Beijo técnico_ Paulo Vitor Grossi_ (Atos II, 2018)_

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“Beijo técnico”, representação de um colapso... humano!
“Estamos aqui contando sobre nossas culpas, uma a uma exatamente na vez e momento em que aceitamos tais erros, tantos de nós certos de que temos agora o que germinamos; e mesmo que ainda tão longe do Natural a que somos destinados, ou do que seja preciso ao prevalecer da realidade, dessa vez estamos muito mais esperançosos pela cura da Luz. É tempo de agradecer tantas oportunidades, e que assim se torne um hábito. Seguimos nessa espreita da Vida, rogamos ser nossa cerne cada vez mais justa, lutando em prol do Amor e expansão dos desígnios divinos.”
Atos II. 1ª Edição. Ano de 2018

As histórias de Atos juntas formam o aviso, a derrocada e uma restauração para o gênero humano encarnado na Terra. Elas se subdividem em folhas soltas contendo cenas, conceitos, contos, depoimentos, diálogos, excertos, inscrições, letras, pichações, placas, poemas, prosas, reportagens, roteiros, sonhos e muitas frases estampadas em camisas, além de pequenos livros que enfim formam este volume que hoje lhe é presenteado. A primeira tiragem conta com 107 deles, admitidos dentro da cronologia que se inicia em Atos I com “Prelúdio para uma infância”, um compêndio à visualização da paz desde pequenos; depois passamos para “Diálogos, Roteiros e O que acontece”, mostrando os tropeços da vida que poderíamos ter se não nos fecharmos em negativismos; depois em Atos II passamos pelas advertências e a poesia das “Portarias tristes”, que espalham as notícias da crise e do abalo natural que sofre o planeta. Vemos a seguir a grande quebra da unidade e consequente tentativa de sobrevivência dos grupos de pessoas no livro “Beijo técnico”. Logo após com Atos III vislumbramos as mensagens místicas de “Futuro progressivo”, e chegamos a um reordenamento social e espiritual de nossa espécie; como livro adicional deixo o duplo livro “Sim e não”. Que a paz esteja conosco, o amor volta!

Beijo técnico. 1ª Edição. Ano de 2018


“Estamos aqui contando sobre nossas culpas, uma a uma exatamente

na vez e momento em que aceitamos tais erros, tantos de nós certos de

que temos agora o que germinamos; e mesmo que ainda tão longe do

Natural a que somos destinados, ou do que seja preciso ao prevalecer

da realidade, dessa vez estamos muito mais esperançosos pela cura da

Luz. É tempo de agradecer tantas oportunidades, e que assim se torne

um hábito. Seguimos nessa espreita da Vida, rogamos ser nossa cerne

cada vez mais justa, lutando em prol do Amor e expansão dos desígnios

divinos.” (O autor, revisando em fevereiro de 2015)


Beijo técnico”, representação de um colapso


Personagens. Em ordem de aparição ou oportunidade:

O pai

Ancião chateado ........ esbravejante

Magali ................. a do meio

Nana ................... 4 anos

Kia .................... primeira

Donatela ............... mãe

Grisalho com cara fofa

o Mediador ............. que os guiará de volta

Vozes do bar geral ... das bebidas que sobraram

Moborg ................. cidadão chato

Espelhada

Selena

Maitê ......... tal esvoaçante

A órfã ........ quita a imersão

Cuya .......... a bela

Jonh .......... enxotando Adorno

Lares

A diretora

Aflições ........ levanta o copo destilado!

“Sombra do Deserto” .... e seu extenso conselho

A senhora distinta

Um homem à irmã

Maldonado

A velha mãe .... avó de tantos ali

Marienete

A menina Pereira

Juliana

Ágata, Ária, Ama

Rouco

A baixinha divertida

Miado

Pío

Marlene ........... aquela fofoqueira desde o bairro

Ella


Gentil ............ um habitante local

A idosa angustiada

Saulo Viegas ....... e suas perguntas

Mofana

O Muca ............ o jardineiro, o Muca, poxa!

Marta

Koko

Gi, e mais pessoas aleatórias!


A voz de uma repórter é ouvida de alguma gravação: “A paralisação do

núcleo do planeta foi desastrosa porque ela proporciona a deterioração

do magnetismo terrestre e, consequentemente, da atmosfera. Devido a

essa parada de movimentação dos materiais presentes no interior do

núcleo da Terra, houve um enfraquecimento do campo magnético,

visto que ele depende da movimentação de suas cargas para existir.

Com isso, começaram a acontecer fenômenos como tempestades

magnéticas e auroras. Além disso, os equipamentos eletrônicos

pararam de funcionar, algumas pessoas suscetíveis a eles (com seus

marca-passos) morreram (...) até mesmo as aves começaram a cair!

Nosso ar já não seria o mesmo.”


I

– Agora acabou a brincadeira, não tem como fugir, vejo que a

supremacia bem relevante, a nossa humana mesma, essa deu errado e

essa saiu pelos eixos zoados. Não há nem “se” ou “poderia” nas minhas

palavras, só o que presenciamos; quem dera eu anunciar algo melhor,

começa uma voz enquanto caminha por gruta irregular. Seu olhar é

firme e tom confessional. Aos poucos a figura deste homem toma forma,

e ele encontra ainda mais palavras pelo caminho. Está apreensivo, e não

se detém:

– Nosso, o meu, sim, vejam como (...) todo este mundo está indo pelos

ares, é uma convulsão. Fomos pescados neste exato lance, o anzol

funcionou como deveria. Este recanto de maravilhas e amores que veio

antes da gente, a Terra (...) pois vai sabe-se lá a quê (...) se complicou.

Quem lembrará de meu país, minha gente, e minha família (...) ou

mesmo (...) eu? Que soco no estômago!!!

Faz três dias que a Hilaria rachou! Uma confusão de vulcões emergiu,

tremeu, espirrou e fumaçou o precioso ar que furtamos. É o que vejo.

Por todos os cantos nosso lar desfaleceu, é até incrível como isso tudo

se passou durante algumas horas. Nos dias seguintes acompanhamos

seu desenlace (...) já em fuga. Fica a impressão de que já há muito estava

na borda. No final do terceiro dia, ou o que havia deste, vimos as

enormes e irreparáveis tremeduras nos continentes. Estamos no quarto

dia, quase não deu para se livrar; quem dirá de passar despercebido ou

isento. Estamos é na mesma. Por essas valas volvia muita lava, rios e

mares (...) não tem mais! Só vemos (...) antes. Esqueçam suas desculpas!

Peguei minha esposa e filhas e sumi, nem pensei direto. Era o que dava

para pensar naquele contexto (...) Varamos a estrada ainda no segundo

dia com tudo que podíamos dentro de um carro reforçado e seguimos

nosso grupo disperso. Um amigo tinha a pista desse bom recanto para

ficarmos por uns tempos com os mantimentos que arrecadamos nos

mercados saqueados (...) se é que isso fosse possível, digo, se manter.

Não tinha escolha, vazamos todos! Peço perdão pela forma como

ponho tudo isso, aos trancos, mas vejam como me encontro!

Seria muita canalhice dizer que fora sorte o que nos fez viver nos


últimos anos perto de região alta; quem não se impressionava com os

boatos sobre o fim do mundo? Ainda mais depois da virada do século

e com todas as mudanças climáticas e essas novas doenças que dia a dia

pediam nomes. Só não sabemos se há esperanças, ou por onde

começar (...) como saber mais à frente? Está difícil. Mesmo assim, em

uma sucessão como essa, na precisa hora que mais deveríamos nos unir

(...) precisando de carinho e amor, o que se vê lá fora é o desespero

total: contemplem em seus pesares! A Raça Pensante, a das canções da

Liberdade e mundos alcançados, esta clama por salvação, ou mesmo

uma atençãozinha do Cosmo. Quer milagres, quer tanto de volta, e que

seja rápido. Mas seria justo não assumirmos a culpa nesse susto?

Ainda não veio resolução alguma, mas Deus sabe o que faz; nós

humanos conjecturamos. Estamos ansiosos. Se acontecer, digo, o fim

mesmo, estamos aqui (...) correndo de um lado ao outro, utilizando

apenas do escroto, vil e pavoroso amor-próprio. Que nos ouçam!

Muitos não gostam do salve-se-quem-puder. Ah, escrota, devota (...)

besta (...) terna (...) evolução, aonde nos leva? Que tanto ignora? Se o

estrago não total, deu um grande tranco na galera, uma boa e merecida

lição. Bem, ainda me fio que a Natureza realmente sabe o que faz, e

como produzir (...) e reproduzir, claro. Quem dera outros pensassem

o mesmo. Mas também me condenam por escapar! Sou pai, o que mais

poderia fazer por amor?

Pois os vulcões continuam, me disseram os que duraram também.

Acabaram as reservas de gelo seco em outros locais. Há tanta fumaça

pela Hilaria inteira; nosso país já era; muitos já sabem o que vai dar (...)

antes fosse só um colossal banho de água fria. A gente esperava algo

menos drástico. Mesmo assim, sendo a Vida uma eterna e complexa

reação em cadeia, melhor se recolocar. É o que concluo (...) dentro do

medo. A onda então é se refugiar pelas tocas que ver primeiro, dizem,

mas poxa, amigos (...) aqui mesmo, se estamos, e vamos em um grupo

de mais ou menos quarenta (...) Seria suficiente? É pouco o que sei.

Há quem tenha ficado ainda mais cego de susto, e, nossa, outros como

eu que cantam e esperam. Quem aqui já lidou com tanta dificuldade?

Praticamente ninguém. Sabe o porquê!? A vida em sociedade é

preguiçosa. Me incluo nesse pesar, espero a resposta da Grande Mãe,

ela que é sábia e certeira (...) Esta que sempre fora justa mesmo dentro


de sua estranheza; os humanos inventaram esse termo. Fazer o quê,

resmungar? Não, pelo menos tenho minha dignidade. Procriamos

arrogâncias e perdemos de vista a magnificência e força humana. Poxa,

Mãe, Natureza e incitante feminina, a Senhora é a verdadeira matriz, e,

como tal matriarca, relegada à visitinha rápida ocasional para

festividades (...) Que descuido, não foi, impecável Natureza?

Mas sendo pai, em que foi que eu pequei? Seria bom entender. Que ar

podia oferecer desde uma cobertura de concreto? Não vivi na era das

pedras lascadas, não tive condição financeira para ir morar no campo e

cultivar meus próprios alimentos (...) minha época era a industrializada,

infelizmente.

É, o que direi aos tantos aqui nesse buraco? Que ficaremos um tempão

ainda enfiados nessa? Para terem esperança, ou que saiam e vejam por

si sós o circo sem vídeo transmissão acima de destas cabeças? Muitos já

desesperam e choram asneiras do tipo: “EIII, QUAL FOI?

APAREÇAM DE ALGUMA FORMA, DIZ, DIZ AÍ TUDO DE

ESPIRITUAL... SE É ALGO, OU FOR.” Eu respiro fundo ouvindo

tudo isso, é lamentável, é de pouca fé; eu tento dizer que respirem

comigo. Meus amigos, todos nós estamos com uma imensa carga nas

costas, é a intuição que incita!

Mas direi contudo que estamos em cheque; direi que bem espantados

e à mercê do ciclo (...) é preciso se acalmar para refletir direito. O dia

de amanhã nunca foi certeza de nada mesmo (...) nem aqui nem em

qualquer parte dessa colônia achada, ou qualquer pedaço de terra

renomeada; o que mudou na real é essa dramaticidade, a violência dos

fatos. Os atos não mentem, ao atos mostram. Hilaria é nossa devida

sepultura, nossos destinos aqui se unem, que será que nos trouxe à esta

Terra? Algo para corrigirmos? Provável.

Muito dissertaram (...) mas não passou de falação, afinal, e me arrisco a

dizer que em vão; claro, porque caímos é num buraco incongruente.

Temo pelo ar. Não posso sufocar e deixar minha gente à mercê, à beira

da loucura dentro desta gruta. Então rezo a Deus que me dê garra, não

só para mim mas para essa gente toda. Nos bastamos como seres

racionais para relegarmos esse desfecho? Ah que isso! E aí, vai lá, quem

pensa nisso? Mesmo se sobrevivemos, vamos nos repovoar sem pensar

em nada? Tropeçar igualzinho?

Por fim chego ao meu destino, vejo essas pessoas, e elas me veem da


mesma forma. Peço a todos que se calem, e eles se calam. “Estamos

aqui dividindo a companhia, meus irmãos e irmãs. Minha família.” “Sei

que vocês agora ouvem mas não sem antes me analisar em seus pesares;

quem é esse que fala? Mas não é mesmo? Quero falar com vocês,

conversar. Acredito venho como um ente querido, alguém para a

necessidade, alguém que se preocupa e pensa alto.” As pessoas se

entreolham novamente. O fio está quase arrebentando, que tensão.

Achei que seria mais fácil. Respiro fundo. Volto a falar, cada vez mais

firme, não posso perder a mão. “Estamos reunidos, nos vemos daqui

para frente como amigos e amigas. Somos um bloco daqui para frente,

viemos do mesmo confim (...) CHAMAM DE RAÇA! SOMOS A

HUMANIDADE, SOMOS ALMAS!” Eu ganho um pouco mais de

fôlego para terminar. Minha visão perpassa o ambiente. “E que seja

dócil nossa passagem de volta.”

Uns choram, outros se abraçam. Sorte ter esta família grande!


II

Passa um ancião chateado esbravejando que este é “um feitiço contra

feiticeiros, piada babaca que se volta contra a gente!” Qual é mesmo a

idade dele?? Apenas para comentar. Os que perdem a linha atrapalham

qualquer desenvolvimento, será que vale a pena? Não, né.

Olhamos ele deslizar bem à nossa frente, e ele some, o corpo se

arrastando como se desabando nas bases; vai saber se vamos nos cruzar

mais vezes. Ficamos pensativos. As horas seguem, quase nada chama a

atenção de verdade.

Minha filha do meio pede um pedaço de carne, eu lhe dou. Tudo é

estranho, quebradiço, acabo desconfiando; mas não é o que quero! Ora,

cansa tudo isso, acho que fui longe demais nas preocupações. E lhe

entrego também alguns biscoitos. Magali ri. Nos olhamos, um pequeno

gesto que vale tanto, poxa vida. Sorrir. Ela sempre foi uma menina com

o dom espelhar e rechaçar minhas posturas defensivas, desde miudinha.

“Você só tem que sorrir”, eu lembro dela dizendo. Pergunto a seguir:

– Vai comer tudo agora?

– Não sei, acho que perdi a fome.

– Olha, gordinha, eu também.

– Pai, ninguém (...) ãhn!? – e me encara fixamente.

– Sei não, querida. Nem é tão diferente assim de antes, vivíamos dessa

forma equivocada, apenas criamos muitas distrações. Não havia muita

preocupação com o porvir, já falamos disso. Passamos de seres

dispersos por aí para saciados reclusos e acuados dentro de

– Lares.

– Isso, filha (...) Pedimos muita quentura (...) branda, tola (...)

JOGUINHOS TAMBÉM! – sorrio para ela! Ela sabe do que falo,

sempre fui um chato na hora de discutirmos sobre jogatinas, aplicativos

e coisa e tal. Tadinha, mas dessa vez só quis gracejar. Nem um celular

funciona nessa conjuntura. Ela é jovem, deve além de tudo estar

entediada.

– Eu tinha um monte de troços, pai. Nada mais liga, e Magali pausa sua

resposta. Deve estar formulando algo, mas nem demora muito e abre a


expressão, terminando de dizer: “Nem faz falta, sério.”

– Você é uma boa menina, tem isso de alegrar e deixar contente quem

te tem por perto; é como uma explosão, tem que saber apreciar (...)

deve ser esse sorriso que não te deixa. A gente que se choca em

sentimentos, filha; gostamos demais de viver, eu e você, gordinha. E,

sabe (...) cada ser é um molde; cada ser é um átomo distinto e

complacente dentro da Matéria. Preenchemos. Daí a beleza de

colaborar ao Todo, e você é uma partezona! – minha cara eufórica

vence! “É esse teu magnetismo, pai”, ela me zoa. “Deixa”, continuo.

“Vejo no teu rosto que é você quem devia novamente desbravar esse

planeta (...) sei lá, talvez de outra maneira (...) Apagar tudo (...) o que

tinha, e tínhamos. Vai, limpa você, usa essa delicadeza; o resto já foi ao

lugar devido, foi largado. O planeta está varrendo a sujeira. Talvez esse

seja um processo comum, já deve inclusive ter acontecido tantas vezes.”

A menina ri do pai, isso é legal. E fala, mudando um pouco o foco da

conversa:

– As pessoas criavam tranqueiras, eu sei. Tinha muita tela (...) nem ia

tanto para as vias brincar (...) é que viciava à vera, né!

– Eu lembro, filha. E o que me deixa encucado é que ainda somos

construtores (...) demais, exagerados.

– Exagero é ruim, então.

– Acho.

– Apreciar, honrar, ter fé. Eu também sinto.

– Isso, minha querida.

– Não se culpe por toda essa gente. Ajudar é o correto, mas ninguém

tem que forçar ninguém. O senhor mesmo uma vez disse que quem

salta de paraquedas tem que aceitar que vai aterrissar em um chão.

E ficam olhando um para o outro, pai e filha, amplamente brilhosos

por causa de velhas estendidas.

Passa a pequena Nana vinda de outro lado, pega um pouco de água e

bebe. Admira nós dois. “Que bom”, pensamos juntos. “Água cura!”

– Ainda aqui!! Talvez seja útil mesmo esse trambolho, diz Magali, ela

se fixa nos alimentos, mas vira o rosto para o lado, como se a comida já

nem fosse tão essencial. Eu complemento:

– Tomara, e eu pauso, lembro de algo e digo em seguida: “Olha, fica

aqui que sua mãe já vem dali com mais garrafas de água, que eu vou

atrás de Kia”.


III

“Veja, se você estivesse contando a história de uma desgraçada, faria no

presente ou no passado??? E ficaria pelas horas se confundindo?”

Encontro Kia com um monte de jovens maiores poucos anos que ela.

Ela me vê, acena e vem visitar seu velho pai.

Procede, como sempre, falando e caminhando como se a situação fosse

fantasia, como um filme ou seriado da moda:

– (...) a gente só sacaneava tudo isso, da falta do computador, pai.

– Mas o tom da conversa era de tristeza ou quê!? – pergunto ansioso.

Ah Kia, justo você e suas qualidades que raramente usa; dessas

qualidades, incluo a força de vontade! Devia é estar contente de ter mais

tempo livre, sem escola ou obrigações; tranquila para ouvir os sons e

melodias do mundo com seus amigos, amplificando-os; mas estamos

aqui enfurnados, não é (...) E digo em voz alta: “Kia, moleca mocinha,

vai crescendo ágil. A interdependência foi teu vírus, pequenininha. Que

pense e seja uma maior fonte de rompimento de barreiras.”

– Ai, pai, deixa isso de ser filósofo, fala direito. O mais provável é que

vamos morrer.

– Quem disse?

– Quem nos garante?

– Você é a primeira pessoa que vejo falar desse jeito; morrer é natural

para todos mesmo.

– Sou tua cria, meu pai (...) Aprendi a ser realista.

– Então meu trabalho não foi em vão, e posso repetir esses versos:

“Tua beleza que não compete nem condiz com impaciências. Da

mesma forma, há tamanha vicissitude teimosa; sentir só te leva a mais

dores de cabeça. Deixa de lado o que no fundo resvala (...) Algo lhe diz,

te parece à toa, todas as tendências dramáticas.”

– Relaxa, pai, nem deve ser tão ruim.

– Tem certeza?

– Pai!!! Não me assusta mais...!

– Foi só para você ficar esperta.

– Eu sou mais esperta, mais rápida, essas coisas, sabe.


– A Filosofia idem.

– Nem é, pai.

– Então quer pronta uma definição (...) de morrer ou não?

– Quero.

– Eu não sei (...)

– Como não, logo você!?

– Quem dera eu tivesse! Melhor seria só viver existindo.

– Doido.

E riem. Seu diálogo é direto e enfático.

– Nada de lerdeza. Vê!? Heim, pai, se liga. Já eu, sou muito complexa,

penso rapidão e faço muito!!

– Isso aí, filha, eu respondo. Logo a seguir é Kia que questiona mais:

– Pai, falando sério (...)

– Eu falo sério! – ele interrompe, e minha filha explica, entre sorrisos:

– De que adiantou inventar tanto se ao primeiro “abalo mundial”, só

assim nas aspas, ficamos tão indefesos? Será mesmo que não pensaram?

Espertos foram os que se enterraram antes, como as tartarugas nos

cascos ou as formigas em colônias (...)

– Uma lambada, tipo churrasco de carne de segunda, nesse nível! A

Informação é da mesma premissa (...) No mundo havia tanta coisa

sendo dita, era fácil, mas ninguém se reforçou para um (...) “imprevisto”.

É como diziam, deveriam ter “visto os dois lados de algum troço”. São

retrocessos fáceis, e gesticula desbaratado o pai em crise.

“Nem bem digo”, pensa ele, “e me espanto. Olha só essa menina de 13

anos ditando o mundo com braveza. Você sim que existe.”

“Parece besteira”, Kia pensa alto, “parece meio idiota dizer isso após

tanto, mas (...) se ouvisse novamente falar de revoluções e instâncias do

tipo, melhor teria sido ter em conta que tudo opera-se dentro dos sisos;

nem tuuudo nas cabecinhas das pessoas por aí funciona na paz! Já era

a quietude, opa (...)” Ouço suas palavras, me impressiona. Ao que

completo a falação dela:

– Calma que logo passa. É igual a viciar-se em balas Juquinha! O que te

prende é o açúcar que dá crédito. Tem açúcar na frutose, mas não

enche. Enfim, só depois de gordos é que pensamos na frutose. Hunnf

(...) Então, filha, posso dizer ainda que você é o rebentar do grupo e

estalar de preconceitos cambiantes, como dedos, para que ouça tal som,

e saiba que não é uma lógica mercadológica. Deixa ver. Cansa se


delongar (...) quero um abraço da minha filhinha agora Isso sim

preenche minha alma.

– Ai, putz, meu pai é malucão! – ela sorri. Ele, vendo a descontração

da filha, se acalma um pouco. Depois dão um longo abraço.

Assim, meio tateante, ele segue sofrendo depois de largar a filha com

seus amigos. E se desafoga, vejamos:

– Disse tudo isso e me senti como que esvaziado, juro (...) com a

sensação de que todo meu eu, minha síntese, este melhor que posso

ofertar ficara naquelas palavras e ações. Só me sobrou uma face (...)

vaga, meio casca. Elas já se preparam. Glória às minhas filhas!

– Temos que ter paciência, pai. A calma portanto está valorizada, ela

grita enquanto ele sai. O pai vira o rosto. Eles riem um para o outro.

Os amigos de Kia acompanhavam tudo. Cantarola portanto este pai

uma melodia que fazia tempos não era executada, vinda de recordações

boas de antigamente. Recorda a infância das filhas. Derrama a música,

saindo dali para reencontrar a esposa; e sim, da mesma forma faz a água

saindo de um jarro, para todos os lados encharcando:

“Ria da vida, ela é bela, tua (...) tela moldável / Sua, ela é boa, e você a

conduz / Dita teus ânimos (...) o que cria, nunca se curva.”


IV

“Mas deixa eu te falar uma coisa. Nunca quis ser tão sincero na vida:

vamos papear sobre o que nos move; não é máquina ou química,

chama-se espiritualidade. Não em crenças em figuras ou lendas, mas do

que é luz, certeza, paz (...) e que basta, como uma força.”

Minhas outras duas crianças ouviam atentas essas falas, do cantinho

delas. Estava também sua mãe ao lado. Seu nome é Donatela. Ela olha

para baixo, tem algo nas mãos. Aproxima-se de nós e grita como nunca

antes, jogando ao mesmo tempo um rolinho de notas no chão. Depois,

anuncia com a voz trêmula:

– Eu estou é farta!!! Quantos desabafos e explicações. Em vista disso é

só esperar, é?? – minha senhora não está nada bem, todos ao redor

sabem, além da gente. É o limite, ouvimos seu espernear: “Isso aqui na

minha mão (...) me dá nojo, sempre fedeu e contaminou a pele. Que

me trouxe? Essa, essa merreca! Porcaria de (...) dinheiro, papel sujo!! E

agora não presta para nada mesmo. Mas que se dane, porque em vista

disso nem consigo formular uma frase inteira de um mesmo assunto,

de tão assolada (...) droga! E cadê o governo? Cadê os gastos, impostos?

Cadê o amparo, a salvação que não vem pela gente calmamente? É

como uma explosão já não contida, dando vazão a tantos sentimentos.

Que patada.”

O esbravejar de Donatela contribuiu para a comoção dos próximos, a

situação era quebradiça. Quem não compartilhava aquela opinião? Não

havia ninguém que não estivesse aflito também, que de alguma forma

não tivesse sido tocado. Vi como uns abaixavam a cabeça, como outros

tantos oravam. Mas em contrapartida havia os que bufavam, choravam;

alguém correu para longe e até houve um que gritou “socorro, socorro!!”

– Desabafa, mulher. Fala tudo que se agarrou aí, eu digo.

– Ah paizinho (...) por certo (...) que estou fazendo isso (...) na brecha,

economizando espaço. Ninguém vai sair ileso, você sabe, e Donatela

fica cambaleante, meio zonza com o que diz. Chego perto e corro para

segurá-la em meus braços.


– Não mesmo, algo se perde, falo mas nem sei como! E em minha

mente eu penso que “seria porque todos sofremos juntos?” Mas

complemento para ela que “O mundo é que nos afeta! Todos aqui (...)

A gente reunida (...) para aprender de alguma forma”, e então passo

meu olhar pelo recinto de pedras. Ninguém fala nada.

– Como você pode ter tanta calma, paizinhooo? - ela exclama. Está fraca.

– Se eu soubesse sem a menor contestação te diria e repetiria até minha

morte.

Então o efeito desses dias irrompe em Donatela. E ela grita, irritada,

sua cabeça mira o alto. As mãos se levantam. Eu a aperto mais contra

mim. Não posso deixá-la assim perdida.

– Vamos esperar, mulher. Calma! A sujeira vai ser limpa.

Ela fecha os olhos, tenta voltar a si e diz, em um lapso:

– Sobrou o ridículo, perceberam (...) ahhhhhhhhhhhh... nãoooo. Que

sobrou da gente sem porvir? – e escorre dos meus braços até encostar

o rosto em lágrimas na minha barriga; suas lágrimas deixam o ar seco

da gruta com mais frescor. Puxei as meninas junto, e ficamos por uma

boa hora nos aquecendo e compassando os ares.

Alguns saiam de perto a fim se acalmar em outro canto, mas reparei

que ficaram remanescentes. Queriam calor, de toda forma! Se

expressar é isso, a entrega. A emoção enfim supera toda essa frieza que

acompanhamos na vida nos últimos anos.

Mas de repente um grisalho de cara fofa nos surpreende, vem ele sem

distinções, vem sorrindo e dizendo já com as maças do rosto rosadas:

– Sonhar não custa p***a nenhuma.

Rimos muito daquilo, e a paz deu um sinal de persistência. Ainda há

reciprocidade, é, eu vejo. Que alívio!

– Estava lá o encerramento do mundo: na desumanidade, digo a ele,

“declaro que sabemos”.

– Seja bem-vindo, irmão. Vamos ao bar, ele convida; o grisalho levanta

o braço direito melindrosamente. “Vamos ao bar, temos que descer um

pouco pela gruta”, ele enfatiza.

– Que bar, homem? – eu questiono aquela sugestão.

– É, sabe não!? Tá mó alegria lá, e o grisalho se babou de rir, que

otimista.


V

Entramos. Havia muita gente, olhares de todos os modos (...) e cheiros.

Acredito que cada pessoa exalava algo diferente, talvez de acordo com

o sentimento ali ou seu grau de estresse. Imaginem tudo isso de uma só

vez; pense no calor! A energia estava se expandindo, talvez rumo a uma

cisão. No meio daquilo tudo eu mal podia me escorar, então minhas

mãos apertavam as das minhas filhas e esposa, seguidamente. Ao meu

lado, uma dupla papeava. Ouvíamos de tudo:

– Talvez a fé seja o cerne de todo o movimento humano. Se você ainda

guarda dela, emane. A hora é essa! Digo isso pois este é um momento

decisivo. Mas veja, não se vive a fé de qualquer forma, deve ser através

dela. Não “pela” fé, mas “da” fé.

– Poxa, Mediador, você é meu ídolo, opina contente uma jovem, seu

olhar brilha.

– Sou nada, você que não se ligou. Além um cara comum como eu

existem outros muito mais avançados; se você puder vai atrás do que há

de ‘muito mais’ na vida.

Aqui no bar das bebidas gerais o clima é bem diferente do lá de cima,

me parece que buscam algumas alternativas, e isso eles querem

rapidamente. Ao menos ouvem uns aos outros, querendo ou não. Sou

chamado a discutir; chego e a coisa já está fervendo. Vamos ouvir o que

dizem essas pessoas aleatórias, não quero me intrometer por hora.

Desculpe usar desse termo, mas vejam que são muitas opiniões. Mas

vamos:

– Que valores sabe, ou se sabe o que é o que é!? – pergunta um rapaz

com sua retórica.

– Valeu, ô reizinho, falam de longe. Outros zombam desse ‘burguês’.

– Esse sistema de que você falou, esse mundo (...) esse dito “sistema”,

foi feito mesmo a nos cansar até deixar loucos!!!

– Úúulll!

– Esse sabe! Isso, desabafa outro jovem.


– Diz o que te engasga, fala Moborg, que não se aguenta e ri debochado

que só ele. Pode parecer eufemismo mas o carinha se autodenomina

“Moborg” mesmo!

Há muita falação. Uma loira continua a partir do gancho solto:

– Não vou mentir, sempre vi a realidade muito braba, a questão seria

saber apenas lidar. Tudo opera-se nas cabeças das pessoas, humm. (...)

É mesmo, na boa! E partindo do princípio de que quem carrega a

“sociedade”, ela diz o termo sociedade e gesticula com o dedão para

baixo, devagar. Bem, ela continua suas conclusões, quem rege o que

quer que seja são as próprias pessoas e suas vontades; a “sociedade dos

ricos”, por exemplo, ela é sustentada pela “sociedade dos pobres” (...)

Então, nada poderia nos parar; as rédeas que nos deixamos ter, as

rédeas que seguram as bocas dos oprimidos, tudo iria abaixo. Só se

deixa levar quem não oferece em contrapartida uma outra opinião.

Basta querer, não ter medinhos, e sorri a loira para todos os atentos,

depois fica meio enfadonha com o silêncio. Parece que não deram bola

para suas crenças. Ou isso ou estavam pensando em uma resposta.

“Que demora”, ela pensa.

E do fundo, duas vozes e dois berros ainda para ela:

– Nojinho do natural? Bobeira. Uhhhhh.

– Isso é medo! – a loira melhora o humor. É apenas polida demais para

ali.

– Todos sabemos mas não custa nada repetir: nossos valores estão no

que ditamos, disse uma senhora, calmamente, quase narrando.

– Galerinha, é explorado quem se deixa.

– Vocês são muito generalistas, a loira interfere. Demais até. Eu acredito

que maçãs podres são descartáveis, e que as encontramos sem

embargos, só que tem gente que nem quer enxergar, ou não quer se dar

ao trabalho de se mexer para catar as tais maças podres. Por que não

selecionar melhor em vez de transformar tudo numa anarquia?

Ninguém é estúpido, todos sabemos que ‘pessoas’ vivem em sociedade,

têm seus líderes e suas funções. Não existe uma só sociedade de reis

apenas! Vamos raciocinar, não apenas reclamando, mas tendo boas

ideias e soluções, poxa, e ela maneja o corpo, voltando com suas

confissões, mesmo assim seu gesto acarreta descrédito da parte de

algumas pessoas. É dela as próximas sugestões: “Imagina um monte de

gente pensando em melhorias? A humanidade seria um único mundo


e se superaria, como quando realmente quer. Eu quero um mundo

junto. Quando queremos as coisas acontecem.”

– Que te passa? Você é maluca ou sei lá? Tudo é recuperável. Cê tá

doida, cala a boca!

– Mocinha, o que quer mesmo? Como pretende chegar lá? – indaga

uma setentona.

– Estimados, por que tanta descrença? Logo vocês, tão jovens, vocês

que são a evolução de nós, velhos!? Como se assustam, tenta apaziguar

com a fala o ex-professor.

– Melhor enforcar a sociedade inteira e ver como reagem, se é que

reagem! – grita Moborg. Faz questão de ser desagradável e ainda assim

tem gente escutando.

– Do que você anda falando? De novo você? Em que mundo você vive?

Apenas te vejo esgueirando. Já foi pelos ares, amiguinho, resmunga a

mulher chamada Espelhada. Espelhada era seu nome. E se pergunta

em seu íntimo “Por qual motivo estou em um bar, aqui (...) um puro

sinal de distração! Por que, é só o que me pergunto.”

– Menina, ele se esquiva, não precisa me ouvir. Pode sair de perto se

quiser. E a atônita Espelhada fica olhando para ele. Não sabem como

prosseguir.

Do nada, um avarento sai do fundo do corredor levantando seu copo

gesticulando para lá e para cá, ao que cospe alto essas palavras que

roubam a cena:

– AINDA HÁ POUCO ERAM OS BANCOS QUE

COMANDAVAM MINHAS AÇÕES, PORQUE DEIXAVA. E

AINDA ACHO QUE ESSA CAMBADA VIRÁ COMO

MONSTROS DE VERDADE AGORA QUE A MERDA

AGARROU E NÃO TEM MAIS ÁGUA, REFEIÇÃO E O MAIS

NECESSÁRIO. FIQUEM ESPERTOS!

Ninguém responde nada, para variar, mas todos seguem os olhares uns

dos outros e cercam o avarento.

O menino, filho do ex-dono de mercearia, aponta ligeiro sem dar

chance do acumulador incitar outras discórdias:

– Esse cara vivia pedindo fiado na mercearia do meu papai.

E mais uma vez todos se voltam para o avarento. Este não sabe em qual

lugar enfiar a cara. E, murcho, cabisbaixo, acaba vermelho em sua


vergonha – a palavra chega ser até rasa para descrever tanto (...)

– Entenda, se você não tem mais nada construtivo a dizer, por que não

faz o favor de se calar um momento!!? – pede de uma maneira ríspida

meu novo amigo, o grisalho. Depois disso o avarento dá um jeito de

sumir de vista.

– Não vou com a cara dele, diz Moborg, olhando para o grisalho.

– Esse aí é mó desgraçado, um pidão, trata o ex-comerciante da tal

mercearia.

– Ei, começa Selena, que isso? A droga de um tribunal (...) Por que

apontam uns para os outros!? Deixa esse homem se expressar. Não é

que não tenha caráter; em todo mundo há. Se bom ou ruim, louvável

ou não, aí depende de quem vê. Mas por que julgam? Todos temos

nossa parcela de culpa.

Moborg pisca para Selena, que levanta a cabeça e tenta conter o sorriso.

“Ouve essa”, diz o grisalho para mim quando indica com a mão que à

nossa direita estava o Mediador. Como ele havia dito, este era o

autointitulado anfitrião do bar, o que prontamente organizava uma volta

à superfície:

– Vou te dizer, fala o Mediador para o avarento, que morria de

vergonha, você também é responsável por essa depressão que te atinge;

quanto mais envolto nessa aura, mais difícil sair do círculo vicioso. Foge

não! Por que não passa a enxergar a vida através de uma ótica mais leve

e positiva? Isso, pensa nas possibilidades das coisas darem certo. Não é

difícil, ninguém nasce assim (...) chato. Me perdoe a franqueza. Quando

criança, a beleza te tocava! Você lembra. (...) Não ligava tanto, apenas

se divertia e aprendia. Busca essa inocência de novo, esteja por ela.

Muitas pessoas se compadecem ao ouvir aquilo, há mais concórdia e

abraços fluindo do que o Mediador imaginava. Era um perdão, e como

nesses dias perdoar era difícil! Pena ter durado pouco, pois para uma

parcela daquele povo a crítica nunca não é benquista. Tratam logo de

brindar e afastar o assunto. O bate-boca continua fluindo. Um homem

de semblante acabado e munido de olheiras expõe algo do seu dia a dia:

– Você que não me encha o saco, por favor. Já não basta essa pancadaria

toda? Eu tenho lá meus remédios, sei lá se sei por qual motivo estou

aqui.

– Dá pra ver, tá com a caaaara da maluquice! – diz a esvoaçante Maitê,


que pedia a fala levantando os dedinhos.

– Ó, tadinho, aproveita para dormir mais. O que não falta é tempo,

interrompe a cada vez mais perturbadora Mofana.

– Queremos voltar lá para cima, você sabe, não se faça de tonta. E tenha

em conta que remédios são apenas opções, continua intercalando o

Mediador. Ele parece mesmo querer apaziguar os ânimos, mesmo que

de sua maneira. “Muitas pessoas sentem dores que somente certos

fármacos resolvem, senhora Mofana.”

– Isso é o que você diz, Maitê repele. Já esteve por um momento na

minha correria, sendo como eu? Nunca. Então, deixa que a decisão seja

minha! E tira essa cara de líder, é tosco.

– Já que sempre soube que era livre, continua me mostrando, responde

à altura o Mediador.

– Eu vou dar uma volta, ver se tem alguém mais legal para passar minhas

horas, e Maitê deixa o Mediador sozinho, enquanto este se ajeitava para

caber em um assento improvisado. Maitê se distancia do grupo. Mofana

finge não dar bola.

Eu pergunto a ele:

– Volta para (...) não entendi direito?

– Como disse, cidadão?

– Eu não sou cidadão, sou humano, respondo, tranquilamente.

– Quem dera ainda tivéssemos nossa civilidade, a globalização, vida

estável, nossa superfície.

– Que só iria ser destruída em questão de vez, Mediador.

– Quem é você? Qual seu nome, por favor!? Veio com família e tudo,

que combinação.

– Eu já disse, sou humano, e tu?

– Você trouxe ele aqui, ãhn, grisalho? E o grisalho faz menção para que

eu me explique ao da cara mais rosada ainda. Acho que o deixei em

uma saia justa. O Mediador era cauteloso.

– Eu pensei que ele fosse gentil, comenta o grisalho, rapidamente se

desculpando. “Achei que sua eloquência fosse necessária.”

– E é. Muito prazer, senhor anônimo.

– Sou um pai, mais um, Mediador. “Que importam os nomes, não é?”

– Ele não é mais um desses que contesta, esculacha, é? – o grisalho

adverte brincando.

– Eu? Tudo bem, já vamos, retribuo de maneira amistosa.


– Que está havendo com essa gente? – ele pergunta e aguarda uma

posição do grisalho. “Caramba.” exclama. “Que bom que há os que se

salvam.”

– Somos simples, digo sereno.

– Ótimo. Não diga ‘tchau’, há mais gente boa para conhecer aqui.

– Hãn, como assim? – pergunta o pai.

(Em outra parte do bar assistimos outras questões. Mais pessoas se

juntam)

– A imundície vem da raiva, balbucia a jovem Tula, que estudava

Medicina antes do mundo se estranhar dessa forma. Seu corpo pouco

mexia, a visão estava algo embaçada. Mas ninguém a ouviu, nem sequer

fora citada nos comentários maliciosos; ainda que sua intenção fosse

das melhores, diferentemente do avarento, de Moborg, Mofana e cia;

mesmo assim, todos estariam fora dos créditos se tudo isso fosse apenas

um filme. Mas não é.

Bem próxima a ela, vemos a moça que perdeu o marido e os filhos. Ela

está muito alerta. “Em apenas um par de dias tudo virou de cabeça para

baixo para valer”, pensa a coitada. É como se tivesse entrado em outra

existência, diria talvez uma realidade alternativa, e aquela de antes fosse

apenas uma lembrança enfurnada em algum canto da minha mente.

Perder os parentes, isso corta imaginar (...) que facada. “Minha carne

pouco sente dor.” Essa viúva também não quer figurar nos créditos de

“filme algum”.

Ela analisa aquelas pessoas, olha dentro de suas almas e os reconhece.

Pensa ser o epitáfio dos espíritos e entes, todos reunidos em uma só

gruta. Que referência ao passado longínquo! Analisa ela mesma, danada,

que também maculara em toda parte por tanta curiosidade. “Algo deve

ser feito!”, pede baixinho. “Será que sempre fora ruim, que nunca

chegara lá? Era essa nossa utopia? Gritando, fugindo dos carmas. Essa

vontade (...) essa energia, sua carga, e repulsa.”

– Ei, pois é, começa enfim a viúva a falar aos outros já em tom alto,

ainda que se penalizando. Tem por Espelhada sua sina e graça, sim, ela

mesma. “Meninas, todas (...) Me vejo nessa tradução e reinterpretação


de nós mesmas. Que tantas exigências só nos confundiram e carregaram.

Lentes, telas, perfis e o que encarar. Quem me dera ser dilacerada, bem

através de tudo que posso, ou ver até pelo meu transe; recomeçaria

melhor! Mas eu vivo”, e se detém, seu rosto fica fosco. Sabe que os

rápidos cochichos são sobre ela e seu ponto de vista. Seria pena? Fica

muda a Espelhada, justo quando é sua hora! Talvez seja melhor calar.

Vem uma órfã e quita a imersão da já mencionada mulher, isso para

dizer algo, quer dialogar, vem com tanta garra! Vai e fala, brusca:

– Amigas (...) amigos, ouçam, inicia a órfã. Já foi, o quer que tenha

passado, aconteceu e não podemos voltar atrás; imaginem que dá sim

para repensar daqui para frente, há oportunidade, não estou certa?

Países e governos eram reacionários, era assim, mas não quer dizer que

não se possa lutar por aquilo que acham certo. Uma página foi virada.

Existe muita vontade, e o clima, vocês sabem, é outro para tudo.

Mesmo quando tiver um ou outro para meter o bedelho e dizer besteira

na tua cara, sei lá, querendo estragar isso (...) é porque o indivíduo que

não atinge certos níveis de pensamento é o que mais sofre, e aí repudia

tudo o que vê pela frente, se enche de motivos. Vocês viram que a

ignorância é defeito do passado, por favor. Crianças, saibam que apenas

uma pessoa faz tanta diferença, e olha quantas crianças estão aqui,

muito mais que só duas, três. E a falta (...) é mais sentida que o não (...)

existir.

Após tudo isso, cá estamos enfiados dentro de um buraco como há eras,

sendo que a grande fera é a sentença, fogo e veias ensanguentadas da

terra rasgada. É mole ou quer mais?? Não só isso, mas muito nos países

era baseado nesse abismo, mas prevemos, e já está extrapolado. Apenas

nossa alma clama. Poxa, não devia nem existir isso de países, se somos

tanto quanto uma rocha para o planeta. Isso é falta de emoção, de

empatia (...) apenas (...) de não ter noção; um dia eu li que “somos um”,

e como hoje eu entendo isso! Se estamos aqui é para entender um ao

outro.

Entretanto, vem o ácido Moborg para acabar com o discurso; Moborg

é o chato da galera, vive atento, um cara ainda urbanizado:

– Eu como sou um cidadão, deixo aqui meu direito de opinar. Assim,

rumk, Moborg fala fungando quando quer ser valentão. Todo esse la la


iá de sentimentalismo e tal é muito bonitinho mas ninguém sabe de

como deu errado, eu duvido. De eras em eras uma ou outra civilização

é erradicada pelo planeta. É o natural, é como uma ordem dada; cada

geração tem sua existência e dá adeus; então, quem se esquece ou

negligencia suas ações é engolido e surpreendido quando menos se

espera (...) se finda, visitado por engodos. Por isso pouco sabemos de

tantas povos, muito mal lembramos dos nomes, como os lemurianos

ou atlantes. Mas veja, essa é a sina. Isso é meio que a cadência, ou algo

de estar nela. Apenas é nosso turno, aprumem-se! Moborg finaliza com

grito rasgado: “Aceitem!!!”

– Você é horrível, interferiu a bela Cuya.

– Vamos juntos! – fala um apavorado.

– Babaca. Some daqui, pede alguém.

– Eu sou realista. Este planeta e nós tivemos nossa vez, nos afastamos

do Natural, é isso, defende Moborg.

– Por que ainda está aqui então, pergunta a órfã.

– Não passa de um animal, Cuya avisa do outro lado, tão bela mas já

bem desapontada. Seu rosto treme.

– Não é porque tenha um cadinho de autoconsciência que é melhor

que ninguém. Você é um apegado. Não seja tão idiota e presunçoso, a

órfã ajuda no ataque ao chato.

– Como? Não entendi nada, Moborg vai ironizando, fica ali rindo. Que

está havendo com as pessoas, deram para romantizar?? Pelo visto

ninguém bebe nem se diverte.

Por ali, indaga-se o pai:

“Toda essa baderna me deixou bem contrariado, mas pensar que

mesmo aqui carregamos ainda a discórdia, e que bate forte; isso me

deixou alerta, e triste demais. Faltava pouco mesmo e isso estouraria de

algum modo chato; tão logo acabasse o álcool e outras substâncias,

começariam prontamente a se arrebentar.

Disse a minha Donatela uma vez que ‘Quem se parece conosco e nos

compreende, não precisaria de cerimônias nem nada do tipo.’ Mas as

pessoas aqui, essa gente quer mais disputas, a brincadeira é essa. Estão

por fora, nem têm referências, tudo é repentino, tudo é casinho, e o pai

faz uma pausa longa em sua linha de pensamento. Fica com o olhar

paralisado. (...) Daí vem a loucura, as ânsias, a falta de controle. Vejo o


alançar das emoções, de humores (...) a cada dia piorando.

É um criadouro de imprevisibilidade; soma-se a tudo isso o fato de

existir esse repúdio voluntariado ao dizer algo que afete. ‘Quem não

chega a certos níveis de pensamento é o que mais sofre’, interessante

ouvir isso. Poxa vida, mas se não existisse coisa parecida! Nem bem

termino de juntar essas palavras e já me vejo em mais discussões. De

todo lado há embates.

Proferem as vozes do bar, e a próxima indagação é dirigida ao pai:

– Acerca-se bem se prefere as referências parcas?? Pouco, seguramente.

O que acha de tudo isso? – alguém que passava questiona.

– Eu lá sei, o triste pai se penaliza.

– Aceita? – outro pergunta enquanto empurra um copo.

– Não bebo, mas agradeço.

– Não bebe nada?

– Não é lá muito adequado, amigo. Logo agora que precisamos da

mente limpa.

– Ele não só está sóbrio como sabe-se lá de qual maneira ficou quieto

até aqui, vem Moborg perturbando.

– Vocês gostam de ficar com a boca cheia de palavrinhas, não é!? – o

grisalho defende o pai.

– Olha, ninguém me conhece e já estão adiantando o que falo ou não.

– Numa situação dessas era o esperado, Moborg diz.

– Acho que o futuro até já anda engolindo os que se desapontam,

pondo em seus lugares, se encargando, o grisalho enfatiza.

– Quem não se dá valor, ou melhor, alguém, Mofana saúda de novo.

– Bem, indaga o pai perpassando os rostos dessas pessoas. Com isso eu

concordo. Satisfeitos?

Nem teve como continuar o raciocínio o pai, foi logo paralisado porque

interromperam sua conversa com uma enxurrada de teores e asperezas

exaltadas. Dizem os denunciantes do bar geral:

– Pessoas que fazem questão, tchau para vocês; não são nem bemvindas

nem toleráveis. Na boa, isso de fórmulas, essas besteiras reimitadas

(...) Acabam não? – fala Adorno, meio exaltadinho. Ele quer

espaço empurrando outros para que o vejam.

– Porque vocês acham que pensam em apocalipse? A realidade do

momento é muito ofuscante. É daí que preferem repensar! Solicitam


uma hipótese a entender, tenta complementar Jonh, que trabalhara

com Adorno em uma loja, anteriormente.

– Meu pai sempre nos disse: o mundo acaba pra quem morre. Tua vida,

teu viver, é existindo. E já! – confessa Maitê, reaparecendo

repentinamente.

– É como andam dizendo: não tem como se esconder, está aí, assina

Adorno embaixo.

– Boa, já ajudou bastante, Adorno, se lasca. (...) Isso lá é uma terapia?

Ficou monótono, continua Jonh, que não ia muito com a cara do

Adorno.

– Prefere o quê, então: entrar na fila calmamente ou cair na disputa,

questiona Maitê mas não sabe para quem é a pergunta, então sua vista

fica perdida.

– Prefiro ser digna até o fim! – interrompe Lares, que não via a hora de

tantos bate-bocas terminarem.

– Que tal se observar um pouco mais e aprender a relaxar? – comenta

a dona que fora diretora de hospital.

– Ih, que valentia, Adorno volta às palavras irritantes.

Levanta Moborg, já observou muito! Este sim precisa de poucas

oportunidades para zombar. Sempre foi assim. Fala ele:

– Que se explodam e morram. No fundo, é o desejo de todos aqui

mesmo (...) Quem quer sair da gruta?

– Eles quem? Já me perdi, diz Lares, e busca outros com o olhar. Está

falando de quem?

– Quero vazar agoraaa! – avisa Mofana, que sorri se oferecendo para o

Moborg.

– Quem se ferra é quem tenta meter o bedelho onde não é chamada,

acaba é se sacaneando, aparecendo fazendo coisas ridículas e

impensadas, diz Moborg para a diretora e Lares, retribuindo as

insinuações de Mofana.

– Eu, ãhn? Acho que se referia a ela somente, não? – e a diretora aponta

o dedo para Lares.

– Gente, o que é isso??

– É com isso que consegue se defender, Lares, indaga a diretora.

– Precisa desse tipo da trairagem mesmo, não é, Lares rebate.

– Que espetáculo estar de pé com o vapor das bocas enchendo o

ambiente. Adoro nesse calor vivo energizado!!! – grita um bufão, e é


ovacionado com risadas. Isso mesmo (...)

– Vá se ferrar, vai, diz Lares, que fazia na mente seus projetos de escapar

sozinha. Está farta. A diretora se ajeita dentro dela mesma.

– Tão inesperado que foi ainda posso sentir o descontrole

desconfortável em seus rostinhos, completa o bufão, e se vangloria de

levantando um copo. Vai que isso para ele é felicidade (...)

– Isso sim foi fora do comum, mas até que soa bem, e ri a diretora, por

fim. Depois disso se dispersam. O que se vê ali é da mesma desvalia de

uma feira livre, isso pela mediocridade dos saltos e intuitos(!) de coração.

Que pena!

Aflições levanta o copo de destilado, e fala:

– Melhor perder uma guerra que ser otária atrás de uma máscara

acovardada ditada pelos outros (...) e nem mesmo saber o porquê. Esses

são os homens de verdade, os de coragem e sem remorsos. Mas tem

gente que acha que é mais cômodo lamber o saco de um imperialista

ou outro, fazer o quê!? Vai morar de favor e lavar a privada deles, diz,

e completa a frase com um amplo: “Poxaaa!! Preciso de um homem

assim para me acompanhar (...) um que seja macho e tenha vida

própria.” Dessa forma, voa do seu líquido pelos quatro cantos do bar.

Soca o copo em bancada e o ressoar é ouvido com bastante ênfase.

Diversas pessoas ficam incógnitas, mas fazem pouco caso.

Reflexiona Maitê, mulher desconhecida para muitos apesar de algumas

falas, ela que havia se apresentado dizendo ser expatriada. Ela havia

acenado para Nana e isso fez com que simpatizássemos com ela.

– Não entendo isso, sempre que tem uma discussão saudável

começando, vem um outro desocupado (...) ou desocupada mental para

ficar sacaneando os demais, desvalorizando (...) Quando não jogando

suas frustrações pensando que vão ficar com peninha.

– Não conseguem falar mais nada construtivo, dona. Muito me espanta

tantas tonalidades aqui, intervém o pai. Depois Donatela, até então

muda, resolve opinar de sua forma compassada.

– Porque não vazam (...) mais fácil, que acha, menina? Que voltem

quando forem mais humanos, mais firmes, não umas (...) ratoeiras.


Sorrateiramente, começa uma brisa, e em seguida há uma lufada

contínua que empalidece todos os presentes daquele resquício. Ficam

quietos ainda que seus corações batessem forte. Ninguém mais

pronuncia nadinha, apenas se entreolham.

Uma criança chora nesse ínterim silencioso. Somente a criança chora,

uma. Nana busca a voz da criança, ela está alguns metros à frente da

gente. Logo ela segura o choro, controla a respiração e presencia o

clima soturno criado para finalmente sorrir contendo a emoção, e se

vira para a mãe, questionando:

– Mainha, tá vinu uma sombra, um moço ó, e se esparrama a boazinha

criança no colo da mãe. A menina ainda completa em tom de

brincadeira: “É o vulto, mamã!”

– Quequem, filha? A mãe gagueja.

– O “Sombra do Deserto”, eu ouvi ele me avisanu.

Chega “Sombra do Deserto” detrás da multidão, passa com seu chapéu

para baixo, ninguém vê seu rosto. Caminha lentamente e assim é dado

espaço para ir até o centro da gente. Ali a maioria poderia ouvir.

Ele não mais anda, se apruma, o corpo se ajeita ao mesmo tempo que

fala:

– Apelativo desse jeito, só surte o contrário (...) – fala e solta um bocejo

ao final, sua pronúncia fora como um raio brando e abafado, como um

vasto espasmo que de um lapso brilhou. E continua após a pausa

respiratória:

– O ser humano apenas ruma ao colapso, desde que descobriu que

morre (...) você morre, vive, é assim, e gesticula no ar um corte. Depois

“Sombra do Deserto” se detém mais uma vez, olha ao redor, meio que

se espreguiça. Nem assim ninguém de lá viu sua expressão, mesmo que

estivessem acompanhando tudo como se fosse um espetáculo.

Ele continua disparando, com todos tão atentos quanto no começo,

ainda que bem confusos com essa aparição:

– Na verdade, tem raiva, ou certa inveja da Natureza, ao que renomeia

tanto ao seu feitio, seu querer; mas a Natureza é perfeita, é real demais.

Destruir e modificar é o único que consegue a grande fatia da

humanidade; beleza e eternidade escapam de suas mãos (...) Vêm

catando designações e sobrepondo (...) Mas têm lá guardado remorso.

Se dizem mesmo que o Conhecimento é a chave para qualquer


existência, por que não fazem o que poderiam, então? Podiam, sim que

podiam, como ainda podem. Mas deixam?

A fera selvagem, em estado puro (...) e o ser humano, selecionado,

aprendiz, ajudante (...) Abram os olhos! Suas mentes.

Algo te compadece, sim, e “Sombra do Deserto” encosta uma de suas

pequenas mãos no ombro de Magali. Todos temos uma voz interior,

ele recomeça, saiba que você aí também (...) E com isso uma surdez

passa, aquelas palavras ecoam nos pensamentos da gente da gruta.

Depois, congelado em um abafado instante, o compasso oculta quem

acabara de falar; ouviram todos um estalar abruto e agudo, como se fora

oriundo de uma potente chicotada. Foi tão ríspido, repentino, que

alguns caíram, outros ficaram bambeados; por fim se abaixaram os

humanos. Que susto!

Some “Sombra do Deserto”. A criança ri. E Cuya ri da criança. Magali

me olha séria.

Aflições interrompe, de novo: “Amigos, eu sou realista. A menos que

chegue alguém, um outro grupo, ou um desses militares que ainda esteja

rodando por aí, não temos salvação(...) Vão acabar os mantimentos e

morreremos de fome ou loucura, ou tudo junto (...) se matando, sei lá!

Vamos subir?”

Jonh lhe responde:

– Ou ainda podemos seguir pela gruta, descer através da fenda.

– Como assim, que isso!? Fenda? A gente veio cheio de crianças,

pergunta uma mãe preocupada.

– Eu não acho má ideia, diz um homem comum, seu nome é

Maldonado.

– A mim tampouco, fala uma adolescente animada.

– Eu começo amanhã.

– Amanhã? Vamos logo!!!

Então a soma das vozes inflama Jonh:

– Calma, galera. Vamos planejar isso, raciocinar um pouco, não é mais

prudente apenas (...)

– Nem dispomos de um (...) prazo, amigão.

– Eu sei, fala Jonh. Mas e se não tiver fim a descida? Sei lá, e se acaba

nosso ar, água. Ou se aparece alguma parede à frente sem que dê para

atravessar? Temos que raciocinar.


– Que escolha tem, se aqui vai dar ruim também?

– Se é assim, Jonh continua, onde estamos é mais perto da entrada.

– Você quer dizer que poderiam facilmente localizar alguém,

Maldonado interrompe. Jonh continua:

– Sim, ainda que isso seja apenas uma hipótese, como tantas. Se

ficarmos distantes nenhum resgate poderia (...)

– Mas não sairíamos?? – vem correndo perguntando o alisado

Mediador. Em seguida Aflições se afoba:

– Lá fora!? É maldição? Os gases nos matariam.

– Vocês viram como muitos morreram, Mofana comenta, tentando

parecer normal.

– As meninas estão amedrontadas, eu sei, Moborg critica com a voz

monótona.

“Meu Deus, mudam tanto de opinião (...)”, Mediador comenta

baixinho. Jonh tenta o que tem à mão:

– Parceiro, logo nem ar você vai ter para respirar, quanto mais ficar

balbuciando, só vai ter poeira, gazes, essas emanações. De toda forma,

já disseram, vai dar ruim! Deixa de ser mané.

– Vai ô caçatenção, vai te catar!!! – zombam do Mediador.

– Se ferre você aí, retruca um adepto da ideia de ir para fora. O

Mediador não quer se abater:

– Calma, pessoal. Segurem a onda (...)

– Deixa esse otário aí então!! – veio a voz de fundo. Moborg ri alto.

– Ele que pense, Mofana como sempre coloca mais pilha!

– É isso aí, vamos aêê. Perdemos é tempo papeando e bebendo!!!

– Vamos. Vamos, Júlio!! – disse a senhora distinta.

– Vãoboraaaa!

E se agitam os seres. Querem o núcleo, talvez. O pai reflete um pouco

mas sua conclusão é enfática: “Se querem descer, que desçam.”

– Tá vendo, Carla. Quem disse que buscar tem fim, ou que achar só se

encontra perto, falou um homem à irmã.

– Eitaa, o último a sair que não deixe as luzes acesas!! – berrou a voz do

jovem Maldonado.

– É a unanimidade, não sou eu não, Moborg é leviano se dirigindo a

Mofana.

– Se ele quer ficar e sofrer, fala Maldonado em relação ao Mediador,

deixa ele, é uma mula! Isso de orgulho pertence à categoria dos


comportamentos descartáveis; sem isso, vive-se com muito mais

dignidade. Digo mais, sem um chato desses, vamos é mais longe.

– Eu concordo com o moço.

– Eu também, assentiu uma mulher franzina.

– Esperem, todos merecem uma oportunidade. Levamos esse traste e

lhe mostramos como é cooperar.

– Isso não seria ruim (...) e mais justo também, consentiu a velha mãe,

avó de tantos ali.

– Mas eu não quero ir pela fenda nem caverna nem buraco algum.

Adeus, e se afasta o contrariado Mediador.

– Quando acaba o respeito, desaba todo o que sobra de sustentação,

disse um homem à dona ao seu lado. Mas ela não profere nada, apenas

o fitou com coleguismo.

E vão saindo em direção ao fundo da gruta, um a um adentrando cada

vez mais a fenda. Suas falas diminuem pouco a pouco depois de tanta

falação. Os que ficaram estavam aliviados, era unânime, nem carecia de

comentários. “Mas que estranha essa sensação da saída dos outros,

similar a uma (...) perda”, pensa o pai.

Noutro lado, mais pessoas papeiam próximas umas das outras,

enquanto se direcionam a eles Jonh e o Mediador:

– Da nossa época nos encargamos nós, disse a Marienete para outra.

– A gente fica, moço, fala a menina Pereira para Jonh, que vinha

chegando; só que ele nem dá muita bola. Sua preocupação era com a

descida. Queria recrutar mais gente. Jonh aumenta o tom da voz:

– Alguém mais vai? Vamos lá, para que nossa distância não seja muita.

“E também porque muitos não sabem andar nesse tipo de terreno”,

pensa ele.

– Pode ir, rapaz. Faz o que teu coração manda, diz o compassivo pai.

– Ah é!? Nós vamos caminhando então, ele responde vagamente.

- Até mais, Jonh! – a menina Pereira se despede, e sai Jonh com os

outros, finalmente. “Até para vocês também”, ecoa na mente de Jonh

nesse ínterim, e some de vista. Foi mais uma de suas frases não

proferidas. Logo após isso o Mediador trata:

– Ao fundo ou na superficialidade, dá na mesma, se o resultado vai ser

estar mais longe de qualquer luz, assim para quem desvia a atenção,


mesmo tendo tanto valor espiritual; por isso mesmo cada vez mais nos

afastamos de qualquer elevação. É fato que gostam de estar para baixo.

A ruindade está por aí (...), e se detém o Mediador, contemplativo, visto

que muitos acompanhavam o que dizia, inclusive Donatela, já meio

desperta.

– Não entro nessa doidera nem levo junto minhas crianças, são

inocentes, diz o genro afobado ao sogro do seu lado.

– Até que enfim você está certo, o sogro responde querendo entreter.

– Há sempre escolha, fala a menina Pereira.

– Há sempre diferenciação altruística! – arremata Donatela.

– Tem é gente disposta, e muitos sorriem com gosto para o sogro.

– Quem quer continuar gozando dessa vida? – continua com ares de

traquinagem o genro. E riem e se coram muitas daquelas pessoas que

decidiram ficar na gruta.

– Que dia, que dias! – a menina Pereira diz, sorridente.

– Talvez possamos retornar para a superfície, enviar um sinal de

socorro, talvez, diz o Mediador.

– Nós sabemos. Quem sabe, não é!? – se anima de vez a senhora

Donatela.

– Aconteceu tanto troço que ficar se explicando ofusca! Mas está aqui,

o que sei, o que aprendi, e se cala de vez o tal Mediador.

– Não se culpe, isso é o inevitável, fala o pai.

Uma junção de amigos cochicha atrás do pai e do grisalho, seu pé atrás

não chega a superar tanta descrença. Vejamos o que concluem:

– Parceiro, vou te dizer: essas questões, essa cagalhada que tocamos,

acho ser a introdução (...) Sei lá o que me diz, e não sai da cabeça, que

ainda vem mais, e mais (...) Eu tenho isso de (...) intuição, de verdade,

não é papinho.

– Eu posso imaginar, tenho também essas, digamos, impressões!

– E quem não?

– A amplitude da existência da gente nos aturde (...) ninguém é pouco.

– Óbvio, amigos!

– Vamos segurar a pipa e ver no que dá.

– Eu também não acho que seja a hora de agir não, hem.

– É, é. Esses ali são é bem apressadinhos. A velocidade das coisas não

é essa não (...) Já viram que a galera que desceu é da mesma categoria


dos que deram uma mãozinha à sacanagem com o planeta.

– É bem provável. – e o grupo sai de fininho, apenas a jovem que

conheciam como Juliana fica de fora. O pai ouve mas não dá bola.

Apenas tem curiosidade, só para saber o que pensam. E lembra do

vulto de “Sombra do Deserto”. E ele pergunta para que os outros

ouçam:

– Mas cadê aquele senhor que veio e falou daquela forma??? – Cuya e

a criança também lembravam dele naquele instante. Magali tem o olhar

perdido.


VI

Isolada, Juliana reflete que: “Se pela existência o prazer induz, por que

não vivê-lo!?” Sim, ela como tantos ali sente saudade das facilidades de

suas vidas anteriores; acreditem ou não mas é do cotidiano que

gostavam!

Entrementes, Juliana observa a própria mão segurando uma taça de

vinho. Ao seu redor, o caos de vozes no bar geral das bebidas que

sobraram. Porém, ela se aquieta! Sair de lá para não ficar besta é só o

que quer. Reflexiona:

– Ou seria melhor ousar em sedativos voluntariamente do que se deixar

viciar por uma vidinha pouco funcional, de aparências e valores que

nem mesmo sabe o que quer dizer (...) Ahhh, é verdade que uma hora

ou outra um tanto disso vai importar, são as decisões! A minha é a

mudança.

Juliana sabe em seu íntimo que essa tolice de casinha foi bem inútil, e

que novas oportunidades podem aparecer, desde que a intuição flua.

Ela havia tentado. “Para aonde ir, para cima, baixo? Que dúvida!”

Passa abruptamente alguém à sua direita e esbarra nela. São duas jovens

batendo boca. Andam rápido:

– (...) frase imbecil e reacionária essa aí. Não tem o que discutir se há

ignorância. Que presteza!

– Tinha que ser um tipinho mesmo, você ouviu aquilo, se surpreende

uma delas. A jovem da frente é perseguida pela de trás, que vira o rosto

e diz:

– Pior que não é mentira, rola mesmo (...) as pessoas não sabem mais

quem são, buscam perfis, estereótipos. Tenho que admitir que sem

Internet e redes sociais fica mais fácil, mais (...) palpável!

– É só a gente, amiga. Tudo cara na cara.

– Está na hora de nos voltarmos para dentro.

– Pois é, e parar e se entender.

Juliana mal percebe quando as duas entram em uma fresta e saem de

cena. Todavia observava as duas figuras indo embora, na sua memória

ela escutava a canção que mais lhe tocou até hoje, era a mesma emoção


desde que se apaixonou pela primeira vez, e também a mesma desde

que soube rir com facilidade; que energia ela sentiu! Foi bom relembrar.

Como um beijo técnico!

Ela dança em seus pensamentos, vê-se envolta como que em nuvens e

odores dóceis! Se perde.

Imaginem muitas paisagens, desgastes, movimentos, sustos, olhares e

diversidade de gente; é assim a profusão de pensamentos dos seres

humanos lá embaixo. Cada um emitindo suas vibrações. Vejam vocês

também! Ainda não viram? Daqui seguimos tateando pelas

consequências da crise separatista que muitos apelidaram de “O curso”;

“O curso através de nós mesmos.” E a densidade reina, pesa

principalmente para os que escolheram descer através da fenda.


VII

Esse ambiente é turvo, como uma manhã sem graça em começo de dia

ofuscado (...) como um fim de ciclo. Mesmo assim, aparecem as aliadas

Ágata, Ária e Ama, são lindas cada qual sua singularidade e marcas.

Estão concentradas. Não sabemos ao certo de onde vieram, mas o que

fazem é sentido em todos os cantos.

Cantam elas, em sentimental mas potente uníssono:

“Cansa andar sem tudo ver / Cansa dizer e nem fazer.”

E depois retomam com um aspirante coro; a melodia ininterrupta emite

um:

“Ahhhhhhh.... ÓÓÓÓÓÓóóó...”

Aquietam-se, as três respiram. Aquela fora apenas a introdução.

Levantam as mãos para o alto. Fala Ária, posicionada no meio delas:

“Pelo desespero que nos equipara / Desde um prosseguir animalesco /

No adeus de cada dia, especular-se.”

Prontamente, Ágata sentencia recitando mais poesia por quem queira:

“Estou, passo. Este que enxergam é um tipo de purgatório! / Mas sou

parte do pó, me misturo, reviro, renasço / Nós humanos nutrimos

confidencialmente o que há de divino na dúvida / Seria lamentar,

acreditar? Toda vez que sou pó, eu implico.”

As três moças se juntam em círculo e de mãos dadas pedem pela

comoção! Ágata roga pelas três e por todos os viventes:

– Aqui estamos todas pensando no próximo.

– Porque amamos – completa Ama, que finalmente dá o ar da graça

com sua voz musical. “Disso não há dúvida”, ela termina.


Na sequência outro “Ahhhhhhh.... ÓÓÓÓÓÓóóó...” que ecoa tão

forte a ponto de ser escutado por toda parte. Não há um só na gruta

que não tenha entendido!

Em outra perspectiva, levanta a voz o Sr. Rouco. É endereçada aos

outros que como ele descem pela fenda.

– Caros, amigas, crianças, ouçam! Este é o alerta dos divinos. O

desconhecido nos forneceu a discórdia, tanto nos esbaldamos (...) nesse

instante é preciso orar. Vamos nos juntar a rezar!!

– Ihhhh, não vai ser rezando que vamos resolver. Quem vai nos tirar

dessa? – Jonh censura o Rouco. Mas o ancião não se abate:

– Deus nos guiará, apenas Ele. Você devia saber!

– Temos que sair daqui já, ou vamos morrer de fome, é preciso buscar

alimentos. Só temos que continuar! Eu acredito que é o que Ele quer.

– Não há mais tarde, Jonh completa a frase do Gentil.

– Vamos descer! – grita a baixinha divertida.

– A baixinha está certa, diz Aflições, não vai demorar para matarmos

uns aos outros.

– Sabemos que seria rápido. Mas não podemos perder o foco, avisa

Jonh.

– Não esqueçam de Deus, e da concórdia! – gritou ao fundo um jovem

ainda barbeado e limpo.

– O Supremo. Nosso Deus! É a hora que mais precisamos de fé,

intercede o Rouco de novo.

– Poupem o ar!! – critica a irritada Mofana. A baixinha se esforça para

olhar para ela. Uma analisa a outra.

– Tudo bem, pensa o Rouco, já se arrependendo de fazer o trajeto com

tantos descrentes. É dele as sentenças abaixo:

“Talvez ser Deus seja o maior desejo humano (...) ser Ele, tal qual;

como não é, ou não o entende, repudia (...) e zomba”, pensa o Rouco.

E ele retoma a conversa:

– Mas apesar disso, somos mortais na lei. Vamos nos unir. Por favor,

não desçam ao abismo (...) Sinto que nos equivocamos. Ainda temos

tempo

– Cala a boca, pregador, grita Aflições, cortando relações; depois ela dá

meia volta e então se move para frente para o Sr. Rouco. Está nervosa,

é bruta no que diz:


– Você é melhor que a gente?? Vai, diz. Não deixa eu ter que te bater,

beleza? Te arrebento se continuar tentando nos impedir.

– Perdemos é tempo! – diz outra, como se apoiando a decisão de

Aflições.

– Com esses valores parcos, só se vislumbra mais fiasco (...), fala uma

amiga para a outra.

– Daqui não parece legal, nem batido, lamenta Maldonado. Será que

valeu a pena?

O Sr. Rouco fica parado enquanto passam por ele. Eles descem sem

nada falar com ele.

Um pouco mais abaixo na descida, ouvimos as discussões do povo

peleando. Suas pauladas ascendem na forma de analogias, ofensas, e

baixezas (...) Mesmo assim é possível notar “Sombra do Deserto”

enquanto passa novamente pelo bar e observa de um lado os

remanescentes; a seguir ele desce um pouco pela fenda e enxerga já

longe o grande número dos participantes que desceram. Ele ainda

reconhece o Sr. Rouco voltando da descida. Ele solta no ar que “fujam

do eu, do mim, de todo narcisismo ignóbil que ainda sequela a raça. Se

o que é Raça, meus caros!? Mera ignição. Chegará o dia de seu

aprendizado.” Sua voz é como um sopro, quem sabe por quanta gente

pode aquiescer! “Sombra do Deserto” dá um leve sorriso e se esgueira

pela escuridão da gruta, sempre atento.

Justamente à frente do grupo que desce, como um pelotão de soldados

batedores, há uma garotada que papeia e dá goladas certeiras (...)

segundo especulam. Uns falam, outros escutam; uns têm nomes, outros

não. Entendam vocês mesmos:

– Virados! Brinda aê, Marlene incita.

– Mesmo que num grande acabar de mundo, a festa, é!!

– A celebração! – corta Miado.

– Bora celebrar, curtir a desgraça se aproximando. Achamos isso

maneiro.

– Vocês parecem felizes, eu hein.

– Tanto que chegamos a ponto de desistir de inovar, e Marlene fica

muda na atmosfera pesada de sua divagação.

– Que houve, filhona? Perdeu a fala?


– Ihh, lá se vai o brinde!

– Não, ela esqueceu o script! – e muitos riem dela. Só que Marlene

retoma a palavra; desde quando vivia no bairro fora a fofoqueira da

galera:

– Acho que essa situação de perdoar, perdoar-se, é o mínimo. Mesmo

que nossas (...) desculpas não tragam nada de volta!

– Já eu acho que devia se colocar melhor, Marlene. Aquele sujeitinho

ali, o que se afastou, esse pastorzinho Rouco, fala Pío, mas é

interrompido por Marlene, para variar.

– Fica na tua você, Pío. Grandes abusos, hein (...) também tá nessa, seu

gentinha!

– Você é pesadinha, sabia? Nem me deixou completar a frase. Respira,

vai!!

– Não sou tua parente, seu lokeiro!!

Miado diz baixinho:

– Ajudar é também não atrapalhar.

– Melhor você também não se intrometer, diz Pío para o Miado, irônico

como sempre, porém escarra e cospe no chão em sinal de desagrado.

Aquele solo já fora limpo um dia antes da vinda desse tipo de

‘civilidade’, e a atitude de Pío reforça a interferência predatória daquelas

pessoas. Ele ainda é audacioso em sua última declaração, agora dirigida

à Marlene: “Você se descontrolou, mulher.”

Não muito atrás ouvimos passos, depois ruídos de pedras deslizando,

murmúrios. De repente um susto, era a única situação capaz de deter

aquelas discussões tolas ao redor. É um acidente, e ele veio para a jovem

Ella; cheia de vida mas tropeça e sente seu corpo se quebrando. Caiu

logo pertinho dali da consciência de cada um. Está pelo chão, mas a

jovem ou a consciência? Ella fala aos prantos, e nesse intervalo é

encoberta pelo descaso de outra aglomeração chegando. Ella entendeu

por fim que ninguém quer se dar ao trabalho de ajudar ninguém; pelo

menos é realista; jovem mas realista. Adverte: “Alguém me (...) me deu

um tapa no rosto (...) que me acertou a direita (...) Eu lhe ofereci o outro

lado, a esquerda; para que se possa (...) igualar.” E o rosto tomba. A

descida é tão lasciva para alguns, principalmente para os solitários.

Fecha-se então um período para a jovem Ella, para todo mundo,

perdem um tempo que passa. Foi a primeira baixa ali.


Retornam à cena Ama, Ária e Ágata. “Qual atual estágio da

Humanidade? Fraco, insuficiente?”, elas recitam, elas contemplam. “Se

outrora fomos virtuosas e espiritualizadas criações, qual seria a razão da

imaturidade?”

– Buscamos a magna Fraternidade, dizem mais uma vez juntas as vozes

infladas de tamanha inocência, seu sibilar é a da mais pura vibração.

Vocês entenderam, não é!?


VIII

Foram os batedores, seguidos de Aflições, Jonh, Mofana, Moborg, a

baixinha divertida entre outros os que mais desceram pela fenda em

sequência. Tinham palpites e caminhavam se esgueirando e falando

besteiras para passar o tempo, ainda que o ar fosse ficando cada vez

mais débil. Pegamos o gancho de um assunto qualquer deles ali.

Começa Jonh:

– Te digo, Gentil, no meu país não é tão diferente assim, há tanta falta

de bom gosto quanto existe de sobra muita farra com jogos e diversões.

Se esbaldam em licores e cantam e dançam até que o amanhã seja outro

dia; por qual motivo se preocupar com o passado e com o que já foi

iniciado? Isso aí. É o que raciocinavam. E já é muito, já que nem saem

do automático!

– Saíam, quer dizer, frisa Gentil, um dos habitantes locais, sempre

sorridente.

– É (...) uma organização de-qualquer-forma, ou do-jeito-que-dá, enfim,

continua Jonh.

Gentil não gosta muito da opinião de Jonh, ele se agita para retrucar:

– Ah tá, bem (...) A população (...) sem seus brinquedos e distrações,

sem sua belezas e esculturas naturais, e hoje também sem uma fauna e

flora ricas (...) Pois é, está é perdida! E aí, vai e pede auxílio e

empréstimos, não formula nada, apenas recria, pega as migalhas da

sorte. Da medida que vier, da forma que for e está bom; assim também

pensa o miserável que com um gole d'água se satisfaz e dorme. Amanhã

é outro diaaaa (...) Desejam consideração e risos, esperam voltar às

próprias ocas de concreto, ou a conjecturar a próxima moda da vez.

Leis? (...) ‘Dá igual’ é seu livro. ‘Pensar’, ‘filosofar’, isso tudo é bobagem.

‘Ser vai para cadeia, ‘matar vai para cadeia, ‘pedir vai para cadeia (...)

mas ‘comprar te livra, ‘usurpar despista, ‘reclamar te redime, e ‘ter é fé.

Borra e ofusca você, Jonhhhh, você um cidadão demasiado suspenso

por opiniões (...) toleráveis.

– Cara, tu é muito ousado! Até parece que você não é cidadão de algum

lugar. Acho que nem entendeu o que quis dizer

– Me deixa continuar, já te vi falando muito, se tiver que faltar o ar, que


seja por este alívio, pelo menos eu falo em meu nome e por muitos dos

que me compadeço (...) Nessas suas bancas de escritos, se vendiam

manuais e mais manuais, os livros estilo fórmula chamados de

autoajuda. Estou mentindo? Hein, abastado? (...) Eu conheci! – e o

Gentil passa os olhos pelos demais já mudos e atentos. Muitas outras

cabeças se voltavam com curiosidade para o que ele dizia. Gentil se

enche de vontade para delinear o quanto as pessoas “buscavam uma

satisfação sem limite, quer de um prazer que não se renova pedindo,

quer do que vier; têm no prazer apenas consolo rápido.

Emoldurar a face te exausta, Jonh? Você e os psicólogos dos governos!!

Dizem ‘Apenas relaxe, deixa acontecer.’ Contextualizam que todos

temos lá nosso momentinho de estrela, mas é para distrair a gente.

Quem sabe, não é mesmo!? Quem sabe o de amanhã se não

planejamos? Como e do que se libertar para qual talvez!?

Digo que também se servem da propaganda, e dos valores apenas

monetários idem; não é difusa sua obsessão por todo esse lucro absurdo,

então? Mas por que eu digo isso, por raiva, rancor? Não, mas por medo

do que mais um alucinado pode trazer para a gente. Se eu penso em

continuar vivo é para melhorar. Quem quer retornar às demarcações?

Eu quero sobreviver, voltar a viver bem, quem mais?”

– Eu não invento nada, juro, mas sou um pouco culpado, eu sei, não

precisa relembrar (...) já sabem, todos nós somos sedentários das

cidades, declara o atacado Jonh.

– Fica na tua, rapazinho, adere a idosa angustiada, ela que não se

imaginava ali nesse estado ainda em vida; não imaginava nada mais para

esta existência, diga-se de passagem; quem sabe para outras, não é!?

Mas está de pé, segurando a bolsa. Ali e decidida.

– Que é, então, continua o Gentil, como se resumir por todos? Que

fazem as crianças quando não choram? Chamam atenção?

– Ué, eu sou de lá também de onde ele veio. Deixa o cara. Tudo bem,

conterrâneo!? – fala Saulo Viegas para Jonh.

– Opa, tamos indo, né. Enguicei não.

– Somo demais, Saulo comenta se fazendo de infantil.

– Mas é claro, você até está certo, seu Gentil, intromete-se Aflições.

Quem nunca ouviu aquela propaganda? “Vai cruzar? O governo dá

preservativos. Já copulou? O governo oferece a pílula do dia

seguinte. Teve criança? O governo manda uma bolsa família que dá (...)


para o gasto. Resolveu virar bandido e foi em cana? O governo te afaga

com uma cela e barriga cheia. Todo presidiário com filhos tem direito

a um auxílio de tanto ‘por filho’. Agora experimenta estudar e andar em

uma linha honesta para ver o que é que te acontece!”

– “Se você é um desses sedentários”, eles perguntavam na chamada da

propaganda, complementa Jonh.

– E como isso não deu ruim até hoje??? – pergunta Saulo para o Jonh.

– Como não deu? Onde estamos, retardado!? Tá tudo ligado, parceiro,

se intromete a tal Selena. Perdeu a paciência e o decoro.

– Ah, povo otário, intercede a baixinha divertida. Tudo é bolsa, tudo

tem que ter auxílio. Justamente para calar a boca das pessoas, acomodálas

(...) a deixar mais e mais em um labirinto de mi-no-rias oprimidas.

– Isso é o que foi mostrado para a gente, né, imagina o que não rolou

que nunca se mostra aos ouvidos dos normais (...), pergunta novamente

Saulo. Pensa em algo a mais para falar, fica a impressão de que lembrou

de algo importante que fora deixado para trás. “Como as pirâmides

reveladas (...) Vocês viram quantas pirâmides apareceram pelo planeta

depois dos terremotos?”

– Pois é! Se isso não for levado em consideração, sei lá (...)

– Existem muitos mistérios e poucos exploradores, isso sim

– Você está se surpreendendo demais! – diz Aflições para Saulo.

– É muita volta! – alude a tal baixinha. O lanche feliz nosso que somos

obrigados a ver todo dia, o que deixamos acontecer (...) nos fartamos,

finaliza a baixinha.

– Mesmo assim, Jonh quer expor, eu voto por (...)

Entretanto, antes que ele possa terminar, brota Mofana, vem camuflada

detrás da fila de gente, sorrindo, e empurra Jonh pelo barranco. Jonh

solta um grito e despenca até não ser mais visto na escuridão. Todos

ficam estarrecidos com o som de sua morte.

– Sua estranha! – adverte Aflições.

– Ele era meu ex, confessa Mofana.

– Isso é motivo? Você está rindo (...), fala a espantada Selena.

– Cruzes! – assusta-se a baixinha, que tinha as mãos na boca.

– Isso não foi legal, arremata Saulo.

– Fiquem quietos e andem, queridinhos. Confiem em mim! – fala a

assassina.

– Vamos ser os próximos, Mofana?


– Espero que não (...) Olha, ela muda o tom da voz para algo mais

brando. Por dentro seu desespero a corrói, está fria. “Eu me penalizo

sim, mas Jonh em algum momento estragaria tudo. Eu o conheci muito

bem.”

– Isso lá valeu a pena? Não te trouxe nada e ainda te afastou mais da

gente, diz Selena. Isso ecoa em sua mente.

– É menos um para dar despesas, vem Moborg censurando. Além do

mais, ele era um mala.

– Isso mesmo, clareia a baixinha divertida, como uma máquina

retorquindo. “A vida dá rasteira nas pessoas que se descuidam, é o que

sucede.”

Calam-se apenas para recomeçar a andar em sua fila indiana. Mesmo

assim, o Gentil não deixou passar barato:

– Ora, vamos improvisar! Se ninguém falar nada morreremos é de tédio.

– Quieto. Economize nosso ar, ô engraçadinho. Se fosse homem de

verdade, optaria pelo silêncio nessas horas. Ou isso ou vai para longe

em outra trilha, fala Mofana, dura.

Gentil lhe acompanha o movimento da boca. “Miserável”, ele pensa.

Emudecidos, eles continuam se arrastando.

Perto, Selena pergunta para Moborg, que só orientava a andança:

– E você aí, quer morrer?

– Não tenho medo não.

Selena se vira de corpo inteiro para Moborg. Ele fica sem graça, já que

a estava esgueirando mas não esperava tanta retribuição dela. Era uma

bela mulher, e o que ela diz anima o desconfiado guia:

– Eu quero morrer, e você? Uma hora dessas.

– Eu quero você, estava te observando.

– Uma dupla faz outra!

– Eu faço você, então. Vamos por outras vielas, Selena.

Diante disso, os dois saem de fininho para longe do grupo, por outra

escolha. A oportunidade faz a causa. Ninguém percebe.


IX

Apagamos duas cavernas ao lado do bar, confessa o pai. E dormimos

como pedras a família toda, era hora de relaxar o mínimo que fosse.

Umas cinco horas depois de levantarmos, começaram estrondos e

ruídos de movimento de águas abaixo da gente. Levantei e fui conferir.

Curiosamente, o ar foi melhorando um pouquinho, apesar da

apreensão. O grisalho acena para mim. Vejo com ele um amontoado

se reunindo ao redor do jardineiro, o Muca. Chegamos todos perto dele,

que orientava calmamente porquanto era abordado por nossas

carências:

– Hunf (...) Vê esse punhado de areia? – mostra um montinho em

forma de pilha, parecia a miniatura de um morrinho. E prossegue:

– Afortunadamente, mesmo querendo ou não, existem os grãos

normais, os que se mexem ou só evaporam de acordo com as

intempéries; em sua maioria, não fazem muita diferença no geral. E

continuam alugando espaço na areia comum, são, igualmente, parte do

volume. Os que já são meio cristalizados, que a Natureza fez a figa de

apurar um cado mais (...) esses se afastam do meio ordinário (...) são

espaçosos demais, então a areia comum vai aos poucos rechaçando, até

por saber que eles representam tudo aquilo que poderiam ser, mas só

‘se’ tivessem sido mais enfático, isso em termos de vontade.

Repare que certas almas são irrecuperáveis, continua o Muca, é o que

acontece! Mas que infortúnio, muita gente todavia e ainda travada por

um céu ou inferno, que bom ser Deus maior que tudo isso! Atente para

quem ainda tem pureza; a pureza e o amor são como um bálsamo.

Rogo por aqueles que já nem sabem mais o porquê de lutar, são como

totens. É triste, mas o fim desse tipo é sempre um rastro de morte. E

por conseguinte não é uma questão religiosa ou política, é loucura

generalizada! (...) sem a felicidade de uma família, esqueceram até de

qual canto vêm. É bizarro, antinatural (...) esse estado (...) Me sinto um

pouco bobo com esses conselhos, trata o gasto Muca. Ele estala os

dedos, se espreguiça; as linhas do rosto estão mais bem desenhadas a

despeito da idade avançada. Eu complemento, tentando colaborar:

– E, pelo menos, não assustar crianças, brinco com ele. As coisas


simples ganham profundidade. “Totens, antinaturais, uma era passada.”

– Sim, boa! Mas, por hora, vamos nos resguardar, preparar (...)

ganhando força.

– Para quê, amigo?

– Quando o barulho das águas cessar, fala o jardineiro. “Não deve

demorar.”

Após alguns minutos, reaparece Kia, vindo bem descomposta. Ela me

puxa pelo braço e diz o que quase me derruba:

– Pai, não quero morrer! – não esperava aquilo. Quase tombo, Deus

me dê forças para não fraquejar logo nesse ponto. Digo o que consigo:

– Mas filha! Calma. Eu sei que ainda corremos risco. Bem (...) você se

esqueceu de tudo o que já falamos sobre morte? Mesmo antes disso

tudo aqui (...) Vem para todos, meu doce. Querendo ou não, e à

qualquer hora. Uns podem até escolher; não foi o nosso caso, fomos é

jogados nessa. Mas então é nossa vez!? Quem sabe? Se for, só Deus

sabe. E Ele sabe!

Perto de mim, Donatela intercede com a voz embargada, já algo

monótona que “temos é que encarar, só por acaso (...) são fatos (...)

caramba! Ela está com medo, eu também”, mas eu não me dou por

vencido e digo para elas:

– Vocês são fortes, eu sei. E você, Kia, não porque é minha filha que te

defendo, mas porque sinto isso.

Minha filha chora. Falo demais. Às vezes era melhor um gesto de

carinho. Eu a envolvo com meu abraço então. Minha esposa faz o

mesmo, se deixando cair em mim com nossas outras meninas. Acabo

falando mais, deve ser porque minha voz sempre acalmou as meninas.

– É a conjuntura, são os humores, minhas lindinhas.

– Muito cansada mesmo, humm, e respira fundo a preocupada Kia.

– É uma baita chateação, gatinha.

– A avidez nos faz sonhar e fantasiar; nossa mente nos tapeia! – diz

Donatela, me ajudando.

– Eu vou tentar ficar centrada, Kia se exprime da forma que consegue

e nos abraçamos mais.

– O senhor sempre fala assim, como se fosse fácil, fala a pequena Magali.

Não há receios na voz dela, de verdade que estou admirado!

– É como eu encaro, filha. Consigo arrancar um risinho daquele


ostinho. Mesmo meio murchinho, ainda é a face mais bela que poderia

me presentear, e vir a ser; minhas meninas são minha vida!

– Já fiquei melhor, chatinha, e Kia mexe no cabelo de Magali. Pego

Nana no colo e lhe dou um beijo em sua bochecha cheinha. Suas

mãozinhas já me buscavam.

– Vamos dar uma volta, amor, Donatela pede. E saímos para rodear.

Vou agradecendo a Deus por um momento desses, e por nossa união.

Passam-se horas, e mais um dia inteiro. Há tanto marasmo rondando

(...) que soa raro! Mais nenhuma notícia veio além dos diferentes sons

de quedas d’água por perto.

Então, a fome nos ataca. Ficamos nervosos. As palavras tendem a

escassear. Era sabido de todos que não haveria um esquema

ininterrupto (...) E aí andávamos de um lado a outro mas não havia o

que fazer.

Fome. A fome é feia demais. Já ouvi isso, e deve ser mesmo; ouvi

também que ‘dessa forma, nossos atos cabem cada vez menos, ou se

tornam cada vez mais nocivos e irreais, sempre envoltos por muita

desatenção’. Nessas situações é que nós visualizamos até aonde a

curiosidade pode definhar (...) Digo isso porque começamos a fuxicar

a gruta, nada muito longe, mas na esperança de qualquer matinho que

fosse; quem sabe um cogumelo ou inseto (...) na verdade, quem sabe

qualquer coisa para comer, e se distrair. Não havia escolha, ninguém

teve chance de trazer muita coisa depois do que aconteceu nas cidades.

Seguindo os ouvidos, a correnteza que estava perto, quem sabe se havia

ou não um peixe, por exemplo, ou estou louco? O restante da cambada

foi por outro lado, mas aqui perto, na face oeste, ouvimos bem nítida a

corrente d’água, que bom era aquilo! Claro que escutamos, aqui perto,

foi sim.

Nos separamos em duas partes: uns explorando pela água e outros de

guarda. Fixei o posto de Donatela e das minhas meninas em uma boa

localização. Mas subi de volta às rochas que irrompemos dias atrás

quando demos entrada, fui com mais uns cinco, além do grisalho e de

Muca. Era isso que estava faltando (...) ver como estaria a vida lá fora

(...) aquém


X

Na outro plano, mais abaixo ainda, o sangue continuou fervendo na

descida total pela fenda. Traziam o que havia sobrado do bar geral.

Tamanha era a ânsia de notícias que estas se destilaram em boatos cada

vez mais acalorados, viraram muita discussão. Logo havia aquela

lavagem de roupa suja. O papo foi aumentando, surgindo dúvidas e

conclusões em muitos. Quem é que estava certo? Falavam de tudo um

pouco, segue o que foi possível captar:

– Não há ser que não precise de certos paliativos, a baixinha divertida

costurava suas palavras, uma a uma. Mas a roupa que ela poderia vestir

era a incógnita! Ela, como muitos ali, não era transparente com suas

intenções.

– Para aguentar o tranco, olha, Saulo corrobora.

– Vamos, me passa essa garrafa! – fala a divertida de novo.

– Vocês só bebem, vão escorregar, adverte a esperançosa Marta, que ia

muito pelos alpinismos durante sua juventude.

– Calma aí, tia! – diz um irritadiço, com Aflições pertinho – Não poda

a gente que não somos plantas (...) me acompanha que não sou novela,

e ele ria alto.

– Nem me tome por exemplo (...) sou uma pessoa ruim, sei disso, e

morrerei assim (...) sinto, Aflições completa a frase, para o embaraço

do irritadiço.

– Ih, frases prontas, caçoa a baixinha.

– Mas que discurso longo, demorou para produzir? Me espanta como

tem tanta gente diferente por aqui, repara a intrometida Marlene, que

se deixou ficar para trás depois das críticas dos batedores.

– E você, quem é? – Mofana indaga.

– Pode deixar que sou amiga, Marlene tenta algo. Tem uma

predisposição para ser pisada.

– Pois nem moleste o passado ou me encha o saco com mensagens de

atualização, fala a divertida, já altinha, querendo aparecer mais que as

outras.


Durante essa divagação, lá do fundo da fila, alguém grita energizado:

“Nova era é isso, chefia, acabou o escapismo.” Muitos debocham e

trocam olhares. Apesar do disfarce que o álcool provocou naquelas

cabeças, havia muito suor frio. Gentil é o primeiro a contestar:

– Pior que eu concordo com ele. Não tem mais essa não.

– Com certeza, concordou Mofana, meio que se dando conta. Talvez

ainda querendo tirar o foco do que fizera.

– Sim, e daí? Voltem a caminhar e não falem tanto para que sobre

oxigênio, Marta recrimina. “Respirem devagar.”

– Eu sinto o ar bem na boa, parece até melhor, adverte Koko, e se

recupera e ajeita o corpo. Anda com passos decididos.

– Eu ficaria louco de verdade se não me expressasse, fala o Gentil, mais

para si do que para os demais. Mofana ouve e se interessa. “Continua”,

ela pede instigando novamente para assistir aqueles tropeços. O Gentil

finge que não ouve.

Aparece Gi, até então estava ocultada por um boné e cabelo preso. Sua

finura chama atenção, e ela se gaba com os seus gestos. Veio aos poucos,

até comedida demais. Mas ela quer é justamente interceder com as

próprias palavras:

– Queridos, a inteligência é que resolve, não o desespero, ela expõe, e

tão logo observa mais gente se resvalando em conversinhas ásperas. Gi

não se contenta e fala mais:

– Saibam que vocês são um dos melhores expoentes de astúcia

moldados pela Vida ao longo das Eras, e têm sim sua relevância!

– Oi? Belas (...) palavras, de onde você veio? – Koko se interessa.

– Mas pagamos o pato por sermos, ‘por estarmos despreparados’,

Marta critica. Depois mais gente se debate tagarelando:

– É, e você acha que alguém entregou um manual para a gente?? Vai

nessa, amiga (...) Eu cresci em orfanato, sabia!? Fomos jogados nessa,

claro que era para errar; o erro faz parte do processo também. Sem essa

de juízes!!! – Marta diz, afinando o papo.

– Opaaa, se entusiasma Koko. E você, qual teu nome, ele quer saber,

olhando para Gi. Porém ela não faz caso.

– Voltaram nessa, ai, fala a baixinha, com o bom ouvido que tem.

– Crianças, não é hora para azarações, Marta tenta cortar os jovens.

– Agora então, dá mais vontade ainda de rir! (...) tão pequeninos,


jovenzinhos, impomos caprichos, passamos por cima do que viesse;

nem ligamos para o preparo, atenção, evolução e ordem pela qual

passou este planeta. Já era. Resta este sofrimento, fooooi, resta

remediar-se ainda mais, as incertezas só fizeram aumentar! – volta

Marta a falar.

– Volta para a escola, ô! Evolução não se vê, Koko gasta.

– Resumindo (...) posso continuar?

– Depois, Marta, não estava poupando fôlego? – Mofana diz.

– É, dona, se já opinou, deixa a palestra seguir, Maldonado interfere.

– Temo é que a nova era chegou de fato, mas e aí? Vejam o resultado:

quem odeia o amor vai continuar odiando e quem não odeia vai passar

a odiar por revolta (...) Talvez nesse ponto exista para todos uma certa

comunhão, e se cala o Gentil depois dessa.

– Na minha época, “nova era” significava paz; hoje sabemos quando

chegam com isso de “nova era” pelo estrondo das bombas caindo, dos

risos de satisfação. Ah quem dera um lugar sem brigas, só não sei se é

possível, explica a vivida Marta. Porém, sua voz é fraca.

– A ‘tal’ da “nova era” chegou para quem a delimitou. Para os outros,

se continuam na mesma, estão é cegos; não adianta mesmo, não

enxergam nem o que está na cara. Não sabem o que é futuro, morgam

no presente! – diz e em seguida dá uma golada em seu copo a baixinha,

está visivelmente abatida.

– Vocês sabiam que pôr à vista de todos faz parte da era de Aquário? –

Marlene se manifesta, mas outra vez fica no vácuo. Apenas Saulo

dialoga com ela, dizendo que “não é dessa era que nos referimos, essa

está muito distante ainda.” E ele continua, deixando Marlene para trás:

– “Nova era”, ah tá. A nossa então é diferente da do dilúvio? Pra gente

vieram os gases podres, não a água purificadora, Saulo expõe mais

lúcido e seu olhar se perde após o que diz.

– Essas discussões são muito saudáveis, deixam as pessoas em contato

umas com as outras, e favorecem inclusive soluções. Em uma coesão

deve haver unidade, pensamento. Se para cada reclamação de um de

nós também brotasse uma solução, estaríamos em um plano muito mais

bem distribuído, acalenta Gi.

– E descer, e descer, Marta gesticula.

– Maçante! – se irrita Koko, mais para fazer tipinho para cima da Gi.

– É nisso que vamos, não!? Lá embaixo tem água, diz Mofana, se


cansando. Até para ela as dificuldades são aparentes.

E Gi termina nivelando com bastante destreza, cercada de poesia,

concentrando sua educação em quem seu olhar pudesse se prolongar:

– Pelo passado revisitado nos sentimos mais tranquilas. Mas volta

aquela sensação (...) tantas horas, dias, semanas nas drogas exageradas

que comungamos (...) nas ficções e interações rítmicas divertidinhas,

nos corpos ocasionais (...) na sedação por fármacos ou se embebedando

e desconcentrando o prumo e nosso eixo; nas festas ou nas fases e

relacionamentos que nos bambearam, você, eu; (...) ficamos

emburrados ou desanimados, ou tudo isso e mais. Se amar sem igual

nos encarasse em todas ocasiões (...) muitos nunca sequer tiveram

contato (...) “Ah, apenas se teu hálito estivesse quente, riria muito mais

(...) Assim a coragem, assim estar.”

Somem após o que foi dito.


XI

Eu volto. Como bom patriarca sigo preocupado com o futuro da minha

família. Toda ela. Mas ao pensar na gruta e nas pessoas que se alistaram

para a descida através da fenda, surda, bem (...) nada disso me assusta

mais, porque sei do seu propósito. Temos então o novo ar que

precisávamos?

Subimos algumas duas horinhas mais até que chegamos tranquilamente

ao começo da gruta. Vasculho ao redor, ainda dentro dela, gostaria de

alguma pista. Havia lá alguma coisa escrita à direita nesse corredor,

parecia até piada, como uma paródia: “Kruse Kredus”, em placa bem

adornada de metal. Achei só bobo, sacação de outra época. Por ser

infantil, é até engraçado. Os outros não ligaram, deviam ter mais

questões na cabeça. Mas quer saber, rir é legal, não só desconfiar, ah

sim!

Aí é que que a coisa muda de figura e as lufadas de vento trazem todas

essas (...) novidades. Mil anos seriam pouco para descrever a sensação,

odores. O planeta estava mudando, até que enfim! Era um

renascimento, era viver de novo. Olha, acredito que quando tem

sentimento, quando aflora qualquer emoção dessas que não se sabe

para quê (...) e elas vêm sem tchauzinhos paras câmeras, por exemplo;

quando é dessa forma as possibilidades são infinitas. Além do mais,

quem precisa de uma lente? Não faz falta droga nenhuma algo entre

minha visão e mundo; nem nada está ligado aqui no meu eu, basta

minha carne e ponto. Só minha visão que enxerga além desse escuro

eletrônico que graças a Deus virou passado (...) Penso tanto, revejo uma

frase até então boba, quase uma propaganda que pedia: “Venha

desequipado, traz só você. O resto, a gente conversa.” (...) Hunf, bem,

deixa quieto, devo voltar minha atenção para o ambiente que

revisitamos, e toda essa limpeza.

Em vista disso, eu oriento meus companheiros na maior boa vontade,

cheio de tato:

– Senhores, veremos como está lá fora, tenham em mente que (..)


– Vamos subir de toda forma!

A resposta do grisalho foi tão desigual e abrupta quanto o efeito, nem

me deram tempo de pesar se iria, se ficava. Será que perceberam o

mesmo que ei? Gostaria de ter admirado mais, e refletido, mas tudo

bem. Fomos em bloco saindo como que carregados. Alguém falava algo

sobre “lá fora podermos nos redimir o máximo possível.” Há de ser,

mas depois não ouvi ninguém mais; lá fora tudo mudou de figura! Meus

pulmões se enchem rapidamente, havia mais dessa sensação; que

instante, que afobação, euforia (...) a se dissolver. Imediatamente o ar

nos petrifica (...)

A visão poderia na hora ter matado qualquer um de nós, ou zuretado o

pouco que sobrara de sanidade, entretanto nós (...) nós paramos; bem

provável que o clima também. É, pairamos. Lentamente.

Não demorou para o grisalho e outros dois caírem asfixiados. Não

suportaram este clima, ou o susto. Morreram em seguida sem que se

pudesse fazer nada, nem consegui ver seus rostos. Deus tenha piedade,

tomara que não tenham sofrido. Nós os restantes ficamos mais parados.

Mas esse ar! Com isso que respiramos aqui em cima ficamos nos

sentindo ótimos, alguns de nós arriscaram inclusive sorrir. Tudo vibrava,

meus olhos brilhavam. Parecia que nunca antes havíamos estado fortes

como agora com os pulmões dessa forma. Como se fossemos de

verdade refeitos, mesmo estáticos. Porém havia um segredo ali, e

depois desses instantes de frescor veio a cobrança. Senti um frio

cortante e a realidade cobrando nosso lugar de visitantes no planeta.

Dois gritos de socorro são lançados, eu escuto:

“NOS CONTAMINOU TAMBÉM!” “AI, NÃOOOO...”

Sem saber muito como agir, tenho apenas a convicção de que precisava

falar com Donatela e (...) aviar as meninas! (...) Isso é a luz, então? A

que nunca antes aceitamos? Como pudemos tanto querer viver sem

esse ar? Que éramos além disso?

De todas as formas, o futuro é e sempre será sinônimo de incerteza,

isso eu chuto também (...) sem dó. Convém agarrar-se a algo? Analisar

ou atinar às vontades? Eu me escoro. Meus dedos tocam a superfície

de pedras, minha mão escorrega ali (...)

Vejo a pequetitinha Nana, ela que era de pegar na mão e morder, minha

lindinha! “Sobe na cacunda, ném”, ah eu lembro, filha. Que saudade


dela e das outras!! Vivi muito na companhia delas, foi lá que aprendi

que nada escapa ao olhar de uma mulher, é o adagio. Igualmente, o que

se esquiva da vista da criança (...) e dos nossos deveres? Elas me

transformaram em um pai! E para isso eu vim a esta (...) Terra.

Só me resta cantar, minha Nana, nina Nana, a musiquinha do lanche.

Fica indo e vindo na minha percepção, no ritmo do inspirar e expirar

do meu coração, vamos lá:

“Aipim frito, bãooo com carne seca / e caldo de cana, nana, nana / À

beira da estrada nana, cana / Qué jantar? Qué!? E Nana, nana, cama.”

Nesse decorrer, Magali, Kia, Donatela, todas juntas, vejo minhas

meninas sorrindo e indo ao ponto perto da entrada (...) comigo lá,

paradão olhando o céu (...) elas me encontraram, sim! Agora tudo se

encaixa, pelo menos vejo a resolução (...)

Magali! Magaliiiiiiii, eu berro (…) com o que me resta de sopro; nosso

Deus é Paz, Vida e Morte, rogamos piedade a Ele, Ele que é a Natureza

(...) e nós humanos somos da Natureza. Tudo faz parte de uma ordem

e ciclos, a ordem e os ciclos que são dos mesmos Dele.

Convém abraçar isso, e seguir, é o natural. Filhas, é tão boa nossa

passagem, como o carinho que emanamos em todos esses dias juntos

(...) dispomos de um parafrasear válido (...) Minhas filhas, Donatela, é

só andar (...) podem sair também, é nossa vez de nos ausentarmos da

escuridão de antes. Que termo! Vamos com tanta voz dizer, essa joia

que prevalece, é a impalpável claridade. A voz natural, ela que é (...)

todas as vezes (...) uma energia extra na existência. Tentem o ar aqui

comigo. Passamos bem por aqui, tentem, é legal, e vai se multiplicar (...)

como nossas funções e usos. Perto de si e pelos demais (...) alguém fala

através de mim (...) ainda que só uma se salva nesse ar cor de (...) Magali.

Ela vai estar na reconstrução do mundo sensível (...)

Não muito depois aparecem os seres iluminados que antes se

chamavam Ária, Ágata, Ama, além de Tella, Zuhy e Mooié, todos

saíram ao novo ambiente e nada lhes ocorreu; a seguir puxaram a

pequena Magali. Foram os que prevaleceram. Não há fim, um fim seria


apenas um ponto, demarcação, algo transitório no entender dos que

tocaram com suas mãos o solo. A Vida segue, que bom


Esta publicação foi iniciada por volta de 2012 (Talvez dezembro) até

2013 (Setembro) e revista entre 2014 e 15 (Março? Quem sabe) Mas

agora em 2018 posso dar graças a Deus por enfim oferecer uma edição

digna ao tema de “Atos”. O autor só agradece, estamos nessa!


Paulo Vitor Grossi é escritor e músico espiritualista, publicou entre

outros títulos a novela “Sim & não”, além do argumento de “Amor,

Ódio, Redenção e Morte”. Pela Poesia, lançou “Cura”, “Servidão”, “A

Conferência”. “Cabezada”, “Esencias”, “Maneja” e “El Viajero Loco Ø

§ La May Madre” são suas obras em espanhol. Participou como

guitarrista e vocalista das bandas Alice, íO, Instrumental Vox,

Ummantra e SAEM.

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Marília Veloso é fotógrafa e editora da página “Pela Harmonia”. Assina

também o blog “À Zíngara” Sem ela não haveria capa alguma!

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