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A_METAMORFOSE_DOS_JOGOS_OLIMPICOS_1896-1996

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A METAMORFOSE DOS JOGOS OLÍMPICOS (1896-1996) Marcelo Weishaupt Proni IE-Unicamp Introdução Na chamada “era da globalização”, o esporte contemporâneo tem sido marcado por mudanças expressivas (Proni, 1998, cap. 2). A mercantilização e a espetacularização dos torneios transformaram o esporte de alto nível numa atividade profissional orientada para satisfazer a próspera indústria do entretenimento. Mas, no caso dos Jogos Olímpicos, essa mudança gerou uma série de contradições, uma vez que representou a negação do ideário original. Ou, pelo menos, abalou a crença na Olimpíada como uma competição “pura”, limpa de interesses políticos e comerciais, direcionada para o engrandecimento da cultura física universal (Pires, 2002). As Olimpíadas modernas foram concebidas para ser um evento singular do calendário esportivo mundial, um grande festival para o congraçamento das nações. Ao longo do século XX, cresceram em tamanho e importância, ganharam símbolos e rituais próprios e se tornaram “o maior espetáculo da Terra”. De certo modo, tal crescimento corresponde à plena realização da semente plantada por Coubertin: quase todas as modalidades que hoje compõem o universo esportivo estão representadas pelos seus principais expoentes; os atletas mais bem preparados são reunidos para mostrarem ao mundo suas proezas; duas centenas de países enviam seus representantes para a maior confraternização entre os povos da atualidade. Mas, ao mesmo tempo, os Jogos foram se metamorfoseando num evento oposto, em vários sentidos, ao que seu idealizador havia concebido, afastando-se daquele ideário 1 . Será exagero dizer que se verificou uma “reinvenção” dos Jogos Olímpicos? Comparando a primeira Olimpíada da era moderna (Atenas-1896) com sua 26 a edição (Atlanta-1996), realizada cem anos depois, nota-se um aumento espantoso no número de modalidades, de competidores, de países, de público; uma evolução inquestionável das técnicas de treinamento, da tecnologia de suporte, dos índices de desempenho atlético; uma crescente participação feminina; e uma diversidade marcante de raças e etnias (Lancellotti, 1996). Por outro lado, observa-se uma mudança radical na estrutura organizacional e na arquitetura econômica e social: os 1 Uma excelente análise do ideário olímpico pode ser encontrada em Cagigal (1981, cap. IV). Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SP- UNICAMP. Campinas, 6 a 10 de setembro de 2004. Cd-rom.

2 Jogos atuais são organizados por gestores profissionais, a maioria dos atletas de alto nível tem o esporte como um trabalho relativamente bem remunerado, os custos do megaevento são bancados por empresas comerciais, cidades candidatas disputam ferrenhamente o direito de sediar o evento, as imagens do espetáculo são produzidas e simultaneamente transmitidas para todos os continentes, os campeões fazem o papel de garotos-propaganda e os espectadores são tratados como consumidores. Essa metamorfose dos Jogos Olímpicos não ocorreu de uma hora para outra. Nos anos 60 já surgiam reações contrárias; nos anos 70 e 80, eram comuns os discursos preocupados com a “crise do Olimpismo” e antevendo um progressivo desvirtuamento do “espírito olímpico”. Mas, nos anos 90, a resistência mostrou-se pouco eficaz, predominando o entendimento que as Olimpíadas haviam se libertado de velhas amarras e incorporado os valores da modernidade. Este debate, de importância central para a História do Esporte, certamente envolve uma série de questões. Neste artigo, será discutida a hipótese de que a penetração de uma lógica empresarial acarretou uma completa “reinvenção” da Olimpíada e a reformulação do discurso que lhe confere legitimidade. A concepção amadora dos Jogos Olímpicos No último quarto do século XIX, o mundo esportivo encontrava-se dividido em dois pólos excludentes: de um lado, práticas corporais elitistas, portadoras de nobres atributos do caráter humano; de outro, práticas esportivas populares, passíveis de serem permeadas pelos valores “mundanos” de uma sociedade marcadamente mercantil. À primeira vista, essa polaridade espelhava-se na confrontação de modalidades enfaticamente amadoras (como o cricket, o tênis e o remo) com modalidades que se prestavam mais para o espetáculo e o profissionalismo (como o baseball, o boxe e o futebol). Olhando com atenção, nota-se que essa polarização entre amadorismo e profissionalismo se manifestava no interior de muitas modalidades, permitindo distinguir dois tipos de praticantes e torneios (Mandell, 1984). Para entender essa polarização convém explicar que a estrutura social, em países como a Inglaterra e a França, estava dividida em três estratos principais: uma decadente classe aristocrática (que perdera importância social e política), uma próspera classe burguesa (que liderava o progresso econômico) e uma crescente classe operária (que procurava conquistar uma identidade cultural própria). Esta divisão se manifestava na estruturação das atividades de lazer, que podiam indicar o pertencimento a determinada classe social. Sobre as práticas esportivas, é elucidativo o que diz Hobsbawm (1988, p. 256): Texto integrante dos Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SP- UNICAMP. Campinas, 6 a 10 de setembro de 2004. Cd-rom.

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