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RLB 59 - Março de 2018

Publicação mensal com abordagens de temas que vão além do turismo e que buscam atender aos anseios de quem está viajando ou pensa em viajar

| Moda & Cia | Britto

| Moda & Cia | Britto Velho e Régis Duarte lançam coleção e mostra com obras do pintor Tendência e tradição no mundo da moda: estilistas que homenageiam artistas em suas coleções. Já nos anos 1920, Elsa Schiaparelli criou várias peças em parceira com Salvador Dalí que se tornaram emblema de sua carreira. A estilista concorrente mais forte e gráfica de Chanel criou vestidos belíssimos com figuras de lagostas e gravatas falsas lançando a expressão Trompe- -l’oeil, algo como Trapaceando o Olho, na mesma época em que cunhou a expressão Rosa Choque. Saint Laurent trouxe as telas de Mondrian para vestidos trapézio bem sessentistas e depois se inspirou em Picasso, Matisse, Monet e Van Gogh. McQueen se apropriou da obra de M.C Escher. Há alguns anos foi a vez da Louis Vuitton causar burburinho na indústria da moda ao lançar uma Por Bruna Paulin – texto e fotos coleção em parceria com a artista japonesa Yayoi Kusama. O diálogo entre moda e arte é tema constante nas criações de Régis Duarte. O artista e estilista também tem se apropriado das obras e referências de artistas do Rio Grande do Sul para suas coleções. No verão de 2012, o designer escolheu Britto Velho e apresentou uma linha de vestidos, kaftans e camisetas com estampas inspiradas nas obras do professor, pintor, gravurista e escultor. A iniciativa foi um sucesso, fazendo com que Duarte lançasse reedições das peças, que se esgotaram já no lançamento. Uma linha de tecidos para decoração também foi produzida com as estampas. Trajetórias Em março de 2013, foi a vez de Beatriz Côrrea inspirando a coleção Pré-Fall. “Selecionei texturas das telas em acrílico e imagens dos bonecos criados pela Biba para as estampas dos vestidos”, revela. As 40 peças, entre vestidos, kaftans e blusas, são em malha 100% algodão. O burgundy foi misturado a verdes apagados e azuis muito presentes na obra da artista. Arquiteta, com os dois pés no restauro, trabalhou em diversos projetos trazendo de volta a história das coisas como nos murais do belo Instituto NT em Porto Alegre. Com martelo em punho e pregos fortes como sua mirada, Biba apropria-se de uma técnica antiga, que vem relaxando povos desde os faraós. Se a revolução industrial trouxe a agilidade e redução nos custos de produtos, as técnicas manuais como o tear com pregos utilizados pela artista tem alto potencial terapêutico que exige paciência e concentração. Depois de tramadas as linhas, ela solta o verbo com tinta e invejável liberdade como um Pollock e seus respingos. Biba não tem um discurso pronto e não teoriza sobre a facilidade com que migra das telas para bonecos com cabelos de arames elétricos. Isso descola seu trabalho da chatice em que se transformou a arte contemporânea. “Essa fluência entre arte, artesanato, arquitetura e bom senso tem tudo a ver com nossa roupa”, conta. Ousadia A nova criação foi além dos vestidos e partiu para os acessórios. O estilista lançou em maio de 2013 a linha de carteiras Britto Velho Baguettes. As carteiras foram cuidadosamente desenvolvidas pelos artesãos da marca de calçados do designer Vinicius Dapper. No dia 38 Leitura de Bordo | março 2018 | www.leituradebordo.com.br

| Moda & Cia | 15 de março, Britto Velho e Régis Duarte lançaram mais uma coleção em parceria, juntamente com uma exposição na Galeria Mascate. Na Coleção e Exposição De Olhos Vendados com Microfones o estilista teve a liberdade criativa de deslocar as figuras de realismo mágico do artista novamente para sua moda. Ao contrário do título, que faz alusão ao período em que Britto Velho viveu em Paris pintando figuras mais escuras sem olhos e falando em microfones, as roupas trazem obras recentes e de diversos períodos, sendo muitas com o terceiro olho, a visão interior, segundo o artista. Na mostra, uma única obra do período obscuro na França, ganha destaque na expografia, e as telas recentes se mesclam à técnica street de lambe lambe nas paredes repletas de cores. Com curadoria de Duarte e Tiago Coelho, o espaço expositivo tem como objetivo fazer com que o público se sinta dentro de uma tela de Britto Velho utilizando sete novas obras do artista. “Para mim é difícil não tentar interpretar as obras do Britto, fico sempre na busca por significados, mesmo que simbólicos. O pássaro, é raro, cítrico e robusto, mas parece não ter asas”, conta. Para a coleção 2018 selecionou figuras mais icônicas. “Descobri o trabalho na minha adolescência, me sinto muito grato pela oportunidade da parceria”, declara. O estilista vem conquistando também colecionadoras de seus vestidos, todos peças únicas, com uma explosão de cores e texturas que tem tudo a ver com o DNA do pintor. Duarte descobriu no Instituto de Moda e Tecnologia de Nova York, onde viveu no final dos anos 1990, durante um curso voltado para a publicidade, que eram as roupas seu fascínio. Filho de uma professora de artes que nas horas vagas desenvolvia vestidos exclusivos para uma seleta clientela em Uruguaiana, Régis cresceu entre linhas e tecidos. Na coleção rostos se misturam as icônicas e expressivas mãos e um pássaro e um gato ganham destaque se repetindo em camisetas e vestidos longos que já são objeto de desejo na divulgação online da mostra e no site da marca (www. regisduarte.com.br) Galeria Mascate Rua Laurindo, 332, Bairro Santana – Porto Alegre, RS De segunda a sexta-feira, das 14h às 18h. Entrada Franca www.leituradebordo.com.br | março 2018 | Leitura de Bordo 39

RLB 58 - Fevereiro de 2018