O Lavrador das Lavras Vazias

VitorCorleoneBH

Livro de poesias escrito em 2006 na cidade mineira de Lavras, retratando as dificuldades intrínsecas a uma nova realidade do serviço público na polícia. A solidão espiritual e a certeza de que muitas vezes na vida o ouro que se procura vem manchado de sangue e sofrimento. Às vezes uma oportunidade não é mais que uma desilusão.

A extração do ouro

Vivemos todos da extração do ouro

E o nosso desejo é o brilho dourado que possibilita tudo

Nessas Lavras ensolaradas de chão rachado e seco

Só o ouro importa e a fome existe

Se nos matamos é pelo ouro

O ouro guia os passos na terra e cospe no barro do chão

O ouro nos chama de idiotas

Mas nós damos a vida para encontrá-lo

Somos o dedo recortando o barro seco

Somos a pá devorando a terra rachada de sol

Vivemos de lavrar minas cheias de ossos

Queremos o ouro para comprar comida

Queremos o ouro para comprar panelas

Para devorar o mundo e estamos dispostos a morrer na busca

Sem acordarmos desse pesadelo escaldante

Passamos o dia sob o sol ardente

Vivemos todos da extração do ouro

A água é pouca pra que todos saciem a sede mas a carne quer riqueza

Um terço do ouro para os impostos

Muitos engolem o ouro que encontram e não pagam

Muitas desavenças na Lavra – o sangue é constante

Nós somos homens de roupas rasgadas

Somos movidos a esperança e ambição

De encontrar essas pedras nas Lavras cheias de ossos

De pessoas que procuraram o ouro

Nós somos enxadas consumindo a terra

Nós somos ossos cobertos de pele sufocando o barro

Para que ele cuspa o tão sonhado laurel dourado

Vivemos a buscar essa riqueza

Sem receio aos cânceres que o sol nos presenteia a cada instante

Não tememos o sol do meio-dia

Vivemos todos da extração do ouro

30/06/2001

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