quarenta+passos

VitorCorleoneBH

1


2


“É muito gratificante o reino das palavras!

Aqui é possível criar e modificar

A todo instante o meu mundo artístico.

Há voz nos objetos inanimados

E inércia aos meus pesadelos

Aqui nada é tão distante

E há um poderio nas ações tão significante

Bastando apenas criar os próprios donos das ações.”

Vitor Corleone Moreira da Silva

Essa é a primeira vez que eu escrevo algo!

Sinto a magia das palavras contagiar todo o meu ser!

É diferente das poesias que eu leio, dos vários autores,

Dessa vez eu que escrevi e criei cada verso.

A arte nos dá infinitas possibilidades

E moldar as coisas é muito especial,

Tanto quanto visualizar algo que já está moldado!

Nesses últimos dias estou me sentindo realizado!

Escrevi a maioria dessas poesias depois de ter viajado para o interior.

Era bom quando eu caminhava no mato!

Era bom e havia realização quando eu parava para escrever

E ficava observando as paisagens maravilhosas do campo!

3


Comentários

Então por um breve momento eu

interrompo minha caminhada e fico

pensando seriamente sobre mim: será que eu

estou fazendo a coisa certa? Será que estou

no rumo certo da minha vida? Não sei a

resposta, e justamente por não saber é que

guardo esse punhadinho de receio em

minhas mãos, e levo comigo.

Retornando a caminhar, vou pra longe

deixando o rastro da minha presença em cada metro quadrado de areia que

amortece o peso do meu corpo.

Ontem me senti tão triste ao relembrar os fatos que ocorreram

comigo nos últimos dias da minha existência! Todo mundo se sente assim

quando uma coisa dá errado. São tantas coisas que desejamos e muitas

delas se perdem pelos caminhos da história. São muitas as marcas que a

vida deixa em nós! O céu está claro e repleto de estrelas! Isso me faz

recordar o charme daquela estrela que por um tempo me fez feliz com seu

brilho, e num instante de repente se apagou. Sim, ela mesma, anos atrás.

Às vezes imagino como as coisas mais simples se tornam tão

importantes com o passar dos meses. Essa vida é complicada demais! Por

que será que a saudade magoa tanto assim?

Minhas mais doces lembranças estão escritas de forma oculta ou

abertamente em alguns poemas que ando escrevendo nesses dias, e como se

eu fosse um pedaço de cada habitante da terra, transcrevo não por sorte mas

por experiência de vida, o mesmo sentimento que sentem sobre os dias do

passado.

E nesses dias ando meio doente de amor pelos fatos dos últimos

acontecimentos. Às vezes fico recordando com tristeza meus antigos

amores, quando eu era mais jovem ainda do que sou hoje, e apenas olhar

era possível, e eu jamais havia dito nada... é a vida!

Ensina muito, é bom o ensinamento. Quando algum colega de classe

lê alguma de minhas poesias fico perguntando sobre o que achou, e quando

alguém diz algo que eu mesmo pensava sobre a poesia me sinto feliz!

Flores rubras que perfumam nossos jardins a cada primavera

que se passa, colorindo a vista de nossos olhos incertos que promovem

receio aos dias que virão. Cada perfume tão diferente é como o que

sentimos a cada momento. Tamanha é a expectativa! Bem, talvez ansiedade

que banha a alma como óleo de amêndoas ao corpo que termina de se

bronzear no verão ensolarado das praias nativas do Brasil.

4


A vida deve ser vivida com alegria pelos bons acontecimentos e não

com receio pelo que ainda não deu certo, nem pelas lembranças dos

momentos ruins. Eu sei, e deveria agir assim, essa viagem vai ajudar.

Não devemos ficar de cabeça baixa. Um coração alegre favorece

muito à realização dos sonhos! Viver com alegria é viver bem! Nossa vida

não é perfeita e errar é humano!

Onde eu deixar cravado um passo, podem ter certeza que estará ali a

minha história!

O que nos custa sonhar um pouco mais do que de costume? Tem

sempre alguém que quer nos ver sérios e compenetrados nos assuntos mais

estressantes da vida. É bom dar um basta nisso tudo, tirar uma folga dessa

chatice toda!

Se queremos ser felizes, temos que olhar o mundo lá fora... temos

que ganhá-lo! Sorrir de felicidade com os obstáculos superados. A vida é

bela! Devemos viver!

E olhando para o céu vejo como são maravilhosas as estrelas que

estão brilhando! A lua hoje está convidando para um bom namoro em um

banco de praça! Se bem que praças não me trazem lembranças muito boas

afinal recentemente terminei meu namoro com uma garota, e nós ficávamos

namorando num banquinho de praça lá no bairro, quase todos os dias.

Os jardins floridos têm o encanto da flor do jasmim, maravilhas,

comuns nessa época do ano.

Se algum dia uma pessoa ler essas palavras, talvez nelas sinta a

magia que estou sentindo. Uma sensação que faz o coração bater forte,

claro que estou cansado de caminhar, mas as batidas são por outros motivos

também.

Uma porta dourada à minha frente, logo após um corredor cheio de

balões coloridos e ao fim uma bambinela vermelha – pra ser feliz basta

sonhar – que guarda para mim uma coisa muito importante: meu destino!

E então – nascemos para amar – por um breve momento eu paro de

andar novamente e volto a pensar enquanto observo da serra o horizonte

cheio de luzes da cidade, longe, cada vez mais longe, eu vim de lá!

Às vezes tudo o que queremos é uma coisa tão simples, isso mostra

como é fácil sorrir e ser feliz. Temos que aprender a olhar pra frente e

esquecer as mágoas do passado.

Todo mundo nasceu pra ser feliz. De hoje em diante, estou fazendo

isso. Por isso resolvi fazer essa viagem, não é justo ficar preso a uma coisa

que jamais será verdade, algo que já se perdeu no tempo.

Belo Horizonte, 27 de Dezembro de 2001

Vitor Corleone Moreira da Silva

5


QUARENTA PASSOS ATÉ O CAMPO

Os que eu contei foram quarenta

Em cada um, um novo cismar

Quarenta foram os novos olhares

E cada um me fez sonhar

Foram quarenta os que eu contei

Na estrada seguida repleta de arvoredo

Em cada passo uma dor deixei

E em cada suspiro um segredo

Contei quarenta piscar de olhos

E as quarenta despedidas

Dez beijos, trinta apertos de mãos

Em ambos olhos vinte vidas

Quarenta vezes nasceu o sol

Quarenta vezes vi estrelas

E foram tantos pensamentos

Como os montes e os riachos

E nos vales por onde passei

Em cada um plantei um encanto

E foram quarenta os que eu contei

Quarenta passos até o campo

23/06/2001

Quando falo em quarenta passos, não me refiro a uma trajetória ou

uma caminhada, e sim obstáculos passados na vida. Eu desvendo a saudade

como despedida e alegria como novidade. Novidade talvez nem mesmo

esperada pelo personagem poético.

Minha linguagem poética está em desenvolvimento ainda. Eu

comecei a escrever a poucos meses e tenho mais facilidade para escrever

músicas porque nas músicas existe mais sentimentalidade do que na poesia

moderna. Em música nós podemos chorar mais e sermos mais

sentimentais!

Esse é um poema que eu acho muito bonito, mas tudo que é bonito

fica feio um dia. Sei que daqui a alguns anos quando eu estiver mais

adaptado a escrever não deva gostar tanto dessa poesia, mas não me

importo muito com isso. Sei que irá demorar algum tempo para que alguém

leia essa letra, e até lá, não estarei mais por aqui, eu já terei chegado ao

meu campo.

6


A PRAÇA DA LIBERDADE

Quando estou aqui

Nos jardins do meu devaneio

Liberto minha efusão!

Hodiernos de mais emoção

Me fazem esquecer o passado

- nas asas da liberdade voar -

Do qual ontem fui prisioneiro.

Nas asas abertas da liberdade

Corto asas de saudade brava,

Desmancho o vinco em minha face.

A viveza em mim renasce!

O vento beija meus pensamentos!

Os sonhos abraçam a realidade!

O perdão namora com o ressentimento,

Aqui na Praça da Liberdade!

Hodiernos são mais emocionantes!

Nas asas da liberdade eu vou!

Tórrido o sol lá no azulado

E os grilos festejando no mato

E nas flores que cobrem o jardim.

- me sinto feliz de verdade -

As gotas na fonte saltando!

Distante ficou o passado,

Meu eu aprisionado.

Meninos nos cantos brincando,

Aqui na Praça da Liberdade.

06/07/2001

7


A MULHER DE PANO

Quem não conhece

Aquela mulher de pano

Suspensa por fios de nylon?

Sem forças para ficar de pé

Desengonçada se deita no chão,

Só se levanta de sua posição imóvel

Se alguém puxa a corda de nylon.

É um fantoche! É um fantoche

Aquela mulher de pano

Com corpo feito de algodão!

Trabalha fazendo teatro.

Aparece na televisão.

É notícia sempre no rádio.

Quem é que não conhece

Aquela mulher de pano?

Seu penteado é arrogante

Revela sua vaidade,

O vento ela acha que é seu.

Acha que os homens de pano

São todos iguais,

Mas não conhece nenhum deles

Porque ela é apenas um fantoche.

Não tem liberdade de ações.

Quando acaba o espetáculo,

Ela é guardada em uma caixa sombria

Feita de madeira e purpurina.

06/07/2001

8


REI DO MAR

Abalaram a solidão do rei das águas

E a silente quietude do mar se desfigurou

Mareia

Com seu cedro agitou as ondas

Fez de pérola a sereia

Fez da ostra um general

Fez dos peixes soldados reais

Impôs leis sobre as baleias

Nos cardumes de corais

Decretou as leis do reino

Liberdade abaixo do nível do mar

Cada um tem sua função

Todos por mim e ái de vós

Ficou tão abalado o rei das águas

Das águas do oceano

Que seu reino se rebelou

A sereia foi embora

Foi também o general

Os soldados e as baleias

E o mar ficou deserto

E o rei ficou sozinho

Fez de plebe a quietude

Fez de rainha a solidão

No seu trono se sentou o rei

Do mar

15/07/2001

9


CANARINHO

Meu amor pediu uma prova

Prova do meu grande amor

E disse que vai me deixar

Se dessa vez não gostar

Coração desesperou

Disse: quero algo belo

Que me lembre seu carinho

Se me gosta, dê um esmero

Se me ama, um canarinho

Coração desesperou

Quero o mais belo e fofinho

Pra lembrar do seu amor

Pra lembrar do seu carinho

Quero o mais cantador

Pra todo dia

Com seu canto despertar

Coração desesperou

Eu saí a procurar

Pelo Mercado Central

Um dourado canarinho

Um canário cantador

Presente do meu amor

Pro meu bem que tanto adoro

Não achei o que queria

Os canários são tão tristes

Amontoados em gaiolas sujas

E voltei a lamentar

Pelas ruas, nessas ruas

Sem saber se eu procuro

Ou invento uma desculpa

Outra vez pro meu amor

25/08/2001

10


ALMA

O amor quando acaba

Deixa a alma reclamando os bons momentos

Deixa as vozes lamentando os sentimentos

O corpo dolorido volta e meia chora

As lágrimas que se derramam num crisol

Veste amarrotada, voz descontente

Coração em pedaços, alegria ausente

E a vida lamenta o sorriso de outrora

A vida lamenta o beijo apaixonado

A vida reclama o sonho inacabado

A vida persegue o rastro que ficou

A vida esbraveja os sonhos que sonhou

E como um barco vai

A alma segue errante

Levada por ventos, tanto tempo e só

Um rio de lágrimas seca e vira pó

Então chega ao ouvido o som de um violino

O corpo relembra o abraço gostoso

E o beijo

Só quer um sorriso, esse é seu desejo

Mas cai na angústia às notas de um bocejo

O corpo percebe que estava dormindo

A alma retorna a chorar de dor

Alma quer amor

Alma quer amar

Quê acontece com uma alma que sofre

Alma quis amar, alma quis amor

Quê acontece com uma alma chorosa

Já morreu de amor

A alma

23/03/2002

11


O CHORO DA ESTRELA

O mais brilhante dos astros eu vi

E a coroei rainha do céu

Um dia chorando a estrela surgiu

Pingando até lágrimas em meu papel

Seu brilho piscava e foi se apagando

Não virou supernova e sumiu a estrela

Nos dias seguintes ficava pensando

Por que se apagou a estrela no céu

Minha roupa branca ao fim do dia amassada

Lembrou-me o brilho daquela estrela

Senti seu choro nas gotas de orvalho

E na noite, queria revê-la

Chorando em silêncio apagou-se o astro

E não vi mais no céu a rainha surgir

A coroada hoje só nas lembranças

Do mais lindo astro que eu já vi

01/07/2001

Eu gosto de ficar olhando para o céu de noite e vê-lo coberto de

estrelas, que presenteiam a nossa vida com uma explosão inerte de brilho e

magia! Os segredos do universo são excitantes!

Certa vez, quando eu era bem pequeno, escolhi uma estrela para

mim, sabe, brincadeiras de criança. Era incrível, pois eu imaginava meus

bonecos de plástico voando até ela nas brincadeiras no quintal antes da

janta ficar pronta, ou antes, de alguém mandar tomar banho.

Era uma estrela alva e ligeiramente parecia se tornar azul. Durante

algum tempo tive essa mania de que a estrela era minha e recordava aquele

pedaço do céu. Meu mundo desabou um dia quando descobri que a estrela

bonita, a minha estrela, era na verdade um planeta do sistema solar. Na

época eu tinha medo de extra-terrestre por causa de alguns filmes, então eu

não quis mais o planeta para mim e resolvi brincar de outra coisa.

12


GARRINCHA

Eu sou fã

De alguém que outrora brilhou

Seus dribles na história deixou

Duas vezes herói do Brasil

Garrincha

Pesadelo de qualquer zagueiro

É o nosso Aladim brasileiro

Ele foi jogador nota mil

Quando ele entrava no estádio

O povo todo aplaudia

E jogava com alegria

É assim que se deve jogar

Mané

Ele foi o demônio da copa

O gênio das pernas tortas

A mão que eu não pude apertar

Lá na ponta um menino a brincar

O Garrincha pra mim é o maior

Os seus lances aprendi de cor

Ele foi o maior dos ponteiros

O estádio a se incendiar

O que ele fez não tem outro que faça

O Garrincha é o rei da pirraça

O Garrincha é herói brasileiro

01/07/2001

13


CACHO DE UVAS

Vinte e cinco delírios

Em um só cacho de uvas

Em cada um, um suspiro

Em cada arrogância

Uma nova delícia

O líquido tão doce

Como mel nos lábios

A semente em busca da terra

E a embriaguez provocada pelas uvas

Fizeram sorrir vinte e cinco vezes

O cacho quase desnudo

Colorido de puro rubor

E o sabor daquelas uvas

Fizeram sonhar vinte e cinco vezes

Em cada mordida

Um novo desejo

Em cada semente

Uma nova jornada de existência

E cada uva que se acabava

Em meus lábios

Era como um jato de água fria

Acordando-me do sono gostoso

Do sonho tolo de ventura

Conseqüência dos meus delírios

Os vinte e cinco contidos

Os vinte e cinco embalados

Em um só cacho de uvas

04/07/2001

14


OS CABELUDOS

Nos dias da rebeldia demente

Cada um seguiu o caminho que quis

Cada um mais louco em seu brado feliz

Como a chama sublime de um sol reluzente

Cada um mais liberto em suas ações

E a lei era fraca contra os imponentes

O rap e o mito eram expressões

Como código Morse em quartos silentes

Foi assim que surgiram os cabeludos

Homens e motos, poemas e vestes

Cada normal que passava nos testes

Do grupo rebelde virava soldado

No grupo rebelde não havia mudos

E os carecas eram inimigos mortais

E os cabeludos, tatuagens demais

Mandavam nas ruas, cidades e estados

Aquele que tinha o couro desnudo

Deixava crescer a barba e o bigode

Então se transformava em um cabeludo

Entrar sem ter pêlos pelo corpo pode

Existe até hoje o grupo de black

Em menor número outros cabeludos

São poucos mas grandes os poucos de hoje

E a rebeldia morreu no passado

Aquele passado rebelde e imponente

Era o reinado dos cabeludos

Mas reina hoje a droga no mundo da gente

Mudança e revolta. Os idos são mudos

Quando os novos armaram tocaia

E os cabeludos cortaram os pêlos

E não cresceram outros cabeludos

Nem de peruca. Ficaram mudos

Se um cabeludo era traiçoeiro

Honra e lealdade não se via no espelho

Do resto do grupo era afastado

15


Não fazia mais parte dos cabeludos

Todos tinham tatuagens

Motos cromadas, roupas de ferro

Não suportavam os famintos berros

Havia de ser só os fartos rugidos

Os seus feitos na história – mensagens

De estar onde estiver, ser bom em tudo

Como foram os cabeludos

E ter ideais cheios de coragem

Se o mundo é outro e união é careta

Como isolamento de astros reluzentes

Faça chama de sol não deixe vencer

Aqueles que não tem mais nada com a gente

Nos dias de nova rebeldia

08/07/2001

16


LUANA, APRENDIZ DE RAINHA

Já cresceu Luana

Aprendiz de rainha

Aprendeu a ser sozinha

Menina, aprendiz de mulher

Ordenou-me a rainha

Que eu desviasse o olhar

Que não me pusesse a pensar

Em seu caminhar pelo reino

E como se eu fosse de pedra passou

E a rua ficou cheirosa

Luana, aprendiz de maldosa

Rainha, aprendiz de estrela

Pensamentos de criança

São estrelas no mundo da aprendiz

É o que sua atitude nos diz

Luana, aprendiz de orgulhosa

Quando ela passa a palmeira aplaude

E as casas ficam silentes

Tem olhos tão veementes

Luana, aprendiz de rainha

02/07/2001

A Luana é mimada demais, e tão bonita! Eu até gosto da Viviane

ainda, mas não tenho nada com nenhuma das duas, infelizmente, só olho

mesmo. A Luana é muito esnobe, arrogante, metida, etc. mas me deixa

doido de vontade de dar um beijo. Não consegui, mas claro, sou só um

garoto e nem me arrisquei a tentar, ela nunca falou com ninguém aqui da

rua da avó.

A Luana quis assumir muito cedo responsabilidades de mulher e se

esqueceu de ser criança. Responsabilidades que pertenceriam a uma mulher

adulta. Essa sua vontade desesperada de ser precoce a coroou como a

adolescente mais adulta que eu já vi, tanto aqui, quanto na escola ou até

mesmo no bairro que eu moro. Às vezes nem sei se o que eu sinto é

vontade de beijá-la ou de dividir a pena que eu sinto por ela não saber o

que é brincar e se divertir como nós, como qualquer garoto e garota.

17


CONHAQUE, SABOR DE LEMBRANÇA

Cansado de provar do vinho

O vinho, sabor de esperança

Um dia provei do conhaque

Conhaque, sabor de lembrança

Conhaque, sabor de lembrança

Lembrou-me o que fui no passado

Aquele menino calado

Aquela triste criança

O mundo desvairadamente

Os dias eram um ataque

Saudade, sabor de conhaque

Marcas no passado da gente

Lembrei de alguns doces momentos

E tristes da infante verdade

Maldade, correias, lamentos

Conhaque, sabor de saudade

E quando se passa o efeito

(Me torno de novo sensato)

Revolta, infância perdida

Conhaque, sabor de saudade

A vida hoje não tem coragem

Os dias eram um ataque

(Me torno de novo insensato)

Refúgio, sabor de conhaque

06/07/2001

Houve uma época em minha vida que passei a consumir mais álcool

do que de costume, talvez entregue ao vício. Tentando esquecer certas

repressões e carências familiares a qualquer custo, um custo alto demais.

Parecia que a bebida acompanhava a montanha-russa do Dólar americano!

Preços altos que tornavam amargo qualquer Cortesano.

A primeira vez que bebi conhaque eu fiquei um pouco bêbado, não

me lembro de ter dado nenhum escândalo em público, mas os olhos ficaram

bem avermelhados e o hálito muito ruim.

18


HARÉM DO SULTÃO

Tantas belas

Nenhuma tem na face o ciúme

Todas exalando perfume

No harém do sultão

Sem nome, sem passado e sem vida

Trancadas no harém sem saída

Se dizendo mulheres amadas

Tantas são

Cobertas por jóias de ouro

Por seda, por peles e couro

Prata, rubi e esmeralda

No harém do sultão fechado

Não podem conhecer a rua

Nem sabem o que é a lua

Desconhecem a liberdade

Tentação

É o olhar inocente que têm

E não podem olhar pra ninguém

Por causa do ciúme do sultão

Tanto sim

Para cada noiva um diferente casamento

Em cada uma o mesmo indumento

Em cada beijo uma reza e uma vela

Quanto mais esposas, maior o orgulho

Pensa o sultão

Quanto mais noivas maior a emoção

Mais corpos, mais sensações de prazer

As belas no quarto fechado

Que podem fazer de suas vidas

Em linha as noivas despidas

Para o sultão escolher

Há sempre entre elas a ingrata

Que pretende fugir algum dia

Que não quer ser somente alegria

No harém do sultão

Todas elas sabem quem é

Mas nenhuma ousa contar

19


Esperam pra ver no que dá

Se uma pode, todas poderão

O sultão é um gordo baixinho

Não é bonito nem é elegante

Mas possui os diamantes

Faz de todos, seus servos reais

Suas noivas são sempre compradas

Nenhuma tem amor verdadeiro

Cada rosto é um prisioneiro

No harém do sultão

07/07/2001

20


O MUNDO DOS CANTOS

Bordei uma folha de papel

Escrevi um verso sem rima

Simples, pequeno

Por um simples pincel

O deixei sobre a mesa jogado

Aberto o papel bordado

Deixei o meu mundo calado

E fui para o mundo dos cantos

Deixei a solidão e quietude

Na mala somente o que pude

Nas mãos o meu violão

Parti para o mundo dos cantos

Aquele papel bordado

Resumiu num adeus meu passado

Será algum dia encontrado

Já terei partido

No mundo dos cantos cheguei

Com outras pessoas cantei

A blague foi lá que aprendi

Na história meus versos deixei

Lá não lembrava do silêncio

Nem da vida sem canto

Na mala não trouxe pranto

Na mão nem coube o espanto

Somente um violão

O nascimento do dia é aventura

Até mesmo as rochas cantam

Quando a brisa soa

Nas cachoeiras melodia pura

Quando rolam as águas

No mundo dos cantos

Em cada momento uma nova canção

Até mesmo no vôo de um manto

Das mãos da morena

No amor e nos prazeres santos

A liberdade é acalanto

Tocado rente ao sol poente

21


Tudo que foi o passado

Começou a vir na lembrança

Embora gostoso cantar

Nos ventos, poesias deixei

Ao recitar

Lembrei do meu verso sem rima

Bordado e na mesa aberto

Pelo tempo encoberto

Num momento tão perto

Voejando na recordação

Um dia deu saudade

Dos desenhos e das poesias

Silenciosas no meu quarto

Parti

Nos ventos o eco deixei

Voltei para um mundo calado

Feliz foi o retorno

Ao ver que o papel bordado

Nem lido, nem visto ou rasgado

Por ninguém foi encontrado

Pra ninguém sou importante

Mas sou bom no que eu faço

Nos escritos ou nos traços

No refrão e melodias

Então dei mais valor à vida

E separei os meus mundos

Em um as festas e vinhos

Em outro a arte e a vida

09/07/2001

22


LAVADEIRA

Lavadeira lava roupa

Põe a roupa pra secar

Põe a roupa no varal

Prende com o pregador

Lavadeira tira a roupa

Tira a roupa do varal

Põe a roupa pra passar

Passa passa lavadeira

E a roupa ficou cheirosa

Lavadeira lava roupa

E a roupa ficou bonita

Lavadeira que passou

Lavadeira lava roupa

Do menino e da menina

Do marido e da mulher

Lava lava lavadeira

E a roupa ficou limpa

E a roupa ficou perfumada

A roupa está guardada

Lavadeira que guardou

10/07/2001

23


QUEIJO COM GOIABADA

Eu amo aquela mulher

Eu amo bem mais que tudo

Sem ela eu odeio o mundo

Sem ela não gosto de mim

Com ela por perto sorrio

Sem ela o plástico se quebra

Sem ela o vidro é rasgado

O papel e a madeira derretem

Sem ela perto de mim

Sem ela por perto eu choro

Mas com ela eu sou feliz

O céu é bem mais azul

Até a ferida melhora

Com ela perto de mim

05/07/2001

24


O HOMEM DO LIXO

Minhas vontades,

São como o vazio do inconseqüente

Caminhando ao redor do nada.

Um desvario, flecha tão afiada!

O martelo tocando o prego

Querendo esmagar seu vulto.

Como um cometa voando livre no espaço

Sou livre mortal destemido!

Minhas tristezas

Apagam distantes estrelas.

Sou apenas incompreendido,

Hoje em dia isso é normal.

Os pesadelos que me acordam na madrugada,

Quase sempre são torpedos

De coisas que deixam triste,

Atingindo meu coração.

Como flecha tão afiada as horas passam

E os parafusos são arrancados do esconderijo

Pela ferramenta de metal.

Tudo se modifica ao meu redor.

Somente eu sou o mesmo desavisado.

Meus desvarios

São como carros sobre o asfalto,

Caminhando de súbito ao vazio,

Querendo passar ainda pelo sinal verde.

05/07/2001

25


A BELA DO MANGABEIRAS

A bela do Mangabeiras

Tem olhos azuis penetrantes

Luzes, puro diamante

Que maltratam os castanhos meus

Seu vestido é branco e bordado

Tem o céu aos seus pés e o vento

Tanto pisa nos meus pensamentos

E num suspiro diz adeus

O vento é seu escravo

E de sua beleza

Sou

Seguindo seus passos eu vou

Fugindo da realidade

A bela do Mangabeiras

Tem em cada sorriso um sentimento

Em cada borda do seu indumento

Um doce delírio e uma doce saudade

Tem lábios da cor do morango

E tem medidas perfeitas

Suspiros são como seitas

Reverenciando a lua

Sou dela como o céu e o vento

A bela do Mangabeiras

Com os seus azuis penetrantes

Agora bem mais do que antes

É dona dos meus pensamentos

07/07/2001

26


VIAGEM PELO CALENDÁRIO

Não percebo mas o tempo passa

Morosos dias pelo calendário

Dictério é o conto dentro do diário

Nele se excita mais meu pensamento

O desvario no passar das horas

É um risco torto de caneta no dia

Espelho de dor ou de alegria

Reflete as páginas do sentimento

Não percebo mas os dias morrem

E sempre existe um novo alvor

No passo das horas onde eu for

Nem dou importância para o calendário

Mas na consciência de firme conchavo

Passo a computar o passo do tempo

Nele se excita mais meu pensamento

Como sobre o dia o risco mercenário

E sempre lembrando por onde eu for

Das viagens feitas nos dias

Do contorno das selvas e das serranias

Riscados nas páginas da minha história

E com o passar dos meses vão se apagando

Os primeiros dias que risquei

Não eram fortes os riscos que dei

Naquela folhinha

E hoje só existem na minha memória

27


RIO DE LÁGRIMAS

Chorei na mais alta montanha

Até formar um imenso rio

Para levar embora o vazio

Que enchia minha vida de nada

Chorei na distante montanha

Os pingos formaram um leito

Espelhavam a dor do meu peito

Ferido por flecha afiada

E assim nada mais me falta

Se já derramei o vazio

Naquela montanha alta

As ilusões ficaram distantes

Depois do outono o estio

Em tudo ser melhor que antes

04/07/2001

28


A PLATÉIA DE TRIGO

Olá! Platéia que me aclama

Nessa miscelânea que é meu ato

Sou somente o louco que ao morto chama

Sou somente o grilo sobre o verde mato

Assombroso é o crânio que trago comigo

Ser ou não ser é a régia questão

Sob seus olhares platéia de trigo

Faço o simples ato ganhar emoção

Platéia de trigo que me faz plausível

Em meu plácido ato sempre autorizado

Sob sua crítica do mais alto nível

Fico até sem jeito em ser tão aclamado

Minha fantasia feita de algodão

Encontra o luxo do puro cetim

E no texto o louco vem na contramão

E cantando alegre em meio ao motim

Meu ato teatral é um puro chiste

Uma nova loucura é um novo perigo

Mesmo a cena pobre em que o ato consiste

Sou sempre aplaudido platéia de trigo

Termino meu ato e como de costume

Agradeço a platéia que me aclama

Então vou embora com os vaga-lumes

Pois outra platéia de trigo nos chama

02/07/2001

29


FLERTE

Meu rosto é como

O capim malvado que surgiu no campo

Conheceu a rosa e a cobriu de encanto

Que morreu cortado e a deixou chorando

Nem minhas lembranças apagam o espanto

Sou como andorinha de asa quebrada

O papel rasgado da carta fechada

Como boi errante que vai caminhando

Nem verso ou canto devolve a esperança

Aos olhos tão mortos de uma triste bela

Deixei em pedaços o coração dela

E a luz de seus olhos vi se apagando

Deixei em pedaços o coração dela

Cada ruga é marca de um dia chorado

Nem mesmo assim me sinto culpado

Porque não sabia que estava amando

Como capim que morreu no campo

Só arrependo em ter visto morrer

A rosa das ruas tentando dizer

Que era uma rosa doente e murchando

Faltava amor para sobreviver

A rosa carente que vivia sofrendo

Que pelos caminhos foi se desfazendo

Morreu um dia e me deixou chamando

Meu corpo é como

O capim malvado, filho e irmão do mato

Que morreu no campo quando foi cortado

E deixou nos cantos a rosa chorando

05/07/2001

30


CISCO NOS OLHOS

Esse cisco que fechou meus olhos

Veio guiado pelas mãos do destino

Nos braços do vento sorrindo

E encontrou os olhos meus

Os que antes viam beldades

Os meus dois que viam montes

Poentes e auroras no horizonte

Às belas visões deram adeus

Por tempos olhando uma folha em branco

Aos olhos o cisco fechos

Na face uma lágrima rolou

E cego por tempos vivi

- e quase um riso acordou minha dor -

Não vi o sorriso da morena

Só dois passos, uma cantilena

Não tinha mais motivos para rir

Num assopro de pura esperança

O cisco se foi dos meus olhos

Voltei a enxergar entre os molhos

O brinco que a vida perdeu

Revi os montes tão belos

E a mágica cética do poente

Tanto o lírio como o alvor nascente

São valentes como os olhos meus

Cisco que fechou os olhos

Tinha nome

Desespero

03/07/2001

31


AMOR PLATÔNICO

Muito mais bonita que a lua cheia

A sua boca é como sol do estio

Rubor dos seios, seu olhar é frio

Inspeciona as ondas escondendo a areia

Ái de mim que fui amar

Aquela moça tem tanto charme

Parece uma estrela brilhando no céu

A flor do jasmim que tem perfume e mel

Rubor dos seios, seu sorriso é doce

E quero ela pra mim

Como eu gosto dessa moça

Imaginem como eu gosto

Devem saber do infinito

Aquilo que sinto por ela

Dá vontade de sonhar

Antes mesmo de dormir

Sou um garoto apaixonado

Imaginem como eu quero

Longe dela tanto espero

Vida, que vem do seu riso

Amor, ela é o meu paraíso

Rubor dos seios, o seu beijo é bom

O seu corpo é como o mar, e que mar

Como eu gosto de amar (até nas letras das palavras)

Hei de ser o seu amor pra sempre

Ái de mim, vai ser só de adolescente

23/01/2002

32


O POMBO DA PRAÇA SETE

Uma chuva que levantou poeira dourada

Iluminou o céu de minha cidade

Era tarde, chovia demais

Jogado no canto feito um traste velho

Vi o pobre bicho coberto de receios, arrulhos

O peguei nos braços e levei embora

Era tarde, chovia demais

Com o passar das horas

A caixa onde o coloquei

Foi ficando cada vez menor

Para aquele pombo das ruas

Que por algum motivo ficou fraco

Ou talvez não achou esconderijo

Era dia, não chovia mais

Eu vi o pombo ir embora depois de tomar café

Revoou, voou

Deixando uma pena na caixa

A caixa estava aquecida

E a pena era um bilhete de adeus

Já era dia, não chovia mais

Em arrulho aflito voltou para a praça

A praça onde mora

No meio dos carros e poluição

O pombo voava junto com outros

Anunciou seu retorno à sua casa

Com um som de gratidão pela vida continuada

Talvez por saudade de casa

Ou talvez alívio, ou talvez nada disso

Um simples arrulho ecoou no ar

17/07/2001

33


A RAINHA E O PLEBEU

Doce, doce Viviane doce

Ah! Quem me dera fosse

O sol do triste dia meu

No poente, pai da tardezinha

Lembro minha doce rainha

Lamenta o coração plebeu

É triste o albor da alvorada

Porque trás a lembrança da amada

Do mundo eu tenho ciúme

Bela, bela Viviane bela

Linda flor da primavera

Guardadora do melhor perfume

Meiga, meiga Viviane meiga

Se ela é pão quero ser a manteiga

Se ela é rima quero ser poesia

Ela é rainha e eu sou plebeu

Mas quero ter nos braços meus

E ser feliz ao menos um dia

É triste mantê-la na mente

Num suspiro sentir ausente

Num piscar o adeus do tempo

É uma flecha na lembrança minha

Sou plebeu dessa linda rainha

Que reina nos meus pensamentos

18/06/2001

Viviane foi um pedaço de minha adolescência que marcou muito!

Era uma garota tão especial que lembro do seu rosto até hoje. Era mais

velha que eu, acho que um ano, tinha a pele clara, cabelos lisos, bem

negros, com mechas tingidas de loiro na parte frontal. Era baixinha e tinha

os traços do rosto bem finos, um jeito meigo de menina, tanta beleza!

Eu não tinha experiência com mulheres, na verdade tudo isso

aconteceu anos atrás, entre 1995 e 1997. Depois disso ela foi estudar em

outra escola, lá no Abgar Renault, acho que é assim que se escreve. Então

depois de vê-la algumas vezes saindo daquela escola, nunca mais a vi.

Uma vez fiquei imaginando como seria roubar um beijo dela, que

tanto quis naqueles dias. Na verdade ela foi o grande amor da minha

34


adolescência, mas eu nunca dei sequer um beijo, só olhares tímidos, só. Por

vezes até pensei que ela poderia ter aparecido na minha vida uns dois anos

depois. Quando eu me mudei de escola eu era somente um garoto da quarta

série, não sabia muito dessas coisas de beijo ou namoro, oras, onze anos.

Saudosos dias de adolescência, o início da adolescência! Depois tudo

que eu pude guardar da Viviane foram alguns versinhos e sua fisionomia.

Sei que jamais haverá no mundo uma mecha dourada tão bela quanto a que

ela possuía! Nem a natureza nem a ciência podem moldar uma maravilha

tão perfeita assim!

Ela deixou uma forte cicatriz em meus pensamentos! Grande parte da

minha solidão ao escrever, e que pretendo consumir com o passar do

tempo, vem do vazio que ela deixou em mim, talvez até mais que isso.

Quando eu tinha comprado a minha bicicleta, eu gostava de passear

na orla da Lagoa da Pampulha nos sábados. Eu sempre passava pela rua

onde ela morava, na Palestina, mas só pude vê-la duas vezes. Ela deveria

estar indo trabalhar.

Hoje nem tenho mais notícias dela, já não a vejo há uns cinco anos,

mas desejo que esteja bem e feliz onde quer que esteja, e que sua vida seja

completa com a felicidade que naquele tempo sonhei em oferecer mas...

35


NAVEGANTE DOS MARES

Sou somente um marinheiro tolo

Vagando só neste mar sombrio

Se tivesse asas recortava os ares

Se tivesse escamas recortava o rio

Minha tolice é viver sozinho

Convivendo só nesse mar de sonho

Se tivesse nave recortava o espaço

Se fosse de vento recortava o sonho

Minha vida é viver vagando

Solitário nesse mar silente

Se fosse a lua recortava a noite

Se eu fosse o sonho recortava a mente

O meu barco vaga comigo

Noites e dias por onde eu for

Se eu fosse o brado recortava o medo

Se eu fosse o sol desvendava o alvor

Mas sou somente o marinheiro

O solitário navegante dos mares

(o meu nem águas tem)

Se tivesse asas recortava o vento

E se fosse a brisa recortava os vales

05/07/2001

36


MISTERIOSA

Quem é essa mulher que me olha

E rebola

Com a brisa

Tem no olhar uma luz

Que aos meus dois seduz

Traz ao corpo a vontade

De amor

De amizade

Ái de mim

Quem é essa mulher tão bonita

Diz quem é

Estou querendo saber

Cada dia quero mais o seu beijo

É razão de meu maior desejo

Coração não ignora

Ao contrário se enche

De paixão

Corpo chora

Sem lágrimas, só de saudade

Diz quem é essa senhora

Ái de mim

Coração se agita

Bate forte

Quero amor dessa menina

Que tomou meu coração

Que não se cansa de viver essa ilusão

06/03/2002

37


A PIPA DE GEORGETOWN

Eu fiz uma pipa vermelha

Contornada de azul anil

Empinei a pipa no espaço

E bem alto a pipa subiu

Bem mais alto quis empinar

E para o espaço a pipa rumou

A pipa no alto sumiu

E somente barbante restou

Não pôde agüentar a corda

Então percebi num momento

Dizendo adeus ela foi-se

Rodando nas asas do vento

Como peixe escapou do anzol

Desertora fugiu do Brasil

Caiu em Georgetown

Minha pipa vermelha e anil

Coroada foi por criança

Um presente vindo do céu

Varetas e cola e laços

Em tão colorido papel

Um dia soltaram a pipa

E a vi lá no céu estrangeiro

Soberana luz rubra no espaço

Mas de espírito azul, brasileiro

No espaço reinou até então

Pelo bico da águia foi cortada

Minha pipa queria ser livre

Mas viveu toda a vida amarrada

03/07/2001

38


PLANTADOR

O galo estava cantando

Apressei em levantar do meu leito

Não poderia perder a hora

Vou embora

Outra vez lá pro campo

Semear o arroz na terra

Com as mãos, a esperança e a enxada

Se não chover nasce nada

Morrerá a plantação

Como no mês passado morreu o trigo

Com meu santo sempre brigo

Esbravejo na oração

Mas esperançoso sigo adiante

Sem lembrar do fracasso de antes

E do sono que deixo em meu leito

Ou do galo cantando bem cedo

Abro a porteira, e passo

O vira-lata é meu companheiro

Tristes vemos o cajueiro

Sem um fruto ou folha vivendo

Nós dois atravessamos o pasto

Boiada magra nele pastando

O vira-lata vai na frente saltando

Atrás da borboleta que voa

No fim do dia à luz do poente

Voltamos ao pobre casebre

Eu levando a velha enxada

E o cão, um faminto latido

Há um ano que não chove

10/08/2001

39


OS MARES DE MINHA TERRA

Olhei os mares de minha terra

Dessa muralha distante das praias,

Dessa montanha distante das saias

Que cobrem os biquínis das moças.

Nos mares vi o azul do céu

E meus olhos ficaram azuis.

No sopé dessa montanha a luz

Do corpo bronzeado das morenas.

Olhei as ilhas de minha terra,

Olhei-as, tão distante delas,

Cruzadas pelas altas velas

Dos barcos lá no mar azul.

Dessa muralha distante dos mares

Sentir vir no vento a maresia,

E o perfume bom de fim do dia

Subiu a montanha escalando.

No topo dessa montanha

Vi a noite nos mares de minha terra.

Fiz sombra no dia que se encerra

E nos mares formou minha sombra.

04/07/2001

40


A LUZ DO LAMPIÃO

Já era tarde quando retornei

A casa adormecia em completa escuridão

Fiz menção de acender as luzes

Mas num clima de puro descontentamento

Por causa de emprego de novo

Deixei as luzes apagadas

E acendi somente o lampião

Todas as minhas células deitaram

Sobre a cama que rugiu com o desabamento

Procurei pegar no sono

Mas me pus a pensar

Somente minhas células dormiram

Deixando os pensamentos acesos

A luz despertou fantasia

Libertou fantasmas do lampião

Fiz menção de adormecer, sonhar

Mas a luz me acordava sempre

Somente meu corpo dormia

Minha alma e minha mente não

Até que se apagou repentinamente

E também me deixou adormecer

Esquecimento

O corpo despertou do sono

Forças não

Já havia ausência

Só as células haviam dormido

08/07/2001

41


FORRÓ NA ROÇA

Estou afim de me mudar

Descobrir o mundo afora

Assassinar minhas tristezas

E a solidão que me apavora

Dessas ruas vou embora

Para os campos sertanejos

Lembranças serão lampejos

Da vida que vivo agora

Quero ver forró na roça

E o casamento na quadrilha

Esquecer as faces nos jornais

E a ‘urbanidade’ que humilha

Vou rabiscar o arranha-céu

Com a pena das lembranças

Quero esquecer as águas turvas

E rumar para águas mansas

Quero ver forró na roça

Sem lembranças da cidade

Que a seringueira consuma o rabisco

O qual me faz sentir saudade

No forró alegremente

Vou viver dias contentes

Pensamentos serão verdades

Verdades nos olhos meus

Mas se um dia der vontade

De seguir novos caminhos

- sou errante - vou sozinho

Sigo, e digo adeus

13/07/2001

42


SODOMA

Saudações ao rei de Sodoma

O reino do latrocínio

Cidade que vive no coma

Amaldiçoado domínio

Morada dos larápios

Sodoma, a cidade do caos

Sodoma, a cidade sem leis

Sem adjetivos pátrios

Sodoma, o reino do medo

É quem exporta a cocaína

Sodoma, a cidade do rei

Importadora de maldade

Pelos meninos e meninas

A cidade das tensões

Sodoma, a cidade da maconha

O reino da crueldade

Ao rei de Sodoma

Saudações

Em Sodoma você compra tudo

Vende o seu corpo

E por um preço generoso a sua alma

Em Sodoma o profeta é cego e mudo

Não existe ensinamento

Dentro das muralhas de Sodoma

Sodoma é o reino do prazer

Sodoma, os portais da injustiça

Sodoma, a cidade do esquecimento

Um vazio inconseqüente no mapa

Cidade, a Sodoma que mata

Ao rei de Sodoma, o dia

Se é que sabe o que é clarão

Sodoma, reino da rebeldia

Onde a voz dos homens é ouro

Sodoma, cidade dos ingratos

Cidade, a Sodoma dos larápios

Sodoma, abrigo para os loucos

Eu nunca vi a flor de Sodoma

43


Sodoma, a cidade que vive no coma

Em Sodoma tudo tem seu preço

Se você tem dinheiro tem vidas

Cidade, a Sodoma das perdidas

Sodoma, o reino do horror

Sodoma, a cidade dos injustos

O reino onde os homens são comprados

Sodoma, a pocilga do planeta Terra

O reino onde se compra o amor

Cidade, casa dos infortunados

Amaldiçoado domínio

O reino, a Sodoma do assassínio

Dizem que há obra de arte em Sodoma

Mas não dá para apreciar

A Sodoma, o reino e a cidade do coma

Sodoma, sem sol e sem luar

09/07/2001

44


POEMA DE TODOS OS AMORES

Eu escrevi um dia

Um poema de todos os amores

Nele estavam todos os desejos

Toda a felicidade a dois

E também todas as dores

O poema de todos os amores

Tinha versos rimando com mel

Decassílabos que imitavam beijos

As estrofes pareciam abraços

Recitadas coloriam o céu

Cada verso tão bonito

Era um novo prazer

Cada sílaba provocava o fogo

Cada letra era um beijo molhado

Cada morte um renascer

Eu escrevi um dia

Um poema como outro qualquer

Um poema de todos os amores

Íntimo, lido por muitos

De um homem para uma mulher

Não sei por que era tão doce

O poema de todos os amores

Incitava todo mundo a amar

Privava dos desencontros

Mas fiquei sozinho

Eu escrevi um dia

Um poema mágico

Nem magia soube explicar

Com ele várias guerras acabaram

E os amantes voltaram a amar

Um dia o papel dourado

Onde escrevi o poema sábio

Negado por quem importava

Foi levado pelo vento

Caindo das minhas mãos

45


Tentei escrever novas rimas

Inspirar nas flores

Mudar o modo de amar

Tentei proclamar a saudade

Mas nada inspirava mais

Que esperar a aceitação

Eu escrevi um dia

Belo, tanto quanto um hino

Uma alabarda que furou corações

Flechou amores

Fez reconciliar

Grito de alegria que calou as dores

Dos velhos, dos moços e dos meninos

E levado pelo vento

Não voltará as palavras

Aquele poema bonito

Que fez todos amarem

E eu continuar infeliz

Poema de sonhos somente

Hoje mora no fundo do mar

03/07/2001

46


O FIO DE CABELO LOURO

Um fio de cabelo dourado

Trouxe-me lembrança e saudade

Pois hoje encontrei no bolso

De um casaco que não uso há muito tempo

Tentei não pensar no passado

Tentei desfazer do dourado

Tentei deixar tudo de lado

Infelizmente não consegui

O fio de cabelo era dela

A mesma das mechas douradas

Aquela que é minha inspiração

A curva das minhas estradas

Tentei não lembrar dela

Lancei pela janela

Tentei pensar em outras coisas

Infelizmente não consegui

E o vento, malvado e insolente

Trouxe o dourado de volta

Então não resisti em lembrar

Também, não conseguiria

No dourado o mesmo perfume

Do alegre alecrim do campo

E da brisa nos jardins florido

Da terra recém molhada

Do corpo lavado com sabonete

O mesmo cheiro

De esperança e de passado

O aroma gelado

De saudade e de tristeza

Esse louro brilhava demais

Tornando mais difícil para mim

Distanciar os olhos

O mesmo louro

Lembrou-me dos passos dela

O mesmo louro

Lembrou-me do seu sorriso

47


Se não bastasse tudo isso

Lembrou-me do seu olhar

Por tempos me perseguiu

Essa lembrança

No fio de cabelo daquela garota

Tentei não pensar no passado

Tentei desfazer do dourado

Tentei deixar tudo de lado

Infelizmente não consegui

07/07/2001

48


BOLINHAS DE SABÃO

Nos campos aqui nos vales

Vejo borboletas voando

E o canto da natureza

Trinca-ferro e sabiá cantando

E também me emociona

Brincar com os meus amigos

Lá bem pertinho do rio

As bolinhas de sabão

Risonhas

Auriverde, rubra, anil

São bolinhas que cruzam o campo

Tão brilhantes quanto o beija-flor

São perfumes de sabão cheiroso

Recheadas de amor

Em volta de uma rosa branca

Onde a borboleta azul descansa

Passa colorida bolinha

Criação de uma criança

Vejo o azulão voando

É azul a bolinha que o segue

Para ser livre como esta bolinha

Basta que à brincadeira se entregue

As borboletas voando nos campos

São espelhos das belas bolinhas

Lá na frente uma toda amarela

Envergonhada e voando sozinha

Faço uma bolinha bela e colorida

E o vento leva embora

Atravessa os galhos da árvore

Onde o famoso joão-de-barro mora

Sempre uma bolinha tem mais cor que outra

Nestes campos, perto dos vales

E cada uma é um desejo

Que voa longe e recorta os ares

49


Quando uma bolinha estoura

Tocando o mato ou no ar voando

Nasce uma flor perfumada

E o sabiá fica cantando

E o canto do trinca-ferro

E o canto do sabiá

São privilégios do campo

Dos homens que vivem por lá

É este o bem que emociona

Cura para a depressão

Brincar como as crianças brincam

Fazer bolinhas de sabão

No campo, pertinho dos vales

Com o dia já se acabando

Vejo o que sobrou da festa

Uma solitária bolinha voando

03/07/2001

50


DA PAIXÃO

Por amor a uma mulher

Desisti de muitos sonhos

Por amor a uma mulher

Ciúme forte despertei

Doentio e sem cura

Só por esse amor vivi

Por amor a uma mulher

Me entreguei

E então de amor por ela

Eu morri

13/12/2001

51


PODERES

Eles se apegam aos bens materiais

Beijam objetos de ouro

Tesouros ilusórios nada mais

Esquecem da humildade

E dos verdadeiros tesouros

São comprados por jóias brilhantes

E seguem caminhos errados

Tornam-se amantes da luxúria

Errantes nas veredas da verdade

Aprisionados pelo poderio

Levados pela intenção de ganhar

Pela pretensão de vencer

Sempre em busca de mais poder

Fazem a alma chorar

Com o muito que tendem a perder

Eles se apegam aos bens materiais

Abraçam esmeralda e diamante

Tesouros

Sonham com os tais

Bens irrisórios

Poderes a mais

Que os aprisionam e os fazem de amantes

29/04/2001

52


O BRASILEIRO E OS GRINGOS

Foi em uma roda de cerveja comum,

Sete amigos batendo um papo muito tranqüilo!

Aquele bar estilo “copo sujo” que está sempre vazio...

Um francês, um americano, um japonês,

Um alemão, um inglês e um brasileiro...

Ah, e tinha um escocês de kilt.

Um tirando onda com a cara do outro.

Cada um falando sobre a sua terra.

Cada um contando a sua história.

O dono do bar observava de longe.

O francês pra lá de Bagdá:

- meu país tem melhor perfume!

Meu país matou Mururoa.

Meu país tem mulher elegante!

Meu país tem povo culto!

Meu país tem Torre Eifel,

Alta e grande até o céu

E tem Zinedine Zidane...

O americano rebateu:

- mas meu país tem Hollywood

E meu país tem velho oeste.

Teve a guerra da Secessão,

E hoje tem muita paz!

Meu país tem foguete.

Meu país tem crocodilo.

Meu país tem San Francisco,

Arizona e Nova York.

Meu país tem basquetebol,

Tem monte Rush more

E tem Mike Tyson.

Naquela descontração total

No início de uma nova rodada

O japonês soltou a fala:

- meu país tem caratê.

Meu país tem trem-bala né.

Povo japonês é o mais inteligente!

Meu país tem Tókio.

53


Tem praia com telhado.

Tem robô igual gente né?

O alemão após virar o copo

Replicou com o japonês:

- Alemanha fez Adolf Ritler.

Alemanha é industrial.

Tem florestas de pedra.

Alemanha é tri-campeã.

Alemanha tem muito dinheiro.

- garçom! Mais uma rodada aqui pra gente!

- Inglaterra tem relógio Big Bang.

Titanic é de Liverpool.

Beatles é made in England.

Inglaterra tem praças e parques.

Meu país tem história de guerra.

Meu pais tem a guarda da rainha.

- garçom! Mais uma rodada aqui pra gente!

- mas em compensação...

O Brasil é o país do carnaval!

O Brasil é o país do futebol...

Brasil tetra-campeão.

Se não bastasse tudo isso

É a terra do rei Pelé

E onde nasceu o demônio da copa

Vossa malandragem Mane Garrincha.

Meu país tem praia cheia de mulher.

Meu país é o Brasil da capoeira.

Terra do Caprichoso e do Garantido.

Tem o Pão-de Açúcar e Corcovado.

Tem floresta amazônica.

Tem o chupa cabras.

Tem o ET de Varginha.

Tem o saci-pererê.

Tem parte de Fox do Iguaçu.

Meu país tem São Paulo,

Um país dentro do outro,

Grande centro industrial,

Engarrafamento...

54


Se não bastasse tudo isso

São Paulo é a terra da garoa.

- garçom! Mais uma rodada pra gente!

Essas palavras eram como sinos para o dono do bar.

Todos viram

Que o brasileiro contou mais vantagem

Então foi todo mundo pra cima dele.

Fizeram logo uma aposta

E o brasileiro topou.

Se eles dissessem

Algum coisa que no Brasil não tivesse

O brasileiro pagaria a conta,

E se tudo que eles dissessem

Tivesse no Brasil

Eles pagariam...

- garçom! Mais uma rodada pra gente!

- no meu país tem grande guerra!

- o Brasil tem domingão no estádio.

- meu país tem Mister M.

- meu país tem Nicolau (lalau) dos Santos Neto.

- meu país tem time de futebol milionário.

- o Brasil exporta jogador pra lá e são eles que ganham os milhões.

- garçom! Mais uma rodada pra gente!

O escocês permanecia o tempo todo no seu canto

E só dizia essas palavras...

Os gringos gastando sua munição,

Pediram ajuda para o escocês:

- e você? Não diz nada?

- é, fala alguma coisa.

- não disse nada o tempo todo.

- só quer saber de beber.

- dá uma ajuda.

O escocês com os olhos virados

Levantou-se, pisou forte no chão...

E caiu logo em seguida.

Olhou para o brasileiro e disse:

- no Brasil não tem homem de saia.

55


- ahá! Boa! Obrigado amigo escocês!

Quando o escocês se levantou disse:

- garçom! Traz a saideira que o amigo aqui vai pagar.

Nisso o alemão completou:

- traz rodada dupla que o nosso amigo brasileiro está pagando.

Risos, todos riram...

O brasileiro já se dava por vencido...

Aspirava ao gosto trágico da derrota

Mas de longe o dono do bar

Vendo que estavam gastando barbaridade

Correu até a cozinha e disse para a cozinheira:

- tira a roupa.

Ela era um verdadeiro canhão

E logo fez o que ele pediu

Achando que seria dessa vez.

- obrigado! Passa pra cá.

-garçom! Que houve com essa bebida?

- prontinho rapazes!

O tira-gosto é por conta da casa.

O espanto foi geral na mesa.

O brasileiro já preparado para pagar

Guardou rapidamente a carteira.

O escocês chamou o dono do bar

De gostosas.

O japonês ficou com olho arregalado.

O brasileiro disse:

- tem também.

Terminando aquela rodada

O brasileiro disse:

- garçom! Mais uma rodada pra gente,

Aproveita e traz a conta

Que meus companheiros estão pagando.

Em uma virada de copo o brasileiro

Esvaziou o copo e saiu caminhando sorridente

56


Após se despedir dos amigos.

O dono do bar

Tinha nos olhos uma expressão incontestável de felicidade

Parecia bêbado também

Olhava a grande quantidade de garrafas de cerveja

Ficou imaginando coisas,

Ficou sonhando acordado...

E os gringos conversavam:

- xi rapazes, eu esqueci a carteira.

- calma! Nós te emprestamos,

Depois você nos paga.

- puxa!

- que foi?

- eu também esqueci a minha.

- puxa! Eu também.

- nem olhem para mim,

Como eu ia guardar no kilt?

Aproveitando a distração

Da cozinheira limpando os talheres

E o dono do bar

Olhando com cara de besta

Os primeiros três saíram de fininho...

Os outros três pelo outro lado,

Mesmo cambaleando.

Depois de um tempo veio a cozinheira.

Viu a mesa cheia de garrafas,

Pensou que o dinheiro estava lá.

Mas só estava a conta.

Correu até a esquina

Mas não encontrou ninguém.

Então voltando pensou em contar ao patrão

Que levaram um calote a nível internacional

Quando ele despertasse de seu sono acordado.

06/07/2001

57


CARTOMANTE

Venha aqui garotinha

Deixe-me ler sua mão

Deixe-me ver seu destino

Traçado no seu coração

Por sua menor moeda

Posso ver o seu destino

Qual o nome do menino

Que vai vir te namorar

Venha aqui garotinha

Não tenha medo da verdade

Ela é sua companheira

Não tema a realidade

Por sua mínima atenção

E alguns minutos do seu dia

Posso ver o seu futuro

E ter a sua companhia

Venha aqui garotinha

Deixe-me ler sua mão

Deixe-me ver seu destino

Traçado no seu coração

03/05/2001

58


FLORA

Flora, flora, flora, ora...

Que floresce no meu coração

Flora, flora, flora, flora

É o meu vergel de paixão

Flora, flora, flora, ora...

Rubra flora que belezas revela

Flora verde, branca flora

Que em meu coração martela

Flora, flora, flora, ora...

Rosa flora, pura, libidinosa

Flora, flora, flora, flora

De encantos, maravilhosa

Flora, flora, flora, flor

Flora roxa, flora anil

Flora, flor, florida em cor

Que faz meu coração febril

Flora, flora, flora, amada

Vergel de bom perfume e cor

Flora, das abelhas namorada...

Flora, que me lembra meu amor

30/04/2001

59


TERRA

É onde adormece a flor alva de louros cachos cujo perfume conta a

história das virgens calêndulas. A mata e o trigo como um verde albino,

insultam o orvalho da palmeira silvestre. Quando o joão-de-barro chora,

ignora também o palmeirense roble.

É de onde partiu jangada rumo ao mar de cortesia, jandaia voou

sobre o coqueiro. Na regata sinos doces anunciavam a visita das estrelas do

Cruzeiro-do-sul. Nos galões litros de vinho e nas águas letras de saudade.

Conta história o pescador.

Deita-se sobre a terra o riso como chuva sobre o clamor do povo e

molha a terra semeada de moedas, quais crescerão como árvores de

tesouro. Faz tremerem ventos beijo dos sorrateiros namorados no véu de

ouro, qual molhado e açucarado pelas carícias do plenilúnio. Mexe com as

emoções do povo a arte como póstero grande momento e como turvas

águas passadas.

Meu bebê que nasceu ontem já cultua a cerimônia local, que em

ginga, ritmo e som, faz lembrar a água-viva do mar. Já pensa em servir ao

Exército o rebento, e quer comprar uma motocicleta.

É onde desabrocha a rubra flor de louros olhos cujos lábios são rubor

quando beijados. Mais que história a terra traz o aeronauta orvalho que

escapou de um tombo ao se agarrar em seus braços cor de mata. Até o

sonho e a realidade caminham juntos, por que então seriam separados o

amor e paz?

A palmeira ri ao pueril insulto da mata e do trigo, como um velhote

acha graça de uma criança esbravejando.

Nada se compara à cortesia do mar, que levou para o horizonte os

navegantes. Mesmo a lua e as estrelas não foram o bastante para impedir

que os piratas se matassem de tanto beber do álcool incendiário.

É onde rui aos poucos a milenar construção de pedra.

Nada se compara ao esbravejo do fumacê cortador do campo.

Acho minha rua a melhor do bairro, meu bairro o melhor da cidade,

minha cidade a melhor do estado, meu estado o melhor do país e meu país

o melhor do mundo.

É onde rola a bola e rola um beijo, mesmo fúnebre e sem ter carícia,

mesmo rouco sem ter amor.

Nada se compara ao capitalismo que levou para longe o bem-querer

e trouxe para perto o bem lucrar.

É rico o som da bateria no morro, mesmo tolo em um simples amor

de carnaval, qual desejo carnal é pelo próprio homem e vale a pena. Se o

carnaval tem várias cores, tem o samba o verde e o rosa.

60


É onde vai morrendo aos poucos o vermelho braço atlântico, que

segura o esverdeado buquê que leva o nome nativo de minha terra. As

brasas não ficarão, e o que é brasil será apenas nome.

Mesmo uma briga ou uma festa recolhem observações curiosas.

Observa-se de soslaio para não agravar.

Todo quintal de terra tem sua moitinha de arbusto e seu formigueiro

de cortadeiras. Mesmo que a terra arde, sem água, no campo nordeste, tem

por povo um seresteiro e seu jumento magro que não prova de um mato

verde há vários meses, como conseqüência do estio dourado.

É onde sorri a rosa mulata de alvos brincos, cuja formosura lembra a

carnavalesca festa nativa do povo. Toda a história é contada pelos livros,

mas não narram as páginas o caso, que é vivência de cada homem e se

conta numa prova em qualquer lugar, em qualquer hora, bastando para isso

uma saudação e o encontro com os amigos.

Mesmo o berço de ouro não oferece total segurança para seu pupilo,

o qual necessita crescer como um guerreiro ou comediante, ou para

enfrentar as dificuldades, ou rir delas.

Mesmo a mais comprida das saias não é o bastante para reprimir a

libido, qual me mata quando caminha, moça que é dona do traje.

Não acreditamos na palavra alheia sem provas concretas.

É de onde partiu Dumont rumo aos céus, o navegante. Até o céu é

um rio, pois também excita a cortês liberdade.

Na cultura muitos mitos e muitos gritos pela estrada. Nada se

compara à solidão do caminhoneiro. Muitos bandidos de terra à beira da

estrada. Triste rodovia onde morreu o burrico atropelado!

É onde ama a loura rosa aos loucos lírios que em desejo se

comparam à força das águas silvestres lavando o oceano. Se uma paixão

ardeu, arde ferida ou brilha um forte riso de amor.

Abraça o sonho do homem um choro perdido no meio da madrugada

que o leva a sofrer por algum tempo em sua vida campineira. Carpinteiro

também dorme, mesmo sobre o pobre colchão que o protege.

Meu bebê que nasceu ontem já aprendeu a pilotar avião. Quer

comprar um barraco na favela e sair à procura de liberdade, bem longe das

asas protetoras do pai.

Nada se compara ao gostoso aroma do grão torrado que minha terra

exporta em grande escala. Até um sino de som doce não é mais gostoso que

o mel gelado da cana.

Precede a próxima hora um brinde em taças de apurado cristal ou

humilde caneca de barro, mas precede.

Na cultura muitos mitos e muitos gritos pelas calçadas. Nada se

compara à solidão dos mendigos e excluídos. Muitos bandidos de petróleo

à beira das ruas. Triste alameda onde morreu o vira-lata atropelado.

61


É onde cada um parece tolo, talvez por não serem conhecidos,

chegados. Acho minha família a melhor do mundo, a família dos meus

vizinhos a segunda melhor, a família de meus conterrâneos a terceira

melhor, as famílias da América do sul as melhores do mundo.

É onde rui aos poucos a milenar construção de pedra.

Na cultura muitos mitos e muitos gritos em todas as casas. Nada se

compara à algazarra da festa ou da briga. Eles se dedicam a tudo.

Muitos bandidos de sentimento e muitos fantasmas do cotidiano

fúnebre e cinza que o tempo leva embora enterrado na insatisfeita e

irrealizada lembrança.

Triste berço onde morreu o último gole de veneno que matou a

moça. Era o campo e lá amar não se permitia, só a vontade paterna.

Mesmo os que são tristes dão risada um dia em seu sobrado, casebre

miserável!

Nada se compara ao esbravejo do fumacê cortador da cidade!

Quando ele passa as crianças olham da janela do coletivo. É bonito!

É onde cortam as narinas do pulmão do mundo. Braço forte da

palmeira, que dá nome à livre donzela sobre o puro-sangue, amazona.

É onde não faltam pães – graças a Deus – mas sobram bocas

famintas pelos cantos – graças ao homem – a elite se farta com os melhores

frutos.

É onde os ismos denominam cada mania tola apadrinhada por sua

época.

Nada se compara à cortesia das flores que atraem com delicioso

perfume e beleza. É onde adormece junto à roseira, a flor alva de louros

cachos cujo perfume conta a história das calêndulas nubentes e desposadas.

A mata e o trigo, como um cinza albino choram como o joão-de-barro

chora. Mesmo a pródiga natureza não reitera em mesma hora o bem

perdido nas cinzas da avareza. O palito de fósforo era madeira na árvore

ignorada e foi usado para matar sua genitora real, palmeira.

É cortês o luar da praia e o sol ardente bronzeador de musas

deslumbrantes. Mesmo o rio é frio como a noite e mesmo a noite fria como

o mel da cana-de-acúcar.

Nada se compara à frieza e cafagestagem da corrupção que o rege.

Mesmo um que é bom não é bastante contra uma legião de canalhas.

Lá salta e sorri na mata após o fogo o mico-leão-dourado, que é

somente um cisco na paisagem verde que renasce depois das cinzas. Uma

pena que morreram muitos, nascem poucos e sobrevivem menos.

Flui na terra como doces gotas de petróleo a água azulada que mata a

sede ou deveria, pois se perde nos caminhos das artérias da terra sob o

campo nordeste. Algo que causa pavor no povo: o clarão ensolarado da

aurora, sem um mísero milímetro cúbico de água respingando como choro

de nuvem do céu.

62


Na cidade alta a triste alegria dos drogados quando acaba o dinheiro.

Meu bebê que nasceu ontem já ganhou o prêmio Nobel dos loucos e

já publicou seu primeiro livro de insultos.

Chora o candeeiro ao som da quinta canção da seresta de Pedro

Leopoldo.

Ao sonho do homem um choro perdido que o leva a sofrer por algum

tempo em sua vida campineira. Carpinteiro também dorme, mesmo sobre o

pobre colchão que o protege.

É onde ama a loura rosa aos loucos lírios que em desejo se

equiparam à felicidade assassina da latrodectus, cujo pai destino deu-lhe o

nome de viúva-negra. Se uma paixão roubou as vestes sagradas da

sanidade, faz mal não, isso é normal.

É onde sorri a rosa mulata de alvos brincos, cuja formosura lembra a

carnavalesca viagem à praia carioca e lá se escuta o enredo da Mangueira.

Nada se compara à cortesia dos bosques onde residem o lobo-guará e

o uirapuru!

É onde vai morrendo aos poucos o vermelho braço atlântico, que

segura o esverdeado buquê que leva o nome nativo de minha terra.

Na cultura muitos mitos!

Nas estradas, gritos!

Lá no morro a droga!

Na seresta a prosa!

E o seresteiro sofrendo no campo nordeste.

Cai com certo receio, dente-de-leite do menino, o qual é jogado

sobre a laje de sua casa.

Meu bebê que nasceu ontem se casará no mês que vem. É o orgulho

de mim, rebento que nasceu sem ser infante. Puerícia é chorosa demais!

Sou suspeito pra falar sobre tudo que já falei. Acho minha rua a

melhor do bairro, o meu bairro o melhor da cidade, a minha cidade a

melhor do estado, meu estado o melhor do país e meu país o melhor do

mundo.

É onde rui aos poucos a milenar construção de pedra.

Alegria!

Tristeza!

Rebeldia!

Malvadeza!

Na cidade alta a triste alegria dos drogados quando acaba a droga.

Precede a próxima hora um brinde em taças de apurado cristal ou

humilde caneca, mas precede.

É onde o eco das vozes faz a pedra oca da montanha cantar e gritar.

Cai geada na serra do sul onde as pessoas provam chimarrão.

Todas as flores de seu território são felizes, levam as coloridas e

perfumadas o nome de flora.

63


Nada se compara ao excessivo patriotismo de seus escribas, que não

são pelo papiro. Levam ao topo da montanha em grandeza mesmo um grão

de problema, ou festa pródiga, sendo estes nacionais.

É onde adormece a flor alva de louros cachos cujo perfume conta a

história das diversas calêndulas em meu país Brasil.

64


QUARENTA PASSOS ATÉ O CAMPO

2001

Belo Horizonte, Minas Gerais

65

More magazines by this user
Similar magazines