotógrafo

TEXTO Julianna Nascimento Torezani¹

A Lei de Direito Autoral (Lei nº 9.610/1998) aborda

a propriedade intelectual e indica os direitos que os

autores têm de suas obras. É essencial distinguir que

há dois conceitos importantes sobre tais direitos:

direito moral e direito patrimonial.

O direito moral trata da criação da obra e sua autoria;

é um direito que não pode ser transferido para outro

indivíduo. O Capítulo II da lei expõe sobre tal direito,

no Artigo 25 indica que cabe ao diretor os direitos

morais de obras audiovisuais. O Artigo 24 deixa claro

quais são os direitos morais do autor:

I - o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da

obra;

II - o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal

convencional indicado ou anunciado, como sendo o

do autor [...];

III - o de conservar a obra inédita;

IV - o de assegurar a integridade da obra, opondose

a quaisquer modificações ou à prática de atos que,

de qualquer forma, possam prejudicá-lo ou o atingir,

como autor, em sua reputação ou honra;

V - o de modificar a obra, antes ou depois de utilizada;

VI - o de retirar de circulação a obra ou de suspender

qualquer forma de utilização já autorizada, quando

a circulação ou utilização implicarem afronta à sua

reputação e imagem [...]

O direito patrimonial, por sua vez, trata da obra

enquanto um bem, um objeto e este, portanto, pode

ser transferido a outro indivíduo. Para tal ato requer

negociação entre as partes e um termo que indique

cessão ou licenciamento, no que trata ao uso, exibição,

publicação e comercialização das obras. Para as obras

audiovisuais e fotográficas este direito é mantido

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coluna

por 70 anos após a divulgação da criação. Após

esse período, as obras ficam em domínio público e

podem ser utilizadas sem precisar de autorização dos

autores, mas deve manter sempre os créditos autorais

(Artigo 44). O Capítulo III indica quais são os

direitos patrimoniais. Já no Artigo 28 expõe que cabe

ao autor direito exclusivo de utilizar, fruir e dispor de

suas obras e este pode colocar suas obras à disposição

das pessoas de forma gratuita pelo tempo e local que

desejar (Artigo 30). Se uma obra foi criada por várias

pessoas deve observar o que indica o Artigo 32 para

não ter divergência de uso. Para que uma obra seja

utilizada requer uma autorização prévia e expressa do

autor indicando utilização e tempo, conforme indica

o Artigo 29:

I - a reprodução parcial ou integral;

II - a edição;

III - a adaptação, o arranjo musical e quaisquer outras

transformações;

IV - a tradução para qualquer idioma;

V - a inclusão em fonograma ou produção audiovisual;

VI - a distribuição, quando não intrínseca ao contrato

firmado pelo autor com terceiros para uso ou

exploração da obra;

VII - a distribuição para oferta de obras ou produções

mediante cabo, fibra ótica, satélite, ondas ou qualquer

outro sistema que permita ao usuário realizar a

seleção da obra ou produção para percebê-la [...].

O Artigo 38 é importante para os fotógrafos quando

indica que “o autor tem o direito, irrenunciável e

inalienável, de perceber, no mínimo, cinco por cento

sobre o aumento do preço eventualmente verificável

em cada revenda de obra de arte ou manuscrito,

sendo originais, que houver alienado”. Assim, cada

vez que uma fotografia única for vendida o fotógrafo

deve receber 5% do valor da venda.

Caso haja infrações a esta lei, os Artigos 102 a 110

tratam das sanções civis, além disso deve consultar

o Artigo 184 do Código Penal que aborda os crimes

contra a propriedade intelectual. Na Edição 8 desta

revista tratamos sobre o assunto.

Mais informações: Lei de Direitos Autorais: http://

www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9610.htm;

Código Penal: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/

decreto-lei/Del2848compilado.htm

¹Professora dos cursos de Fotografia e Jogos Digitais da

UNICAP. Doutoranda em Comunicação pela UFPE.

Mestre em Cultura e Turismo e Bacharel em Comunicação

Social pela UESC. E-mail: juliannatorezani@yahoo.com.br.


eportagem

bruto, de que o diretor interferia na realidade.

Ao final do filme, o diretor conclui que esse distanciamento emocional, materializado pelo

espaço entre a câmera e Santiago, não foi por acaso, mas motivado pela ambiguidade que

os unia. Santiago não era apenas o personagem e ele não era tão somente o documentarista.

Subsistia, no filme, a relação que se estabelecera na casa da Gávea, do filho do dono da casa

Santiago

com o mordomo.

E muito do desconforto de Santiago é explicado pelo material bruto que não estaria no

TEXTO Juliana Galvão

filme se não se tratasse de um processo metalinguístico. Nas palavras do cineasta Herzog,

“muitas vezes a beleza de um plano está naquilo que é resto, no que acontece fortuitamente

antes ou depois da ação”. E a relação entre os dois personagens principais é explorada nesses

Santiago é um documentário dirigido por João Moreira Salles, cujas

momentos, em que João conduz a entrevista com rigor e pressa. Advêm daí os momentos

filmagens se deram em 1992. A princípio, o filme era sobre Santiago,

mais autênticos, nos quais Salles trata o entrevistado como se fosse um ator e, de outro

o mordomo da família, que trabalhou durante trinta anos na casa

lado, Santiago, melancólico, tenta, sem sucesso, falar de coisas que são significativas para

de seus pais, na Gávea, no Rio de Janeiro. Durante a montagem,

ele, mas que parece não terem importância para o diretor, que precisará de treze anos para

entretanto, João conclui que, as ideias eram boas “no papel”, mas na

redescobri-las.

ilha de edição não funcionavam, e interrompe o projeto por treze

anos. Quando o retoma, altera o argumento do filme, que passa a ser

não só sobre a vida de Santiago, mas sobre suas próprias memórias,

além de uma reflexão sobre a obra fílmica.

Assim, Santiago se apresenta como um documentário metalinguístico,

que reflete sobre a linguagem documental. Sua narrativa é construída

alternando-se depoimentos de Santiago e os questionamentos e

conclusões do diretor sobre o material filmado, pelo que acaba por se

tornar uma catarse para João.

O recurso de narração é utilizado, feito em “voice-over” pelo irmão

do diretor, Fernando Moreira Salles. Como a fala de Santiago, por si

só, não daria conta do conteúdo metalinguístico introduzido quando

de sua montagem, o diretor invoca um narrador, que fala em primeira

pessoa e conduz o espectador pelo filme.

João Salles faz uma autocrítica sobre a maneira como conduziu as

filmagens e também coloca em xeque as imagens que são exibidas na

tela. Tanto que confessa “é difícil saber até onde íamos em busca do

quadro perfeito, da fala perfeita”, pelo que, “tudo deve ser visto com

uma certa desconfiança”.

Ao apresentar, em sequência, vários dos planos feitos da piscina

da casa da Gávea, por exemplo, ele nos diz que no terceiro plano,

uma folha cai na piscina e que lhe pareceu “uma boa coincidência”.

Logo no take seguinte, entretanto, duas outras folhas caem no meio

da piscina, exatamente no mesmo lugar. Em nenhum momento ele

diz que as folhas entraram em cena de uma forma não natural, mas,

através de um texto de sutil ironia, fica-se com a impressão de que as

folhas foram deliberadamente jogadas no centro da piscina.

Depois dessa, seguem-se outras cenas em que igualmente são

mostrados vários takes, com algumas alterações de posicionamento

de objeto. De modo geral, apenas os melhores são incluídos em um

filme. Em Santiago, entretanto, as sobras também ganham relevância

na montagem, porque é preciso ilustrar a tese de que as imagens que

ele produziu podem não ter sido o registro de um real em estado

Frame do filme Santiago

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eportagem

Marlene, Colette e Naomi na rua, 1973 (Nan Goldin).

Nan Goldin: Balada,

Sexo e Dependência

Nan Goldin

TEXTO Emmanuely Ribeiro

“As únicas pessoas que fotografo são as pessoas que amo.”

A frase foi dita por Nan Goldin em entrevista cedida para o documentário, “The Genius of Photography”,

dirigido por Tim Kirby, e revela muito, se não tudo, o que permeia o seu trabalho.

Nan nasceu em Washington, D.C., em 1953, criada por uma família conservadora, passou parte

da vida em Boston antes de mudar-se para Nova York, em 1978. Ainda muito jovem, aos 11

anos, viveu de perto a morte de sua irmã mais velha que havia suicidado. É um momento forte

e de reflexões na vida de Nan que percebe na família a negação ao fato, quando para ela havia

ali uma escolha. Era muito próxima à irmã e a entendia. Baseado nisso, em 2003, Nan cria “Irmãs,

santas e sibilas”, uma projeção que aborda o suicídio da irmã e sua luta particular contra

a depressão.

No final da década de sessenta ganhou uma câmera e começou a documentar sua própria vida.

Nan sempre fotografou aquilo que a ela era próximo, relatos cotidianos e um olhar testemunhal,

voyeurístico, dos grupos dos quais participava. Cresceu com o movimento feminista,

viveu em comunidades hippies e morou por muitos anos com drags, sendo estas personagens

frequentes na vida e no trabalho da artista. Segundo Nan, foi o que formou sua identidade. Para

ela, drags não eram homens nem mulheres, eram uma espécie própria. Diane Arbus também

retratou drag queens, travestis, mas Nan a critica dizendo ver nas suas fotografias uma tentativa

de mostrar quem ela é, a busca de identidade. O trabalho seria sobre ela mesma, experimentando

a pele do outro.

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A partir dos anos setenta, Nan seguiu imersa com sua fotografia nesse universo noturno, entre homossexuais,

prostitutas, travestis, dependentes químicos, ela mesma já passou por reabilitação e afirmou

que aquela geração tinha uma relação romântica com a heroína, os junkies. Entre 1971 e 1985, criou

o que seria o retrato dessa geração, a obra que sintetiza a época pré-aids, The ballad of sexual dependency.

Em entrevista à revista Zum, Nan contou que ela e seus amigos deram risada quando ouviram

falar pela primeira vez sobre o novo câncer gay. Muitos desses amigos já morreram ou são soropositivos.

O mundo assistia à guerra do Vietnã, as desilusões americanas com seu sentimento pátrio, o movimento

hippie pregando a paz e o amor, e a iminência da queda do muro de Berlim. Para Rouillé, neste

intervalo entre o Vietnã e Berlim o mundo oscila: “Uma cultura modernista de exclusão de oposição

caracterizada por uma mística da pureza, pela recusa à diferença, cede lugar a uma cultura aberta à

alteridade, à diferença, ao consenso. Desaba a hegemonia do exclusivo em prol de uma postura mais

tolerante, mais receptiva ao outro, ao diferente” (2009, p. 354).

Foi um período de grandes acontecimentos e mudanças também no mundo da arte: “É exatamente a

remoção da trava modernista que permite aos artistas abrir o cenário cultural e artístico para os excluídos

do modernismo: as mulheres, a classe operária, as minorias sexuais e raciais oprimidas, etc”

(ROUILLÉ, 2009, p. 355).

Essas minorias são retratadas por Nan com uma proximidade que leva o observador ao local da cena.

Percebe-se a ideia do espontâneo e do instantâneo, um instantâneo que se difere de Bresson e seu

conceito de instante decisivo. Enquanto este fotografa aquilo que provavelmente não se repetirá, Nan

captura aquilo que é possível haver repetições. É o banal, diário, irrisório, privado, é o cotidiano em

seus pequenos gestos, sem preciosismos técnicos e formais, a própria Nan afirma ser “a pessoa menos

técnica do mundo”. Ela não tem formação em fotografia, tem noções de cor e enquadramento, ademais,

tudo o que sabe é “autodidata e instintivo”.

Picnic on the Esplanade, Boston, 1973 (Nan Goldin).

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Rise and Monty Kissing, 1980 (Nan Goldin).

Este trabalho foi comparado a Tulsa, realizado por Larry Clark, em 1971.

Nan reconhece a mudança que essa obra gerou em seu universo particular,

mas não a considera como uma influência propriamente dita. Tulsa foi

uma permissão para que ela fizesse um trabalho mais pessoal. Larry também

fotografou aquilo que fazia parte da sua vida, suas imagens são fortes e

profundas, provocam ojeriza, um insulto ao conservadorismo. “Ele atribuiu

um novo gênero, grosseiro, coisa nojenta que ninguém quer saber”, afirmou

Duane Michals. Para Nan, a relação de Larry com suas personagens não

poderia ser comparada com a relação que ela tinha com as suas.

A fotografia contemporânea é tomada por subjetivismos, e a poética de Nan

está na intimidade que tem com seus amigos/personagens/amigos. Gira em

torno de um universo que ela conhece bem. Ela está num lugar de ruptura

entre o público e o privado. Suas fotografias vão além da denúncia de uma

época, se é que existe algum propósito nesse sentido. The ballad of sexual

dependency é uma crônica melancólica e visceral de um mundo marginalizado,

permeado pela solidão humana, seja ela a dois ou a sós. Segundo Nan,

a fotografia já a salvou muitas vezes. Olhar pra si com o olho roxo a impediu

de voltar para seu amante, porque a memória não pôde ser obscurecida pela

nostalgia.

A fotografia de Nan é carregada de humanidade

e põe em xeque nossa relação com o privado.

O que é permissível mostrar? Quais os

limites? O seu trabalho foi transgressor à época,

porém hoje talvez não seria tanto, visto que

essa estética do instantâneo é muito explorada

em dispositivos do ciberespaço, como o instagram

e o snapchat.

The ballad of sexual dependency provoca os

sentidos tanto pela forma – luz quente, flash

duro, uma produção aparentemente pouco

pensada - quanto pelo conteúdo, a juventude

embriagada, sexual, drogada e abatida; mulheres

com hematomas, que nos faz pensar à que

condições são colocadas e como são subjulgadas,

situação que até hoje é posta em questão.

Autorretratos que doem por aflorar este sentimento

de empatia. Ela quer estar presente no

momento e retê-lo para posteridade, seja qual

for o sentido que queira dar a isso a posteriori.

The ballad é melancólico, ele grita angústias,

fala sobre solidão. É a juventude em subterfúgio.

The Hug, 1980 (Nan Goldin).

Nan and Brian in bed, New York, 1983 (Nan Goldin).

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Nan Goldin

Nan Goldin

Nan Goldin

REFERÊNCIAS

ROUILLÉ, André. A fotografia: entre o documento e arte contemporânea. Brasil. São

Paulo: Editora SENAC, 2009.

FILHO, O. G. R; VASCONCELOS, L. S. Da porta para dentro - Nan Goldin e Cia foto e

as poéticas da intimidade na fotografia contemporânea. In: Em Questão, Porto Alegre,

v.18, n. 1, p. 229-245, 2012.

KIRBY, Tim. The Genius of Photography. Inglaterra, 2007

LARRATT-SMITH, Philip. Embalos noturnos. Zum, São Paulo, Instituto Moreira Salles,

v. 8, 2015.

THE GUARDIAN. Nan Goldin: the fabulous drag queens who launched my career

– in pictures. Disponível em: . Acesso em: 26 ago. 2017

STANDER, Oriane. Chasing the dragon. Disponível em: . Acesso em: 26

ago.2017

MOMA. Nan Goldin. Disponível em: . Acesso em: 26 ago.2017

JOHNSON, Ken. Bleak Reality in Nan Goldin’s ‘The Ballad of Sexual Dependency’.

Disponível em: .Acesso em: 26 ago.2017

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ensaio

Um passeio pela praia de

Merepe

TEXTO E FOTOS Renata Victor

O verão e as praias do Nordeste brasileiro nos convidam a fotografar.

Diante desse convite, resolvi ir passear pela praia de Merepe, em

Porto de Galinhas, com uma câmera compacta subaquática com a

qual produzi este prazeroso ensaio.

As fotos do ensaio "Um passeio pela praia de

Merepe" foram captadas através da câmera

compacta subaquática da LUMIX, mega D.I.S.

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eportagem

Fluxo narrativo acelerado como

forma de sobrevivência da

sétima arte

TEXTO Filipe Falcão

Não é de hoje que o cinema corre risco de perder

público para uma nova forma de transmitir

conteúdo. Costuma-se falar que os serviços de

streaming diminuíram a quantidade de pessoas

que frequentam salas de cinema. A pirataria

também parece subtrair destes números.

Basta uma rápida navegada pela internet para

conseguirmos baixar qualquer filme que acabou

de estrear nas salas de cinema mundo afora.

Em alguns casos torna-se possível conseguir

o título via download antes mesmo da estreia.

Estamos diante da morte do cinema? Alguns

nem chegam a fazer este questionamento, mas

já o trazem como uma afirmação.

Ao olharmos para o processo de evolução da

sétima arte, facilmente vamos encontrar um

caminho nem sempre feito apenas de sucesso,

clássicos, astros, estrelas e salas lotadas, mas

também com o que alguns pesquisadores da

área denominam de quase mortes do cinema.

Ao voltarmos, por exemplo, para a década de

1980, a popularização da televisão e do próprio

videocassete foram responsáveis por uma grave

crise na indústria cinematográfica.

Uma das principais quase mortes do cinema

aconteceu em 31 de setembro de 1983, quando

o controle remoto espalhou-se pelas salas de

estar. O cinema deveria, daquele momento

em diante, tornar-se uma arte interativa na

qual poderíamos escolher avançar cenas e

pausar quando quiséssemos. Não foi isso que

aconteceu.

Os pesquisadores André Gaudreault e Philippe

Marion , autores do livro O fim do cinema? Uma

mídia em crise na era digital, lançado em 2013,

apresentam as principais quase mortes da sétima

arte. A primeira teria sido na hora do seu nascimento,

quando os próprios irmãos Lumiere teriam

dito que o cinema seria uma invenção sem

futuro.

A segunda aconteceu com a institucionalização

de um modelo de narrativa em 1907 que deixava

o que havia sido feito anteriormente como velho

e ultrapassado. O terceiro fim ocorreu em 1910

com a morte do cinematógrafo. A quarta veio

com o surgimento do cinema sonoro. A quinta foi

justamente com o aparecimento da televisão e a

sexta aconteceu com o lançamento do aparelho de

videocassete. A sétima veio então em 1983 com a

invenção do controle remoto. É importante pensar

que esta ideia de morte não deve ser aplicada

apenas à produção fílmica, mas sim de forma

mais direta ao espaço e formato hegemônico de

exibição.

Além dos serviços de streaming e dos problemas

de pirataria, novas formas para consumirmos

produtos audiovisuais também parecem afastar

as pessoas das seculares salas escuras de projeção.

Podemos, por exemplo, assistir aos filmes nos

nossos computadores pessoais e dispositivos móveis

em qualquer lugar e na hora que quisermos.

Tudo parece mais fácil.

Já ir ao cinema significa uma série de ações como

sair de casa,

ir ao multiplex mais próximo, comprar ingresso,

pagar estacionamento, comprar alguma refeição

para antes ou depois do filme e principalmente

desembolsar dinheiro para o próprio ingresso.

Na volta para casa, se estivermos em uma cidade

grande, ainda temos que nos preocupar com

a violência. Todos estes fatores acabam por afastar

parte do público que pode ter acesso ao filme

no conforto e segurança do lar e por um preço

bem mais em conta, caso assine algum serviço de

streaming, ou até mesmo de graça ao optar pela

pirataria.

De volta ao ponto inicial deste texto, estamos então

novamente diante de mais uma quase morte

do cinema? E será que desta vez vamos finalmente

testemunhar o óbito? O cinema pode até morrer

algum dia, mas ao que parece, ele não vai morrer

sem lutar. Quem ainda frequenta cinema deve ter

percebido como os filmes estão mais acelerados.

Esta ideia de velocidade na sétima arte dialoga

com o fluxo narrativo da trama e significa formas

de tornar o que é visto em tela mais convidativo

aos olhos.

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Vamos exemplificar com o grande ciclo atual de

produções que fatura alto nas bilheterias: os filmes

de super-heróis que são marcados por um

excesso na forma da história ser contada, do ponto

de vista narrativo ou estético. Aliás, a palavra

excesso parece caminhar lado a lado com a produção

contemporânea de blockbusters e tende a

dialogar inicialmente com a questão da aceleração

do fluxo narrativo fílmico presente nos dias

atuais. Este fenômeno tem ligação direta com o

que o pesquisador Gilles Lipovetsky batizou, em

2009, de hipercinema do século XXI. Trata-se do

cinema observado através de películas que fazem

vibrar nas cores, no som, nos ritmos, na velocidade.

De volta aos super-heróis, é bastante claro perceber

como a câmera está quase sempre em movimento,

os cortes acontecem a cada dois ou três

segundos, as próprias tramas são bastante fragmentadas

com diversos núcleos de personagens e

até sem uma divisão clara em quem são os protagonistas

e os coadjuvantes. Até a quantidade de

diálogos parece ter aumentado. E todo este excesso

é orquestrado pela capacidade de oferecer uma

experiência sensorial com ondas sonoras que deixam

as modernas caixas de som para colidirem

com nossos corpos. O som faz vibrar e a imagem

é frenética.

É claro que Lipovetsky vai destacar que esta não

é a primeira vez que o cinema foi revolucionário

na sua forma de produzir filmes. Na verdade,

o próprio processo de evolução da sétima arte

aconteceu através de uma série de transformações

como a invenção do cinema falado, a passagem do

preto-e-branco para a cor, o advento da tela larga,

o surgimento do 3D, entre diversos outros processos.

A diferença parece ser que pela primeira

vez este processo evolutivo atinge todos os domínios.

Tanto a produção, como a difusão, quanto o

consumo como a estética dos filmes. Sabemos que

estes mesmos filmes de super-heróis podem ser

vistos em computadores e dispositivos móveis. A

diferença está na experiência diante da escolha de

onde consumir o mesmo.

Vamos então deixar uma provocação sobre assistirmos

a qualquer filme blockbuster seja em uma

sala de cinema ou no tablet.

Vamos entender ao filme assistindo nestes dois

formatos? Obviamente que sim. Mas agora vamos

pensar na questão da experiência. Onde provavelmente

teremos uma imersão maior será ainda na

sala de cinema diante da tela grande. O excesso

é percebido também no espaço de exibição

e de velhas as salas não têm nada. O excesso cinematográfico

proposto por Lipovetsky dialoga

com os próprios espaços de exibição, neste caso as

salas de cinema. Podemos destacar, por exemplo,

as salas multiplex que se modernizaram com telas

cada vez maiores e também a volta do filme em

3D, onde a ação pula diante do público. A lógica

de consumo fílmico contemporâneo tem no multiplex

a sua principal forma de exibição. Não apenas

por se tratar do tipo de sala de cinema mais

popular em diversos países, mas por representar

um espaço em constante adequação tecnológica

para tornar a experiência cinematográfica cada

vez mais intensa.

Os realizadores sabem disso e tiram proveito desta

nova realidade. Não por acaso temos um grande

número de filmes lançados em 3D.

O antigo efeito que nas décadas de 1950 e 1980 se

destacam por atirar objetos na tela agora trabalham

com a noção de profundidade e na construção

de cenas cada vez mais realistas.

A questão do áudio também se tornou de

grande importância tanto nos filmes como nas

próprias salas através de sistemas e caixas de som

cada vez mais potentes e “inteligentes”, capazes de

criar ondas sonoras que dialogam com a ação vista

na tela. De acordo com Jeff Smith (2013), e seu

trabalho sobre o som cinematográfico no século

XXI, o cinema contemporâneo de Hollywood é

definido por produções agitadas e barulhentas

para estimular sensações e não apenas o intelecto.

Mas este processo não é definitivo. Aliás, nada no

cinema parece ser. E evolução responde como

palavra de ordem que tem garantido o cinema

a continuar vivo. Gaudreault e Marion nos lembram

que 35 anos de cinema mudo desapareceram

e que raramente há alguém para assistir estas

produções.

A dupla afirma que isto acontecerá da mesma forma

com o resto do cinema. Somos obrigados a

confrontar esse novo meio de comunicação, um

cinema repleto de excessos que fará, ou já o faz,

com que a Guerra nas Estrelas, que revolucionou

a sétima arte no final da década de 1970, pareça

com uma sessão de leitura à luz de vela no século

XVI.

Desta forma, o cinema parece ter encontrado a

sua fórmula para sobreviver a mais uma morte.

Se o público consegue assistir aos filmes em casa

e sem pagar, as produções contemporâneas parecem

querer justificar todo o processo de sair de

casa, ir para o multiplex mais próximo e pagar

pelo ingresso com a explicação de que não se trata

apenas de assistir a um filme. Isto pode ser feito

em casa ou até mesmo no ônibus indo de casa

para o trabalho.

O que pagamos agora é pela experiência de estarmos

diante de um filme com muitos cortes, muitos

movimentos de câmera, projetado em 3D e

com som digital. O excesso está na tela e ele salta

para um público que quer algo além de simplesmente

ver um filme. Pagamos pela experiência.

Com esta fórmula, o cinema parece sobreviver a

mais uma quase morte... até que surja a próxima

ameaça.

FOTOS material oficial de divulgação dos filmes.

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ensaio

Clique aqui para assistir ao vídeo.

Retratos, Vida & Poesia

TEXTO e FOTOS Douglas Fagner

O projeto "Retratos, Vida & Poesia" amadureceu após a disciplina de linguagem fotográfica 2,

com o professor João Guilherme, que nos trouxe a proposta de executarmos um ensaio fotográfico

com base na Revolução Pernambucana de 1817. Escolhi retratar a força das mulheres

guerreiras da cidade de Goiana, no litoral norte pernambucano, especificamente as mulheres

do distrito de Tejucupapo, mulheres que expulsaram os holandeses, marisqueiras cuja profissão

resiste até hoje.

Sou amigo de uma família que mora na Ilha de Itamaracá, ela tem uma relação muito íntima

com o mangue, o mar e os recursos naturais da ilha. Convidei-a a principio para esse projeto

"heroínas de hoje" onde pude fotografar e filmar a relação da mulher forte guerreira e mãe, que

ajuda no sustento da casa e que ainda cuida do lar e dos filhos. Após esse processo me deparei

com duas cadeiras fantásticas; a de curadoria e a de captação de vídeo com DSLR. Então pensei

em lincar as duas com um único projeto, assim nasceu o "Retratos, vida & poesia".

Este trabalho narra a simplicidade da vida de uma família residente da Ilha de Itamaracá, no

bairro de Jaguaribe próximo à área de mangue, no litoral norte pernambucano. A minha aproximação

desta família se deu ainda na juventude, são mais de 15 anos de amizade e companheirismo.

As pessoas retratadas neste trabalho são pessoas reais não apenas personagens

de uma história, uma família composta por sete membros, dentre os quais Dângelo Dias e

Virginia França formam o casal e seus cinco filhos compõem esta linda família. Sendo duas

meninas, Maria Clara e a Naly Eduarda e três meninos, Ângelo Gabriel, Darlan Miguel e João

Daniel, com idades entre seis e 15 anos.

O projeto fotográfico buscou imprimir nas imagens captadas a alma das pessoas, onde é nítida

a simbiose com o meio ambiente, numa revelação da sensibilidade que pude ter.

O foco do trabalho consistiu em criar uma narrativa do dia a dia de pessoas simples e sua forte

relação com a natureza. A ação investigativa se deu para observarmos quão intensa é a forma

como essas pessoas se relacionam com os elementos naturais: mangue, rio, animais, vegetais,

chuva, sol, lama, etc., que de tão intrínseca, se torna impossível separar as pessoas dos aspectos

naturais.

Este trabalho foi muito importante porque me colocou dentro do universo vivido pelas pessoas

integrantes da ação investigativa. Proporcionou-me um novo olhar sobre a convivência com

a natureza, corroborando com a ideia de que viver de forma simples em pleno século XXI, é

perfeitamente possível.

Processo Criativo

O processo de criação do projeto “Retratos, Vida & Poesia” uniu disciplinas

de diferentes semestres do curso de Fotografia, Linguagem fotográfica

2 e Montagem de portfólio e curadoria. Para a evolução do

desenvolvimento de uma temática dentro de um processo criativo, é

relevante que diversas vertentes sejam abordadas. Nesse caso, ocorreu

o desenvolvimento do projeto de forma mais ampla no primeiro momento

e, na sequência, trabalhando os aspectos curatoriais, o autor

pode formatar e refletir mais precisamente sobre a mensagem e o conteúdo

do projeto. Selecionar as imagens que iriam compor a narrativa,

discutir a ligação das imagens para que o leitor pudesse compreender

de fato a temática do projeto foram atividades que fizeram parte das

etapas de desenvolvimento. Após isso, foi analisado quais seriam os

melhores suportes para apresentação do produto final, sendo escolhido

um fotolivro e a produção de material audiovisual.

TEXTO Germana Soares

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eportagem

Programa de Voluntariado

Universitário - VOU

TEXTO E FOTOS Icaro Benjamin

Sou Icaro Benjamin, aluno do Terceiro Módulo do curso

de Fotografia e compartilho a minha vivência no Programa

de Voluntariado Universitário Unicap- VOU. Do dia 13 a

20 de janeiro de 2018 na Aldeia Tramataia- Município de

Marcação-PB.

Penso que o meu voluntariado já começou quando recebi

o e-mail com as informações do programa e propostas de

locais. Existiam ótimas oportunidades de realidades que

contrastavam com o meu dia a dia. No e-mail estavam discriminadas

as atividades desenvolvidas em grupo, já nos

respectivos locais. Então não existia uma programação do

que seria feito, o que me deixou bastante receoso.

O VOU foi a minha primeira experiência como voluntariado

consciente (o que é ser consciente?), então me questionei

muito sobre o que eu poderia oferecer de valor e até

mesmo se possuía algo “digno” para compartilhar. Iniciei

então uma jornada profunda de autoanálise. Inseguranças,

controle, expectativas... Bem, eu precisava soltar algumas

amarras. Me entregar foi a conclusão: -Vai com incerteza,

vai com medo, Vai, Vou! FUI!

Chegando ao local de encontro, em João Pessoa-PB, antes

de ir até a aldeia, conheci os demais participantes, um total

de sete alunos de diversas áreas: gente de Direito, Publicidade,

Licenciatura em Física, Enfermagem, História etc.

No local de encontro recebemos uma calorosa integração

junto com o martelo da reflexão: momento de fortalecemos

os objetivos do voluntariado, da entrega, respeito e

doação. A música Trem bala- Ana Vilela foi a trilha desse

momento. O bom humor e a vontade de que o voluntariado

desse certo, na minha humilde ótica, eram ingredientes

que estávamos compartilhando de forma unânime.

Após algumas horas de karaokê na van, chegamos. Pela

janela, eu já analisava a aldeia até chegarmos ao nosso alojamento.

Não encontrei ocas. Ficamos dentro da escola da

aldeia. À primeira vista, a estrutura das casas e ruas me

lembrava áreas rurais, pouquíssimas cercas nas casas e, as

que tinham, eram com estacas de madeiras, casas de tijolos,

pista de barro ou pequenas partes da rua cobertas de

conchas de mariscos.

Umas das coisas que me surpreenderam era o programa

de Projeto de Vida do VOU, aplicados diariamente conosco.

Nesse programa, gradativamente explorávamos

aspectos íntimos de nossa história em rodas noturnas de

colchões e travesseiros. Umas das grandes lições que levo

desses encontros é que, ao partilhar as nossas limitações

nos tornamos mais humanos. A diferença se transforma

em diversidade e o sentimento de igualdade é aflorado.

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eportagem

Formatura da primeira turma

do Ganhando Asas Através da

Comunicação e da Arte

TEXTO Marcela Pedrosa

O curso de extensão para jovens com síndrome de down e deficiência intelectual Ganhando

Asas Através da Comunicação e da Arte concluiu em 20 de dezembro o primeiro módulo

do projeto. Os 14 jovens que integraram a turma, com seus familiares e toda equipe técnica,

celebraram a conclusão do ciclo no salão receptivo da Universidade Católica de Pernambuco

(Unicap), onde também estavam expostos trabalhos feitos pelos alunos, além de fotografias na

madeira produzidas pelo artista Jonas Moraes.

A coordenadora do projeto e do curso de Fotografia, Renata Victor, iniciou a cerimônia

manifestando sua satisfação com o resultado de quatro meses de muito aprendizado e experiências

trocadas entre os alunos, professores, voluntários e toda equipe que colaborou para o

projeto ser bem-sucedido. “Hoje é um dia de alegria para todos nós, porque é a conclusão da

primeira turma do Ganhando Asas Através da Comunicação e da Arte. Estamos comemorando

o sucesso da turma, tendo em vista o belo resultado que os alunos apresentam como podemos

comprovar nessa pequena mostra”, disse Renata.

Durante a cerimônia de formatura, foram apresentados os programas de rádio produzidos

pelos formandos nas aulas de Webrádio, em que abordaram assuntos temáticos pertinentes

ao dia a dia, como namoro, trabalho e lazer. As lágrimas ficaram por conta do documentário

produzido pela professora Janaína Calazans, que mostrou momentos marcantes do curso,

FOTO Adelson Alves

além do depoimento dos estudantes sobre a experiência

de fazer parte do Ganhando Asas Através da Comunicação

e da Arte, provocando muita emoção entre os já

considerados “amigos para sempre” que permaneceram

abraçados por alguns minutos.

A ocasião se tornou ainda mais memorável no momento

em que os alunos fizeram uma apresentação de

dança, orientada pelo professor Cristiano Nascimento da

disciplina de ‘Som, Cor e Movimento, utilizando instrumentos

tocados também pelos próprios jovens. Em seguida,

os presentes aplaudiram os formandos durante a

entrega dos certificados, momento de bastante orgulho

e satisfação para todos os envolvidos nesse projeto que

uniu profissionais e jovens afetuosos, com muita energia

e disposição.

O Ganhando Asas Através da Comunicação e da Arte

surgiu após uma iniciativa da Universidade Católica de

Pernambuco e as empresas apoiadoras EBrasil e Regra3.

Com uma formação interdisciplinar, o curso de extensão foi iniciado no dia 15 de agosto de

2017 e os alunos tiveram aulas das disciplinas de ‘’Fotografia e Video’’, ‘’Jogos Digitais’’, ‘’Linguagem

Publicitária’’, ‘’Som, Cor e Movimento’’ e ‘’Produção de Webrádio’’.

Com o auxílio da professora Renata Victor, na disciplina de Fotografia, os estudantes produziram

imagens utilizando a técnica de pinhole, que consiste na fotografia com latas, uma experiência

inédita e bastante divertida para eles. Na visita à Praça da República e ao Palácio das

Princesas, eles vivenciaram o processo de captação e adquiriram conhecimento das regras de

estética, apresentando muita sensibilidade e encantamento pela imagem como instrumento de

comunicação e apreciação da natureza, da arquitetura e das figuras humanas.

No módulo de Vídeo, com o professor Filipe Falcão, os alunos puderam desenvolver os próprios

produtos audiovisuais, assinando um vídeo sobre o Dia da Árvore após a visita ao palácio.

(vimeo.com/user74975874). Durante os quatro meses, nas demais disciplinas, os estudantes

também elaboraram peças publicitárias, trabalharam a criatividade com atividades envolvendo

música e pinturas, construíram conhecimento através de jogos analógicos e digitais, além de

expressarem a voz de forma autônoma e criativa.

Segundo módulo

Em 20 de fevereiro, o Ganhando Asas através da Comunicação e da Arte deu início à segunda

turma e com novas disciplinas, como Desenho, com o professor Humberto Montenegro,

Produção em Telejornalismo, com a professora Aline Grego e Teatro, com o professor Vicente

Monteiro, além de manter as disciplinas de Fotografia e Vídeo, com a professora Renata Victor

e o professor Filipe Falcão, Jogos Digitais, com a professora Juliana Miranda, e Produção de

Webrádio, com a professora Andrea Trigueiro. Os alunos são acompanhados com a psicopedagoga

Flávia Ferraz e têm o auxílio de Larissa Alves Martins, bem como alunos voluntários

dos cursos de Fotografia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Jogos Digitais, Jornalismo, Medicina,

Psicologia e Publicidade e Propaganda.

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ensaio

Diante do olhar dela

TEXTO e FOTOS Emmanuely Ribeiro

Este ensaio foi realizado para a disciplina “Poéticas da fotografia”, com orientação da professora

Flora Assumpção, na especialização “Narrativas contemporâneas da fotografia e

do audiovisual”, mas não só. Há tempos penso em fotografar minha avó, este elo forte

entre passado e presente, mas faltava iniciativa. Este foi o momento. O ensaio, que na

realidade se configura em retratos, à princípio não tinha nome, não havia pensado sobre

isso, no entanto refletindo um pouco mais sobre essa experiência me vi “Diante do olhar

dela”, e assim o nomeei.

Minha vó tem Alzheimer e o nome dela é Delaice.

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fotossíntese

Fotografia e História

TEXTO Bethânia Correia

Vestido de Brasil

TEXTO e FOTO José Nunes

Foto: Praia de Boa Viagem em 25/09/1928

Acervo: Gustavo Sobral

Navegando o Rio Capibaribe no Recife e fotografando para um projeto intitulado

“A Vida Urbana do Capibaribe”, pude observar um pré-adolescente que estava às

margens, provavelmente em frente à sua casa (palafita) lavando as mãos. Quando apontei

minha câmera para registrar a cena, ele ergueu-se, fez o gesto imitando duas armas com os

braços cruzados e posou. Esse gesto é comum entre moradores de comunidades dominadas

pelo tráfico de drogas e significa que estão armados e prontos para a guerra. Além disso,

o garoto está vestido com uma bermuda estampada com várias bandeiras do Brasil. Uma

fotografia cheia de signos, que nos leva a pensar muito sobre nossas responsabilidades e

que traz à mostra uma cruel realidade vivida pelo nosso povo sem esperança, sem presente

e talvez sem futuro.

Luz guardada

Sempre que olho uma fotografia,

penso o que diriam os deuses do Olimpo

sobre uma invenção que desafia

o cruel Cronos.

Experimentar uma fotografia

é uma aventura fascinante, mágica.

É visitar o tempo

guardado.

Entre as quatro fotografias que recebi recentemente de um amigo, uma delas me tocou bastante.

A tirada na Praia de Boa Viagem em 1928 numa tarde de inicio de verão. Na cena quatro

pessoas, tão reais que posso escutar os sons. Duas reveladas pelas sombras na areia, no primeiro

plano um homem e ao fundo, uma aparição , um menino. O jovem de terno branco,

que posa sob a bela luz de setembro é elegante e completamente sedutor, mas é a presença do

menino que entra no mar e observa a cena, que rouba o meu olhar. É o puncto de que falava

Roland Barthes na sua Câmara Clara, é aquilo que “eu acrescento à fotografia e que no entanto,

já está lá”.

A fotografia é um presente. Do instante guardado pela câmara de Paulo Sobral, fruto da invenção

dos homens que paralisaram o tempo e das novas tecnologias que permitiram ao jovem

Gustavo me enviar os pixels digitais por email. Presente do tempo da delicadeza , das sombras

miúdas dos edifícios horizontais, que não roubavam da praia a luz de uma tarde de verão.

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O que eu estou fazendo?

TEXTO e FOTOS Elysangela Freitas

Eu sou Elysangela Freitas, fotógrafa e pesquisadora, concluí o Curso

Superior Tecnológico de Fotografia na UNICAP em 2014.2 e, em

2017, terminei a especialização As narrativas Contemporâneas da

Fotografia e do Audiovisual também na UNICAP. Sou servidora

do Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região – TRT/PE – desde

1993, e no momento atuo na área de Comunicação Social, como fotojornalista.

Além disso, executo projetos em fotografia, a exemplo

do Memória Viva do TRT-PE (@memoriavivatrtpe) e do curso Noções

básicas de fotografia para Oficiais de Justiça, em 2016.

Já participei de várias coletivas, dentre elas as exposições 24 olhares sobre o 5 pontas (2014), Outros

Olhares sobre Frei Caneca (2015) e Amar, [des]amar (2016), todas no Museu da Cidade do

Recife – Forte das Cinco Pontas – PE; Comportamento (2016), na Casa Fototech no Paraty em

Foco – RJ (2016) e Diversidade no Estúdio Papaya Imagens –SP (2016), e de uma individual

no do 26º Festival de Inverno de Garanhuns – FIG 2016 com a exposição Corpo em Movimento

– Corpo em Fluxo.

Juntamente com o professor Dario Brito ministrei a oficina Fotografia e Movimento: a dança

popular como linguagem imagética. A oficina integrou uma das ações do projeto Corpo

em Movimento - Corpo em Fluxo: projeto de pesquisa em produção fotográfica, aprovado no

Funcultura-PE - Edital 2015/16, para o desenvolvimento de um ensaio de fotos autorais sobre o

movimento do corpo e sua interseção com as linguagens da dança popular pernambucana e da

fotografia. Como resultado do projeto foi criado o site https://corpoemfluxo.wordpress.com/,

onde é possível acompanhar as experiências do processo de desenvolvimento dessa pesquisa,

desde a ideia inicial.

Em 2017 realizei a exposição O olhar dos ibêjis na Xambá. A mostra é formada por 40 fotografias,

das quais 30 são das crianças e adolescentes que participaram da oficina Iniciação à

fotografia: a poética da escrita da luz. As aulas tiveram duração de seis meses e ocorreram no

Centro Cultural Grupo Bongar – Nação Xambá, através do projeto Residência Artística em Fotografia:

Ponto de Cultura Um Quilombo Cultural - Jovens da Comunidade Xambá, aprovado

no Funcultura 2016/2017.

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Dica especial

O Retrato e o Tempo

Imagens da Coleção Francisco Rodrigues

TEXTO Julianna Torezani

Quando a fotografia foi desenvolvida na Europa

no século XIX, em pouco tempo as invenções

para capturar a luz se espalharam por

todo o mundo. Muitos dos navios que vinham

para o Brasil trouxeram tais novidades, entre

câmeras e substâncias químicas que permitiram

ter os primeiros registros em terras brasileiras.

Além de equipamentos e produtos,

vieram também muitos fotógrafos, chamados

de daguerreotipistas na época, por conta

das criações do francês Louis Jacques Mandé

Daguerre. Estes navios paravam no Recife, alguns

em Salvador e muitos seguiam para o Rio

de Janeiro. No Recife, os daguerreotipistas puderam,

além de fazer fotografias, montar estúdios

e ensinar brasileiros a fotografar, entre

eles Carlos Fredericks, Joaquim Insley Pacheco,

Augusto Stahl e Albert Henschel.

Com isso, temos importantes registros deste

período e do início do século XX. As imagens

mostram as famílias e os lugares. Desta forma,

as coleções começaram a ser feitas e a fotografia

iniciou seu exercício de memória. Francisco

Rodrigues era dentista, mas herdou do pai

uma coleção de retratos que deu continuidade

e visitando famílias conseguiu reunir 12.727

imagens que hoje estão preservadas pela Fundação

Joaquim Nabuco, no Recife. Criou, assim,

uma das maiores coleções de retratos que

existem atualmente e afirmou: “Eles [os retratos]

estão dispersos... ameaçados de serem esquecidos,

abandonados pela gente mais nova

que não lhes dá valor... Reunidos, vão contar

muito melhor uma história”.

O livro O Retrato e o Tempo: Coleção Francisco

Rodrigues 1840-1920 traz 500 imagens

deste grande acervo com doze textos de pesquisadores

que explicam sobre esses registros

de personalidades ligadas ao ciclo açucareiro,

escravos, senhores de engenho e suas famílias,

a obra foi organizada por Rita de Cássia Barbosa

de Araújo e Teresa Alexandrina Motta,

lançada em 2014 é acompanhada de um suplemento

em inglês dos textos e outras cenas

diferentes. A obra pode ser apreciada por

olhares distintos, estudos sobre processos fotográficos,

moda, política, economia, sociedade,

cultura, religião podem ser feitos a partir

destes milhares de retratos.

A maioria das imagens tem os formatos de

carte de visite (9 X 6 cm) ou carte de cabinet

(10 X 15 cm), gênero que foi inventado pelo

francês Eugéne Disdéri que permitia fazer até

oito fotos numa única chapa, no verso de cada

cena estão o nome, o brasão e o endereço dos

estúdios. O livro não traz apenas a imagem

em si, mostrando, até mesmo, os estojos nos

quais eram guardadas as fotografias, feitos em

couro, com fechos de metal e forrados internamente

com cetim, era como uma joia, até

pelo alto custo que possuía na época. Alguns

estúdios usavam as armas imperiais, em função

de fotógrafos estrangeiros terem recebido

tal autorização do império. Do modo que no

Recife a fotografia teve amplo desenvolvimento

comercial com muitos estúdios instalados

nas ruas da Imperatriz, do Imperador, Barão

da Victoria, Nova e Rosa e Silva.

quadro de dicas

FILME

Luzes da Cidade.

Diretor: Charlie Chaplin, 1931.

FILME

Recife, no princípio, era um porto...

FUNDAJ, 2017.

FILME

Contatos 1 – A grande tradição

do fotojornalismo.

Diretores: Robert Delpire, William

Klein, Raymond Depardon, Roger

Ikhlef, Sylvain Roumette, Elliott

Erwitt, Alain Taieb, Leonard Freed,

Yervant Gianikian, Angela Ricci Lucchi,

Philippe, 2015.

FILME

Síria em Fuga.

Diretor: Gabriel Chaim, 2015.

FILME

A caverna dos sonhos esquecidos.

Diretor: Werner Herzog, 2011.

LIVRO

Dicionário Histórico-Fotográfico

Brasileiro: fotógrafos e ofício

da fotografia no Brasil (1833-

1910) - Boris Kossoy, 2002.

LIVRO

O Retrato e o Tempo: Coleção

Francisco Rodrigues 1840-1920.

- Rita de Cássia Barbosa de Araújo

e Teresa Alexandrina Motta

(orgs.), 2014

LIVRO

Marcados - Claudia Andujar,

2009.

LIVRO

Sobre Fotografia - Susan Sontag,

1977.

LIVRO

Como pensam as imagens - Etienne

Samain (org.), 2012.

Renata Victor*

SITE

https://www.shutterstock.com/

Julianna Torezani*

SITE

http://brasilianafotografica.bn.br/

João Guilherme*

SITE

http://theartofplating.com/

Anna Tenório **

SITE

http://fotografiamais.com.br/

Marina Feldhues **

SITE

http://www.fotografia-dg.com/

*Professores do Curso Superior Tecnológico em Fotografia.

**Ex-alunas do Curso Superior Tecnológico em Fotografia.

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