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Revista Desporto&Sports ed 13 (versão gratuita)

Bento de Espinosa,

Bento de Espinosa, filosofo seiscentista holandês filho de portugueses, disse no século XVII, na sua obra Ética, que: “a mente [ou, nesta perspetiva, a consciência] está unida ao corpo pelo facto de que o corpo é o objeto da mente”. Disse ainda que “tudo o que acontece no corpo humano a mente deve percebê-lo” e que “a ideia que constitui a mente humana é a ideia do corpo”. Ao contrário do pensamento dominante da altura, e dos dois mil anos antecedentes, que considerava o ser humano constituído de duas substâncias distintas - a mente (imaterial) e o corpo (material) -, designado de dualismo de substância (defendido por Platão, Aristóteles, Descartes entre muitos outros), Espinosa desenvolve um sistema ontológico que defende que a mente e o corpo são constituídos de uma única Substância e não são produtos de duas naturezas distintas. Ao contrário do dualismo defendido e implementado por René Descartes, que considerava a mente a substância nobre do ser humano, capaz de controlar a seu belo prazer o corpo, para Espinosa é o corpo que fornece os conteúdos à mente, sendo por isso o elemento central da natureza humana. A mente estava ancorada no corpo e não existia sem o corpo, pois era de lá e para lá que estava direcionada. Em poucas palavras, a mente era habitada pela ideia do corpo. Ao contrário de Descartes, para Espinosa é o corpo que torna a mente consciente, fornecendo-lhe os conteúdos segundo os quais ela pensa. Não se pensa com o corpo, mas sem ele é impossível pensar pois é ele que informa e habita a mente. A ideia do corpo alimentar os conteúdos da mente não é uma ideia meramente filosófica, mas uma tese que pode ser experimentada e testada. Em laboratório, através da análise e estudo de vários casos, o neurocientista português António Damásio tem verificado que “a suspensão do mapeamento do corpo acarreta a suspensão da mente”. Tal como Espinosa anteviu, Damásio comprovou que “retirar a presença do corpo é como retirar o chão em que a mente caminha”. O corpo é ubíquo para a mente surgir. Segundo Damásio, o corpo é “o alicerce da mente consciente”. Para o neurocientista, a consciência tem que ver “com uma organização de conteúdos mentais centrada no organismo que produz e motiva esses conteúdos”. Segundo esta perspetiva, o cérebro traduz mentalmente os estados do corpo, o que significa que “Os nossos mais elevados pensamentos e melhores acções, as nossas maiores alegrias e mais profundas mágoas apoiam-se no corpo”. Em suma, tanto para Espinosa como para Damásio, sem corpo a mente (ou consciência) seria uma entidade não existente. O corpo é, portanto, necessário para o surgimento de uma consciência humana. 50 •

O corpo e a mente de Messi A pesar das ideias de Espinosa serem atualmente corroboradas pela ciência moderna, é um facto que o dualismo de substância ainda habita forte mente o nossoquotidiano. Seja por convicção pessoal, seja por influências exteriores, facilmente somos levados a crer que a nossa mente é soberana nas nossas ações e que o nosso corpo é um elemento considerado à parte, como se constituído por uma substância menor. Ou seja, parece-nos lógico que, por um lado a mente é superior ao corpo, e por outro, devido a essa superioridade, é a mente que controla o corpo. Mais: estamos convencidos que temos liberdade para decidir sem os condicionalismos do nosso corpo, como se nos pudéssemos desligar da nossa existência física. Ora, é amplamente provável que estas convicções não passem de uma ilusão, como tantas outras que nos rodeiam, como a ideia de que o que vemos no céu estrelado à noite são estrelas. Não são. O que vemos é a luz emanada dessas estrelas há milhões de anos. Muitas das “estrelas” que julgamos ver não existem. Estão mortas há milhões de anos ou há milhares de milhões de ano. Da mesma forma, a ideia que a mente controla o corpo, ou a ideia que temos liberdade para atuar sem os constrangimentos do corpo, é uma ilusão. Uma ilusão construída pelo nosso cérebro. Uma ilusão poderosa, talvez a mais poderosa de todas as ilusões, uma ilusão provavelmente necessária, mas ainda assim uma ilusão. Não há nenhuma ação que pudéssemos realizar sem o corpo. A própria mente não é mais do que o produto do corpo. Não é mais do que um conjunto vasto de neurónios a trabalhar em contacto com o corpo. As conclusões de Descartes não são mais do que uma explicação elegante, mas incorreta, de uma ideia intuitiva que, em maior ou menor medida, todos parecemos desenvolver a certa altura da nossa existência. Devido à ideia de que a mente é superior e distinta do corpo, muitos treinadores incitam os seus atletas a pensar antes de executar alguma ação, o que demonstra uma tendência generalizada para se dar uma primazia à mente na ação, o que não me parece correto. No entanto, a consciência (ou a mente) tem um papel exíguo na ação do futebolista, embora considere, evidentemente, que sem mente e sem consciência é impossível fazer o que quer que seja, pelo menos numa perspetiva humana. No meu ponto de vista, o futebolista joga com o corpo - com a sabedoria do corpo -, com pouco ou nenhum auxílio do pensamento consciente, não obstante a consciência ser, evidentemente, fundamental para se jogar futebol nem que seja porque dela todos dependem para estar acordados. Ela é, no entanto, lenta para poder ter algum papel relevante nos processos rápidos e automáticos que um futebolista tem que desenvolver em menos de meio segundo. Vários estudos têm comprovado a lentidão da consciência, que demora cerca de 0,5 segundos a apreender e processar um estímulo o que em contexto de um jogo de futebol corresponde a um processo altamente lento e ineficaz. Para além do mais, a consciência é um sistema amplamente limitado, pois só consegue produzir um pensamento de cada vez o que denota pouca eficiência em tarefas que exigem uma pluralidade de movimentos, como os que obrigam qualquer desporto, sobretudo quando comparado com o subconsciente que consegue realizar inúmeras ações sincrónicas. Muitos futebolistas, entre eles Messi, já afirmaram que não pensam muito naquilo que fazem em campo. Simplesmente não há tempo para isso. Quando pensam, normalmente falham Neste sentido, a premissa mais importante do meu ponto de vista é: o futebol de Messi é, fundamentalmente, fruto da sabedoria do seu corpo. Messi não joga o que pensa nem o que sabe conscientemente mas joga sim o que o seu corpo é e lhe dita. É nos inúmeros processos subconscientes atados ao corpo mas mapeados no seu cérebro que reside a sua sabedoria, e não na sua consciência. Vejamos esta ideia com algum detalhe! “A relação com a bola tem que ver com a capacidade do cérebro de Messi mapear o seu organismo e as ações que o mesmo desenvolveu, por outro, a relação com o jogo prende-se com a capacidade do mesmo cérebro mapear ações exteriores, coletivas e individuais." • 51

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