Peregrinando dentro de um olhar - Volume 3

revistadp

Dona Lucilia

Peregrinando

dentro de um olhar

III


Dona Lucilia

Peregrinando

dentro de um olhar

Volume III

1876 - 1968

Editora Retornarei

São Paulo – 2018


DECLARAÇÃO: Conformando-nos com os decretos do Sumo Pontífice

Urbano VIII, de 13 de março de 1625 e de 5 de junho de 1631, declaramos

não querer antecipar o juízo da Santa Igreja no emprego de palavras ou

na apreciação dos fatos edificantes publicados nesta coleção. Em nossa

intenção, os títulos elogiosos não têm outro sentido senão o ordinário, e

em tudo nos submetemos, com filial amor, às decisões da Santa Igreja.

1 a edição

Abril de 2018

Organização:

Roberto Kasuo Takayanagi

Capa: Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira em 1968

ISBN: 978-85-64202-06-1

© Editora Retornarei

Rua Antônio Pereira de Sousa, 194 - Sala 27

02404-060 — São Paulo — SP

E-mail: editora_retornarei@yahoo.com.br

Impressão:

Edições Loyola

Tel: 3385-8500

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Viver é estar juntos,

olhar-se e

querer-se bem!

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Um convívio celestial

Passam rápido as glórias do mundo, como bem exprime

o adágio les morts vont vite: os que partiram desta vida

são depressa esquecidos. É a dura realidade em se tratando

de coisas terrenas. Com efeito, é o tempo um implacável

juiz “devorador das coisas”, como afirmou um poeta latino.

Entretanto, quando estamos diante de realidades espirituais

a situação é oposta. Quantas pessoas pouco valorizadas em vida

só são devidamente compreendidas após sua morte? E pela ausência,

se acaba vendo toda a sua estatura moral, que estava velada

pela rotina do dia a dia.

Há exatos 50 anos, partiu para a eternidade uma alma que

passou sua existência terrena fazendo o bem, levou a bondade até

onde é possível, amou os seus mais que a si, sem esperar qualquer

retribuição. Da. Lucilia Ribeiro dos Santos Corrêa de Oliveira foi

um verdadeiro foco de benquerença, de elevação de sentimentos

e de nobreza no seu modo de ser; uma autêntica dama católica,

lídima representante da aristocracia paulista.

Seus longos 92 anos de vida foram passados no aconchego

do lar, em meio a duras provações. Incompreendida por muitos,

mas sempre com os olhos postos no Sagrado Coração de Jesus,

tudo aceitou como proveniente de Deus ou permitido por Ele. Em

consequência, os padecimentos não faziam senão acrisolar essa

alma católica de maneira a ela se tornar um foco de doce resignação

diante da dor. O seu olhar, mais posto na eternidade do que

nesta terra, era um bálsamo para os que tiveram a ventura de com

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ela conviver e ser objeto de sua benquerença. Preocupava-se com

o bem dos outros a ponto de se esquecer de si mesma.

Como mãe extremosa, teve a glória de representar a seus

dois filhos, Rosenda e Plinio, a inexprimível bondade de Maria

Santíssima e do Sagrado Coração de Jesus. Vendo-a rezar muitas

horas por dia diante da imagem do Sagrado Coração de Jesus, o

pequeno Plinio pensava: “Ela é tão boa assim porque reza a Ele, e

recebe a bondade do Coração de Jesus. Ele é a fonte!”.

Esse afeto incondicional de Da. Lucilia, levado ao inimaginável,

bem se manifesta nas cartas por ela enviadas aos filhos.

Dr. Plinio as guardou como um precioso tesouro, para alegria das

gerações posteriores. Antes de ler essa correspondência, dificilmente

uma pessoa de nossos dias fará ideia do que é o amor materno

e o filial impregnados do perfume da civilização cristã e da

virtude católica. Verdadeiramente, se trata de um convívio mais

paradisíaco que terreno.

A grande obra de Da. Lucilia foi ter contribuído decisivamente

para a preservação e fortalecimento da inocência do pequeno

Plinio, pelo amor sem limites que a ele dedicou, bem como

pela constante vigilância e sábios conselhos dados até o fim de

seus dias. “O convívio dela comigo era, para mim, verdadeiro paraíso,

sentia-me afagado, compreendido”, afirmou em certa ocasião

Dr. Plinio. E continuou: “Eu tinha uma noção muito grande

de minha própria fragilidade. Sentia-me pequeno, doente. À força

de toda espécie de tratamento, ela me transformou. [...] Sentia

que, para mim, continuar vivo dependia dela. Essas cogitações

não me vinham à mente só em relação a esta vida terrena, mas

também em relação à outra. Não concebia um ambiente celestial

que não fosse parecido com a atmosfera que sentia junto a ela.

Mamãe foi um paraíso para mim até o momento em que cerrou

os olhos. Além disso, ela me abriu um outro jardim, incomparavelmente

mais paradisíaco: ensinou-me a compreender e a amar a

Santa Igreja Católica e me incutiu a devoção ao Sagrado Coração

de Jesus e a Nossa Senhora”.

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Uma vida levada de maneira tão virtuosa devia ter um fim

em harmonia com ela. Às vésperas de completar 92 anos, assistida

pelos sacramentos, fazendo um grande e solene sinal da Cruz,

ela expirou na completa paz de alma.

Estava tudo terminado? Não, tudo começava... Tinha início

a grande missão post-mortem da Senhora Dona Lucilia junto a

incontáveis filhos espirituais.

De maneira muito natural, crescia a cada dia o número de

pessoas que, junto à sua campa no cemitério da Consolação, em

São Paulo, a ela recorriam em suas aflições, e eram atendidas.

Com isso, intensificou-se ao longo dos anos esse movimento em

torno de sua memória; e sua vida exemplar atraiu gerações de seguidores

que, sentindo-se desamparados num mundo de onde foram

exiladas a bondade e a benquerença, buscam alento, proteção

e afeto junto à “Senhora do Quadrinho”. Ela é adotada como mãe

por tantos órfãos espirituais que, isolados em meio a multidões,

não encontram sentido em sua vida.

Neste 50º aniversário do encontro da Senhora Dona Lucilia

com o Sagrado Coração de Jesus, por certo será de grande proveito

a incontáveis almas este volume dedicado a ela. Além de

todas as fotos conhecidas desta exemplar dama católica, são aqui

reproduzidos trechos em fac-símile de algumas de suas cartas endereçadas

a Dr. Plinio.

Todos poderão, assim, peregrinar dentro de seu olhar de

bondade sem limites e experimentar a doçura desse sacral convívio

entre mãe e filho.

Os dois primeiros volumes da coleção “Peregrinando dentro

de um olhar” foram dedicados desde a infância de Dr. Plinio

até a década de 1960. É este terceiro volume dedicado à Senhora

Dona Lucilia como um harmônico complemento dos anteriores,

dado o enorme papel desempenhado por ela na constituição do

caráter e da personalidade desse varão católico. Pois, como se

diz, todo grande homem foi formado no colo de sua mãe... No

caso, que filho, e que mãe!

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Dona Lucilia

De 1876 a 1968


N

o dia 22 de abril

de 1876, vinha à luz,

na cidade paulista de

Pirassununga, Lucilia

Ribeiro dos Santos.

Lucilia menina

Tinha início uma

luminosa trajetória

de 92 anos em que

ela seria um modelo

contínuo de bondade

levada ao heroísmo.

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Aos 16 anos

A gradou-me imenso

saber que quando

tens saudades minhas

rezas diante do meu

oratório! Eu também

rezo tanto por ti; o

Sagrado Coração de

Jesus, nosso amor,

será teu salvaguarda e

protetor! filho querido

do meu coração.

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Pouco tempo antes do

casamento

Filho querido!

Escrevo-te às pressas

por estar passando mal

e muito cançada pelas

muitas visitas que temos

recebido hontem e hoje.

Tenho tido tantas, tantas

saudades tuas, meu

filho, que se quizesse

não saberia dizer-te!

Parece-me ouvir-te e

vêr-te o dia inteiro... [...]

Recebi hontem e hoje

à tarde tuas cartinhas

que me alegram tanto...

Sê sempre bonzinho,

obediente e delicado

para com teus bons

tios, e Fraulein

Dettmer, e carinhoso

com Ilka. [...], e para

você... muitas bençans

e o coração saudoso de

tua mamãe. Lucilia

(meados de 1921)

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Pouco tempo antes do

casamento

cont...

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20

Pouco tempo antes do

casamento


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Pouco tempo antes do

casamento

cont...

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cont...


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Com Plinio aos 6

meses de idade

cont...

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Em Paris, em 1912


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Em Paris, em 1912


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Em Paris,

em 1912


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Em Paris, em 1912

cont...

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Em Águas da Prata,

com os filhos


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Aos 50

anos de

idade


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[...]

Aos 50

anos de

idade

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[...]

Em

meados

da década

de 1930

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cont...

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[...]

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Em evento da Liga das

Senhoras Católicas,

em 1958


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Na sede do

“Legionário”

cont...

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[...]

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VII Semana de Estudos

de “Catolicismo”, em

29-1-1959


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VII Semana de Estudos

de “Catolicismo”, em

29-1-1959

cont...

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cont...

VII Semana de Estudos

de “Catolicismo”,

em 29-1-1959

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No início da década de

1950

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No início da década de

1950


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No início da década de

1950

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No início da década de

1950


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No início da década de

1950


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No início da década de

1960

São Paulo, 13-6-952

Filho querido de meu

coração!

Que Deus te abençoe pelo

bom exito do “logro” que

me pregaste!

Só no dia dez, Rosée

trouxe os Telegramas de

Dakar, e o de Paris, e na

paz apesar de tudo...

Dei em primeiro lugar, graças

a Deus pela felicidade

da apavorante travessia, e

depois, emocionadissima,

não podia dar credito a

tudo o que seu pai, Rosée

e Maria Alice me diziam, e

me exasperava a ideia de

passar três longos meses

sem te ver! – Procuro enfim,

consolar-me com a certeza

de quão benefica te será

esta viagem para tua saúde,

estudos e observações. –

cont...


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No início da década de

1960

S eria tão bom se pudesses

passar uns vinte dias em

Monte Cattini! É essa a terceira

vez que tento escrever-

-te; mas tenho tido a casa

cheia, a seu pedido, vê-se, --

e um beijo por tudo! Rosée

tem vindo duas vezes por

dia, e até jantou duas vezes

aqui, e tem tambem trazido

toda a sorte de doces, para

que não me preocupe com

as sobremesas, e para grande

gaudio da cosinheira.

Enquanto não estiveres de

volta, não terei gosto para

fazer cousa alguma, só procuro

bôas receitas.

Quanto ao money... faço

como da outra vez: economizo

tudo para você, tirando

o estricto possível, se fôr

necessário; de sorte que, se

precisares, é só telegrafar.

cont...


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Fui hontem à missa,

comunguei, e acompanhei

parte da procissão

do Santíssimo, até a

Cathedral, tudo por sua

intensão... ah, meu filho

querido... as saudades

são tantas!

Continuo firme nas

minhas ladainhas e terços

ao meu amantissimo

Sagrado Coração

de Jesus, e à Virgem

Santissima aos quaes

te confiei ao nasceres, e

tenho fé, o Divino Espirito

Santo, estará sempre em

ti, que bem o mereces,

filho querido! Despeço-me

enviando-te minhas bençans,

muitos beijos e abraços

afectuosos.

De tua mamãe,

Na década de 1960

Lucilia

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São Paulo, 18-6-952

Filho querido do

meu coração!

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Em março de 1968

Estou anciosa por receber

uma longa carta tua, e

bem pormenorizada!...

[Fulano] apareceu com

muita naturalidade no

escriptorio, perguntando o

que tinhas ido fazer e “ad

una voce” (a uma voz),

disseram todos que, muito

fatigado, tinhas saido para

descançar; pediu o endereço...

e ninguem sabia

ainda! Disse-lhes então,

que viria pedir-m’o, pois

tem algumas cousas para

te dizer. Encontrou-se hontem

com teu pai, e contou

a mesma historia, e terminou

dizendo que viria para

pedir de novo teu endereço.

“Cuidado”... [...]

cont...


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Está hoje fazendo tanto,

tanto frio, que estamos

temendo geada, do que,

peço a Deus e a São

Judas Thadeu, queiram

livrar-nos! amem!...

Escreve-me sempre e contando-me

tudo que te fôr

possivel, para amenizar

as saudades! Já te chegaram

às mãos as cartas que

escrevemos, Rosée, Zili, teu

pai e eu? Bem, meu querido,

que o Divino Espirito

Santo te guie e te inspire,

e que o Sagrado Coração

e a Virgem Santissima e

teu bom anjo da guarda te

abençoem e te protejam!

Com o coração cheio de

saudades envio-te minhas

bençans, muitos abraços e

muitos beijos.

De tua manguinha,

Em março de 1968


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S. Paulo, 11-VII-952

Filho querido de meu coração!

Quantas saudades meu

filho! É para apazigual-as

um pouco, que venho dar-

-te uma prosa por escripto.

Releio com frequencia a

única carta que me escreveste

[...]. Vê si podes falar-me um

pouco mais em ti, e em tudo

que te diz respeito. Quanto a

restaurants, é bom que não

te excedas. [...] com teu pai,

estamos os dois agasalhadinhos

na nossa “casa gostosa”

que o filho querido preparou

para consolo de nossa

velhice. [...]. Já te caceteei

demais? Cançada, termino

enviando-te com minhas bençans,

muitos e muitos beijos

e abraços.

De tua mamãe extremosa

Em março de 1968

Lucilia

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cont...

Em março de 1968

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Em março de 1968


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S. Paulo, 1º de novembro

de 1962

Plinio tão querido do

meu coração!

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Em março de 1968

Parece-me estar tão, tão

longe o dia de tua volta

para os meus braços! [...]

Recebi uma carta de Tetê,

que, desolada, me diz que

o comunismo está tomando

conta de Pernambuco. Na

“Ordem do Rosário” fizeram

grandes novenas... e

tudo está no mesmo pé...

então o pessoal da Ordem

do Carmo disse: agora é

a nossa vez! Quando o

Carmo faz as suas novenas

com toda a Fé, não

há o que lhe resista... e

no entanto está tudo no

mesmo estado!! Quando

vejo tudo isso tenho tanto

medo, tanto pavor...

cont...


91


Mas a Mãe de Deus é

grande e piedosa, e não nos

abandonará! [...]

Espero em Deus que já

estejas mais descansado,

com bom apetite e cuidado

com as perturbações de

estomago!!

Não repares na minha

letra, pois estou com

rheumatismo nos pulsos!

Que me dizes da

“barulhada” de Kruchef,

de Kennedy, e do Fidel

Castro? Tudo isto vem em

torno da ponte [aérea] de

Berlim!? não achas?

Com muitas saudades,

beija-te e abraça-te muito,

Em março de 1968

a tua velha Manguinha.

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S. Paulo, 10 de novembro

de 1962

Filhão querido de meu

coração! [...]

Você não estará comendo

um pouco demais nestes

excelentes hoteis? –

Não há o que me tire

da cabeça, mas prevejo

que ficarás por ahi até o

fim do Concilio e assim

passarão em Roma

o grande dia 13 de

Dezembro – nosso grande

dia!!! [aniversário de Dr.

Plinio] Será possivel?

Em março de 1968

cont...

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Estou te escrevendo

às pressas, por isso

deixo-te sem te dizer

a falta enorme que me

fazes!...

Chegue bem forte,

sempre bom para a

manguinha e até outra

carta!!

Que Deus e Nossa

Senhora te abençoem

– Com todo o affecto

te faz o mesmo, a mãe

que te tem no coração.

Em março de 1968

Lucilia

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São Paulo, 22-11-1962

Filho tão e tão querido!!

Pelo que vejo, você ver-se-

-ha obrigado a passar ahi

o dia 13 de Dezembro,

dia de teus annos! – Sinto

muito, mas se fôr da vontade

de Deus... que se

faça!

Sinto muito, mas que

fazer? – O Castilho

enviou-me ontem dois

numeros da Folha de S.

Paulo que reproduzia a

photographia de um grupo

de amigos do Barão de

Montagnac que lhes ofereceu

um jantar honroso

com a tua presença no

restaurant “Raniere de

Roma”. Quantos padres

barbudos! [...]

Em março de 1968

cont...

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Vê se me escreves

um pouquinho mais...

sim? [...] Não tenho

coragem de deixar de

te escrever porque me

parece que é te deixar

um pouco mais longe!

Recomenda-me aos

teus amigos.

Com minhas bençans

envio-te muitos

abraços, muitos e

muitos beijos da

tua “manguinha” que

tanto te quer.

Em março de 1968

Lucilia

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S. Paulo, 26-11-962

Plinion querido!

Estava com tantas

saudades de uma carta de

você, que mesmo no estylo

relampago como a última

que me enviaste valia a

pena receber outras! Com

tanto trabalho, vejo que

não será possível voltar

logo que se termine o

Concilio! Alguns passeios

bonitos, despedidas,

visitar Florença, Milão,

etc... e depois Paris!!!

Quem pode voltar tão

depressa de Paris? Nem

mesmo para passar o dia

13 de Dezembro, dia de

teus annos com mamãe??;

mas não faz mal.

Em março de 1968

cont...

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Você tem trabalhado

muito e agora deve estar...

estafado! Faça tudo o que

puder e volte bem disposto

e contente de tornar a ver

a tua manguinha, e passarmos

juntos o Natal!!

Que festa tornar a ver a

tua manguinha, que te

quer tanto e tanto... que

nem pode te dizer!! [...]

Quando converso com você,

mesmo no “estylo relampago”

não paro mais e o

tempo passa rápido, ponhamos

os pontos nos “is”.

Recomendo-me a

teus amigos.

Muitos beijos e abraços e

a mais affectuosa bençam

da mãe que tanto e tanto

te quer.

Em março de 1968

Lucilia

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Em março de 1968

N

o ano de 1967, adoeci

com sério risco de vida,

e minha residência se

encheu naturalmente de

amigos. Profundamente

aflita, a todos recebia

minha mãe, já então

com a avançada idade

de 92 anos. Nesse difícil

transe ela lhes dispensava

uma acolhida na qual

transpareciam seu afeto

materno, sua resignação

cristã, sua ilimitada

bondade de coração e a

encantadora gentileza dos

velhos tempos da São

Paulo de outrora. Para

todos foi uma surpresa e,

explicavelmente, também

um encanto de alma.

Durou assim este convívio

por longos meses.

(Comentário de Dr. Plinio)

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Em março de 1968

H á algo de axiológico na

vida dela que parece não

estar bem acertado. Ela possui

uma enorme ternura:

foi afetuosíssima como filha,

afetuosíssima como irmã,

afetuosíssima como esposa,

afetuosíssima como mãe,

como avó, e mesmo como

bisavó. Ela levou seu afeto

até onde lhe foi possível.

Mas, eu tenho a impressão

de que alguma coisa nela dá

a nota tônica de todos esses

afetos: é o fato de ela ser,

sobretudo, mãe!

Ela possui um amor transbordante

não só para com

os dois filhos que teve, como

também para com filhos que

ela não teve. Dir-se-ia que

ela era feita para ter milhares

de filhos, e seu coração

palpitava do desejo de

conhecê-los.

cont...

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Em março de 1968

Entretanto, esses filhos

não vieram, nem poderiam

vir nesse número

exorbitante. O que quis a

Providência com isso? Viase

que mamãe esperava

uma certa coisa da vida.

Ela esperava uma certa

reciprocidade de mentalidade,

uma certa afinidade

de pensamento, de temperamento,

de modo de ser.

Ela era ávida de abarcar

um largo afeto, uma imensa

consonância com um

número enorme de pessoas.

E chegou ao último extremo

de sua longa ancianidade

nessa serena expectativa,

calma, um tanto tristonha,

mas de uma tristeza luminosa,

nobre, sem agitações

ou angústias, e com um

fundo de certeza de que

isso um dia viria...

(Comentário de Dr. Plinio)

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Em março de 1968

C omo as circunstâncias

do mundo de hoje tendem

a tornar cada vez mais raro

que haja mãe e filho que se

queiram tão bem como nós

dois! E como é difícil haver

mãe como ela!

Qual será o desígnio da

Providência a respeito de

nós dois? Aqui está uma

sala onde estamos, a sós,

uma velha mãe e um filho,

homem já maduro. Passase

rapidamente da maturidade

para a velhice, e desta

para a morte. O tempo

traga tudo. Não acontecerá

que antes do período

normal a Providência determine

de nos levar embora,

tirar-nos desta vida, a ela e

a mim? E assim os fatos se

passarem como se um tufão

entrasse nesta sala de jantar

e nos arrastasse?

cont...

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Em março de 1968

E então se extinguiria

este último torrãozinho

onde, como em poucos

lugares do mundo de hoje,

havia um filho que queria

sua mãe tanto quanto

podia, e a mãe o merecia

com uma abundância e

uma amplitude difíceis

de calcular... e uma mãe

que queria bem a seu filho

com todo o coração.

Esta salinha de jantar

é um dos poucos torrõezinhos

no qual Nossa

Senhora ainda conserva

um resto de seu reinado

sobre os corações. Neste

mundo em que tudo

quanto é d’Ela vai sendo

destruído, será que a

Providência permitirá dissolver-se

ao vento também

tais torrõezinhos?...

(Comentário de Dr. Plinio)

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A

té seus derradeiros instantes,

Dona Lucilia foi

sustentada pela confiança,

que lhe fez não perder a

certeza de alcançar aquilo

para o que sua vida inteira

parecia estar voltada: que

se abrissem para ela e se

deixassem envolver totalmente

por sua bondade.

Um pouco dessa luz se

levantou para mamãe já

perto do fim, quando ela

tomou contato com os tão

numerosos jovens que iam

à minha casa.

cont...

116


Último presente de

Dona Lucilia a Dr. Plinio

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Foi também nessa

ocasião que ela irradiou,

mais do que em todo o seu

passado, aquela doçura e

bondade cristãs de que seu

coração transbordava. Foi

o ápice!

Então dei graças a Nossa

Senhora, porque os últimos

dias dela foram cercados

de especial carinho, marco

inicial de um relacionamento

que continuou, depois,

junto à sua sepultura...

(Comentário de Dr. Plinio)

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Pintura a óleo executada por um discípulo de Dr. Plinio,

o “Quadrinho” exprimia de maneira relevante a maternal

bondade de Dona Lucilia

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Concepção luciliana da vida:

• Meu filho, viver é estar juntos, olhar-se e querer-se bem!

• O meu coração procura o de Plinio e não o acha no Rio, e

sim pelos ares!

• Devo aproveitar o tempo que me resta em te guiar e

aconselhar.

• Chorei é verdade, mas, “graças a Deus”, foi de felicidade

por ter recebido eu, tão indigna, a imensa dadiva dos

Sagrados Corações de Jesus e Maria Santíssima, de um

filho tão santo, tão bom e carinhoso, que abençôo de

todas as veras de minha alma.

Ela era verdadeiramente uma senhora católica. Ninguém

pode imaginar o bem que ela me fez. Eu estudei sua bela alma

com uma atenção contínua e era por isto mesmo que eu

gostava dela. A ponto que, se ela não fosse minha mãe, mas

a mãe de um outro, eu gostaria dela da mesma maneira, e

daria um jeito de ir morar junto a ela. Mamãe me ensinou

a amar a Nosso Senhor Jesus Cristo, ensinou-me a amar a

Santa Igreja Católica!

Palavras de Dr. Plinio junto ao corpo

já sem vida de Da. Lucilia,

na manhã de 21 de abril de 1968:

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