Carnaval+em+Raul+Soares

VitorCorleoneBH

Crônicas sobre fatos ocorridos nos carnavais de 2005 e 2011 no município mineiro de Raul Soares, com um enredo de saudosismo e espiritualidade, alegria e descontração.

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CARNAVAL EM RAUL SOARES

2011

Esta obra possui direitos autorais.

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Universo Humano – 2004

Vitor Corleone Moreira da Silva

“Se não vivermos para nós,

Não há quem viverá por nós.

Somos quem tem que fazer as coisas e nada é fácil.

Sonhos serão sempre sonhos se nós

Não arregaçarmos as mangas e lutar

Para que seja realidade aquilo que era somente sonho.”

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Vitor Corleone Moreira da Silva nasceu em 27/09/1984 em Belo

Horizonte. Escreve desde 2001 e entre suas obras estão os livros

Frenesi, a Poesia Da Vida; O Lavrador Das Lavras Vazias; O Coração

Não Nega; É Que o Amor Morreu no Belvedere; Quarenta Passos Até o

Campo; O Papagaio Petrúcio; o romance Amor de Veraneio, Uma

História de Verão e outros.

É calígrafo, cavaquinista e compositor musical, tendo dedicado

parte de sua criação aos desenhos e pintura.

Após o ano de 2006 quando se mudou de cidade, passou a

conhecer muitos municípios mineiros, tendo a eles dedicado momentos

preciosos de suas artes, como a poesia O Sereno da Capela,

homenageando o município de Santa Rita de Caldas.

É amante da estrada e faz de cada viagem um momento especial,

de vida! De liberdade e da busca pela realização do corpo e da mente!

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O CARNAVAL EM RAUL SOARES

A cidade de Raul Soares está

localizada a cerca de 230 km de Belo

Horizonte, caminho da rodovia da

morte, BR 381, na região de Manhuaçú

e Caratinga, sentido Espírito Santo.

Foi o local que escolhi pra passar

o carnaval de 2011 e parte das férias

anuais. Eu estava de férias, viajei para

alguns municípios mineiros antes de ir pra lá, e tinha vontade

de voltar àquela cidade hospitaleira e de clima tão bom!

Eu já conhecia a cidade por ter passado o carnaval de

2005 naquele mesmo lugar, naquela época com um tio e três

primos, além de dois amigos. Nós fomos em dois carros e

ficamos na casa dos parentes na Vila Esperança

Eu queria voltar! Guardar lembranças doces das festas,

das comidas, das bebidas e principalmente das pessoas trouxe

ao pensamento esse desejo! Um local hospitaleiro de gente

simples e animada que conheci naquele ano de 2005.

Alguns parentes naquele local como o tio Mário, a tia

Maria, tia Mariinha, Aparecida, Wagner, Deivid, Daiana,

Eliane, Fernando. Alguns outros parentes mais distantes como

a Miríam, Adriana e Jéssica.

Outros amigos como Jorge, Renata, Gilmar, Ivan e Célia.

Os quais eu conheci nas duas viagens feitas à cidade de Raul

Soares em 2005 e em 2011.

E alguns lugares como o clube, onde é servido peixe frito.

A estrada se torna a minha grande paixão após o ano de

2006 quando descubro a magia de viajar, e desvendar as

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veredas do Estado de Minas Gerais, em cada curva, por mais

perigosa que seja, em cada visão deslumbrante das montanhas

e serras. As paisagens que se descortinam diante de mim

revelam muito sobre o sentido da vida e sobre a ocupação

humana na Terra.

Na época de carnaval a cidade se transforma e também o

modo de viver das pessoas. Um ambiente novo se revela e o

clima se modifica rapidamente, quase que em fração de

segundos, na viração das horas noturnas do primeiro dia que

antecede as festas de carnaval, as cores, a energia vital do

município, tudo se torna diferente!

Neste livro eu eternizo em arte todos os principais

momentos vividos neste carnaval de 2011, os lugares que

visitei e as minhas percepções das coisas, as pessoas todas, o

convívio harmônico nesse ambiente de festa tão especial e

repleto de carisma!

Ofereço antes de tudo a magia das palavras aos foliões

que estiveram presentes neste espaço comigo e fizeram do

carnaval um ambiente tão especial!

Aos parentes que moram na Vila Esperança e na Vila

Barbosa, com os quais passei momentos tão importantes da

vida, instantes preciosos de festa e alegria!

Agradeço à cidade por proporcionar elementos de

inspiração tão evidentes para a criação deste livro e espero

voltar á cidade de Raul Soares para aproveitar novamente o

carnaval!

Belo Horizonte, 23 de Abril de 2011

Vitor Corleone Moreira da Silva

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CARNAVAL EM RAUL SOARES

Vitor Corleone Moreira da Silva

“Vou festejar!

Vou viver!

A vida é agora

Quero o mundo

Com prazer!”

A devolução das almas – 08

A água da chuva é um arsenal de lágrimas das almas ausentes – 12

A Vila Barbosa – 15

Chapados, pelo bem da alegria. O porre também é cultura do povo - 18

Bloco dos tombados: energia e superação - 22

As manhãs de carnaval. Lembranças e expectativas - 26

Doce – 28

Bloco das desesperadas. A diferença é que todos somos iguais – 30

A grande escapada de Daiana – 34

Hoje tem festa no bar da Reta – 37

Volta pra ela – 40

Nem tudo o que te sorri te beija. É o toco! – 43

O som do cavaquinho na Vila Esperança – 46

As cinzas que sepultam o carnaval – 50

As curvas da estrada são perigosas – 54

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A devolução das almas

Raiou no céu em puro encanto sutil o sol do verão! Era 2005, em

Belo Horizonte, em suas ruas coloridas de passos e carros enfileirados.

Pessoas inquietas caminhando em direção ao trabalho, pelas calçadas da

cidade. Um grande exército urbano nas calçadas da região central

executando a manutenção do sistema da sociedade humana em nosso

planeta! Havia juventude!

Fevereiro, tempo de festas! Lembro que fui visitar a cidade de

Raul Soares, interior de Minas Gerais. Fui a convite do tio Geraldinho,

pois havia lugar sobrando no carro dele, porque somente o Ramom

estava indo, a Vanessa não iria. O primo Mauro foi em seu carro com

sua namorada, um colega de serviço e o primo Christiano. Época de

carnaval. Nós estávamos naquele carro, a estrada bastante movimentada

com as pessoas indo pra algum lugar: Sabará, João Monlevade; Rio

Casca; Espírito Santo, ou então morrer no meio do caminho. Um clima

de tristeza na estrada da morte, famosa rodovia BR 381, cujas curvas

incrustadas nas montanhas parecem ter sido esculpidas pela própria

morte, arquitetadas para colocar fim na vida do homem. Armadilhas

milimetricamente projetadas para que os automóveis encontrem o seu

destino mais cruel! Talvez indo de encontro a outro, ou despencando

pelos desfiladeiros. Não havia sombra nem nuvens, somente o sol do

verão. O ar era cinzento, sensação de quando estamos com febre alta e

os olhos doem quando forçamos para olhar as coisas.

Carros seguindo em fila, caminhões carregados de mercadorias,

motocicletas, pessoas se arriscando ao atravessar, animais à beira do

asfalto...

Quando passei senti que várias almas se apegavam a mim,

encantadas por desejos não realizados, sonhos, planos...oprimidos pelas

curvas da estrada. Subtraídos, surrupiados pelo destino dessas curvas

que pesam nessa parte do mundo, de tanta tristeza e tanta dor! Coisas

que não foram vividas, alegrias não compartilhadas de uma viagem que

talvez se desejasse há muito tempo, que jamais chegou a se concretizar.

Às vezes me dava medo quando eu via algumas formas espectrais

tentando entrar pelo vidro do carro, outras agarradas no teto ou na parte

da frente do carro. Eu ouvia os seus gritos apavorantes! Gritos que

assustam, mas não são de maldade, mas de desespero.

Eu não comentei nada sobre isso com ninguém, até hoje.

Eu era alegre e livre, tanto que para passar o carnaval até tingi

meus cabelos de vermelho fogo, só pra destacar minha rebeldia, ou se

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pode dizer libertinagem. Talvez a minha alegria, o meu modo de ser

tenha sido a sedução das almas. Elas queriam terminar as suas histórias

inacabadas para enfim conseguir descansar. Faltava a alegria onde

sobrava o desgosto.

Um céu de primavera nunca foi, pois nessa estrada não existe a

primavera. Flores não brotam em solo marcado de sangue e de dor.

Eu conduzi as almas ao destino que o corpo não alcançou em vida

e elas me atormentavam durante o trajeto. Pareciam conversar dentro de

mim, cada uma procurando um espaço para se acomodar. Quase perdi o

controle e numa sensação jamais sentida não conseguia acordar, não

conseguia abrir os olhos, pois elas estavam impacientes. Perdi o controle

sobre as ações do meu corpo e entrei num estado de transe. Eu via mas

não podia piscar os olhos, sentia as mãos mas não podia move-las. Não

me lembro de estar respirando.

A minha liberdade e a felicidade ou sorte em vencer as curvas da

estrada da morte pareciam cativar essas pobres almas que não obtiveram

o mesmo sucesso, talvez pela incapacidade dos governantes ou falta de

interesse pela vida, em duplicar a estrada que mata. Pode ser que a

morte por propósito me manteve vivo perante a estrada, por estar

cansada dos lamentos dessas almas, e meu corpo as conduziu ao destino

para encerrarem suas histórias, e a energia enfim adentrar em outro

plano, mais ameno.

Passada a tribulação, os momentos de perigo, chegamos ao trevo

de Rio Casca e seguimos outra estrada, não me lembro bem o nome,

mas lembro que passamos dentro da cidade de São Pedro dos Ferros. Lá

havia várias bandeiras enfeitando as ruas por onde o carnaval acontecia.

A cidade, porém estava vazia, talvez por ser dia e as pessoas estarem

descansando para encher de alegria as ruas quando a noite cair sobre a

cidade.

Senti que algumas das almas saíram de mim, percebi isso quando

respirei mais fundo e tive tontura. Acabei pegando no sono, mas o sono

logo foi interrompido bruscamente...nossa, as lombadas de Raul Soares

são muito altas! O carro arrastou no asfalto na hora de passar por uma

delas.

Chegamos à cidade e fomos bem recebidos pelos parentes!

Detalhes sobre a festa não me lembro muitos, apenas que fiquei os

quatro dias do carnaval sem dormir direito, enchendo a cara de cachaça;

cheguei a subir no palco pra dançar com uma dançarina; pulei de cima

de uma caixa de som quando um segurança estava se aproximando pra

me tirar de lá; dormi na praça; passei mal e vomitei; ri, dancei e cantei.

Vivi!

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Chegou o dia de voltar pra casa, porém algumas pessoas que

deveriam ter ficado por lá vieram comigo. Eu só percebi quando cheguei

em minha casa. Eu não entendia porque aquilo estava acontecendo

comigo ou porque me escolheram. Só uma coisa eu sabia: eu precisaria

devolver todos para os seus lugares no tempo certo. Talvez tenham

vindo para conhecer a cidade, para passear nas noites na brisa por entre

os prédios. Qualquer que fosse o motivo, me incomodava, afinal não

sabia quando poderia realizar tal devolução. Sabia também que aquela

energia estava apegada em mim e não haveria outro condutor.

O tempo passou e novamente estou na estrada da morte. As

curvas gritam de ódio enquanto sinto a brisa quente vindo do horizonte.

Existe mato à beira da estrada, porém não se pode sentir cheiro de

grama, apenas morte. O mato é verde, mas não remete às verdes

folhagens que estamos acostumados a ver nas matas mineiras. Não há

brilho nem alegria nessas cores.

O meu corpo estava pesado no início dessa viagem, porém com o

passar do tempo vou sentindo cada vez mais leveza. Dessa vez não

posso adormecer, pois sou eu quem conduz essa motocicleta. Tenho

medo que um outro carro venha na contramão em alguma curva, por

isso me mantenho a todo instante atento a tudo.

Ao entrar na cidade de Raul Soares senti que todos saíram, senti

um clima ameno sobpor o clima de morte, e pela primeira vez nessa

viagem senti o perfume do mato misturado ao cheiro de terra molhada

de chuva.

As almas foram devolvidas. E suas histórias completadas.

Nossa existência esconde muitas desilusões: corações que se

machucam em vida por terem amado e jamais terem sido

correspondidos; sonhos interrompidos pela dor de um adeus; os

lamentos da saudade, a distância de quem se ama e está longe, talvez

tentando a vida em outro país; a derrota em algum plano de vida; a

ferida que não se curou. Tudo isso deixa marcas que não cicatrizam, e as

almas são infelizes! Os seus lamentos é que tornam sem cheiro de mato

das beiradas da estrada, e sua energia, de tanta infelicidade não tem

força para concretizar algum plano ou caso, para que encontrando a paz,

haja descanso.

Muitas vezes o sofrimento solitário que encontra a doença ao fim

da vida leva consigo as mais singelas desesperanças de tudo que na vida

se passou: de um grande amor que não foi vivido, pois os pais

obrigaram a se casar com outra pessoa; da pessoa que abandonou o lar,

obrigando a mãe a cuidar dos filhos; da viagem que foi desejada, mas

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não havia dinheiro para poder viver; de tudo que somos e o que

podemos ser, o que sonhamos e o que podemos viver.

Como seria a cidade grande – indagava a alma que agora já sabe.

Quando cheguei à casa da tia Maria começou a chover muito forte

e as ruas da Vila Barbosa logo se tornaram um lamaçal. Eu senti que a

chuva era o choro das almas que eu havia acabado de devolver,

lançando o seu último lamento antes de descansar.

A vida às vezes é muito triste! Deixar de viver algum sonho, por

mais simples que seja, e acabar-se a vida, é mais triste ainda.

Sonhos são repletos de ternura! Quem dera não existissem as

mágoas e o universo fosse de amor e perdão!

Eu havia proporcionado um pouco de alegria, apenas o suficiente

para que aqueles que vagavam pudessem descansar, mas não é o

suficiente para a alegria plena. As desilusões que temos nessa vida são

carregadas pelas eras, e embora o corpo se torne como a poeira das

estrelas, as mágoas e tristezas são forjadas em energia eterna, somente

há cura quando o remédio é eficaz.

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A água da chuva é um arsenal de lágrimas das almas ausentes

As nuvens cobrem todo o céu da cidade de Raul Soares, no

interior de Minas Gerais.

Nesse momento aprecio da varanda, aqui na casa da tia Maria, a

fantástica cena da natureza! As águas deságuam tal quais as lágrimas de

quem não se encontra mais conosco. Lágrimas convincentes, dignas,

que escurecem lá ao longe a visão da cidade de São Pedro dos Ferros,

onde passei para chegar até aqui, tornando tudo somente uma parede

branca.

A vida é um curso inevitável onde a cada instante

desempenhamos aqui na terra a nossa missão como seres viventes!

Porém há o momento em que a energia, o calor e a continuidade se

separam da carne, e o espírito humano encontra um outro plano, maior,

mais perfeito e feliz que o nosso cotidiano.

É inegável também que nós somos revestidos de sentimento. Nós

temos o dom do amor, e justamente por amar sentimos saudade das

pessoas, dos lugares, das derrotas que poderiam ter sido vitórias, de tudo

que faz parte das nossas vidas!

Sim, sentimos saudade, por exemplo, daquela pessoa que

namoramos tempos atrás e já não estamos com ela, por motivos alheios

à vontade, ou talvez daquele parente que tenta a sorte em outro país e

por lá se demorou, a ponto de fixar novas raízes e deixar na lembrança a

sua terra natal, sentimos saudades das pessoas que partiram para o outro

plano e já não podemos tocar. Não há o abraço, o beijo, as carícias, nem

tampouco as palavras.

Vinho, o fruto da videira que provoca e fascina a carne. Este ficou

guardado por um longo tempo na geladeira da tia Maria, afinal ninguém

gosta de vinho aqui.

A chuva caindo e eu provando a bebida gelada, refletindo sobre a

vida, no cenário dessas águas. Choro das almas caindo do céu, lavando

na terra não a alegria do carnaval, mas as intenções ruins, os sentimentos

desonestos que alguns que aqui estão insistem em carregar, insistem em

fazer os outros sofrerem sem receber laurel algum pelos seus feitos,

apenas pelo prazer de trazer aos outros a mesma dor que sentem.

A vida é difícil! Nós sonhamos muito, tantas coisas sentimentais e

materiais, mas a maioria das coisas nós não conseguimos realizar.

Talvez seja esta a verdadeira razão humana de viver nessa galáxia tão

imensa, pois se um dia realizássemos todos os nossos sonhos, se as

ambições e desejos se esgotassem, e já não houvesse nada que

desejássemos, por mais difícil que fosse, viver se tornaria um tédio

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insuportável! Já não haveria aventura, nem expectativa alguma. O frio

na barriga, o stress da mente em torcer pelas conquistas todas, a

surpresa.

Com dificuldade um pássaro pousa numa folha da laranjeira no

pomar da tia Maria, atrás da casa, bem perto de onde eu tomo o vinho, e

entre as folhas procura algum inseto. Ao encontrá-lo volta apressado

para o seu ninho, lá no meio do pasto, num ipê amarelo. Por ter a

oportunidade de ter visto, me reservei o direito de pensar e me

emocionar, talvez na obrigação daquele pássaro, talvez no ninho

estivessem os seus filhotes e estes com fome, talvez piassem por um

alimento. Som de fome no ar e a obrigação paterna no sustento.

Dificuldades da sobrevivência que tornam a natureza tão perfeita! A

chuva é obstáculo à sobrevivência, porém torna mais fortes os que

compreendem o verdadeiro sentido das coisas...

Nada é fácil, porém tudo se torna realizável com dedicação e

coragem!

Observando mais ainda o quintal, percebi alguns amendoins que

um dia antes deixei cair no chão enquanto saboreava alguns. Os

amendoins estavam brotando! Saindo deles uns tímidos galhos, raízes e

folhas, ainda brancos. Totalmente abandonados na terra sob a chuva,

jogados no barro... vivos! Justamente por ter presenciado tal momento

me pus a pensar que nós somos muito pessimistas sobre a vida e sobre

as dificuldades que encontramos nela, pois até um amendoim que nem

foi plantado, o criador concede a vida, imagina a nós que somos a sua

semelhança. Acabei indo lá na chuva e fiz um buraco na terra, coloquei

os amendoins lá dentro. Molhei-me naquelas lágrimas das almas, mas

fiquei muito contente! Não é algo que fazemos todos os dias, e fazer

coisas diferentes é um grande incentivo à quebra da rotina da vida.

A tia gritou lá de dentro da casa que eu iria ficar gripado, para eu

sair da chuva e eu sorrindo corri no barro da horta depois de cobrir os

amendoins que havia plantado. Quando voltei para a varanda estava

todo molhado, então provei mais um gole do vinho gelado e sentei no

sofá da varanda, passando a observar novamente a chuva que desagua

sobre toda a cidade.

A chuva continua caindo até agora, e já está escurecendo. Os

primos falaram que se não parar de chover ou se a chuva não diminuir

vamos ter que descer à pé até a praça. Bom, eu não. Prefiro me molhar,

sujar de barro, mas caminhar até lá nem pensar, não sou mais tão jovem

assim... mas isso é assunto para mais tarde, e sei que daqui a pouco na

hora do carnaval a chuva vai diminuir ou até mesmo parar, pois como eu

sempre digo: as lágrimas não são eternas, logo uma nova alegria seca as

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marcas da tristeza. Rios que se formam no rosto o vento seca mesmo

que lentamente.

O bom da vida é a preciosidade da superação dos males. Embora

às vezes alguma coisa possa dar errado em nossas vidas, devemos viver

cada instante, pois a vida é agora, é preciso viver!

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A Vila Barbosa

Eis o típico vilarejo de interior de Minas, as veredas do Vale do

Aço, onde o minério é cultura e molda os modos de ser das pessoas! As

ruas são quase todas de terra, mas existem casas e calçada.

Quando cheguei, as ruas estavam lamacentas, e tive dificuldade

para trafegar! É tempo das chuvas típicas do verão, daquelas que causam

inundações e demoram a passar. Vem em fortes pancadas e deixam o

céu todo cinza!

Pude avistar cinco barzinhos, duas quitandas e um açougue

distribuídos pela vila, tudo muito simples, muito característico! Os

clientes parecem ser todos pessoas conhecidas que viveram a vida

juntos. Toda cidade de interior é assim.

Havia também uma quadra de futebol, com uma cerca baixa em

sua volta e uma arquibancada para umas cinqüenta pessoas. Ali deve ser

o recanto de esportes dos moradores da vila. O local onde os jovens se

reúnem para uma disputa de futebol à noite em algum dia da semana.

Pelas manhãs algumas senhoras fazem caminhadas na rua

principal da vila, que dá acesso à Vila Esperança. Acordam bem cedo e

quando voltam ainda é tempo de preparar um delicioso café com grãos

moídos na hora, lá da venda que avistei quando cheguei.

Crianças, como em todos os locais do mundo, brincando na rua

com bola, ou pedalando suas bicicletas.

Aqui se utiliza muito o transporte por bicicleta, daquele modelo

antigo onde o freio funciona no pedal quando se para de pedalar. As

pessoas usam esse transporte pra ir ao trabalho lá no centro da cidade,

que não fica tão longe, e com um pouco de ânimo até dá pra ir a pé. A

maioria das pessoas possui bicicletas. Carros e motos são privilégio de

alguns poucos.

A calmaria, quietude de cidade pequena é impressionante, chega a

se envolver num romance com o cansaço que o corpo carrega da cidade

grande, das metas e trabalhos complexos, da rotina inabalável do

trânsito engarrafado, dos sons de buzinas, das brigas de vizinhos! Desse

romance surge um momento de prazer e conforto, em se deitar na rede,

na cama ou até mesmo no chão, já que a terra é macia e farta de sombra

e brisa! Quase não se ouve barulho. Algumas pessoas costumam ficar na

pracinha da quadra, conversando ou jogando baralho. É o local de

entrada na vila, tanto para quem vem da Vila Esperança quanto da

entrada da cidade.

Às dez da manhã o ar é sempre decorado com a fumaça de um

fogão de lenha em alguma casa. É um aroma suave que cativa e dá

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fome, não a simples fome de encher o estômago com a refeição, mas a

realização em estar oferecendo ao paladar comida que não se come

todos os dias na cidade grande, feita com panelas antigas e colheres de

madeira, num fogão de lenha.

Há sempre aqueles que quando acordam ficam no bar tomando

cachaça e batendo papo. Contando as últimas novidades ou algum

“causo” que ficaram sabendo em alguma andança.

Algumas construções são muito antigas, chegam a ser um mistério

da história! Lembro que perto da ponte, uma das duas saídas da vila, há

uma construção que parece ter sido uma empresa, uma fábrica, porém

pelo abandono é possível até mesmo sentir as almas dos que

trabalhavam lá, mexendo nas máquinas. As janelas destruídas e a

carência de tijolos no teto evidenciam um coliseu romano em pleno

interior. Ruínas de tempos antigos, da história desse lugar.

As janelas da maioria das casas não possuem grades de proteção,

e não há muro ou cerca delimitando o espaço da calçada. A cultura local

é esta, onde imagino que dê prazer ficar à janela observando a vila, sem

a interferência de quintal ou muro.

Pássaros silvestres são comuns por aqui. É belo acordar de manhã

com o canto natural do corrupião ou dos canários-da-terra! Talvez se nas

grandes cidades não houvesse tanto dano ao meio ambiente seria

possível desfrutarmos dessa magia da natureza, e não no canto fúnebre

de pássaros presos em gaiolas pelo bel-prazer alheio, pela vaidade

delinqüente que priva da liberdade quem nasceu para voar e construir

seu ninho nas árvores mais altas, protegidas do predador e dos pingos da

chuva. Hoje por lá só se ouve o bem-te-vi, e mesmo assim, antes

cantava alegre o bem, o te, e o vi...mas hoje só canta o vi e vai embora

voando pra outro canto, no meio dos prédios.

Todos os dias à tarde um casal de siri emas desce o morro fazendo

grande festa! Depois se aconchegam numa árvore bem alta perto de um

pasto e por lá descansam. Dizem que o dono do pasto coloca comida

para elas todos os dias, e por isso elas gostam daquele pasto que fica na

encosta do morro. Elas fazem muito barulho em todas as tardes e isso

quebra a rotina de silêncio e quietude. Já é parte de um cenário que se

repete a cada entardecer.

As pessoas se conhecem tanto que quando uma pessoa de fora

chega à vila logo surgem comentários sobre quem seria, de onde vem e

pra onde vai o estranho. Quando cheguei me senti assim, mas logo todos

sabiam quem eu era e onde estava hospedado. As pessoas são curiosas e

perguntam muito sobre a cidade grande, sobre o modo de vida. Parecem

esperar por uma novidade, um caso novo. São pessoas muito simples e

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muito receptivas, incomum nas cidades maiores! Aliás, muita coisa que

aqui existe sobrando, já não existe a muito tempo em cidade grande.

Já conheci muitas cidades do interior de Minas e sempre gosto de

provar a cachaça dos lugares aonde vou. A bebida é nativa e conta

muitas coisas sobre a cultura do povo. A cachaça daqui é bem pura!

Remete ao gosto da cana, é forte e tem sabor quente, seco e adocicado!

Quando a tarde vai caindo o silêncio aumenta! As pessoas mais

idosas logo se recolhem e jantam cedo. Só há movimento dos jovens,

nesses tempos de carnaval, indo para a praça festejar.

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Chapados, pelo bem da alegria. O porre também é cultura do povo

Minha prima em segundo grau acabara de chegar a casa. A Eliane

é muito engraçada, com seu jeito sempre apressado, mesmo numa

cidade tão quieta. Ela havia comprado a camiseta do primeiro bloco do

carnaval, chamado de bloco dos chapados, e mandou bordar uma sáia

para que a camiseta se transformasse num...como é que se diz...bem, a

camiseta tinha uma sáia rodada costurada nela...é, acho que assim fica

bem explicado! Também, não é preciso que eu conheça o nome das

roupas das mulheres, conhecer as mulheres já é um problema enorme

pelo qual os homens passam. Machismo? Não, é só a citação das

compras exageradas, das roupas curtas demais, das tensões que a cada

mês se repetem, dos ciúmes, enfim, vou encurtar o assunto.

Ela é muito bonita! Tem os olhos semelhantes a duas esmeraldas

e o formato do rosto de uma criança! Seus cabelos são o que se pode

chamar de encaracolado verdadeiro, sem esforço da escova ou dos dedos

na tentativa de enrolar os cachos.

Eu estava na varanda tocando cavaquinho, esperando as horas

passar ao descanso sublime do samba de raiz. A casa não tinha muros na

parte de trás onde fica a horta da tia Maria, somente uma cerca e do

outro lado a encosta de um morro repleta de verde, de árvores...algumas

siri emas corriam pela grama e gritavam no galho de uma árvore.

Anoiteceu e os colegas do meu primo de segundo grau, chamado

Deivid, chegaram e chamaram para irmos pra praça brincar o carnaval

de Raul Soares. Como estava em tempos de chuva havia bastante barro

nas ruas da vila onde eu estava hospedado, chamada Vila Barbosa.

Tivemos dificuldade para tirar as motos e passar pelas ruas, e quando

chegou ao asfalto tivemos que lavar os pés em um posto de gasolina.

O dono do posto era conhecido do Deivid, e deixou que

guardássemos as motos na garagem do posto, afinal com tantas pessoas

na rua era perigoso que alguém arranhasse alguma moto, esvaziasse um

pneu ou acabasse derrubando alguma delas, sabe-se lá o que esse

pessoal anda bebendo ou usando.

Quando cheguei naquela rua havia muitas pessoas dançando ao

redor de um trio-elétrico, que estava estacionado, esperando a hora de

sair em direção à praça da cidade. Havia um clima de alegria e a música

embalava o corpo. Os músculos se entregavam à dança e a boca seca

convidava para uma boa bebida gelada!

Havia muita bebida e as pessoas consumiam vários tipos de

destilados, cerveja, misturas com refrigerante, energéticos, cachaça do

interior, de alambique, sem mistura e com sabor de cana fresca!

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O primeiro dia do carnaval e já havia muita audácia no

comportamento de todos os foliões. Talvez pela espera da festa, numa

cidade do interior que na maior parte do ano desfruta de calma e

silêncio. Os que vinham de fora também, por estarem aproveitando os

dias de folga que o carnaval proporciona, e a possibilidade de um amor

de carnaval passageiro, sem responsabilidades nem cobranças.

Lembro que antes que o carro de som deixasse a rua encontrei um

amigo virtual de nome Vinícius, que participava de um site de

relacionamentos, numa comunidade dedicada a este carnaval.

Ele estava feliz e se sentia livre, demonstrava sem esforço algum

que estava numa cidade abençoada, cujas pessoas encantavam aos

visitantes, havendo ou não qualidades. Mas certo é que os visitantes

também encantavam os moradores locais, principalmente pela animação

e falta de timidez.

Após cumprimentá-lo, vendo o trio-elétrico sair em direção à

praça da cidade, eu olhei para o lado e vi uma garota me olhando com

certo desejo, mas antes que eu pudesse chegar até ela passou um rapaz e

a beijou. Certo é que não deviam se conhecer, e após isso, embora ela

continuasse me olhando com a mesma aparência de desejo, eu não iria

até lá. Com certeza que não, afinal é carnaval, mas a preservação da

saúde conta muito. Lembro que já disse numa poesia antiga, no livro É

Que o Amor Morreu no Belvedere que “eu não beijo boca louca com

batom paraguaio”.

O carro seguia em direção da praça e eu estava com os amigos

que meu primo Deivid apresentou. É impressionante a velocidade com

que estávamos ingerindo bebida alcoólica! Era bom, eu estava muito

estressado pela rotina de cidade grande! Precisava mesmo descontrair,

só não pensei que seria tanto.

Registrei atrás de um caminhão estacionado uma garota passando

mal, provavelmente por ter bebido demais. É absolutamente cultural e

educativo o porre, não tenho dúvidas. Ensina os limites do corpo. Tudo

bem que é festa, mas eu gostaria de dizer àquela garota que ela não tem

resistência para ficar chapada e chapado é o nome desse bloco, é a

intenção do bloco. As pessoas vieram aqui pra beber o máximo que

conseguirem. Não que todos tenham que beber, mas quem beber que

fique de pé, ainda mais que hoje a bebida é mais barata.

As casas daqui são simples, casas típicas de interior! Essa

contribuição arquitetônica é algo maravilhoso! É algo que já não se vê

nas grandes cidades, onde os muros são baixos e permitem às pessoas

ficar olhando o movimento do carnaval nas ruas. Nós que éramos os

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observadores passamos a ser observados por pessoas que antes eram a

paisagem, o cenário, e agora são o público.

Enquanto eu dançava, bebia um copo de Vodka e observava o

movimento das pessoas. A mesma garota que estava me observando lá

no outro quarteirão se aproximou e ficou na minha frente olhando para o

trio-elétrico, olhou para trás para trocar olhares comigo e nesse

momento um outro rapaz a beijou, esse chegou a pedir e disse o seu

nome a ela.

Eu procurei não olhar para ela depois disso pra ver se ela ia

embora, na verdade eu não queria conversar com ela. Após ela perceber

isso acabou saindo para outro lugar, mas antes disso outro rapaz a beijou

no meio do caminho...

Quando o trio-elétrico do bloco dos Chapados se aproximou da

praça, nós acabamos parando numa barraquinha de um conhecido do

Deivid, meu primo segundo. Nossa bebida já estava acabando e toda

aquela música, aquela agitação típica de carnaval do interior e o suor

nos dava sede. Nós compramos várias latinhas de cerveja e ficamos no

passeio observando a passagem das pessoas.

O carnaval é bem do povo, e não se pode suprimir. Observando as

pessoas, cada uma tão diferente. Eu até podia imaginar o estilo de vida

de cada pessoa que eu avistava dançando na rua ao som da música alta.

Pobres, ricos, alguns que para virem pra cá só tinham um sabonete e um

desodorante spray para se embelezarem e outros que usaram vários

produtos caros. No final das contas nada importa, pois o suor se mistura

em um único odor. Não interessa a marca do gel de cabelo se a garoa

que cai lava tudo. Mais ainda, não importa se a bebida é cachaça ou

Wisky, pois no final das contas todos ficaram chapados, bêbados da

mesma maneira, e a filosofia de um bêbado não possui diferenças: são

todos donos da razão, milionários, atraentes, valentes e respeitados em

qualquer lugar.

Se for tão importante que todos sejam iguais na sociedade, posso

dizer que esse bloco é um nivelador social, pois todos estão se

divertindo juntos e há harmonia. Embora algumas pessoas que passaram

estavam fantasiadas e caracterizadas, e outros só trajavam uma bermuda

jeans, que antes deve ter sido calça e de velhice foi cortada e

transformada em bermuda, todos se divertem juntos e em alguns

momentos até dão uma bicadinha na bebida do colega ao lado.

Enquanto silenciosamente eu filosofava, degustando a cerveja e

fumando um cigarro, a mesma garota estava no meio das pessoas. De

tanto ela ficar me observando eu procurei nem olhar, mas se bem que ao

ficar de costas não é difícil imaginar o que ela deveria estar fazendo.

20


A festa de carnaval se iniciou, e apesar da chuva fina que caiu, há

muita animação! O carnaval esse ano será muito animado!

Hoje eu vi que apesar das diferenças, pode haver muita diferença

se as pessoas se amarem e se respeitarem mais.

Será que é preciso as pessoas beber para serem iguais? Para se

dividir alguma coisa é necessário haver festa? Carnaval, festa da carne e

o porre é cultura do povo.

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Bloco dos tombados: energia e superação

Eu acordei cedo, na verdade não dormi, somente deitei na cama e

fiquei esperando as horas da manhã se revelarem. Chegamos por volta

das quatro e meia da manhã e logo senti cheiro de café.

A tia estava fazendo café na cozinha quando amanheceu e acabei

levantando da cama. Talvez um bom copo de café quente resolvesse a

minha ressaca, além do quê seria um desperdício de férias não

aproveitar a manhã na cidade do interior. Tem pássaros voando aos

montes, sabiá laranjeira cantando no galho e corrupião mostrando sua

beleza lá no pé de laranja da horta da tia Maria.

Logo a Daiana apareceu. Ela havia chegado bem antes de nós e

dormiu mais. Ela falou que na madrugada de amanhã seria o bloco dos

tombados e que esse bloco sairia às cinco horas da manhã, como

acontece em todos os anos.

Eu não me lembrava de ter ido ao tal bloco dos tombados quando

vim passar as férias aqui em 2005. Sei que todos os dias eu só ia embora

da praça quando os pés estavam cheios de calos e eu já não tinha forças

pra ficar de pé e continuar dançando. Aquele era outro tempo, eu era

mais jovem. Agora não é tão fácil...não sou velho, só não sou tão jovem

quanto antes.

Eu estava muito cansado, nem sei se eu iria ao carnaval mais tarde

porque o dia anterior esgotou minha energia. Lembro que fui até o

supermercado pra comprar algumas coisas e tinha cerveja na promoção,

fato raro em pleno carnaval. Certo que eu estava de ressaca, mas não se

pode desperdiçar uma promoção como essa, mas eu comprei só duas

caixas de latinha mesmo, só pra deixar na geladeira, pro caso de alguma

emergência. O supermercado era na praça e do outro lado da rua havia

alguns rapazes vendendo a camiseta do bloco dos tombados em uma

banquinha improvisada, uma tenda ou algo parecido. Acabei comprando

uma porque achei muito bonita e colorida, com vermelho predominante.

De repente eu usaria à noite no carnaval, caso eu me recuperasse e

tivesse ânimo para ir até a praça.

No horário do almoço eu já estava recuperado, pronto pra balada!

Lembro que quando voltei do supermercado tomei bastante liquido, a tia

fez suco de acerola, e que delícia! As acerolas colhidas no pé, lá na horta

dela, sem agrotóxicos. O verdadeiro sabor da fruta sem a interferência

dos remédios! Na parte da tarde a Eliane, minha linda prima chegou do

serviço. Não, não é a prima mais linda, é a mulher mais linda dessa

cidade! Principalmente por seus olhos, que são iguais a duas esmeraldas

na tonalidade e no brilho, perfeitos! Tá, mas voltando ao assunto da

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minha revolucionária recuperação da ressaca...ela me aconselhou a

dormir um pouco pra poder agüentar a noite, aí eu lembro que falei pra

ela que lá em belzonti a gente usa é tecnologia...então eu saquei um

energético e uma garrafa de wisky que havia comprado quando fui ao

supermercado, também alguns amendoins e alguns isotônicos. Faltava

só a cachaça pra eu fazer uma boa caipirinha e ficar ligadão! O limão

tinha aos montes lá na horta da tia, então quando a prima acabou de

almoçar e voltou pro serviço acabei descendo junto pra poder buscar

uma boa cachaça: da roça...lá do alambique, branquinha, com gosto de

cana fresca...e da pesada! Foi lá no primeiro bar da Vila Barbosa, perto

da quadra.

Quando a noite chegou meu calibre já estava no talo... vixi, como

eu estava aceso! O Deivid chegou e disse que a turma já estava toda

pronta, esperando de moto lá na rua da quadra. Nós descemos pra praça

com uma garrafa de vodka e um refrigerante de dois litros. Dos amigos

todos, o Gilmar era o único que não bebia cerveja. Ele sempre preferia

bebida forte. Dizia que cerveja o deixa com o estômago ruim, com

sensação de inchaço.

Estava muito cheio de gente, mesmo com uma garoa fina que

caía sobre a cidade.

Muita música e mulheres bonitas! O carnaval de Raul Soares é

diferenciado, muito pacífico e com tudo que há nos outros carnavais:

trio-elétrico, banda de música, blocos caricatos, cachaça da boa,

comida...e às vezes alguma briguinha. É só uma pena esse ano não ter o

tradicional desfile das escolas de samba de Raul Soares! Lembro bem da

última vez que eu vim pra cá, até decorei a música da escola Cacique da

Rua Bom Jesus. Num dos trechos havia uma melodia bonita, tipo: “E a

Cacique, vem chegando feito um vendaval, e não há quem fique, aí

parado nesse carnaval”.

Nós ficamos bebendo e dançando a noite inteira, mas o Deivid

acabou passando do limite e foi embora junto com sua namorada

Darlene.

Ela é muito simpática! O grande problema é que a garota é tímida

demais para conversar com as pessoas, acaba sendo engraçado o seu

modo de se comportar. Parece uma bonequinha! Só fica sorrindo. Acho

que quando ela fica com raiva deve xingar o Deivid, mas acho que só se

não tiver ninguém por perto, afinal ela é muito tímida!

No outro dia fiquei sabendo que caíram com a moto numa rua da

Vila Esperança que estava cheia de lama, mas por sorte não se

machucaram e a moto não estragou, ficou só o mal humor da Darlene

em tomar um banho de lama. O Deivid falou que quando amanheceu ela

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nem quis carona para o serviço, preferiu ir à pé, mas que logo fizeram as

pazes.

Depois o Jorge também foi embora pra Vila Barbosa, o Marcelo

também, o Nem e sua namorada Célia. Eu fiquei. Queria testar os meus

limites, iria participar do bloco dos tombados. Estava decidido! Eu já

tinha comprado a camiseta mesmo, seria um sentimento de derrota se eu

fosse embora. Eu pensaria que as pessoas estivessem arrazoando de mim

por não ter tido disposição para participar do bloco.

O Gilmar estava cambaleando de tanta vodka e mesmo assim

ficou até o amanhecer, eu que misturei com cerveja também poderia.

Vi que algumas pessoas foram pra casa e dormiram pra poder

acordar na hora do bloco sair. Vi que alguns dormiam nos bancos da

praça mesmo e outros se sentaram nos passeios. Esses não são tombados

como nós. Ficamos a noite inteira bebendo, chegamos realmente

bêbados! Não que seja motivo de orgulho, mas que deu prazer isso é

inegável!

Eu fiquei o tempo todo dançando, bebida nem se fala, que nem

louco! Estava chovendo bastante nessa hora, e o bloco já estava saindo.

A chuva ajudava a minimizar o efeito da embriagues e lavava o suor.

Estava muito animado, todo mundo se abraçando e fazendo um grande

cordão de bêbados! Muita gente jogava cerveja nos outros, uma guerra

pacífica de bebida. Música, nesse ponto os ouvidos já estavam doendo

de tanto ter escutado música a noite inteira.

Era a manhã, surgindo timidamente devido ao tempo nublado. Eu

estava cansado, mas me divertindo bastante no bloco que seguia o trioelétrico

e a música alta acordava as pessoas nas casas para verem os

tombados passarem.

Eu estava lá no meio, certamente bêbado, a tal ponto que nem sei

como tenho as lembranças para hoje contar nesse texto.

Eu sei que o dia seria ruim e a ressaca evidente. Sei também que

foi uma noite perdida de sono e que eu passaria o dia inteiro com o

corpo dolorido. É certo que os meus pés estavam me matando e eu tinha

vontade de tirar os tênis molhados de chuva. O momento era de

aproveitar, afinal se eu não aproveitasse naquela hora iria me arrepender

depois quando chegasse em casa.

Então lembro que tomei mais umas duas cachaças e comi um pão

com pernil. Não, acho que foram três cachaças. Acho que sim.

Depois eu fui embora de moto, por volta das oito horas da manhã,

sei que é errado dirigir nas condições em que eu estava, mas em Raul

Soares naquele momento não haveria o perigo de atropelar alguém ou

bater em outro carro...quem não estava na praça estava em casa

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dormindo ou cuidando dos afazeres, no caso de quem não pulou

carnaval. A cidade se dividia entre o sagrado descanso e a profana

embriagues, o som e a multidão da praça no centro e a quietude deserta

das ruas no restante da cidade.

É, eu também caí com a moto na mesma rua em que o Deivid

caiu... logo descobri que o Jorge também caiu no mesmo lugar.

Também, por que não pensamos em ir pelo asfalto mesmo? Se a rua da

Vila Esperança estava cheia de barro o melhor era pegar o caminho mais

longo...ah, mas que na hora ninguém pensa nisso, ainda mais com a

vontade louca de chegar em casa logo, tomar um banho e descansar. O

barro estava terrível! Qualquer veículo que passava derrapava naquela

rua. Era preciso ter muito cuidado, diminuir bastante a velocidade... é, e

eu fui descobrir isso só depois de passar pelo barro e derrapado com a

moto uns dez metros antes de mergulhar no chão molhado e macio.

Pelo menos o tombo ocorreu, e eu vestia a camiseta do bloco dos

tombados. Foi gratificante! Fez parte da minha história de carnaval. Eu

estava bêbado e vinha por aquela rua de terra, o barro não estava tão

úmido na maior parte do caminho, mas de repente senti a perda de

aderência da moto. Não deu pra controlar e o tombo ocorreu. Mas

cachaceiro que se preze sempre se levanta depois de um tombo e segue

o seu caminho.

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As manhãs de carnaval. Lembranças e expectativas

É bom acordar e sentir na pele a magia das manhãs! O curso da

vida seguindo em frente, emoldurado nas ações humanas em busca do

sucesso! O balé da natureza executando as ações mais perfeitas da

criação!

O cheiro de café paira no ar convidando o corpo para saborear o

sabor do interior de Minas Gerais, enquanto que longe se ouve o som de

máquinas trabalhando a lavoura.

Ontem à noite foi carnaval na praça e hoje existe cansaço no

corpo, entretanto o selo da juventude devota energia e superação! Faz o

corpo porejar vontades, fortificadas por lembranças da festa que

aconteceu ontem à noite, lá na praça, aqui em Raul Soares. A festa

estava animada e o pão com pernil estava muito bem temperado! Com

um molho de pimenta por cima conquista qualquer paladar.

Foi bonito! Havia música e muitas pessoas! Sorrisos em cada

rosto e a alma se lava de realização.

Foi bom o som que tocava e as bebidas tomadas! Lembranças

gostosas que remetem a sorrisos pelas loucuras, estripulias... gostoso

viver!

Hoje tem festa de novo e novos momentos serão vividos.

Fantasias realizadas, vestidas no corpo e na alma. Vai ter música e

novamente as pessoas vão encher a praça para dançar, beijar, se divertir

e saborear os sabores do carnaval. A cachaça não acabou, vai ter cana!

O tempo nublado revela em alguns instantes um sol tímido que

logo volta a se esconder. Parece sorrir quando aspira no vento o perfume

das intenções humanas. É o vento que corre, por toda a cidade

recolhendo as expectativas dos foliões, que descansam o cansaço e se

hidratam para mais tarde. Um doce, um refresco ou a combinação da

cachaça com o limão mais gostoso desse lugar! Pitadas de açúcar e gelo

à vontade!

Se alguém assa carne, fumaça cheirosa paira no ar e uma música

alegre, de samba, de raiz, comovente aos ouvidos faz o corpo dançar.

O curso da vida não lamenta os momentos vividos em festa e

realização, não importa qual seja. Nós nos arrependemos sim, do que

queríamos fazer e não tivemos coragem. Melhor, é arrepender de um

erro do que evitar errar, pois até mesmo no pecado existe prazer, talvez

de um beijo proibido ou de um toque, de um momento tão criminoso

que o corpo poreja a sensação inebriante por vários instantes após se

encerrar.

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Em cada rosto nessa manhã uma história. A combinação das

bebidas tomadas, dos beijos compartilhados, da música. As lembranças

das pessoas fogem do pensamento e se materializam, ofertam um bom

dia às expectativas no rosto e o que era cansaço logo se transforma em

desejo... e assim o barzinho aberto, onde timidamente o comerciante

varria a rua, logo se transforma num grande encontro. Eis que um liga o

som do carro e outro traz correndo um baralho, enquanto um terceiro já

enche os copos na mesa.

Conversas em volta da mesa, de tudo que aconteceu na noite

passada, sorrisos e uma porção de carne com vários palitos, rodelas de

cebola e molho de pimenta. Um molho de pimenta que tem cheiro

gostoso!

E o tempo vai se passando. Logo chega o horário do almoço. Uma

salada mais leve para não prejudicar mais o estômago, muita água,

muito suco. Para alguns uma pestana após a refeição, e para outros mais

festas nas ruas da cidade, em qualquer lugar que tiver um barzinho

aberto e cerveja bem gelada. Isso tudo para aguardar a noite, clímax da

festa de carnaval!

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Doce

A Eliane, minha prima de olhos verdes semelhantes à esmeralda,

estava fazendo doce na cozinha e resolvi ficar por perto pra conversar

um pouco. Ela havia comprado algumas coisas pra fazer uma sobremesa

gostosa! Maracujá, leite condensado, açúcar refinado, leite não

precisava porque tinha leite de vaca, desses que a gente só acha no

interior, com aquela nata deliciosa por cima!

Toda hora eu perguntava se ela queria ajuda e ela dizia que não.

Teve até um momento em que ela me xingou. Então eu fiz uma piada e

logo ela voltou a sorrir.

Até cheguei a pensar que ela só estava fazendo doce porque eu

estava aqui nesses dias de carnaval e ela queria ser hospitaleira.

Infelizmente ela nunca vai revelar, embora eu tivesse perguntado um

monte de vezes e ela somente sorria e às vezes me xingava, sorrindo de

novo em seguida.

Nós conversamos sobre muitas coisas e eu reparava no modo

como ela fazia o doce. Na verdade o doce era ela, era a prima! A sua

paciência e perfeccionismo de quem fazia um quadro de acrílico.

Sempre foi! Ela é muito delicada e perfeccionista em tudo que faz!

Cuidadosa, fiquei contando piadas para distraí-la enquanto ela fazia

aquele doce de maracujá que estava ficando muito bonito!

Uma música nesse carnaval certamente é a mais tocada, e eu só

sei o refrão que fala pra Mulher Maravilha e o Super Man fugirem, sabe,

músicas de axé que em época de carnaval estouram e se tornam marca

da festa! Eu ensaiei uns passinhos e toda hora quebrava o gelo da prima,

que por sinal é muito tímida e recatada! Demonstra seriedade, sempre

foi assim!

Ela sorria e me chamava de louco, de bobo, dizia que eu parecia

um menino que nunca iria crescer, outras horas falava que sentirá

saudades quando eu for embora, que quando eu estou lá a casa fica

agitada, animada...feliz! Há conversa o tempo todo e tudo fica tão

diferente dos dias normais!

Quando ela terminou de fazer o doce e colocou na geladeira pra

ganhar consistência, veio perguntar pra mim se estava muito doce. Eu

fiquei encantado com o gesto, tanto que elogiei bastante o doce da

prima. Ela é uma garota maravilhosa!

A manhã passou depressa e na hora do almoço ela veio do

trabalho almoçar com a tia Maria e eu. Nós provamos o doce e

sinceramente, não parecia ter o gosto de pudim de maracujá... o sabor

remetia ao encanto da prima Eliane. Eu lembrava de hoje cedo, dela

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fazendo o doce e eu atormentando ela o tempo todo, dos passinhos de

dança e das piadas... dos sorrisos dela... até das horas que ela ficava com

raiva e xingava por eu estar atrapalhando.

Eu fiquei lembrando das conversas e dos passinhos de dança, ela

sorria e achava legal! Eu sentia que a prima estava mais animada, mais

alegre.

Logo ela saiu, voltou para o seu serviço com uma invejável

pontualidade. Então provei mais um pedaço do doce que a prima fez

hoje pela manhã, antes de ir trabalhar.

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Bloco das desesperadas. A diferença é que todos somos iguais

O que diferencia as pessoas é o caráter. Não é nem o tanto de

dinheiro que tem na carteira nem a quantidade de munições do seu

revolver, apenas o caráter.

Preconceito é algo que faz parte da própria existência humana, e

não há como simplesmente se apagar alguns conceitos da mentalidade

dos homens. Sempre será um câncer imortalizado no modo de ser e de

pensar de cada indivíduo.

Os homossexuais são pessoas que convivem conosco todos os

dias, alguns de maneira discreta e outros mais abertamente. É certo que

é um grupo vulnerável a muitas coisas, mas a pior delas é a exclusão

social e o desprezo.

O que torna um homem melhor que o outro senão o seu caráter?

Haveria alguma relação entre o modo de se comportar ou se vestir? Não

são os ricos que a bíblia fala que não entrarão no céu? Ou por acaso a

própria bíblia não exclui do convívio correto aquele que não pratica os

mandamentos e ama ao Senhor? O pecado não pertence à carne? Então

quem é que jamais pecou, contra o seu próximo ou contra si mesmo?

Quando a energia deixar a carne e adentrar no plano superior o

pecado já não existirá, nem o amor ou o ódio. Na eternidade não existem

roupas e nem sexos. A energia não possui forma nem cor, é apenas luz.

Eu vi a energia, aliás, muitas energias e por isso digo que tudo que é

mundano pertence à carne, não atinge a energia. O que fazemos aqui,

permanece aqui.

Sim, evidente que o bom humor do carnaval daqui remete à

conscientização. No bloco das desesperadas não é obrigatório, mas a

grande maioria inverte os papéis. Homens se vestem de mulher e

mulheres se vestem de homem.

É importante participar da festa! É bom viver cada instante como

se fosse único! Aprender com a vida e adquirir mais experiência... sem

contar que é carnaval não é verdade? Que mal tem em colocar uma

maquiagem e um vestidinho florido?

O Deivid ficou horroroso! Certamente que seria a bicha mais

ridícula da região! Uma peruca verde florescente e aquele vestido

emprestado da Darlene, quase aparecendo a cueca, afinal o primo é alto.

Eu nem fiquei tão extravagante assim, mas com um porte físico

avantajado, resultado de academia, acabou sendo sucesso! E eu ainda

por cima não sou alto, só tenho um metro e sessenta e oito de altura. Eu

era tipo uma bicha musculosa! Que coisa, só fui arrumar uma ficante no

dia em que me vesti de mulher. Acho que antes eu estava antiquado

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demais no meu modo de vestir, mas vestido assim com esse vestidinho e

todo produzido, as mulheres tiveram outra visão, de uma pessoa alegre e

tresloucada.

A Eliane que me maquiou com seus produtos, na verdade ela

queria me deixar super-produzida mesmo “Mona”, com tudo que tinha

direito: batom, lápis, rimel, um luxo! Eu achei que o batom vermelho

combinou mais com o vestidinho florido. A Renata, irmã do Jorge que

emprestou o vestido. No começo é meio incômodo, afinal sempre dá a

sensação de que o bumbum está aparecendo, mas com o tempo se

acostuma. Na verdade dá até um ventinho quando a gente anda, fica bem

fresquinho! Difícil é manter o rebolado usando salto! Não sei como as

mulheres conseguem. Meus pés ficaram cheios de calos. Logo arranhei

o esmalte também. Não levo jeito pra isso.

Havia um senhor de uns quarenta anos com uma roupa de oncinha

que estava bastante convincente! Ele balançava o rabinho pra bater nos

garotos que não estavam fantasiados e adorava quando algum puxava o

seu rabinho pra cima. Eu não sei, mas quando ele passou perto da gente

e mexeu perguntando se eu já havia conseguido muitos bofes eu quase

acreditei.

Vi também um grupo de senhoras vestidas de marinheiros. Elas

devem ter gasto muito com as fantasias, afinal todas estavam

rigorosamente iguais, e até o quepe era igual! Elas ficavam o tempo todo

juntas, não sei, devem ser de alguma caravana.

A combinação do bloco das desesperadas com as marchinhas

antigas de carnaval foi decisiva! Estava muito animado, na verdade o

carnaval de Raul Soares sempre é interessante! Claro que a cachaça

estava rolando solta na festa... ah Renata, não deixa eu beber muito hoje

não, e se eu beber por favor me vigia, afinal de bêbado não tem dono e

hoje vai ter gente caindo de bêbado vestido de mulher, eu disse. Vixi!

Nossa sociedade é rigorosa demais com as aparências. Como

muitos homens estavam vestidos de mulher, quem era homossexual de

verdade pôde aproveitar o carnaval com menos receio do preconceito

das pessoas, talvez realizar algum tipo de vontade como sair à rua

vestido de mulher e se comportar como mulher sem que as pessoas

ridicularizem ou joguem as pedras do preconceito.

Bom, ridículos para falar a verdade todos estávamos, mas a

verdadeira intenção de viver é exatamente essa: sermos e estarmos

ridículos, porém realizarmos o que temos vontade, viver é o máximo da

inspiração humana! Nossa vida é curta demais para ficarmos presos

dentro de um armário sem nunca libertarmos os nossos planos de vida.

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Se todos nós fôssemos exatamente iguais, no modo de ser e

pensar, nas ações e na cultura, nos sonhos e desilusões, nos mitos e

medos, na coragem e sucesso, viver seria algo tão sem sabor! Se nossas

roupas tivessem as mesmas cores, nossos penteados... as escolhas

sentimentais.

São exatamente as diferenças que tornam a vida mais excitante! O

negro que se casa com uma mulher branca; o branquelo que consegue

uma namorada neguinha, aliás, que sortudo, porque uma pretinha tem o

seu poder com certeza! O rebolado, o carinho e a dedicação da cor

matriarcal da humanidade! O homem velho e milionário que se apaixona

por uma garota de vinte anos; a primeira vez de um adolescente nas

vielas das mulheres da vida; o casal de homossexuais que juntos

constrói uma grife de sucesso internacional ou simplesmente racha as

despesas e aluga um apartamento; ou até mesmo a mulher louca que

teria coragem de ficar comigo tendo eu os mais notáveis defeitos que um

homem pode ter. duas mulheres se beijando sempre me deixa excitado,

mas acho que muitos homens também ficam.

Sim, nós somos feitos de diferenças, porém a diferença maior é

que todos somos iguais, em direitos e obrigações. Essa diferença não

está ainda visível ao olhar da maioria, pois o normal para eles é que não

é humana a androgenia. Maltratar uma pessoa por suas escolhas é

maltratar o seu próprio povo ou a si mesmo.

Era segunda-feira e tudo estava muito animado! A garota que

estava comigo era uma pessoa intrigante! Se eu não tivesse ficado com

ela por um longo período diria até que era uma pessoa passiva demais,

porém quando fomos pra um cantinho namorar foi muito bom!

Tocávamos-nos de um modo muito provocante! Estava garoando e a

música era animada! Eu estava vestido com aquele vestido fino e curto...

no meio do povo...trágico! Na verdade fica difícil de entrar em detalhes,

mas tanto eu quanto aquela garota sabemos de tudo, e essa confissão

será eterna em nossas lembranças... ou mesmo se for apagada com o

tempo apenas nós dois sabemos!

Existem inúmeras histórias de carnaval! Cada pessoa já vivenciou

delitos à normalidade, à moralidade e aos bons costumes. Já amou e se

iludiu, se embriagou e dormiu pouco, dançou, brincou e foi feliz!

Quando voltamos para a praça os amigos já haviam ido embora,

afinal era quase de manhã. Então ofereci carona para a garota e quando a

deixei em casa o irmão dela ainda não havia chegado. E mesmo que eu

estivesse com bastante sono e exausto acabei levando-a para dar uma

volta pelas ruas para ver se encontrávamos o garoto. Bom que hoje eu

quase não bebi nada alcoólico, só quando estávamos na praça mesmo,

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mas aí depois saímos e agora já não tenho mais clima pra beber. Bom é

quando se começa cedo a tomar uma boa cerveja. Mas hoje eu estou

cansado, é melhor descansar. Não tendo encontrado o irmão dela, eu tive

que forçar a janela da casa para que ela pudesse entrar. Não foi difícil,

aliás, as casas daqui não são muito seguras, algumas pessoas dormem

com janelas abertas e portas escoradas... ah, mas também aqui nem tem

ladrões e todos se conhecem nas vilas. Talvez essas casas sejam mais

bem cuidadas do que as nossas, com câmeras e alarmes.

Hoje foi um dia muito alegre de carnaval! Muitas pessoas

aderiram à idéia de inverter os papéis por um dia. Foram muito boas

também as marchinhas antigas, que sempre animam a festa!

Cheguei em casa e logo fui dormir, lembro que parei na varanda

pra acender um cigarro e fiquei observando o sol nascendo. Na verdade

ainda não havia nascido, só havia a claridade por trás da serra,

anunciando a nova manhã. Acabei pegando uma garrafa de cachaça no

armário. Eu pretendia fazer uma caipirinha mais tarde, mas mudei de

idéia. Quando a garrafa acabou eu dormi no sofá da varanda.

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A grande escapada de Daiana

A minha prima tem o desejo e a rebeldia da juventude! É alegre e

gosta muito de festas! Sair com os amigos e aproveitar ao máximo as

novidades. Como todo jovem, é rebelde ao extremo e na maioria das

vezes acha viável a bronca da manhã, se a noite passada valer a pena.

Ela tem dezenove anos. É irmã do Deivid e mora junto com a tia

Maria, na Vila Barbosa.

Gosta de ir à aula mais pela conversa com os amigos do que pela

matéria que é ensinada. Algumas vezes mata aula pra ficar conversando

com eles na praça.

Impulsiva e rebelde, embora tenha sonhos de prestar um bom

concurso e conseguir uma formação adequada, não abre mão das

estripulias da idade, assim como a maioria dos seus amigos de mesma

idade.

A tia sempre chama a atenção dela, preocupada com amizades

perigosas, ainda mais que a prima não é um exemplo de garota quietinha

e comportada.

Mas vê que chegou o carnaval e as festas mexem com a coragem

das pessoas. As sensações explodem no interior do corpo e há muita

festa, incomum na maior parte do ano aqui em Raul Soares.

Eu jamais fui cúmplice de crime algum, desses para os quais não

há cadeia ou julgamento, apenas repreensão quando se chega em casa, e

por ser muito responsável a tia pediu para que eu ficasse de olho nela na

festa. Falou que deixava a Daiana ir conosco se ela prometesse ficar

junto com a nossa turma, que não era pra ela beber e nem sumir de perto

da turma. Eu logo assumi a missão, afinal não seria tão difícil manter a

atenção numa simples garota, oras, eu sou um rapaz esperto, muito vivo.

A Daiana também concordou. Nós estávamos vendo televisão e ela fez

uma carinha triste embora tivesse um sorrisinho malicioso no rosto, o

que eu não entendi muito bem e acabei sorrindo também, com um ar

superprotetor e implacável!

Acontece que sempre que tem alguma festa na cidade a Daiana

chega tarde, bebe muito, fica junto com pessoas de fora. E ontem ela

demorou muito pra chegar do carnaval, a tia Maria não gosta e hoje nem

iria deixar ela descer até a praça.

Nós saímos juntos para a praça. Por volta das vinte duas horas.

Lembro que estava o Deivid, a namorada dele Darlene, o Nem, a Célia,

Jorginho, Gilmar, a Daiana foi comigo de moto.

Chegamos à praça e já estava lotada de foliões. Logo a Daiana

pensou em dar uma escapada para encontrar com algum conhecido, ou

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sabe-se lá o que aquela mente estaria tramando. Mas logo, tão logo

quanto depressa e urgente eu proibi. A tia havia recomendado que eu

não desgrudasse os olhos dela, porque ela estava louca pra encher a cara,

aprontar com as amigas, mexer com rapazes, criar confusão, festejar...

A Daiana olhou pra mim com uma cara de tédio em meio a um

sorriso um pouco malicioso, igual àquele de hoje cedo. Ela olhava

inquieta para muitas direções, parecia estar procurando alguém, ou que

estivesse de encontro marcado com alguma pessoa. Então eu pensei em

comprar bebida pra nós bebermos. Todo mundo estava junto, o Deivid

falou que havia guardado uma garrafa de Vodka na barraquinha de um

conhecido, em frente ao supermercado. Eu comprei cerveja para mim e

um Ice pra ela. Os outros estavam tomando Vodka com refrigerante, e

quem mais bebia era o Gilmar, afinal ele detesta cerveja, fala que fica

com o estômago ruim.

A Daiana reparava muito em mim, sempre lançando aquele

sorrisinho malicioso de quem vai aprontar. Cara de quem está tramando

um plano. Mas eu sou muito vivo! Não iria desgrudar os olhos dela.

Quando passávamos por algum conhecido dela sempre arrumava

um jeito de correr pra conversar, eu ficava de longe observando e

quando ela pensava em sair de fuga eu estava lá.

Uma hora ela parou pra conversar com umas amigas e eu

observava de longe, então uma das amigas, até bonita, veio conversar

comigo e a Daiana ficou lá com as outras, olhando pra mim e com o

mesmo sorriso malicioso. A garota estava muito cheirosa! Perguntou

meu nome, se eu era primo da Daiana, de onde eu era e me deu um

selinho antes que eu terminasse de responder. O batom dela estava

muito doce, muito molhado! Então não resisti e dei outro beijo nela.

Quando olhei de novo na direção de onde a Daiana estava nenhuma das

amigas estava lá, e nem a Daiana.

A sem vergonha da garota disse pra mim que elas não iriam

aprontar muito, que eu beijava muito bem, que era bonito, deu um

sorrisinho sacana e me deu um tchau, dizendo que gostaria de me ver de

novo antes que eu fosse embora.

Fui pego de surpresa, enganado por garotas que acabaram de sair

das fraudas.

Então eu acabei deixando pra lá, pelo menos ganhei um beijo. Eu

não iria ficar procurando a Daiana na festa, nem iria atrás daquela garota

que me beijou só pra descobrir o que a prima estava fazendo. Sei que ela

vai encher a cara, e a tia não vai gostar, mas eu também quero aproveitar

o carnaval. Só espero que ela não faça vômito quando chegar senão a tia

vai ficar uma fera com ela. Seria também muito interessante que ela não

35


chegasse depois de mim. Sei que ela é esperta e pensará numa desculpa

convincente, talvez que eu a tivesse levado embora e voltado pra festa,

mas se ela chegar depois de mim a tia vai saber que ela saiu de perto da

gente.

A Daiana sempre diz que se a noite foi divertida compensa a

bronca do outro dia.

Eu perguntei ao Deivid se havia algum risco no fato da Daiana ter

sumido e ele disse que isso é o normal dela, que a Daiana nunca teve

juízo. Que toda festa é sempre a mesma história. Na verdade o Deivid

também não era um grande exemplo de garoto comportado. Ele está

enchendo a cara de Vodka com refrigerante, cerveja, wisky... todos os

dias desse carnaval. Ele também é novo, quase da mesma idade da

Daiana, se não me engano um ou dois anos mais velho, ele falou a

idade, mas não me lembro. Pedimos mais algumas latas de cerveja e

fomos para perto do palco onde estava a maioria dos foliões.

Bom, já que eu fui cúmplice, e a Daiana conseguiu escapar,

melhor que faço é aproveitar essa festa maravilhosa! A música e as

garotas bonitas da cidade de Raul Soares, a bebida, o clima de festa,

tudo!

36


Hoje tem festa no bar da Reta

O tradicional Bar da Reta! Logo na entrada da cidade, bem

pertinho da casa da tia, na Vila Barbosa.

Lembro que quando estive aqui no carnaval de 2005 ele ficava

muito cheio! Todo dia era assim, nas tardes após o almoço. Quando a

noite caía, as pessoas iam pra casa ou algum hotel em que estivessem

hospedados, tomar banho pra poder ir para a praça aproveitar o carnaval

que virava a madrugada.

Esse ano a chuva está atrapalhando um pouco. Os algozes que

trazem os carros tunados e cheios de caixas de som estão tímidos!

Prepararam um belo campeonato de som, mas com a chuva, todos

ficaram com receio de estragar os seus equipamentos. Acho que só o

Vinícius se arriscou nos outros dias, mesmo assim pra não desperdiçar a

música que fez sobre o carnaval daqui.

Ainda bem que hoje a chuva deu uma trégua! Aí o bar ficou

cheio. Eu estava de ressaca, por causa da cachaça que tomei ainda hoje

de manhã depois de chegar da praça. Lembro que estava na varanda da

casa da tia tomando um suco de acerola que ela havia acabado de

preparar. A Daiana apareceu e falou que o bar da Reta estava aberto

porque estava ouvindo o barulho dos carros de som.

E eu pensando que o som era na rua de baixo na casa de alguém

que estivesse assando carne, talvez uma festa. Estava muito alto!

Bom, ressaca vai embora, porque afinal sabe-se lá quando vou

poder voltar aqui no carnaval. Tomei mais um copo de suco de acerola e

tentei me animar um pouco para ir até lá.

Da última vez que estive aqui o bar era diferente! Dessa vez

colocaram muitas mesas de concreto do lado de fora. Essa era uma

carência de antigamente. Se bem que ninguém costuma ficar sentado

mesmo. O pessoal quer extravasar! Dançar muito e encher a cara. Pular

e se agitar sem o menor pudor!

O bom de o bar ser mais afastado das casas é que não há problema

com o som alto. Na verdade em todas as cidades do interior, pelo menos

as que eu conheço, o som é um problema! Isso porque muitas pessoas

escolhem as cidades mais tranqüilas para passar a velhice, na quietude e

sossego. Só que em todos os lugares existem os jovens, e independente

dos costumes, jovem quer aproveitar a juventude fazendo coisas de

jovem, e não jogando baralho ou xadrez num banco de praça,

concentrado e apreensivo, silencioso.

Eu nem fiquei muito tempo no bar, afinal hoje sim vou precisar

cochilar antes de ir à praça. Estou ficando velho e já não tenho tanta

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energia como antigamente. É bom aproveitar, mas o corpo tem as suas

limitações. Hoje não posso exagerar nos energéticos pra ficar acordado.

Nos últimos dias tenho feito isso e vai me fazer mal. Sinto que meu

organismo não está se adaptando. A falta de sono tem pesado meu corpo

a cada dia, me deixando mais fraco.

É uma pena que nos outros dias tenha chovido tanto! O carnaval

já está acabando. Hoje algumas pessoas vão embora para as suas cidades

e mesmo assim estava muito animado lá no bar! Fico pensando no tanto

que eu iria me divertir se nos outros dias tivesse sol. Talvez eu iria sair

da praça, passar pelo clube pra tomar sol, porque eu não sei nadar, e

depois iria direto para o bar... passar na casa da tia só pra tomar banho e

voltar pra praça. É, pensando bem, talvez tenha sido providencial essa

chuva!

Quem sabe da próxima vez que eu voltar em Raul Soares haja

mais sorte com o clima. Gosto de chuva, mas em época de carnaval

atrapalha bastante!

Muitas pessoas no bar! Bebendo e dançando diversos ritmos.

Bom, não que seja dança, a maioria fica é pulando mesmo e jogando

cerveja nos colegas. Garotas de short curto, de blusa curta, de tomaraque-cáia...

Os carros passando na rua, chegando ou deixando a cidade,

olhando a nossa diversão e pensando muitas coisas sobre o tumulto

todo, talvez aprovando, ou reprovando...

Às vezes até acontece um selinho ou beijo picante, quando a

paquera do rapaz convence, mas às vezes até acontece um selinho ou

beijo picante quando a paquera da garota convence o rapaz. Nesse caso

a segunda paquera tem aumentado bastante nos últimos tempos!

Quando fui embora ainda podia ouvir o som dos carros lá no Bar

da Reta. Ao chegar à casa da tia tomei um banho e fui deitar pra relaxar

um pouco, descansando o corpo pra ir à praça à noite.

Hoje acaba o carnaval e o Deivid falou que costuma ser um dia

mais sem graça, afinal muitas pessoas deixam à cidade antes da festa e

até mesmo durante a festa, a praça não fica tão cheia quanto nos outros

dias.

Lembro que fiquei no bar até por volta das dezessete horas. Fui

embora por causa do cansaço dos outros dias e acabei dormindo

bastante! Quando acordei acabei nem indo na praça. Eu preferi tomar

um vinho que estava na geladeira e ficar em casa. Peguei meu

cavaquinho e fui tocar um pouco lá na varanda, observando o mato da

encosta do morro durante a noite e o casal de siri emas no galho onde

dormem, lá no meio do pasto.

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As primas também não foram no carnaval, o que evidenciava que

não seria mesmo tão bom quanto nos outros dias. É um clima de

despedida. Não sei, talvez dos amores de carnaval se revelarem e quem

passou o carnaval todo levando o tal toco tentarem a sorte grande.

Não gosto de climas de despedidas. Melhor ficar em casa mesmo,

além do mais aproveitei bastante hoje lá no bar da Reta! Meus ouvidos

ficaram até um pouco doloridos por causa do som.

Despedidas são sempre tristes, por isso é melhor que eu fique em

casa hoje recordando dos dias que se passaram, da festa no Bar da Reta.

Saber que valeu a pena tudo! Que foi do jeito que eu queria! Que esse

carnaval foi muito divertido e que eu pude queimar muitas calorias

dançando... apesar de ganhar o triplo tomando cerveja e comendo

salgados e outras guloseimas.

Valeu a pena!

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Volta pra ela

Amor de carnaval, sentimento tão corriqueiro que nos cativa o

olhar sem qualquer responsabilidade. Amor que se sabe o momento do

fim, onde não há ciúme nem ao menos possessão.

Geralmente ocorre entre pessoas que não são do mesmo pedaço

do mundo, não possuem as mesmas raízes, nem os mesmos modos de

enxergar o mundo, a vida e o próprio amor. É uma forma de se dar

carinho mais por curiosidade ou conveniência do que simplesmente por

amor. Olhamos e gostamos de alguém, beijos, abraços e amor de

carnaval. Depois o fim que pode ou não deixar saudades, mas que se

prevê no momento de amar, e tão antes que acontecesse qualquer coisa

entre os amantes de carnaval.

É, mas algumas coisas surgem sem qualquer tipo de explicação,

dessa vez não cito nomes, porém vi que um casal muito simpático se

doava, de maneira digna ao amor, com feições de relacionamento

duradouro.

Em todos os dias do carnaval permaneceram juntos, amigos dos

primos do interior, até moravam perto da casa. Era notável um

sentimento entre os dois. Até ciúme acontecia.

Mas passado o carnaval, na sexta-feira, lembro bem, todos nós da

Vila Barbosa combinamos de ir pra praça, para o bar do Eron. Eu estava

ficando na casa do tio Mário em outra vila, a Vila Esperança, e no

horário que o pessoal ligou fui pra Vila Barbosa dar carona pra uma

garota, que não posso dizer o nome, mas que foi amor de carnaval e eu

fui seu amor de carnaval.

Quando passamos na porta da casa aquela garota chorando, acabei

parando a moto pra perguntar e ela falou que haviam terminado. Eu

pensei em perguntar o motivo, mas antes disso, ela acabou falando que

ele disse que não gostava mais dela, que não terminou antes do carnaval

pra ela não beijar outro cara, mas que mesmo antes do carnaval já não

gostava...

Pára, eu não acreditei numa história tão desconexa, talvez

egoísmo da parte dele, mas de onde vem isso? Não gostar de alguém e

não permitir que essa pessoa viva? Qual o motivo? É certo sentirmos um

sentimento ruim quando terminamos com alguém e essa pessoa encontra

outro amor, mas isso é comum quando ainda há um pouquinho de

sentimento. Agora, de onde vem essa possessão absurda onde se reprime

a felicidade alheia ou pelo menos a possibilidade de encontrar outra

pessoa?

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Acho que parei no tempo demais, no tempo onde amar era

conveniente ao ser humano como respirar ou se alimentar. Fazia parte da

vida e havia significado o relacionamento.

Não é possível que eu estivesse enganado ao ver os dois juntos, se

tocando, sorrindo e se divertindo juntos. Não pode ser que exista um

ator tão convincente a ponto de disfarçar tão bem o amor.

Conversa com ela! Volta pra ela! Eu exclamo! As decisões que se

precipitam não levam ao fim das coisas, só histórias inacabadas. Depois,

essa história não se encerra nos seus corações tão facilmente, e uma

ferida é capaz de dividir o mundo ao meio. As estradas onde você

passava para ir vê-la, embora antes repletas de flores, se tornarão um

mato queimado, o solo ficará rachado e você não terá coragem de seguir

pelo mesmo caminho. Será isso uma encruzilhada no mundo e

lembranças te impedirão de passar por ali.

Nós fomos lá para aquele barzinho na praça e estávamos nos

divertindo, então o Jorge pegou minha moto emprestada e foi até a casa

daquela garota para trazê-la também para a praça pra que pudéssemos

ficar todos juntos, tentar amenizar o sofrimento dela, mas foi em vão.

Logo o garoto foi visto num local distante da praça conversando com

outra garota, ninguém sabia quem era, mas então um fato ficou em

evidência: lembrei que no primeiro dia do carnaval quando estávamos

num dos blocos, o bloco dos chapados, o rapaz saiu de perto da gente

falando que iria ao banheiro e depois compraria um refrigerante, ele

demorou bastante e quando chegou estava com uma aparência diferente.

Talvez estivesse com a outra garota, talvez estivesse pensando na

sua indecisão. Certo que eu não tenho nada a ver com a história e até fui

embora da cidade após a festa, mas por gostar do casal, por serem

pessoas que aparentemente se completam, resta saber o que acontecerá,

se no próximo enredo de carnaval estarão juntos ou se esse é realmente

o fim.

Eu gostaria que não fosse dessa maneira, mesmo porque não

percebi nada de inconveniente naquela garota. É uma pessoa educada,

bonita, compreensiva com ele, ou pelo menos demonstrava. Só quem

sabe realmente do relacionamento é quem está dentro do contexto.

Vendo-a sofrer percebíamos que ela realmente o amava. Não sei como

eram na vida de casal, mas as aparências revelavam um relacionamento

bonito!

A juventude é impulsiva, e eu fui jovem. Hoje entendo o porquê

das pessoas se tornarem antiquadas com o passar do tempo para os

jovens. As experiências da vida vão ensinando, moldando as nossas

decisões. Entendo também porque as pessoas mais velhas repudiam o

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modo de pensar dos jovens. Tudo faz parte da vida, é a mudança de

comportamento através das experiências que provoca essas alterações.

Nós vamos adquirindo mais experiência no primeiro, no segundo,

no terceiro amor. Onde lá atrás se amava muito e havia entrega, já não

há mais que resguardo ao nosso próprio bem-estar. Gostar primeiro de

nós para depois poder proporcionar algo a outra pessoa. Mas seria tão

bom se pudéssemos nos tornar experientes com um único amor,

descobrindo junto, vivendo e crescendo juntos! Claro, essa possibilidade

excluiria a existência de um amor de carnaval, mas nos permitiria viver

um amor por toda a vida!

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Nem tudo o que te sorri te beija. É o toco!

Criaram uma nova forma de dizer que um sujeito levou um fora

de uma garota. O termo agora é “toco”. Levar um toco parece estar na

moda. Bom, se está na moda eu não sei, mas com o monte de toco que

eu levei já daria pra montar uma árvore inteira, juntando os pedaços.

Noite, lá na praça, eu aproveitando o carnaval. Esse ano eu só não

pulei carnaval em dois blocos, por estar com os pés um pouco doloridos

e o cansaço em evidência.

Preferi ficar perto do palco só observando as garotas bonitas e a

música que tocava, dançando e tomando a minha bebida.

Não dá pra entender essas garotas. Ficam sorrindo pra gente com

aquele olhar de desejo e quando vamos conversar somos presenteados

com um toco.

Por que sorrir então? Não é carnaval? A festa não é do beijo?

Essa garota ficou várias vezes me encarando e quando acenei pra

ela, simplesmente fingiu que não era com ela e foi embora. Fico

imaginando qual seria a graça dela em simplesmente ficar encarando.

Já sei, ela gosta de beijar na imaginação. Só pode ser esse o

motivo de ficar fitando com os olhos e no momento da azaração me dar

o toco.

Aliás, aqui no meio do povo estou vendo muita gente levar o toco.

É que perto do palco é onde fica a maior concentração de gente, então

tudo o que acontece acaba ficando em evidência.

Nossa! Um cara acabou de bater o recorde mundial de tocos. Ele

veio da direção do palco pedindo pra beijar tudo quanto é mulher, todas

sorriram e deram o toco. Algumas vezes ele tentava forçar um pouco e a

garota se esquivava. Em outras a garota balançava o dedo em sinal de

negação.

Pra que sorrir para dar um toco? Será que por puro prazer em

saber que se está dando um fora, dispensando alguém que não quer ser

mais do que um simples amor de carnaval e dar uns beijinhos?

Vinguei! Uma garota feia estava sorrindo pra mim. Eu nem sorri

pra ela, mas ela se aproximou e ficou um tempo dançando perto de onde

eu estava. Eu pensei que se eu não falasse nada e não desse a entender

que estava interessado, ela iria se cansar. Eu estava certo. Na hora que

ela foi saindo falou assim: “Que toco heim!”.

Perdoem-me as feias, mas lá no meu quintal a beleza é

fundamental!

A moda agora é o toco. Nessa hora eu dei um sorriso, mas foi

depois daquela garota ir embora.

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Acabei encontrando com o Vinícius. Um colega de um site de

relacionamento da internet, o mesmo que fez a música do carnaval de

Raul Soares, o mesmo que estava lá no bloco dos Chapados no primeiro

dia do carnaval. Ele contou alguns tocos que já havia recebido nesse

carnaval. Inclusive de uma garota daqui de perto. Não vou falar o nome

porque essa pessoa de alguma forma é ligada à minha família. Não entro

em detalhes, mas na comunidade da internet ela nunca havia falado

nada, então quando o Vinícius falou nela, perguntando se já havia visto,

disse que não. Nós estávamos tomando cerveja e sorrimos bastante, cada

um contando tocos e sucessos na azaração com a mulherada! Casos do

carnaval e o quanto se pode aproveitar em tempos de festa. Ele é

animado, mas parece que não tem limite na cerveja. Não sei, talvez

tenha bebido pouco, mas pelo modo como segura o copo e se balança

parece estar calibrado.

Que carnaval maravilhoso aqui em Raul Soares! Muita cerveja,

mulher bonita... e o toco! Não, o toco não... toco não tem graça, na

verdade é uma tristeza danada! Um instante único onde gostaríamos de

ser um avestruz e esconder o nosso rosto num buraco.

O tempo que o Vinícius estava por perto acabou falando que fez

uma música homenageando o carnaval de Raul Soares, que gravou e

estava tocando no carro. Na verdade eu já havia escutado sim, uma

música muito legal falando sobre os blocos, sobre os bares, sobre as

pessoas! Acho que todo mundo da cidade já ouviu a música, afinal ele

passa toda hora na rua tocando a música no volume máximo.

Não é possível que essas garotas não se interessarão por ninguém.

Nós homens não estamos tão feios assim não. Se não quer beijar pra que

sorrir? Pra que olhar fixamente? Por que facilitar?

Talvez pelo prazer de dar o toco e ver a cara de chateação do

presenteado.

Depois que o Vinícius foi embora falando que era o cara e

sorrindo bastante, eu acabei ficando apertado e fui procurar o banheiro...

jura, não? No meio de tantas pessoas eu não iria suportar a espera, o

empurra, e se alguém me esbarrasse urinava ali mesmo.

Mas ta, quando eu saí de trás da barraquinha vi o Gilmar, amigo

nosso recebendo um toco. Bom, quase que deu certo, mas quando a

garota ia beijar, o Deivid ficou fazendo piada, aliás o Deivid estava

muito bêbado nessa hora! Estava muito engraçado o modo de ele

conversar.

Mas o pior toco foi de uma pessoa que eu não posso revelar.

Afinal se eu falo quem é muita coisa mudaria na cidade. Nossa, nem

posso imaginar. A cidade se dividiria em duas e haveria guerra. Eu

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fiquei instigando durante dias. Jogava indiretas, ela sorria sempre. Dizia

que eu era muito engraçado, louco, agitado! Bom, isso todo mundo tem

falado, até minha prima, e olha que eu nem sou. Tudo que eu dizia a

alegrava. Mas esse toco eu até entendo, afinal não é todo mundo que

está disponível, existem impedimentos, coisas que dificultam ou tornam

excessivamente perigoso o beijo, sendo mais conveniente ofertar apenas

um toco!

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O som do cavaquinho na Vila Esperança

A Vila Esperança fica perto do centro. É um bairro, ou melhor

uma vila, pois assim se chamam aqui em Raul Soares, com mais casas

que a Vila Barbosa. Possui ruas de pedra e alguns comércios. Tive a

impressão de que na Vila Barbosa havia mais comércios do que aqui.

Como é passagem para o centro de quem vem da Vila Barbosa, as

ruas são mais movimentadas. Há dois caminhos, sendo um pela rua que

as pessoas fazem caminhada pela manhã e o outro caminho, pela rua

principal, passagem de quem está chegando à cidade.

Percebi logo que cheguei à casa do tio Mário que aqui tem muitas

garotas, ou talvez elas tenham me percebido chegar. Elas são novas, de

idade entre os quinze e vinte e cinco anos. O tio disse que as garotas

daqui adoram ficar jogando charme para rapazes de fora. Que logo que

percebem que há alguém de fora na cidade ficam todas alvoroçadas.

Paraíso – pensei. Mas logo vi que até mesmo o paraíso pode

incomodar às vezes. “Pasárgada” embora seja deslumbrante aos poetas,

acho que nem o próprio Manuel Bandeira imaginou o quanto pode pesar

ter tanto poder de escolha e possibilidades de realização. Às vezes ser

amigo do rei não é tão bom quanto ser um reles plebeu e passar

despercebido. Cada mulher é um universo humano diferente, e tão cheio

de peculiaridades que a vida de um homem pode virar as avessas

dependendo das pirraças e artimanhas que compõem esse universo.

Entender as mulheres é quase impossível, mas evita-las é praticamente

impossível!

Mulheres! Belas garotas morenas! Curiosas para saber quem eu

era, de onde eu vim. E olha que em Belo Horizonte nem tem sido assim,

e a menos que eu não faça algo interessante, ou tenha um carro, nem

serei notado pela maioria.

A primeira garota que veio à casa do tio Mário foi a Adriana. Ela

também é meio que parente, só não sei em que grau de parentesco. Eu

estava sentado na varanda com o tio Mário conversando e ela veio

conversar com a tia. Na verdade quando eu vim aqui em 2005 ela já

morava na vila, mas eu não me lembrava dela, afinal tinha mudado

muito! A Adriana é uma pessoa experiente, gosta de viver e aproveitar

cada instante da vida! Não se restringe ao que os outros pensarão e não

hesita diante das possibilidades. Gosta de festas e as baladas são parte

do seu cotidiano.

Depois de conversar com a tia, ela veio até a varanda conversar

comigo. Lembro que nessa hora eu tomava uma xícara de café enquanto

observava a rua, as pessoas. Perguntou sobre o carnaval, sobre os

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parentes que sempre vem de Belo Horizonte e esse ano não vieram.

Lembrou do Mauro, nosso primo que faleceu de infarto ano passado,

falou que ele não perdia um carnaval sequer em Raul Soares, que

sempre ficava no clube, do outro lado do rio, e que passavam a noite

inteira pulando carnaval. Lembrou coisas que eu nem fazia idéia... das

vezes em que mesmo sem poder beber ele exagerava na cerveja, nas

carnes, não dormia. Na verdade ele aproveitou cada instante de vida e

escolheu entre tentar viver muito como um doente ou ser feliz na

proporção da quantidade das páginas do livro de sua vida.

Ela contou sobre sua vida, sobre o tempo que morou no Rio de

Janeiro, sobre seus planos de vida, sobre as andanças. Ela mudou muito,

tanto que eu nem a conheci.

Depois que ela foi embora a Miríam veio visitar os tios. Era tarde

e eu estava observando o movimento das pessoas na rua. Cansado dos

dias de carnaval, procurava quietude e a casa do tio Mário era o lugar

ideal para descansar, por ser de uma calmaria típica de interior!

A Miríam também era parente de algum grau, mas não sei

explicar. Na última vez que vim aqui ela era apenas uma criança de dez

anos, mas agora é uma linda jovem, muito linda mesmo, nos seus quinze

anos.

Nós conversamos pouco, afinal ela é um pouco tímida! Até se

soltar e ficar mais à vontade leva tempo. A irmã dela, a Marluce é uma

pessoa muito comunicativa, inteligente e centrada em tudo que faz. Tem

uns três anos a mais, se não me engano ela chegou a dizer que tinha

dezoito anos.

Elas são parentas, e mais distante ainda, a Jéssica é minha parenta.

Também distante. Na verdade o tio Mário é meu tio avô, e essas pessoas

todas são parentes dele ou da tia. A Jordânia é amiga delas e moram

perto. Na verdade eu vi a Jordânia no primeiro dia do carnaval. Por

diversas vezes nós passamos um pelo outro, mas eu não conversei com

ela. Na verdade nem sabia quem era. Então quando o bloco onde

estávamos chegou à praça, eu já não a vi mais. Lembro que a última vez

que a vi eu estava na calçada, comprando cerveja com a nossa turma e

ela estava no meio das pessoas no bloco, então quando virei de costas e

fui conversar com o pessoal ela passou com os foliões.

A mãe da Jéssica é muito animada! Talvez até mais descontraída

que ela quando o assunto é festa. Ela falou sobre o carnaval, sobre as

baladas e sobre como gosta de sair e se divertir.

Ficamos um tempo conversando na varanda da casa e logo a noite

caiu de vez.

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Depois que elas foram embora eu entrei pra jantar. Quando era

noite, lá pelas vinte horas, eu pensei em tomar uma cerveja e tocar um

pouco de cavaquinho. Estava calmo, não havia pessoas na rua, silêncio...

um ambiente ideal para algumas dedilhadas.

Ao lado da casa do tio Mário havia um bar, uma senhora bem

idosa era dona de lá. Então eu fui lá comprar algumas cervejas, mas

como não tinha casco, pedi pra dona do bar emprestar. Ela falou que eu

poderia entregar no outro dia, que isso era comum por aqui quando se

conhece as pessoas. Ela disse que conhecia o tio a décadas.

Então sentei na varanda com o tio Mário e comecei a tocar

algumas músicas.

Um rapaz da vila, chamado Ivan, apareceu pra ouvir. Ele estava

de mudança pra Belo Horizonte para trabalhar, e como também gostava

de música, pegou um pandeiro que tinha, daqueles antigos, muito

bonito!

Chegaram alguns conhecidos do tio Mário que ficam jogando

baralho no bar e logo as garotas também apareceram pra se juntar à

turma.

Em pouco tempo a porta da casa do tio estava cheia de gente.

Todo mundo aproveitando a música, tomando cerveja, e conversando. O

que antes seria apenas algumas dedilhadas no meu cavaquinho virou

uma roda de samba. A maioria das músicas somente eu sabia, mas isso

não impediu batidas na palma da mão, sorrisos e prazer...

A tia não gosta muito de barulho, embora diga que não se

importa. Mas hoje foi inevitável, as garotas gostaram e eu também,

afinal gosto de música, e quando tem garota ouvindo a gente cantar e

tocar fica muito mais interessante!

O carnaval acabando e eu tocando as últimas canções.

Já não havia os carros de som nem as bandas. Não havia mais os

trios-elétricos, os blocos. Nenhum rádio estava ligado e ninguém

cantava música alguma até eu começar a tocar. O som do cavaquinho,

aquela roda de samba na rua, em frente à casa do tio Mário, era o último

encontro de carnaval.

Tinha uma música que a Miríam e a Jordânia gostavam, mas eu

não sabia a letra completa, então não arrisquei. Uma pena que elas até

me mostraram a música no celular pra ver se eu aprendia. Elas queriam

mesmo que eu tocasse aquela música, mas infelizmente ficará para o

próximo enredo de carnaval!

A Marluce estava com seu namorado, e a tia ficou mexendo com

ele, falando que ele era muito feio pra ela, que ele deu sorte e tals... na

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verdade ele já era conhecido de todos e eu demorei pra entender que era

tudo uma brincadeira, bom, mas ele é feio sim!

A Miríam estava muito perfumada, e de cabelos soltos revelava o

perfume do shampoo que usou na hora do banho! Um aroma frio de

brisa, suave e doce! Ela é uma garota muito bonita! É morena, tem os

cabelos partidos aos lados, lisos, bem negros. Ela é baixinha, não vai

ficar muito alta não. Talvez até vá ser uma dessas mulheres baixinhas

que não levam desaforo pra casa. Muito bonita quando está sorrindo

porque sua boca é muito pequena. Fiquei brincando com ela por causa

de sua altura e ela disse que iria crescer sim, que era só uma questão de

tempo.

Tinha uma garota que toda hora passava de bicicleta e em cada

hora estava com uma roupa diferente. Eu reparei porque sou muito

observador. Numa das vezes até perguntei o Ivan se ele conhecia. Ele

respondeu que sim e que ela estava se exibindo pra mim. Gosto de ver

tudo que acontece à minha volta, mas a exibição não foi oportuna, de

fato. Ela era bonita, mas não me agradou em nada o fato dela estar

querendo mostrar a sua imagem assim. As roupas só encobrem o corpo,

não dizem nada sobre a pessoa. A beleza das roupas para mim não

existe. É por dentro que sabemos enxergar a beleza de alguém. Roupa é

só uma conveniência criada pelos antigos para aquecer nossos corpos,

pela carência de pêlos. Ou então foi tudo culpa da Eva que deu a maçã

pro Adão comer e depois ficaram com vergonha de ficar pelados nos

jardins do Éden.

Todo mundo nasceu nu, e se aquela garota em vez de ficar

trocando de roupa igual uma apresentadora do Oscar, tivesse se sentado

conosco, ficado junto, até poderíamos ser amigos, ficantes, um amor de

carnaval talvez, ou simplesmente conhecidos da ocasião.

Foi bom tocar cavaquinho para aquelas pessoas na Vila

Esperança. Quebrou o clima de fim de festa e as pessoas que estavam

em casa sem fazer nada foram pra rua pra conversar um pouco e

participar da roda de samba.

Notas e acordes, dedilhados na noite e deixando a brisa carregada,

e esta levou pelos ares o som que pairou nas casas. Havia silêncio e

depois houve o samba.

Foi assim até mais tarde, e quando beirava a meia-noite, eu acabei

guardando o cavaquinho e fiquei ainda um tempo conversando com o

pessoal lá na calçada.

O Ivan falou das expectativas de se mudar, que em Raul Soares é

um local difícil para se conseguir emprego e que já estava se mudando

com o emprego arrumado em Belo Horizonte, que seria mais fácil pra se

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adaptar à cidade. Iria ficar na casa de uns parentes e depois alugaria uma

casa. Passei o telefone pra ele para o caso de precisar de alguma coisa.

Eu sei bem o que é se mudar para um lugar onde não se conhece

ninguém. Foi assim quando fui pra Lavras em 2006 e pra Santa Rita de

Caldas em 2007. eu também não conhecia ninguém e foi difícil a

adaptação nessas cidades do sul de Minas.

A Miríam foi guardando as cadeiras que tiraram lá da casa do tio

Mário e aos poucos as pessoas foram indo para suas casas. Ela foi uma

das últimas a ir embora e ainda ficamos conversando na varanda. O tio

Mário estava lá na sala fazendo um cigarro com fumo de rolo. A tia

estava na cozinha e a Jordânia estava com a mãe da Jéssica na esquina

conversando.

Depois fui embora pra dentro. Até a chamei pra ficar mais um

pouco e ela disse que não daria senão o pessoal na casa dela não iria

gostar. Após me despedir da Miríam. Ela perguntou se eu já estava indo

embora igual a todos os outros foliões e eu respondi que não, ficaria

mais alguns dias porque estava de férias, e pretendia viajar quando a

estrada estivesse mais vazia. Queria aproveitar o descanso da cidade

após o término das festas de carnaval.

O tio contou tudo sobre as garotas da vila, afinal sempre morou

aqui e viu todas crescerem. Ele tem um violão e antes de dormir ainda

tocou um pouco. O tio toca bem, afinal já sabe tocar a muitos anos.

Eles são um casal bem idoso, o tio Mário é irmão da tia Maria da

Vila Barbosa e irmão da minha avó que mora em Belo Horizonte.

Depois de fechar as portas, todos nós fomos dormir. A Vila

Esperança inteira foi dormir, exceto um cara que o tio falou que bebe

todos os dias e tem problemas mentais. No outro dia eu o vi passar pela

rua. É um homem de cerca de cinqüenta anos, magro, com alguns dentes

faltando, aparenta nem ter família. Toda hora que é visto tem uma

bebida e um cigarro nas mãos.

Ele passou umas três vezes na rua gritando alto, conversando

sozinho como se alguém respondesse. Segurava um cigarro em uma das

mãos e uma latinha de cerveja na outra.

Depois que ele sumiu na esquina houve silêncio o resto da noite.

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As cinzas que sepultam o carnaval

É manhã! Fui à praça comprar algumas coisas.

A rua está suja, com latas de cerveja jogadas por todos os cantos,

algumas pessoas catam para vender para a reciclagem, um cheiro de

churrasco velho impregnando os muros, copos descartáveis com restos

de cerveja deixados à beira da calçada, barraquinhas sendo

desmontadas, o palco onde as bandas tocaram, desta vez vazio e sem as

luzes coloridas nem efeitos de fumaça...

Um carro com alto falante passando lentamente pela rua,

convidando para a missa da quarta-feira, dizendo o horário e o local, na

igreja do centro.

Um grande movimento na rodoviária com pessoas querendo

embarcar logo e irem para as suas cidades! Voltar à rotina, aos afazeres

cotidianos em várias cidades do estado e algumas pessoas de outro

estado, do Rio de Janeiro, São Paulo e Espírito Santo.

As pessoas que trabalham nas lojas varrendo as calçadas, jogando

baldes de água, sabão... limpando a sujeira deixada pela festa.

Aos poucos a cidade vai se esvaziando de gente e do clima de

festa, pessoas estão saindo das pousadas carregando malas enormes nas

costas, entrando nos ônibus, carros... alguns vão de moto, e as caravanas

seguem viagem.

Carros enfileirados deixando a cidade enquanto algumas pessoas

acenam para quem observa ao longo das calçadas.

A cidade pouco a pouco vai sepultando o carnaval e a folia que

até poucas horas atrás ecoava no ar agora já não existe. Somente o

silêncio da quarta-feira de cinzas.

Na calçada de algumas casas os amigos comentam como foi o

carnaval enquanto tomam uma xícara de café e acendem um cigarro.

Observando as pessoas até posso imaginar o modo de viver, em

cada cidade para onde elas estão indo. As maneiras de falar e agir

desenham suposições sobre a viagem, sobre a vida...

As pessoas se reuniram aqui nesse pedaço do mundo para se

divertir e festejar o carnaval, e agora seguem para suas casas para voltar

a viver como no resto do ano.

Sabe, é poético e romântico ficar aqui, observando o ato do adeus,

a despedida em ações de quem está partindo, voltando para casa.

A cidade ficando deserta acena ao passar da brisa sobre as folhas

das árvores o adeus aos viajantes. Cheiro de rosas, pássaros voando

pelos galhos, o sol se abre no céu como não se viu no carnaval, pois o

tempo ficou nublado.

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Novamente o carro passa pela praça anunciando a missa. Ele vai

seguindo por algumas ruas. Parece lembrar a todos que o carnaval

acabou, que as cinzas da quarta-feira o sepultam.

O carnaval passou, mas a felicidade não se perdeu. As pessoas

viveram sonhos e brincadeiras. Voltaram no tempo e foram felizes, num

momento de puro êxtase e realização, falho em sofrer e embebido em

magia e igualdade!

Lembranças são os troféus que levamos na vida, elas são as

páginas escritas do livro de cada indivíduo, o seu diário pessoal que não

se perde na eternidade.

Depois de sair do supermercado onde o Deivid trabalha, voltei pra

casa do tio Mário na Vila Esperança. O almoço já estava pronto, pois os

tios sempre gostam de almoçar cedo.

Toda vez depois que o tio Mário almoça vai dormir um pouco no

seu quarto. Hoje eu acabei fazendo a mesma coisa, mas foi na varanda,

no chão mesmo, após pegar um almofada que estava num banquinho.

Estava um calor muito forte! O sol que não se viu no carnaval inteiro

agora mostrou sua força.

Parecia secar a bebida derramada à beira das calçadas, queimar o

resto das fantasias que se desprenderam dos corpos, a palha usada nas

barracas. O sol queimava e transformava em cinzas o colorido das

bandeirinhas do carnaval.

Acordei com a Miríam abrindo o portão. Ela veio visitar a tia, na

verdade ela vem aqui todos os dias. Ela é uma jovem de quinze anos e

tem um sorriso muito bonito! Na verdade ela é toda muito bonita! Gosta

de conversar comigo e é muito educada. Dessa vez mais descontraída,

mais comunicativa!

As pessoas daqui parecem gostar de conversar comigo, na

verdade o meu modo de viver é diferente e as experiências

compartilhadas são uma constante dessas pessoas.

A Miríam estava contando sobre o seu carnaval, sobre as amigas,

sobre tudo. Desconversou quando falei sobre os rapazes, sobre os

amores de carnaval. Eu também contava sobre as minhas andanças e

achávamos graça das coisas.

Logo o tio Mário acordou e foi para um bar que fica aqui perto.

Todos os dias o pessoal mais velho fica lá jogando baralho, muitas

bicicletas ficam paradas na porta do bar e lá fica animado! Eles fazem

isso todos os dias.

Quando era tarde fui passear um pouco na praça e praticamente

não havia indícios do carnaval. Somente a armação de metal do palco

estava por lá, pois só será desmontado amanhã.

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Eu vi duas cidades diferentes, e numa delas havia muito som,

muitas pessoas e festa! A cidade agora é calma, vazia e sem barulho!

Um lugar de descanso e quietude, com cheiro de café exalando das casas

ao fim de tarde e de descanso cedo, onde as pessoas logo se recolhem

em suas casas e poucas pessoas ficam nas ruas.

Eu vi o comércio se fechando e as pessoas indo pra casa. Eu vi o

sol se pondo e até os pássaros indo para os seus ninhos. Eu vi a noite

caindo e a brisa passando com suavidade pelas ruas. A luz dos postes

avermelhada colore os muros e dá um sentimento de quietude e tristeza!

Mas não há tristeza, é só o cenário da cidade do interior de Minas

Gerais, diferente dos holofotes e colorido da cidade grande.

Aqui há o modo de ser dessas pessoas, há a sua história. Um

contexto perfeito da característica dos habitantes que cresceram com a

cidade.

Quando voltei o tio estava na varanda fazendo um cigarro de

palha. Ficamos um tempo conversando e logo as garotas da Vila

Esperança chegaram, então ficamos por lá um bom tempo conversando.

Elas perguntavam sobre a minha viagem, falaram que teria festa na

Semana Santa e disseram para eu voltar. Falaram de uma festa que teria

mês que vem, mas não posso vir, não haverá mais as férias e conciliar o

trabalho, as folgas aos desejos de festejar é improvável! Falavam sobre a

escola, sobre as suas vidas, sobre planos. Uma hora ou outra passava

algum conhecido do tio e se juntava à conversa.

Depois de um tempo todos foram embora e eu fui dormir cedo

finalmente depois de todos os dias do carnaval, em que eu não dormi à

noite porque estava na festa. Aliás, para muitas pessoas que moram aqui

hoje é um dia para dormir cedo, descansar e recuperar as energias

perdidas na folia, única herança que restou da festa. Sonhar com os

momentos que quebraram a rotina, com as pessoas, lembrar das

músicas, de tudo!

A noite passa e quando a manhã ensolarada entra pelas janelas, a

vida finalmente volta ao seu normal! Ao despertar a cidade está como

sempre foi. O carnaval acabou.

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As curvas da estrada são perigosas

É manhã e existe sol!

Pouco a pouco coloquei as roupas na mochila e amarrei as minhas

coisas na garupa da motocicleta.

Coloquei a jaqueta, as luvas, a bota...

Despedida dos parentes. Uma brisa fria e seca levemente percorre

as ruas da cidade.

Passei na casa da tia Maria para me despedir e pegar umas coisas

que deixei lá, nos dias em que fiquei hospedado. Conversei um pouco

com ela, com o Deivid e com uma vizinha do lado.

Não pude ver nem a Daiana nem a Eliane pois já estavam no

serviço.

Silêncio. A vida retorna à sua normalidade.

Ao deixar a vila o asfalto era claro e deserto! Já não havia barro

de chuva, pois o sol havia secado.

Eu passei pelas pessoas e olhava para os lados observando tudo o

que havia.

Parecia que somente eu deixava a cidade e tudo era tão deserto!

Era verdade. Era o último folião, a última pessoa a deixar a cidade de

Raul Soares após o carnaval. Eu voltava para Belo Horizonte e deixava

para trás as energias gastas na festa, os amigos construídos. Momentos

singelos de magia e sutileza. Tantas coisas que passei nesse carnaval,

que certamente foram boas, a ponto de se tornarem inesquecíveis!

Quando cheguei a São Pedro dos Ferros a cidade se postava como

a típica cidade do interior! Havia uma carroça na rua, estacionada, e

algumas pessoas conversavam na praça. Uma senhora aguardava um

ônibus na rodoviária, o comércio do município estava aberto e da rua

principal dava para ver as casas de um bairro lá na serra, todas muito

parecidas, lugares que embora eu tenha passado perto, não conheci.

Passei.

Com tranqüilidade acelerava cada vez mais, deitava nas curvas e

logo em seguida endireitava a motocicleta nas retas.

A volta pra casa tem um clima mais frio e seco! O mato ao redor

da estrada tem um cheiro mais forte e há sempre a sensação de algo não

realizado, misturado às ações, enfim a tudo que se realizou. Um sorriso

discreto me revela que estou indo embora para a minha cidade.

Logo cheguei à BR, parei no trevo de Rio Casca, esperando a

possibilidade de seguir e tomei à direita, caminho de Belo Horizonte.

Lembrei das festas, da alegria, dos dias e das noites passadas, das

pessoas que estiveram por lá. Foi bom, foi muito gratificante! Meu

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corpo dizia que tudo valeu a pena e que nesses dias eu vivi intensamente

cada momento!

Logo uma grande estrada reta se descortinou em minha frente e eu

acelerava cada vez mais, minimizando efeitos de saudade e prazer,

devotando meus pensamentos ao retorno à minha vida normal, ao meu

serviço e às minhas obrigações todas. E num instante, de repente uma

curva bem fechada apareceu, eu nem me lembrava dela no caminho da

vinda, sendo necessário que reduzisse a velocidade.

Uma carreta vagarosa seguia e eu tinha pressa em passá-la, mas

nessa estrada tão curta, onde não há acostamentos nem canteiro para

dividir o fluxo, é arriscado entrar na contramão para ultrapassar alguém.

Impaciente eu esperei, e na primeira oportunidade antes de mais

uma curva acelerei bastante. Lá na frente havia outra carreta vindo no

nosso sentido, mas houve tempo suficiente para voltar para a minha

pista e seguir. O motorista mesmo vendo que eu ultrapassava não

reduziu a velocidade, continuando seguindo indiferente a tudo como se

fosse um mero robô programado para realizar uma ação.

Novas curvas surgiram, e numa delas havia muito estilhaço de

vidro, evidenciando que ali ocorreu um acidente. Fiquei pensando em

como teria sido, se alguém havia se machucado, se houve dor, perdas.

Talvez mais uma alma com uma história inacabada agora mendigasse

felicidade às margens dessas curvas, aguardando que sua tristeza

acabasse.

Mal terminei de passar a curva e havia uma fila de uns nove

carros. Seguiam devagar e eu tinha pressa. Não dava pra saber o motivo

de irem tão devagar. Não me arriscaria também em ultrapassar, afinal

corria o risco de não conseguir me encaixar na frente de algum dos

carros se deparasse com outro veículo vindo em nossa direção. Eu havia

acabado de passar por um local de acidente também, o fato ainda estava

pairando meus pensamentos.

Por alguns quilômetros a fila prosseguiu e então foram acelerando

lentamente. Alguns paravam em um posto de combustível ou restaurante

à beira da rodovia.

Nesse trecho havia muitos buracos e remendos na pista, alguns

restos de pneus jogados à beira no mato, marcas de frenagem, muitas

marcas. Algumas delas começavam na contra-mão de direção, outras

atravessara a pista inteira.

É uma estrada perigosa e de muitas curvas! O perigo dessas

curvas é impressionante! Parecem ter sido criadas pela própria morte,

arquitetadas, encravadas milimetricamente nas rochas para servirem de

armadilha aos viajantes.

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Os gaviões já não se preocupam em caçar, ficam na beira da

estrada em galhos de árvores, e quando avistam um cervo ou um cão à

beira da rodovia, simplesmente se ajuntam e apreciam a sorte. Eles

aguardam que o animal tente atravessar a rodovia para apreciarem o

evento da vida. Suas vidas se limitam a ficar em grupos, apreciando o

movimento dos carros indo e vindo pela rodovia, se alimentando da

morte que esse lugar proporciona de maneira tão farta e inesgotável a

cada dia que se passa.

Quando passei no trevo de João Monlevade havia muito

movimento de carros. Caminhões entrando e saindo da cidade, pessoas

vendendo coisas, óleo na pista já ressecado, muitos quebra-molas.

A brisa que corria já não era tão fria e seca. Deu lugar ao calor do

meio-dia, afinal a saudade e a proximidade da cidade de Raul Soares já

estavam longe, e quanto mais se distancia do que ficou pra trás, mais

próximo se aproxima da volta às nossas vidas normais, de trânsito de

cidade grande, do trabalho e dos afazeres normais, da nossa rotina

inabalável de metrópole.

Em alguns pontos do caminho, pessoas arriscavam a vida

atravessando a rodovia. Pessoas comuns, que pela pressa tentavam a

sorte nesse lugar tão perigoso e onde tantas pessoas já perderam a vida,

em acidentes violentos que deixaram lares vazios, mesas vazias num

escritório, livros sem leitor, cadernos sem dedos que pudessem escrever.

Sonhos desfeitos, planos interrompidos, vidas que se foram.

Perto de Caeté novamente uma fila de carros e caminhões, dessa

vez por causa de um acidente envolvendo dois carros. Quando passei

pelo acidente vi que havia uma ambulância. A ausência da perícia era

pelo menos um indício que ninguém havia morrido. Percebi que havia

muito vidro estilhaçado à beira da rodovia, a parte da frente de um dos

carros estava muito amassada e o outro carro derramava muito óleo na

terra. A marca no asfalto revelava o tanto que os carros arrastaram pela

pista.

Curvas, projeções tão perigosas que excitam a descoberta e

revelam danos irreparáveis à vida! É o destino onde se procura chegar,

tendo como armadilhas o que o olho não pode ver. Elas desafiam a sorte

do viajante e embora sejam inertes, assassinam muitas pessoas.

Curvas, desafios à sorte e perícia que muitas vezes ganham por

nocaute e não dão o direito à revanche. É a sorte lançada em frações de

segundos onde somente um perde e só quem ganha é a foice. O selo

ceifeiro fecha os caminhos e a mão do destino decide quem vai passar

ou quem vai permanecer nesse pedaço do mundo tão carente de

felicidade.

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Logo passei pela ponte do Rio das Velhas em Sabará e segui pelo

Anel Rodoviário. Lá na frente já avistava os primeiros prédios de Belo

Horizonte. Algumas vezes eu olhava pelo retrovisor pra ver se não havia

nenhum carro perto demais, e quando a estrada estava vazia parecia que

eu avistava a entrada de Raul Soares, do mesmo jeito que estava quando

eu olhei horas atrás, no começo dessa viagem de volta, tão perigosa,

hoje pela manhã.

Cheguei a minha casa! Estava cansado e feliz! Liguei para os

parentes para avisar que tudo correu bem! Deitei na cama e despejei

todo o cansaço que sentia, num fôlego fraco soltei o ar dos pulmões.

Agora que o carnaval passou o ano de 2011 começa de verdade! É

cultural que após a virada de ano, todas as pessoas exerçam a vida num

clima de ressaca até o carnaval, e a produção da vida só engrena após o

carnaval.

E tudo que passei por lá, pelos amigos que conheci, pela alegria

de rever pessoas, pelas festas e pela extravagância, sou grato à vida!

Devemos sempre dar valor a tudo, até mesmo ao ar que respiramos ou à

chuva que nos molha. Nosso egoísmo muitas vezes não nos permite

lembrar que respiramos, que temos sede de afeto, não somente de água,

e não só o dinheiro agrada e satisfaz. A magia de uma brisa calma num

fim de tarde, tendo aos ouvidos as canções mais doces da mata é bem

inigualável da natureza, mas talvez por sermos insensíveis à

simplicidade da vida não prestamos atenção ou devotamos o apreço

necessário e justo.

Canções ecoarão na lembrança, e quando ouvir aquelas que

cantei, dancei e gostei, tocando no rádio, sei que vou lembrar de tudo,

dessas páginas vividas, de momentos tão sublimes, que hoje se encerram

nesta última frase mas que de maneira alguma se aproximam do adeus.

Fim

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