porviseu60s-web

essapo

Retratos de Viseu nos 60's e a carreira musical da Banda POP Os Tubarões de Viseu, Portugal.

Eduardo Pinto

porViseu 60s.

retratos de Viseu e

da vida musical do

conjunto académico

os tubarões (1963-1968)


2 porViseu ’60s.


3

retratos de viseu nos anos 60

Eduardo Pinto

retratos de viseu

e da vida musical do

conjunto académico

os tubarões (1963-1968)

Aos Tubarões

e aos que, como eu,

amam Viseu,

desde os tempos da escola,

desde os tempos do liceu.


ficha técnica

título

porViseu’60s.

retratos de Viseu e da vida musical

do conjunto académico

os tubarões (1963-1968).

©texto

Eduardo Pinto

©design

Gisela Pinto

design@arq-des.com

www.arq-des.com

arq-des.blogspot.com

coordenação editorial

Eduardo Pinto

revisão

By the Book, edições especiais

impressão e acabamento

António Coelho Dias S.A.

ISBN

978-989-97317-5-2

depósito legal

331954/11

edição

By the Book, edições especiais

©arquivo fotográfico

Foto Germano, Viseu

www.fotogermano.com

geral@fotogermano.com

tratamento de imagem

Carlos Cunha

Gisela Pinto

Rua das Pedreiras, 16-4º

1400-271 Lisboa

T. + F. 213 610 997

bythebook@sapo.pt

www.bythebook.pt


5

retratos de viseu nos anos 60

prefácio

Éramos aqueles jovens dos

anos 60 de quem Viseu tanto

se orgulhou… e ainda orgulha!

Aqueles jovens para quem

a MÚSICA foi o despoletar

de um sonho!

E a palavra SONHO, traz-nos

à memória os nomes de Fernando

Pessoa e António Gedeão.

O primeiro afirmou:

Deus quer. O homem sonha.

A obra nasce.

Então, com certeza que Deus quis,

porque nós sonhámos e…

«Os Tubarões» nasceram!

O segundo escreveu:

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer.

Mas nós… SABÍAMOS e

compreendemos que o sonho

é uma constante da vida / tão

concreta e definida / como outra

coisa qualquer.

Por isso, avançámos com três

violas, uma caixa de sapatos e

uma bateria emprestada, mesmo

só com a tarola e um prato,

e concretizámos o sonho:

“Os Tubarões”!

As páginas seguintes contam uma

história que aconteceu nos anos

60, a história de seis jovens que,

neste segundo milénio, já são pais

de outros jovens, uns mais novos

e outros já mais velhos do que

eles eram naquela época: a nossa

história.

Uns naturais de Viseu, outros de

S.Pedro do Sul, de Moçambique,

da Figueira da Foz ou até dos

Açores, encontrámo-nos, um dia,

em Viseu e, unidos pela música,

tivemos, durante uns anos, um

percurso de vida comum, ao longo

do qual criámos os alicerces

de uma profunda AMIZADE

que prevaleceu até hoje e que irá

prevalecer para além do tempo.

Olhando para trás e recordando

uma vez mais as palavras de

António Gedeão, nós soubemos

que o sonho comanda a vida /

e que sempre que o homem sonha

/ o mundo pula e avança / como

bola colorida / entre as mãos

duma criança.

Bem-hajas, Eduardo, por

trazeres ao PRESENTE tão bons

momentos do nosso PASSADO!

Os Tubarões


6 porViseu ’60s.

.Viseu ’60s.

.retratos.de.Viseu.nos.anos.60.


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retratos de viseu nos anos 60

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42

44

.a.rua.formosa.

.o.café.rossio.

.o.rossio.

.a.rua.do.comércio.

.teatros.e.cinemas.

.a.estação.

a.feira.franca.

.o.salão.de.chá.dos.bombeiros.voluntários.

.o.hóquei.em.patins.

.ambientes.

.a.primeira.vez.

.os.bailes.

.a.juventude.

.depoimento.serafim.matos.silva.

.depoimento.manuel.maria.carrilho.

.os.bailes.do.clube.de.viseu.

.west.side.story.

.grupos.e.clubes.de.garagem.

.os.tubarões.conjunto. académico.


8 porViseu ’60s.


9

retratos de viseu nos anos 60

.a.rua.formosa.

1

1.

Rua Formosa à noite

(foto Germano)

2.

Rua Formosa, cruzamento

com a Rua do Comércio

(foto Germano)

2

A Rua Formosa era a artéria

principal da cidade: a rua do

poder financeiro com os Bancos

de Portugal, Pinto & Sotto Mayor,

Agrícola e Industrial Viseense

e Nacional Ultramarino.

Era também a rua das principais

lojas, dos jornais, dos encontros

de negócios, do futebol,

e dos Cafés. A Pastelaria mais

chique era O Horta com as suas

empadas acompanhadas por

chá ou vinho branco em chávena,

os doces de ovos e demais

pastelaria tradicional, incluindo

os caramujos. Quem visitava

Viseu tinha de passar pelo Horta

para marcar ponto. Rivalizava

com O Horta a Pastelaria Santos,

localizada nas quatro esquinas

(Rua Formosa com a Rua dos

Andrades) a quem chamavam

“O Aquário” devido à sua montra

toda em vidro e que permitia

que se soubesse quem lá estava

dentro. Para além destes, ainda

havia o Café Santa Cruz,

a Pastelaria Bijou, o Café Guarany

e o Café Rossio.

O Café Rossio era uma instituição

na cidade de Viseu por onde

passava toda a opinião. Situado

no final da Rua Formosa, esquina

frontal ao Banco de Portugal, era

o verdadeiro centro de informação

da cidade.

Lá, tudo se sabia, da cidade,

do país ou da região, do poder

ou da oposição, dos intelectuais

ou desportistas, de quem

chegava, de quem partia,

ou de quem não aparecia.


10 porViseu ’60s.

Vazio, vazio,

só nas noites de verão.

Quando o calor apertava,

a cidade passeava

horas a fio,

num louco rodopio,

nesse grande salão

que era o Rossio.

Cada um na sua mão,

quase todos num sentido,

e poucos na contra-mão.

E o Bilhar!!!

Quem não se lembra da atmosfera

daquele 1.º andar?

Pelas janelas abertas,

de par em par,

saía fumo, um palavrão,

e entrava o ar.

.o.café.

rossio.

1

1.

Café Rossio

(foto Germano)

O Lugar!

O Café, a conversa, o estar,

os do Contra, os do Poder,

os das tricas, e os do morder,

os do bem e do mal dizer,

e os do comer...

e os do fino, e os da televisão.

Tudo era redondo naquele r/c,

as mesas até aos pés,

as travessas dos cafés,

as cadeiras e o corrimão,

até a esquina e o Balcão.

Por aquele chão de madeira

passava a cidade inteira.

O Doutor e a menina,

o “Formidável” e a Flausina,

o Liceu e a Escola,

a Política e a Bola.

Muitos tacos, muito giz,

os candeeiros mesmo em cima

do nariz

do entendido que ensinava

o aprendiz,

só concentrado nas palavras

do seu juiz.

Na mesa ao lado, já com as bolas

a rodar,

o fumo, os nervos, o silêncio,

e o rezar,

para esta jogada vir a confirmar,

aquela aposta que estava mesmo

a ganhar,

não fora a última tacada espirrar.

Ah,

que aventura era lá entrar!!!

O estado adulto antes de lá chegar!

Valeu a pena por lá passar!


11

retratos de viseu nos anos 60

.o.rossio.

1

1.

Rossio com o Coreto,

anos 50

(foto Germano)

O Rossio era a praça central

de Viseu, os automóveis podiam

circular a toda a volta mesmo

pela frente da porta da Câmara

Municipal. Esta linda praça estava

rodeada por belos edifícios como

o do Banco de Portugal,

a Garagem Lopes ligando a Rua

da Paz com a Rua Vitória e, nesta,

o da Caixa Geral de Depósitos

com bonitos painéis graníticos

que representavam as riquezas

da Região (Agricultura, Comércio

e Indústria). O Rossio já tinha as

suas frondosas tílias e, desde

1931, o bonito painel de azulejos

fronteiro ao Jardim das Mães.


12 porViseu ’60s.

O Rossio era a Sala de Visitas

de Viseu, local de encontros, e da

principal Praça de Táxis da cidade.

A partir de fins de Maio, as noites

aqueciam e os viseenses saíam

depois do jantar até ao Rossio.

Às quintas-feiras havia concerto

com Banda do Quartel, Ranchos

Folclóricos ou os Pauliteiros de

Abraveses no Coreto central da

Praça. Nos outros dias formava-

-se um enorme picadeiro à volta

do Rossio com duas filas em

sentidos opostos. Todos viam

todos, conversavam, caminhavam,

conviviam, e durante umas horas

faziam um saudável exercício.

O Rossio enchia em Junho e em

Julho lotava. Era uma multidão

nas noites quentes do Verão

a apanhar o ar fresco da noite.

O Rossio era um bonito picadeiro!

2 3

2.

Rossio, anos 60

(foto Germano)

3.

Edifício da Garagem Lopes

(foto Germano)


13

retratos de viseu nos anos 60

.a.rua.do.

comércio.

1

1.

Estátua de Camões com o pedestal

que hoje está na Praça Sta. Cristina

(foto Germano)

2.

Praça de Camões, hoje de D. Duarte

(foto Germano)

2

A Rua do Comércio era a outra

artéria de capital importância

na cidade, continuação da Rua

Alexandre Herculano que nos

anos 50 era a via da entrada

sul da cidade, desembocando

no Largo Marechal Carmona,

hoje Largo General Humberto

Delgado, um nó central de

distribuição do tráfego rodoviário

e pedonal. A Rua do Comércio

fazia jus ao seu nome. Tudo se

podia encontrar: a Praça em dois

pisos, com o mercado do peixe

no piso superior, e o dos frescos

no piso inferior ladeado pelas

Ruas do Comércio e Formosa,

com talhos em volta, a Fábrica

do Gelo e várias mercearias por

perto como a do Sr. Celestino,

onde muitos clientes pagavam ao

mês, os Correios, o Café Lisboa e

o seu anexo Cova Funda, a Casa

Agrícola, a Casa Africana, lojas

de fazendas e de pronto-a-vestir,

sapatarias, barbearias, farmácia

e papelaria.

Terminava na Praça de Camões

com a sua elegante estátua

posta no alto de um grande

pedestal (este pedestal encontra-

-se actualmente no jardim do

Seminário, em Santa Cristina),

Praça que hoje se chama de

D. Duarte, onde se realizava a

sempre concorrida Feira Semanal

das terças-feiras, e de tempos a

tempos serenatas dos estudantes

de Coimbra.


14 porViseu ’60s.


15

retratos de viseu nos anos 60

A RTP iniciou as suas emissões

em 1957. Em Viseu, na Rua do

Comércio n.º 100, a prestigiada

loja de electrodomésticos Casa

Pascoal, representante da

RTP, disponibilizava nas suas

montras vários aparelhos de TV,

possibilitando ao público assistir

às emissões da RTP em pé, à

noite, depois do jantar, mesmo

nos dias mais frios. E a Rua do

Comércio ficava completamente

cheia de gente frente às várias

montras da loja. Ao tempo

havia pouco trânsito, o que

muito facilitava assistir a este

espectáculo.

3

4

3.

Rua do Comércio, cruzamento

com a Rua Formosa

(foto Germano)

4.

Público a assistir às primeiras

emissões de televisão frente às

montras da Casa Pascoal


16 porViseu ’60s.

.teatros.e.

cinemas.

No princípio do Século XX

Viseu chegou a ter cinco casas

de espectáculo: Teatro da Rua

Escura, Teatro Viriato, Teatro

Paraíso, Avenida Teatro e o

Cine-Rossio.

Em 1959 já só estavam activos

o Avenida Teatro, o Teatro Viriato

e o Cine-Rossio.

O Avenida Teatro foi inaugurado

em 1921, dispunha de 2.000

lugares com duas Plateias

e Geral, dois andares com

Camarotes, jardins exteriores,

uma iluminação única com

mais de 1.500 lâmpadas. Era

considerado o melhor teatro da

sua época a par com o S. Carlos.

Nos anos 50 passavam no

Avenida Teatro peças de Teatro,

números de Revista, os grandes

artistas nacionais da época

acompanhados pela Orquestra do

Maestro Mário Costa, os Serões

para Trabalhadores da Emissora

Nacional e os espectáculos da

Volta a Portugal. Mas no final da

década já era o cinema que tinha

maior destaque nesta imponente

casa de espectáculos de Viseu

localizada na Avenida Emídio

Navarro, sensivelmente no local

onde hoje se encontra

o restaurante Casablanca.

Acabou por fechar as suas portas

no início da década de 60, vindo

a ser demolido em 1971.

Nos anos 60 o Teatro Viriato a) ,

inaugurado em 1883 com o

nome de Theatro Boa União, já

tinha encerrado as suas portas


17

retratos de viseu nos anos 60

e dava lugar a um Armazém de

Mercearias de Alberto Rodrigues

e Filhos, Lda. Felizmente voltou

a ser reconstruído respeitando

a traça original, reiniciando as

suas actividades em 1998 graças

ao esforço conjugado de dois

ilustres Viseenses, Dr. Fernando

Ruas, Presidente da Câmara, e

Professor Manuel Maria Carrilho,

então Ministro da Cultura.

A partir de 1961 Viseu tinha uma

única casa de espectáculos

activa: o cinema Cine-Rossio

localizado nas traseiras da

Câmara, que iniciou as suas

actividades em 1952.

O edifício dispunha de três pisos

e, dizia-se, tinha sido construído

para albergar uma garagem:

o piso -1, ao nível do actual

Mercado, era um Salão de eventos

onde se realizavam os bailes de

Finalistas; no piso 0 situava-se

a sala de cinema em anfiteatro,

com um palco com boca de cena

a toda a largura da sala mas com

uma pequena profundidade de

cerca de 2,5m, o que era uma

grande limitação para outros

espectáculos, com uns camarins

rudimentares. Tinha 2.ª e 1.ª

Plateias, e ao fundo da sala um

conjunto de doze frisas de seis

lugares extensíveis a oito.

No Piso 1 tinha o bar e a cabine de

projecção.

Havia cinema às terças –

normalmente cowboys ou filmes

de pancadaria –, quintas, sábados

e domingos.

a)

www.teatroviriato.com/pt/menu/

teatro-viriato/historia/).

2

3

1

4

1.

Avenida Teatro

(foto Germano)

2.

Avenida Teatro, planta da sala

(foto Germano)

3.

Avenida Teatro, programa

de um filme de 1957

4.

Teatro Viriato

Armazém de mercearias

(foto Germano)


18 porViseu ’60s.

.o.cine.rossio.

5

5.

Cine-Rossio, filme de inuguração

“O Preço da Juventude”

(foto Germano)

Muitas noites e soirés

muitas tardes e matinés,

de cowboys e rufiões,

de polícias e ladrões,

de heróis e matulões,

de boazonas e mandriões

de amor e muitas canções,

de namorados e paixões.

Lá na frente os glutões,

nas cadeiras, uns empurrões,

no escuro, alguns beijões,

nas frisas, uns encostões,

e o lado a lado,

cúmplice,

combinado,

com a mão na mão,

ou noutro lado !

Fumar?

Só no 1º. andar,

Ou nos Bailes da cave,

Com toda a cidade ali,

a dançar.

O Cine-Rossio era mesmo

de pasmar!


19

retratos de viseu nos anos 60

.a.estação.

1

1.

Estação de Caminhos de Ferro,

anos 60 (onde hoje está

a fonte cibernética)

(foto Germano)

Viseu tinha uma Estação dos

Caminhos de Ferro com duas

Linhas Ferroviárias de via estreita

(1m entre carris): a linha do Dão,

entre Santa Comba Dão e Viseu

num total de 49km inaugurada em

1889 por D. Maria Pia e D. Luís, e

a Linha do Vale do Vouga, entre

Espinho e Viseu, num total de

140km inaugurada em 1914.

A Linha do Dão fazia a ligação

com a via férrea nacional em

Santa Comba Dão onde passa a

linha da Beira Alta, de via larga

(1,44m entre carris). Quem muito

se empenhou na construção

da Linha do Dão foi o nosso

conterrâneo Tomaz Ribeiro

(Parada de Gonta, 1831-1901) a) ,

que além de poeta e escritor foi

político, tendo sido Presidente da

Câmara de Tondela, Deputado e

Ministro das Obras Públicas entre

1890 e 1891.

A Linha do Vale do Vouga demorou

muito tempo a ser construída por

dificuldades do percurso. Nela

circulava o comboio de alcunha

“O Vouguinha” e as coloridas

Automotoras Allan, uma só

carruagem tipo autocarro

a circular sobre carris, com

1.ª Classe à frente e 2.ª atrás.

O comboio era um meio de

transporte muito popular na

região e esteve activo durante

100 anos. b)

Para os destinos não ferroviários,

empresas privadas asseguravam

os transportes em autocarros –

“a carreira”– que garantiam tanto

as ligações dentro do Concelho

como a ligação aos grandes

centros urbanos de Lisboa,

Coimbra e Porto.

a)

pt.wikipedia.org/wiki/

Tom%C3%A1s_Ribeiro

b)

www.geocaching.com/seek/cache_

details.aspx?wp=GC23VF9


20 porViseu ’60s.

.a.feira.franca.

1.

Entrada da Feira Franca, ’60

(foto Germano)

2.

Pavilhão

(foto Germano)

3.

Comboio turístico puxado

por um tractor (foto Germano)

4.

Feira Franca, planta de 1955

5.

Cartaz da Feira de São Mateus, 1963

1

2

3

4

5

Em Setembro chegava a Feira

Franca de S. Mateus.

De todos os cantos, dos arredores,

das aldeias, das vilas e das

cidades, vinha gente para a Feira

Franca. E também de fora,

do estrangeiro chegavam

emigrantes novos ou antigos.

A cidade inteira ia p’rá Feira!

A Feira, rainha da tradição,

tinha quase tudo para quase

todos. Imbatível no comércio

tradicional, com produtos de

todo o país e rifas de tachos e

panelas, exuberante no colorido

dos barros, para todos os sabores,

músicos da banda, bonecos

de presépio e o pretinho da

sorte, atenta ao artesanato de

cestaria, bordados e ferraria tão

bem tratados pelo Sr. Celestino

Soares, inimitável na gastronomia

com caldo verde, enguias e rancho

do Zé Povo, farta nas guloseimas

com farturas do Pavilhão Lúcia,

chocolates Regina da loja do

Sr. Coutinho com furos, chupa-

-chupas, rabanetes, novelos de

algodão doce, e completa nas

diversões com carrinhos de choque

ou às voltinhas, carrocéis redondos

ou em oito, espelhos mágicos,

comboio-fantasma, poço da morte,

matraquilhos e os sleepers.

E a animação era diversificada.

No palco, variedades, folclore

nacional e regional, e artistas

de nomeada nacional.


21

retratos de viseu nos anos 60

No terreiro, gincanas de todos

os tipos e motores, automóveis,

motos, karts e até camiões.

No terreiro da Feira todos se

cruzavam num vaivém contínuo

por ruas em terra batida que

ligavam as suas quatro portas:

a Porta da Ribeira (Emídio

Navarro) com a Porta da Estação,

e Porta da Ponte de Pau com

a Porta Viriato (Av. da Bélgica).

O picadeiro principal fazia-se

entre a Porta da Ribeira e a

Ponte de Pau, paralelo ao rio,

com uma zona rectangular até

ao Pavia no meio da qual ficava o

palco, de costas para o rio, e nas

laterais a cabine de som, diverso

artesanato nomeadamente de

ferro, o Restaurante do Fernando

Carvalho, o Pavilhão do Turismo,

a tenda dos chocolates Regina,

os únicos toilletes públicos

do recinto e o Pavilhão dos

Bombeiros Voluntários, este

com duas frentes, uma virada à

zona do palco e outra com vista

para o picadeiro. Era ainda neste

rectângulo que eram colocadas

as baterias do famoso fogo

preso, uma atracção única da

Feira que aos fins de semana não

dispensava uma boa sessão de

fogo de artifício, com o melhor

sempre reservado para o Domingo

Franco.

Neste dia não se rompia na Feira,

sempre apinhada de gente que

só saía depois dos três tiros de

morteiro, o último dos quais,

de tão forte, tudo fazia

estremecer.

Nos Bombeiros, à noite, era

imperdível o Caldo Verde tardio

com broa fresca de Vildemoinhos,

e aos sábados os Bailes, com

gente que vinha de todo o país.

Quando se descia da Porta Viriato

em direcção ao rio tinha-se a

vista encantada da colina da Sé,

que do alto, imponente, a todos

observava.

A Feira durava todo o mês de

Setembro prolongando-se até

ao feriado do 5 de Outubro,

normalmente véspera do início

do ano escolar.

A Feira era um apelo natural

a todos os encontros.


22 porViseu ’60s.

.o.salão.de.chá.

dos.bombeiros.

voluntários.

1.

Salão de chá dos Bombeiros

Voluntários, anos 40

(foto Germano)

2.

“O Filho Pródigo”, pelo Grupo

de Teatro dos Bombeiros

1

2

3

3.

Pavilhão de Chá dos

Bombeiros Voluntários

Nos terrenos da Feira de

S. Mateus foi construído nos

anos 30 um bonito edifício de

arquitectura modernista, cujas

traseiras davam para a Central

Eléctrica localizada na rua da

Ponte de Pau. Tratava-se do

Salão de Chá dos Bombeiros

Voluntários de Viseu (BVV),

seguramente o edifício de maior

destaque e prestígio no recinto

da Feira de S. Mateus, com um

piso único elevado ao estilo de

uma mezzanine. Tratava-se de um

amplo Salão com duas frentes

rasgadas para o recinto da Feira

de S. Mateus e que durante o

período da feira, era utilizado

pelos Bombeiros Voluntários

de Viseu para a prestação de

serviços de restauração, servindo

o montante apurado como reforço

de fundos tão necessários ao

suporte das suas actividades

totalmente voluntárias.

Os Bombeiros Voluntários de

Viseu sempre tiveram muito

valor, um enorme prestígio

na cidade e eram um foco de

entusiasmo e adesão de muita

juventude que, voluntariamente

e com grande orgulho, aderia

a tão nobre e justa causa de

ajuda à comunidade. Além das

suas actividades de socorro às

populações, os BVV tiveram no

passado uma grande intervenção

cultural, nomeadamente através

de um Grupo de Teatro Amador

que levou à cena no Teatro

Viriato várias peças, algumas

delas acarinhadas pela grande

actriz nossa conterrânea Mirita

Casimiro.

Pois durante a Feira de S. Mateus,

nos anos 60, o Salão de Chá

dos Bombeiros Voluntários era

o local mais bem frequentado

e portanto o mais cobiçado da

Feira. O espaço tinha atributos

únicos como os disputadíssimos

toilletes, equipamento escasso

em todo o terreno da Feira, mesas

de café viradas para a rua onde

se podiam observar os

passeantes e assistir aos

espectáculos, gincanas e outras

iniciativas como se se estivesse

num camarote de um teatro.


23

retratos de viseu nos anos 60

Havia serviço de chá com torradas

ou farturas, o branco a copo, ou

o famosíssimo caldo verde com

a broa fresca de Vildemoinhos

a partir das 23h. Além destes

serviços este Pavilhão também

era o mais seguro refúgio sempre

que a chuva pregava as suas

partidas, o que não era tão raro

quanto isso.

Todo o serviço no Salão de Chá

era feito pelos bombeiros nos

seus tempos livres, com o traje

azul e os seus reluzentes botões

de latão amarelo. O Salão, à

esquerda de quem entrava, tinha

um enorme e altíssimo balcão de

serviço, com vista e controlo de

todo o espaço. À direita deste, no

canto frontal à entrada, o estrado

para a Orquestra. À esquerda

uma entrada que dava acesso

aos famosos toilletes e ainda a

uma copa mais recatada e só

para “Maiores” onde se podia

beber um copo (branco, tinto,

cerveja, Bussaco ou pirolito),

acompanhado por um petisco

(pasteis de bacalhau, panados,

enguias, empadas ou rissóis…).

Nos dias principais da Feira

havia uma cerrada disputa pelas

mesas viradas à rua e não era raro

assistir-se à marcação presencial

com horas de antecipação.

E aos sábados? Aos sábados

havia “Chá Dançante” no Salão

de Chá dos Bombeiros Voluntários

de Viseu (tempos houve que eram

às quartas e sábados).

Eram quatro bailes com grande

procura, quase sempre esgotados

que punham a cidade numa

grande agitação.

Os cabeleireiros não tinham

mãos a medir, os sapateiros

engraxavam, os perfumes

esgotavam e as mais jovens

debutavam numa grande

comoção.

Ir ao Baile dos Bombeiros era

uma grande emoção!!!

No início os bailes eram animados

pelas orquestras locais como

a Orquestra do Cine Jazz,

a orquestra do Mário Costa,

“Os Diamantes”, entre outras.

Na época de maior sucesso já

eram as principais Orquestras

Nacionais como a de “Shegundo

Galarza”, “Toni Hernandez”, “Costa

Pinto”, e até o “Conjunto Italiano

Manino Marini”, que fez várias

épocas em Portugal interpretando

os grandes sucessos românticos

e únicos da música italiana.


24 porViseu ’60s.

.o.hóquei.

em.patins.

1.

Ringue do Fontelo

(foto Germano)

2.

Ringue do Parque da Cidade

(foto Germano)

1

2

a)

www.francisco-velasco.com/

category/albums/

No desporto internacional

Portugal dava cartas no hóquei

em patins. Ganhávamos

os Torneios de Montreux,

os Campeonatos do Mundo

e os ídolos da juventude eram

os jogadores de hóquei em patins:

Edgar, Moreira, Perdigão, Vaz

Guedes, Adrião, Velasco, Bouçós,

Rendeiro, Domingos e tantos

outros virtuosos da patinagem

com stick. a)

Nas ruas da cidade eram audíveis

os emocionantes relatos de

Artur Agostinho transmitidos

pela Emissora Nacional que

prendiam todos os portugueses

aos aparelhos de rádio. Este facto

e as vitórias da Selecção Nacional

popularizaram este desporto

muito praticado por clubes locais

que disputavam campeonatos

emotivos com rivalidades

regionais muito saudáveis.

O hóquei em patins tornou-se um

desporto popular entre os jovens.

No campo do Fontelo e no campo

do Parque da Cidade praticava-se

este desporto que também era

fomentado nos estabelecimentos

de ensino (Liceu e Escola

Comercial), facultando tempo,

equipamentos e outros meios.

Às quartas-feiras e sábados

tínhamos obrigatoriamente

que frequentar a Mocidade

Portuguesa nos nossos

estabelecimentos de Ensino.

Constava de sessões de


25

retratos de viseu nos anos 60

educação para-militar com

desfiles, marchas e comandos

de organização militar e muito

desporto. No Liceu já existiam

vários praticantes de hóquei com

bom nível destacando-se

os manos Pais (Zé e Fernando),

o Biscoito Lima e o (Joaquim)

Quim Inácio, candidato ao difícil

lugar de guarda-redes onde se fez

notar muito mais pela coragem

do que pela patinagem, e que

conseguiu que fosse criada

a secção de hóquei em patins,

tendo sido adquirido diverso

equipamento e acessórios como

caneleiras, máscaras, sticks,

patins e bolas, utilizando-se

o ringue de patinagem do Parque

da Cidade. E da Escola Comercial

aparecia um dos melhores

hoquistas de Viseu, o Cartuxo, que

chegou a jogar em Lisboa no SLB.

Começámos a praticar este

desporto com aulas de patinagem

à volta do ringue e seguros

ao corrimão. Mal dávamos os

primeiros passeios sem queda

e logo pegávamos no stick.

Os patins estavam na moda

e havia modelos para todos os

gostos e preços. Os mais caros

eram botas acopladas aos patins

com rodas de madeira e travões,

seguiam-se os patins com rodas

de madeira e travões e os patins

mais vulgares de rodas metálicas

em que os mais populares eram

os da marca Glória.

A Casa Sérgio, na Rua Direita,

era o principal fornecedor de

equipamento e dos acessórios

deste desporto, além dos de

pesca e caça.

Foi aí no ringue de patinagem

do Parque da Cidade que se

conheceram amigos como:

Oliveira Martins, manos Matos

Pereira (Zé e Tójo), manos Alberto

Rodrigues (Zé e Júlio), Camané

Serpa, Horta Coelho, Pitaitas, Abel

Boavida, Norberto Antunes, Ilídio

Henriques, Costa Santos, Victor

Barros (Vitó), Luís Dutra,

eu próprio e um pouco mais tarde

o Tó Fernandes (Fifas).

E tantos eram os praticantes

que até se organizavam renhidos

Campeonatos Inter-Turmas logo

nos primeiros anos escolares.

Terá sido em meados de 61 que

o nosso amigo Júlio, mais velho,

forte, muito bonacheirão, culto

e irrequieto, guarda-redes

e treinador de hóquei, nos

motivou e mobilizou para a

criação do Hóquei Clube de Viseu.

E lá andámos a formar o clube,

a juntar os meios e a criar

equipa para entrarmos no

campeonato. Fizemos alguns

jogos, o clube fez-se e a nossa

amizade solidificava. Pois foi o

hóquei em patins o berço onde

nasceu a amizade que mais tarde

conduziu à formação do Conjunto

Académico “Os Tubarões”.

Lá nos encontrámos o Victor

Barros (Vitó), o Tó Fernandes

(Fifas), o Luís Dutra e eu, quatro

dos cinco elementos que mais

tarde fundaram o conjunto.

O hóquei em patins era um

desporto praticado ao ar livre,

na primavera e no verão.

No outono e no inverno

praticávamos desportos de

interior como o bilhar e pingue-

-pongue.

Começámos então a conviver e a

frequentar o Clube de Viseu onde,

durante as férias, passávamos

as tardes na conversa, na

brincadeira, no bilhar ou no

pingue-pongue.


26 porViseu ’60s.

.ambientes.

1

2

3

4 5

No Rio Pavia, com um razoável

caudal, alugavam-se barcos junto

à Ponte das Barcas.

Um pouco mais acima ficava

o ponto mais fundo destinado

aos mais destemidos nadadores

e mergulhadores, o famoso Poço

Nicolau. O Pavia era a grande

lavandaria de Viseu, muito amigo

de inúmeras lavadeiras.

1.

Rio Pavia

(foto Germano)

2.

Rádio

3.

Anúncio da cerveja Sagres

“A sede que se deseja”,

slogan de José Carlos Ary dos Santos

4.

Laranjada Bussaco

5.

Pirolito


27

retratos de viseu nos anos 60

Em 1960 o Benfica de Bella

Guttmann domina o Futebol

Nacional, chega o Eusébio a

Lisboa, e em 1961 vence a Taça

dos Campeões Europeus.

Em Viseu o derby Académico de

Viseu - Lusitano de Vildemoinhos

(Os Trambelos) esgota sempre

o Estádio do Fontelo com

o público muito exaltado.

Ao tempo distinguiam-se

claramente as quatro estações

do ano e o que o Borda d’água

dizia, o tempo cumpria. Não havia

nem eram necessárias outras

previsões. Cada fruta tinha a sua

época para brilhar. Não havia uma

mesma espécie todo o ano,

e frutas tropicais conheciam-se

a banana e o ananás.

A Rádio era a grande companhia

dos portugueses. As radionovelas

mobilizavam o sector feminino

com os folhetins radiofónicos

transmitidos a seguir ao

almoço sob o título: “Teatro Tide

apresenta…”, enquanto os homens

vibravam com os relatos de

futebol.

Chegava a Frequência Modulada

(FM), lá fora apareciam as Rádios

Piratas e por cá nasciam novos

programas de rádio a promover

a nova música anglo-saxónica

como a “23.ª Hora” e o

“Em Órbita”, entre outros.

Nas cervejas liderava a Sagres,

surgia o fino à pressão sempre

com tremoços ou amendoins,

bebiam-se pirolitos com berlindes

a servirem de tampa, e uma

picante e apreciada laranjada

Bussaco, com bocadinhos de

laranja e tudo. Embalagens,

só de vidro.

No Quartel do R.I.14 cozinhava-se

o famoso rancho às quintas-

-feiras que por vezes se podia

encomendar, e que “A Viúva”,

Restaurante da Rua da Cadeia,

tão bem confeccionava.

Na RTP Pedro Homem de Melo

explicava e promovia de uma

forma única o folclore nacional.

E os nossos Pauliteiros de

Abraveses, com a sua original

apresentação e actuação, eram

sempre cabeças de cartaz em dia

nobre da Feira de S. Mateus.


28 porViseu ’60s.

Os jovens conheciam-se através

do convívio com os filhos dos

amigos dos pais, nas escolas, nas

festas de anos e nos bailes. E era

tradição os finalistas dos Liceus,

Escolas e Colégios organizarem

Bailes de Finalistas.

Os Estudantes procuravam

nas suas terras angariar

patrocinadores locais para

conseguirem contratar os

melhores conjuntos. Começava

a moda das festas de aniversário

ao som dos discos de vinil onde

os jovens, sob o controlo dos pais

do aniversariante, ensaiavam os

seus primeiros passos de dança.

Em Viseu já existiam três

Associações Recreativas com

algum destaque: o Orfeão de

Viseu, o Instituto Liberal de

Instrução e Recreio, na Rua

Direita (n.ºs 149 e 58) e o Clube

de Viseu, no Rossio. Estas

Instituições promoviam a cultura

através do Canto, do Teatro, da

Poesia e das Variedades, e não

descuravam o lazer com festas

para os seus associados que não

perdiam os bailes e matinés de

Carnaval e do Fim do Ano, e as

Festas dos Santos Populares.

No dia-a-dia possibilitavam aos

seus associados e familiares

assistirem aos serões da RTP

nos seus televisores ainda a preto 6

7

e branco, cujo preço era muito

8

9

elevado para o poder de compra

de então. 6.

Salão do Instituto Liberal

(foto Germano)

7.

Grupo de jovens no Rossio

8.

Porta Orfeão de Viseu,

Rua Direita, 149

(foto Germano)

9.

Clube de Viseu

(foto Germano)


29

retratos de viseu nos anos 60

Na vida académica da cidade

era muito grande a rivalidade

desportiva entre o Liceu e a

Escola Comercial, acerrimamente

vivida nos Campeonatos da

Mocidade Portuguesa entre as

equipas de andebol, de voleibol,

pingue-pongue ou qualquer

desporto em que as duas escolas

tivessem representantes.

No Liceu, o Dr. Sereno – de nome

e no porte – dava-nos o tom com

os primeiros acordes no Canto

Coral ensinando-nos que havia

uma Senhora que se chamava

MISOLSIRÉFÁ e tinha FÁLÁDÓMI.

Lenga lenga com todas as notas

musicais que nunca mais se

esquece, como aqui se prova.

Embora muitos o tentassem,

era muito difícil conseguir ficar

excluído (dispensado) do Canto

Coral.

Na música ligeira o Maestro

Mário Costa foi uma figura

ímpar e incontornável da época.

Músico completo, pessoa afável

e empreendedora criou, entre

outras, a Orquestra Cine Jazz

que actuava no Café Rossio,

animava Bailes e Variedades e

acompanhava as grandes vedetas

nacionais no Teatro Viriato ou

no Avenida Teatro. Além da

Orquestra, o Maestro dinamizou

Coros e Orfeões e criou a Escola

de Acordeões Mário Costa,

um enorme sucesso local com

projecção nacional que chegou

a actuar em directo na RTP.

Foi um verdadeiro Mestre Musical

que influenciou várias gerações

de músicos que emanaram das

suas Orquestras e formaram

conjuntos como “Os Condes”,

“Os Diamantes”, “Os Tubarões”,

“Os Ases” e “Os Corsários”, entre

outros.

10 11

12 13

10.

Cine Jazz, anos 50

11.

Cine Jazz, anos 60,

festa dos Santos Poulares

12. 13.

Escola de Acordeões Mário Costa

No Cine-Rossio e na RTP


30 porViseu ’60s.

.a.primeira.vez.

1

1.

Nº. 54 da rua Escura

(foto Germano)

Não existiam boîtes nem cabarets

mas Viseu tinha duas casas

de Meninas, proibidas mas

consentidas, e uma terceira

especial, ao que se dizia

mais elitista, selectiva e com

modalidades diferentes que

incluíam quartos para encontros

secretos de casais. Esta ficava

no n.º 69 da Rua da Prebenda

e pertencia a uma figura ímpar da

cidade, com a alcunha de Toninho

Panelas, homossexual assumido

que por vezes se passeava pela

cidade de forma exuberante,

muito pintado, badalando anéis

e pulseiras, e comentando com

altivez, para quem o queria ouvir,

os assuntos que lhe ocorriam.


31

retratos de viseu nos anos 60

Quanto às duas primeiras, uma

ficava no n.º 54 da Rua Escura,

e outra no n.º 160 da Rua do

Picadeiro na Cava do Viriato.

Certo, certo, é que na época, um

jovem, para ser Homem, tinha que

ir às Meninas uma primeira vez.

E era tamanha a aventura que

valia por três.

Programado o dia da sua primeira

vez, o jovem preparava-se de

forma mais cuidada, melhor

lavado e cuidadosamente

perfumado mesmo onde

normalmente não entravam tais

aromas. Quem o levava era um

familiar ou um amigo protector

mais velho. Tempos houve em que

tal tarefa era mesmo assumida

pelo próprio pai, pois era vital

para a educação completa de um

rapaz.

Acompanhando o tutor que

logo abria a porta que estava

encostada, o imberbe seguia,

subia as escadas e as pernas

tremiam logo no primeiro degrau

a caminho do verdadeiro exame.

Sim, era mesmo um exame real e

em que tudo era posto em causa e

a nu: “Servirá o tamanho?

E a espessura? Irá doer? E se não

der? E o desempenho?”. Era uma

angústia.

Entrados na sala de recepção,

algo aproximado a um consultório

médico mas com menos luz,

a dona atendia e distribuía logo

o serviço a quem ela pensava ser

a mais indicada para o prestar.

Se o tutor fosse habitué podia

opinar sobre a escolha da

examinadora. Quando ela

entrava na sala surgia a primeira

surpresa: afinal muito mais

mulher que menina, exalava um

perfume a lavanda feminina,

decote avançado, saia curtinha,

e um cigarro rolando na mão como

que a pedir lume. Um pouco de

sala, conversa, e fumo, sorrisos

estranhos, uns toques na mão,

risadas e piscadelas e a primeira

festa com um ligeiro apertão.

Quando a mão colava na mão

e não largava, já pouco faltava.

Ela levantava-se, puxava a mão,

encorajava, piscava o olho e dizia:

“vamos matulão?”

E lá ia o pequeno cheio de medo,

alguns iam mesmo assustados,

para a prova total.

Nunca corria mal, pelo menos

que se soubesse!

E se o pequeno entrava

principiante, já saía doutor.

No dia seguinte o jovem inchado,

com porte elevado, dava nas

vistas e já se atrevia a subir

ao 1.º andar do Café Rossio.

E se o questionassem logo

alguém esclarecia: “…ele ontem

perdeu os três!

Ah Ah Ah,” ouvia-se…


32 porViseu ’60s.

.os.bailes.

1

2

3

1.

Passagem do ano

no Clube de Viseu, 1958

(foto Germano)

2. e 3.

Baile de Finalistas

do Liceu, 1963

Quanto a folia, não faltavam

festas, bailes, arraiais e romarias,

onde se podia dançar. Para

algumas raparigas estas festas

eram a única ocasião em que se

podiam mostrar, as primeiras

vezes a medo, agarradas às saias

da mãe ou coladas nas costas de

alguma familiar, e aos poucos lá

aprendiam com outras, a dançar.

Por esta razão dançar era uma

prática muito vulgar em todos

os lugares. É que a brincar,

a brincar, era mesmo a dançar

que muitos conseguiam confirmar

que o tal brilho do olhar não

era a brincar. Dançar ajudava a

desabrochar e permitia uma outra

forma de comunicar, com ritual e

códigos próprios.

O ritual implicava o convite

a dançar: aproximar, baixar

a cabeça e soltar: “a menina

dança?” Se ela dizia não, era

a tampa, ele dava meia volta,

tentava disfarçar e ia directo

curar as mágoas para o Bar.

Se começavam a dançar, logo

ao pegar na mão e ao encostar

calculávamos até onde

poderíamos apertar. A técnica

era, para não assustar, encostar

devagar e, na primeira música,

nunca apertar. Havendo segunda

e terceira dança, numa música

mais lenta, lá se começava a roçar

(calão para descrever o dançar

apertadinho que fazia vibrar).

Com as mãos geríamos a

navegação: o mexer da esquerda


33

retratos de viseu nos anos 60

evoluía do toque ao apertão,

e com a direita, o pianar nas

costas anunciava o encostar.

E para muitos era a dançar que

se sentia o primeiro arfar, que

punha o olhinho a brilhar, o corpo

a engordar e a cabeça a sonhar,

ao sentir aquele ondular do outro

corpo (a colar). Interpretar os

sinais do par era uma tarefa por

vezes complicada e até delicada.

Por exemplo, dançar de seguida

três músicas lentas, com a cara

encostada, era um pequeno

índício de intimidade, sinal

muito favorável. Como também

o era ficar de mão dada, mesmo

escondida, entre a mudança de

músicas. Beijo na boca era um

grande indício de intimidade.

Muito raro! De olho aberto, leve,

sem comprometimento, mas de

olho fechado, era namoro certo,

quase casamento.

Em Viseu as festas começavam

logo no segundo fim de semana

de Janeiro com o Baile dos

Finalistas do Liceu de Viseu

secundado com uma matiné no

dia seguinte e com o Sarau duas

semanas depois.

A 5 de Janeiro de 1963 realizou-

-se o Baile de Finalistas no

Cine-Rossio, com os conjuntos de

“Shegundo Galarza” a) e de “Mário

Simões”. b)

Seguiam-se as Festas do

Carnaval, com bailes por todo o

lado e algumas matinés para as

crianças também se mascararem.

A Rua Direita liderava na oferta

dos acessórios de Carnaval

como as máscaras em cartão,

serpentinas, confetes, estalinhos,

pirilampos, bombas de carnaval,

algumas de mau cheiro, e

começavam a aparecer as

bisnagas de água, que se podiam

comprar no Bazar do Porto ou nos

Cesteiros.

Nos Santos Populares havia

arraiais e muito pó no ar.

Cada povoação dos arredores da

cidade comemorava o seu Santo.

E lá iam os foliões da cidade

petiscar, bebericar e bailar com

as moças da terra. No S. João,

as Cavalhadas de Vildemoinhos

enchiam de dia a cidade para ver

o cortejo, e à noite, no Largo de

Vildemoinhos, havia arraial com

sardinhas e bailarico.

E no Fim de Ano realizavam-se

festas que incluíam sempre o

Baile da Passagem do Ano.

a)

pt.wikipedia.org/wiki/Shegundo_

Galarza

b)

http://musicasdosanos60.blogspot.

com/search/label/M%C3%A1rio%20

Sim%C3%B5es%20e%20o%20

Seu%20Conjunto


34 porViseu ’60s.

.a.juventude.

1

1.

Desfile da Mocidade Portuguesa

(foto Germano)

Após a instrução primária,

abriam-se duas opções aos

jovens que queriam/podiam/

conseguiam continuar a estudar.

O Ensino Liceal no Liceu Nacional

de Viseu e o Ensino Profissional

na Escola Comercial e Industrial.

Em Viseu, quer o Liceu quer a

Escola Comercial tinham grande

prestígio e professores com

grande talento e dedicação.

Eram Escolas Públicas com

alunas e alunos, mas nada de

misturas com aulas mistas:

raparigas para um lado e rapazes

para o outro. O lado feminino

do Liceu era toda a ala direita

de quem entra e o masculino

a ala esquerda. O Ginásio e

outras salas comuns como os

Laboratórios eram utilizados em

horas desencontradas.

Aulas mistas só a partir do

3.º Ciclo (mais ou menos a partir

dos 15 anos).

Os Colégios eram ou femininos

ou masculinos. Femininos como

o Grande Colégio Português,

Colégio da Imaculada Conceição

(Colégio das Freiras), e

Masculinos como o Colégio

Santo Agostinho ou o Colégio

da Via Sacra. Em complemento

ao ensino oficial começavam a

aparecer os explicadores, a quem

os alunos mais mandriões e com

mais recursos recorriam em

regime pós aulas oficiais.

Os jovens que vinham para o

ensino oficial das redondezas

da cidade hospedavam-se em

quartos alugados ou ficavam

como alunos externos nos

Colégios. As raparigas, além

destas opções, ainda dispunham

do Lar situado na rua Alexandre

Herculano. Os horários eram

muito limitados e só a partir do

3.º Ciclo do Liceu (6.º e 7.º anos,

actuais 10.º e 11.º) era dada

alguma autonomia.

Chegava a idade dos primeiros

namoricos. O amor começava

a rondar, a pairar, sempre ao

longe mas à vista. Namoriscar

era bonito, solto, discreto e às

vezes secreto; namorar era muito

cerimonioso, oficial, contido e

por vezes aparatoso. Manifestar

interesse por uma rapariga nem

sempre era fácil.


35

retratos de viseu nos anos 60

Muita ronda normalmente

solitária, às vezes solidária, pelos

lugares que eram dela. E por

vezes, chegar lá, a ela, só com

uma boa cunha ou cumplicidades

intermediárias de primos, amigos

ou amigas. Até ao momento de

aproximação, se era conseguido,

havia muito a sofrer. Até doía!

Depois evoluía, e às escondidas

um apertão na mão, a mão na

mão, o beijo mais tarde, o primeiro

sempre roubado e às vezes de

raspão, e um beijo a sério, de olho

fechado, só mesmo lá mais para o

verão. O coração saltava, saltava,

saltava com tamanha emoção.

Quase rebentava.

Os namorados do Liceu

passeavam pelo Parque, e os

mais crescidos procuravam um

dos bancos excelentemente

colocados nos caminhos

paralelos à Avenida do Liceu.

Os namorados da Escola

passeavam pelos terrenos da

Feira de S. Mateus, e os mais

crescidos visitavam a Cava de

Viriato. Fora isto, corpo mais

perto, junto e às vezes juntinho,

só num bailinho.

Ritual importante era assistir

às saídas das aulas, dos

colégios e, aos domingos, da

Igreja dos Terceiros. Ver as

meninas com os pais, muito

virgens, bem comportadinhas e

muito arranjadinhas a descer a

escadaria, era um desfile especial

que não se podia perder.

Domingo não era domingo sem

fato, gravata e roupa lavada!

No período de aulas todos

eram obrigados a frequentar

a Mocidade Portuguesa (MP),

uma organização nacional que

pretendia abranger toda

a juventude – escolar ou não –

“e atribuia-se, como fins,

estimular o desenvolvimento

integral da sua capacidade

física, a formação do carácter e a

devoção à Pátria, no sentimento

da ordem, no gosto da disciplina,

no culto dos deveres morais,

cívicos e militares” a)

Pois nas tardes das quartas-

-feiras e aos sábados de manhã

tínhamos actividades da MP, que

incluíam instrução para-militar e

muito desporto com campeonatos

locais, distritais e nacionais. E era

nestas actividades desportivas

que se constatava a grande

rivalidade entre as equipas do

Liceu e da Escola Comercial.

Fora das aulas popularizavam-

-se os gira-discos de plástico

preparados para os discos de

vinil com dois formatos: os EP

(Extended Play, 17cm diâmetro

e sensivelmente 8 minutos de

música por face) de 45 rotações

e os LP (Long Play, 31cm de

diâmetro e cerca de 20 minutos de

música por face) de 33 rotações.

Os mais vulgares eram os EP com

quatro faixas, duas de cada lado.

E era dada uma atenção especial

às capas, algumas delas ainda

hoje verdadeiras obras de arte.

Um novo disco era motivo para

uma audição especial na casa

do seu proprietário.

Os aniversários davam direito a

um lanche, por vezes dançante,

aos fins de semana. O ambiente

musical era dominado pela

canção francesa, italiana, algum

rock americano, novidades do

twist, Elvis, Pat Boone, Paul Anka,

Trini Lopez, Chuby Checker, Otis

Redding, Aretha Franklin, Roy

Orbison… Da língua francesa

ouvia-se a música jovem de

Françoise Hardy, Richard Anthony,

Adamo, Claude François, Sylvie

Vartan, Johnny Halliday, Hervé

Vilard… De Itália todos os

êxitos do Festival S. Remo com

destaque para a Rita Pavoni,

Gianni Morandi, Gigliola Cinquetti,

Adriano Celentano, e ainda os

conjuntos de “Peppino di Capri”

e “Marino Marinni”. E na língua

inglesa Tom Jones, Sandy Shaw,

Sheila nunca podendo faltar

o Cliff Richard com os “The

Shadows”, com a fórmula mágica

de três violas eléctricas e uma

bateria. Num ou noutro Domingo

lá se ia ao Cinema ver um ou outro

musical, uma comédia italiana,

ou o 007 - Ordem para Matar.

Os Bailes de Finalistas, os Saraus

no Liceu, os Bailes de Carnaval

nas Associações Colectivas ou

algumas festas de bairro eram

sempre uma oportunidade para

o desabrochar dos jovens.

a)

pt.wikipedia.org/wiki/Mocidade_

Portuguesa


36 porViseu ’60s.

.depoimento.

Serafim Matos Silva

Em Portugal não eram permitidos

os Partidos Políticos. Só a União

Nacional e a assinatura política

de então era: “Deus, Pátria

e Família”. Quem tentava sair

desta trilogia brincava com o

fogo. Os do Leste eram todos

feios, porcos e muito maus!!!

Ainda estava fresco o assalto

ao Santa Maria e em Viseujovem,

no Café Arco-Íris (Av. 28

de Maio, hoje Alberto Sampaio)

já havia quem tivesse o livro

vermelho do Mao e lesse as

poesias de Vladimir Mayakovski.

Ali, encontrava-se o núcleo mais

intelectual de estudantes com

interesses culturais e políticos,

com o cinema, pintura e poesia

e música de Jazz em destaque.

Desse restrito grupo, salientaram-

-se nomes que extravasaram

o pequeno e isolado mundo que

era Viseu, nessa época. Destes

salientaram-se Carlos Almeida,

que com António Barreto publicou

“Capitalismo e emigração em

Portugal”, Prelo, Lisboa 1970,

um livro marcante que ainda

hoje se pode encontrar nos

escaparates das livrarias

nacionais e internacionais.

Na poesia, matemática e filosofia

salientou-se um nome: António

Franco Alexandre: viveu em

França, de 1962 a 1969,

na cidade de Toulouse, onde

estudou Matemática. Viajou

para os Estados Unidos, onde

continuou a estudar. Em 1971,

mudou-se para a cidade de Paris.

Apenas depois da Revolução

dos Cravos retornou a Portugal.

B.Sc. em Matemática pela

Universidade de Harvard e doutor

em Filosofia pela Universidade

de Lisboa, desde 1975 lecciona

Filosofia na Faculdade de Letras

da Universidade de Lisboa. A sua

poesia tem conquistado cada vez

maior reconhecimento crítico.

“Quatro Caprichos” recebeu o

Prémio APE de Poesia e o Prémio

Luís Miguel Nava; “Duende”

ganhou o Prémio D. Dinis da

Fundação Casa de Mateus e o

Prémio Correntes d’Escritas.

Na pintura emergiu José Mouga.

Licenciado em Pintura pela

ESBAP (C/ Louvor e Distinção,

Prémio legado de Desenho

Rodrigues Júnior). Residiu em

Londres; Pós-Graduação em

Pintura na St. Martin’s School of

Art (Londres); (Prémio Stwoells

of Chelsea); Director da Hoya

Gallery, Londres; Visiting

Lecturer de Pintura na Escola

Politécnica de Newcastle-upon-

-tyne; foi vários anos membro

do Conselho Técnico da SNBA.

Entre 1980/93 foi responsável

pelo Departamento de Pintura no

Ar.co e membro da Direcção. Tem

desde 1986 o título de Professor

Agregado da Faculdade de

Belas Artes da Universidade de

Lisboa. Actualmente é Professor

Efectivo de Ed. Visual e Professor

/ Coordenador do Curso de Pintura

e Desenho do Instituto de Artes

e Ofícios, da UAL. Representado

em vários museus nacionais e em

colecções particulares estrangeiras

e portuguesas, nomeadamente,

Ministério da Cultura, Centro de

Arte Moderna da F.C.Gulbenkian,

fez, desde 1963, um número

substancial de exposições

individuais e colectivas de Lisboa

ao Porto, ao Brasil e Reino Unido.

Em Viseu expôs no Museu Grão

Vasco, na Casa Museu Almeida

Moreira e na “Galeria G”.

Nos mais novos, os mais

atrevidos passeavam boinas

à Che Guevara (Carrilho, Sobral e

Pessoa), enquanto em pleno Rossio

o grande Sérginho e o Bergeron

discutiam, perante o ar

atento do fiscal dos isqueiros

e informador da PIDE, os atributos

e tácticas da bola, servindo-se

da sua bíblia que era o jornal

“A Bola”, onde grandes ensaístas

e escritores aí floresceram. Deste

grupo alguns acabaram, como

seria inevitável, por ser presos e

politicamente condenados. Alguns

enlouqueceram e morreram, outros

resistiram e sobreviveram, para

testemunhar esse dramático, mas

maravilhoso tempo. Uma palavra de

simpatia para as raparigas desse

tempo que também contribuiram

com a sua beleza e inteligência

para a riqueza espiritual e cultural

desse Viseu, já tão longínquo.


37

retratos de viseu nos anos 60

.depoimento.

Manuel Maria Carrilho a)

Refere-se sempre, quando se

evocam os finais nos anos 60

em Viseu, o episódio das “boinas

à Guevara” que eu e um grupo

de amigos usámos durante

algum tempo. Muitas vezes me

interroguei porque é que, no meio

de tantas coisas irreverentes

que então se fizeram, essa se

destacou. Mas a razão é simples,

ela está no significado simbólico

desse gesto: não só pela sua carga

revolucionária, dada a ditadura em

que então se vivia, mas sobretudo

pelo facto de ele ter sido assumido

publicamente por um grupo de

jovens estudantes liceais.

Este gesto é, contudo,

indissociável de um contexto que

se viveu em Viseu nesses anos, já

muito marcados por uma rebeldia

civilizacional a que, por exemplo,

“Os Tubarões” tinham dado uma

expressiva forma musical. Para

mim, na altura, a opção pela

boina “à Guevara” teve tanta

importância como tinha tido o uso

do cabelo “à Beatles”, a que só

uma visita surpresa a minha casa

do Senhor Filipe, barbeiro do meu

pai, pôs transitoriamente termo.

Ou o uso de jeans – calças e

blusão “Lee” –, então inexistentes

em Portugal, que eu tinha pedido

secretamente a uma antiga

costureira da minha Avó Georgina,

que vivia nos Estados Unidos, para

me mandar. Em todos os casos,

do que se tratava era sempre

de marcar uma ruptura e de

expressar um desejo de revolução,

cruzando diversos tipos de

reivindicações: de costumes,

de imaginários e de políticas.

O resto viria depois: por um lado,

com as inesquecíveis aulas e

conversas com Osório Mateus,

José Manuel de Melo, Augusto

Saraiva, entre outros.

Com Augusto Saraiva confirmei

o pressentimento de uma vocação

que tinha começado a descobrir

num período de internato no

Colégio dos Beneditinos, em

Lamego, graças às conversas com

um homem singular, o Padre Jorge.

As aulas de Augusto Saraiva

eram momentos de culto e de

inesperados olhares sobre a

realidade, por onde passava tudo,

desde os textos dos filósofos aos

problemas da actualidade.

E, por outro lado, com a criação

de um círculo de cumplicidades

extraordinárias, com o José

Manuel Sobral, o Carlos Pessoa,

o Alfredo Franco-Alexandre, o Zé

Almeida, o Licínio, o Alvarenga...

e tantos mais, que se alimentava

de leituras obsessivas e de

discussões intermináveis.

Aos 17/18 anos, além dos

romancistas e ensaístas

portugueses, devorávamos

Althusser, Levi-Strauss, Barthes,

Foucault, etc., seguindo de perto

todas as indicações que o jovem

Eduardo Prado Coelho dava no

suplemento cultural do Diário de

Lisboa, à quinta feira.

Tudo isto conheceu um epílogo

em 1969, com os acontecimentos

de Coimbra. Mas é também nesse

ano que todos partimos de Viseu

para a Universidade e para outras

aventuras – umas comuns, outras

mais singulares.

a)

www.manuelmariacarrilho.com


38 porViseu ’60s.

.os.bailes.do.

clube.de.viseu.

1 2

1.

Baile no Clube de Viseu

(foto Germano)

2.

Matiné de Carnaval, 1963

No limiar dos anos 60 o interesse

musical da juventude crescia

alimentado pela vulgarização dos

discos de vinil e o aparecimento

dos gira-discos portáteis.

Na música ligeira moderna

estávamos na época madura

do Rock ’n Roll, na moda do Hula

Hoop, e no início do grande êxito

“The Twist” de Chubby Checker.

E a animação repercutia-se em

todos os extractos da sociedade.

Vieram os bailes, alguns com

datas fixas como a Passagem

do Ano, o Carnaval, as Festas dos

Santos Populares e os Bailes dos

Bombeiros Voluntários durante

a Feira de S. Mateus, e outros

com motivos diversos como os

Bailes de Finalistas, as Festas

de Aniversário e, mais tarde,

os Bailes de Garagem.

No Clube de Viseu era êxito

garantido o Baile do Fim do Ano

e a Matiné do dia 1 de Janeiro,

para os mais jovens. No Carnaval

ganhava tradição o Baile de

Máscaras (sábado magro), o Baile

de Gala (sábado gordo) e o Baile

de Carnaval, na terça-feira, além

de uma ou duas matinés para os

mais jovens.

E terá sido inspirado por estas

que, em 1961/62, um grupo de

jovens liderados por E. Faro,

T. Madeira, F. Peixoto e

Q. Cavaleiro, todos na casa dos

17/18 anos, conseguiu o apoio

da Direcção do Clube para a

realização de matinés dançantes,


39

retratos de viseu nos anos 60

de 15 em 15 dias, em que a

música de dança era a dos êxitos

dos discos de vinil que cada

grupo levava para serem tocados

no gira-discos da casa. O preço

de entrada era de 2$50 e mais

tarde 5$00 e as receitas serviam

para a compra de discos, tendo

mesmo em 1962 sido adquirido

um magnífico gira-discos com

duas colunas acopladas. Nestas

matinés cada grupo tentava

“mostrar” o que melhor sabia

dançar em conjunto, do Slop ao

Twist, com os passos estudados

e ensaiados durante a semana

para serem publicamente

demonstrados na matiné

seguinte. Célebre ficou a música

“Baby Elephant Walk” do filme

HATARI (1962) com John Wayne, a)

que inspirou uma coreografia

de dança própria que originou

muitos ensaios e que era

dançada em grupo com passes

cuidadosamente sincronizados.

Esta coreografia manteve-se no

top durante várias matinés, sendo

objecto de vários encore durante

a mesma tarde, com todos os

dançarinos alinhados em longas

filas pelo salão do Clube.

a)

www.imdb.com/title/tt0056059


40 porViseu ’60s.

.west.

side.

story.

Em 1961 surgiu o filme West

Side Story, a) que marcou toda a

juventude dessa época de ouro

e de referência chamada “os

60’s” e criou hábitos e modas que

se reflectiram no dia-a-dia dos

jovens em todo o Mundo.

O enredo do filme, o formato,

a qualidade musical e o casting

eram excepcionais como o

comprovam os inúmeros prémios

recebidos, nomeadamente

10 Óscares e mais de 15 outros

prémios. Com um formato de

opereta musical, abordando

de forma inovadora o tema da

emigração e integração dos

jovens Porto Riquenhos em

Nova Iorque, uma banda sonora

assinada pelo génio Leonard

Bernstein b) maestro, compositor

e educador, ao tempo de todos

conhecido pela televisão com a

transmissão dos seus célebres

Concertos CBS para Jovens com a

Filarmónica de Nova Iorque, onde

com uma excitação e entusiasmo

únicos explicava o ABC da música,

de toda a música, de qualquer

tipo de música.

O filme, considerado um Romeu

e Julieta moderno, retrata a luta

pelo controlo do território entre

dois grupos de jovens rivais

–“gangs”, um de Nova Iorque, os

Jets, e outro de Porto Riquenhos,

os Sharks. E durante um baile, um

dos líderes dos Jets (Tony) cruza-

-se com a Maria, irmã do líder dos

Shark (Bernardo) e nasce uma


41

retratos de viseu nos anos 60

paixão impossível e proibida entre

“gangs” rivais.

Do elenco fazem parte nomes

como Natalie Wood, no papel de

Maria, Richard Beymer, o Tony,

Russ Tamblyn, como Riff, Rita

Moreno como Anita e George

Chakiris, como Bernardo. Eram os

principais actores de um enorme

grupo que dançava, representava

e cantava obras imortais como

“Maria”, “Tonight”, “I Feel Pretty”,

“América” e tantos outros, tudo

grandes músicas que fizeram

sucesso e perduram até aos dias

de hoje.

Foi a 23 de Abril de 1963 que o

filme West Side Story estreou

em Portugal. E terá sido num

dos primeiros fins de semana

de Junho de 1963 que o filme

chegou ao Cine-Rossio de Viseu.

Lembro-me bem do muito que

conversámos, discutimos e

fantasiámos a propósito do filme,

de Nova Iorque, dos personagens,

das músicas, danças e gangs.

a)

www.imdb.com/title/tt0055614

b)

www.leonardbernstein.com


42 porViseu ’60s.

.grupos.e.

clubes.de.

garagem.

1

2

1. 2.

Cartões de membros do Tic Tac

Em Viseu, os cafés também

eram os lugares privilegiados de

encontro e convívio dos jovens

estudantes com afinidades

comuns. Assim havia o Café

Rossio (estudantes e bilhares),

o Café Bijou (futebol), o Café das

Beiras (estudantes da Escola

Comercial), o Monte Branco

(estudantes do Liceu), entre

outros.

Porventura inspirados no West

Side Story alguns destes convívios

deram origem a grupos com

interesses específicos comuns e

que eram catalogados com nomes

próprios. Lembramos o grupo

“Roça o tojo” do Café Rossio, com

interesse nos bilhares e futebol,

o grupo “Arranha Teddy Twist


43

retratos de viseu nos anos 60

Clube”, com a alcunha de “Os

Xibos” por grande parte dos seus

membros usarem pêra, sediado

no Arranha-Céus onde se reuniam

e ensaiavam danças como o Twist

e o Slop que exibiam nas matinés

do Clube de Viseu.

O primeiro clube de garagem

que formámos foi o “Só+2”. Teve

origem durante as férias grandes

num grupo de amigos de Viseu

que conviviam diariamente e o

local de encontro era a casa do

A.A. na Avenida do Liceu frente à

Rua Miguel Bombarda. Ali, numa

vivenda com um grande quintal,

havia muito espaço coberto e

descoberto que nos permitia jogar

futebol, às cartas, matraquilhos,

Monopólio, entre outros. Ficava

situada muito perto do Moinho

de Vento, um descampado onde

podíamos livremente jogar

futebol e era o lugar predilecto

para o início das caçadas aos

gambuzinos, partida muito

frequente que pregávamos aos

alunos novatos recém-chegados

à cidade. O Moinho de Vento

situava-se numa zona que hoje

seria demarcada pela Avenida

do Liceu, Praça de Gôa, Rotunda

Engrácia Carrilho, e a Igreja Nova.

Terminadas as férias retomámos

as aulas e deixou de ser possível

continuar a vida de lazer que

fazíamos até então. O Victor

Barros veio viver para Viseu para

uma casa no Massorim, na Rua

Conselheiro Sousa Macedo,

que dispunha de uma grande

cave e a mãe do Victor, a

D. Margarida Barros, sempre

muito nossa amiga, permitiu que

a passássemos a utilizar aos fins

de semana. No meio dos primeiros

fumos e catarros jogávamos à

lerpa e ao King, ao Monopólio,

e planeávamos as aventuras do

assalto às capoeiras vizinhas,

moda que começou a despontar

na época.

No Liceu e nos explicadores

alargava-se o convívio com

as raparigas. Nós, rapazes,

começávamos a frequentar

os cafés, lugares proibidos e

impróprios para raparigas, que

assim não tinham qualquer local

onde pudessem estar. O seu lugar

era em casa, no colégio, ou no lar.

O convívio com as raparigas

começou progressivamente a ser

mais usual nas festas de anos, na

audição de discos, ou em convívios

combinados. E surge a primeira

festa de aniversário de uma

amiga deslocada na cidade. Logo

organizámos uma festa na cave

do Vitó, com baile, lanche e tudo.

E nasceu a ideia de formarmos

um clube só para os amigos,

com algumas regras. Só podiam

participar os sócios. Admissões

de novos membros só se aceites

por unanimidade. De modo a

mantermos algum equilíbrio entre

rapazes e raparigas, a admissão

de novos membros só era

permitida aos pares.

Nasceu o “Só+2” com Sede na

cave da casa do Victor Barros,

que dispunha de um acesso

independente através do Largo

do Massorim, hoje Largo Tenente

Miguel Ponces, o que nos dava

alguma autonomia.

Normalmente aos sábados

à tarde, raparigas e rapazes

encontrávamo-nos no clube,

conversávamos sobre os mais

variados temas, discutíamos

assuntos escolares, trocávamos

opiniões sobre alguma política,

religião ou outros de interesse

geral.

Sempre que possível nós, os

rapazes, arranjávamos um

motivo para dançar: um novo

disco que nos foi emprestado só

para aquela tarde com o último

êxito do Paul Anka ou do Cliff

Richard, ou um novo passe de

dança inventado na véspera e que

deveria ser já testado.

Tudo servia para quebrar o

(falso) gelo (feminino) e começar

a dança. Depois, com o tempo,

dançar começou a ser mais fácil

e chegou ao ponto de o fazermos

mesmo sem gira-discos, ao som

de um pequeno rádio sintonizado

numa qualquer estação que

transmitisse qualquer tipo

de música.

Começaram assim, para nós,

os Bailes de Garagem.

Vivíamos sempre em festa!

Muito divertidos.


44 porViseu ’60s.

.os.tubarões.

conjunto.

académico.

1

1.

Formação Incial

Setembro era o mês da Feira de

S. Mateus, dos matraquilhos e

das farturas, da gincana e dos

preparativos para um novo ano

escolar. Um mês em cheio!

A mãe do Vitó (Victor Barros),

a D. Margarida Barros, sempre

muito nossa amiga e cúmplice,

atenta aos constrangimentos

que tínhamos no anterior clube

“Só+2” com a utilização da cave

de Massorim, decidiu mudar todo

o espaço e ficar apenas com uma

sala para as suas necessidades

domésticas (estendal e arrumos).

Assim cedeu-nos quase toda a

cave da casa com duas salas e

a entrada. Deu-nos a chave da

porta das traseiras, o que nos

permitia ter acesso directo ao

espaço sem necessidade de

entrarmos na habitação.

Foi a nossa independência.

Acabámos com o “Só+2” e

criámos o “TIC-TAC”, um Clube

de Garagem a sério com regras,

quotas, cartão de admissão,

e uma Direcção eleita com

Presidente e tudo. Tratámos da

decoração, criámos o bar onde

servíamos bebidas e sandes e

comíamos as galinhas roubadas

aos fins de semana. Criámos o

Cantinho, a sala mais pequena

reservada às conversas mais

privadas, e a pista de dança na

entrada. Sempre que era possível

os bailes eram às quartas e

sábados à tarde ao som dos

discos de vinil tocados num

“fabuloso e resistente” gira-

-discos portátil Teppaz-Óscar.

O bar era o local de maior

convívio, com lugares sentados,

e onde o Fifas (António Nogueira

Fernandes) dedilhava as

sequências de Sol, Ré e Dó, e

cantarolava o “Bye Bye Love”,


45

retratos de viseu nos anos 60

“Hello Mary Lou” e outros temas,

e nós acompanhávamos a

cantarolar uma ou outra música

atrevendo-nos progressivamente

a fazer segundas e terceiras

vozes, à medida que aprendíamos

e evoluíamos.

A alcunha Fifas resulta da junção

das palavras Bifas, nome dado

às raparigas loiras da África do

Sul, com a palavra fífias, nome

dado a uma dissonância musical

involuntária.

O Fifas tinha regressado de

Moçambique (Beira) e além de

ser um grande ginasta, até fazia

mortais e flic-flacs na rua, tinha

muito ouvido, tocava viola e

harmónica, solava e até cantava

umas músicas giras, alguns

êxitos recentes do Cliff Richard

e dos “Shadows”, chegando a

dar concertos após o jantar,

para o Sr. Francisco Mendes de

Barros (pai do Vitó) e todos os

presentes, normalmente muitos,

despertando a atenção e os

aplausos de todos. Este facto

foi mais um incentivo para o

desenvolvimento do “TIC-TAC”

pois traduzia o grande interesse

cultural do nosso Clube, dando

alento à criação do Conjunto.

No “TIC-TAC” sempre que a viola

estava livre lá aparecia um mais

atrevido a tentar dedilhar um ou

outro acorde. E a selecção dos

músicos do conjunto foi natural

e directamente proporcional

ao interesse que cada um

ia demonstrando com o seu

envolvimento. Conseguiu-se

outra viola emprestada e o Vitó

começou a acompanhar o Fifas.

Não tardou muito até surgir a

ideia de formarmos um Conjunto.

Primeira e importante tarefa foi

definir quem tocava o quê. Com o

saber inabalável dos 16 anos, lá

se distribuíram as tarefas, duas

das quais por moeda ao ar. O Fifas

ficou naturalmente seleccionado

como viola solo e Mestre. Para

cantar foi seleccionado quem,

além de uma boa voz, forte,

quente ao estilo de um Tom Jones,

tinha muito estilo,

e mais aldrabava o inglês desde o

célebre filme de West Side Story

e as suas inesquecíveis melodias,

que não parava de cantarolar. Tal

tarefa foi atribuída ao José Merino

(Zé). A viola acompanhamento

ficou para o Vitó, que tinha muito

ritmo, bom ouvido e facilmente

descobria e fazia as segundas

vozes. A viola baixo e a bateria

foram distribuídas por moeda

ao ar exactamente entre os dois

elementos com o ouvido mais

duro do grupo. O Luís Dutra, que

ainda hoje não consegue assobiar

uma música no mesmo tom em

que a toca, ficou com a viola baixo

e eu, que nunca consegui arrancar

um único aplauso com a minha

interpretação de “O Pato”, fiquei

com a bateria.

Do filme West Side Story veio

a inspiração para o nome do

grupo: “Os Tubarões” (The Sharks,

um dos grupos do filme cujos

membros e causas granjeavam

maior consenso e simpatias).

Nasceu assim no último trimestre

de 1963 o conjunto com António

Nogueira Fernandes (fundador e

Mestre como viola solo, n. 1948),

José Merino (vocalista, n. 1948),

Victor Barros (viola ritmo, n. 1947),

Luís Dutra (viola baixo, n. 1947) e

Eduardo Pinto (bateria, n. 1947).

Para se identificar como um

conjunto musical jovem de

música pop, amador, formado

por estudantes, utilizava-se

a designação de Conjunto

Académico. E assim adoptámos o

nome de “Conjunto Académico

Os Tubarões”.

Fazíamos os primeiros ensaios

com alguns instrumentos

simulados, outros emprestados,

uns alternando de mão em mão,

com muita vontade em aprender

e muito, muito ouvido a educar.

O Luís Dutra muitas das vezes

simulava o baixo tocando numa

viola invisível que só ele conhecia

e tendo como amplificador a

sua própria voz. Como bateria

qualquer tampo de cadeira servia

de tarola já que não éramos

muito exigentes na sua afinação.

Mas o Fifas não me permitia

qualquer erro nos movimentos

dos pés, que mesmo sem som e

verdadeiramente aos pontapés

no ar, ele vigiava atentamente não

me deixando falhar. Só ele via o

que ninguém ouvia e nos obrigava

a repetir, a voltarmos ao princípio,

pelo erro que só ele entendia.


46 porViseu ’60s.

1

1.

Viola Egmond Manhattan

A minha primeira bateria foi uma

caixa de sapatos e as lapiseiras

Bic eram as baquetas pois os

lápis não serviam por serem

demasiado leves.

O Fifas a todos ensinava,

educava, sempre bem disposto,

cortês e disponível, torneando

com mestria os feitios de cada

um, com uma paciência sem

limites. Com ou sem instrumento

todos os aprendizes participavam

com grande entusiasmo, mesmo

nas sessões especiais de vozes

em que todo o grupo ensaiava

cantarolando determinada

melodia apenas acompanhada

pelo som de uma viola. Era muita

a vontade de aprender, horas e

horas de ensaios, ouvindo em

conjunto vezes sem conta as

músicas que queríamos tocar.

O formato adoptado para o

conjunto era o modelo em

voga com cinco elementos:

vocalista, três violas e bateria.

Os progressos eram visíveis

dia após dia e os acordes da

primeira música começaram a ser

perceptíveis pelos fãs do “TIC-TAC”.

O entusiasmo criou uma

mobilização grande em torno dos

ensaios que deixaram de poder

ser feitos no “TIC-TAC” atendendo

à logística e ao espaço necessário

para os instrumentos, e também

aos requisitos de silêncio e

concentração que obrigavam.

Foi assim transferido o local

dos ensaios para a Casa do Adro

mesmo junto à Sé de Viseu,

(onde vivia o António Júlio

Valarinho, membro do clube,

que era grande e tinha muito

espaço disponível no r/c para

ensaiarmos sem incomodarmos

ninguém).

Foram meses de grande afinco,

perseverança, paciência, com

progressos significativos visíveis

e audíveis semana a semana.

Entretanto soubemos do

lançamento, pela Casa Ruvina

do Porto, de umas violas

eléctricas, formato bacalhau, a

preço muito acessível (1.500$00).

Tratava-se de um modelo da

marca holandesa Egmond,

formado por uma tábua azul

em formato de viola (bacalhau)


47

retratos de viseu nos anos 60

com um microfone branco com

dois potenciómetros, um para o

volume e outro para a tonalidade.

E lá engendrámos um plano para

adquirirmos os dois bacalhaus

que precisávamos. Foram vários

os expedientes utilizados,

nomeadamente o recurso à venda

de moedas antigas de prata que

alguns tinham em casa, e que

a loja de Numismática no início

da Rua Alexandre Lobo junto

ao Largo Marechal Carmona,

nos comprava a bom preço,

pensávamos nós. Após tudo

acordado com a Casa Ruvina lá

foram ao Porto o Fifas e o Luís

Dutra, fardados de estudantes

com capa e batina, num dia muito

chuvoso, buscar os bacalhaus

Egmond. O regresso foi uma

verdadeira aventura pois, sem

dinheiro, só havia uma maneira:

à boleia. Chegaram com a

missão cumprida e foi para nós

uma excitação pegar naquelas

preciosidades. Passámos então

a ensaiar com violas eléctricas

a sério que usavam como

amplificadores dois rádios a

válvulas. E alugámos uma bateria,

a primeira onde toquei, para um

primeiro ensaio a sério já com

todos os instrumentos.

E que ensaio! Um verdadeiro “live

concert” para nós próprios!!!

É de salientar que a maior parte

das famílias dos elementos

do conjunto se conheciam

e estavam a par dos nossos

convívios, encontros e ambições

musicais. E este aspecto

facilitou muito, e sempre, as

nossas movimentações já que

vivíamos num ambiente de grande

confiança e todos sabiam onde

cada um de nós estava.

Era normal jantarmos em casa

uns dos outros e eram os próprios

pais a propiciarem este convívio.

Durante o verão muitas foram

as vezes que, à boleia, fazíamos

com a maior naturalidade o

trajecto Viseu - S. Pedro do Sul,

e por vezes, sem encontrarmos

boleia, fazíamos todo o trajecto

a pé. Podíamos ficar um ou dois

dias uns em casa dos outros, sem

qualquer problema.

Tempos sem sobressaltos.

Nas férias de Natal fomos até

S. Pedro do Sul onde conseguimos

ensaiar no Clube, por cima

do Café S. Pedro, com alguns

instrumentos da Banda de Lafões

e a aparelhagem emprestada pelo

pai do nosso amigo e colega de

Liceu, José Morgado.

O bombo da bateria era o da

Banda, alto e magro, devidamente

adaptado com um pedal que

tanto balançava que se prendia

nas calças, pratos do tamanho

dos de loiça, e a tarola era a

chamada “caixa”. Era o que

havia e a que nos adaptávamos

sempre no desenrasca.

Esta estadia culminou com

uma primeira apresentação

pública completamente

descomprometida no Salão

do Clube de S. Pedro do Sul,

e da qual ninguém se lembra

(felizmente, uff!).

Foi um alegre começo. Vivíamos

momento a momento e, na

música, não tínhamos qualquer

plano ou outra intenção para além

do gosto de aprender, do saudável

gozo de viver momentos de

alegria e de fantasias que tanto

alimentavam a nossa imaginação.

Nascemos assim. Saudavelmente.

Com energia, interesse cultural,

e amantes da música. Para a Vida.


48 porViseu ’60s.

.os.tubarões.

.conjunto.académico.


49

retratos de viseu nos anos 60

50

74

98

127

164

182

185

188

189

190

‘64.aprender.

‘65.crescer.

‘66.conquistar.

‘67.consolidar.

‘68.gozar.

.quem.foi.quem.

.paylist.

.instrumentos.

.e.depois.da.música.

.agradecimentos.


64

51

53

53

54

55

56

56

58

62

68

70

72

.aprender.

.primeiro.trimestre.

.viseu.pop.

.os.condes.

.os.diamantes.

.the.kings.por.joão.correia.dos.santos.

.os.ases.

.os.corsários.

.o.primeiro.concerto.

.termas.de.s.pedro.do.sul.

.dos.bailes.de.garagem.aos.da.gravata.

.antónio.xavier.de.sá.loureiro.

.fim.do.ano.no.hotel.grão.vasco.


os tubarões ’64 51

.primeiro.

trimestre.

a)

pt.wikipedia.org/wiki/Jorge_Costa_Pinto

b)

http://musicasdosanos60.blogspot.

com/search/label/Conjunto%20Jorge%20

Machado

c)

http://musicasdosanos60.blogspot.com/

search/label/Sousa%20Pinto%20e%20

o%20seu%20Conjunto

Nos anos 60 os jovens conheciam-

-se através do convívio com os

filhos dos amigos dos pais, nas

Escolas, nas festas de anos e nos

bailes. E era tradição os finalistas

dos liceus, escolas e colégios

organizarem Bailes de Finalistas.

A pompa e circunstância destes

bailes era ditada pela categoria

das atracções que os animavam.

A 4 de Janeiro de 1964, no

Salão de Festas do Cine-Rossio

realizou-se o Baile de Finalistas

do Liceu do curso 1963/64 com os

Conjuntos de “Jorge Costa Pinto” a)

e “Jorge Machado” b) , e na matiné

o “Conjunto Sousa Pinto” c) , do

Porto. Era uma festa que agitava

a cidade.

No mês de Dezembro os finalistas

tinham cumprido o ritual da

colagem dos cartazes, sempre

com uma ou outra serenata

que até a polícia tolerava, tal

era o divertimento gerado pela

desafinação, alguns exageros,

ou mesmo tropeções por excesso

de garrafão. Este cerimonial

da colagem dos cartazes com

o programa das festas dos

finalistas ocorria normalmente

depois da festa do 1.º de

Dezembro, dia da Restauração,

no Ginásio do Liceu, local que

servia como sala de espectáculos

da casa.

E o Baile de Finalistas, qual festa

de debutantes, com a presença

dos pais e familiares vestidos

a rigor, tinha um ritual com a

música de abertura, com pares

sorteados e alguns negociados

pelos namorados ou candidatos,

devidamente ensaiados para não

haver tropeção.


52 porViseu ’60s.

Uma grande encenação.

Geralmente duas semanas

depois do Baile ocorria o Sarau no

Ginásio do Liceu, um espectáculo

de variedades organizado pelos

Finalistas, que incluía canto,

declamação, teatro e variedades,

e em que os actores e artistas

eram os próprios finalistas.

O Carnaval foi a 11 de Fevereiro.

Os dois conjuntos mais famosos

da cidade eram “Os Diamantes”,

formados pelo Fausto no

acordeão, Quim Guimarães na

viola solo, o Norton na viola

ritmo, o Gualter no contrabaixo

e o Carlos na bateria, e

“Os Condes”, liderados por Camilo

Costa, filho do Maestro Mário

Costa. Eram os conjuntos mais

solicitados para animarem as

festas de Carnaval da cidade.

“Os Diamantes” fizeram o

Carnaval do Clube de Viseu e o

Camilo Costa virou empresário,

fez um acordo com o Cine-

-Rossio na base da consignação

da bilheteira, e promoveu a

realização do Carnaval no Cine-

-Rossio, tendo-nos contratado

como segundo conjunto.

Para nós era uma verdadeira

aventura já que íamos tocar

com um conjunto a sério, com

instrumentos a sério, perante um

público a sério, e com uma curta

playlist. Mas o Camilo Costa e

o Alberto Carrilho, o nosso road

manager, lá nos convenceram.

Felizmente não teve muita

promoção e a noite de sábado,

8, não foi famosa em público.

Saímos cedo e ao passarmos

no Rossio resolvemos ir até ao

Clube onde a festa animava.

Num intervalo, o Gualter dos

Diamantes perguntou-nos se não

queríamos tocar umas músicas.

E lá fomos para o palco, tocámos

duas ou três músicas, recebemos

os primeiros aplausos de um

público muito tolerante que nos

olhava como miúdos.

E fomos convidados para

voltarmos na Matiné de Carnaval,

o que aconteceu, então já com

menos agrado dos “Diamantes”.

Foi o nosso primeiro Carnaval

a tocar, ainda a brincar.


os tubarões ’64 53

vez também tinha um conjunto

musical “Os Condes”. Mantinha-se

no auge da música ligeira

o conjunto “Os Diamantes”,

o mais solicitado para as festas

e bailes da cidade.

.viseu.pop.

1

1.

Conjunto Mário Costa com Gualter

(rabecão), Quim Guimarães (viola),

António Correia (violino), Fausto

(acordeão) e Mário Costa (piano)

Já referi a importância do Maestro

Mário Costa na vida musical de

Viseu nos anos 50 e 60.

Além de toda a actividade musical

que exerceu como professor

e executante, a ele se deve

a descoberta de alguns dos

talentosos músicos e conjuntos

que viemos a encontrar nos

anos 60.

O sucesso da música pop

alastrava em todo o mundo

e chegava a Viseu como o

comprovam os grupos musicais

que entretanto apareceram.

A Escola de Acordeões Mário

Costa mantinha as suas

actividades agora liderada pelo

filho mais velho do Maestro,

o Sr. Camilo Costa, que por sua

.os.condes.

Dando sequência ao excelente

trabalho musical de Mário Costa,

Camilo Costa, o seu filho mais

velho, além de dirigir a Escola

de Acordeões formou o conjunto

“Os Condes”, com alguns dos

elementos da famosa Orquestra

Cine-Jazz do seu pai. “Os Condes”

terão sido formados em 1960

e durado até 1964, com um

repertório tradicional de música

ligeira para dançar.

Camilo Costa ao piano liderava

o quinteto que tinha ainda

bateria, contrabaixo, viola e

o famoso violino de António

Correia, virtuoso executante que

acompanhou durante muitos anos

a Orquestra Cine-Jazz de Mário

Costa.


54 porViseu ’60s.

2.

Conjunto “Os Diamantes”

com Norton (viola), Fausto (acordeão),

Carlos (bateria) e Gualter (rabecão)

3.

Casaco de “Os Diamantes”

2

3

.os.diamantes.

Em 1961, na Escola Comercial

e Industrial de Viseu, hoje

Emídio Navarro, realizou-se uma

festa com teatro e variedades.

Reuniram-se então vários

músicos, entre os quais o

Fausto, excelente no acordeão,

o Gualter, vocalista com boas

interpretações dos êxitos de Paul

Anka como “You are my destiny”

e “Diana”, o Quim Guimarães que

já era famoso com a sua viola de

caixa a interpretar “Os Cavaleiros

do Céu”, e ainda dois outros

elementos, um baterista e um

contrabaixista, para participarem

na festa e acompanharem

outros alunos. Apresentaram-se

como o Conjunto “Os Petas”,

e até chegaram a fazer fotos

promocioniais, mas para além da

actuação na Festa da Escola não

se conhecem outras actuações.

Os três jovens Fausto, Gualter

e Quim Guimarães vieram mais

tarde a formar o conjunto

“Os Diamantes”, depois de terem

passado pelo Cine-Jazz de

Maestro Mário Costa.

Nos “Os Diamantes” o Gualter

começou a treinar o rabecão,

coisa que assumidamente nunca

aprendeu, apesar do malabarismo

que imprimia ao seu instrumento

fazendo-o rodar com alguma

perícia e o Fausto ao piano, sem

nunca largar o seu acordeão,

suspenso num suporte feito

de propósito e à sua medida,

o qual lhe dava liberdade para

grandes fantasias musicais

com enorme alegria em palco.

Aos três juntaram-se o Carlos,

vocalista romântico também

iniciado na Orquestra de Mário

Costa, que se foi adaptando à

bateria, e o Norton, colega do

Quim Guimarães na Escola Emídio

Navarro, sempre muito certinho

na sua viola de acompanhamento.

O seu posicionamento era

genuinamente um conjunto

de música de Baile, com um

repertório actualizado com alguns

dos grandes êxitos da música

ligeira da época.

A carreira musical de

“Os Diamantes” ocorreu entre

1961 e 1964.


os tubarões ’64 55

.the.kings.

por João Correia dos Santos

Iniciaram-se os anos 60

e com eles apareceram grupos

e roqueiros que revolucionaram

a música em todo o Mundo com

grande repercussão também em

Viseu, cidade pacata e puritana,

arreigada aos bons costumes

e isolada no interior de um País

a despertar.

O grande “revolucionário” do Rock

foi sem dúvida Elvis Presley com a

sua música e interpretação.

Na juventude de então havia um

seguidor fiel desse ídolo - Beto

Gonçalves. Nas reuniões de

amigos e festas particulares o

Beto mostrava o seu talento,

com uma voz maravilhosa e com

um jeitão para os requebros

de corpo que tão bem imitava

quase parecia o “original”. No seu

grupo restrito de amigos havia

dois que se destacavam, não só

pelo mesmo gosto da música,

mas também no género – Elvis

e “Beatles” – eu e António Jorge

Ramos Soares. Até aqui éramos

dois bons desportistas, que

representavam o Liceu de Viseu

em várias modalidades contra o

eterno “rival” Escola Comercial

e praticavam atletismo com o

saudoso Sr. Madeira.

O gosto pelas baladas juntou-me

por várias vezes ao Soares num

dueto “perfeito” que despertou o

interesse do Beto na junção dos

dois estilos, onde começámos a

verificar que tínhamos umas vozes

que combinavam na perfeição.

Daí o aparecimento do trio

“The Kings”!!!!

A nossa primeira actuação ocorre

num Sarau do Liceu de Viseu, pela

comemoração do 1º. de Dezembro

de 1961 e que era, na época, um

acontecimento de “vulto” na

cidade. O Beto actuou a solo, bem

como eu e o Soares, em dueto,

e no fim do Sarau actuamos em

conjunto – aqui nasceram os

“The Kings”.

Um episódio pitoresco aconteceu:

no ensaio geral, presenciado e

censurado pelo Sr. Reitor, o Beto

cantou uma música do Elvis “Blue

Sweet Shoes” com uma atitude

de menino bem comportado sem

qualquer gesto mais ousado.

No Sarau, com a “casa” cheia e

todos a puxar por ele, tirou o seu

melhor com requebro de anca

e perna e o Ginásio “foi abaixo”.

Embalados pelo sucesso do Beto

o trio “The Kings” também primou

pela sua interpretação e foi um

final só visto. Escusado será dizer

que no dia seguinte estávamos

na Reitoria com ameças de

suspensão ou mesmo expulsão

pela afronta à moral pública...

Com este sucesso começámos a

encarar a sério uma “carreira” do

trio. Começaram os ensaios no

Orfeão de Viseu, com a orquestra

do Orfeão, composta na altura

pelo Quim Guimarães na viola solo,

Gualter no contrabaixo, Carlinhos

na bateria e não sei se o Sr. Mário

Costa ao piano.

Eram ensaios diários. O repertório

era baseado em músicas do

Elvis, dos “Beatles” e do duo

“Os Conchas”, com muito

sucesso na altura e ainda dois

ou três originais. Começaram

as digressões com o Orfeão de

Viseu pela Figueira da Foz, Aveiro,

Guarda, S. João da Madeira,

Espinho (as que me lembro), bem

como nas Festas do Liceu, sempre

com uma óptima aceitação e

sucesso que nos levou a pensar

em editar um disco.

Na altura, a Valentim de Carvalho

era a editora da moda que apoiava

os grupos rock. Num contacto

informal e depois de terem ouvido

umas gravações acabaram por

nos dizer que – sim senhor –

mas as despesas correriam por

nossa conta. Foi o abandonar do

projecto...

Esta linda e saborosa loucura

durou de 61 a 63. O Beto saiu de

Viseu. O Soares foi para outras

“núpcias”. Eu, João, acabei por ir

estudar para Lisboa... Foi muito

bom enquanto durou...

Recordo, com muitas saudades e

carinho os maravilhosos anos que

se passaram em Viseu, que BELA

Juventude, nos anos 60.


56 porViseu ’60s.

.os.ases.

.os.corsários.

4.

“Os Ases” com Carlos Alberto (piano),

Mesquita (acordeão), Barreira (bateria)

e Fernandito (viola)

5.

“Os Corsários” com Abel Boavida ,

Nascimento, Mesquita, Jé Figueiredo,

Carlos Assunção e Fernandito

6.

“Os Corsários” com Carlos Assunção,

Fernandito, Jé Figueiredo, Mesquita

e Norton

4

5

6

Formados no início de 1964

por elementos provenientes da

Orquestra Juvenil de Acordeões

Mário Costa, designadamente

o Luís Mesquita (o filho mais

novo do Maestro) ao acordeão,

e o Carlos Alberto Sá Loureiro ao

piano, o Fernando Marques Dias

(Fernandito) na viola baixo e o

Barreira na bateria. Não tinham

vocalista e o seu repertório

instrumental era baseado

na música ligeira tradicional.

Actuaram no Clube de Viseu.

A sua vida musical durou até

ao último trimestre de 1964.

“Os Corsários” formaram-se

no último trimestre de 1964

integrando o Luís Mesquita ao

piano, e o Fernando Marques Dias

(Fernandito) na viola solo, ambos

ex-Ases, o Carlos Assunção

na viola baixo, o José Figueiredo

(Jé) na viola acompanhamento,

o José Nascimento na bateria,

e o Abel Boavida como vocalista.

Em 1965 entrou o Norton para

viola solo, o Fernandito passou

a viola acompanhamento, o Jé

passou a vocalista e mais tarde,

com a saída do Nascimento,

passou para a bateria.


os tubarões ’64 57

E esta foi a formação estável que

permaneceu até ao final da sua

vida musical. Era um conjunto

assumidamente de música

Pop com a sua composição

instrumental baseada em três

violas, bateria e teclas.

Em 1965 participaram numa

sessão ié-ié no Salão do

Cine-Rossio com “Os Tubarões”.

Actuaram por inúmeros locais na

região até 1968 quando o serviço

militar obrigatório chamou alguns

dos seus elementos.

Reagruparam-se no ano 2000

numa atmosfera de prazer tendo

actuado em diversas festas e a

28 de Setembro de 2002 fizeram

parte do elenco da festa

“Os Melhores Anos” onde

actuaram juntamente com o José

Cid e a Orquestra “Os Melhores

Anos”.


58 porViseu ’60s.

.o.primeiro.

concerto.

1

1. 2.

Estreia no Clube de Viseu,

26 de Abril

2

Quase todos os dias,

normalmente depois das aulas,

passávamos pelo nosso clube de

garagem o “TIC-TAC”. Aos sábados

tínhamos quase sempre audição

de novos discos e por vezes baile

com ensaios de passes para as

danças das matinés do Clube

de Viseu. Quanto ao conjunto,

continuávamos a ensaiar na Casa

do Adro. Como instrumentos

tínhamos as duas violas

holandesas Egmond Manhattan,

uma viola acústica, a caixa de

sapatos e, quando podíamos,

uma bateria alugada ou

emprestada, mesmo só com

a tarola e um prato.

A nossa playlist iniciou-se com

alguns dos êxitos do Cliff Richard

incluindo, entre outras, as

seguintes músicas: “Evergreen

tree”, “The young ones”, “Bachelor

boy”, “Living doll”, “A girl like you”,

“When the girl in your arms”.

Dos Shadows, só soladas, como

“Perfídia”, “Apache”, “Guitar

Tango”, “Peace Pipe”, “Dance On”

e “Sleep Walk”.

Do Elvis ensaiávamos o “It’s now

or never”, “Tutti frutti”, “Be-bop-alula”.

E também outros êxitos da

época como o “Oh Carol” do Neil

Sedaka, “América”, “La Bamba”

e o “If I had a hammer” do Trini

Lopez, o “Bye bye love”, The Everly

Brothers, “When the saints go

marching in”, Louis Amstrong,


os tubarões ’64 59

“Hello Mary Lou”, Ricky Nelson,

e o “Derniers Baisers” dos “Les

Chats Sauvages”. Incluíamos

ainda algumas outras músicas

instrumentais como as “Crianças

do Pireu”, e o Charleston que

eram sempre bem acolhidas

pelo público, gerando alguma

animação na pista. Um pouco

mais tarde, as músicas dos

“Beatles”.

Foi em Março de 1964 que a

Radio Caroline, a mais famosa

estação clandestina de rádio,

iniciou as suas emissões a

partir de um barco localizado

em águas internacionais ao

largo do Reino Unido. Foi criada

com o objectivo de promover a

novíssima música Pop e os novos

conjuntos musicais que as rádios

tradicionais não passavam, e

algumas até, boicotavam.

A Radio Caroline lançou os

novos conjuntos, discos, singles

e elaborava uma classificação

semanal dos êxitos através

do seu Top Ten. Foi esta a rádio

que promoveu os “Beatles”,

“Rolling Stones”, “Who”, “Animals”,

“Searchers”, “Kinks”, “Manfred

Man”, “Hollies”, “Birds” e muitos

outros, com os lançamentos

antecipados dos seus novos

singles. Tinha um tipo de locução

muito viva e dinâmica que

contrastava com a voz pautada

e respirada da escola de rádio

tradicional.

E nós por cá sintonizávamos

em FM o programa “23.ª Hora”,

um programa da nova geração,

dinâmico e com muita audiência

junto das camadas jovens,

e um pouco mais tarde o

“Em Órbita”, no Rádio Clube

Português. A música Pop ganhava

definitivamente o estrelato.

Em Abril reiniciaram-se as

matinés quinzenais no Clube de

Viseu, sempre aos domingos,

agora organizadas pelo grupo

“Arranha Teddy Twist Club”,

mais conhecidos por “Os Xibos”

liderados pelo O. Martins,

F. Matos, Palhoto e J. Barreiros.

Era o grupo mais próximo

do nosso, cerca de um ano


60 por.Viseu ’60s.

lectivo mais adiantados, e que

acompanhavam à distância as

notícias sobre a evolução do

conjunto. Surgiu então a ideia

de se organizar uma matiné

dançante para a apresentação

pública de “Os Tubarões” junto do

seu público alvo. Aconteceu

a 26 de Abril com instrumentos

e aparelhagens emprestados, em

que ainda um dos nossos rádios

serviu de amplificador da viola

ritmo do Victor.

Foi uma tarde memorável,

um grande sucesso com sala

esgotada, que gerou uma boa

receita a qual permitiu o arranjo

do gira-discos do clube, que já

apresentava sinais de algum

cansaço. Fizémos dois takes de

cerca de uma hora cada com

um intervalo e, no final, alguns

encore, naturalmente a pedido

do público. Dessa data e para a

posteridade ficou esta foto com o

nosso primeiro grupo de amigas,

fãs e admiradores.

Na foto podem ver-se, de cima

para baixo, da esquerda para

a direita: Sá, António Júlio

Valarinho, Tó Fernandes, Tito,

Eduardo Pinto, Cristiano

e mais atrás o Luís Mesquita

e o Carlos Alberto ao tempo do

conjunto “Os Ases” com quem

partilhámos alguns instrumentos

e equipamentos. Ao meio,

da esquerda para a direita:

Zé Sacadura, Luís Dutra, Vitó,

Zé Merino e Frederico.

Em pé, da esquerda para a direita:

Lena Viegas, Graça Ébil, Anita,

Manuela, Helena, Teresa Guerra,

Alcina e Dulce.

Este sim foi para nós o nosso

verdadeiro baptismo de palco,

o nosso primeiro concerto

público, num palco de boas

memórias onde voltámos a actuar

inúmeras vezes.

3

3.

Grupo de amigos no Clube de Viseu.

26 de Abril


os tubarões ’64 61

Regressámos à vida escolar

com alguns ensaios aos fins de

semana, e começámos a ponderar

como e onde poderíamos actuar

nas férias de Verão.

O Beto Carrilho lembrou-se dos

seus amigos da Figueira da Foz e

prontificou-se a ir até lá pesquisar

o mercado. E assim foi. Dotado

de escassas mas generosas

ajudas de custo angariadas por

todos os elementos do conjunto,

assumidas como um bom

investimento, que seguramente

permitiriam sobreviver dia

e meio sem ter de pedir,

e assegurada a dormida onde se

conseguisse arranjar, lá fizemos

as recomendações convenientes

de modo a que não fosse aceitar

qualquer boleia sem verificar as

condições da viatura onde se ia

meter. Certo, certo, é que o Beto

Carrilho após tal experiência

nunca mais foi o mesmo e terá

sido este o primeiro passo de

uma carreira comercial de grande

sucesso. Sucesso pessoal, já

que para o conjunto, contratos,

receitas, pouco. Algumas

ameaças… Mas da Figueira, nada.

Nós nunca o soubemos e ele hoje

ainda não se lembra por onde

andou…

Chegado o Verão e sem contratos

à nossa dimensão lembrámo-nos

de S. Pedro do Sul e das suas

famosas Termas, terra natal do

Vitó, e local de veraneio nacional

com grande frequência e alguma

animação no Verão.

Em boa hora.


62 porViseu ’60s.

.termas.

de.s.pedro.

do.sul.

1

1.

Termas de S. Pedro do Sul

2.

No acampamento com Vitó, Tó Fifas,

Zé Merino e Tó Ventura

a)

http://www.inatel.pt/unidhoteleira.

aspx?menuid=677

2

S. Pedro do Sul foi uma vila à

qual o nosso conjunto teve uma

grande ligação. Era uma terra

onde alguns de nós tínhamos

familiares e (no Verão), as Termas

eram um local de veraneio onde

famílias inteiras iam passar férias

e fazer os seus tratamentos, que

também atraíam muitos turistas

aos fins de semana. A família

do Vitó era de S. Pedro do Sul

onde tinha uma casa enorme

com inúmeras divisões. Os pais

do Vitó, Sr. Francisco Mendes

de Barros e D. Margarida Barros,

eram grandes companheiros dos

filhos e adoravam ter sempre

a casa cheia com amigos e os

amigos dos filhos. E tratavam os

amigos dos filhos como filhos e

todos nos sentíamos bem num

ambiente muito acolhedor. Era

vulgar surgirem repentinamente

dezenas de pessoas e todos se

sentavam à mesa, havia sempre

lugar para mais uns. Os serões

eram animados pois havia sempre

alguém que se sentava ao piano

e aconteciam tertúlias musicais

muito divertidas. Boa atmosfera!

Com um convívio cada vez mais

estreito entre nós, lá íamos

muitas vezes no Verão até àquela

simpática vila de onde, a pé,

facilmente se percorriam os 3km

de estrada até às Termas. As

Termas de S. Pedro do Sul, com

nascentes sulfurosas de água a

68º, têm muita fama desde os

tempos Romanos, tendo sido

frequentadas por reis e rainhas

como D. Afonso Henriques (1169)

e a Rainha D. Amélia (1894),

entre outros. Têm muitos clientes

habituais que anualmente

por ali passam uma ou duas

semanas acompanhados das

respectivas famílias. Vive-se

um óptimo ambiente, calmo e

pacato, aprazíveis arredores

que propiciam agradáveis

passeios junto da natureza,

boa gastronomia, uma praia

fluvial muito agradável e uma

oferta hoteleira diversificada

que inclui um hotel do INATEL

situado no antigo Palace Hotel,

condições que cativam muitas

pessoas que sempre que podem

ali regressam. A povoação ocupa

as duas margens do Rio Vouga

e, ao tempo, o picadeiro era feito

na estrada local, em forma de U,

começando na margem direita

junto ao Hotel Lisboa, frente

ao qual havia um complexo

desportivo onde se praticava

ténis e se tinha acesso à melhor

praia fluvial local, onde se

podiam alugar pequenos barcos

de recreio e gaivotas, seguia

até à ponte ladeada por outras

unidades hoteleiras.

Do lado esquerdo, mesmo

antes da ponte, ficava o Hotel

Vouga, com um piano no bar

onde o nosso amigo Borges, um

verdadeiro animador e contador

de histórias, dava verdadeiros

concertos que atraíam muito

público de dentro e de fora do


os tubarões ’64 63

hotel, o que nos facilitava entrar

em conversa com os novos grupos

de turistas. Antes ainda da ponte,

no gaveto à direita, ficava a

Pensão David, célebre pela sua

cozinha em que a vitela de Lafões

atingia a cotação mais elevada. Já

na ponte, também do lado direito,

havia um caminho de acesso a

um antigo moinho cuja cobertura

foi cimentada permitindo que

tal espaço fosse adaptado e

transformado na primeira boîte

local gerida pelo Carlos Barbosa,

onde viemos a tocar mais tarde.

Passada a ponte seguia-se pelo

lado esquerdo acompanhando

outra unidade hoteleira frente à

qual ficava o jardim fronteiro aos

Balneários Rainha D. Amélia,

ao tempo também chamado

Casino por ali ter funcionado

um nos finais do Século XIX,

princípios do Século XX.

Voltando à rua que acompanha

a margem esquerda do Vouga

com várias unidades hoteleiras

de ambos os lados, seguia-

-se o Balneário de D. Afonso

Henriques à esquerda e um largo

terreno a descer até ao rio, muito

utilizado para piqueniques e

acampamentos. Frente a este, do

lado direito, o antigo e imponente

Palace Hotel, ao tempo ocupado

pela FNAT, hoje INATEL a) .

Todo este trajecto entre o

Hotel Lisboa e a FNAT formava

o picadeiro onde os turistas

passeavam após o jantar, nas

noites quentes de verão tornadas

mais amenas neste passeio à

beira-rio.

Pois no verão de 1964 voltámos

a S. Pedro do Sul e logo nos

constou estar um bom turno nas

Termas. Na nossa linguagem um

bom turno era aquele onde havia

muitas miúdas da nossa idade

e, de preferência, giras. E esta

informação era transmitida pelos

“olheiros” no Café Edgar após

a chegada do respectivo turno:

“Está um turno nas Termas que é

um espectáculo”; ou “Este turno

é uma merda. Só velhos!...” eram

as classificações normalmente

atribuídas a cada turno, e que

diziam tudo o que era importante

sobre os mesmos.


64 porViseu ’60s.

Após o jantar em casa do Vitó e

depois de duas ou três músicas

interpretadas pelo Borges no

piano, lá íamos estrada fora até às

Termas. Primeiro passo era tomar

o café no Hotel Vouga.

O Borges avançava, primeiro com

conversa e depois ao piano, e o

público começava logo a aparecer.

Conversa atrás de conversa lá nos

cruzámos com um grupo muito

simpático e sorridente de Lisboa

liderado pela simpática Vimena,

com a Carla, a Ana e outros.

E a coisa se não faiscou deu bons

sinais luminosos para os dias

seguintes.

Já depois da meia noite, no

regresso a S. Pedro, ponderadas

as circunstâncias do início do

turno deste grupo, a distância a

fazer diariamente até às Termas,

e o facto de estarmos em férias

há algum tempo sem tocarmos,

impeliram-nos a programarmos

um acampamento para aqueles

lados. E assim aconteceu.

Duas tendas, fogões a petróleo,

roupa e cobertores e lá montámos

o nosso acampamento junto ao

rio, no largo fronteiro ao INATEL.

Esta localização não foi escolhida

à toa já que, com a amizade

e cumplicidade do Carlos

Alexandre, filho do Administrador

da FNAT, utilizávamos, um pouco

às escondidas e durante a

hora do almoço dos hóspedes,

os balneários do Palace Hotel

o que nos permitia fazer a nossa

higiene, já que no acampamento

não havia energia nem água

corrente. Mas tínhamos o

equipamento mínimo necessário

para a nossa aventura de

campistas com máquinas

a petróleo para cozinharmos,

alguns utensílios culinários

e alguns géneros alimentícios

que, quando faltavam, eram

abastecidos pela casa do Vitó.

À noite lá íamos até ao picadeiro

namoriscar as meninas e, quando

regressávamos, recorríamos

a pilhas para iluminarmos

o caminho para os nossos

aposentos à beira-rio.

O que é certo é que conquistámos

o primeiro grupo de fãs a nível

nacional, já que as meninas de

Lisboa, mesmo sem nos terem

ouvido cantar começaram a ir

na nossa conversa. Lá devem ter

imaginado que sendo tão bons

na conversa não deveríamos ser

piores nas cantigas…

Foi ainda através do Carlos

Alexandre que conseguimos

um acordo com a FNAT que nos

veio permitir ensaiar no Salão

de Festas, sempre em horários

pré-determinados para não

afectarmos o descanso dos

hóspedes. Em troca teríamos de

animar a festa final de cada turno,

normalmente quinzenais. E assim

foi. Lá nos fomos preparando para

a primeira festa, alugámos as

aparelhagens na Casa Morgado

em S. Pedro do Sul e a bateria

em Viseu no nosso fornecedor

habitual. Era uma bateria antiga

constituída por um timbalão e um

prato directamente suspensos

no bombo, não desmontáveis,

e pela tarola que tinha uma

lâmpada eléctrica no seu interior

para esticar a pele genuína e

mal curtida. O seu transporte

era complicado pelo grande

volume, e o seu aluguer custava

80$00. O Sr. Leopoldo, alfaiate

em Viseu no Largo Marechal

Carmona, confeccionou a primeira

indumentária do conjunto

composta por calças brancas com

uma lista lateral preta e t-shirt

branca; para o vocalista igual

indumentária mas toda em preto

com a lista das calças branca.

As t-shirts tinham um grande

emblema oval bordado a cores na

Singer em Viseu com um T grande

desenhado pelo Zé Merino. Estas

t-shirts eram o orgulho do Beto

Carrilho, talvez por terem sido

bordadas na loja do pai.

Começámos os ensaios diários

musicais e incluímos alguma

coreografia nalgumas músicas,

nomeadamente na de abertura

do concerto. E este aconteceu

integrado na festa de fim do 1.º

turno de Agosto com o Salão de

Festas completamente esgotado,

que contou ainda com a presença

de um grupo de fãs de Viseu

liderados pelo José Alberto

Rodrigues e pelo José Paulo

Girão, vindos expressamente de

comboio para assistirem a tão

importante espectáculo, além

das fãs locais que finalmente


os tubarões ’64 65

poderiam constatar o nosso valor

artístico. A festa começou com a

declamação de poemas, histórias

e anedotas e após uma pequena

peça de teatro cómico, coube-

-nos encerrar o espectáculo.

Iniciámos a nossa actuação com

a música “Round and Round” dos

“Shadows” do filme “Summer

Holiday” com o Cliff Richard,

devidamente coreografada com

passes estudados e combinados

entre os três violas. Foi uma boa

entrada que mereceu inúmeros

aplausos do público e no meio dos

quais iniciámos o “Perfídia”, um

cover também dos “Shadows” que

era muito do nosso agrado.

O Fifas era exímio a solar

“Shadows” e perfeito no

“Sleepwalk”. Logo a seguir o Fifas

arrancou na harmónica de boca os

primeiros acordes do “Evergreen

Tree”, música do Cliff Richard,

com o Zé a entrar em palco com

a sua voz melodiosa e grave que

a todos cativou. E seguiram-se

outras interpretações,

culminando a tarde com o êxito

desse Verão, o “Derniers Baisers”

dos “Les Chats Sauvages”, do qual

o Zé Merino muito gostava e tão

bem interpretava, conquistando

todo o auditório. Houve pedidos

de encore mas os rígidos horários

da FNAT e o adiantado da hora

não o permitiram. Correu bem

este nosso segundo concerto,

o primeiro nas terras de Lafões.

Fomos cumprimentados pelo

Administrador da FNAT que nos

agradeceu a presença e nos

convidou para o jantar desse dia,

cabendo a nossa representação

na mesa da Administração ao

Beto Carrilho. Para nós foi um

excelente prémio que muito

apreciámos e agradecemos, até

porque nos livrou da mixórdia

que seria o nosso jantar no

acampamento, e foi a sorte

grande para os cozinheiros

escalados nesse dia para tão

penosa tarefa. (“Uff! Ainda bem”,

pensámos todos).

No dia seguinte voltámos ao

nosso ritual campista e à escala

de serviço planeada para a

semana. Nesse dia o jantar estava

a cargo do Fifas e de

mim próprio. Para simplificar

a cozinha, procurando manter o

equilíbrio calórico que a equipa

precisava, decidimos fazer uma

super sopa do calhau, mais

forte ainda que a sopa de pedra,

e decidimos incluir todos os

ingredientes disponíveis na

dispensa. Foram couves, batatas

e arroz, salsichas, chouriço e

salpicão, um ovo, e uma lata de

anchovas, esta só para dar bom

gosto(?). Lume aceso e panelão

ao lume e esperámos, esperámos,

esperámos e a sopa nunca mais

fervia. A noite ia adiantada,

a fome apertava, o picadeiro

abria e a sopa nunca mais fervia.

Aproximaram-se as luzes de um

carro e nós estremecemos.

Quem seria àquela hora por

aqueles lados, naquela escuridão?

Ladrões? Um engano? Ou apenas

um desvio de namorados,

perguntávamos nós, meios

incrédulos e um pouco aterrados

com tamanha invasão.

Era o Carlos Barbosa, activo

empresário da região e dono

da “MÓ”, que tendo tido

conhecimento do êxito da

nossa estreia na véspera, nos

queria apresentar uma arrojada

proposta, um verdadeiro contrato

musical para o resto da época.

O ambiente naturista em que

nos encontrávamos, com luz

fraca de candeeiros a petróleo,

sem cadeiras ou qualquer outra

comodidade, levaram o astuto

Carlos Barbosa a sugerir irmos

conversar para a Pensão David.

Foi uma sugestão celestial, de

imediato aproveitada por todos

os esfomeados ainda à espera

do pitéu que nunca mais fervia.

Não hesitaram, levantaram-se de

imediato, entraram no carro do

Barbosa e arrancaram deixando-

-nos a nós (Tó e eu próprio),

briosos e atarefadíssimos

cozinheiros, completamente

sós, à espera que a nossa super

saborosa sopa gourmet aderisse

à fervura que nunca mais atingia.


66 porViseu ’60s.

Face a tal desfeita dos nossos

colegas, o Tó e eu decidimos

não quebrar e aguentar e só nos

dirigirmos à Pensão David quando

pudéssemos levar a sopa que

todos haveriam de provar.

E assim fizemos. Meia hora mais

tarde lá partimos com o panelão

ainda a ferver, sustentado

por panos de cozinha e paus

enfiados pelas asas e tampa

da panela. Fizemos o trajecto

cuidadosa e penosamente a pé,

atravessamos a ponte da queda

de água e lá chegámos à porta

da Pensão. Quando subíamos

as estreitas escadas de acesso

ao Restaurante no 1.º andar eis

que aparece um casal idoso a

descer. Embora exaustos, a nossa

esmerada educação levou-nos

a recuar, devagarinho. Chegados

ao hall um de nós sugere: “…larga

que eu seguro daqui”. Dito e feito.

O outro largou a alça, a panela

escorregou para o chão e a sopa

espalhou-se toda pela entrada da

Pensão, ainda quente e de cheiro

duvidoso, com o resto do grupo a

rir a bandeiras despregadas e o

Sr. David estupefacto sem

perceber nada de tamanha

confusão. Lá nos valeu a Elisa,

filha do patrão, que salvou a

situação. Elisa era muito nossa

amiga e rapidamente tratou da

limpeza do raro petisco espalhado

pelo chão, que exalava um cheiro

pouco agradável mesmo à porta

da cozinha mais famosa da região.

Só visto! Um desastre que só

acontece a grandes e experientes

chefes na busca de novas

experiências gastronómicas.

Acabámos por jantar muito

bem, muito tarde e com um

contrato fechado para tocarmos

na “MÓ” aos fins de semana

compreendendo o cachet o jantar

na Pensão David, e o pagamento

do aluguer das aparelhagens

ao Sr. Morgado. Atendendo ao

adiantado da hora, o Carlos

Barbosa saiu e nós continuámos

na conversa até perto da meia

noite. Quando nos chegou a conta

informámos que a mesma entrava

nas contas do Carlos Barbosa.

O Sr. David ficou de novo sem

saber o que fazer pois não tinha

recebido nenhumas instruções

nesse sentido. Mas perante a

nossa convicção e ainda não

refeito do que fizéramos à entrada

da Pensão, lá teve de aceitar já

que não havia outra alternativa.

E só no final do mês de Agosto

é que o Carlos Barbosa veio a

saber da partida que lhe tínhamos

pregado.

A “MÓ” era um velho moinho

descontinuado, mesmo à beira-

-rio, com o tecto cimentado, uma

protecção rudimentar a toda a

volta e uma área aproximada de

20m 2 . Funcionava como bar e

procurava mais animação com

a introdução da nossa música

ao vivo aos fins de semana.

Começámos a tocar na “MÓ” até

ao final do mês de Agosto, com


os tubarões ’64 67

a aparelhagem alugada em que

uma das colunas de som era uma

típica corneta de som, tradicional

nas feiras da época. Imagine-se

a qualidade do som. Era o que

havia!!!

Continuávamos acampados

à beira-rio, a dormir no chão,

o que nos começou a criar

algum cansaço. Num domingo,

já a manhã ia adiantada e até

chuviscava, fomos surpreendidos

com uma alvorada especial.

Um dos nossos pais tocou

devagarinho nos elegantes

pezinhos que inadvertidamente

saiam da tenda. Remédio santo

para um regresso compulsivo do

seleccionado para casa. Ficámos

abalados. Mas para compensar

tanta tristeza, fomos convidados

pelo Sr. Francisco Barros para

um jantar em S. Pedro do Sul.

Foi mais um verdadeiro pitéu

cozinhado pela D. Margarida,

bem regado pelo vinho do

Sr. Francisco Barros, que nos

arrasou por completo. Depois

do jantar ninguém conseguia

sequer pensar em fazer os 3km

até ao acampamento. Posto o

problema, lá se tentou ver onde

e como poderíamos dormir. Com

a casa cheia, havia apenas uma

solução: o quarto do Zeca. O Zeca,

o irmão mais velho do Victor, não

se encontrava em casa e o seu

quarto era o único disponível

para todos nós, seis pequenos

matulões. Era um quarto enorme

com uma cama gigante, ficava

no 2.º andar e tinha as paredes

pintadas com duas elegantes

figuras femininas nuas a toda a

altura do quarto com pé direito

alto. A cama, embora enorme,

mesmo encostada à parede, só

dava para dormirmos se todos

nos virássemos em simultâneo

para o mesmo lado. Imaginem as

brincadeiras e a desgraça que foi

quando alguém decidiu virar-se

sem avisar. Mas o cansaço e o

sono eram tais que adormecemos

mesmo assim, não se livrando um

ou outro, a meio da noite, de ser

acordado para testemunhar que

afinal era outro e não ele quem

ressonava. Só vivido.

Foi mais um divertido episódio

que nos ficou na memória de tão

gloriosos tempos.

De regresso às Termas e face

ao crescente êxito das nossas

actuações na “MÓ”, cuja lotação

era muito limitada, o Carlos

Barbosa sugeriu fazermos um

baile no Casino, em que o cachet

era 50% da receita das entradas.

E no último sábado de Agosto

lá fizemos o Baile de despedida

das Termas de S. Pedro do Sul

no Salão do 1.º andar que encheu,

apesar do elevado preço dos

bilhetes (7$50).

Em Setembro regressámos a

Viseu onde começava a Feira

de S. Mateus e a moda dos Bailes

de Garagem.

3

4

3.

Zé Merino e Tó Fifas

4.

Corneta de Som

utilizada na MÓ


68 porViseu ’60s.

.dos.bailes.

de.garagem.

aos.da.gravata.

Em Setembro Viseu vibrava com

a Feira de S. Mateus. Chegavam

pessoas de todos os cantos do

País, os emigrantes de longa

distância como o Brasil, a

Venezuela, o Canadá, além dos

Europeus, e todos aqueles que,

embora viseenses, residiam ou

tinham actividades profissionais

noutras paragens.

Em Setembro vinham todos à

Feira de S. Mateus. E a cidade

animava-se muito com mais

trânsito, mais comércio e, à noite,

todos se cruzavam no lindíssimo

picadeiro da Feira tendo como

fundo a melhor e mais imponente

vista da Sé.

Pois também nós, os mais jovens,

aproveitámos esta época pré-

-escolar para iniciarmos uma

nova modalidade de bailes,

geralmente aos fins de semana,

uma mistura do conceito das

matinés do Clube com as festas

de aniversário, com o mesmo tipo

de organização incluindo

o tipo de música com gira-discos

e um pequeno lanche a meio

da tarde, mas realizados em

casas particulares, o que

automaticamente restringia tais

festas ao grupo dos amigos e

conhecidos da casa onde decorria

o baile.

Os primeiros bailes deste tipo

terão ocorrido na Casa das

Águias na Rua do Coval à Cava

de Viriato, casa dos Tios do Toni,

que todos os anos vinha do Porto

com a irmã passar alguns dias

a Viseu durante a Feira, e logo

se seguiram os da Casa do Adro,

por vezes com o pagamento de

uma pequena verba para cobrir

as despesas. Nós continuávamos

a frequentar o nosso clube “TIC-

-TAC”, que terá ultrapassado

os 20 associados, e também

participávamos em todos os

bailes para os quais fossemos

convidados e sempre que os

ensaios do conjunto o permitiam.

E foi moda que pegou e durou

alguns anos, alastrando aos

mais novos. Eram bailes onde

estávamos mais à-vontade,

sem adultos a controlar, com

um comportamento civilizado,

embora um ou outro par, conforme

o jeito ou ela deixasse, dançasse

mais apertado.


os tubarões ’64 69

A Casa do Adro, onde vivia o

António Júlio Valarinho com a sua

mãe e uma empregada chinesa

que tudo percebia mas falava

muito pouco, só era habitada no

1.º piso e dispunha no r/c

de amplas salas desocupadas

e que serviam às mil maravilhas

para a realização de Bailes de

Garagem.

Assim convencemos o António

Valarinho, um dos primeiros e

maiores admiradores dos “Rolling

Stones”, a conseguir da mãe

autorização para ouvirmos discos

nas salas do r/c.

E lá conseguimos realizar

alguns Bailes de Garagem com

bastante sucesso, e também

com alguns dissabores. A mãe do

António Júlio Valarinho gostava

muito de mim por quem nutria

muita estima e julgava-me

um modelo de bom rapaz e a

melhor companhia para o filho.

Num destes bailes o meu par e

namorada estava com uma rinite

arreliadora e teve necessidade de

ir buscar o lenço à sua carteira

que ficara no quarto do Valarinho,

onde se guardavam os casacos

das meninas, em cima da cama.

Acompanhei-a ao quarto pelo

labirinto das escadas e, o sossego

e isolamento, a seguir ao “Oh

Lady” dos “Les Chats Sauvages”,

impeliram-nos para uma pausa

acidental, que nos aquecesse

um pouco mais e resolvesse a

constipação que nos obrigara

a subir. Estávamos nós assim

tão entretidos, e não é que, sem

darmos conta, abre-se a porta do

quarto e a mãe de Valarinho ainda

disse “…Oh António Júlio o lanche

está pronto…, ohhh!!!”.

Foi uma desgraça. Apanhou-nos

em estado de flagrante intimidade

avançada, o que na gíria

significava uma boa e saudável

sessão de marmelada. Imagine-se

a desilusão da Senhora quando

constatou quem era o autor de tal

situação que a todos atrapalhou.

Embora com a rinite curada, foi

uma grande decepção, a festa

ficou estragada e houve uma

interrupção temporária dos

Bailes na Casa do Adro, que só

voltaram a realizar-se muito

mais tarde e sem acesso ao 1.º

andar. E a minha reputação foi

completamente ao ar, tendo sido

parcialmente recuperada após

muitas cunhas e a intervenção

providencial de minha mãe.

Um ou dois anos mais tarde

começaram a generalizar-se este

tipo de Bailes.

Aproveitando uma saída dos pais

logo um filho promovia uma festa

com música e dança lá em casa,

envolta em algum secretismo,

só convidando os amigos mais

íntimos. Participámos nalguns

ali para os lados do Liceu

e divertimo-nos q.b..

Como usual em terras pequenas,

tais festas começaram a

constar e não tardou até que se

inventassem estórias de bailes

com os meninos a dançarem só

com gravata e as meninas só com

peúgas. Na cidade inteira,

do Liceu à Ribeira, não se falava

de outra coisa.

Mente vadia em terra pequena,

dá largas à fantasia…

E assim, que se saiba, acabaram

os Bailes de Garagem.


70 porViseu ’60s.

.antónio.xavier.

de.sá.loureiro.

Em meados do mês de Setembro

recebemos uma má notícia:

a família do Tó Fernandes

(o Fifas) ia viver para Lisboa.

E ele também.

Ficámos em pânico. Então e nós?

O que seria do conjunto sem o

nosso solista, o nosso mestre?

Tudo fizemos para alterar tal

decisão. Falámos com o pai do

Tó e percebemos que também

a participação dele no conjunto

tinha contribuído para tal decisão.

Procurámos alternativas e em boa

hora a encontrámos.

A formação do conjunto “Os Ases”

com piano, acordeão, viola baixo

e bateria, sem vocalista, era

uma solução bizarra que não

conseguia impor-se nem dava

satisfação aos seus próprios

elementos. Este desconforto

facilitou a aceitação do nosso

convite para o Carlos Alberto

Loureiro (Carlos Alberto) integrar

o nosso conjunto. Os seus

atributos encaixavam na

perfeição na nossa formação, pois

além de solista exímio cheio de

vocação, tocava um instrumento

que não tínhamos e que era

complementar aos nossos: piano

ou acordeão. O Carlos Alberto é

um excelente músico que muito

enriqueceu a nossa qualidade

musical, tinha boas bases

musicais aprendidas na Escola

do Mário Costa onde foi um dos

mais jovens solistas, tinha uma

mente aberta e o pai, o Sr. António

Xavier de Sá Loureiro, era uma

pessoa excepcional, Empresário

prestigiado em Viseu, colega de

Liceu dos nossos pais, muito

interessado na carreira do filho

e que adorava acompanhar-nos

e ajudar-nos a solucionar todos

os nossos problemas. E passou

a ser o gestor da nossa carreira

artística, o nosso verdadeiro

Empresário, muito nosso amigo,

apoiando-nos e ajudando-nos

mesmo nos nossos problemas

individuais.

A casa do Sr. Loureiro, situada na

Rua Alexandre Herculano, n.º 79,

passou a ser o nosso escritório.

Passámos ali muito tempo,

sempre muito bem tratados,


os tubarões ’64 71

sempre muito acarinhados com

o apoio de toda a família Loureiro.

Reuníamos, trabalhávamos,

ensaiávamos e petiscávamos

sempre na melhor companhia

do vinho do Dão da Quinta de

Pindelo. E havia sempre um

quarto disponível para quem

viesse de fora e precisasse

de ficar para ensaiar ou tocar.

Um tempo e uma amizade

inesquecíveis.

A ele, ao Sr. Loureiro, muito do

que fomos lhe devemos. Sem ele

nunca teríamos tido a carreira que

fizemos até 1968, sempre com ele

ao nosso lado.

Decidida a entrada do Carlos

Alberto, começámos logo a

ensaiar em casa do Sr. Loureiro,

com os bacalhaus Egmond

Manhattan, uma viola de caixa

como viola baixo, e o piano da

casa. A bateria continuava a ser

simulada com os acessórios que

a imaginação permitia.

O Sr. Loureiro planeou uma ida ao

Porto à Casa Ruvina tendo sido

adquiridos uma pianola eléctrica

para o Carlos, em que o volume

de som era controlado por uma

alavanca na perna direita, uma

viola baixo e um amplificador.

Como sistema de som para as

vozes começámos a alugar uma

aparelhagem ao Sr. Carlos da

loja Órbita na Rua da Vitória,

considerado o melhor técnico

de óculos da cidade, que se

dedicava complementarmente

a actividades de som em

vários eventos da cidade,

nomeadamente a cabine de som

da Feira de S. Mateus. O Sr. Carlos

passou a ser o nosso consultor e

fornecedor das aparelhagens de

voz, sempre recomendando os

microfones Shure.

Já munidos com os instrumentos

necessários, deparámos

com a falta de uma sala para

ensaiarmos. O Sr. Loureiro,

invocando o facto de muitos

dos nossos pais serem Sócios

do Clube de Viseu, conseguiu o

apoio da Direcção daquele clube,

recém-eleita e liderada pelo

Dr. Alcindo Sampaio, distinto

Professor de Matemática e

Mestre que o Regime de então

não apreciava e por esse motivo

impedia que exercesse a sua

actividade no ensino oficial.

O Dr. Alcindo tinha uma sala de

explicações de Matemática,

onde todos andámos, mesmo

ao lado do Snack-Bar Alvorada,

e consentiu que o Conjunto

passasse a ensaiar duas vezes

por semana no Salão Nobre do

Clube. E assim aconteceu até

perto do final do ano.

Reforçámos o nosso instrumental

com a aquisição de uma bateria

em 2.ª mão na Papelaria

Sequeira, localizada na Rua do

Comércio ao lado da Farmácia

Gastromil, e o Vitó teve um óptimo

presente de uma viola Vox branca

muito bonita.

1

1.

Viola VOX Shadow


72 porViseu ’60s.

.fim.do.ano.

no.hotel.grão.

vasco.

1

1.

Hotel Grão Vasco, 1964

(foto Germano)

Nesse ano, 1964, tinha sido

inaugurado o Hotel Grão Vasco,

o primeiro grande Hotel a ser

construído em Viseu. Viseu tinha

como oferta várias Pensões:

André (hoje Rossio/Parque),

Central (muito popular por ter

lançado o primeiro snack-bar,

A Gruta, na Rua da Cadeia com o

famoso prego com ovo a cavalo

por 7$50), Ramboia, Bocage,

Ideal, Passarinho, S. Lázaro, Preto,

Viriato, Lusitana, Parreira do

Minho, e eventualmente outras.

Mas Hotel só havia o Avenida

justificando-se plenamente um

novo Hotel na cidade. Pertencente

à família Ferreira dos Santos,

família muito conhecida e de

prestígio na cidade, donos da

Estalagem Viriato localizada junto

à Ponte de Fagilde a caminho de

Mangualde, o Hotel Grão Vasco

foi construído no espaço do

antigo Quartel e tinha como seu

Director Geral o João Ferreira

dos Santos que quis organizar

uma festa no 1.º Fim do Ano do

Hotel, tendo-nos contratado para

animarmos a noite com o cachet

de 4.000$0. O Hotel esgotou com

toda a elite da cidade a marcar

presença no novo local da moda,

com muitos amigos nossos que

convenceram os pais a estarem

presentes,

e nós começámos o ano de 1965

a tocar num baile que durou até

às 4h. Foi uma excelente e dura

experiência que obrigou a um


os tubarões ’64 73

esforço redobrado uma vez que

éramos um só conjunto a animar

a noite toda. Correu muito bem e

foi muito comentada esta nossa

apresentação ao público da

cidade.

O Hotel Grão Vasco é um dos

nossos locais de boa memória

onde passámos muitos momentos

divertidos e que nos acompanhou

até 1968. Recordamos com gosto

as excursões de americanas,

já entradotas e solteironas, a

quem servíamos de guias pela

cidade e também pelos arredores,

com festas e bailaricos no próprio

Hotel até de madrugada, com

assaltos turísticos a S. João de

Lourosa a casa dos nossos amigos

Rosado, as tertúlias noctívagas

com os amigos mais chegados,

e os encontros discretos com

amigas e namoradas.

Muito do nosso tempo, convívio,

crescimento e aprendizagem

passou por ali.

Ganhámos experiência de vida.

Aprendemos!


65

75

78

80

83

84

85

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90

93

96

97

.crescer.

.crescer.

.Viseu.ié-ié.

.figueira.da.foz.

.rua.dos.ciprestes.

.o.tubarão.

.depoimento.vitor.f.pais.

.o.casino.

.os.amigos.

.de.novo.Viseu.

.quim.guimarães.

.concurso.ié-ié.7ª.eliminatória.

.terraço.das.estrelas.do.hotel.embaixador.

.fim.do.ano.


os tubarões ’65 75

.crescer.

1.

Cine-Rossio, Abril. Da esq. para a dir.:

Eduardo, Fifas, Vitó, Dutra, Zé e Carlos

a)

http://guedelhudos.blogspot.

com/2008/01/thilos-combo.html

b)

http://guedelhudos.blogspot.

com/2010/07/conjunto-jose-novoa.

html

1

1965 foi um ano de muita

determinação do conjunto, que

lhe permitiu assumir desafios a

nível nacional como a presença

no Casino da Figueira da Foz e a

participação no Concurso ié-ié.

A 9 de Janeiro realizou-se o Baile

de Finalistas do Liceu, época

escolar de 1964/65, no Salão de

Festas do Cine-Rossio, com os

Conjuntos “Thilos Combo” a)

e “José Nóvoa” b) .

Nós, no conjunto, procurávamos

de novo um local para ensaiar

já que não era possível

continuarmos a utilizar o Salão

do Clube de Viseu, como tinha

acontecido no último trimestre

de 1964.

Não havia muitas salas

disponíveis na cidade e surgiu

a hipótese de utilizarmos o

Salão de Festas do Cine-Rossio,

cuja taxa de ocupação anual se

limitava ao Baile de Finalistas do

Liceu, e o Gerente, o Sr. Severo,

pessoa muito conhecida na

cidade pela sua Escola de

Condução, pretendia dinamizar tal

espaço com outras actividades.

Fez-se então um acordo de

permuta com o Sr. Severo que

nos permitia ensaiar no Salão de

Festas, em dias determinados e

fora dos dias dos espectáculos

que eram às terças, quintas,

sábados e domingos. Em troca

teríamos de actuar nos intervalos

de filmes musicais, moda recente


76 porViseu ’60s.

em Portugal e no Mundo, surgida

com o sucesso das comédias

musicais do Cliff Richard e de

muitos outros.

O salão do Cine-Rossio

(Piso -1) era o maior da cidade,

todo em cimento e azulejo.

Com a adaptação do edifício a

sala de espectáculos e face à

dimensão do salão, foi o mesmo

aproveitado para a realização

de eventos. Tinha péssimas

condições acústicas avolumadas

quando vazio pois gerava muito

eco. Mas era o que havia e lá nos

habituámos a ensaiar em tais

condições.

Para não prejudicarmos os

estudos ensaiávamos com

moderação duas vezes por

semana, procurando sempre

adaptar da forma mais

conveniente e rigorosa os êxitos

de maior sucesso na época,

devidamente enquadrados no

nosso gosto e competências.

A fama dos “Beatles” estava

sempre em crescendo. Todos

gostávamos dos “Beatles” mas

o Zé Merino devorava toda e

qualquer informação sobre os 4

fabulosos, e quase sabia todas

as letras das suas músicas, coisa

não muito usual. Começámos a

introduzir temas dos “Beatles”

na nossa playlist como o “Do

you want to know a secret”,

“Till there was you”, sem faltar

“Twist and Shout”. Também

apreciávamos muito os “Animals”,

cuja configuração instrumental

era muito semelhante à nossa

com um vocalista, órgão, além

das violas e bateria. Destes

não faltava o “The House of the

Rising Sun”. Mantinhamos outras

músicas e clássicos franceses do

Gilbert Bécaud como “Au Revoir”

e “L’important c’ést la rose”.

No sábado de Carnaval, a 27

de Fevereiro, animámos o Baile

dos Bombeiros Voluntários

de S. Pedro do Sul, contrato

angariado pelo pai do Vitó, onde

apresentámos pela primeira vez

em público a nossa interpretação

da música “The House of the

Rising Sun” dos “Animals”, um

sucesso muito recente que

originou vários encore pela

novidade e pela interpretação.

O Vitó, já na sua viola Vox,

dedilhava muito bem os acordes

da música, o Zé interpretava

como poucos Eric Burdon c) e a

sua voz prestava-se a tal, e o

Carlos Alberto acompanhava-o

superiormente no órgão com

destaque para o solo. Era uma

interpretação muito feliz que

foi muito bem trabalhada por

todos, com algumas adaptações

exclusivas nomeadamente um

andamento em crescendo do solo

com mudança de ritmo.

Sempre que introduzíamos

novos temas no repertório,

nas primeiras apresentações

em público, repetíamos a sua

interpretação várias vezes para

rodarmos.

Por vezes combinávamos com

alguns amigos para fazerem o

pedido de repetição de modo a

que outras pessoas ouvissem e

não desse tanto nas vistas que

éramos nós quem queira repetir

tal música. Foi isso que aconteceu

nesta festa com “The House of the

Rising Sun”, música que começava

a ser passada nas rádios. Logo

durante a tarde, na montagem dos

instrumentos, e com as janelas

do salão abertas, ensaiámos a

música que serviria de chamariz

para o Baile, que encheu e correu

muito bem.

Nas férias da Páscoa, em Abril,

chegou a Viseu o filme Summer

Holiday d) com Clif Richard e) e “The

Shadows” e este foi o primeiro

espectáculo em que participámos


os tubarões ’65 77

ao abrigo do acordo com o Cine-

-Rossio actuando no intervalo.

Por sorte o Fifas estava em

Viseu em férias e voltou a tocar

connosco, o que enriqueceu a

nossa prestação, principalmente

nas músicas dos “The Shadows”

que ele tão bem solava. Actuámos

com a nossa fatiota com uma

camisola de gola alta preta e as

calças brancas com tira negra

lateral para todos os membros

do conjunto com excepção do

vocalista, que tinha calças pretas

com tira lateral branca. Correu

bem e tivemos muitos aplausos.

Para nós foi de facto o último

espectáculo com o Tó Fernandes,

fundador e formador do grupo.

Até Setembro de 1965 mantivemos

a seguinte formação: Carlos

Alberto (teclas), Eduardo Pinto

(bateria), José (Zé) Merino,

(vocalista), Luís Dutra (baixo),

Victor (Vitó) Barros (viola ritmo).

2

c)

ericburdon.ning.com

d)

www.imdb.com/title/tt0057541

e)

www.screenonline.org.uk/film/

id/547334

3 4

2.

Cine-Rossio, anos 60

(foto Germano)

3.

No palco do Cine-Rossio, Abril

4.

Na plateia do Cine-Rossio

(foto Germano)


78 porViseu ’60s.

.Viseu.ié-ié.

1.

“Os Corsários” no Cine-Rossio

2.

Viola EKO de “Os Corsários”

a)

guedelhudos.blogspot.

com/2010/01/festivais-ye-ye-emportugal.html

1

2

Em Maio de 1965, na sequência

do ambiente musical que explodia

com os êxitos da música Pop,

os filmes musicais, e os festivais

de música ié-ié, realizou-se no

Salão do Cine-Rossio um Festival

ié-ié com “Os Corsários”

e “Os Tubarões”.

O Sr. Severo, Gerente do Cine-

-Rossio, tinha estado em Lisboa

em reuniões relacionadas

com a gestão da única casa de

espectáculos da cidade, e tomou

conhecimento do sucesso dos

Concursos como o do Rei do Twist,

Concurso Tipo Shadows, Festival

de Ritmos Modernos e o Festival

ié-ié do Coliseu a) , entre outros.

Como procurava dinamizar a

utilização do Cine-Rossio quis

então organizar um Festival ié-ié

em Viseu. Pesquisado o mercado

facilmente pôde constatar que,

além de nós, só existia outro

conjunto, “Os Corsários”, cujo

perfil musical era enquadrável

em tal Festival. E realizou-se

o referido Festival no Salão do

Cine-Rossio, mais numa versão

de concerto com dois conjuntos

do que propriamente um Festival


os tubarões ’65 79

com vencedores e vencidos,

embora se tenha criado a ideia

de um confronto musical entre os

grupos da cidade.

Formaram-se claques, criaram-

-se cartazes como o da foto

“Corsários pesquem Os Tubarões”,

o Salão encheu-se de fãs que

gritavam manifestando as suas

preferências.

Foi uma tarde de domingo

animada que correu sem

qualquer incidente, sem

alinhamento nem júri, em que

cada conjunto apresentou as suas

interpretações musicais, sempre

com algum ruído da plateia

que aos gritos ou assobios,

manifestava o apoio ao seu grupo,

tal e qual como se de uma equipa

de futebol se tratasse.

Não deve ter sido um grande

sucesso de bilheteira já que

nunca mais se repetiu tal tipo

de Festival.

Embora oriundos da mesma

terra, não foram muitas as vezes

em que actuámos juntos com

“Os Corsários”. Participaram no

nosso III Aniversário em Abril de

1968, tocámos juntos num Baile

de Finalistas de Carregal do Sal e

num outro em Canas de Senhorim.


80 porViseu ’60s.

.figueira.da.foz.

1 2

1.

Fonte luminosa

da Figueira da Foz

2.

Praia da Figueira da Foz

1960

a)

guedelhudos.blogspot.com/search/

label/Festival%20da%20Figueira%20

da%20Foz

Seguramente a carreira de

“Os Tubarões” não teria sido o

que foi se o conjunto não tivesse

passado pela Figueira da Foz.

Foram quatro anos vividos de

forma muito intensa em todos

os aspectos. De 1965 a 1968

passámos o Verão naquela

linda cidade, contactámos com

públicos de várias origens,

convivemos com músicos

excelentes com quem muito

aprendemos quer em termos

musicais, quer em termos de

trabalho e fizemos muitos amigos.

A Figueira da Foz era a praia da

moda e atraía muitos turistas.

Além da sua beleza natural,

da sua praia com um areal

interminável, a Figueira oferecia

uma série de atracções únicas,

devidamente promovidas, como

a realização de um Festival da

Canção a) , provas nacionais de

Rally, o Casino com Variedades de

elevado padrão internacional e o

Jogo, que também atraía o público

internacional, destacadamente

o espanhol. Também todos os

Verões uma larga comunidade

viseense rumava à Figueira.

Então o Sr. Loureiro, munido das

fotos da nossa actuação no Cine-

-Rossio e da crítica dos jornais,

foi falar à gerência do Casino

da Figueira da Foz oferecendo

a actuação do conjunto, gratuita,

numa matiné a realizar num fim

de semana, a qual ficou marcada

para um sábado, dia 15 de Maio.


os tubarões ’65 81

Ensaiámos ainda com mais afinco

com a inclusão de novos temas.

O Sr. Loureiro trocou a pianola do

Carlos Alberto por um novíssimo

orgão Farfisa Compact Uno, com

pedaleira, acabado de chegar

à Casa Ruvina, e no sábado lá

fomos até à Figueira no Taunus

do Sr. Loureiro, completamente

carregado e com seis pessoas

a bordo: o Sr. Loureiro, os cinco

artistas e ainda os instrumentos.

Actuámos no Grande Casino

Peninsular da Figueira da Foz,

numa matiné realizada no Salão

de Café só com “Os Tubarões”

em palco, e no público também

estavam viseenses que se

deslocaram propositadamente

para nos apoiarem pois não

queriam perder momento tão

importante na vida do conjunto.

Fizémos dois takes separados

por um intervalo, após o qual

tivemos uma desagradável

surpresa: tínhamos regressado

ao palco, e já com os acordes da

primeira música no ar, quando o

Luís Dutra se apercebe que a sua

viola baixo estava completamente

desafinada (certamente por

graça, durante o intervalo, alguém

desafinou as quatro cavilhas da

viola baixo). Valeu-nos a presença

de espírito e o virtuosismo do

Carlos Alberto que de imediato

começou a fazer o baixo com o

pé esquerdo no seu novo Farfisa,

enquanto o Dutra desligava o

volume da sua viola, simulando

que continuava a tocar. No fim

da música lá se afinou a viola e

o concerto continuou e terminou

até com a distribuição de

autógrafos, facto a que ainda não

estávamos habituados.

Saímos do Casino com algumas

promessas e seguimos de

imediato para a Mealhada,

Quinta do Carvalhinho na

Ventosa b) do Bairro, que continua

famosa pelos seus vinhos e

espumante. Trata-se de uma

casa solarenga com uma grande

quinta, propriedade da família

Navega, amigos dos nossos pais,

que davam nessa noite mais uma

das suas habituais festas, e nesta

nós éramos a atracção. Embora

cansados, depois de uma curta

partida de bilhar, lá actuámos

animando os foliões até às tantas.

Saímos de madrugada e mal nos

sentámos no carro adormecemos

que nem pedras até Viseu.

Coitado do Sr. Loureiro, aturou-

-nos cada uma…

Regressámos à cidade e aos

estudos onde o fim do ano lectivo

se aproximava bem como as

férias de Verão.

3

4

3.

Primeiro Orgão Farfisa dos Tubarões

4.

Solar da Quinta do Carvalhinho

b)

www.quintadocarvalhinho.pt/

v2main/index.htm


82 porViseu ’60s.

c)

guedelhudos.blogspot.com/2007/10/

agora-que-rtp-sem-preconceitos-e.

html

d)

historiaeciencia.weblog.com.pt/

arquivo/040789.html

Na imprensa começaram a sair

notícias a anunciar a realização,

no Teatro Monumental de Lisboa,

de um Grande Concurso ié-ié

organizado pelo Movimento

Nacional Feminino a favor das

Forças Armadas no Ultramar,

com o apoio do jornal diário

O Século, da Emissora Nacional,

da Radiotelevisão e do Rádio

Clube Português c) .

“O Movimento Nacional Feminino

(MNF) d) (1961-1974) foi uma

organização de suporte do Estado

Novo criada por iniciativa de

Cecília Supico Pinto e apoiada

por António de Oliveira Salazar,

voltada para a organização

das mulheres em torno do

apoio à Guerra Colonial, em

particular quando o conflito em

Angola, Moçambique e Guiné se

intensificou.”

Participar neste concurso era

uma grande oportunidade para o

nosso conjunto que não podíamos

perder. Tínhamos de concorrer.

Preparámos a nossa candidatura

e procedemos à respectiva

inscrição ficando a aguardar

notícias sobre o desenrolar do

concurso.

Por esta altura, primeiros dias

do mês de Junho, um conhecido

empresário viseense, proprietário

da Agência de Viagens Novo

Mundo, realizava um grande

investimento num restaurante a

inaugurar no Verão, localizado na

marginal da Figueira da Foz.

E firmou o compromisso com o

Sr. Loureiro dizendo que nos

queria como conjunto privativo

para fazermos matinés e

animarmos as noites após os

jantares. Era um compromisso

aliciante e uma vez que o

Casino não tinha concretizado

qualquer proposta, assumimos

tal obrigação mesmo sem

contrato escrito, já que era uma

pessoa conhecida e de Viseu.

O nosso cachet era baseado

nas receitas de bilheteira.

Preparámo-nos musicalmente

actualizando a nossa playlist

com os novos sucessos do

Verão, encomendámos novas

indumentárias na Alfaiataria

Sousa da Rua Direita,

nomeadamente um smoking

azul e umas calças beges aos

quadrados com uma grande boca

de sino, e o Sr. Loureiro alugou um

T4 na Figueira da Foz, na Rua dos

Ciprestes, para a nossa estadia no

Verão.

No sábado, 31 de Julho lá fomos

até à Figueira da Foz e instalámo-

-nos na Rua dos Ciprestes.

Primeira tarefa foi distribuir

os quartos/camas por cada

um de nós, incluindo o quarto

independente do Sr. Loureiro,

logo à entrada do lado esquerdo.

E arrumámos os géneros

alimentícios vindos directamente

de Pindelo, incluindo o néctar

de uma das melhores encostas

do Dão, a Quinta de Pindelo de

Silgueiros.


os tubarões ’65 83

.rua.dos.

ciprestes.

Naquele Verão, o nosso “Lar

doce Lar” situava-se na Rua

dos Ciprestes n.º 6, 2.º, uma

transversal à Av. 5 de Outubro,

Largo do Carvão, frente à Marina.

Tratava-se de uma casa de quatro

assoalhadas onde dormíamos,

descansávamos e convivíamos

com os muitos amigos que

diariamente por ali paravam

e alguns ali pernoitavam.

Entre as muitas brincadeiras

próprias de um grupo de jovens

na casa dos 18 anos, recordamos

o muito pão quente que, nas

madrugadas depois de tocarmos,

quando regressávamos a casa,

subtraíamos do saco do pão

pendurado na porta do 1.º andar

do prédio onde, viemos a saber

mais tarde, vivia o Comandante

da Polícia; as inúmeras

patuscadas sempre muito bem

acompanhadas pelo melhor

vinho tinto do Dão produzido

pelo Sr. Loureiro; as surpresas

do Sr. Loureiro quando chegava

inesperadamente ao seu quarto e

o encontrava ocupado pelo Carlos

Alberto a confessar os seus

pecados a uma boa companhia,

para não falar das partidas

pregadas aos mais dorminhocos.

Temos muitas e boas recordações

da Rua dos Ciprestes à qual, no

final do Verão, alguns chamavam

a Casa dos Ciprestes na Rua

d’ “Os Tubarões”.


84 porViseu ’60s.

.o.tubarão.

1

1.

O primeiro grupo de fãs

da Figueira da Foz

A inauguração do Restaurante

O Tubarão (tal nome não foi

coincidência) ocorreu no Domingo

dia 1 de Agosto, com lotação

esgotada e serão musical de

retumbante sucesso. Fazíamos

matinés entre as 16h30 e as

19h30 e serões a partir das

22h30. O restaurante esgotava

e os horários tornavam-se

incompatíveis com o serviço

do restaurante que era lento,

não rotinado e com deficiente

controlo. O que se pretendia

como um restaurante de prestígio

transformou-se, por força da

quantidade de público jovem,

num bar permanentemente

esgotado, com gente por todo

o lado até dançando na rua ao

som da música do conjunto.

O Tubarão tinha sido devidamente

planeado para ser um restaurante

de 1.ª, tinha recrutado pessoal

pouco experiente em restauração

e não tinha ninguém capaz de

gerir espectáculos ou bares

musicais, tendo descurado o

método de controlo das entradas

e consumos nas matinés e soirées

dançantes. Nas matinés não era

tão difícil pois só se iniciavam

após o serviço de almoço ter

terminado, sendo fácil controlar

as entradas e as senhas de

consumo. Mas à noite, em que

nós começávamos a tocar às

22h30 ainda com o serviço de

jantar a meio, alguns clientes a

quererem ficar um pouco mais


os tubarões ’65 85

a ouvir música, e os jovens a

entrarem e sentarem-se já para

a soirée musical, gerava-se

sempre uma tremenda confusão

entre quem estava a jantar e

quem só ia para a diversão.

Certo é que o restaurante ficava

totalmente cheio, com filas à

porta, com grande animação

na pista, mas sem haver um

controlo eficaz das entradas, dos

consumos e da lotação. E a nós,

no Tubarão, não nos pagavam

nem davam qualquer informação

sobre a evolução das receitas,

o que começou a criar-nos uma

situação delicada, que chegou à

ruptura após 11 dias seguidos de

trabalho. Decidimos denunciar

publicamente tal situação.

Quando nos preparávamos para

iniciar a noite musical, tudo

preparado, montado e prontos a

actuar, já com o público da noite

na sala, informámos que não

tocaríamos mais e explicámos as

razões. O público compreendeu

e até nos aplaudiu. E a notícia

correu célere por toda a cidade.

Entretanto as matinés do Casino

estavam fracas, quer porque

o Casino não tinha uma oferta

musical dirigida ao público

jovem, quer porque também se

ressentia do sucesso das tardes

do Tubarão. O Victor Pais, nosso

amigo e familiar da Administração

do Casino, entrou em contacto

connosco para saber da nossa

disponibilidade em tocarmos no

Casino. Rapidamente chegámos a

um acordo e iniciámos as nossas

actuações numa matiné no Salão

de Café do dia 13 de Agosto de

1965, dois dias depois de termos

saído de O Tubarão.

Apresentados no Grande Casino

Peninsular como o “Conjunto

Sensação ié-ié”, a primeira matiné

encheu e fomos agraciados com

fortes aplausos.

E o Sr. Mendes Pinto sorria e

dava-nos os parabéns neste início

de uma relação sempre muito

cordial, amistosa, de grande

confiança e respeito que perdurou

até 1968.

.depoimento.

Vitor F. Pais

Na década de ouro do passado

século da música ligeira,

a Figueira da Foz procurava

acompanhar os ritmos da época,

principalmente durante o período

balnear.

A Figueira enchia-se de

veraneantes, portugueses e

espanhóis, mas também de outros

países da Europa que escolhiam

a Figueira da Foz para local de

veraneio.

As modas do tempo chegavam

e eram facilmente adoptadas

e rapidamente passavam a fazer

parte da vida do dia-a-dia dos

que por cá estavam.

O Casino era um dos ex-líbris

locais, mas tinha dificuldade em

cativar a juventude que facilmente

aderia à moda das noites nas

discotecas onde se impunha o

espírito jovem e descontraído dos

novos tempos.

Foi neste contexto que abre nesse

ano na Figueira O Tubarão para

tentar cobrir a inexistência de um

espaço tipo discoteca ou local de

diversão nocturna por excelência

dos jovens dos dezoito aos trintas

e... Era uma sala de restaurante,

com a frente envidraçada sobre

a marginal e que após o serviço

de jantar corria as cortinas sobre

a esplanada e se tornava sala de

discoteca improvisada entre as

onze e as quatro da manhã.

O sucesso foi imediato, e apesar

da capacidade do espaço ser

reduzida, a sua abertura veio

tirar às noites do Casino, alguns

dos seus frequentadores mais

assíduos e carismáticos que,

davam às suas noites um glamour

imprescindível.

Foi portanto fácil, com o apoio do

meu tio, convencer o Sr. Mendes

Pinto que a melhor e mais fácil

solução era pôr “Os Tubarões”

a animar as noites do Casino.

Este foi o princípio de uma relação

de sucesso para todos.


86 porViseu ’60s.

.o.casino.

1 2 3 4 5 6

1. 2. 3.

Programas do Casino

4. 5. 6.

Carteiras profissinais

O Grande Casino Peninsular da

Figueira era em 1965 um grande

complexo multidisciplinar de

lazer com vários ambientes:


como “O Pátio das Galinhas”,

situada no átrio do Casino, com

um gradeamento alto na parte

frontal, uma cobertura em lona,

mesas redondas em ferro e

cadeiras de verga, era o ponto de

encontro de todos: pais, filhos,

avós e netos, e também os amigos

e as esposas dos jogadores.

Toda a Figueira passava por ali,

antes ou depois do cinema, da

tourada, da matiné, do jogo, da

garraiada, ou do espectáculo;


um pé direito muito alto que

culminava em ogiva, com uma

grande galeria de 360º, onde

se realizavam as matinés, as

garraiadas e os espectáculos

nocturnos durante a semana.

Aos sábados ou nas grandes

enchentes servia como

2.º Salão de Baile;


anos 20, de forma quadrada, de

estética única com magníficas

pinturas e lustres imponentes,

enormes espelhos verticais em

todas as paredes, foi sempre

a verdadeira sala de visitas do

Casino que se engalanava para

as noites das Estrelas. Ainda hoje

tem várias lápides com o nome

dos grandes artistas que por

ali passaram como Amélia Rey


os tubarões ’65 87

Colaço, Amália Rodrigues

e também a Maria Clara que

imortalizou a cidade com a sua

célebre canção a ela dedicada;


americana, banca francesa,

black-jack e outros jogos de

casino;

Boîte, para adultos, com

conjunto e variedades próprias;

O Cinema e uma Sala de

Exposições sempre com

actividades diversificadas nos

temas e nas artes.

O edifício original do Casino é do

Séc. XIX e a construção do Salão

Nobre data de 1898. A primeira

Concessão de Jogo data de 1928.

As nossas actuações no Casino

prolongaram-se

até ao final da época do mês de

Setembro. Em termos musicais o

Casino foi a nossa grande escola

musical.

Em primeiro lugar, facto relevante

que cumprimos, cada um de

nós teve de adquirir a Carteira

Profissional de Músico para

concretizarmos o contrato oficial

com o Casino.

No Casino encontrámos,

convivemos e alternámos com

músicos profissionais fabulosos

que cumpriam rigorosos

métodos de trabalho e eram

muito responsáveis. Tocávamos

diariamente para públicos

diversificados, o que nos obrigava

a ter activa uma playlist muito

completa, e ganhámos grande

flexibilidade e experiência nas

actuações ao vivo.

Neste ano de 1965 conhecemos

o fantástico conjunto italiano

“I Don Giovanni”, artistas

nacionais e internacionais de

grande prestígio como a Gelú,

o “Duo Ouro Negro” e a Madalena

Iglésias. Quando passámos do

Tubarão para o Casino juntámo-

-nos aos conjuntos então

residentes, com quem passámos

a partilhar a restante época:

“I Don Giovanni”, “Sousa Tavares”

e “Sérgio e sua Orquestra”.


88 porViseu ’60s.

.os.amigos. Na Figueira da Foz fizemos muitas

e grandes amizades, as quais

perduram até aos dias de hoje.

Recordamos o grupo da Figueira

com muitos amigos como o

Victor Pais, os irmãos Beja com

a sua Vela Solex, o Jorge Raio e

o seu Fiat 600, o Cró, o Jobé, o Zé

Lemos, o Gina, o Beli e ainda as

1 2 Primas Seco, a Manuela Bolacha,

1. 2.

Programas Casino

e a Fernanda. O grupo de Coimbra

liderado pelo Né Brinca com o seu

Hilman Imp e o Cortesão.

O grupo muito animado de

Maiorca com as manas Pontes

de Sousa, o grupo de Lisboa

com as manas Pétinhas, o grupo

espanhol liderado pela Api e pelo

Manolo e os holandeses liderados

pelas manas Yoko. Muitas e boas

saudades.

E não podemos esquecer os

lugares por onde passávamos

como o Café Nicola com o seu

famoso bife à café, os pregos da

Sacor junto à Estação de caminho

de ferro, as paellas na Praia com

o grupo espanhol, a Serra das

Óptimas Viagens, o Clube de Ténis,

as festas na casa do Vitor

Pais, etc… sem nunca faltar

o amendoim, sempre do melhor

e bem torradinho e as melhores

pevides do mundo que o

Sr. Loureiro nunca se esquecia de

nos abastecer.


os tubarões ’65 89

.de.novo.Viseu.

1

2

3 4

5

6

1.

Hotel Lisboa

2.

Termas de S. Pedro do Sul

3.

Programa baile

em Sabugosa

4.

Conjunto no Hotel Lisboa

5.

Amplivox Farfisa

6.

Farfisa TR60

No mês de Setembro regressámos

a Viseu e aos ensaios no Cine-

-Rossio. Cumprimos vários

contratos musicais como na

Festa das Vindimas em Sabugosa,

no Baile de Máscaras do Hotel

Lisboa nas Termas de S. Pedro do

Sul para encerramento da época

e alguns outros.

As eliminatórias do Grande

Concurso ié-ié tinham começado

a 28 de Agosto. Realizavam-se

nas tardes de sábado no Teatro

Monumental em duas sessões,

servindo a primeira como ensaio,

sem Júri, e a segunda é que era a

valer. Normalmente participavam

cinco conjuntos por sessão.

Aguardávamos a convocatória.


90 porViseu ’60s.

.quim.

guimarães.

1.

Quim Guimarães

2.

Formação do conjunto com o Quim

Guimarães na viola solo

(1º. da esquerda)

3.

Conjunto no Cine-Rossio

a caminho do Concurso ié-ié

4.

Viola Hofner

5.

Ensaios para o Concurso ié-ié

1

2

3

4

5

Em Viseu, em Setembro de

1965, corria a notícia de que

o conjunto “Os Diamantes”

tinha cessado a sua actividade

musical. Nele tocava viola o

Quim Guimarães (n. 1945), dois

anos mais velho do que nós,

que era um virtuoso intérprete

daquele instrumento, músico

muito conhecido e apreciado na

cidade nomeadamente pelo arrojo

em adaptar e interpretar êxitos

clássicos à viola eléctrica, como

o voo do moscardo. Surgiu-nos

a ideia de o convidarmos para

nosso viola solo, colmatando

a falta que tínhamos desde

a saída do Tó Fifas no final de

1964. Sabíamos que ele nutria

alguma simpatia pelo nosso

conjunto e tinha afinidades com

o nosso género musical Pop mais

moderno do que o praticado pelos

“Diamantes”. Não foi fácil a sua

entrada para o conjunto pois os

pais do Quim não andavam muito

satisfeitos com os resultados

dos seus estudos e como tal não

queriam consentir nova aventura

musical. De novo nos valeu a

experiência e o saber do

Sr. Loureiro, amigo pessoal

do pai do Quim, que após

várias conversas lá conseguiu

o respectivo acordo. Para o

conjunto foi muito importante

a entrada do Quim Guimarães

como novo viola solo, pois além

do saber, tinha muita experiência

musical feita em vários conjuntos,


os tubarões ’65 91

tinha gosto e muita sensibilidade.

Renovámos e melhorámos

substancialmente a nossa

aparelhagem e instrumentos

com a aquisição de uma viola

Fender Stratocaster vermelha

para o Quim Guimarães, uma

Hofner de meia caixa para o Vitó,

uma nova viola baixo, adquirimos

nova aparelhagem de voz com

os primeiros microfones Shure e

ainda o primeiro amplificador Vox

AC30. Começámos a ensaiar no

Cine-Rossio preparando a nossa

participação no ié-ié.

Nos ensaios, sempre que alguma

música ou som não fosse do

agrado do Quim, ele parava de

tocar, saía do palco e ia para a

assistência ouvir-nos, esmiuçava

todos os instrumentos e sons

e obrigava-nos a repetir até

perceber e levar-nos a corrigir o

pormenor que não lhe soava bem.

Com ele começámos a interpretar

músicas de uma craveira musical

mais exigente quer na vertente

instrumental quer na vertente de

vozes.

Os ensaios no Cine-Rossio

começaram a ter muitos amigos e

assistentes que gostavam de nos

ouvir e acompanhar os nossos

ensaios. Alturas houve em que

tivemos de restringir o acesso

aos ensaios de modo a podermos

estar mais concentradas no

nosso trabalho. Eis alguns

dos amigos chegados que nos

acompanhavam na altura:


92 por.Viseu ’60s.

6

6.

Ensaios para

o concurso ié-ié


dia-a-dia, pianista com bom

ouvido musical, que conhecia de

cor e salteado o nosso repertório

musical, e que saltava sempre

para o teclado quando o Carlos

Alberto não estava ou não podia

tocar;


grupo de fãs da Avenida do Liceu;


o Rui Oliveira e Costa (que nós

tratávamos por Ruizinho da

Tentadora, café em Campo de

Ourique onde o Rui parava muito),

ao tempo ligado aos “Sheiks” e

aos conjuntos do seu amigo Luís

Moutinho, que mostrava estar a

par das modas e dos êxitos mais

recentes em Inglaterra, fazendo

alguns comentários e sugestões

que nós aproveitávamos;


férias com a família o José Balula

Cid, que veio a ser famoso como

cavaleiro e mestre de equitação,

e não perdia um dia da sua

estadia sem estar connosco

e nos brindar com as suas

interpretações jazzísticas

ao piano, das quais muito

se destacava a superior

interpretação de “O Sol de

Inverno”.


os tubarões ’65 93

.concurso.ié-ié.

7.ª.eliminatória.

1.

Viola Fender Stratocaster

1

Chegou a convocatória para a

7.ª eliminatória do Concurso

ié-ié marcada para sábado,

9 de Outubro, com a participação

d’ “Os Kzares” (Aveiro),

“Os Jovens do Ritmo” (Seixal),

“Os Sheiks” (Lisboa) e “Os Galãs”

(Porto). Para além d’ “Os Sheiks”,

considerado o melhor conjunto de

então, conhecíamos “Os Galãs”

de nome, no qual participava o

saudoso Barradas, amigo do Vitó

no Porto e com quem nos viemos

a encontrar mais tarde, na guerra

colonial da Guiné. Sabíamos ser

uma eliminatória muito difícil pois

indubitavelmente o primeiro lugar

pertenceria, por real valor, aos

“Sheiks” e seria muito difícil,

na mesma eliminatória,

o apuramento de vários conjuntos

para a fase seguinte.

Mas, curiosamente, não partimos

para a eliminatória apoquentados.

Munidos do voucher do

Movimento Nacional Feminino,

dos instrumentos e com o nosso

smoking azul na mala, partimos

dia 8 para Lisboa tendo ficado

instalados no Inatel na Calçada de

Santana, onde encontrámos

“Os Kzares” de Aveiro que

também acabavam de

chegar. Após as respectivas

apresentações, ali dormimos e

no sábado seguinte, pela manhã,

fomos até ao Teatro Monumental,

no Saldanha, onde decorria o

Concurso. O dia passou depressa

com os ensaios de som e

alinhamento dos conjuntos.

As matinés do Concurso estavam

a animar as tardes de sábado em

Lisboa e as reportagens referiam

o entusiasmo das assistências

em apoio aos conjuntos em palco,

imitando a moda em voga quanto

ao comportamento dos fãs dos

“Beatles” quando estes passavam

ou actuavam.

Nós, vindos de Viseu, não

contávamos nem sonhávamos

com apoio de claques. Mas

tivemos uma grande surpresa

quando fomos anunciados e

arrancámos com o “Good Golly

Miss Molly” (Little Richard).

Ouvimos uma gritaria infernal que

nos entusiasmou e contribuiu

para uma grande actuação, com

aplausos, gritos, e apoio à nossa


94 porViseu ’60s.

1

1.

Teatro Monumental

2.

Jornal O Século, reportagem da 7ª

eliminatória do concurso ié-ié

a)

guedelhudos.blogspot.

com/2008/09/sheiks-venceram-7-

eliminatria.html

2

presença. Em palco continuámos

com a música “Michael Aleluia”

(Trini Lopes), um pouco mais lenta

mas que mostrava o bonito timbre

da voz do Zé Merino, seguiu-se

o “Ya Ya” (Trini Lopes), já mais

mexida e com um refrão muito

fácil de repetir que permitia

envolver o público num diálogo

com o vocalista, e terminámos

“em grande” e com um barulho

ensurdecedor quando o Quim

Guimarães arrancou os primeiros

acordes do “Eight Days a Week”,

dos “Beatles”. Para nós foi

uma verdadeira e monumental

actuação no Monumental.

Não sabíamos o que poderia

acontecer quanto à votação, mas

ficámos muito satisfeitos com

a nossa prestação. Soubemos

depois terem aparecido muitos

amigos de Viseu, que mobilizados

pelo Fernando Pascoal de Matos,

pelo Zé Sacadura e pelo João

Correia dos Santos se juntaram e

reuniram os viseenses em Lisboa

formando uma verdadeira claque,

à qual se juntou noutro espaço

da Plateia o grupo das Termas

de S. Pedro do Sul (Vimena,

Carla) que também trouxeram

os seus amigos. Foi um apoio

completamente inesperado para

nós, que muito nos surpreendeu

e animou.

Regressámos a Viseu com o 2.º

lugar e a seguinte classificação

da 7.ª eliminatória: 1.º “Sheiks”,

43 pontos, 2.º “Os Tubarões”,

26 pontos; 3.º “Os Galãs”,

21 pontos, 4.º “Kzares”, 17 pontos

e 5.º “Jovens do Ritmo”, 17 pontos.

Pelo que se tinha passado até

então foi considerada uma boa

classificação e os 26 pontos

colocavam-nos em lugar elegível

para as meias finais, como se

veio a confirmar. Tal classificação

enchia-nos de orgulho e em Viseu

não se falava de outra coisa.

O que saiu na imprensa:

“Sobre Os Tubarões a) : Apenas

actuam quando isso não causa

transtorno aos seus estudos.

Revelou-se um conjunto

homogéneo, com valores

individuais e com vastas

possibilidades no futuro.

O júri atribuiu-lhes 26 pontos.

Apresentaram-se com “Miss

Molly”, “Eight Days A Week”,

“Mike”, de Trini Lopez, e “Ya Ya”.

Envergavam fato azul, camisa

branca e laço preto. Eis os seus

nomes: Luís Alberto Dutra,

viola baixo, 18 anos, Joaquim

Guimarães, viola solo, 20 anos,

Victor Barros, viola ritmo, 18 anos,

José Merino, vocalista, 17 anos,

Eduardo Pinto, bateria, 18 anos,

e Carlos Alberto, órgão eléctrico,

16 anos.”


os tubarões ’65 95


96 porViseu ’60s.

.terraço.das

.estrelas

.do.hotel

.embaixador.

A nossa primeira participação

no ié-ié trouxe-nos uma

agradável surpresa que me tocou

especialmente.

No Teatro Monumental a porta

dos artistas era lateral e dava

para a Avenida Praia da Vitória

(a Rua do Toni dos Bifes).

No intervalo das duas sessões

o Zé Merino e o Quim Guimarães

tentaram ir ao bar mas ficaram

pelo caminho a dar autógrafos.

Eu vim até à rua apanhar um

pouco de ar e fumar um cigarro.

Estava à porta dos artistas

quando sou abordado por um

senhor que me pergunta se eu

sabia se estava presente um

conjunto de Viseu chamado

“Os Tubarões”. Surpreso respondi

afirmativamente e quando disse

o meu nome, ouço incrédulo.

“Dá-me um grande abraço. Sou

o teu tio Vasco”.

O meu tio Vasco, irmão do meu

pai, era muito mais dado às

brincadeiras do que aos estudos.

Cedo saiu de Viseu e aventurou-se

em Lisboa onde fez uma brilhante

carreira profissional ligada

aos Seguros terminando como

Administrador da Mútua dos

Bacalhoeiros. Eu só o conhecera

muito pequeno e nunca mais

tinha tido contacto directo com

ele. Só indirectos e através da

minha avó Laura, sua mãe. Pois

naquele dia de Outubro deu-se

a coincidência de a minha avó

Laura estar a passar uns dias

em Lisboa em casa do meu tio

Vasco. Logo que soube da nossa

presença na capital tudo fez

para nos encontrar. Para mim foi

um momento de grande afecto e

alguma comoção e para todos um

agradável momento de alegria e

diversão. Fomos todos convidados

para jantar e passar o serão com o

meu tio Vasco, a mulher e a minha

avó Laura.

Levou-nos ao Terraço das Estrelas

do Hotel Embaixador, na Duque

de Loulé, que naquele tempo

também pertencia ao Casino

do Estoril, estava na moda

e regularmente apresentava

um espectáculo de variedades

aos sábados. Foi um jantar

memorável, cheio de surpresas

e diversão, regado com muita


os tubarões ’65 97

1

2

1.

Microfone Shure 55 Clássico

2.

Amplificador Vox AC30

.fim.do.ano.

bebida para libertar a emoção

vivida nesse dia, que culminou

com a nossa actuação no Terraço

das Estrelas. Ao vivo e em directo!

Do nosso sexteto constituiu-se

ali mesmo um quarteto que se

adaptou ao piano, contra-baixo e

bateria, acompanhando o Zé em

várias músicas que arrancaram

aplausos do público que nos

acompanhava cantando connosco

algumas das melodias. E esta

participação faz parte do nosso

currículo.

Saímos de madrugada, e o Luís

Dutra, tal era o turbilhão, e quase

descendo as escadas de entrada

em trambolhão, tentava mandar

parar uma ambulância que

subia a Duque de Loulé a toda a

velocidade com a sirene ligada,

pensando tratar-se de um táxi.

Tal era a confusão.

Com o tio Vasco ficou logo

marcado novo encontro para uma

próxima visita a Lisboa, o que veio

a acontecer mais tarde.

Regressámos aos estudos e ao

Liceu, aos ensaios aos fins de

semana desde que não houvesse

outros compromissos e animámos

a festa do fim do ano no Clube de

Viseu.

Em 1965, crescemos!


66

99

100

102

103

104

106

108

109

110

112

113

113

114

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117

119

120

123

125

.conquistar.

.conquistar.

.concurso.ié-ié.semi.final.

.depoimento.joão.correia.dos.santos.

.má.notícia.pior.decisão.

.embaixadores.de.viseu.

.concurso.ié-ié.final.

.espectáculo.no.cine.rossio.

.depoimento.ledinha.e.kinga.

.café.snack.bar.alvorada.

.o.casino.da.figueira.da.foz.

.orquestra.de.josé.santos.rosa.

.shegundo.galarza.

.amália.

.artistas.com.quem.nos.cruzámos.

.má.nota.na.ota.

.de.novo.viseu.

.as.primeiras.gravações.

.o.estúdio.

.passagem.do.ano.no.grande.hotel.


os tubarões ’66

99

.conquistar. 1966 foi o ano da projecção

nacional do conjunto devido

essencialmente à participação

no Grande Concurso ié-ié, e a

consolidação da nossa presença,

durante o Verão, como atracção e

conjunto oficial do Grande Casino

Peninsular da Figueira da Foz.

O Baile de Finalistas do Liceu

1 de Viseu realizou-se no dia 8 de

Janeiro no Salão de Festas do

1.

“Os Tubarões” no Casino Cine-Rossio com os conjuntos

de “Mário Simões” a) e de “Sousa

Pinto” b) Após o fim do ano no

Clube de Viseu ensaiámos com

afinco para a nossa participação

na semi-final do ié-ié, marcada

para 15 de Janeiro.

a)

http://musicasdosanos60.

blogspot.com/2011/03/mariosimoes-e-o-seu-conjunto-10-lp.

html

b)

http://musicasdosanos60.

blogspot.com/search/label/

Conjunto%20Sousa%20Pinto


100 porViseu ’60s.

.concurso.

ié-ié.semi.

final.

Dos mais de setenta conjuntos

concorrentes ao Concurso ié-ié,

24 passaram às meias finais,

realizadas durante o mês de

Janeiro em quatro sessões, e a 23

de Abril realizou-se uma sessão

só com os conjuntos oriundos

das Colónias Portuguesas na

qual participaram os “Rocks de

Angola”, os “Night Stars”

de Moçambique, os “Lordes da

Guiné” e “Ritmos Cabo-Verdianos”

de Cabo Verde.

Fomos chamados para a 2.ª

semi-final que se realizou a 15

de Janeiro no Teatro Monumental

com os seguintes conjuntos:

os “Saints” (futuros “Claves”),

que vieram a ganhar na final do

Concurso, os “Jets”, os “Cometas

Negros” de Castelo Branco, os

“Kímicos”, e os “Boys” de Coimbra.

Da nossa experiência na

eliminatória anterior já

conhecíamos o ambiente

escaldante gerado pelas claques

e também sabíamos que estas

eram muito sensíveis às músicas

tocadas pelos diferentes

conjuntos.

Um êxito que estivesse no top

ten e fosse bem interpretado,

ou uma música de agrado geral,

teriam francas possibilidades de

gerar muito mais aplausos do que

êxitos indiferenciados ou músicas

pouco conhecidas.

Em face destes considerandos,

e de algumas dicas do Rui Oliveira

e Costa, tivemos muito cuidado

na selecção das músicas a

interpretar, já que através delas

poderíamos conquistar claques

de Lisboa, sempre muito sensíveis

ao último êxito, ao último grito

musical, ou à letra mais radical.

Assim a lista seleccionada

incluiu “Satisfaction” dos

“Rolling Stones”, “I Feel Fine”

dos “Beatles”, “It’s My Life” e

“We gotta get out of this place”

dos “Animals”, conjunto que

tinha dado dois concertos em

Dezembro/65 no Monumental,

esgotados e de sucesso

retumbante. Era uma playlist

fortíssima com músicas que

permitiriam ao júri apreciar

convenientemente as diferentes

valências musicais do grupo,

instrumental, vozes e o colectivo.


os tubarões ’66 101

Foi uma sessão muito renhida

e que nos correu muito bem.

O ambiente era escaldante

e o berreiro infernal. Em muitos

momentos não nos ouvíamos

uns aos outros e por vezes

nem o próprio instrumento.

Tocávamos por instinto com muita

determinação e concentração.

Naquele tempo não havia as

tecnologias de hoje com sons

de retorno e o controlo do som

era feito directamente por nós

em palco. Tudo era ao vivo saído

directamente dos amplificadores.

O palco do Monumental era

enorme mas mesmo assim

pequeno para as aparelhagens

de seis conjuntos em simultâneo,

mesmo partilhando uma única

bateria. Ficávamos muito

distantes uns dos outros e com

muita pouca audição de conjunto.

Mas era assim para nós e para

todos.

De novo se mobilizaram as nossas

claques, a de Viseu e a de Lisboa.

Entrámos em palco vestidos

com um bonito fato cinzento de

trespasse feito na Alfaiataria

Freitas em S. Pedro do Sul e

começámos com o “Satisfaction”,

um clássico com aceitação muito

generalizada e a adesão foi muito

boa. Seguiram-se os primeiros

acordes do baixo do “We gotta get

out of this place”, último êxito dos

“Animals”, grupo que tinha uma

configuração instrumental muito

semelhante à nossa, para além

do timbre do Zé Merino lembrar

o timbre do Eric Burdon. Ainda

com os aplausos no ar o Quim

arrancou com os inconfundíveis

primeiros acordes do “I Feel

Fine” e terminámos com uma

fortíssima interpretação do

Zé Merino no “It’s my life” dos

“Animals”, uma música do final

do ano de 1965 especialmente

escrita para a voz do Eric Burdon,

com uma construção musical

forte iniciada pela viola baixo que

sincroniza com a viola solo na

segunda frase musical, e assim

se mantém durante partes da

música, sempre em crescendo,

e sobre a qual evolui um timbre

forte de voz que nalgumas fases

incita ao diálogo com os coros.

Sem dúvida uma boa música que

nós tocávamos muito bem. E a

plateia foi ao rubro. Foi uma tarde

memorável. Não conseguíamos

sair do palco pois os aplausos não

paravam. O público pedia mais

uma música e não se cansava

de aplaudir. Nós agradecíamos

no palco com o Zé a dizer estar

rebentado da garganta. Então

o Quim Guimarães virou-se

para o Júri algures no Balcão

à nossa direita, levantou o

indicador direito e interrogou:

“só mais uma?” e foi-nos dada

autorização. Interpretámos o “voo

do moscardo”, um instrumental

clássico que o Quim tinha

adaptado à viola eléctrica, e em

que demonstrava todo o seu

virtuosismo.


102 porViseu ’60s.

.depoimento.

João Correia dos Santos

O Quim brilhou com todo o

Monumental em pé quando

colocou a viola no ombro direito

e solava com a viola nas costas.

Outra monumental tarde no

Monumental!

Durante esta música parti uma

das baquetas que me feriu um

dos dedos, jorrando sangue pela

bateria. Tocámos até ao final com

o público em pé. Foi uma ovação!

Tudo nos correu bem nesta semi-

-final, provavelmente a melhor

actuação de toda a nossa vida

musical. Saímos sem fazermos

a menor ideia das classificações

atribuídas pelo Júri, tendo

constado que não havia consenso

entre os seus membros.

No dia seguinte o Século

anunciava que o Júri iria reunir

para atribuir as pontuações.

E este facto foi estranho e gerou

controvérsia, já que o normal

era aquele jornal publicar as

classificações no domingo

seguinte.

Mais em guedelhudos.blogspot.

com/2010/01/ie-ie-em-janeiro.html

CONCURSO IÉ-IÉ

GRANDE SEMI-FINAL NO

MONUMENTAL EM LISBOA

Decorria o ano de 1965, e por

inicativa do Movimento Nacional

Feminino desenrolou-se um

concurso de Bandas Rock a nível

Nacional e que teve uma semifinal

no Cinema Monumental em

Janeiro de 1966 em que Viseu

estava representado pelo “nosso”

conjunto “Os Tubarões”.

Se, para os visienses a qualidade

e classe deste conjunto não era

novidade ou espanto, para o

País inteiro foi uma “bomba” que

rebentou e que pôs em causa

a hegemonia dos conjuntos

lisboetas e portistas, que

consideravam favas contadas.

A SUA VITÓRIA FINAL.

O Monumental encheu,

com uma Juventude delirante,

apoiando cada claque o seu Grupo

preferido.

No Balcão Superior encontrava-

-se uma claque que se distinguia

das outras pelo seu entusiasmo

e bairrismo.

A CLAQUE DE VISEU

Constituída por antigos alunos

que se encontravam a estudar ou

a trabalhar em Lisboa e muitos

apoiantes “Estrangeiros” rendidos

à classe dos “Tubarões” foi um

delírio e uma loucura o apoio

à GENIAL interpretação dos

“Tubarões” que arrebataram todo

o auditório do Monumental, com

as suas interpretações.

Não seria justo destacar este ou

aquele interveniente, pois todos

demonstraram a categoria que

tinham.

Não seria por bairrismo ou

patriotismo dizer que foram os

melhores na semi-final e que

mereciam – de longe – vencerem

a eliminatória.

Mas já naquela tempo outros

“valores” mais altos se

levantavam.

Foi memorável esse dia e tive

o privilégio de ter asssitido ao

vivo a essa memorável jornada

que levou bem alto o valor e

a categoria dos “Tubarões”,

considerado na época um dos

melhores conjuntos Rock de

Portugal.

PARABÉNS e agradecido pelos

momentos memoráveis que me

proporcionaram.

São estes episódios que nos

deixam orgulhosos da nossa

Juventude Visiense dos Anos 60.


os tubarões ’66 103

.má.notícia.

pior.decisão.

1.

Carnaval, Clube de Viseu

1

O Carnaval foi a 22 de Fevereiro

e nós animámos no Clube de

Viseu os vários bailes e matinés

que eram habituais na época.

Com o acordo da Direcção do

Clube continuámos a ensaiar no

Salão de Festas aguardando a

evolução do Concurso ié-ié, em

que os nossos 33,5 pontos nos

davam alguma tranquilidade.

Foi após o Carnaval que tivemos

a pior notícia da vida do conjunto,

que muito nos abalou e marcou.

O Sr. Loureiro e o Quim Guimarães

pediram uma reunião para nos

comunicarem que, por razões

muito particulares, o Quim

tinha decidido ir estudar e viver

para Lisboa. E tal mudança

se concretizaria logo no início

do mês de Março, data que

poderia vir a colidir com a nossa

possível presença na final do

ié-ié, prevista para o mês de

Abril ou Maio. Ficámos muito

perturbados e a idade não nos

permitia compreender a opção

do Quim. Como poderia o Quim

não considerar o conjunto uma

prioridade, a prioridade, a coisa

mais importante do mundo como

todos nós, dois anos mais novos,

considerávamos? Foi um embate

muito forte que magoou todos os

restantes membros do conjunto.

E se fossemos apurados para

final do ié-ié como faríamos?

O Quim, apoiado pelo Sr. Loureiro,

manifestou sempre a maior

solidariedade connosco e a total

disponibilidade para vir aos fins

de semana ensaiar e assim poder

estar presente connosco na final.

Foram momentos muito tensos.

Após muita discussão, e apesar

da influência e dos pedidos

de ponderação do Sr. Loureiro,

rejeitámos a proposta do Quim

e decidimos seguir sozinhos

a nossa vida musical, mesmo

a provável participação na final

do ié-ié.

Mais tarde, com a distância do

tempo e longe das emoções,

todos reconhecemos que a nossa

decisão foi um perfeito, completo

e rotundo disparate.


104 porViseu ’60s.

nos acompanhava nas nossas

actuações aos fins de semana

aumentava de dia para dia.

Só a 25 de Abril é que recebemos

o telegrama com a informação

de que estávamos apurados para

a final. Dia 23 tinha ocorrido a

semi-final dos conjuntos das ex-

-colónias e dois deles, os “Rocks”

de Angola e os “Night Stars” de

Moçambique, foram apurados.

.embaixadores.

de.Viseu.

Não havia muitas notícias sobre

a evolução do Concurso ié-ié.

Sabia-se que estariam a decorrer

eliminatórias nas Colónias mas

havia muito pouca informação

sobre o tema. Nós continuávamos

na expectativa a aguardar mais

informações sobre o desenrolar

do Concurso.

Em Viseu, a expectativa e o

carinho para com o conjunto eram

enormes. Todos queriam saber

novidades: os colegas, os amigos

e conhecidos, os professores e

todas as entidades da cidade.

Vivíamos uma saudável atmosfera

junto de todos os conterrâneos.

E todos viviam connosco a nossa

faceta artística e a comitiva que

E foi com alguma surpresa

que recebemos um convite

do Governador Civil de Viseu,

Sr. Eng.º Engrácia Carrilho, para

uma audiência no Salão Nobre

do Governo Civil.

Dia 27 de Abril lá fomos

devidamente aprumados com os

fatos do conjunto, liderados pelo

Sr. António Xavier de Sá Loureiro.

Nunca entráramos naquele

edifício na Av. 28 de Maio, hoje

Alberto Sampaio. Aguardámos

a audiência com o Sr. Eng.º

Engrácia Carrilho.

Era uma figura distinta e com

grande prestígio em Viseu. Muito

alto, sempre impecavelmente

vestido de fato estilo inglês,

casaco sempre abotoado, muito

educado e muito simpático para

todos com quem se cruzava.

Uma figura ilustre da cidade!

Para nós o gigantesco Salão

que parecia vazio ficou

completamente cheio quando

o Eng.º Carrilho entrou.

Iniciada a cerimónia ouvimos

em palavras simples,


os tubarões ’66 105

um pouco da história de Viseu,

o seu passado, as suas gentes

e a importância da cidade no

contexto nacional e ibérico.

As vias romanas que cruzaram

a cidade, a Sé, as Muralhas e

todo o passado histórico do qual

existem tantos vestígios, os Reis

e personalidades ligadas à cidade

como D. Afonso Henriques,

D. Duarte, Vasco Fernandes

(Grão Vasco), João de Barros,

Hilário, Emídio Navarro e

seguramente muitos outros que

já não recordamos. Após uma

verdadeira aula de história viva da

cidade, o Eng.º Engrácia Carrilho

estimulou a nossa presença

na final do ié-ié enaltecendo a

proeza de termos ultrapassado

com tanto mérito as eliminatórias

que nos permitiam chegar à final.

As palavras de incentivo, de

enaltecimento das virtudes

das gentes da nossa região,

da importância da nossa

presença enquanto viseenses no

Monumental, caíram fundo em

todos nós, e ainda mais pesaram

quando fomos oficialmente

nomeados “Embaixadores de

Viseu no ié-ié”, mandatados

para distribuirmos a todos os

grupos presentes na Final,

documentação e lembranças

da região de Viseu.

Saímos todos muito sérios e

muito orgulhosos pela distinção

e pelo importante papel que nos

fora atribuído naquele acto no

Governo Civil de Viseu.

Ainda hoje, mais de 40 anos

depois, várias vezes recordamos

entre nós este episódio e o quanto

nos marcou no amor a Viseu.

Todos passámos a ver Viseu com

outros e melhores olhos graças

à inteligência de uma pessoa

que, embora num lugar de grande

prestígio, tomou a iniciativa de

nos chamar, valorizar o nosso

sucesso e transmitir

com simplicidade e encanto

a importância de se amar Viseu.

Obrigado Eng.º Engrácia Carrilho.

Nunca o esqueceremos.


106 porViseu ’60s.

.concurso.

ié-ié.final

1

2 3 4

1.

Livre-trânsito do Teatro

Monumental

2.

Anúncio ao ié-ié

3.

Tarola Sonor

4.

Voucher M.N.F.

Sexta-feira 29 de Abril, partimos

para Lisboa com destino à Final

do ié-ié. Tínhamos a obrigação de

levar uma música em português.

Poderia ser um original ou mesmo

um cover mas com letra em

português. O grupo dos nossos

amigos, liderados pelo António

Laranjeira, conseguiu arranjar

uma letra em português adaptável

à música dos “Beatles” “Eight

days a week”, uma das que

tínhamos seleccionado para levar

à Final.

E no sábado, 30 de Abril fomos

de manhã para o Monumental

preparar a Final com mais sete

conjuntos: quatro de Lisboa

(“Claves”, “Ekos”, “Jets” e

“Chinchilas”), os “Espaciais” do

Porto, os “Rocks” de Angola, os

“Night Stars” de Moçambique.

E logo à chegada cruzámo-nos

com o Carlos Mendes que

nos avisava de algumas

irregularidades que teriam

ocorrido e que justificavam a sua

não presença na final. Constou ter

havido algumas irregularidades

na organização que terão

beneficiado alguns conjuntos,

mas nós, vivendo no interior, longe

dos interesses comerciais, nunca

soubemos nada de concreto, com

excepção do que aconteceu na

nossa semi-final com a demora

na divulgação da classificação.

Também houve reclamações

quanto ao tratamento muito

tolerante dado aos conjuntos das

colónias que não foram sujeitos

ao crivo tão exigente como o

aplicado aos conjuntos que

passaram nas eliminatórias do

Monumental. E ficou por explicar

a razão pela qual, numa Final

com oito conjuntos seleccionados

a partir do escrutínio entre os

melhores nacionais, estava

incluída a participação

extra-concurso do conjunto

“Os Deltons” que não tinha

concorrido nem tinha projecção

nacional para tal. Coisas à

portuguesa.

Terminava uma longa jornada

após sete meses de eliminatórias

onde nos cruzámos em palco com

alguns dos melhores conjuntos

da época, além dos da final:

“Sheiks”, “Galãs”, “Kzares”, “Jovens

do Ritmo”, “Químicos”, “Cometas

Negros” e “Boys”. Muito trabalho,

muitos ensaios, muitas canseiras,

e uma grande alegria: a Final!

Voltámos ao ambiente frenético

do ié-ié no Monumental, ainda

com mais confusão pois eram

nove conjuntos em palco e uma

organização muito deficiente no

backstage. Um verdadeiro caos.

Foi a maior desorganização em

todas as nossas participações

no Festival. Ninguém dava

informações, tivemos de nos

organizar por nossa iniciativa, não

havia comando nem coordenação

de palco.

A Final foi de facto muito

polémica e foram apresentados

os seguintes resultados:


os tubarões ’66 107

1º. CLAVES Lisboa - 55 pontos

2º. ROCKS Angola - 45 pontos

3º. NIGHT STARS Moçambique - 39,5 pontos

4º. JETS Lisboa - 35 pontos

5º. EKOS Lisboa - 29,5 pontos

6º. CHINCHILAS Lisboa 29 pontos

7º. ESPACIAIS Porto -18 pontos

8º. TUBARÕES Viseu - 18 pontos

Mais em guedelhudos.blogspot.

com/2007/11/claves-campees-do-y-y.

html

Recebemos alguns prémios o

melhor dos quais me coube a

mim com a oferta de uma tarola

Sonor metálica. Também nos

entregaram um par de sapatos,

castanhos e brancos, tamanho

gigante, que oferecemos ao

Eduardo Nascimento, vocalista

dos “Rocks”, que adorou o

presente.

Foi uma jornada muito importante

na vida do conjunto, que marcou

cada um de nós, e trouxe o nome

do conjunto e da cidade para a

comunicação social por uma boa

razão. Foi um grande salto na

nossa carreira musical.


108 porViseu ’60s.

.espectáculo.

no.cine.rossio.

Regressámos à nossa linda

terra, às aulas, aos ensaios no

Cine-Rossio, aos bailes, aos

espectáculos e aos amigos.

E Viseu recebeu-nos muito bem.

Toda a cidade falava connosco.

E a nossa vida agitou-se ainda

mais.

Aumentaram as solicitações, os

contactos, os contratos e o nosso

cachet subiu.

O Sr. Severo queria fazer um

espectáculo no Cine-Rossio para

nos apresentar em Viseu após a

nossa participação na final do

ié-ié. O mesmo ficou marcado

para 28 de Maio, aproveitando a

projecção da comédia musical

“Every Day’s a Holiday” com

Freddie and “The Dreamers”, John

Leyton, Mike Sarne, Ron Moody, Liz

Fraser entre outros. Foi o nosso

1.º Concerto em Viseu depois da

final do ié-ié. O preço dos bilhetes

era de 5$50 para a 2.ª Plateia,

9$50 para a 1.ª Plateia e 12$50

para as poltronas. As Frisas

(6 lugares) eram a 57$50. Sessão

completamente esgotada com

todas as frisas com cadeiras extra.

Foi um sucesso que terminou tarde

com vários encore, muitos pedidos

do Clube de Fãs, e uma dedicatória

especial do “E que tudo o mais vá

pró inferno” para umas fãs do Brasil

que haviam chegado para umas

férias em Vil de Soito.

Foi um espectáculo muito divertido

e animado.


os tubarões ’66 109

.depoimento.

Ledinha e Kinga

Como caçadores do tempo,

os personagens são também

pastores que escolhem

prados férteis, presenciando

a essencialidade da vida.

Entre a fantasia e o mais real

dos momentos, reabrimos o

frasco onde ficou guardado o

perfume dos altos pinheirais

emproados e majestosos. Extrair

das profundezas da criação

as grandes alegrias é como

desvendar os segredos da alma, é

revelar o refúgio do passado, que,

desavisado, transcende aos anos.

E se um doce assobio criar um

eco pouco ouvido e vier aguçar os

sentimentos para arfar o fio às

conversas de uma época?

Ah! se sobre as pontes férteis da

paixão pudermos buscar a poesia

e contemplar, com lucidez, nossa

história de vida.

Viseu, Abril de 1966.

Chegamos às terras lusas para

ficar durante 10 meses. O Casal de

Vil de Soito parecia calmo demais

para duas meninas urbanas e

festeiras. O nosso período de

“europeização” que se iniciava,

com certeza teria sido monótono

se não fossem “Os Tubarões”.

Foi no dia (na noite, melhor

dizendo) 28 de Maio que ouvimos

“Quero que tudo o mais vá pró

inferno”, música de Roberto Carlos

e que nos foi oferecida pelos

Tubarões. Mais inesquecível do

que a canção foi, após o show,

conhecermos os componentes do

Conjunto e, em especial, Eduardo

e Luís por quem nos apaixonamos

(e, apesar dos dois terem

namoradas “firmes”, começámos a

namorar).

Fechando os olhos nos permitimos

reencontrar com o passado onde

há saudade da adolescência, dos

amores vividos.

Durante os meses que se seguiram

àquela noite perdemos muito

poucos ensaios dos “Tubarões”.

Na verdade o melhor eram

os “pós-ensaios” quando

namorávamos até a hora de

voltar ao Casal de Vil de Soito.

Ensaios, pós-ensaios, lanches na

pastelaria Horta, “às 10 p’ras 3”.

Que vendaval de lembranças,

meu Deus!

Houve uma época em que

levávamos nossos primos aos

ensaios. Numa tarde um deles

passou mal e, enrolando-se

– literalmente – na cortina que

separava o salão do “quarto de

banho” sujou todo o local.

A senhora responsável pela

limpeza quando foi fazer a

inspeção para se certificar de que

estava tudo pronto para a sessão

de cinema, teve a verdadeira visão

do inferno.

A “culpa” caiu nos “Tubarões”,

todos os membros tornaram-se

suspeitos e, acreditamos que, por

pouco eles não ficaram proibidos

de lá ensaiar.

Falando em suspeitos, lembramos

que só poderiam mesmo ser eles,

já que era proibido entrar no

recinto qualquer pessoa que não

fossem os integrantes do grupo.

Para nós, que estávamos sendo

preparadas para seguir os passos

das Meninas Exemplares da

Condessa de Ségur, ir aos ensaios

– escondido – era uma aventura

e tanto.

Em Agosto, na praia da Figueira

da Foz, um fim de semana com

“Os Tubarões”!

O namoro à luz de velas, as lúdicas

histórias contadas ao som de, ora

um fado, ora de um rock. Ingénuas,

acreditávamos que esses

momentos reais não acabariam

nunca.

Definitivamente, Viseu sem

Eduardo e Luís não tinha a menor

graça.

Ainda podemos ouvir o som da

maré alta despertando em raios

luminosos nas areias daquela

praia perdidamente lusa. Já se

faz distante essa passagem por

paisagens enevoadas na nossa

lembrança. Esquecer, jamais.

Ah! se o cheiro dos rosmaninhos

pudesse nos alcançar...!

Ah! se esse lamento percorresse

os oceanos, sem margens ...!

Veríamos que ainda podemos

sonhar!


110 porViseu ’60s.

.café.snack.

bar.alvorada.

Já referi a importância que os

cafés assumiam naquela época.

Eram os locais de encontro e

convívio das pessoas, onde

conversavam e comentavam

as novidades ou viam a TV.

Normalmente cada café tinha

um grupo específico de clientes

habituais.

O nosso café passou a ser o

Snack-Bar Alvorada, que após

obras teve a sua gestão entregue

ao Sr. António de Matos Cardoso,

pai dos nossos amigos Toninho

Matos e Fernanda Matos, pessoa

muito experiente na actividade

hoteleira sendo o responsável

do Hotel Avenida, que pertencia

à família.

O Alvorada reiniciou a sua

exploração com grande sucesso

no restaurante utilizando a

Sala -1 que esgotava diariamente

graças à excelente cozinheira

esposa do Sr. Correia, o Chefe de

Mesa. E nós utilizávamos

o r/c enquanto café, snack-bar e

local de convívio. O Alvorada fica

na Rua Gaspar Barreiros,

de frente para a entrada do Hotel

Grão Vasco, num ponto central

da cidade, perto da casa do

Sr. Loureiro e do Cine-Rossio,

de rápido acesso, com uma

pequena área de café e snack

no r/c, e era bastante reservado

na sua frequência.

Não menos importante para nós

é que ficava localizado mesmo

ao lado da porta do explicador de

Matemática Dr. Alcindo Sampaio,

que quase todos frequentámos.

O Alvorada foi mais um dos

nossos lugares de referência na

cidade que acompanhou a vida

do conjunto até 1968. Éramos

clientes fiéis e mobilizámos para

lá muitos amigos e pessoas que

nos visitavam. Passou a estar

muito ligado à vida do conjunto

pois também servia de local

de contacto e recepção dos

inúmeros pedidos de quem nos

queria contratar, embora o nosso

escritório oficial fosse na casa

do Sr. Loureiro na Rua Alexandre

Herculano.

A família Correia, que entretanto

assumiu a gestão da casa, toda

se mobilizava para nada nos

faltar, tomando conta de todas as

mensagens recebidas na nossa

ausência. Até as sobrinhas Bé

e Tecas, ainda novitas, ajudavam

em tais actividades.

Passámos ali bons momentos

de convívio e vivências com

muitos dos nossos amigos mais

chegados. Recordamos o Rogério

Dourado que nos acompanhou

diariamente como Road Manager

a partir de 1967, o Maurício e a

Fernanda Madeira, o Dr. Vasco

Cunha, o Tó Oliva, o Zé Barata,

o Arnaldo Machado e a Guida,

e muitos, muitos outros que nos

apoiaram durante a nossa alegre

vida musical.


os tubarões ’66 111

1

1.

Postal ilustrado “Os Tubarões”

(foto Germano)

O aumento da nossa

popularidade levou a que o

Germano, um grande artista da

Fotografia a quem a memória

de Viseu muito deve, nos tenha

convidado para a realização de

uma sessão de fotografias do

conjunto. Uma delas, tirada na

escadaria do hotel Grão Vasco,

ficou famosa e foi transformada

em postal ilustrado, vendendo-

-se nos expositores da cidade,

esgotando várias edições.


112 porViseu ’60s.

.o.casino.

da.figueira.

da.foz.

1

2 3

1.

No Casino, num intervalo de ensaio:

Carlos Alberto, Beto Carrilho, Vitó,

Eduardo, Dutra

2.

Cartaz Casino

3.

Programa Casino de 24 Agosto

a)

www.youtube.com/

watch?v=gR3pFuLdITA

A 15 de Maio voltámos ao

Grande Casino Peninsular

para animarmos a matiné de

apresentação da época 1966.

A Administração do Casino

mostrou uma vez mais o grande

apreço que nutria pelo conjunto,

manifestando o contentamento

por termos ajudado a recuperar

o público jovem que andava

arredado das suas salas.

E o programa para a época de

1966 anunciava os restantes

conjuntos já contratados:

“Shegundo Galarza”, “Orquestra

de José Santos Rosa” e o “Trio

Juan Ferret”.

Em Julho, logo que nos libertámos

dos afazeres escolares, iniciámos

nova época no Grande Casino

Peninsular da Figueira da Foz.

A logística da estadia e

alimentação ficou a cargo de

um dos fornecedores habituais

do Casino, a Residencial O Júlio,

com óptima cozinha regional,

muito simpáticos, cúmplices e

tolerantes com os nossos horários

sempre desregrados. Dormíamos

na Rua Ernesto da Silva, muito

perto do Casino.

O Casino tinha um programa de

animação geral muito variado

que procurava atingir todos

os públicos. Todas as noites

Variedades no Salão de Café

e Baile no Salão Nobre, por

vezes animados com a Eleição

de Misses, Tômbolas e outras

promoções.

As tardes eram destinadas

aos públicos mais jovens com

matinés gançantes, garraiadas,

matinés infantis, teatro infantil,

concursos. Para além deste tipo

de animação, o Casino organizava

diversos torneios, Bridge e outros,

e múltiplas exposições na sua

Galeria de Arte.

Com uma Direcção muito

dinâmica liderada pelo Sr. Mendes

Pinto, o Casino era um pólo de

atracção para os milhares de

turistas que nos meses de Julho,

Agosto e Setembro passavam pela

Figueira da Foz. Nos bastidores do

Casino sentia-se muita energia, e

um ritmo constante de mudança

de cenários e ambientes, com

o nítido intuito de servir todos os

públicos, do infantil ao adulto,

do amador ao jogador

profissional.

E tudo funcionava a preceito, sem

falhas nem contratempos, e com

um ritmo impressionante.

Às quintas-feiras, no Salão de

Café, era montado um redondel

com todos os atributos de uma

Praça de Touros para a realização

das garraiadas infantis, com

gravilha no chão, escotilhas,

e valentes garraios que os mais

jovens e atrevidos, durante

a tarde, tentavam pegar.

Mas à noite, à hora marcada,

o Salão de Café estava de novo

impecável para as Variedades

que iam começar.

Na época de 1966 cruzámo-nos

no casino com vários artistas.


113

.orquestra.de.josé.santos.rosa. a)

As Variedades começavam às

22h30 no Salão de Café após

as quais abria o Baile no Salão

Nobre. No ano de 1966 tiveram o

suporte musical da “Orquestra de

José Santos Rosa” composta por

excelentes músicos profissionais,

alguns deles elementos de

Bandas Militares, ao tempo

grandes escolas de música. Além

do excelente Maestro, lembro-me,

entre outros, do Estêvão Ferreira

na bateria, do Floriano Silva, do

Agostinho Caineta e do João de

Sousa Galvão que veio a ter o

seu próprio Conjunto com edição

de discos. Impressionava-nos a

rapidez e facilidade com que esta

Orquestra pegava nas pautas

dos artistas e em pouco tempo

ensaiava, compunha ou refazia

os arranjos musicais. E à noite

tudo saía perfeito. Fantástico,

pensávamos nós.

.shegundo.galarza. b)

Era compreensível o nervoso e a

responsabilidade que sentimos

quando começámos a alternar

com um dos melhores conjuntos

portugueses como era o de

“Shegundo Galarza”.

O quarteto era composto pelo

Maestro, pelo Carlos Menezes,

mestre em viola, pelo José Manuel

(o Baby Rock) no baixo e pelo

Eduardo Esteves, um figueirense,

na bateria. Eram uns Senhores

e muito aprendemos a vê-los, a

ouvi-los e a assistirmos aos seus

ensaios. O mais trabalhador era

sem dúvida o Carlos Menezes

que chegava sempre uma hora

mais cedo para aquecer os dedos,

fosse para o ensaio, actuação ou

mesmo que não tivesse nada para

fazer. Estava sempre a “estudar”

viola, como dizia com a sua

simpatia e simplicidade.

E também aprendemos com estes

profissionais que para se tocar

bem é preciso ensaiar muito.

E isso nunca seria esquecido e foi

um bom exemplo que procurámos

seguir, de forma menos regular do

que eles, é certo. O conjunto de

“Shegundo Galarza” passou a ser

uma referência musical para nós.

Voltámos a cruzar-nos numas

Festas de Tondela e ainda em

outros lugares.

b)

pt.wikipedia.org/wiki/Shegundo_

Galarza


114

.amália. c)

c)

www.amalia.com/main.htm

d)

http://guedelhudos.blogspot.

com/2009/09/premio-pozaldomingues.html

1

2

1.

Com Amália, 26 Agosto

2.

Visto da inspecção dos espectáculos

do programa de Casino de 26 Agosto

Na época alta de Verão, aos

fins de semana, o programa do

Casino variava um pouco com a

apresentação de uma atracção

especial que actuava no Salão

Nobre a partir das 00h30.

Para 26 de Agosto foi anunciada a

presença de Amália Rodrigues.

Num ano em que Amália recebeu

o prémio Pozal Domingues d)

o Casino teve uma das maiores

enchentes, mesmo com as

entradas a 60$00.

Após as variedades no Salão

de Café o Casino teve de abrir,

excepcionalmente, os dois Salões

de Baile, Salão Nobre e Salão de

Café, para o público dançar pois

as pessoas não cabiam num só.

O conjunto de “Shegundo Galarza”

tocava no Salão Nobre e nós no

Salão de Café. E mesmo assim

ambos estavam cheios. Até nas

galerias do Salão de Café se

dançava.

Foi uma grande prova de fogo para

o conjunto, pois tivemos de tocar

toda a noite num dos Salões em

concorrência com o “Shegundo

Galarza” que tocava no Salão

Nobre.

Tocámos a primeira parte entre

o final das Variedades do Salão

de Café e o início do concerto da

Amália (23h15 às 00h30) e depois

do concerto de Amália, já que

a noite prolongou-se até muito

tarde.

A partir dessa noite e até ao

final da época, por sugestão da


os tubarões ’66 115

Administração do Casino, com

o acordo de todos, passámos a

tocar todas as noites, alternando

de hora a hora com o conjunto de

“Shegundo Galarza”, facto que

nos honrou.

Os camarins do Casino situavam-

-se mesmo por baixo do palco do

Salão de Café, onde Amália se

preparava para a sua actuação

às 00h30. Ouviu-nos tocar e

manifestou agrado a quem a

acompanhava de querer saber

quem éramos. Quando subiu para

entrar em cena, momentos antes

da sua actuação, nós tínhamos

acabado o nosso primeiro take

e ainda nos encontrávamos no

palco do Salão de Café.

Então Amália convidou-nos a tirar

uma foto. Foi interessante, pois

a Amália, nervosíssima, fumava

cigarro atrás de cigarro, e nós

estávamos incrédulos com tão

honroso convite. E lá estávamos

nós à frente da objectiva do Zé

Gordo, fotógrafo oficial do Casino,

simpático fanático da Briosa,

e a Amália, virando-se para nós,

“…vamos lá rapazes, isto é muito

simples, eu abro os braços, e... já

está”. E ficaram as fotos para a

nossa história.

Muito simpática e conversadora

quis saber mais sobre nós,

conversou, tirámos outras fotos,

e quando chegou a hora foi para

o Salão Nobre para mais uma

noite de retumbante sucesso.

Surpreendeu-nos a simplicidade

e franqueza, o tabaco e o nervoso

de tão grande estrela.

Marcou-nos, claro!

.artistas.com.quem.nos.

cruzámos.

Em 1966 o Casino apresentou

um programa de variedades mais

agressivo do que no ano anterior

e reforçou a sua capacidade para

atrair todos os públicos, do infantil

ao adulto, do mais ligeiro ao

mais erudito. Lá assistimos pela

primeira vez ao vivo a um concerto

do Carlos Paredes acompanhado

pelo Fernando Alvim.


116 porViseu ’60s.

ARTISTA

ALICE AMARO

AMÁLIA

ANA MÓNICA

ANITA GERREIRO

BADARÓ

CANTINFLAS JUNIOR

CARLOS PAREDES

CARLOS VILAR

CIDÁLIA MEIRELES

CONDE DE AGUILAR

DUO OURO NEGRO

JOSÉ VIANA

FERNANDO ALVIM

FLORBELA QUEIRÓS

LENITA GENTIL

MARA ABRANTES

NATÉRCIA MARIA

OQUESTRA SINFÓNICA DO PORTO

OS DINÂMICOS

OS ESPACIAIS

PAULA RIBAS

TONI DE MATOS

TONICHA

TRIO GUADIANA

VALÉRIO SILVA

DATA

20 out

26 ago

11 set

26 ago

14 set

31 out

24 set

02 set

29 out

05 set

17 set

22 ago

24 set

10 set

29 out

08 set

17 set

16 set

03 set

17 set

22 ago

27 ago

05 set

29 out

03 set

A importância do Casino da

Figueira da Foz para o mundo

artístico nacional era muito

grande como se pode constatar

pela lista de artistas com quem

nos cruzámos naquele verão:

os conjuntos residentes da época

foram: “Arlindo Sousa”, “José

Santos Rosa”, “Shegundo Galarza”

e “Os Tubarões”.

A 18 de Setembro o Salão Nobre

encerrou a época de verão e a

31 de Outubro foi a Festa de

encerramento da época de 1966.


os tubarões ’66 117

.má.nota.

na.ota.

Regressámos a Viseu depois

de uma boa época no Casino

da Figueira da Foz. O Zé Merino

andava com uma rouquidão que

não passava e foi a uma consulta

ao Dr. Fernando Nascimento

Ferreira, primo do Sr. Loureiro,

que diagnosticou uma grande

inflamação nas cordas vocais

com um nódulo numa delas.

A prescrição médica foi muito

dura com um tratamento de

choque, descanso vocal total,

e proibição de falar.

Entre os vários compromissos

assumidos estava uma

deslocação à OTA para o Grande

Baile da Força Aérea com

os conjuntos “Os Ekos” e

“Os Tubarões”, a ter lugar

no fim de semana seguinte.

Ponderámos várias hipóteses,

até não irmos actuar à OTA pois

havia fortes motivos para tal.

Mas uma vez que era a festa

do Beto Carrilho, já a cumprir o

Serviço Militar naquela unidade,

que muito se esforçara pela

nossa participação em tal evento,

avaliámos a possibilidade de

convidarmos alguém que tivesse

um repertório próximo do nosso

e nos pudesse ajudar como

vocalista em tal compromisso.

Dos contactos com outros

conjuntos, tínhamos feito

amizade com o “Tude Portugal”,

viola baixo do conjunto de “José

Nóvoa”, natural da Guarda a quem

resolvemos lançar o desafio, e

que aceitou. Assim na sexta-feira,

vindo de comboio de Aveiro pela

Linha do Vouga, chegou o “Tude

Portugal”.

Fomos jantar todos à Gruta,

o snack-bar da Pensão Central

com entrada pela Rua da Cadeia,

onde discutimos o repertório

das músicas que poderiam ser

cantadas pelo “Tude”. Sim, o

“Tude” iria actuar como vocalista,

o que não era propriamente a sua

especialidade. Era viola baixo

e interpretava bem e de forma

muito pessoal algumas músicas

com a sua voz rouca à “Cocker”.

E lá se fez a set-list possível

que incluía “Beatles” e vários

clássicos em voga por aquela

altura.


118 porViseu ’60s.

1

1.

Microfone MC60

No dia seguinte lá partimos para a

OTA. Fomos em dois carros, o Ford

Cortina do Sr. Loureiro e o Cortina

GT do Né-Né Lopes, bom amigo

que tinha, à época, um dos carros

mais bonitos de Viseu (branco

com faixa verde).

Chegados à Base Aérea

montámos as aparelhagens

e fizemos o teste de som, um

muito pequeno ensaio e lá nos

abalançámos para uma actuação

que não poderia ter corrido pior.

O espaço do evento era enorme,

um antigo hangar adaptado a

lugar de eventos recreativos como

o Cinema e este Baile e teria uma

lotação aproximada de 1.000

pessoas.

Iniciada a sessão, o entrosamento

com a participação do “Tude”

não correu bem. Salvaram-se as

músicas instrumentais já que nas

vocais não conseguíamos acertar.

Até o Zé Merino, fazendo ouvidos

moucos à proibição médica

de falar, saltou para o palco e

exigiu que o acompanhássemos

numa das suas músicas

preferidas a meio da qual ficou

completamente afónico e sem pio.

Pior não seria possível.

O Sr. Loureiro deitava as mãos

à cabeça pois não conseguia ter

mão em nós nem nunca tinha

assistido a tal.

E como não bastasse o que

ocorria na festa, o Né-Né Lopes

resolveu ir acelerar o seu Cortina

GT para a pista dos aviões tendo

sido perseguido e travado pela

Polícia Militar.

Seguramente terá sido a pior

prestação pública na vida musical

de “Os Tubarões”.

E hoje ainda não percebemos

como permitimos que tal situação

pudesse acontecer.


os tubarões ’66 119

O “Conjunto Académico João

Paulo” fazia uma tournée pelo país

e passou por Viseu, onde deu um

excelente espectáculo no Cine-

-Rossio. Teve um problema com

um equipamento e nós demos todo

o apoio logístico que necessitaram

o que mereceu a cortesia de nos

chamarem ao palco manifestando

o seu agradecimento público.

Foi uma cortesia simpática.

.de.novo.

Viseu.

Tínhamos vários amigos em Lisboa

a quem recorríamos sempre que

era necessário e que vinham

passar o mês de Setembro

a Viseu, época da Feira Franca:

o Rui Oliveira e Costa, que

andava metido no meio

musical na altura com

“Os Deltons”, passava um mês de

férias em Viseu e lá nos ia dando

as suas dicas sobre os meandros

musicais da capital; e o José

Sacadura, sempre vivo e metediço,

que se esforçava por fazer o seu

melhor sempre que lhe pedíamos

algo em prol do conjunto.

Tirando proveito da ida para

Lisboa do Fernando Pascoal

de Matos a fim de frequentar

o Curso de Economia, nomeámo-

-lo o nosso representante oficial

na capital a partir do último

trimestre de 1966, tendo como

missão elaborar contactos com

editoras e também contratos

para a nossa actuação na capital.

E alguns concretizaram-se como

veremos a seguir.


120 porViseu ’60s.

.as.primeiras.

gravações.

2 3 4

1.

No Clube de Viseu, gravação do “old lady”

a)

http://www.myspace.com/tubaroes/

music/songs/a-girl-for-me-50263664

b)

http://www.myspace.com/tubaroes/

music/songs/old-lady-49826713

c)

http://www.myspace.com/tubaroes/

music/songs/come-back-50928729

1

2. 3. 4.

pautas das músicas

O sucesso também incentivou a

criatividade musical do conjunto

e em particular do Zé Merino,

tendo-o inspirado para as

primeiras criações musicais ainda

em 1966.

Com base nos múltiplos apelos do

seu coração, tendo como modelos

músicas dos “Beatles”, dos

“Hollies” ou “Searchers”,

o Zé trauteava a música, ia

criando a letra e com a ajuda do

Carlos Alberto, do Vitó ou do Luís

Dutra lá passavam do éter

à prática musical.

Foi assim que ainda em 1966

criámos os primeiros originais

do conjunto.

.a.girl.for.me. a)

O par, ela e o Zé, viviam uma

grande paixão no Liceu de Viseu.

Ela era menina, bonita, rabina e ar

de muito novinha.

Um dia saímos do Liceu pela

manhã e virámos à esquerda a

caminho do “TIC-TAC”. De repente

ela aparece vinda do outro lado

da rua, muito nervosa e ofegante.

Afasto-me e aguardo. Foi muito

pouco o tempo do encontro e ela

saiu de novo a correr e a chorar.

Percebi que não eram boas as

notícias.

Caminhámos um pouco sem

qualquer palavra. Entrámos

no “TIC-TAC” e ele explodiu,

revoltado. Ficámos a saber que

aquele grande Amor, a partir dali,


os tubarões ’66 121

era completamente proibido.

E isso doeu. Da dor do amor

nasceu “A girl for me”, uma

melodia suave e um hino de apoio

à sua amada, que passou a fazer

parte da nossa playlist.

.old.lady. b)

A inspiração para esta música

surgiu ao Zé quando íamos

a caminho do Liceu e na Rua

Formosa ajudámos uma velhinha

em dificuldades para atravessar

a rua, ao tempo com tráfego

intenso em direcção ao Rossio.

No passeio do Horta a velhinha

hesitava a atravessar a rua e

sempre que tentava aparecia

logo outro carro. Nós, do lado da

Praça, parámos e o Zé correu, deu

o braço à velhinha e atravessou

a Rua Formosa com ela. E daí

nasceu quase de imediato a

canção que compôs mentalmente,

música e letra, que o Carlos e

o Victor traduziram em notas

musicais.

.come.back. c)

Figueira da Foz, 24 de Agosto.

Após a matiné no Casino

Peninsular, saímos pelo Páteo das

Galinhas. O Zé saíra mais cedo,

algo irrequieto, sem percebermos

as razões. Descíamos a Rua dos

Casinos e mesmo em frente

ao Casino Oceano acercou-se

de nós a M.B., interrogandonos

sobre o comportamento

inexplicável do Zé, que ao passar

por ela nem lhe dirigiu palavra.

Seguramente uma crise de uma

paixão obsessiva, como era o Zé

nos amores. Entrámos no Casino

Oceano, jogámos matraquilhos,

passeámos e aguardámos que

a crise passasse.

…Mais tarde, durante um ensaio,

o Zé Merino trauteou os primeiros

acordes e com o Vitó vieram a

compor “Come Back”, música

dedicada à Miss Figueira 1966.

Em Outubro de 1966 tínhamos

estes três originais.


122 por.Viseu ’60s.

O Clube de Viseu tinha na altura

na sua Direcção um grupo

de jovens casais advogados

democratas que procuravam

dinamizar as actividades culturais

com a realização de palestras

e teatro. Deste grupo fazia parte

o Dr. João Lima que tinha acabado

de comprar um gravador Grundig

de “n” pistas, último grito da

tecnologia. Numa amena conversa

sobre o futuro do conjunto com

o Rogério Dourado, nosso amigo

que convivia dia-a-dia connosco,

o Dr. João Lima sugeriu que

fizéssemos um teste de gravação

de algumas das nossas músicas.

E logo se marcou o teste no Salão

de Festas do Clube, num dia a

partir das 18h.

Montámos todo o nosso

equipamento no palco do Clube

que ainda tinha os cenários

da última peça de Teatro ali

representada, que aproveitámos

como cenário para a nossa

gravação, como é visível na foto

anexa.

Ensaiámos o Old Lady para testes

de som por ser a música mais

rápida e que tinha mais coros.

O microfone do gravador, de corpo

duplo, e o restante equipamento

de gravação foram instalados

no meio do salão e ao comando

destes estava o Dr. João Lima

com o Rogério Dourado a dar

apoio. Após o teste fizemos as

gravações, sempre em duplicado

de cada uma das músicas.

Para o dia seguinte ficou marcada

uma audição mais rigorosa na

casa do Dr. João Lima onde nos

fez a entrega da tape com as

“preciosidades”.

Foi assim que gravámos os três

originais indicados que nunca

foram editados comercialmente.


os tubarões ’66 123

.o.estúdio.

2

1

1.

Ensaio no estúdio

2.

Tarola Premier 2000

Quando em Setembro de 1966

regressámos a Viseu constatámos

não ser possível continuarmos

a ensaiar no Cine-Rossio e a

opção do Clube de Viseu, sujeita

a disponibilidade de sala e à

realização crescente de outros

eventos, não era compatível

com o volume cada vez maior

dos nossos compromissos. Para

além disto acrescia o facto de

ninguém se responsabilizar pela

segurança das aparelhagens e

instrumentos, cuja qualidade e

valor cresciam exponencialmente.

Ora tudo somado levou-nos a

ponderar o aluguer de um espaço

que servisse os nossos propósitos

de termos um local para

ensaios e para a instalação das

aparelhagens e instrumentos.

Uma das nossas maiores fãs era

a Fernanda Maria Matos, irmã

de um grande Amigo, o Toninho

Matos que chegou a ser nosso

Road Manager em 1965/6 e só

os seus afazeres profissionais o

impediam de passar mais tempo

connosco, tal era o interesse,

gosto e amizade. A Fernanda

Maria (Fernandinha) era um pouco

mais nova do que nós (n. 1951).

Era uma moça fantástica,

simpática e com uma alegria

contagiante.

E era a primeira a querer

saber tudo o que se passava

com o conjunto, divulgando e

mobilizando amigas e amigos

para os nossos espectáculos.


124 porViseu ’60s.

A Fernandinha vivia na vivenda

da Quinta do Cano, que ficava na

Rua Alexandre Herculano n.º 585,

muito perto da Circunvalação.

Ora o r/c estava desocupado e

a Fernandinha lembrou-se logo

dele para nossa sala de ensaios.

Com uma área aproximada

de 70m 2 (10x7m), de formato

rectangular, com o chão em

cimento, tinha uma boa área que

dava para ter sempre montadas

as aparelhagens e ainda

sobrava espaço. Feito o contrato

decidimos forrar todas as paredes

e o tecto com cobertores grossos

de papa que o armazém do pai

do Merino tinha recebido dos

Estados Unidos. Eram grossos,

muito resistentes e resultaram na

perfeição quanto ao isolamento

acústico do estúdio. Atendendo

ao piso em cimento foi feito

um estrado em madeira a toda

a largura do estúdio em cima

do qual se instalava toda a

aparelhagem e instrumentos

(cerca de 40m 2 ).

Acedia-se ao estúdio por uma

porta central a meio do edifício.

A sala estúdio tinha três zonas

essenciais: a zona do palco/

ensaios de formato rectangular a

toda a largura da sala, ocupando

a metade mais interior, e onde

estavam os instrumentos.

Orgão, viola ritmo, vocalista, viola

baixo, bateria e viola solo.

No canto esquerdo ao lado da

porta de entrada havia a zona

de convívio com umas cadeiras,

mesa, e o bar. Do lado direito da

porta estava o gira-discos, os

discos, ao lado dos quais estavam

alguns instrumentos. A meio da

parede lateral direita havia uma

porta de acesso à quinta.

Foi o melhor investimento feito

pelo conjunto: total autonomia

para ensaiarmos, disponibilidade

permanente, sossego, discrição,

equipamentos e instrumentos

sempre montados e arrumados.

Embora com algum recato

e cuidado, o estúdio passou

a ser um lugar frequentado pelos

nossos amigos sempre que tal

era possível. E ali fizemos muitos

convívios musicais, sempre

que algum músico ficava por

Viseu, por lá passava para dar

uns toques, e também alguns

convívios sociais como pequenas

festas, sempre ao som de muito

boa música à qual era muito difícil

resistir.

E houve muitos amigos e amigas

que visitaram o nosso estúdio,

e que nós não nos escusávamos

a mostrar. Até alguns dos nossos

professores do Liceu por lá

passaram, gostaram do que viram,

dançaram e até repetiram.

Era muito agradável, tinha muito

boa onda e nele passámos bons

momentos do resto da nossa vida

artística.


os tubarões ’66 125

.passagem.

do.ano.

no.grande.

hotel.

1.

Autógrafos no Cine-Teatro da

Guarda após o concerto de

11 de Dezembro de 1966

1

Da Guarda veio um pedido

especial para fazermos um

espectáculo integrado nas

Festas dos Finalistas. Foi num

Domingo a 11 de Dezembro que,

com a lotação do Cine-Teatro

da Guarda esgotada, demos

um concerto que nos ficou na

memória. Normalmente as

nossas actuações destinavam-

-se a animar os bailes tão em

voga, não havia tradição de

concertos. Por esse motivo

planeámos bem o espectáculo

que nos foi solicitado para duas

horas em palco, com duas partes

separadas por um intervalo,

cuidámos a apresentação,

o alinhamento e ensaiámos

músicas específicas para o tipo

de actuação que íamos fazer.

Foi um espectáculo que correu

muito bem, equilibrado, com

uma fase mais intimista em

que apresentámos um arranjo

especial e acústico de “As tears

go by” dos “Rolling Stones”,

sem bateria, com três violas

e em que eu tocava viola baixo.

Resultou em pleno o alinhamento

apresentado que deu uma mostra

real do nosso alargado repertório,

sempre num ritmo em crescendo,

com um final mais exuberante

que mereceu calorosos aplausos,

quatro encore, e muitos pedidos

de autógrafos.


126 porViseu ’60s.

a)

http://istoeespectaculo.

blogspot.com/2009/11/marialeonor-locutora.html

No fim do ano voltámos à Figueira

da Foz, desta vez ao Grande

Hotel, onde animámos a noite

do Fim do Ano e na matiné de

1 de Janeiro. A Maria Leonor a) ,

uma das maiores locutoras da

rádio e televisão, apresentou

um desfile de Moda Woolmark.

Como estávamos no palco a

Maria Leonor, com a sua habitual

descontracção e simplicidade,

desafiou-nos a fazermos um

fundo musical. O Carlos Alberto

arrancou então com a nossa série

de slows de música portuguesa,

“Abril em Portugal”, “Coimbra

menina e moça”, e a “Rua do

Capelão”, todas seguidas, após

o que evoluímos para outras

músicas com o ritmo mais

marcado dando suporte musical

aos diferentes quadros do desfile.

No final a Maria Leonor chamou-

-nos, agradeceu-nos, deu um

beijinho a todos, e após alguma

conversa intitulou-se nossa

Madrinha e convidou-nos para

sermos o Conjunto Oficial para as

passagens de modelos Sidney/

Woolmark.

E assim aconteceu.

Crescemos e 1966 foi um ano de

grandes conquistas:



Conjunto Oficial do Casino da

Figueira da Foz;



Conquistámos!


.consolidar.

.o.fidalgo.aprendiz.por.antónio.valarinho

.a.d.urraca.

.os.bailes.de.finalistas.

.depoimento.rui.oliveira.e.costa.

.no.hotel.grão.vasco.

.casa.dos.viscondes.de.treixedo.por.luis.cunha.matos.

.casa.do.cruzeiro.por.luis.cunha.matos.

.depoimento.carlos.manuel.serpa.

.festa.do.3º.aniversário.

.no.caruncho…e.em.massamá.

.o.meu.retrato.dos.tubarões,

.woolmark.e.s.pedro.do.sul.

.de.novo.no.casino.

.a.vida.no.casino.

.miss.espanha.

.artistas.com.quem.nos.cruzámos.

.peiró.

.com.o.nicolau.no.casino.

.novo.viola.solo.

.os.chinchilas.no.casino.

.o.convite.ao.vató.

.as.casacas.à.beatles.

.gravação.do.disco.

.depoimento.fernando.pascoal.de.matos.

.fim.do.ano.no.grande.hotel.

67

.consolidar.

128

129

131

132

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138

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150

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155

155

155

156

157

162

163


128 porViseu ’60s.

.consolidar.

1. 2. 3.

Baile de finalistas 7 Janeiro

no Salão Cine-Rossio

a)

http://pt.wikipedia.org/wiki/

Quinteto_Acad%C3%A9mico

1

2

3

1967 foi um ano excepcional

para o Conjunto Académico

“Os Tubarões”.

Já conhecidos a nível nacional,

com inúmeros contratos com

cachets elevados, animámos

muitos Bailes de Finalistas,

animámos muitas festas e

participámos em inúmeros

concertos. No primeiro semestre

não parámos aos fins de semana.

Depois do Fim do Ano no Grande

Hotel da Figueira da Foz, num

ambiente de luxo e muita

animação, regressámos a Viseu

para animarmos o nosso Baile de

Finalistas já que vários elementos

do conjunto finalizavam

o Liceu nesse ano (Carlos, Luís

e eu). O Baile realizou-se a

7 de Janeiro, com o “Quinteto

Académico” a) a referência do

Pop/Rock/Soul em Portugal na

época, como cabeça de cartaz.

Voltámos a tocar várias vezes

com o “Quinteto Académico”,

nomeadamente um mês depois

na Festa dos Finalistas da

Guarda.

Duas semanas depois do Baile

realizou-se o Sarau do Liceu

no qual participámos na Peça

de Teatro “O Fidalgo Aprendiz”

ensaiada pelo saudoso professor

e amigo Osório Mateus, com uma

encenação arrojada para a época

que foi um grande sucesso e

marcou para sempre muitos dos

seus alunos. Na peça, o Luís Dutra

acompanhava na viola um trecho

musical cantado pelos actores

enquanto eu dava umas pancadas

na tarola que simulavam o

barulho das pedras que o Fidalgo

Aprendiz atirava à janela.

Encerrámos o Sarau com um

mini concerto muito animado do

Conjunto com alguns encore que

o Reitor autorizou. Já tínhamos

algum estatuto de vedetas o que

simplificou as coisas. O Ginásio

do Liceu, onde decorria o Sarau,

estava completamente esgotado.


os tubarões ’67 129

.o.fidalgo.

aprendiz.

António Júlio Valarinho

AUTO DO FIDALGO APRENDIZ

No Sarau dos alunos Finalistas do

Liceu de Viseu “O Auto do Fidalgo

Aprendiz” de D. Francisco Manuel

de Mello (séc. XVII) surge como

segunda escolha do Prof.José

Alberto Osório Mateus, depois do

Reitor deste Liceu ter censurado

a encenação da peça “O Sétimo

Selo” de Ingmar Bergman.

Integrada como principal

“atracção” deste Sarau de alunos

finalistas, o Prof. José Alberto

Osório Mateus, professor de

Português neste estabelecimento

de ensino, pretendeu construir

uma dramaturgia que espelhasse

a virtude de saber viver a vida

segundo os princípios da ética,

cultura, e do aprender a pensar e

a imaginar o imaginário ainda por

imaginar.

É neste ambiente, que todo o

trabalho se desenrola, sendo o

motor de toda a dramaturgia,

cenografia e encenação a

participação activa de todos os

intervenientes sem qualquer

exclusão – actores, técnico

de luzes, músicos, figurinista,

cenógrafos, contra-rega…

O Prof. José Alberto Osório Mateus

era o agente catalisador de uma

encenação construída segundo

um programa de ensaios pré-

-estabelecidos logo de início, onde

o seu horário era calculado ao

minuto.

Ninguém podia chegar atrasado.

A adesão de todos foi

imediata, sempre rodeada de

uma paixão por um projecto

que progressivamente nos

transformou em jovens que

sabiam de antemão, que a partir

daqui, nada ficaria como dantes e

seria deste modo que de imediato

nasceu o CETEV (Centro de

Teatro dos Estudantes de Viseu)

que com o CITAC de Coimbra e o

CETA de Aveiro (Júlio Fino e Júlio

Henriques) formavam um triângulo

de cumplicidades políticas e

culturais.

Do projecto de encenação

e das suas dificuldades e

cumplicidades, os episódios

multiplicaram-se como, a título

de exemplo, por ser talvez o

mais divertido, eram as batidas

de bateria a cargo do Eduardo

Pinto, que colocado num ponto

sem visão da cena, tinha de

rigorosamente acompanhar o

diálogo dos actores, acrescido dos

seus movimentos subsequentes,

para no momento exacto poder

intervir.

O “Auto do Fidalgo Aprendiz” foi

integralmente construído segundo

os conceitos do teatro didáctico

de Piscator e Brecht, aproximando

a personagem principal (D. Gil)

no perfil do português espertalhão

que vive sob o signo das

aparências, fora da realidade,

cheio de dívidas, perseguido

e atraiçoado pelos seus credores

e “amigos”.

As ambições de D. Gil

correspondem às de um fidalgo

provinciano, pelintra, (mas que

necessita que o julguem rico),

pretendente a entrar na corte sem

aceitar a “constante adaptação à

realidade da vida”, que o condena

no final, ao sofrimento e à

desgraça.


130 porViseu ’60s.

1

2

“Só da desonra me pesa

Que dirão de mim na corte.

Meu amigo Dom Beltrão

E meu aio Afonso Mendes

Amigo nem amo tendes:

D.Gil tornou-se carvão!

1.

Elenco do

Fidalgo Aprendiz

2.

Actuação no Sarau do Liceu,

Zé Merino e Vitó

Homens que vos enxeis

Na corte como na bigorna

Vede no que se torna

Qualquer fidalgo aprendiz.”

PERSONAGENS POR ORDEM

DE ENTRADA EM CENA

D. Gil

António Júlio Valarinho

Afonso Mendes

Mário Videira Lopes

Beltrão

João Carlos Albernaz

Um Mestre de Esgrima

Jorge Figueiredo Ramalho

Um Mestre de Dança

José Manuel Borges Soeiro

Um Poeta

Adelino Patrício Moreira e Castro

Um Moço de Cavalos

Jorge Figueiredo Ramalho

Uma Comadre

Maria Edite Marques

Um Homem que passa

José Maximiano Leitão

Um Homem das Almas

Cristiano Kruss Gomes

Bateria

Eduardo Pinto

Viola

Luís Dutra Santos Figueiredo

No Cine-Teatro de S. Pedro do

Sul realizou-se um espectáculo

de beneficência a favor dos

Bombeiros Voluntários no qual

participámos graciosamente e

acompanhámos a Lenita Gentil,

em fase ascensional da sua

carreira.

Animámos o Carnaval do

Clube de Viseu e aos fins de

semana fizemos muitos bailes

de Finalistas por todo o País

partilhados com muitos conjuntos

como o “Quinteto Académico”,

“Shegundo Galarza”, “José Nóvoa”,

“Os Álamos”, “Hi-Fi”, “Cometas

Negros”, “Os Corsários”, entre

outros.

O nosso escritório continuava a

ser o Snack-Bar Alvorada, mesmo

em frente ao Hotel Grão Vasco,

onde a família do Sr. Correia

tomava conta das chamadas de

quem nos queria contactar. Quem

nos acompanhava e ajudava na

logística dos transportes era

o Rogério Dourado, que veio a

ser o responsável pela D. Urraca,

e também uma falange de 14

admiradores/apoiantes que nos

seguiam para todo o lado.


os tubarões ’67 131

.a.d.urraca.

1

2

1.

Carrinha D. Urraca

2.

Orgão Farfisa Compact Duo

A logística das deslocações e do

transporte dos equipamentos e

amplificadores implicava sempre

mais do que uma viatura.

Ia sempre a viatura do Sr. Loureiro,

algumas viaturas de amigos

que nos acompanhavam e se

ofereciam para o transporte de

um ou outro equipamento, e um

carro de aluguer A com uma mala

grande onde eram transportados

os maiores volumes de

equipamentos. Naquele tempo já

tínhamos um Roadie. Tratava-se

do Nogueira, amigo de infância do

Zé Merino, que nos acompanhava

e se responsabilizava pela

logística do transporte e

montagem dos equipamentos

e aparelhagens.

Por mera questão de

oportunidade, o Sr. Loureiro

comprou por 20.000$00, em

2.ª mão, uma carrinha VW,

modelo pão de forma, azul, que

baptizámos como D. Urraca.

Esta aquisição deu-nos uma

maior independência nas nossas

deslocações e uma segurança

elevada para o transporte dos

equipamentos.

Levantava-se um problema.

Embora alguns de nós tivessem

a carta de condução ninguém

estava interessado em conduzir

a D. Urraca quando nos tínhamos

de deslocar, principalmente

quando o regresso se seguia

à actuação. Foi então que se

consolidou a presença dentro

do conjunto do Rogério

Dourado, um amigo que já nos

acompanhava no dia-a-dia,

um fã da VW que treinava na

condução do carocha do pai,

nas inúmeras escapadelas que

fazíamos ao serão ao Caramulo e

outras redondezas para muitos e

agradáveis serões de folia.

O Rogério Dourado passou a

cuidar e a ser o responsável pela

D. Urraca. Esta passou a ser mais

um excelente elemento do

Conjunto responsável pela

deslocação confortável dos

nossos equipamentos.

E acompanhou-nos até ao fim

com algumas remodelações no

motor, cores e coreografia.


132 porViseu ’60s.

.os.bailes.de.

finalistas.

Os bailes de Finalistas eram

animados normalmente por dois

conjuntos que alternavam entre

si com takes de 1 hora cada, e a

duração total de um baile poderia

ir até às 6 horas, consoante

evoluía a animação da noite e

dos foliões. Este tempo impunha

que cada conjunto tivesse uma

playlist com um número mínimo

de 40 músicas (cerca de 20

músicas/hora). Nós, como a

maior parte dos conjuntos, para

além dos covers/êxitos em voga

tínhamos ainda um conjunto

de músicas instrumentais

essencialmente vocacionadas

para os mais dançarinos. Era o

caso das marchas, valsas, tangos,

passo doble, e até chachachá,

para além de algumas rapsódias

em slow de música portuguesa.

Em todos os Bailes aparecia

sempre alguém a pedir um destes

géneros musicais. Este set de

músicas possibilitava o descanso

do vocalista e aumentava a nossa

oferta de géneros musicais, facto

que foi inúmeras vezes apreciado

e salientado por diferentes

públicos, nomeadamente de

idades mais avançadas.

O baile de finalistas do Liceu da

Covilhã apresentava no seu cartaz

os conjuntos “Os Deltons” e nós.

O baile realizava-se no Salão do

Cine-Teatro da Covilhã, o qual se

situava na Praça principal, ao lado

da Câmara, num 2.º andar alto

com uma escadaria interminável.

Todos colaborámos e ajudámos

o Nogueira no transporte das

aparelhagens e instrumentos.

Estávamos nos trabalhos

de montagem e chegaram

“Os Deltons” que eram formados

pelo Luís Moutinho na bateria,

o Luís Antero na viola solo, o

Fernando Tordo na viola ritmo

e voz e o Toi Queimado na viola

baixo. Tinham como Manager o

nosso amigo Rui Oliveira e Costa.

O Luís Moutinho chegou ao Salão,

olhou à sua volta e perguntou:

“É aqui o espectáculo?”

Nós olhámos uns para os outros

e apontámos o cartaz que


os tubarões ’67 133

anunciava Baile de Finalistas

do Liceu da Covilhã com os

conjuntos “Os Deltons” de

Lisboa e “Os Tubarões” de Viseu.

Percebemos que “Os Deltons” não

tinham muita prática de Bailes

de Finalistas, como se veio a

confirmar.

Feito o alinhamento da festa com

a organização soube-se então

que “Os Deltons” tinham na sua

playlist apenas 14 músicas,

14 covers de êxitos de música

anglo-saxónica, e que não

aguentariam a alternância de

um baile de finalistas. Com 14

músicas, só muito esticadas, é

que dariam para 1 hora. Ora no

baile, e era um Baile de Finalistas,

tal como estava contratualizado,

com dois conjuntos, teria de

haver alternância de hora a

hora enquanto a pista tivesse

dançarinos e tipos de músicas

variadas para que o público as

dançasse. Nalguns Bailes de

Finalistas a tradição até obrigava

a que a música de abertura fosse

uma valsa.

Seria um problema se do lado

d’ “Os Deltons” não estivesse o Rui

Oliveira e Costa e do nosso lado

houvesse alguma intolerância

para tornear a situação. Com boa

vontade lá os ajudámos a resolver

o problema tocando um pouco

mais do que deveríamos.

E “Os Deltons” lá fizeram um

2.º take com um alinhamento um

pouco diferente do seu set de 14

músicas, repetindo como entrada

e na despedida o “No milk today”,

êxito recente dos “Herman’s

Hermits”.

Soubemos depois que o Rui

Oliveira e Costa tinha angariado

tal contrato através de um colega

do Liceu D. João de Castro em

Lisboa que era Covilhanense.

Durante o 2.º set d’ “Os Deltons”,

o Rogério Dourado chamou-nos

ao 1.º andar, piso da sala de

Cinema, para nos apresentar um

antigo professor de Português

ainda dos seus tempos de

estudante em Castelo Branco, que

era um fanático de José Régio.

E assistimos à sua excelente

declamação do “Cântico Negro”,

que ainda hoje guardamos na

nossa memória. a)

Coisas impensáveis que nos iam

acontecendo na vida musical:

a meio de um Baile de Finalistas

ouvir uma excelente declamação

privada e em exclusivo, do

“Cântico Negro” do José Régio por

um Professor de Liceu, na Covilhã.

Claro que mereceu a pena.

E ficou para a memória.

1

1.

Microfone Shure

a)

http://www2.mat.ua.pt/rosalia/

caminhos/JRegio/index.html


134 porViseu ’60s.

.depoimento.

Rui Oliveira e Costa

VISEU E “OS TUBARÕES”

Nasci em Lisboa, bem como os

meus pais e três dos meus quatro

avós. O outro avô (Raul Raimundo)

era de Viseu, bem como toda a sua

grande família.

Como alfacinha, sem outra terra,

Viseu foi a minha adopção, pois

para lá fui durante grande parte

do Verão na década de sessenta.

Tinha lá os tios e primos, e a

Feira de São Mateus, na altura

muito animada, com os bailes de

Salão dos Bombeiros Voluntários,

de que o meu tio Edmundo foi

comandante.

Conheci assim o Eduardo Pinto,

o José Merino e o Rogério Dourado

(estes últimos infelizmente já

falecidos), e outros, com quem

convivi nas festas de garagem com

gira-discos. Bons tempos.

Entretanto, em Lisboa, após 1965

(então com 17 anos), tornei-

-me manager (o termo se calhar

ainda não existia) d’ “Os Deltons”,

um conjunto de meninos bem do

Restelo, que gravitava à volta do

Luís Antero (que infelizmente já

morreu). Para reforçar os miúdos

do Restelo, levei comigo um viola

acompanhamento que cantava

muito bem – o Fernando Tordo –,

e um baterista, aliás grande

amigo, o Luís Moutinho.

O conjunto cresceu, e creio que em

1967 fomos actuar na Festa dos

Finalistas do Liceu da Covilhã (não

havia na altura Universidade da

Beira Interior). Quem foi o conjunto

alternante? “Os Tubarões”.

Os meus amigos de Viseu, então já

com nome feito.

Mas voltando um pouco atrás, em

1965/66 teve lugar em Lisboa, no

Teatro Monumental (ao Saldanha)

um concurso nacional da então

denominada música ié-ié.

“Os Tubarões” apareceram e

passaram uma eliminatória. Mas

a progressão não era fácil. Disse

então aos meus amigos, creio que

ao José Merino e ao Eduardo Pinto,

que o repertório era essencial para

fazer a diferença. Tinham vindo

actuar há pouco tempo a Lisboa

“Os Animals”, com o seu excelente

vocalista Eric Burdon.

E instiguei-os a incluírem no

repertório duas músicas dos

“Os Animals” – “We gota get out of

this place” e o “It’s my life”.

A proposta de um Lisboeta dentro

dos meandros do concurso foi por

eles aceite. E com estes temas

foram à final. Só muito depois me

apercebi que o meu conselho tinha

sido importante. Ainda bem.

Eu continuei como manager,

e quando os “Sheiks”, regressados

de uma estada em Paris, ficaram

sem o manager (Rui Simões, que

por lá ficou) e o Carlos Mendes

(que foi tirar arquitectura),

transferi-me então para os

“Sheiks”, juntamente com o

Fernando Tordo.

Em 1967 estivemos todo o verão

em Albufeira no Sete e meio. Um

verão para mais tarde recordar.

Depois veio a tropa, e a relação

com a música amorteceu. Mas

manteve-se a amizade, e a minha

ligação a Viseu. Com os “Sheiks”

ainda fomos lá a um baile de

Finalistas em 1968, novamente

com “Os Tubarões”. Revi os amigos

e alguns tios e primos.

Viseu é a minha segunda

cidade, hoje muito diferente, e

“Os Tubarões” uma excelente

recordação da adolescência.

Com muita música!”


os tubarões ’67 135

.no.hotel.

grão.vasco.

O Café Restaurante Snack-Bar

Alvorada, situado na Rua Gaspar

Barreiros, fica de frente para a

entrada do Hotel Grão Vasco.

Era a nossa base logística natural

durante o dia e onde tudo se sabia

da nossa vida artística, servindo

como ponto de contacto para

muitos contratos. Nas noites de

Inverno o movimento na parte

do Restaurante Alvorada era

pequeno e praticamente só nós

ali nos encontrávamos após o

jantar, a tomar o nosso café, o que

levou a que passasse a encerrar

cada vez mais cedo. Este facto e

também uma actividade turística

mais intensa no Hotel Grão

Vasco com a chegada frequente

de autocarros com turistas

americanos, franceses e italianos,

levaram-nos a alterar o lugar de

encontro nocturno que passou a

ser o Hotel Grão Vasco.

Sempre que chegava um novo

grupo de turistas ao Hotel era

devidamente avaliada a sua

composição por sexo e faixa

etária. Quando bastante feminina

e não demasiado antiga logo

se previa o que seria mais

recomendável como programa

alternativo para depois do jantar:

ou baile no próprio bar do hotel

o que sempre dinamizava a

receita do barmen Sr. Manuel, ou

uma ida a S. João de Lourosa a

casa da família Rosado, sempre

disponíveis para as nossas

diabruras e iniciativas com uma

boa chouriça assada, bom tinto

e um bailarico a rematar, ou uma

visita guiada pelo centro histórico

da cidade com estórias e detalhes

que só nós sabíamos contar.

Era o nosso serviço cívico e

não foram poucos os suspiros

e as alegrias que propiciámos,

algumas também a finalizarem

com uma ou outra lágrima

na despedida. Imaginem

quarentonas (ou mais)

Americanas a dançarem à

portuguesa (2 por 1), com

beirões adolescentes, delicados,

educadinhos e bem comportados?

Claro que acabava sempre

um par bem apertado, muito

apertadinho, tão juntinho que até

doía. E quantas, tão felizes, não

ultrapassaram o beijinho?


136 porViseu ’60s.

Um fim de tarde estávamos nós

em amena cavaqueira no bar do

hotel e entrou para o restaurante

um casal italiano em que a

senhora, bastante mais jovem que

o cavalheiro, era muito bonita,

elegante e tinha todos os outros

atributos que estão a imaginar.

Uma verdadeira Diva só vista

em cinema. Entre nós fez-se o

silêncio só interrompido pelo

suspiro do Tó Oliva: “sheeeeeee.

Que sonho! Eu tenho de beijar

esta mulher”. E nós, o Rogério, o

Dutra, e o Dr. Vasco, entre outros,

logo ríamos perante a efectiva

impossibilidade de tal desejo da

mente do Tó Oliva, o amigo

mais divertido e criativo que

conhecemos. E fizeram-se

apostas. Após o jantar

regressámos ao hotel e o casal

ainda jantava, tendo saído um

pouco depois. A noite estava boa

e resolveram dar um passeio pela

zona histórica da cidade, após

as devidas instruções dadas na

recepção do hotel.

E nós seguíamos à distância com

o devido recato. Subiram a Rua

do Comércio, Praça D. Duarte e

Adro da Sé, após o que desceram

a Rua do Hilário até à Rua Direita

que na esquina tinha a Papelaria

Figueiredo, hoje a Judiaria.

Viraram à direita subindo a rua

a caminho da Rua Formosa,

passaram o Bazar do Porto, a

melhor loja de brinquedos da

nossa juventude, e pararam frente

ao Solar do Visconde de Treixedo.

Enquanto admiravam a fachada

e a arquitectura do edifício, o Tó

Oliva arrancou com o Rogério ao

lado e dirigiu-se ao casal a quem

convidou a entrar no Solar que

afirmava ser de sua família. Eles

um pouco incrédulos aceitaram

tal convite e acompanharam-nos

até à entrada do edifício, com

uma porta em madeira maciça,

antiga e muito pesada e que

nunca estava fechada à chave,

apenas com um trinco quase

medieval. O Tó Oliva puxa de uma

chave, simula que abre a porta do

Solar, levanta o trinco e entram no

hall com a escadaria de acesso ao

1.º piso. Lá inventa pormenores

dos seus antepassados e insiste

em que o acompanhem para uma

visita ao interior, o que o casal

recusou, ficando no entanto muito

agradecido, pela hospitalidade e

informações prestadas. E saíram

todos até à rua. Na despedida

o Tó Oliva, rei do improviso e do

desenrascanço, logo se candidatou

a dar dois beijos na face da italiana

que tanto nos encantou. E deu.

E nós ficámos de boca aberta!

Ganhou merecidamente a aposta e

esta história foi uma entre muitas

outras, tão ou mais divertidas, com

que nos presenteou.

Progressivamente começámos

a utilizar o Hotel Grão Vasco

como o nosso local de encontro,

mesmo durante o dia. Era discreto,

possibilitava entradas desfasadas,


os tubarões ’67 137

tinha estacionamento e um

horário que possibilitava

uma grande autonomia e

independência a todos nós.

Era o local ideal que propiciava

bons e discretos encontros com

fãs, admiradoras e namoradas.

Nas noites mais quentes ou

quando o bar do Hotel Grão

Vasco encerrava mais cedo

começámos a frequentar o Café

Paladium, recém aberto por

um ex-emigrante da África do

Sul, que fechava tarde e tinha

uma cozinheira muito simpática

sempre pronta para nos servir

qualquer petisco, já que éramos

novos e tínhamos sempre muito

apetite.

O nosso grupo de amigos e

de convívio foi-se alargando,

passando a incluir alguns jovens

casais, intelectuais, advogados

e outros profissionais liberais,

e ainda outras pessoas que

apreciavam o convívio nocturno.

Começaram a aparecer inúmeros

convites para algumas tertúlias

nocturnas bem animadas.

Houve uma fase em que íamos

quase todas as semanas até

ao Caramulo onde um grupo de

pessoas em recuperação promovia

sessões de fados e de convívio até

altas horas da madrugada.

Muito agradáveis, úteis e cultas

eram as noitadas na Casa do

Cruzeiro, a casa do Dr. Vasco

Cunha, descendente do Visconde

de Rio Torto. A Casa do Cruzeiro

fica à entrada do caminho para

o Fontelo, e o nome deve-se à

escultura granítica por cima do

portão, hoje Monumento Nacional.

Tinha um páteo interior lindíssimo,

aberto, com um bonito relvado

que, no Verão, servia de cenário

às nossas audições de discos, às

tertúlias e récitas poéticas. No

inverno ouvíamos os discos na

sala de leitura. Nas madrugadas,

quando a fome apertava, lá íamos

à cozinha à prova de queijos da

Serra, produto da renda de uma

das propriedades da família. Tudo

era motivo de conversa nestas

tertúlias nocturnas. E o nível era

elevado e de grande abrangência

cultural. Por ali aprendemos

muito. O nosso amigo e anfitrião,

advogado com cultura superior

o Dr. Vasco Martins da Cunha

tinha regressado de Angola, tinha

uma excelente discografia e uma

fantástica aparelhagem sonora

com o seu gira-discos Garrard,

o que nos propiciava audições de

LP’s de boa música brasileira

onde nunca faltavam o “João

Gilberto”, “Vinícius de Moraes”,

e a terminar essa interpretação

única do “Camisa Amarela” pela

“Nara Leão”.

1 2

1.

Casa dos Viscondes de Treixedo,

Rua Direita (foto Germano)

2.

Casa do Cruzeiro, terraço interior

(foto Germano)


138 porViseu ’60s.

.casa.dos.

viscondes.

de.treixedo.

Luís Cunha Matos

Situada na parte ainda nobre da

Rua Direita, com uma frente longa

e com dois pisos, edifício senhorial

do Séc. XVIII de arquitectura

barroca, com dois portais com

frontão partido e heráldico,

detentora das mais ricas cantarias

de Viseu, coeva da Igreja da

Misericórdia, foi até ao final dos

anos 60 do Séc. XX propriedade da

Família Queirós Pinto de Athayde

Mascarenhas, sendo os seus

últimos residentes a Viscondessa

de Treixedo e seu irmão, que era

surdo-mudo, passando depois a

ser um banco.

Desde que casou, o último

Visconde de Treixedo, filho da

referida e de nome Francisco,

instalou-se em Lourosa, numa

propriedade com uma bela Casa

com Capela e grande Quinta

agrícola de que recordo os

pomares, as vinhas, os tanques

de rega e a mata variada,

além de vários animais de que

sobressaíam sempre os cavalos

com que se passeavam montando

ou em atrelado por Viseu,

especialmente durante a Feira de

São Mateus.

Este último Visconde de Treixedo,

que sempre se manteve em

Lourosa como proprietário

agrícola, era o mais velho de vários

irmãos de que recordo dois:


foi o primeiro Presidente do

Conselho de Administração da

Radiotelevisão Portuguesa (RTP),

onde se manteve durante quase

uma década;


de Mascarenhas que foi durante

décadas Vice-Presidente, e mais

tarde Presidente do Conselho de

Administração da Marconi.

Este Dr. Manuel de Athayde Pinto

de Mascarenhas ficou conhecido

entre o pessoal da Marconi como

um gestor extraordinariamente

preocupado com o desperdício,

pelo que se contava a “estória”

de só deixar fornecer um

lápis novo aos trabalhadores

que mostrassem um lápis,

anteriormente disponibilizado,

já gasto!

Quanto à Casa da Rua Direita, sei

que tem um “torreão” ou clarabóia,

do lado nascente, portanto

dando para os jardins da Casa da

Prebenda, da Família Quevedo

Crespo, que era visível da Casa

do Serrado.

Em tempos, por ocasião das

invasões francesas e dos

assaltos/visitas de um tal João

Brandão, bem relacionado

socialmente mas brutal salteador

natural e residente em Midões,

para lá de Carregal do Sal,

utilizando candeeiros a petróleo,

trocavam-se avisos de perigo

entre as Casas dos Viscondes

de Treixedo e do Serrado!

.casa.do.cruzeiro.

Luís Cunha Matos

Propriedade da Família Queiróz

Pinto de Athayde (parentes muito

próximos dos Treixedos) cujos dois

últimos proprietários conheci e

que entre si, e em partilhas,

a dividiram – de modo a que:

o piso térreo e o pequeno mas

magnífico “green” a que se acedia

do exterior pelo portão de granito

encimado pelo “Cruzeiro” que dá

nome à Casa e é peça escultórica

classificada, ficou a pertencer à

D. Maria do Amparo que casou

com o Juíz Conselheiro

Dr. Joaquim Martins da Cunha,

Visconde de Rio Torto, que teve 4

Filhos, todos já falecidos:


viveu desde jovem em Angola

onde administrava propriedades

da família e que eu conheci,

nos anos 90, por ocasião da

integração/fusão da empresa no

“universo” Portugal Telecom, como

importante accionista da Marconi;


que exerceu o cargo de Delegado

do Ministério Público e depois

foi trabalhar para Angola numa

fábrica de Celulose, regressando

nos anos 60 a Viseu onde se

entretinha com leituras, música e

convívio, quer em casa quer no bar

do Hotel Grão Vasco, e conhecidos

cafés de que se destacavam o

Horta e o Alvorada. Era senhor

de uma cultura acima do normal,

com um fino humor e que manteve


os tubarões ’67 139

durante toda a vida um carro da

juventude, um MGA branco dos

anos 40.


Zé, que se manteve solteira e era

a companhia do Dr. Vasco, quer

em Viseu, quer na Figueira da

Foz – onde tinham casa na Rua

dos Casinos – quer em Lisboa, na

Rua da Sociedade Farmacêutica,

exactamente no mesmo prédio

onde viveu e faleceu o escritor

açoriano Vitorino Nemésio.


especializado em fisioterapia que

participou, no final dos anos 60,

na recuperação do Prof. Oliveira

Salazar depois da “queda” no

Forte de Santo António do Estoril!

Hoje existe a Viúva do Henrique,

e os 4 filhos deste, de que o mais

velho, Pedro, é advogado em

Lisboa.

A outra parte da casa, isto é,

o primeiro andar e uma pequena

parte do piso térreo e quintal

atrás da casa, pertence hoje aos

descendentes do Dr. Queirós de

Ataíde, irmão da referida D. Maria

do Amparo, que era Notário ou

Conservador e de que conheci os

filhos Henrique e Agostinho, já

falecidos, e conheço o Miguel que

foi, durante anos, Presidente do

Partido Popular Monárquico.

3

3.

Portão granítico da

Casa do Cruzeiro, peça classificada.

A Casa do Cruzeiro fica na Rotunda

do Fontelo


140 porViseu ’60s.

.depoimento.

Carlos Manuel Serpa

DEBUTANTES BRASILEIRAS

Recordo um acontecimento,

do qual certamente poucos se

lembrarão, passado no Hotel Grão

Vasco, corria o ano de 1967, se não

me falha a memória.

Como era habitual, encontrávamo-

-nos diáriamente no bar

deste hotel, onde, para além

da conversa, aguardávamos

ansiosamente a chegada de novos

hóspedes, preferencialmente

do sexo feminino, com os quais

tentávamos travar conhecimento.

Eis que certo dia, deparámo-

-nos com um grupo de cerca de

20 lindíssimas brasileiras, com

as quais iniciámos de imediato

o desejado contacto (verbal,

entenda-se).

Ficámos a saber que se tratava

de um grupo de debutantes,

pertecentes às melhores famílias

da cidade de Belém do Pará,

a quem um Comendador

português ali residente, de nome

Marques dos Reis, oferecia todos

os anos uma viagem a Portugal.

Ora depois de muita conversa e

de várias insistências por parte

das fogosas meninas para que

pudéssemos organizar um baile,

resolveu o Rogério Dourado,

chamar “Os Tubarões”, que

rapidamente chegaram, montaram

a aparelhagem no próprio bar

do hotel, e iniciaram a actuação,

deixando completamente loucas

as nossas amigas, que não nos

deram descanso na dança e no

assédio aos “Tubarões”.


141

.festa.do.3º.

aniversário.

a)

pt.wikipedia.org/wiki/

Tonicha

O sucesso espevitou uma vez

mais a veia comercial do

Sr. Severo, Gerente do Cine-

-Rossio, que nos queria à viva

força num espectáculo naquela

sala de Cinema. Foi então

que decidimos realizar um

espectáculo comemorando o

nosso terceiro aniversário, tendo

por base a data do nosso primeiro

concerto realizado no Clube de

Viseu em Abril de 1964.

Na concepção da Festa

planeámos duas partes:

na primeira iríamos convidar

alguns artistas de Viseu. Assim

aconteceu e convidámos o Rui

Correia, irmão do Zeca e do Beto,

amigos de longa data e colegas do

Liceu. O Rui tinha-se destacado

num Sarau do Liceu com uma

récita de grande qualidade.

Era um jovem muito simpático

e talentoso por quem nutríamos

grande simpatia e que, embora

com algum receio, aceitou o nosso

convite. Convidámos ainda “Os

Corsários” e o Viçoso Caetano, que

em Moçambique, no serviço militar,

tinha alcançado grande sucesso

com o êxito “os Boinas Verdes”,

o hino dos paraquedistas que

chegou a gravar em disco.

E para apresentar o espectáculo

tínhamos o Jorge Martins, irmão

dos Antas de Barros, locutor

profissional radicado no Asas do

Atlântico, uma Emissora Açoriana,

e que se encontrava de passagem

por Viseu fazendo parte do nosso

círculo de amigos. Para a segunda

parte pesquisámos um artista de

Cartaz que nunca tivesse actuado

em Viseu. E facilmente chegámos

à conclusão de que a Tonicha a)

com quem estivéramos no Casino

em 1966 seria a melhor escolha,

já que era uma jovem em grande

ascensão, havia ganho em 1966

o primeiro prémio no Festival da

Canção da Figueira da Foz com

“Boca de Amora”, letra e música

de José Gouveia. Participou ainda

no filme “Sarilho de Fraldas”,

de Constantino Esteves, com

Nicolau Breyner, António Calvário

e Madalena Iglésias, recebeu o

“Microfone de Ouro” do Rádio

Clube Português e foi eleita

“Mulher Portuguesa do Ano”, pelo

Clube das Donas de Casa.


142 porViseu ’60s.

Venceu ainda o Prémio de

Imprensa do ano de 1967.

Em suma, ia ao encontro do que

pretendíamos. E foi muito fácil

convidá-la, chegar a acordo, tendo

aceite de imediato que fosse o

nosso conjunto a acompanhá-la

no seu concerto. Enviou-nos as

partituras e o alinhamento das

15 músicas, com mais duas para

encore que desejava levar a cena.

Ensaiámos as músicas ouvindo os

discos e recorrendo às partituras

recebidas, encarregando-se

o Carlos Alberto dos solos,

enquanto o Victor tomava conta

das harmonias.

Entretanto telefonaram da Casa

Ruvina a informar ter chegado a

minha nova bateria. E lá fomos

ao Porto ver a nova bateria

que era japonesa de uma nova

geração feita com madeira de

tília, muito leve e bonita, em que

o bombo tinha uma dimensão um

pouco menor do que o habitual.

Com peles sintéticas tinha bom

som, de simples afinação e fácil

transporte. Só a tarola é que

não agradou e trocámos por

uma Premier metálica (20cm)

de grande qualidade. Todos os

pratos, incluindo os de choque,

eram Zildjian (2 livres). E foi uma

bateria que nos agradou muito

e respondia a todas as nossas

necessidades. Pronta a estrear

no nosso aniversário.

Tratámos da promoção do

espectáculo com cartazes

e flyers, dos quais fomos forçados

a imprimir duas edições pois

um familiar de um dos artistas

obrigou-nos a fazermos novas

edições exigindo tamanho da

letra igual ao da atracção Tonicha.

E, à última hora, lá tivemos de

fazer uma 2.ª edição do Cartaz

e dos flyers respeitando tal

reivindicação.

O Cine-Rossio esgotou.

A primeira parte teve na abertura

“Os Corsários” a que se seguiu

o Rui Correia a declamar,

e a finalizar o Viçoso Caetano,

acompanhado pelo nosso

conjunto. Após o intervalo, nós já

vestidos a rigor com o nosso lindo

smoking preto, abrimos a 2.ª parte

com duas músicas, após o que

entrou em palco a Tonicha que

fez um excelente concerto, com

direito a músicas extras

e entrega de flores.

E tivemos de terminar pois a tarde

ia longa e o Cinema tinha de estar

preparado para a sessão das

21h30.


os tubarões ’67 143

.no.

caruncho…

a)

http://guedelhudos.blogspot.

com/2009/03/pop-clube.html

b)

http://guedelhudos.blogspot.

com/2008/02/caruncho-alfredobarroso.html

c)

http://pt.wikipedia.org/wiki/

Pedro_Castelo

Faziam parte do nosso círculo

de amigos próximos dois

jovens casais que muito nos

acompanharam a partir de 1966.

Eram o Arnaldo Machado e a

Guida Vilhena, e o Maurício de

Sousa e a Fernanda Madeira,

jovens casais com grande

abertura de espírito

e apreciadores de música em

termos gerais e da nossa música

em particular, que sempre que

podiam nos acompanhavam nas

nossas actuações.

Numa das suas frequentes

deslocações a Lisboa, onde

frequentavam as boîtes da moda

como o Pop a) juntamente com o

nosso representante em Lisboa

– o Fernando Matos (o Pascoal)

e outros amigos, foram até ao

Caruncho b) no Lumiar, que já

contratara aos fins de semana

alguns dos conjuntos da moda

a animar as noites de então.

Passaram por lá o “Quinteto

Académico”, “Os Claves”,

“Os Sheiks” e alguns estrangeiros

como o Nino Ferrer. Nessa noite

encontraram o Pedro Castelo c)

grande locutor da Rádio jovem

de então, nomeadamente dos

programas a “23.ª Hora” e do

“Enquanto for bom dia” da

Renascença, e sugeriram a nossa

ida ao Caruncho, que ficou logo

combinada com a Gerência para

um fim de semana do mês de

Maio. Havia apenas uma ressalva

quanto às aparelhagens a

montar já que o espaço era muito

pequeno e teríamos de ter em

conta esse aspecto.

E assim aconteceu. Partimos

de Viseu num sábado de manhã,

em caravana com a D. Urraca

e uma grande comitiva que nos

acompanhava, montámos os

equipamentos possíveis e ainda

actuámos nesse fim de tarde ao

jeito de teste de som. Actuámos

nessa noite de sábado e fizemos

a matiné do domingo. Claro que

tratámos de divulgar a nossa

presença em Lisboa e apareceram

as nossas habituais claques de

Viseu, de Lisboa e muitos amigos.

E foram duas sessões animadas,

embora com as limitações de som

que não eram do nosso agrado.

Mas foi o som possível e as

sessões não foram prejudicadas

por isso.

…e.em.massamá.

Desde Janeiro de 66 que tínhamos

a promessa de ir tocar a Massamá

a casa do meu tio Vasco.

Logo que soube que íamos a

Lisboa o tio Vasco exigiu a nossa

presença em sua casa e convidou

todos os seus amigos para uma

grande festa marcada para esse

domingo à noite. Foi o tempo de

desmontarmos o equipamento

no Caruncho e seguirmos em

comitiva para Massamá onde

o tio Vasco além da vivenda

com cães, macacos e araras, a

passareira que servia de parede

interior da sala, tinha uma capela


144 porViseu ’60s.

1.

Amigos Maurício Sousa

e esposa, Fernanda Madeira,

com o Vitó e o Dutra

1

e um anexo com dois pisos,

no 2.º dos quais tinha uma boìte

com um piano branco de meia

cauda muito bonito. Era aí a

festa. A casa estava cheia e já a

animação era grande.

Maior foi o reboliço pois o acesso

ao 2.º piso era terrível com uma

escada em caracol muito estreita

que dificultava muito o transporte

dos instrumentos. Toda a gente

quis ajudar a transportar os

instrumentos para o 2.º piso.

Foi uma confusão muito divertida

e quando começámos a tocar já a

noite ia longa. Foi muita agitação,

animação e confusão e o espaço

era pequeno para tanta gente.

Alguns de nós interrogávamo-nos

se o piso ia aguentar com tanto

salto e animação. Havia muita

gente jovem, miúdas bonitas

como as manas Pontes de Sousa

e outras ainda desconhecidas.

Foi muito, muito divertido com

muitos copos e muita cantoria até

às tantas.

Até a D. Urraca foi testemunha

da grande confusão gerada com

tal festa e assistiu a vários beijos

trocados, roubados e consentidos

no seu interior com as bonitas

ajudantes voluntárias no tirar

e pôr das aparelhagens.

Seguramente em Massamá,

nos dias seguintes, muito se terá

comentado tal noitada.


os tubarões ’67 145

.o.meu.

retrato.dos.

tubarões.

Estaríamos na fase mais

equilibrada do conjunto com a

nossa formação base estabilizada

desde 1964 composta pelo José

Merino, vocalista, Carlos Alberto

nas teclas, Victor Barros na viola

solo e ritmo, Luís Dutra na vila

baixo e eu na bateria. Tínhamos

tido como violas solo o Tó Fifas

em 1964, o Quim Guimarães em

1965 até Março de 1966, e sem

viola solo desde essa altura,

tendo começado o Victor a exercer

tal função.

O Zé Merino era o mais criativo

de todos nós. Tinha uma voz

poderosa que tanto cantava Tom

Jones, Eric Burdon, Bécaud ou

“Bee Gees”, nunca faltando os

seus idolatrados “Beatles” de

quem absorvia tudo, conhecia

todas as músicas, e sabia quase

todas as letras. E este pormenor

muito contribuiu para a sua

evolução enquanto vocalista e

também fomentou a sua veia

criativa. Tudo o inspirava para a

criação de novos temas. O Zé, se

tivesse tocado um instrumento,

teria sido um criador musical

único. Dos sete originais que

temos registados esteve presente

em seis e foi o principal autor

de cinco. E mais não fez por se

esquecer das muitas criações que

lhe surgiam na cabeça e que mais

tarde não conseguia reproduzir

junto dos restantes membros do

conjunto. Seguramente com um

instrumento à mão tais criações

não seriam esquecidas. O timbre

da sua voz era uma das marcas

do nosso conjunto.

O Carlos Alberto nos teclados

era outra das marcas do som

do nosso conjunto. Iniciou a sua

aprendizagem musical na Escola

de Acordeões Mário Costa, e tais

conhecimentos foram sempre

preciosos para todos nós.

Era muito completo, discreto

e exigente. E quando algo não

lhe soava bem não descansava

enquanto não descobrisse a

imperfeição. E tinha sempre

razão. Completo, estudava

sózinho o seu instrumento,

dedicava especial atenção aos

solos que interpretava como


146 porViseu ’60s.

poucos, como o do “I put a

spell on you”, e era exímio no

uso da pedaleira. Tinha uma

particularidade única. Nas noites

mais longas, quando tocávamos

séries de slows (rapsódias de

músicas instrumentais tocadas

de seguida, sempre ligadas, com

o mesmo ritmo), que o público

muito apreciava para dançar

mais aconchegado, conseguia

adormecer, tocar as músicas

completas sem qualquer falha.

Só tínhamos que o acordar

no ponto certo para ele não

estremunhar. Ninguém notava.

Só nós.

O Victor Barros (Vitó) era o perito

em ritmo e harmonia. “Batia”

a bossa como poucos e ainda

hoje, sempre que pega no violão,

é difícil resistir ao ritmo e ao

balanço que imprime quer com a

batida, quer com o som resultante

do diálogo das duas mãos. Solava

sempre que necessário mas

era na melodia onde se sentia

mais à vontade, na sétima,

na dissonante, nos coros, no

pormenor que fazia a diferença,

como o prova o “Você vai

chorar” de sua autoria. Também

interpretava bem “I’ve Got My

Mojo Working” numa versão mista

de Jimmy Smith e “Quinteto

Académico”. Nós gostávamos

muito.

O Dutra era sem dúvida o mais

dorminhoco e o sempre atrasado.

Com a eterna ajuda do Carlos e

do Victor cumpria a sua missão.

Evoluiu muito e poderia ir

ainda mais longe mas os seus

atrasos constantes a todos os

compromissos, ensaios, namoros,

refeições, exames, não lhe davam

tempo para mais. Conseguia moer

a cabeça de toda a gente, mas

bom rapaz e bem disposto, com

muita graça, lá conseguia levar a

água ao seu moinho, mesmo para

as mós mais exigentes.

A sua coroa de glória era a

interpretação de “The more I see

you”, numa versão revitalizada do

Chris Montez.

Quanto a mim ainda hoje não

estou seguro se a bateria teria

sido o instrumento para o qual

teria mais vocação. O que aprendi

em 1963 com o Tó Fifas foi a

melhor base de conceitos que me

serviu para a vida musical. Nunca

tive outro instrutor, tudo o que

vim a saber foi por observação,

algumas dicas e intuição.

E é este motivo que leva à minha

dúvida. Era um baterista mais

na base da força do que no jeito.

Hoje cada vez mais aprecio os da

arte pela suavidade e leveza do

toque. Consegui “bater” bossa

com algum à vontade muito

impulsionado pelo toque do

Victor, que sempre acompanhei

a preceito. Era certinho qb para

o conjunto que éramos.

Solos de bateria só a pedido e

não foram muitos os solicitados.

Em termos vocais tentavam

sempre empurrar-me para

cantar “o Pato” de “João Gilberto”

(Vinícius de Moraes/Toquinho/

Paulo Soledade) mas a minha

interpretação era efectivamente

uma séria ameaça à do “Juca

Chaves”.


os tubarões ’67 147

.woolmark.e.

s.pedro.do.sul.

1

1.

Desfile Woolmark no

Hotel Grão Vasco

Finalmente chegou de Itália o

novo orgão Farfisa Compaq Duo,

o topo da gama Farfisa, que todos

nós desejávamos, já que era o

instrumento crucial do nosso

conjunto e tinha para o explorar

musicalmente o, de todos nós

mais bem preparado e dotado,

Carlos Alberto. Desde finais de 64

que o órgão fez sempre parte da

nossa formação. Era fundamental.

Regressámos às Passagens de

Modelos Woolmark, sempre

apresentadas pela nossa

madrinha Maria Leonor e no

S. Pedro fomos animar as festas

em S. Pedro do Sul no Palácio

de Reriz, mesmo no meio da

época de exames. Nestas

deslocações, próximas de Viseu,

tínhamos sempre vários grupos

de admiradores que nos seguiam

e que por vezes ultrapassavam

as 50 pessoas. Um deles era

formado só por amigas e colegas,

que nos mantinham sempre a

alguma distância, sempre muito

animadas e prontas para um

pézinho de dança. Sem nunca

o anunciarem, lá se metiam

nas suas viaturas e apareciam

com um arzinho da sua graça.

Era o grupo da “Capitão Silva

Pereira”, bem divertido, grandes

dançarinas e cuja presença, que

sempre nos agradou, era muito

regular nestas festas.


148 porViseu ’60s.

permitiu ouvir grande parte da

música, que mal terminou o Zé

logo cantarolou o conhecido

refrão com o Victor a tentar

“tirar os tons” na sua Fender.

Na Época de 1967 as Variedades

eram acompanhadas pela

“Orquestra de José Santos Rosa”

e a nós, pela primeira vez como

cabeças de cartaz, competiam-

-nos os bailes e as matinés,

estas por vezes partilhadas com

os “Vodkas”, e aqueles, em dias

de enchente, reforçados pelo

conjunto “Nelo Costa”.

.de.novo.no.

.casino.

1

1.

Festa à Portuguesa no Salão de Café

2

3

4

2. 3. e 4.

Programas do Casino

Estreámos no Grande Casino

Peninsular da Figueira da Foz

a 22 de Julho, com o conjunto de

João Paulo com Sérgio Borges,

com quem partilhámos a matiné

do domingo seguinte, 23.

Recorde-se que foi a 25 de Junho

que os “Beatles” lançaram “All

You need is love”, essa obra prima

à amizade, no programa da BBC

“Our World” lançado para 26

países, directamente do Abbey

Road Studios com a presença

de Mick Jagger, Eric Clapton,

Marianne Faithfull, Keith Moon

e Graham Nash. Nessa tarde

estávamos nós a ensaiar no Salão

Nobre do Casino e apareceu

alguém com um rádio que nos

Como vinha a acontecer desde

1965 a logística da estadia e

alimentação estava a cargo da

Residencial Júlio, e vivíamos num

prédio na Rua Bernardo Lopes,

numa zona sossegada perto do

Casino que nos permitia dormir

até tarde, já que as noites eram

sempre longas, e terminavam

em regra com uma boa ceia,

acompanhada com o humor

constante, as anedotas e a boa

disposição do Zé Gordo,

o fotógrafo do Casino, muito

nosso amigo e sempre bem

disposto mesmo nos piores

momentos da sua “Briosa”.

A ceia, dependendo das horas

e do local ainda aberto, podia

ocorrer no Casino, ou no Nicola

com o seu bife à café, ou nas

bombas da Sacor, junto da

Estação.


os tubarões ’67 149

.a.vida.no.casino.

O nosso dia-a-dia não dava

para muitos veraneios já que

tocávamos todas as noites e

fazíamos duas matinés por

semana. Acordávamos tarde.

Em dias de matiné almoçávamos

por volta das 15h para

começarmos a tocar ás 16h30

até às 19h50. Após um banho e

nova indumentária, jantávamos

para voltarmos ao Casino às

22h30, começando a tocar por

volta das 23h até às 2h. Em noites

de eleição e por convite pessoal

e exclusivo, cada um de nós ia

alternadamente jantar a casa

do nosso amigo e empresário

Sr. António Xavier Loureiro, que

tinha alugado uma casa com a

família próxima do Casino. Eu fui

um privilegiado pois seguramente

fui o frequentador mais assíduo

daqueles excelentes jantares.

Era sempre uma noite em cheio

pois o manjar era óptimo, farto

e muito bem regado com o Dão

especial da Quinta de Pindelo.

Único!

As Variedades iniciavam-se às

22h30 no Salão de Café e tinham

uma duração aproximada de

meia hora a 40 minutos. Sempre

que havia uma atracção especial

(Amália, Rui de Mascarenhas,

e outros que o justificassem)

havia uma segunda parte no Salão

Nobre à 1h com essa vedeta.

Os preços variavam consoante

o mês. Em Agosto de 1967 as

matinés tinham o preço de

10$00. As noites de sexta-feira

e sábados eram as mais caras,

no geral 40$00, mas com uma

atracção especial iam aos 50$00

e até aos 60$00. Os restantes dias

da semana os preços variavam

entre 25$00 e 30$00 dependente

do cartaz.

Quanto a nós, nos dias em

que não fazíamos as matinés,

descansávamos um pouco mais

sacrificando por vezes o almoço,

ou procurávamos o convívio

descontraído com os muitos

amigos que tínhamos.

Num eventual descanso semanal

ensaiávamos ou aceitávamos um

dos inúmeros convites e que iam

desde as paellas na praia com

o grupo espanhol liderado pelo

Manolo e pela Apy, os lanches

retemperadores na Serra da Boa

Viagem, as festas do amendoim

em casa do Victor Pais, ou

os passeios pelos arredores.

Passámos por todos eles.

Tínhamos um óptimo

relacionamento com a Direcção

do Casino e um convívio muito

agradável com todos os artistas,

com especial simpatia com a

“Orquestra de José Santos Rosa”

e vários dos seus elementos,

além do Maestro. E aos poucos

dominávamos os meandros

e os corredores do Casino,

influenciámos as eleições das

Misses conseguindo que de facto,

e em nosso entender, fossem

eleitas as mais elegantes

e bonitas candidatas.


150 porViseu ’60s.

.miss.espanha.

Uma das iniciativas do Casino

era a eleição de Miss Espanha

dedicada à grande colónia

espanhola de Badajoz, Cáceres,

Sevilha, Salamanca e até Madrid,

com grandes aficionados do jogo

e, naturalmente, das corridas de

touros. E a Figueira tinha como

oferta estas duas diversões.

Pois numa terça-feira, dia 15 de

Agosto, o Casino comemorava o

dia de Espanha com um programa

especial dedicado à comunidade

do país vizinho. Fez decoração

especial a condizer e além da

grande atracção nacional Rui de

Mascarenhas, apresentou o Grupo

Coral e Folclórico de Alicante. Era

um programa totalmente dedicado

a Espanha e a língua oficial do

5 6

8

7 9

5. 8. e 9.

Programas do Casino

6.

Eduardo, Vitó, Dutra e Carlos

Alberto com Miss Espanha

7.

Com Simone de Oliveira

Casino era o espanhol, tantos

eram os presentes daquele país.

Mais uma noite de casa cheia.

A eleição da Miss Espanha e

respectivas Damas de Honor era

feita sob proposta de cada grupo

de amigos ou comunidades de

origem que indicavam o nome

das suas candidatas. Fechadas

as inscrições as candidatas eram

chamadas, por vezes algumas

delas não sabiam que tinham sido

propostas, e depois de algumas

voltinhas no palco havia um

período para a votação.

Nessa noite estava entre as

candidatas uma nossa amiga de

Cáceres, muito bonita, simpática,

suave e com um sorriso bonito

e tranquilo. Para nós, melhor,

para os portugueses, era quem

merecia ganhar. Mas como era do

grupo de Cáceres e havia grupos

de outras localidades muito mais

numerosos poderia correr-se o

risco de ganhar alguém que não

merecia tal título. Assim, e com a

conivência de alguns elementos

do Casino, conseguimos arranjar

uma caderneta dos canhotos

utilizados na votação, e coube-

-nos a nós, e alguns amigos,

preenchermos talões suficientes

para se conseguir uma votação

adequada para a Miss Espanha,

que conquistou o ceptro por

maioria clara e foi objecto de

grande ovação. Concretizado

o acto conseguimos uma foto

para a prosperidade com a Miss

Espanha eleita.

.artistas.com.quem.nos.

cruzámos.

Privámos de perto com os

maiores artistas portugueses

da época.

O Casino era de facto uma casa de

trabalho para todos. Segue-se a

lista não exaustiva dos principais

artistas com quem privámos

no Casino em 1967:

CONJUNTOS E ORQUESTRA

ARLINDO SOUSA

JOSÉ SANTOS ROSA

NELO COSTA

OS VODKAS


os tubarões ’67 151

ARTISTA

AMÁLIA

ANTÓNIO MAFRA

CONJUNTO JOÃO PAULO

DUO OURO NEGRO

FERNANDO CORREIA

FRANCISCO JOSÉ

HERMÍNIA SILVA

JOÃO MARIA TUDELA

LUIS GUILHERME

MANUEL FERNANDES

MARA ABRANTES

MARIA DE LOURDES RESENDE

MARIA VALEJO

MARIETE PESSANHA

NICOLAU BREYNER

PEIRÓ

RUI DE MASCARENHAS

SIMONE DE OLIVEIRA

TERESA TAROUCA

TONI DE MATOS

TONICHA

TRISTÃO DA SILVA

VERÓNICA

DATA

ago

16 set

22 jul e 25 ago

17 ago

ago/set

02 set

26 ago

26 jul

25 ago

16 set

23 jul

13 a 15 set

15 ago

25 ago

29 a 31 ago

ago/set

12 a 15 ago

25 a 28 ago

19 a 21 ago

9 a 12 set

22 ago

19 a 21 ago

12 set

.peiró.

Além da orquestra e conjuntos

para toda a época, o Casino tinha

contratado outros artistas que

completavam o elenco para as

necessidades sentidas em três

meses de grande exigência diária.

Um deles era o apresentador

e cantor Fernando Correia que

fazia de anfitrião todas as noites

apresentando o espectáculo

e por vezes interpretava os

seus próprios êxitos musicais

acompanhado pela Orquestra.

Outro era o Peiró, um exímio

pianista que tanto tocava peças

a solo como acompanhava alguns

artistas e por vezes também

integrava a própria Orquestra.


152 porViseu ’60s.

Era um artista de grande

qualidade, sensibilidade e gosto

musical. Era um prazer vê-lo a

tocar piano onde os seus dedos

rasavam pelas teclas com uma

suavidade imperceptível.

Foi também um grande amigo

nosso que procurava ouvir-nos

com muita atenção, fazendo

várias sugestões, críticas,

e apreciações que nós muito

considerávamos. Por vezes nas

matinés sentava-se nas galerias

a ouvir-nos e tecia os comentários

que entendia devidos ao Rogério

para nos transmitir.

Sempre muito úteis.

O Peiró foi um dos membros da

primeira formação do quinteto

“Thilo’s Combo”, um dos melhores

conjuntos profissionais dos 60’s,

criado em 1962 com a seguinte

formação: Thilo Krasmann

(contrabaixo e voz), José Luís

Simões (guitarra eléctrica),

Enrique Peiró Jr. (piano),

Fernando Rueda (bateria) e Vítor

Santos (saxofone).

Quando havia estreias

procurávamos assistir aos

ensaios das vedetas com a

“Orquestra de José Santos

Rosa”. Formava-se uma plateia

na assistência, normalmente do

lado esquerdo do palco, o lado

da porta dos artistas, composta

pelos familiares dos elementos

da orquestra. Para nós, aqueles

ensaios eram aulas de música

onde aprendíamos sempre

alguma coisa, como tornear sons,

instrumentos e resolver algumas

situações musicais não previstas.

Uma excelente escola.

Passámos momentos bem

divertidos com vários artistas,

muitas festas, agradáveis

convívios, inúmeras farras,

e ganhámos muitos amigos.

E temos memórias registadas

com a Simone de Oliveira e com

o Nicolau Breyner, merecendo

este algum destaque pela

amizade e conivências vividas,

que perduram pelos tempos.

.com.o.nicolau.no.casino.

Conhecemos o Nicolau no Casino

da Figueira. Estreou a 29 de

Agosto, esteve presente na nossa

matiné desse dia, imediatamente

antes do seu ensaio, a que

também assistimos. E sentimos

alguma proximidade entre nós

pela juventude e tipo de música.

O Nicolau com os seus 26 anos

era uma vedeta do Cinema e da

Revista e tinha iniciado a carreira

de cantor a solo. Começámos a

conviver nesse dia com muita

empatia mútua. Ao serão e após a

estreia ceámos juntos no Casino

e houve logo noitada. O Nicolau,

qual vedeta, estava instalado no

Grande Hotel. Quando saíamos

do Casino já estava tudo fechado

na zona central e acabámos

por ir até à Sacor, o único lugar

ainda aberto às 3 da manhã.

Depois de alguns copos e muita

laracha divertida regressámos

a pé da Sacor que ficava perto

da Estação dos Caminhos de

Ferro. Quando passávamos nas

Docas estavam a entrar algumas

traineiras cheias de sardinha,

com um brilho único tão reluzente

que o Nicolau não resistiu e

encomendou duas caixas pedindo

que as entregassem de manhã

no Grande Hotel. Combinou-se

logo uma grande sardinhada

para o dia seguinte com o nosso

compromisso de tratarmos da

logística necessária. O pescador,

atónito, lá aceitou o dinheiro e

comprometeu-se a entregar as

caixas ao outro dia de manhã

no Grande Hotel, como veio a

acontecer. Ainda antes das 10h,

madrugada para o Nico, toca o

telefone da recepção. O Nicolau

ainda a dormir perguntava: “Duas

caixas de sardinha para mim? Para

mim??? Oh Homem sei lá, leve-as

para a cozinha que depois logo

se vê; Olhe, ofereça-as aos seus

Clientes ao almoço.” E nunca mais

se lembrou da sardinhada.

Como combinado encontrámo-

-nos à tarde no Casino. Entretanto

mobilizámos algumas amigas

e amigos, uns com carro, e o

Zé Gordo preparado com o seu

Peugeot, para irmos à sardinhada

do Nicolau cujo local mais

sossegado e apropriado seria

o Cabo Mondego. Quando o

Nicolau chegou ao Casino é que se

lembrou da sardinhada combinada

e do que tinha dito no hotel.


os tubarões ’67 153

Lá se desfez em desculpas e

nos descompôs em riso com as

sua inúmeras histórias e graças

que lhe saíam em catadupa, não

dando tempo para mais alguém

falar. Meia hora depois, já com

o grupo mais reduzido, o Nicolau

manifestou algum interesse em

dar uma volta pela Figueira.

Logo o Zé Gordo ofereceu os seus

préstimos e uma das figueirenses

presentes prontificou-se a ser a

cicerone na Figueira da Foz

e arredores. Foi uma volta longa

que terminou tarde na Serra

da Boa Viagem. À noite, o Zé

Gordo, muito entusiasmado,

acercou-se de nós dizendo que

o Nicolau tinha uma proposta

irrecusável, aconselhando-nos a

não dizermos que não. Ficámos

expectantes pelas novidades que

iriam aparecer. Após o Show, o

Nicolau propôs-nos produzirmos

um espectáculo em que ele

seria a atracção, nós faríamos

sozinhos a 1.ª parte e na 2.ª

acompanharíamos o Show do

Nicolau. E não haveria problema

pois em Setembro já poderíamos

ir para Lisboa e começar os

ensaios para em Outubro

começarmos a tournée. Foi um

projecto que nos agradou sem

dúvida, mas… e os estudos, …

Ficou a ideia que a todos

entusiasmou, e até o Zé Gordo

estava disponível para fazer a

cobertura fotográfica do evento

de abrangência nacional.

E tratámos logo de ensaiarmos

uns toques que o Zé Gordo

registou para a posteridade.

Nunca conseguimos concretizar

este projecto. O Nicolau somava

êxitos sobre êxitos na arte de

representar, e nós voltámos ao

ano escolar, ainda um pouco

meninos dos teen, em vésperas

da guerra, marchar, marchar…

No ano seguinte viemos a

reencontrar o Nicolau no

Casino e, em simultâneo com o

Toni de Matos, vivemos cenas

absolutamente hilariantes.

Mais tarde, já a cumprir o

serviço militar em Lisboa, voltei

a conviver com o Nicolau no

Monumental em 1969/70, e ainda

mais tarde, a partir de 1997

na RTP. Até hoje...

10

pág. seg.

10.

Com Nicolau Breyner no Casino

11.

Com Nicolau Breyner, ensaio

no Salão Nobre do Casino

12.

Licença da inspecção dos

espectáculos da programação

dia 29 Agosto

13.

Luís Dutra e Vató num ensaio

no estúdio

11 12

13


154 porViseu ’60s.

Ainda em Agosto voltámos ao

Clube de Ténis para duas matinés

de beneficência, como já tinha

acontecido nos anos anteriores.

A pedido do primo do Rogério,

o jornalista José Miguel Barros

especialista em desportos

motorizados, fomos fazer um

baile no Cine-Teatro da Nazaré,

muito animado e com grande

sucesso, em que a D. Urraca

voltou a ser de grande utilidade

para uns autógrafos e uns beijos

roubados com algumas das fãs

que não nos largavam. A viagem

de regresso à Figueira foi muito

tormentosa pois o nevoeiro era

cerrado e interminável. Ao volante

ia o Rogério com o Pascoal

como co-piloto. Nós, os artistas,

dormimos a sono solto e profundo

toda a viagem.

Também em Agosto, numa das

folgas demos um salto à Praia de

Mira onde tocavam no Mirasol

os nossos amigos “Kzares” de

Aveiro. Mal nos viram dedicaram-

-nos uma das suas interessantes

interpretações. No intervalo,

após algum convívio no Bar, os

“Kzares” convidaram-nos a irmos

até ao palco. Embora reticentes

pois não tínhamos vocalista,

uma vez que o Zé Merino não

nos pode acompanhar, não

conseguimos deixar de o fazer

até porque o ambiente era

fantástico, solto, animado, com

uma larga comunidade viseense

presente que não nos perdoaria.

E assim fizemos, tocando alguns


os tubarões ’67 155

dos números dos possíveis que

entendemos serem os mais a

propósito de tão inesperado

momento. Foi uma agradável

e descomprometida presença.

Regressámos muito satisfeitos

à Figueira com a promessa que

voltaríamos com a formação

completa. O que, com pena, não

concretizámos.

.novo.viola.solo.

Foi durante este mês de Agosto

que, em reflexão conjunta,

começámos a ponderar a

eventual entrada de um novo

viola solo. A nossa vida musical

era intensa, e seria extenuante,

não fora a nossa alegria e o gosto

de tocar. Gostávamos muito do

que fazíamos. 1967 estava a ser

o ano mais intenso da nossa vida

artística. Terão sido muito raras as

semanas em que não actuámos

publicamente, e nalgumas mais

de uma vez. No Casino facilmente

ultrapassávamos as 30 actuações

mensais e as 60 por época.

A rotina começava a ser grande e

nós não nos queríamos acomodar.

Pretendíamos ir mais longe, dar

um novo salto.

.os.chinchilas.no.casino.

Conhecíamos no grupo da

Figueira o Vató que, quando

podia ou o pai autorizava, tocava

em Lisboa com os “Chinchilas”,

muitas vezes às escondidas.

O Filipe Mendes, líder do

conjunto, passava as férias

na Figueira pois tinha lá casa.

Um belo dia os “Chinchilas”

ofereceram-se ao Casino para

fazerem uma matiné.

O Sr. Mendes Pinto, gerente

do Casino, pediu-nos a nossa

opinião, que foi positiva pois,

além de gostarmos de os ouvir, tal

actuação também nos permitia

um descanso suplementar.

E então lá se realizou a matiné

com os “Chinchilas” que durou

pouco mais de meia hora, já que

teve de ser interrompida pois o

volume do som era tão alto, tão

alto, que ia gerando a evacuação

do Pátio das Galinhas. E este

episódio, muito comentado na

Rua do Casino, também nos

ajudou a trazermos o Vató para o

nosso conjunto.

.o.convite.ao.vató.

O pai do Vató, o Sr. Valdemar

Ramalho, óptima pessoa muito

conhecida e respeitada na

Figueira, tudo fazia pelo filho e

tudo lhe dava desde que ele fosse

cumpridor nos estudos, o que

nem sempre acontecia. Apesar

de tudo, o Vató já tinha a sua

viola Guild Star Fire, muito bonita

e com som inigualável,

e o seu amplificador Vox 730

para “brincar” em casa.

Após alguma aproximação com

o Vató que começou a ir mais

vezes ao Casino e a assistir às

nossas actuações, o Sr. António

Xavier Loureiro convidou os

pais do Vató para jantarem no

Casino e assistirem à nossa

actuação. O que aconteceu com

grande sucesso. Tocávamos no

Salão Nobre que tinha péssimas

condições acústicas com

inúmeros ecos repartidos por

todas as paredes e provocados

pelos inúmeros espelhos do

Salão. Com a experiência

adquirida e o bom equipamento

que tínhamos, dominávamos bem

o som, o que era um dos factores

muito apreciados por todos

os públicos, mesmo aqueles

que, não dançando, podiam

estar nas mesas a ouvir música

ou a conversar. E este factor

diferenciador aliado a alguma

boa fama de bons rapazes e

estudantes razoáveis possibilitou

que o Sr. Valdemar autorizasse a

entrada do Vató para o conjunto.

Aproximava-se o novo ano

escolar e o Vató matriculou-se

como aluno interno no Colégio

do Carregal do Sal, bem perto

de Viseu, o que iria facilitar os

ensaios aos fins de semana,

como veio a acontecer a partir

de Outubro de 67.


156 porViseu ’60s.

1

1.

Casaca preta do Zé Merino

2.

Casaca bordeaux

do Carlos Alberto

.as.casacas.

à.beatles.

2

De regresso a Viseu fomos

confrontados com um

pedido peculiar. A Alfaiataria

Álvaro Alfaiates, a de

maior prestígio da cidade,

ofereceu-se para nos

vestir a custo zero. Só tínhamos

de referenciar que era aquela

casa que nos vestia e permitir

a colocação da nossa foto nas

montras da Alfaiataria, situada na

Rua Alexandre Herculano, frente

ao Lar. O Mestre Álvaro, através

do pai do Zé Merino de quem

era amigo e fornecedor, queria

fazer um traje especial para o

conjunto. Das conversas tidas

com o Zé, inspirados no álbum

“Sgt. Pepper’s Lonely Hearts

Club Band” saído a 1 de Junho

desse ano, desenham e projectam

um novo traje, umas casacas à

“Beatles”, num tecido especial

que não foi fácil encontrar, cada

uma de sua cor: Carlos Alberto,

encarnada; Eduardo Pinto, roxa,

José Merino, preta, Luís Dutra,

verde, Vató, azul turquesa e Victor

Barros, bordeaux.

E assim nasceu mais uma

fatiota que teve muito uso pela

originalidade como se pode

comprovar na capa do disco.

E durante umas semanas as

Casacas estiveram em exposição

nas montras da Alfaiataria

chamando a curiosidade de

muitos visitantes que ali iam ver a

obra de arte da Alfaiataria Álvaro.


os tubarões ’67 157

.gravação.do.

disco.

1

1.

Cartaz de promoção do disco

Iniciadas as aulas voltámos

ao trabalho no nosso estúdio.

Além da viola Guild Starfire

e do amplificador Vox 730 do

Vató ainda adquirimos um

amplificador Baldwin que era um

primor nos agudos. Para a mais

rápida integração no conjunto

ensaiávamos todos os fins de

semana, por vezes também às

quartas-feiras à tarde e sempre

que havia um feriado.


158 porViseu ’60s.

2.

Artigo de revista Flama,

Maio 1968

2

3

4

3.

Amplificador VOX 730

4.

Viola Guild Starfire IV

O Vató ficava instalado em casa

do Sr. Loureiro e os ensaios eram

contínuos e sem limites horários,

ora revendo o repertório para a

inclusão dos novos solos, ora

actualizando-o com a inclusão

de novos temas, ora criando as

nossas próprias composições.

Nos intervalos o Vató ia aos

diferentes alfaiates fazer as suas

indumentárias e nos descansos

musicais fizemos um novo

conjunto de fotografias com a

nova formação. O nosso fotógrafo

habitual era o Germano. O dono da

Foto Aires manifestou junto do

Sr. Loureiro muito interesse

em fazer por sua conta e risco

um novo conjunto de fotos do

conjunto.

E assim foi. Fizemos fotos no

Estúdio da Foto Aires que deram

origem ao cartaz azul, e outras

fotos de exterior.

Entretanto voltámos a ter

contactos relativos à gravação

de um disco. Foram várias as

hipóteses mas a que veio a

concretizar-se foi a da etiqueta

Alvorada. Neste particular teve

relevância o trabalho do António

Matos e do Fernando Pascoal.

Tínhamos quatro originais

possíveis de gravação: a série


os tubarões ’67 159

do “Old Lady” composta pelas

músicas “Old Lady”, “A girl for me”

e “Come back” e, mais recente,

a criação do Victor dedicada à

Fernanda “Você vai chorar”.

De Lisboa recomendavam a

criação e gravação de um tema

com letra em português de um

poeta de renome. E esta opção

despertou a veia criadora do Vató

que musicou o “Poema de um

Homem Rã”, da autoria de António

Gedeão. Embora com temas

suficientes, o Zé Merino, muito

inspirado nos últimos temas dos

“Beatles”, cria o “Lucky Day”,

e o “Baby it hurts”, este último

bebendo alguma influência nos

coros do “Holiday”, êxito dos “Bee

Gees”. E ficaram seleccionados

os 4 temas do nosso primeiro EP:

“Poema de um Homem Rã”, criado

no Colégio do Carregal do Sal

pelo Vató, com letra adaptada do

poema de António Gedeão; “Você

vai chorar” do Victor Barros com

letra do Zé Merino, “Lucky Day”

com música e letra do Zé Merino

e o “Baby it hurts” com letra e

música do Zé Merino.

Ensaiámos as músicas e num fim

de semana de Novembro fomos

para o estúdio em Lisboa.

Terá sido próximo da data das

grandes inundações desse ano.

O estúdio ficava situado na

Calçada de Santana e estava

reservado a partir das 9h de

sábado. O nosso amigo Maurício

de Sousa partiu na sexta feira de

manhã ao volante da D. Urraca

com todos os equipamentos

e nós partimos depois das aulas

tendo chegado ao fim do dia,

preparados para estarmos no

estúdio a partir das 8h de Sábado

para montarmos o equipamento

e iniciarmos as gravações.

A gravação correu bem. Primeiro

gravámos a vertente instrumental

e só depois as vozes. Por volta

das 12h30 o técnico deu-se por

satisfeito com as gravações

feitas. Ficara por fazer o trabalho

de mistura e uma pós-produção

com a inclusão de sons externos,

essencialmente no “Poema do

Homem-Rã”. O Vató, autor da

música, pretendia que fossem

incluídos sons do mar, e sons de

um mergulhador a entrar na água

a descer ao fundo, misturados

no refrão balanceado da música,

nas partes onde, na gravação

editada, se podem ouvir assobios

e pequenos gritos. O próprio

refrão foi assim gravado com esse

propósito.

Saliente-se que o disco era

composto por quatro títulos

originais completamente

desconhecidos do público, o

que naquele tempo não era

vulgar pois as práticas correntes

dos conjuntos como o nosso


160 porViseu ’60s.

1

2

3

1. 2.

Fotos, Outubro 1967

3.

Cartaz do conjunto

era editarem covers de êxitos

internacionais. O exposto revela

a importância que para nós

tinha este trabalho cuidado de

pós -produção, devidamente

explicado aos técnicos do estúdio.

A nossa tarde estava reservada

para uma sessão fotográfica

mas o mau tempo obrigou ao

seu adiamento para a manhã

seguinte. Este adiamento

permitiu que a D. Urraca desse

apoio aos desalojados das cheias

em Alverca, onde a Associação

dos Estudantes de Económicas

colaborava com os bombeiros

locais.

Na manhã de domingo levantámo-

-nos cedo e fomos até à beira

rio tirar as fotos para a capa do

disco. A foto seleccionada foi uma

das tiradas junto ao Monumento

dos Descobrimentos, coladinhos

à sua base, com o Victor com

os joelhos encolhidos para

todos aparentarmos a mesma

estatura. Com a excepção do Vató

(1.º esquerda) e do Luís Dutra

(penúltimo), vestíamos as nossas

casacas inspiradas no modelo

do Sargeant Pepper.

Regressámos a Viseu confiantes

no entusiasmo da equipa técnica

e nos trabalhos de mistura e

pós-produção acordados com

a Editora, os quais infelizmente

nunca vieram a ser concretizados,

nem veio a ser cumprida a meta

da Editora para o lançamento

do disco no Natal.

Na viagem de regresso a Viseu,

no fim do dia desse domingo

a D. Urraca, à saída de Leiria,

na subida íngreme após a ponte

começou a queixar-se do excesso

de peso. Patinava, patinava,

patinava e não subia.

Lá tivemos de a deixar em Leiria

para pôr uma embraiagem nova

e fomos de táxi até Viseu.


os tubarões ’67 161


162 porViseu ’60s.

.depoimento.

Fernando Pascoal de Matos

Em Outubro de 1966, acabadas as

férias grandes, preparava-me para

vir para Lisboa começar as aulas

no ISCEF, quando me pediram,

como velho amigo dos “Tubarões”,

para os representar em Lisboa.

Fui convencido (sem grande

esforço!) e passei a ter como

metas a atingir, fazer contactos

com as Associações Académicas

de Lisboa para apresentação do

conjunto e para uma actuação

numa das festas académicas

e desenvolver os contactos, já

iniciados, com as produtoras de

discos, para a gravação de um EP.

A Associação de Estudantes

do Instituto Superior Técnico

mostrou-se muito interessada e

só não se concretizou a vinda dos

“Tubarões” devido à sobreposição

de datas e impossibilidade de

mudanças.

Comecei pela Arnaldo Trindade

visto que um dos sócios era um

velho amigo da família e pensei

(erro da juventude!) que seria fácil.

Não foi dito declaradamente que

não, mas que naquele momento

havia problemas de planeamento

na etiqueta Orfeu, mas que depois

falaríamos…

Fiz contactos com outras

firmas, que não vou nomear por

exaustivo, referindo apenas que no

contacto com a “Feira do Disco”

fui informado que tinham em

carteira milhares de conjuntos e

que não tinham capacidade de os

ouvir todos!

Depois de varias tentativas e com

auxílio de alguns amigos com

conhecimentos no meio, tive uma

serie de reuniões com a Valentim

de Carvalho, tendo surgido a

primeira abertura já em fins de

Abril, começos de Maio de 1967.

Marcou-se nova reunião, já com a

presença do “Toninho” de Matos –

ao tempo um dos “managers” do

conjunto que fez entrega de uma

bobine com uma gravação feita no

“estúdio” em Viseu, para avaliarem

as possibilidades do conjunto.

Cerca de duas semanas depois,

a Alvorada contactou-nos

e marcou uma reunião

manifestando o interesse em

elaborar um contrato exclusivo

por um período de dois anos com a

edição mínima de um EP por ano.

Tivémos uma reunião em Lisboa

com a presença de representantes

da Alvorada, com o António de

Matos e comigo. Ficou assente a

gravação de quatro originais e foi

alvitrado que seria interessante

um dos originais ser em português

“…uma coisa assim como o

D. Sebastião dos 1111”, que era

um sucesso da época.

Ficou marcada uma presença

do conjunto em Lisboa para

uma sessão fotográfica para

elaboração da prova da capa e a

entrada em estúdio a combinar

em função das disponibilidades

mútuas, do estúdio e do conjunto.

A gravação acabou por se fazer

fins de Novembro de 1967, uma

semana depois das grandes

inundações na região de Lisboa.

O disco incluía o “Poema do

Homem Rã” o tal original em

português que tinha sido pedido e

o disco foi o êxito que se conhece.

Como nota final só há a referir que

estavam “Os Tubarões” no estúdio

a gravar, apareceu o dono da Feira

do Disco – o tal que tinha milhares

de conjuntos e nada de os ouvir

todos – dizendo-se disposto a

assinar já ali um contrato com

muito melhores condições do que

as da Alvorada.


os tubarões ’67 163

.fim.do.ano.

no.grande.hotel.

No último trimestre do ano

voltámos aos Bailes de Finalistas

e no fim do ano regressámos ao

Grande Hotel da Figueira da Foz.

Do programa fez parte no dia 30 de

Dezembro um “Jantar à Americana

com uma Passagem de Modelos de

Alta Costura WOOLMARK oferecido

pelo Secretariado Internacional

da Lã, com apresentação da

distinta locutora MARIA LEONOR”

que acompanhámos. Além

da passagem do ano no dia 1

animámos a entrega dos prémios

do Concurso de Elegância e do

Rallye.

No Salão do Hotel repleto de

público tínhamos muitos amigos

na assistência quer da Figueira

da Foz, quer de Lisboa, e as manas

Pontes sempre a sorrir e a animar

a pista de dança.

Um final de um ano muito rico

em trabalho, durante o qual

seguramente ultrapassámos as

90 actuações, número invejável

para qualquer conjunto amador ou

profissional, e mais ainda para um

conjunto formado por estudantes

de uma cidade do interior como

Viseu.

Em 1967 consolidámos de forma

decisiva a nossa carreira musical!


68

165

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179

181

.gozar.

.com.os.sheiks.em.viseu.

.depoimento.jorge.marques.

.a.1.ª.audição.do.ep-60-999.

.o.carnaval.da.neve.

.novos.instrumentos.

.na.cabana.em.s.pedro.do.sul.

.o.pânico.da.guerra.colonial.

.de.novo.na.figueira.

.na.casa.do.vató.

.a.vida.musical.

.pasqualle.con.franco.etti.

.o.meu.primeiro.charro.

.o.empresário.inglês.

.no.último.palco.


os tubarões ’68 165

.com.os.sheiks.

em.Viseu.

1.

Convite baile de finalistas com

“Os Sheiks” a 6 jan 1968

2.

No sarau do liceu a

acompanhar uma finalista

1

2

3

4

3.

Actuação no sarau

4.

Amplificador Baldwin

Iniciámos o ano animando mais

um Baile de Finalistas do Liceu de

Viseu no Cine-Rossio tendo como

parceiros musicais “Os Sheiks”,

(Fernando Chaby, Edmundo

Silva, Fernando Tordo e Paulo de

Carvalho). Animámos juntos quer

o baile no dia 6 quer a matiné

no domingo, dia 7, ambos com

o mesmo cachet de 12.500$00

cada.

Como o Carlos Alberto e o Zé

Merino eram finalistas do Liceu,

voltámos a ser “convidados”

a participar no sarau que se

realizou umas semanas depois

do baile, e onde acompanhámos

algumas finalistas que

interpretaram êxitos de então,

antes de encerrarmos o sarau

com um pequeno concerto.


166 porViseu ’60s.

.depoimento.

Jorge Marques

O sétimo ano era uma festa

que começava logo no início do

ano lectivo com a colagem dos

cartazes e que publicitavam o

Baile dos Finalistas. A colagem

era feita durante toda a noite

e a malta – ao entardecer –

encontrava-se toda no Café

do Parque, naquilo a que

chamávamos o arranha-céus,

imaginem que era o nome do

prédio mais alto da cidade e que

tinha para aí uns sete andares.

O engraxador desse café, que

também era poeta e artista da

bicicleta, figura castiça da cidade,

tinha providenciado uma carroça

com um burro e uma pipa de vinho,

que tinha que ficar muito bem

amarrada para não cair durante

a viagem dessa noite. Era a nossa

fonte de base para as horas que se

iam seguir.

A colagem dos primeiros cartazes

era rápida, o pior era depois.

No cartaz do nosso ano estava a

figura do Viriato, imponente, lança

em riste e o escudo recuado.

O cartaz anunciava, como

animação para o baile, os famosos

conjuntos de “Os Sheiks” e

“Os Tubarões”, estes últimos,

que eram a malta lá do Liceu e

que tinham chegado à final num

concurso de rock em Lisboa.

À medida que a noite avançava,

era cada vez mais difícil subir

as escadas, o vinho e outros

derivados subiam à cabeça e

desequilibravam os pés.

Depois vinham as serenatas em

vários lugares míticos como a

Casa do Augusto Hilário, a Sé,

a estátua do D. Duarte e nas

janelas das nossas colegas que

nos ofereciam comidinha boa,

bolinhos, Vinho do Porto, mas que

não nos deixavam pular a janela.

A certa altura, havia quem

quisesse saltar o muro do

cemitério e ir cantar lá para

dentro. Também porque a

campa do Hilário estava naquele

cemitério. Naquela noite até os

polícias eram nossos amigos e

guardavam as esquinas para

nos defenderem das rondas, que

eram os chefes deles. Na guitarra

e na viola lá estavam os manos

Gonçalves e as vozes eram de

quem quisesse cantar.

Nascia o dia e a magia acabava

por dar lugar à ressaca que durava

dois dias. Uma semana depois

era o baile no Cine-Rossio, as

nossas colegas estavam mais

bonitas que nunca. Cada um

tinha o seu par oficial, devida

e democraticamente eleito em

sorteio. Nós, os rapazes, de capa

e batina a rigor, de laço, elas de

branco que nem anjos, a maior

parte pura de fazer doer os olhos.

Lembro-me do meu par, chamava-

-se Natércia como em Camões, era

linda, pequenina, morena e com

uns olhos muito brilhantes.

Naquele tempo, tudo isto era

bonito, rosa e azul, comovedor,

emocionante e importante ao

ponto de ainda hoje nos vir à

memória e dar saudade!


os tubarões ’68 167

.a.1.ª.audição.

do.ep-60-999.

1

1.

Capa do disco,

Março 1968

Continuávamos sem notícias

da saída do disco. Insistíamos

com inúmeros telefonemas quer

para Lisboa quer para o Porto.

Queríamos notícias sobre os

trabalhos de pós-produção,

mas não conseguíamos saber

nem perceber como andavam os

trabalhos. Dificuldades típicas de

quem vivia numa pequena cidade

do interior. Note-se que em 1965

o país dispunha de 400.000

linhas telefónicas. E nós, jovens

ingénuos a viver na província,

confiávamos que tudo estava

a correr como o planeado.


168 porViseu ’60s.

Quarta-feira, dia 21 de Fevereiro Ouvimos exactamente o que

de 1968, alguém nos avisa que o gravámos directamente para a

nosso disco estava nas montras Tape. Nada foi feito, mexido ou

da Casa Torres e Torres na Rua corrigido.

Alexandre Lobo, Viseu. E largámos Nem a mistura foi cuidada.

tudo para o ir ver, ouvir e apalpar Ainda em estúdio, logo após a

o nosso 45 RPM (rotações por gravação das vozes e na primeira

minuto), EP-60-999.

audição das músicas referimos o

Gravado em Novembro de 1967 tema ao técnico de som que nos

tínhamos grande ansiedade e garantiu ser esse o seu métier,

muitas expectativas.

e que não ficássemos

Ao aproximarmo-nos da Casa preocupados.

Torres e Torres já ouvíamos Ponderámos tudo, até processar

alguns sons que nos eram a Editora. Não o fizemos

familiares pois o disco tocava em mas ficámos profundamente

altos berros com colunas à porta desiludidos, magoados e

para todos ouvirem.

completamente desmotivados

No meio dos muitos jovens que para a edição de outro disco,

compravam o disco, dos muitos como era o nosso compromisso.

abraços e alguns autógrafos, Apesar disto o disco esgotou

começámos a sentir algo de que rapidamente tendo sido objecto

não estávamos à espera: nada de cinco reedições, e nos dias

de pós-produção e até a mistura de hoje está bem cotado entre

não estava bem feita, como é os coleccionadores de vinil.

perceptível no “Lucky day”,

por exemplo.

Foi uma grande desilusão

e enorme o desagrado.

Foi assim a nossa primeira

audição do disco.


os tubarões ’68 169

.o.carnaval.

da.neve.

1

1.

Entrada do disco

no Top dos “Reis do Disco”

2

2.

Contracapa do disco

O Carnaval de 1968 foi a 27 de

Fevereiro.

Fomos contratados para fazer

o Canaval na Neve pelo Clube

Nacional de Montanhismo. Foi um

ótimo contrato objecto de leilão

entre as várias propostas que nos

surgiram, e que se fechou com

um cachet no valor de 30.000$00,

mais a estadia.

Saímos de Viseu no sábado de

manhã à frente de uma grande

comitiva com vários carros e

muitos amigos. Estava um dia

muito frio, chovia muito, e por

isso optámos pelo trajecto Viseu,

Guarda, Covilhã, Torre. Nevava

quando chegámos à Covilhã, onde

nos concentrámos e almoçámos.

A subida para a Serra foi muito

difícil porque caía um grande

nevão e havia uma grande fila de

trânsito nos dois sentidos.

Na frente seguia a D. Urraca

com o Rogério Dourado e o

Victor Barros, carregada com

os instrumentos. Subia muito

lentamente e começou a patinar.

Sem correntes e com o trânsito

completamente caótico tivemos

de recorrer ao auxílio da GNR,

presentes na subida, e com a

ajuda de duas viaturas, uma

à frente como batedores, e

um jipe atrás, lá conseguimos

chegar à Colónia do Clube

de Montanhismo, bastante

atrasados e com a D. Urraca

muito doente. O motor tinha

gripado.


170 porViseu ’60s.

Com o Salão completamente

esgotado, nessa noite a festa

começou um pouco mais tarde

mas animou muito e viveu-se

o Carnaval até às tantas.

Foi o Carnaval mais divertido

da história do conjunto.

Cá fora a neve caía

incessantemente e as estradas

continuavam bloqueadas.

O Carnaval da Neve realizava-

-se nas Penhas da Saúde na

Colónia Infantil da Montanha,

um edifício grande que além

do Salão de Festas tinha várias

camaratas. Como ninguém podia

sair, a organização disponibilizou

as camaratas, divididas em

ala feminina e ala masculina,

separadas por meias paredes

que não chegavam ao tecto,

equipadas com os tradicionais

beliches militares de dois

andares.

Muito tarde e a más horas, depois

de o baile acabar, começavam

os diálogos entre os casais

separados na busca dos artigos

de higiene, que propiciavam

comentários cruzados,

oportunos, com muito humor

e a gargalhada era geral.

O Vató andava muito inspirado

e saía-se com cada aparte que

não deixava ninguém dormir.

E como era Carnaval…

Foi de morrer a rir!

Quando a festa terminou,

a D. Urraca ficou a arranjar numa

garagem da Covilhã. Além do

motor novo aproveitou-se para

dar uma nova roupagem tendo

sido pintada toda de cor de

laranja com os rebordos salientes

a preto.

Na foto, da tarde de 25 de

Fevereiro de 1968, o José

Merino, o Carlos Assunção (“Os

Corsários”) e o Carlos Alberto

Loureiro brincam na neve frente

à Colónia. Pode ainda ver-se o

Cooper do Assunção estacionado

junto à Colónia.


os tubarões ’68 171

.novos.

instrumentos.

1

1.

Baile do Carregal do Sal,

Isabel Machado dança com Vató

2.

Amplificador VOX UL460

2

Logo após o Carnaval, o Edmundo

Silva, viola baixo dos “Sheiks”,

com quem tínhamos feito o Baile

de Finalistas de Viseu, informou-

-nos ter à venda todo seu

equipamento de baixo: viola baixo

Guild e amplificador VOX UL460.

O nosso equipamento de baixo já

estava velhinho e bem precisava

de uma reforma. Comprámos

a viola e o amplificador por

25.000$00, pagos através do

envio de cinco vales telegráficos

de 5.000$00, naquele tempo

o valor limite por cada um.

Com esta aquisição completámos

o nosso equipamento musical,

que era de grande qualidade

e valor comercial.

Seguiram-se de novo os Bailes

de Finalistas entre os quais o do

Colégio do Carregal do Sal, onde

andava o Vató e onde voltámos

a tocar com os nossos amigos

“Os Corsários”.


172 porViseu ’60s.

.na.cabana.

em.s.pedro.

do.sul.

1

1. e 2.

Actuação na Cabana em

S. Pedro do Sul

3.

Viola Guild Starfire Bass

2

3

A Comissão das Festas de

S. Pedro do Sul voltou a

contratar-nos para as Festas

do S. Pedro naquela vila. Iriam

preparar um local especial numa

vivenda frontal ao Jardim da

Câmara, chamada Vivenda Maria

José, onde foi construído o actual

Palácio da Justiça. Estávamos em

Junho, com pouca disponibilidade

por ser época de exames, mas

lá fomos e animámos as Festas

da Vila com dois ou três bailes

sempre muito concorridos.

O Vató, interno no Colégio, é que

não pôde estar presente.

As Festas de S. Pedro eram

muito concorridas. Vinham

foliões de todos os lados: muitos

veraneantes das Termas,

e naturais radicados noutros

locais do país que aproveitavam

as festas para regressar às

origens.

O local dos bailes era muito

bonito. Tratava-se do jardim da

vivenda muito bem adaptado com

um pequeno palco em forma de

cabana, uma pista de dança em

frente, logo seguido das mesas,

com serviço de bar e ceia, sempre

com o tradicional caldo-verde.

Numa das noites, com muito

calor, apareceu um enorme grupo

das Belas Artes do Porto, com

miúdas muito vistosas, giras e

com alguns provocantes decotes.

E davam muito nas vistas.

Claro que causaram sensação

e alguns locais não deixavam


os tubarões ’68 173

de deitar o olho e, já noite dentro

e mais animados, quiseram

mesmo deitar a mão. Insistiam

nos convites para dançar e a

resposta era sempre negativa.

A meio de uma das músicas

mais animadas, dançadas em

separado, com o grupo do Porto

todo na pista, lá se meteu um

mais atrevido com uma das

visitantes e estalou a confusão.

Era confuso mas ao mesmo

tempo divertido.

Não chegou a haver perigo, pois

nesses tempos a ética e os bons

modos imperavam. Era mais

a confusão. Não parámos de

tocar, tentávamos proteger os

nossos equipamentos, até que o

ambiente serenou, voltando

à normalidade. Nunca nos tinha

acontecido nada igual. Mas a

nossa decisão de não pararmos

de tocar foi a melhor, pois

contribuiu de forma decisiva para

o serenar dos ânimos na pista já

que, fora desta, a festa decorria

com alguma normalidade.

Em cinco anos, em centenas de

eventos musicais públicos foi o

único desacato a que assistimos.

Mas como se costuma dizer

nestes casos, as moças do Porto

também se puseram mesmo

a jeito.

Serenados os ânimos, a festa

durou até às tantas.


174 porViseu ’60s.

.o.pânico.

da.guerra.

colonial.

Os rapazes, a partir dos 18 anos,

viviam com uma grande ameaça:

a Guerra Colonial.

O primeiro passo era a Inspecção

Militar. Aos 18 anos todos os

rapazes eram chamados para

fazerem um exame médico, do

qual resultava a decisão quanto

à sua aptidão para prestarem

o Serviço Militar. Na minha

meninice, em dia de Inspecção

Militar, a cidade era invadida por

jovens do Distrito/Concelho que,

quando aptos, celebravam pelas

ruas da cidade a sua entrada para

o Serviço Militar. Era uma honra

e alegria que significava saúde,

virilidade e merecia celebração

e divulgação, dando até lugar

ao lançamento de foguetes.

Coitados dos pobres inaptos

que enfrentavam uma situação

difícil até para conseguirem um

casamento.

Mas nos anos 60 com a ameaça

da Guerra Colonial todos os

jovens ambicionavam ficar

inaptos. Todos procuravam

arranjar cunhas a favor

da inaptidão ou de uma

especialidade que possibilitasse

uma prestação longe das armas

e dos territórios de guerra.

Mas naquele tempo, só com

um mal muito grave se poderia

escapar ao terror da guerra.

O aproveitamento escolar era

fundamental para o adiamento

da incorporação no serviço

militar e a época de exames era

dramática para os estudantes

pré-universitários.

Ou passavam e entravam

na Universidade podendo

eventualmente completar o seu

curso académico ou corriam o

risco de serem chamados de

imediato, indo parar a uma das

colónias onde era travada a

Guerra Colonial.

A lei permitia o chamado

“adiamento” a todos os

estudantes que tivessem

aproveitamento contínuo na sua

formação escolar.

Era proibido chumbar.

E nós, “Os Tubarões”, fomos todos

à Inspecção Militar e ficámos

apurados para todo o Serviço

Militar. Passámos à situação

de “mancebos”.


os tubarões ’68 175

.de.novo.

na.figueira.

1

1.

No Casino da

Figueira da Foz

.na.casa.do.vató.

No verão regressámos à “Rainha

das praias de Portugal”, a

Figueira da Foz, para nova época

musical como conjunto residente

no Grande Casino Peninsular.

Os pais do Vató, naturais da

Figueira da Foz, tinham uma

enorme moradia na parte

velha da cidade. Com a sua

natural simpatia e cordialidade,

disponibilizaram quartos para

nós dormirmos. Ficámos lá

instalados o José Merino, o Luís

Dutra, o Rogério Dourado e eu,

além do Vató, naturalmente.

O dia-a-dia era uma festa naquela

casa com muita tolerância do

Sr. Valdemar Ramalho quanto

aos nossos horários, que eram

completamente contrários aos

seus: sempre cedo, tudo a horas,

ao contrário dos nossos, sempre

tarde, tudo a desoras. Mas a sua

tolerância e boa disposição bem

como a simpatia da D. Lúcia,

a esposa, associadas ao gosto

de ouvir as histórias dos nossos

êxitos musicais e das nossas

aventuras, muito contribuíram

para os inúmeros convites para

fartos e bem regados almoços,

sempre que o trabalho nos

permitia.

E dava gosto ver a satisfação do

casal ao ouvir as peripécias muito

bem romanceadas pelo Rogério.

Uma festa.


176 porViseu ’60s.

.a.vida.musical.

1

3

2

4

1.

Salão Nobre, Casino.

Eduardo e Zé Merino

2.

Com o Duo Dinâmico

3.

Rogério, Vitó

e Zé Merino

4.

Com Miss Espanha

e 1.ª dama honor

a)

www.jmserrat.com/

b)

www.duodinamico.com/,

No Casino, de novo nos

cruzámos com grandes vedetas

nacionais como Amália, Rui de

Mascarenhas, e internacionais

como Juan Manuel Serrat a) e o

“Duo Dinâmico” b) , intérprete e

autores da canção vencedora do

Festival da Eurovisão de 1968.

Em 1968 Juan Manuel Serrat

foi nomeado o representante

da Espanha no Festival da

Eurovisão onde devia interpretar

a canção “La, La, La”, composta

propositadamente para ele pelo

“Duo Dinâmico”.

Depois de ter gravado a canção

em diferentes idiomas, Serrat

anuncia que só concorrerá ao

Festival se lhe for permitido

interpretar a canção em catalão,

proposta que não é aceite

pelo governo que proíbe a sua

presença na TV e a transmissão

das suas canções nas rádios

de todo o país. “La La La” foi a

canção vencedora do festival

desse ano interpretada por

Massiel.

O representante português na

Eurovisão desse ano foi Carlos

Mendes, ex-“Sheiks”, com a

canção “Verão”.

Os conjuntos residentes nesse

ano foram a “Orquestra José

Santos Rosa”, “Os Vodkas”,

“Arlindo de Sousa” e nós.

Voltamos a destacar a “Orquestra

José Santos Rosa”, que nos

apraz aqui homenagear, com

quem partilhámos quatro


os tubarões ’68 177

épocas (1966-1968). Por esta

orquestra passaram grandes

músicos como Peiró, o Estêvão

Ferreira, baterista de alto

gabarito, o Fernando Correia,

cantor, vocalista e apresentador,

Fernando Potier e alguns outros

já referidos.

Durante o mês de Agosto foi ainda

contratado o conjunto italiano

“Pasquale com Franco Etti”,

que muito nos impressionou.

.pasqualle.con.franco.etti.

Um dos melhores conjuntos

musicais com quem nos

cruzámos na nossa carreira

musical foi sem dúvida o conjunto

Italiano “Pasqualle con Franco

Etti” que se estreou

no Casino a 9 de Agosto.

Formado por seis músicos de

várias nacionalidades, três

italianos, um espanhol, um

alemão e um americano, com

Pasqualle nas teclas, a voz

fabulosa do Franco, dois sax, viola

baixo e bateria, eram um conjunto

de alta craveira. Ensaiavam

muito, cuidavam dos mais

ínfimos pormenores musicais

e coreográficos, e tinham uma

playlist excepcional. Tocavam

todo o tipo de música desde

“Otis Redding” aos “Beatles”,

mas a interpretarem música

italiana esmagavam qualquer

audiência. Impressionaram-nos

muito e, sempre que sabíamos

e podíamos, assistíamos aos

seus ensaios que eram muito

frequentes.

Teriam um contrato com alguma

empresa pois todas as semanas

recebiam por correio partituras

de novas músicas e alguns top

ten de vários países.

.o.meu.primeiro.charro.

Numa das noites de um fim de

semana de Agosto, ainda antes

da abertura do Salão Nobre,

o baterista do conjunto

“Pasqualle com Franco Etti”

quis mostrar-me um acessório

artesanal que usava para treinar

as mãos, e que também utilizava

para aquecer os braços dez


178 porViseu ’60s.

5

5.

No Casino com

Juan Manuel Serrat

minutos antes de qualquer

actuação. Tratava-se de um kit

composto por uma pequena

tábua de madeira sensivelmente

do tamanho de uma folha de

papel A5 completamente coberta

com uma tira de borracha preta

com uma espessura aproximada

de 1cm. A tábua tinha umas

tiras de cabedal com fivelas que

possibilitavam a sua fixação

a uma das pernas. Antes de

actuar treinava os batimentos

com as baquetas, sem barulho,

sem incomodar ninguém e com

óptimos resultados.

Dizia ele ser o melhor antídoto

a tendinites ou outras lesões

musculares vulgares nos

bateristas.

Estava eu a experimentar

o referido aparelho quando

chegaram dois colegas músicos

em amena cavaqueira que se

juntaram a nós.

Terminado o meu ensaio, um

dos recém-chegados começa a

enrolar um charro numa mortalha

e, sem que eu o esperasse, tal

charro começou a andar de

mão em mão, à vez. Éramos

três e foi efectivamente o meu

primeiro charro, do qual não senti

qualquer efeito especial.

Um ou dois dias depois ainda

experimentei de novo, mas não

encontrei qualquer interesse

que me levasse a substituir os

meus cigarros por aquela palha

queimada, que era então

a perigosa droga da moda.

Mais tarde voltei a experimentar

outras semelhantes mas nunca

fiquei fã nem nunca senti

ameaças ou desejos que me

impelissem a tais vícios.

Passas, passas, só no Natal ou

no tabaco, e deste nunca passei.


os tubarões ’68 179

.o.empresário.

inglês.

1

1.

Com empresário inglês

e o Rogério Dourado

Uma das noites de Agosto o

Sr. Mendes Pinto informa-nos

que havia um cliente do Casino

que queria falar connosco.

Tratava-se de um cliente VIP,

hospedado no Grande Hotel, onde

ficou uma semana. Teve uma

primeira reunião com o Rogério

Dourado a quem explicou ser um

empresário musical inglês, que

viajava com regularidade por

diversos locais de animação na

busca de novos artistas e gostaria

de saber da nossa disponibilidade

para nos deslocarmos a Inglaterra.

Ficámos muito entusiasmados

com a ideia mas começaram a

levantar-se inúmeras dúvidas

que obrigaram a nova reunião de

todos os elementos do conjunto

com o referido empresário.

Assim aconteceu e o empresário

informou-nos ter gostado

muito do nosso som e queria

testar a nossa presença em

Inglaterra durante um mês.

Pagaria as despesas de viagem

e estadia, sem cachet, e ao fim

de duas semanas seria revista

a situação para a elaboração de

um contrato remunerado. Todos

nós ficámos excitadíssimos com

tal possibilidade e, radiantes,

começámos logo a sonhar.

No fim de semana seguinte, como

habitualmente, o Sr. Loureiro, que

durante a semana estava em Viseu

nos seus afazeres profissionais,

veio até à Figueira e relatamos

o que se estava a passar.


180 porViseu ’60s.

Ouviu e calou não nos parecendo

muito entusiasmado com a

ideia e à noite foi connosco ao

Casino onde conheceu o referido

empresário, que entretanto pediu

para tirar umas fotos connosco.

Nova conversa sobre o tema da

nossa deslocação que deveria

ocorrer tão cedo quanto possível,

de preferência durante o mês de

Setembro.

O Rogério ficou com todas as

coordenadas e contactos do

empresário comprometendo-

-se a dar uma resposta da

nossa disponibilidade para nos

deslocarmos a Inglaterra até ao

final do mês de Agosto.

Depois dos primeiros dias de

sonho e após partilharmos tal

possibilidade com as nossas

famílias começámos a poisar na

realidade.

Alguns dos nossos pais

opuseram-se argumentando

que a nossa prioridade eram os

estudos e que a música só nos

tempos livres e férias.

E para todos nós bastaria um só

elemento não concordar para

o conjunto não aderir.

Sempre tivemos este conceito

de que o conjunto éramos nós,

um grupo de amigos, muito

coesos e unidos.

Como o provou a nossa vida

artística ao longo dos seis anos

o nosso conjunto teve sempre

uma estabilidade muito grande,

só sofrendo mudanças quando foi

obrigado ou por opção dos cinco

elementos do grupo base.

Nunca passou pelas nossas

cabeças substituir qualquer

elemento por outro.

E não fomos a Inglaterra.


os tubarões ’68 181

.no.último.

palco.

E a ameaça militar chegou aos

“Tubarões” com a chamada do

primeiro elemento ao serviço

militar. Foi o Victor Barros que

recebeu a notificação para

se apresentar na segunda

incorporação em Abril de 1969.

1

1.

O adeus à música,

a última foto do conjunto

Com grande mágoa rejeitámos

os inúmeros convites e propostas

para novos espectáculos.

No final de Setembro, nas

Festas das Vindimas em Nelas,

anunciámos publicamente a

nossa última actuação e o fim

da carreira musical do Conjunto

Académico “Os Tubarões”.


182 porViseu ’60s.

.quem.foi.quem.

O Conjunto Académico

“Os Tubarões” teve desde 1964

sempre a mesma formação base

assente na seguinte composição

musical: vocalista, orgão, viola

ritmo, viola baixo e bateria.

As únicas mudanças sofridas ao

longo da sua carreira musical foi

nos viola solo.

Carlos Alberto Loureiro

.teclas.

1964-1968

Eduardo Pinto

.baterista.

1963-1968


os tubarões ’quem foi quem 183

José Alexandre Merino

.vocalista.

1963-1968

Luís Dutra

.viola.baixo.

1963-1968

Victor Barros (Vitó)

.viola.ritmo.

1963-1968


184 porViseu ’60s.

António N. Fernandes

.viola.solo.

1963-1965

Valdemar António (Vató)

.viola.solo.

1967-1968

Joaquim Guimarães

.viola.solo.

1965-1966

Para além dos músicos

executantes o conjunto teve

sempre consigo muitos amigos

que acompanharam intensamente

a nossa vida musical, alguns com

funções específicas, sofreram,

viveram e incentivaram-nos a

irmos sempre mais longe.

E estavam sempre connosco.

Para estes “Tubarões” o nosso

obrigado:

Alberto Martins Carrilho

António Júlio Valarinho

António Pinto de Matos

António Xavier de Sá Loureiro

Carlos Manuel Ponces de Serpa

Fernanda Madeira

Fernanda Maria Matos

Fernando Pascoal de Matos

Isabel Machado

José Manuel Sacadura

Maurício de Sousa

Nogueira

Rogério dos Santos Dourado

Rui Oliveira e Costa


os tubarões ’playlist 185

.playlist.

Nos anos 50/60 os bailes eram

a diversão mais frequente e a

principal oportunidade para

jovens se conhecerem e iniciarem

um convívio que de outro modo

nunca seria possível. Havia bailes

em todas as festas e romarias,

num terreiro, num largo ou no

pátio da freguesia.

Por este motivo os bailes eram

o mercado alvo dos conjuntos

onde poderiam actuar e ver o seu

trabalho remunerado.

Para actuar num baile os

conjuntos tinham de tocar todo

o tipo de música pois havia

dançarinos para todos os géneros

musicais, do tango, rock, twist

ao chachachá.

Em Portugal os primeiros

concertos em palco de conjuntos

pop terão ocorrido no Teatro

Monumental em Lisboa.

Quanto a nós o primeiro conjunto

pop português a apresentar um

alinhamento de espectáculo/

concerto terá sido o “Conjunto

Académico João Paulo”.

Concretizou várias tournées pelo

país onde se apresentou nos

teatros e cinemas existentes

em cada localidade com um

alinhamento específico de

espectáculo devidamente

montado, com duas partes

separadas por um intervalo.

O nosso repertório musical

terá rondado os 150 títulos,

considerando as músicas

cantadas e as músicas soladas

(instrumentais). Demos alguns

concertos mas as centenas de

actuações que fizemos ao longo

da nossa carreira foi a animar

bailes. Eis um extracto da nossa

playlist musical.


186 porViseu ’60s.

.por.música.

.os.tubarões.playlist.parcial.

.música.

.intérprete.

.música.

.intérprete.

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

a girl for me

a little help from my friends

america

and i love her

apache

as tears go by

au revoir

baby it hurts

bachelor boy

bayby it’s you

tubarões

beatles

trini lopez

beatles

shadows

rolling stones

gilbert becaud

tubarões

cliff richard

beatles

61

62

63

64

65

66

67

68

69

70

my girl

nights in white satin

o voo do moscardo

oh carol

old lady

only the lonely

peace pipe

perfídia

petite fleur

poema do homem rã

temptations

moody blues

nikolay rimsky-korsakov

neil sedaka

tubarões

roy orbinson

shadows

shadows

sidney bechet

tubarões

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

be-bop-a-lula

begin the beguine

blueberry hill

bye bye love

camino de sahara

come back

crying time

dance on

derniers baisers

do you want to know a secret

elvis

shaw, artie

louis armstrong

everly brothers

los tamara

tubarões

ray charles

shadows

les chat sauvages

beatles

71

poetry in motion

72 quando quando quando

73 quero que vá tudo pró inferno

74 reach out i’ll be there

75

release me

76 rock around the clock

77

s.francisco

78 samba de uma nota só

79

satisfaction

80

sleepwalk

johnny tillotson

trini lopez

roberto carlos

four tops

engelbert humperdinck

bill haley

scot mckenzie

tom jobim

rolling stones

shadows

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

eight days a week

et maintenant

evergreen tree

georgia on my mind

ghost riders in the sky

girl

give me some loving

good golly miss molly

goodbye my love

guantanamera

beatles

gilbert becaud

cliff richard

ray charles

shadows

beatles

spencer davis group

little richard

searchers

jose feliciano

81

82

83

84

85

86

87

88

89

90

spanish harlem

summertime

susie q

sweets for my sweet

the dock of a bay

the house of the rising sun

the letter

the more i see you

the savage

the young ones

cliff richard

gershwin

creedance clearwater revival

hollies

otis redding

animals

box tops

chris montez

shadows

cliff richard

31

32

33

34

35

36

37

38

39

40

guitar tango

hello mary lou

here, there and everywhere

hey jude

holiday

i call your name

i can ‘t stop loving you

i feel fine

i put a spell on you

i ‘ve got my mojo working baby

shadows

ricky nelson

beatles

beatles

bee gees

beatles

ray charles

beatles

animals

quinteto académico

91

92

93

94

95

96

97

98

99

100

thicket to ride

things we said today

till there was you

to love somebody

together again

tombe la neige

tutti frutti

twist and shout

um homme et une femme

unchain my heart

beatles

beatles

beatles

bee gees

ray charles

adamo

elvis

beatles

francis lai

ray charles

41

42

43

44

45

46

47

48

49

50

if i had a hammer

i’m a believer

in summertime

it s now or never

it’s my life

la bamba

la plaga

les cornichons

let’s twist again

l’important cést la rose

trini lopez

monkees

mungo jerry

elvis

animals

trini lopez

los tampa

nino ferrer

chubby checker

gilbert becaud

101

102

103

104

105

106

107

108

109

110

você vai chorar

we gotta get out of this place

what a wonderful world

when the girl in your arms

when the saints go marching in

whinchester cathedral

wipe out

words

ya ya

yellow submarine

tubarões

animals

louis armstrong

cliff richard

louis armstrong

new vaudeville band

ventures

bee gees

trini lopez

beatles

51

52

53

54

55

56

57

58

59

60

living doll

lucky day

manhã de carnaval

massachussets

memphis, tennessee

michael (aleluia)

michelle

mirza

more

my bonnie

cliff richard

tubarões

luiz bonfá

bee gees

animals

trini lopez

beatles

nino ferrer

frank sinatra

tony sheridan

111

112

yesterday

you ‘re no good

beatles

blue jeans


os tubarões ’playlist 187

.por.intérprete.

1

2

3

4

5

6

7

8

9

10

.intérprete.

adamo

animals

animals

animals

animals

animals

beatles

beatles

beatles

beatles

.música.

tombe la neige

i put a spell on you

it’s my life

memphis, tennessee

the house of the rising sun

we gotta get out of this place

a little help from my friends

and i love her

bayby it’s you

do you want to know a secret

61

62

63

64

65

66

67

68

69

70

.intérprete.

louis armstrong

luiz bonfá

monkees

moody blues

mungo jerry

neil sedaka

new vaudeville band

nikolay rimsky-korsakov

nino ferrer

nino ferrer

.música.

when the saints go marching in

manhã de carnaval

i’m a believer

nights in white satin

in summertime

oh carol

whinchester cathedral

o voo do moscardo

les cornichons

mirza

11

12

13

14

15

16

17

18

19

20

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

beatles

eight days a week

girl

here, there and everywhere

hey jude

i call your name

i feel fine

michelle

thicket to ride

things we said today

till there was you

71

72

73

74

75

76

77

78

79

80

otis redding

quinteto académico

ray charles

ray charles

ray charles

ray charles

ray charles

ricky nelson

roberto carlos

rolling stones

the dock of a bay

i’ve got my mojo working baby

crying time

georgia on my mind

i can’t stop loving you

together again

unchain my heart

hello mary lou

quero que vá tudo pró inferno

as tears go by

21

22

23

24

25

26

27

28

29

30

beatles

beatles

beatles

bee gees

bee gees

bee gees

bee gees

bill haley

blue jeans

box tops

twist and shout

yellow submarine

yesterday

holiday

massachussets

to love somebody

words

rock around the clock

you ‘re no good

the letter

81

82

83

84

85

86

87

88

89

90

rolling stones

roy orbinson

scot mckenzie

searchers

shadows

shaw, artie

shadows

shadows

shadows

shadows

satisfaction

only the lonely

s.francisco

goodbye my love

apache

begin the beguine

dance on

ghost riders in the sky

guitar tango

peace pipe

31

32

33

34

35

36

37

38

39

40

chris montez

chubby checker

cliff richard

cliff richard

cliff richard

cliff richard

cliff richard

cliff richard

creedance clearwater revival

elvis

the more i see you

let’s twist again

bachelor boy

evergreen tree

living doll

spanish harlem

the young ones

when the girl in your arms

susie q

be-bop-a-lula

91

92

93

94

95

96

97

98

99

100

shadows

shadows

shadows

sidney bechet

spencer davis group

temptations

tom jobim

tony sheridan

trini lopez

trini lopez

perfídia

sleepwalk

the savage

petite fleur

give me some loving

my girl

samba de uma nota só

my bonnie

america

if i had a hammer

41

42

43

44

45

46

47

48

49

50

elvis

elvis

engelbert humperdinck

everly brothers

four tops

francis lai

frank sinatra

gershwin

gilbert becaud

gilbert becaud

it’s now or never

tutti frutti

release me

bye bye love

reach out i’ll be there

um homme et une femme

more

summertime

au revoir

et maintenant

101

102

103

104

105

106

107

108

109

110

trini lopez

trini lopez

trini lopez

trini lopez

tubarões

tubarões

tubarões

tubarões

tubarões

tubarões

la bamba

michael (aleluia)

quando quando quando

ya ya

a girl for me

baby it hurts

come back

lucky day

old lady

poema do homem rã

51

52

53

54

55

56

57

58

59

60

gilbert becaud

hollies

johnny tillotson

jose feliciano

les chat sauvages

little richard

los tamara

los tampa

louis armstrong

louis armstrong

l’important cést la rose

sweets for my sweet

poetry in motion

guantanamera

derniers baisers

good golly miss molly

camino de sahara

la plaga

blueberry hill

what a wonderfull world

111

112

tubarões

ventures

você vai chorar

wipe out


188 porViseu ’60s.

.principais.equipamentos.

.instrumentos.

Ao longo dos anos foram

vários os nossos fornecedores

de instrumentos. Em Viseu

adquirimos instrumentos na

Papelaria Sequeira, alugámos

aparelhagens de voz ao Sr. Carlos

da Órbita na Rua da Vitória

e também ao Sr. Morgado em

S. Pedro do Sul.

A partir de finais de 1964 o

nosso principal fornecedor de

instrumentos passou a ser a Casa

Ruvina, da Rua Formosa no Porto

seguida da Gouveia Machado de

Lisboa.

.orgãos/teclas.

Pianola, Farfisa Compaq Uno,

Farfisa Compaq Duo.

.violas.

Egmond Manhatan, VOX Shadow,

Hofner 455/S/E2, Fender

Sratocaster, Guild Starfire IV,

Galani (v.baixo) e Guild Starfire

Bass.

.amplificadores.

Farfisa Amplivox, Farfisa TR60,

VOX AC30, VOX UL 460, VOX 730 e

BALDWIN SONIC 55.

.aparelhagens.de.voz.

Burns 6X2 120, Câmara de Eco,

Microfones Shure e MB.

.bateria.

Yamaha, Tarola PREMIER 2000

aro metálico, pratos Zildjian.


e depois da música 189

.e.depois.

da.música…

Em Abril de 1969 o Vitó foi

incorporado no Serviço Militar,

o Luís Dutra e eu em Julho,

o Carlos Alberto e o Zé Merino

em Outubro e o Vató em Janeiro

de 1971.

O Vitó, o Luís Dutra e eu

encontrámo-nos nas

telecomunicações militares na

Guiné-Bissau. Passámos bons

momentos juntos, incluindo na

música, pois chegámos a formar

um conjunto e tocávamos na boîte

“Chez Moi” de Bissau.

O Carlos Alberto, na força aérea,

foi até S. Tomé e Principe.

O Zé Merino enquanto “atirador”

foi parar a Angola onde andou

por zonas quentes em termos

operacionais. O Vató, quando

mobilizado para a Guiné-Bissau,

desertou para Paris, de onde

regressou tendo ficado preso

durante dois anos, saindo em

liberdade após o 25 de Abril.

Em termos musicais participámos

por brincadeira nas duas

primeiras edições de

“Os Melhores Anos” em Viseu

em Setembro de 1993 e 1996,

na festa que organizo anualmente

com a Câmara Municipal de Viseu

e o Grupo Visabeira.

E de tudo isto ficou um grande

amor à música e uma amizade de

mais de cinquenta anos.

Pouco vulgar e muito rica.

Bem Haja à Vida!

Cada um de nós seguiu a sua vida

e profissão mas continuámos

a fazer duas a três reuniões

anuais com as nossas famílias.


190 porViseu ’60s.

.agradecimentos. Um obrigado à Teresa por estar

ao meu lado na vida, apoiar as

minhas iniciativas e devaneios.

Um obrigado à Gisela por estar

sempre comigo nos projectos em

que a envolvo.

Um obrigado ao Carlos Cunha por

responder sempre com um sim a

todos os meus pedidos.

O meu Bem Haja à cidade de Viseu

e a todos os que tão bem dela têm

tratado pois continua a encantar

e a manter-me enamorado.

O meu Bem Haja a todos os

que me facultaram os seus

depoimentos e com eles deram

o valor efectivo a este livro;

E aos “Tubarões”:

Que bons têm sido todos os

nossos mergulhos na música,

nos prazeres, nos encontros,

na vida.

Obrigado.

bibliografia

Arquivo Histórico Municipal

da Biblioteca da Figueira da Foz


191

índice.geral

.prefácio.

.viseu ‘60.

.a.rua.formosa.

.o.café.rossio.

.o.rossio.

.a.rua.do.comércio.

.teatros.e.cinemas.

.a.estação.

.a.feira.franca.

.o.salão.de.chá.dos.bombeiros.voluntários.

.o.hóquei.em.patins.

.ambientes.

.a.primeira.vez.

.os.bailes.

.a.juventude.

.depoimento.serafim.matos.silva.

.depoimento.manuel.maria.carrilho.

.os.bailes.do.clube.de.viseu.

.west.side.story.

.grupos.e.clubes.de.garagem.

.os.tubarões.conjunto. académico.

’64 .aprender.

.primeiro.trimestre.

.viseu.pop.

.os.condes.

.os.diamantes.

.the.kings.por.joão.correia.dos.santos.

.os.ases.

.os.corsários.

.o.primeiro.concerto.

.termas.de.s.pedro.do.sul.

.dos.bailes.de.garagem.aos.da.gravata.

.antónio.xavier.de.sá.loureiro.

.fim.do.ano.no.hotel.grão.vasco.

’65 .crescer.

.crescer.

.viseu.ié-ié.

.figueira.da.foz.

.rua.dos.ciprestes.

.o.tubarão.

.depoimento.vitor.f.pais.

.o.casino.

.os.amigos.

.de.novo.viseu.

.quim.guimarães.

.concurso.ié-ié.7ª.eliminatória.

.terraço.das.estrelas.do.hotel.embaixador.

.fim.do.ano.

’66 .conquistar.

.conquistar.

.concurso.ié-ié.semi.final.

.depoimento.joão.correia.dos.santos.

.má.notícia.pior.decisão.

.embaixadores.de.viseu.

.concurso.ié-ié.final.

.espectáculo.no.cine.rossio.

5

6