2017_Luzes-ApostoloPulchrum

revistadp

luzes da civilização cristã

Rastaman3000 (CC3.0)

Revista Dr Plinio 226, Janeiro 2017

Quadros impregnados

de sobrenatural

Ao aplicar seu dom do discernimento

dos espíritos na análise de alguns

quadros de Giotto, Dr. Plinio descreve,

além de traços das almas de diversos

personagens, a atmosfera inocente e

sobrenatural que os envolve.

G

iotto é um pintor italiano do fim da Idade Média,

quase Renascença, admirável. Não sei se

ele foi um santo como o Beato Angelico — que

é o magnata da pintura da graça —, desconfio que sim

e desconfio que não. Porque na literatura comum — a

que chegou a meu alcance, nunca tive tempo de procurar

um livro especial sobre ele — há um silêncio sobre sua

pessoa. Ou porque ele foi muito bom, e os maus querem

esconder; ou foi muito ruim, e os bons desejam ocultar.

Mas há qualquer coisa que não está clara. Enfim, Giotto

pintou muitos quadros, a meu ver intensamente impregnados

de sobrenatural.

Twice25 (CC3.0)

Frieda (CC3.0)

Cappella degli Scrovegni, Pádua, Itália

30

Giotto


Divulgação (CC3.0)

Inocência e dignidade ante a

hipocrisia dos prevaricadores

Em Pádua, na Cappella degli Scrovegni, aparecem cenas

caracterizadas por uma inocência ainda toda medieval,

numa atmosfera sobrenatural magnífica.

Essa famosa capela situa-se num parque muito bem

cuidado. Dentro, o chão é todo de mármore esplêndido,

com um desenho agradável, um jogo de cores bonito. De

um lado e de outro, vemos estalas reservadas com uma

espécie de gradeado de mármore também, muito bonito

e bem trabalhado.

São Joaquim e Sant’Ana são os pais de Nossa Senhora.

A construção dos fundos simboliza vagamente o que

Giotto imaginava como Templo de Jerusalém, mas é

muito mais algo medieval com reminiscências românicas,

ou com prenúncios renascentistas, do que qualquer

outra coisa. Na primeira fileira, vemos um personagem

vestido de cor-de-rosa que conversa com outro; ambos

usam hábitos à maneira de batinas, o que era corrente

para todo o mundo na Antiguidade. A cor de um desses

trajes seria um pouquinho verde-ervilha, misturada com

um pouco de dourado. Vejam como a cor-de-rosa é muito

delicada. Um desses deve ser sacerdote judaico; e ao lado

do estandarte está São Joaquim.

Ele e Sant’Ana não tinham filhos e isso era considerado

uma vergonha, porque quem não possuía filhos estava

condenado a renunciar à esperança de ser um antepassado

do Messias. A grande alegria era viver com os

olhos voltados para o futuro, à espera do Messias que

viria salvar o mundo, e seria o centro da História de Israel

e da Humanidade. São Joaquim está sendo conduzido

para fora, e vê-se na atitude dele uma certa vergonha.

Ele quer resistir um pouco, argumentar porque se

sente inocente, mas o outro, muito mais corpulento do

que ele e com a autoridade de sacerdote, parece dizer-

-lhe que não tem remédio e vá embora. Atrás, um personagem

muito mais graduado, com uma capa vermelha

sobre uma túnica que parece meio dourada, o qual olha

a cena como quem faz executar as suas ordens por um

sacerdote de posição inferior. É a humilhação deste homem,

que seria um antepassado do Messias.

Notem a cor do céu, a luz espalhada é inocente, não

tem nada de comum com a poluição da luz nas babéis

modernas, nem com a luz do Sol de hoje em dia. É uma

luz diáfana, bonita, encantadora, que parece perpetuamente

matutina.

São Joaquim, na humilhação em que ele está, parece

muito virginal, muito digno. O sacerdote, meio misterioso.

Vê-se que São Joaquim é um homem limpo, até fi-

31


Web Gallery of Art (CC3.0)

Luzes da Civilização Cristã

sicamente. Quanto ao sacerdote, tem-se a impressão de

que, por debaixo dessas batinas, há sujeira. E mais suja

é a figura de vermelho ali atrás. São Joaquim representa

a doçura da Nova Lei, os outros exprimem a hipocrisia

e a dureza do sacerdócio prevaricador, no fim do Antigo

Testamento.

São Joaquim faz penitência

São Joaquim achou que tinha faltas. Era geralmente

admitido que sobre quem não tivesse filhos pesava o

castigo de ser estéril para o Messias. Então, ele vai fazer

penitência, num lugar ermo, deserto. Vemo-lo aí numa

atitude muito digna,

triste, confrangida, de

quem está fazendo um

exame de consciência

inútil, porque ele não

consegue encontrar a

sua falta.

E dois pastores

vêm falar com ele. Notem

como se vestia um

pastor daquele tempo!

Como estão bem

trajados, e é acertada

a escolha de cores

nesse quadro penitencial!

São Joaquim

mais uma vez de cor-

-de-rosa. Um homem

velho, cujo cabelo está

entre louro e grisalho,

Web Gallery of Art (CC3.0)

profundamente compenetrado e envergonhado, pedindo

perdão das faltas que ele não praticou. Ele não sabia,

mas assim expiava as faltas que os outros têm, mas não

querem reconhecer. E os pastores com certeza estão querendo

oferecer alguma coisa para ele. No chão há umas

ovelhas e na frente um cão pastor.

É interessante o seguinte: os pastores estão com trajes

meio róseos; os rochedos, que indicam uma natureza um

tanto desértica, têm qualquer coisa de róseo também. E

a ingenuidade das arvorezinhas que nascem do rochedo

é encantadora. Uma criança inocente, que fosse pintar

arvorezinhas, pintaria assim, e nós sorrimos encantados

com o frescor de alma que elas exprimem. Mais ainda: o

jeito desse cão pastor

— que deveria atacar

o lobo —, diante desse

verdadeiro cordeiro

que era São Joaquim,

tem simpatia, se sente

contente.

Observem o salto

desse cachorro, o jeito

com que deseja ter

uma carícia de São Joaquim,

que não presta

muita atenção nele

porque está meditando.

No próprio cão há

qualquer coisa de puro.

Uma alma virginal

que fosse pintar um

cão pastor pulando,

pintá-lo-ia assim. Es-

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sa candura toda agrada enormemente a quem gosta da

inocência. O azul do céu contrasta com esse cor-de-rosa

com uma harmonia magnífica!

Um fato bonito e nobre

Vem então a primeira gota de luz, no meio dessas trevas.

Sant’Ana está rezando sozinha num quartinho —

que o autor procurou imaginar como seria naquela época

— e recebe uma revelação, na qual lhe é dito que ela

vai ser a antepassada do Messias, e então sua tristeza

vai se transformar em superalegria. Uma criada está do

lado de fora com uma espécie de roca — é frequente ver

isso em coisas medievais — e alheia à cena. O modo pelo

qual Giotto apresenta Sant’Ana inteiramente entretida

na revelação, e a criada completamente alheia — esta

é terra a terra, pensando nos seus fios, e aquela no terceiro

Céu — é muito bonito.

É interessante notar também a ingenuidade do desenho:

o quarto de Sant’Ana, um toldozinho de alvenaria,

e em cima um terracinho para as noites quentes. Embaixo

a criada trabalha.

O Arcanjo São Gabriel, que foi quem avisou Nossa Senhora

da Encarnação do Verbo, fala a São Joaquim e explica-lhe

o que sucederá. O Santo, então, está oferecendo

um sacrifício a Deus para agradecer essa grande dádiva,

esse grande dom que ele está recebendo. Mas se vê que está

com a fisionomia mais animada, mais alegre, e que ele

é um sacrificador sério. E se tem a impressão que um bom

número da bicharada que está perto dele vai perecer.

São Joaquim teve um sonho a respeito do futuro nascimento

de Nossa Senhora. Não é um sonho na casa dele,

mas ao ar livre; o teto é a abóboda celeste. Um Anjo

desce e comunica-lhe o nascimento de uma filha. E aqui

está o mistério: o direito de primogenitura e os direitos

sucessórios na Casa de Davi se transmitiam entre homens,

não entre mulheres; como é que ele, tendo uma filha

e não um filho, seria o avô do Messias? Mas lhe foi

revelado, ele crê.

Perto de São Joaquim estão pastores, camponeses,

vestidos exatamente como nas iluminuras medievais. É

muito bonito o tom que ele dá para o céu, um azul que

não é dia, mas uma espécie de claridade noturna que

também não é luar, e que circunda um fato tão bonito e

tão nobre quanto esse.

Jerusalém era fortificada, como todas as cidades daquele

tempo, com ameias um pouquinho à medieval. São

Joaquim e Sant’Ana se encontram na Porta de Ouro.

Nascimento de Nossa Senhora

Maria Santíssima nasceu e é apresentada pelas assessoras.

Essa vestida meio de verde parece ser uma mulher

especializada em assistir senhoras em lances desses;

atrás será alguém da família que também está assistindo.

E Sant’Ana recebe essa Menina que ela sabe ser

a Mãe do Messias. Daí ela acolher a Menina, não como

tantas mães recebem uma filha — uma bonequinha e começam

a brincar com ela —, mas com profunda seriedade,

contemplativa, olhando para a Menina.

A Menina está toda enrolada. De acordo com o hábito,

deve ter sido banhada e depois apresentada a Sant’Ana,

mas já com o aro de santidade em torno da cabeça. Porque

como Ela foi concebida sem pecado original, e re-

Web Gallery of Art (CC3.0)

33


Luzes da Civilização Cristã

cebeu desde o primeiro instante de seu ser uma inteligência

muito superior à de todos nós — de São Tomás

de Aquino, de Santo Antônio de Pádua, de quem quiserem

—, já tem em grau eminentíssimo a santidade. E

Sant’Ana está recebendo Aquela que é o Vaso de Eleição,

o Vaso Sagrado de toda espécie de graças, e ela olha como

quem diz: “Desta nascerá o Messias esperado pelas

gerações.”

Notem uns pormenores bem curiosos: a combinação

de cores da cobertura de Sant’Ana é bonita? Tem qualquer

coisa de contemporâneo. E, dentro de um quadro

atual, o preto tomaria um realce que não possui no quadro

aqui apresentado. E é agradável de olhar. Posta num

ambiente moderno, esta cobertura me daria a impressão

de meio modernosa.

Embaixo está a cena. É sucessiva, como história em

quadrinhos: um quadrinho no fundo, um em cima e outro

embaixo. Nossa Senhora vai ser deitada numa espécie

de berço. Então há uma criada que está embalando

— ou é um berçinho que deve fazer um pouco de ninna

nanna, com certeza —, e outra criada faz com que Ela

engula algum alimento. A mulher que se encontra no ângulo

está com as mãos postas, rezando; ela percebe algo

do extraordinário da cena. A profissional tem uma cara

profissional, apenas muito atenta ao que está se passando.

São José, modesto, humilde,

recolhido e calmo

Maria Santíssima vai ser apresentada no Templo. Essa

construção é uma idealização de como esse homem

imaginava a parte do Templo onde Nossa Senhora ia ser

apresentada.

Sant’Ana é essa de vermelho que está carregando a

Ela. E São Joaquim me parece ser aquele que está no

fundo, vestido com uma roupa um pouco violácea, com

as mãos postas e um aro de santidade na cabeça, com

barba, etc. Ambos são velhos e vão apresentar no Templo

Nossa Senhora.

Mas o que importa especialmente no caso é o seguinte:

fazer notar o escândalo dos que falavam contra eles

porque não podiam ter filhos. Mas ao mesmo tempo ceticismo:

“É verdade, afinal tiveram uma filha. Mas o que

adiantava ter uma filha mulher?” De maneira que para

eles era uma vitória, porém uma vitória que não dava em

nada. Eles estão apresentando calmamente Nossa Senhora

que já anda com os próprios pés, é uma mocinha.

Tudo no Templo era muito ornado com ouro, mármores,

etc. Vemos ali candidatos à mão de Maria Santíssima, que

se apresentam ao rabino levando ramos secos. Aquele cujo

ramo florir é quem deve casar-se com Nossa Senhora.

Encontramos São José à esquerda. Aquele cujo ramo

de fato vai florir está colocado de lado, é o último.

Ele é modesto, humilde, tem o halo da santidade, mas

não quer sobressair. Os outros desejam salientar-se e estão

apresentando o ramo seco quase como cheques, pois

julgam que vão vencer. São José está recolhido e calmo.

Evidentemente só o ramo dele florirá. Ele é quem vai ficar

com a mão da Santíssima Virgem. Sua fisionomia é

apresentada com certa perplexidade. Por quê? Porque

ele tinha feito voto de ser virgem. Ele recebera uma revelação

de que deveria casar-se com Nossa Senhora, mas

não sabia como seria isso. Mas obedeceu e levou o seu

Web Gallery of Art (CC3.0)

34


Web Gallery of Art (CC3.0)

ramo também. Podemos imaginar a surpresa dele quando

o seu ramo floresceu.

“Sou muito sensível às cores”

Eu queria chamar a atenção para este ponto particular:

eu sou — como já disse, é um modo de ser legítimo como

outros — muito sensível a cores. E as harmonias de

cores me interessam especialmente. Giotto joga predominantemente

com duas espécies de recursos cromáticos: algumas

são cores muito clarinhas, delicadas. Vejam o verde

bonito do primeiro portador de ramo. Um que deve ser

ajudante do sacerdote tem uma túnica lilás e uma espécie

de capa ligeiramente

esverdeada, mas combinando

muito bem. E

atrás há outro portador

de ramo cujo traje

é de uma cor que não

sei definir, mas é feita

de cores muito claras.

São José está vestido

com cores um pouco

mais escuras, mas ainda

são bastante claras.

Entre eles há um com

uma cor mais escura,

ou melhor, bem menos

clara. Seria uma composição

de cor bordeaux

com um pouco de azulado.

As cores dos outros

trajes quase não se

Web Gallery of Art (CC3.0)

distinguem, porque aparecem pedaços pequenos de roupa.

O rabino está com um traje de uma cor um pouco parecida

com a daquele personagem de roupa mais escura.

Há uma espécie de radicalidade nisso. É a radicalidade

no claro e a radicalidade no carregado, que forma no

todo um contraste interessante. Imaginem que esse sacerdote

estivesse com uma cor clarinha, e o outro que está

atrás também. Como ficaria tudo insípido! Esse tom

escuro confere uma nota de seriedade ao clarinho, e é

um equilíbrio de cores muito bonito.

A cena é tão característica, tão expressiva! Há uma espécie

de empenho da parte dos pretendentes a se casarem

com Nossa Senhora. Era nobre querer isso. Pode-se desejar

alguém melhor

do que Maria Santíssima?

Entre as hipóteses

possíveis, no momento

me alegra imaginar

que todos os pretendentes

rejeitados

eram levados pela graça,

e que depois se tornaram

grandes devotos

de Nossa Senhora.

Mas o eleito já estava

determinado por

Deus, que operou o

milagre na vara carregada

pelo homem casto

por excelência. v

(Extraído de conferência

de 25/11/1988)

35


aPóstolo do PulcHrum

Revista Dr Plinio 227, Fevereiro 2017

A.Savin (CC3.0)

Harmonia na arte,

harmonia na vida

Fachada principal

da Academia de

Atenas, Grécia

Ao considerar a arte grega, Dr. Plinio discerne a

profunda tendência desse povo para a harmonia.

Dotados de bom gosto extraordinário, os gregos

tinham o talento de fazer coisas lindíssimas, até

imortais, sem gastar muito dinheiro. O que custa,

por exemplo, levantar uma coluna? Não é muita coisa.

Colunas que ficaram imortais

Com um muito bom golpe de vista, eles entendiam o

que precisa ter uma coluna para ser maravilhosa. Que relação

deve haver entre a base e o topo, por exemplo. Ela

precisa ir estreitando lentamente, de tal maneira que em

cima seu diâmetro seja menor do que o da base, e o observador

tenha a impressão de que a coluna é mais alta,

porque afinou e está longe da vista dele.

É feia a coluna gorducha em baixo e que vai ficando,

de repente, mais fina. É preciso que ela vá adelgaçando-

-se de tal maneira que a pessoa, à primeira vista, não perceba

que ela afinou.

Coluna lisa, sem graça, é um tubo que não vale nada.

Deve-se fazer coluna com adornos, com reentrâncias e

saliências. Que profundidade devem ter as reentrâncias,

que largura os bordos das saliências para serem bonitas?

Qual é o tamanho de cada gomo da coluna em comparação

com a altura e a largura? Como precisa ser a base

para dar a impressão de que a coluna é forte? Como deve

ser o capitel para causar a impressão de que ela é graciosa?

Por que razão a coluna precisa proporcionar a impressão

de forte na base e graciosa no alto? Não seria bonita

uma coluna graciosa na base e pesadona no alto? Não

pode ser assim, a sugestão é desagradável. Uma coisa

graciosa que aguenta uma pesadona é um pesadelo!

Que proporção de força e de leveza deve ter uma coluna

para agradar ao homem? Há colunas que ficam

imortais. Às vezes, com o passar dos séculos, o templo inteiro

cai, e uma coluna que reste é um monumento histó-

34


Onkel Tuca! (CC3.0)

G Da (CC3.0)

rico, guardado hoje em dia com todo o cuidado, estudado

nos álbuns de arquitetura do mundo inteiro.

Que indicam essas colunas? A tendência profunda

desse povo para a harmonia, a capacidade de estabelecer

as relações entre os vários elementos de um todo, de

maneira a ficar agradável de ver. Esta é a harmonia dentro

da obra de arte.

Mesmo as praças de aldeolas eram de uma beleza, de

uma harmonia célebre até o fim do mundo. Os gregos viviam

ladeados, inundados pela harmonia, mas uma harmonia

inteligente que exigia trabalho para perceber, e

era filha do desejo de perfeição.

Vivacidade e distinção em ânforas de barro

As ânforas de barro fabricadas pelos gregos são admiradas

até hoje em todos os museus bem equipados da

Europa, porque se conservaram muitas. Ânforas de uma

cor de terra avermelhada com uma faixa preta em cima,

na ponta mais larga da ânfora. Eles não pintavam a parte

que não tinha figura, de maneira que esta ficava com a

cor vermelha do barro.

Eram as coisas mais comuns. Por exemplo, um homem

levando um bezerro pela corda para vender no mercado.

Nota-se a elegância do homem, o bezerro anda com classe

e a própria corda tem uma linha extraordinária! O indivíduo

que puxa o bezerro tem um estilo natural ao de um

homem do campo, não é um nobre. Mas é todo distinto.

Na porta da casa está a mulher esperando. É uma figura

de tragédia grega: uma Penélope qualquer com aquelas

saias sucessivas e aquele ar, ao mesmo tempo simples,

natural e distintíssimo. De maneira que se tem a impressão

de um teatro vivo. Entretanto, é apenas uma moringa

comprada na feira!

A harmonia na arte era a meta deles para ter harmonia

na vida.

v

(Extraído de conferência de 11/1/1986)

Ruínas do Partenon, Atenas, Grécia

Ruínas do templo de Zeus, Atenas, Grécia

Teatro de Herodes Ático,

Acrópole de Atenas, Grécia

G Da (CC3.0)

qwesy qwesy (CC3.0)

Andrew Baldwin (CC3.0)

Vista noturna das ruínas do Partenon

Giovanni Dall’Orto. (CC3.0)

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Revista Dr Plinio 228, Março 2017

luzes da civilização cristã

Um seminário

Antonio Lutiane

do Céu

Jardim do Castelo de

Chenonceau, França

Dr. Plinio amava de tal modo a

Europa que, se para lá viajasse

de navio, teria vontade de oscular

o solo do cais do primeiro porto

europeu onde a embarcação

ancorasse, porque é a única parte do

mundo onde o Sangue de Cristo e

as lágrimas de Maria geraram uma

civilização católica.

Ao tratar a respeito das belezas da Europa, é

preciso evitar dar a ideia de ser um lugar como

o Brasil, mas onde há castelos e palácios como

Chenonceau, Versailles, ou alguns existentes ao longo

do Reno.

Pelo menos na Europa de antes da Segunda Guerra

Mundial, essas belezas existiam enquanto sendo o ponto

alto de toda uma vida comum em que, em ponto menor e

de maneiras diferentes, havia também belezas mais singelas.

Um castelo elevado, nobre, digno

De maneira que não eram como aquelas montanhas

no caminho de Teresópolis que, geograficamente falando,

são únicas, saem diretamente do chão. A Europa

31


Luzes da Civilização Cristã

constituía, por assim dizer, uma “cordilheira” altíssima

na qual, para haver os “picos” de que falamos, deviam

existir muitas outras elevações na vida cotidiana, mais

ou menos naquela altura, formando, portanto, todo um

ambiente, um estilo e um teor de vida de um continente.

Por exemplo, assim como há Chenonceau, existem

centenas de castelos em graus menores muito bonitos,

casas antigas senhoriais, residências populares e aldeias

que, enquanto tais, são superiores à cidadezinha brasileira,

como Chenonceau é superior à mais bonita casa

que haja no Brasil. Esse traço é importantíssimo, e sem

ele a Europa verdadeiramente não se compreende.

Então, chegando à casa de um pequeno burguês de

Munique que tem pãezinhos de leite, encontrar-se-ão taças

para beber cerveja, facas com cabo de chifre de veado,

e uma porção de outros objetos outrora acessíveis a

todo o mundo, mas que para os padrões atuais são superiores

ao nível comum das pessoas.

Portanto, tempo houve em que todo o teor da vida era

diferente, e a Europa é um continente onde muito disto

resta ainda e foi possível ao homem realizar na Terra,

não propriamente um mundo de gostosuras, mas de

maravilhas, de coisas arquitetônicas sapienciais capazes

de nos falar do Céu e que, por ricochete, também eram

agradáveis.

Muitas vezes, comentam-se belezas da Europa, como

o castelo de Chenonceau, dizendo: “Olhe que gostoso estar

aqui!”

Ora, esse aspecto agradável não é um critério profundo.

É preciso afirmar o seguinte: “Olhe como é elevado,

nobre, digno, e como isso engrandece o homem. Não

parece até um mundo irreal?!” Esse mundo “irreal” é a

imagem do Céu.

Desejo de realizar a maravilha na Terra

Deve-se acentuar que esses são valores religiosos, por

causa do aspecto simbólico que tais coisas têm. O Para-

Antonio Lutiane

Juan Pablo Calavid Arango

Sergio Hollmann

Aspectos do Castelo

de Chenonceau

32


Aspectos do Castelo de

Chambord, França

Marcelo Ferreira

Juan Pablo Calavid Arango

Juan Pablo Calavid Arango

íso celeste, considerado na sua realidade material, é um

lugar onde Deus fez coisas magníficas para o homem viver

imerso num mundo da matéria que lhe fala de Deus,

enquanto sua alma goza da visão beatífica. Tão necessário

é ao homem alimentar o seu espírito com Deus, não

só na consideração das coisas diretas da Religião, mas a

propósito do mundo temporal e do mundo da matéria,

que até no Céu isso vai ser assim.

Precisamos compreender, portanto, que houve uma

virtude, levada pelo europeu medieval a um grau inimaginável,

que foi exatamente o desejo de realizar a maravilha

na Terra.

Aliás, aqueles monumentos gregos tinham isto de interessante:

exprimiam o desejo de fazer um Olimpo na

Terra. As construções dos gregos são mais feitas para serem

habitadas por semideuses do que por homens. Havia

uma certa ideia de fazer um mundo de maravilha. De

sorte que a Europa é uma espécie de mito realizado, e

que a Religião Católica elevou a um seminário do Céu.

A maior maravilha da Europa, por onde propriamente

era maravilhosa, não consistia tanto no fruto produzido

e deixado por ela, mas no espírito europeu, o contato

com as almas sedentas de maravilhoso, nas quais se

sentia muito mais isso do que naquilo por elas realizado,

porque o efeito é sempre menor do que a causa. Os homens

e a sociedade que elaboraram essas maravilhas tinham-nas

em quantidade enormemente maior do que as

coisas por eles deixadas.

Belezas como fator de santidade

Por exemplo, a corte de Luís XIV era muito mais fina

do que Versailles. São Luís IX era enormemente mais

a Sainte-Chapelle do que ela própria. Como também

São Francisco de Assis, incomparavelmente mais que o

Eremo delle Carceri, pois o efeito nunca manifesta tudo

quanto está dentro da causa. Nessa causa, o efeito existia

de um modo inebriante.

33


Luzes da Civilização Cristã

Paulo Mikio

Interior da Sainte-Chapelle, Paris, França

Então, ao considerar a Europa, trata-se de imaginar

as virtudes, as qualidades de alma, o ambiente moral outrora

ali existentes.

Os historiadores, em geral, ressaltam os defeitos e

omitem tudo quanto tornava possível a realização, por

exemplo, Versailles e tantas outras belezas, que duraram

séculos e ainda se encontram nos dias de hoje. Ora, é

claro que havia uma estrutura moral, virtudes, capacidades

sem as quais aquilo não seria possível.

Não se concebe, por exemplo, um nababo que atualmente

construa um palácio como o grande Trianon de

Luís XIV. Embora custasse incomparavelmente mais barato

do que um arranha-céu moderno, não se construiria,

porque havia qualidades de alma que no homem

contemporâneo já não existem.

Devemos, pois, procurar conhecer essa alma e considerar

tais belezas como fator de santidade, como atmosfera

orientada ao Reino de Maria, e imergir no lado religioso

da questão, porque esse é o aspecto mais profundo.

Portanto, ver como do Sangue infinitamente precioso de

Nosso Senhor Jesus Cristo, das lágrimas de Nossa Senhora

se gerou, pela correspondência à graça, um mundo

inteiro apetente disso.

Teríamos vontade de, chegando à Europa sacrossanta

que criou essas maravilhas, beijar o solo do cais do primeiro

porto europeu onde nosso navio parasse, porque é

a única parte do mundo onde o Sangue de Cristo e as lágrimas

de Maria geraram uma civilização.

Sem dúvida, o Escorial é muito bonito. Mas que encanto

pensar em Felipe II lendo, em um dos salões daquele

palácio, uma carta de Santa Teresa! E desfazendo,

por exemplo, as manobras de um núncio gordalhão, bonachão,

renascentista e contrário à reforma do Carmelo.

Aqui está o cerne, porque Filipe II era mais Escorial do

que todo o Escorial. E Santa Teresa ainda mais, pois ela

era o “Escorial” do Céu, enquanto Filipe II era o da Terra

olhando para o Céu.

Assim nós temos a visualização completa e mais profunda,

pois toca no religioso, no sacral, reconhecendo

e afirmando que nada é válido, nada é autêntico se

não brotar de uma verdadeira visão da Religião Católica,

que os santos tiveram nos seus conventos, nas suas

Ordens religiosas, enfim, nas instituições da Santa Igreja

Católica.

É preciso aprender a amar o

Paraíso celeste nesta Terra

Nessa perspectiva, compreendemos que Versailles,

por exemplo – nos seus bons aspectos, pois ali nem tudo

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era bom... –, estava presente na alma de São Luís IX, de

São Vicente de Paula, que viveu no tempo de Luís XIII,

dos santos que existiram na época de Luís XIV. Porque,

em seus aspectos virtuosos, Versailles nasceu da Igreja

– receptáculo e fonte de todas as virtudes – e, enquanto

tal, tinha de estar contido no espírito, na mentalidade e

no modo de ser das instituições e dos homens sagrados,

que incutiram naquela gente o espírito católico.

Essa junção entre a Europa e a Religião Católica me

fala à alma até o fundo e é indispensável para compreender

a História da Igreja. Desse modo, temos uma visão

católica da Europa e uma perspectiva da Igreja meditada

em função da obra realizada por ela, o que proporciona

um alargamento da própria visão da Esposa de

Cristo.

O erro dos que não aceitam essa visão é querer para

esta Terra uma espécie de “visão beatífica”, a qual é

o contato com a Igreja sem essa espécie de “paraíso celeste”,

a Civilização Cristã. É fundamentalmente errado

conceber uma religião desligada dessa modelação celeste

da Terra, quando no próprio Céu vamos ter um quadro

material que sustenta a natureza humana, por causa

da psicologia e da estrutura do homem.

Alguém poderia me objetar: “Mas o puramente celeste

não é mais alto do que o terreno?”

Eu respondo: é evidente que é. Basta falar em celeste

para o terrestre ficar como que pulverizado, não precisa

dizer mais nada.

“Então por que o senhor se inebria com essa junção?”

Porque é por meio dela que eu tenho a inteira perspectiva

do celeste, que é o inebriante; aí está a questão.

Mesmo no Céu, sem a junção entre os dados do Paraíso

celeste e a visão beatífica, não teríamos tudo quanto

nossa natureza pede para contemplar a perfeição de

Deus. Em última análise, o Paraíso celeste é necessário,

e é preciso aprender a amá-lo na Terra. v

(Extraído de conferência provavelmente de 1969)

Divulgação (CC3.0)

Gustavo Kralj

Palácio do Escorial, Espanha

O Grande Trianon de Luís XIV

35


Revista Dr Plinio 229,Abril 2017

luzes da civilização cristã

Uma das

obras-primas da

piedade católica

Massimo Catarinella (CC3.0)

A família Scrovegni, muito

poderosa em Pádua no início

do século XIV, mandou

construir um palácio e uma

igrejinha. A família e o palácio

desapareceram; ficou apenas

a capela cujas paredes Giotto

marcou com os tesouros de

seu gênio de pintor.

Shakko (CC3.0)

Acima, Cappella degli

Scrovegni, Pádua, Itália.

À esquerda, Enrico Scrovegni

Antes de passar aos comentários de algumas pinturas

de Giotto, é interessante tomar conhecimento

de dados históricos a respeito da Cappella

degli Scrovegni 1 .

Restou a capela por causa

das pinturas de Giotto

O trabalho de Giotto na Cappella degli Scrovegni – ou

Capela Arena, pois ela está situada no interior de uma área

outrora ocupada por um anfiteatro romano – data possivelmente

do ano 1305. Os documentos do tempo nos informam

que Enrico Scrovegni, membro de uma poderosa família de

31


Luzes da Civilização Cristã

wga.hu (CC3.0)

Pádua, comprou em 1300 todo o terreno das arenas romanas

para ali construir sua própria residência, hoje inteiramente

destruída, com a capela anexa.

Então aquela igrejinha cujas paredes Giotto marcou

com os tesouros de seu gênio de pintor – e, ao que parece,

também de sua grande piedade, porque os quadros

são muito piedosos – foi capela do palácio de uma família.

A família e o palácio não existem mais, porém a capela

ficou por causa das pinturas de Giotto.

A construção da pequena igreja, autorizada em 1302 pelo

bispo local, desenvolveu-se rapidamente, sendo consagrada

no ano de 1305. O Papa Bento XI concedera, no ano precedente,

indulgências aos visitantes dessa mesma capela.

Analisemos, agora, algumas dessas pinturas.

Ressurreição de Lázaro

Nosso Senhor entra em Jerusalém

com a fisionomia triste

No dia em que Nosso Senhor ressuscitou Lázaro, os

fariseus comentaram entre si que era preciso matá-Lo.

Realmente organizaram um caso, em torno do qual provocaram

a morte de Jesus.

Vemos nesse afresco Nosso Senhor dar uma bênção e

Lázaro, com seu corpo todo enfaixado, sair da sepultura.

E ele e mais uma irmã, provavelmente Marta, estão

empenhadíssimos em que se preste atenção no acontecimento,

porque um grande milagre está sendo praticado.

Esses dois santos, no primeiro plano do quadro, estão

pasmos com o assombroso milagre realizado pelo Divino

Mestre. Notem Lázaro, todo enfaixado como os judeus

costumavam fazer com os seus mortos, e um pouco

mais adiante um personagem com uma veste verde-

-claro, que está falando com muita animação. Parece ser

da turma de canalhas que resolveu a morte de Nosso Senhor

Jesus Cristo.

Outro quadro representa o Domingo de Ramos. Observem

a inocência da apresentação: Ao fundo, para dar

a entender que Jerusalém estava em seu início, aparece

um pedacinho de fortificação e uma torrezinha que não

daria para defender-se contra um batalhão de cem homens.

Porém, é evidentemente uma imaginação.

Nosso Senhor entra em Jerusalém com a fisionomia

triste, o rosto muito varonil, uma abundância extraordinária

de barba, e a atitude de um prelado de altíssimo

poder ou de um chefe da Religião verdadeira. Ele era

muito mais do que isso: o Messias. No meio da multidão

que O acompanhava percebe-se uma ou outra pessoa

com o aro da santidade. Ele mesmo tem esse aro muito

definido, quer dizer, sinal de santificação. Sem dúvida,

Jesus era o maior de todos os Santos.

Descem os azorragues

32

Domingo de Ramos

Uma pintura nos mostra a parte do Templo de Jerusalém,

onde havia mercadores vendendo suas mercadorias.

Nosso Senhor, não conformado com isso, desce os azorragues

nesses negociantes.

Vemos dois homens de pé, apoiando-se um no outro, e o

Redentor, com uma fisionomia evidentemente indignada,

açoitando como quem tem o direito de bater, de verdade e

com força. Os dois estão apenas procurando defender-se

contra as pancadas porque, na concepção de Giotto, não

tinham muita facilidade de fugir no momento.

Dentro de uma gaiolinha veem-se uns pássaros, que

estavam à venda para serem oferecidos como sacrifício.

Ao lado, os Apóstolos assistem a essa cena para lá de edificante.


wga.hu (CC3.0)

Na representação da traição de Judas, os dois personagens

ao lado estão confabulando, urdindo. O homem

que conversa com Judas é um fariseu velho, experiente,

com ar sacerdotal, e que recomenda discretamente como

o traidor deve proceder. Judas, inimaginavelmente cruel

e sem-vergonha, ouve as instruções para aplicá-las bem

exatamente, numa atitude respeitosa. Sem sabermos o

que dizem, temos a impressão de quase ouvir o murmúrio

da voz deles.

Evidentemente, Judas já está recebendo o saquinho

com o preço da traição, que vai junto com as últimas recomendações.

Atrás do traidor se encontra o demônio

que está mandando em tudo.

Gosto muito mais desta representação da Santa Ceia

do que a de Leonardo da Vinci.

São João encosta a cabeça junto ao Coração de Jesus

e pergunta quem é o traidor. Nosso Senhor o recebe com

carinho, mas não indica o nome. Todos estão confabulando

entre si sobre o que quererá dizer isso, mas numa

relativa calma, a qual é uma das vergonhas da atitude

deles durante o prenúncio da Paixão. Por certo, o católico

não deve perder a calma, porém não precisa ter esta

fleuma que denota uma certa indiferença, à espera da

chegada do banquete para eles comerem.

Cerimônia do lava-pés. O Divino Mestre está lavando

os pés de uma pessoa, e Ele se humilha a ponto de praticamente

Se ajoelhar para executar esse ofício de caráter

servil. Os Apóstolos estão comentando, estranhados

com o fato. Mas Nosso Senhor não faz questão da opinião

alheia e vai realizando o que deve fazer.

A revolta dos anjos e o ósculo de Judas

Depois da revolta dos anjos, e talvez certos episódios

ainda ocultos da História contemporânea, não creio ter

havido na História dos homens nada de comparável a

esse fato do ósculo de Judas.

Para mim, esse “face a face” entre Nosso Senhor e Judas

é das coisas mais espantosas que um pincel humano

tenha pintado.

Nosso Senhor está sério e olhando o traidor até o fundo

da alma. E Judas procurando mentir. É a Verdade

eterna e subsistente, encarnada, a qual olha para um homem

que mente.

Judas, procurando tornar a mentira dele aceitável,

abraça seu Mestre e O olha com ares de quem quer dar

a entender ser seu grande amigo. Nosso Senhor fita-o e

diz: “Judas, com um ósculo trais o Filho do Homem?”

(Lc 22, 48).

De fato, Judas combinou com os guardas que o homem

procurado para ser preso, Jesus de Nazaré, era

aquele a quem ele beijasse. Então, foi até Nosso Senhor

Expulsando os vendilhões do Templo

Traição de Judas

Última Ceia

33


wga.hu (CC3.0)

Cerimônia do lava-pés

Ósculo de Judas

Jesus diante de Caifás

e, aproveitando-se de sua intimidade de apóstolo, aproxima-se

do Divino Mestre e oscula a Sagrada Face. Jesus

recebe com paciência esse beijo imundo, acompanhado

provavelmente de um mau cheiro asqueroso, cheiro do

Inferno.

Giotto quis representar em Nosso Senhor Jesus Cristo

o auge de todos os predicados intelectuais e morais, e

em Judas o extremo de todas as abjeções. Consideremos

os recursos de que o artista se serviu para isso.

Primeiramente, a cabeça de Nosso Senhor é provida

com certa largueza de cabelo, mas não é uma cabelama

que dá a impressão desses tapetes felpudos, feitos

para serem postos do lado de fora da casa a fim

de limpar os pés. Judas, não. Ele está com uma grenha

suja, abundante, e que ele tratou de pentear direito

antes de cometer seu crime infame, pois não queria

que nada atrapalhasse o “bom negócio” que ele ia

fazer. Quiçá, se ele estivesse desgrenhado na hora do

beijo, o Divino Mestre não o quisesse aceitar. Ora, era

preciso que tudo se passasse com ares de cordialidade.

Então ele se enfeitou. Comparem a desordem capilar

de Judas com a proporção e a ordenação adequada

de Jesus.

Comparemos também a implantação da barba de

Nosso Senhor e a de Judas. A barba de Jesus possui boas

dimensões e se dispõe muito belamente em cima da pele,

tudo muito direito, com muita proporção. O mesmo se

deve dizer do bigode.

Prestem atenção na barba de Judas! São uns fios raros,

formando arquipélagos peludos em uns e outros lugares

do rosto. Nem se sabe bem o que é barba e o que

não o é ali.

Por outro lado, no traidor a parte que vai do alto da

maçã do rosto até o queixo é enormemente desenvolvida

em comparação com a de Nosso Senhor, em quem tudo é

proporcionado.

Judas dá a impressão de uma gulodice porca, horrorosa,

enquanto Jesus manifesta uma austeridade delicada

e verdadeiramente divina.

O apóstolo traidor não responde à pergunta de seu

Divino Mestre. Logo depois de tê-Lo entregue, ele se põe

a delirar e começa a correr de um lado para outro à procura

de um sacerdote a fim de ver que jeito dava no caso.

Mas, não tendo sucesso, acaba recorrendo ao suicídio.

Nossa Senhora de pé, com

força e determinação

No recinto de Caifás – onde este Sumo Sacerdote se

apresenta com autoridade, sentado sobre um estrado

com dois degraus –, percebe-se uma algazarra e uma politicagem.

Os personagens falam, mexem-se, Caifás está

34


aivoso e agitado, e todos querendo encontrar um meio

de arrancar dos lábios de Jesus uma palavra que justifique

a sua condenação, mas não conseguem.

Nosso Senhor está calmo, sereno, sem ódios, mas sem

abandonar sua posição em nenhum instante, e confessando

a verdade corajosamente em todos os momentos.

Por causa disso – e Ele o sabia – haveria de acontecer

que os seus tormentos iriam crescer cada vez mais até

o fim.

Eis a Flagelação: não pode ser mais triste a atitude

d’Ele, penetrado de dor física como de sofrimento moral

– já alheio a tantos desaforos, ultrajes, insultos que lhe

dizem e aos quais Ele não deve responder –, com a vara

de bobo na mão e padecendo sem fim para resgatar os

nossos pecados.

Baiulatio Crucis Domini Nostri Iesu Christi, Nosso Senhor

Jesus Cristo carregando a Cruz. O Redentor vai sozinho,

com aro de santidade, todos os outros são pessoas

estranhas a Ele, indiferentes, exceto um que eu suponho

ser São João Evangelista, acompanhando veladamente e

de longe. Jesus carrega a Cruz com decisão rumo à sua

própria imolação. Os outros estão totalmente alheios,

pouco lhes importa. É a crueldade dos adversários d’Ele.

Crucifixio et mors Domini Nostri Iesu Christi. Trata-

-se, portanto, do que nós contemplamos e veneramos no

quinto mistério doloroso do Rosário. O Corpo está lívido,

parece que o Redentor já emitiu ou está por emitir

o último suspiro. Uma das santas mulheres oscula seus

pés. Nesse grupo de três pessoas vemos Nossa Senhora,

a sua esquerda São João Evangelista, e a sua direita parece

estar outra das santas mulheres; os outros personagens

não são mostrados.

Por esse cantinho do lado esquerdo da Cruz, observamos

como o local se está enxameando de gente que quer

assistir aos acontecimentos. Mas o céu se encontra crivado

de Anjos cantando a glória d’Ele. Entretanto, os espíritos

angélicos, por enquanto, estão invisíveis, de maneira

que os homens viam apenas a dor e a vergonha.

Nossa Senhora como está? Muito contundida, mas de

pé, com força e determinação para tudo. Ademais de ser

concebida sem pecado original, Ela amava tanto a Deus

que era capaz de, por causa desse amor, frear a sua própria

dor em alguma medida, de maneira a sustentar-Se

de pé o tempo inteiro.

Esta é a Paixão segundo Giotto, para mim uma das

obras-primas da piedade católica.

v

(Extraído de conferência de 30/11/1988)

Flagelação de Nosso Senhor

Nosso Senhor Jesus Cristo carregando a Cruz

wga.hu (CC3.0)

1) Não dispomos dos dados bibliográficos dessa resenha

histórica.

Crucifixão de Nosso Senhor

35


aPóstolo do PulcHruM

Revista Dr Plinio 230, Maio 2017

Grandeza e bondade

de Deus

Há belezas da natureza cuja formação desenrolou-se

tão somente na presença de Deus, mas que eram

destinadas por Ele para dar ao homem uma ideia

do Céu, onde os legítimos anseios de grandeza,

isolamento e convívio são plenamente atendidos.

Essa é uma lindíssima fotografia dos Alpes, tirada

a partir de um avião. Talvez fosse interessante

mostrar o contraste desse panorama com outros

aos quais estamos habituados.

Fulvio Spada (CC3.0)

Grandeza e isolamento num píncaro nevado

Neva em pouquíssimos lugares do território brasileiro.

Alguma coisa em Santa Catarina. Em Campos de Jordão

não me consta que caia neve, mas de vez em quando forma-se

uma espécie de geada muito grossa, a qual dá um

pouco a impressão de neve.

Nessa fotografia temos caracterizada a paisagem coberta

de neve, com toda a poesia e até magnificência que

ela traz consigo.

Entretanto, confesso que o mais bonito do panorama,

a meu ver, não é a neve, mas a configuração desse monte,

com essa crista que chega bem no alto e, depois, levanta-se

mais outra crista. O bloco onde está esse monte

me sugere a ideia de uma fortaleza medieval. Nota-se

Fulvio Spada (CC3.0)

32


szerenka (CC3.0)

ser ele cercado de uma muralha natural. Sua forma vagamente

circular imita a de muitas fortalezas medievais.

No centro da área fortificada se encontraria o castelo, e

ali, como se fosse uma torre prodigiosa, esse outro píncaro

mais alto.

O homem não pode olhar para uma paisagem como

essa sem se imaginar a si próprio nesses píncaros, e que

sensação ele teria se estivesse lá no alto. Se ele tivesse,

por exemplo, meios financeiros e técnicos para construir

uma fortificação naquele mais alto píncaro, o que sentiria?

Tal pergunta não é a de um sonhador imbecil, mas é

um modo de degustar melhor um panorama.

Esse homem teria a sensação de estar colocado no

alto de uma grandeza colossal. Se possuísse um castelo

cobrindo aquele píncaro, sentir-se-ia o castelão

dos castelões, alguém que está numa altura fantástica

a partir da qual ele domina, pelo olhar e pelo pensamento,

tudo quanto de contemporâneo se desenvolve

aos seus pés.

Mas ele sentiria, em compensação, um isolamento tremendo,

porque a neve não é o seu hábitat natural. O homem

não foi feito para viver na neve, e sim para morar

em lugares onde de vez em quando neva. É verdade que

os esquimós e outras populações conseguem viver num

panorama nevado assim, mas em condições de vida inteiramente

primitivas e com um desenvolvimento cultural

dos mais elementares.

Trace (CC3.0)

Céu: píncaro onde se unem as alegrias

do isolamento e do convívio

Inez Stafford (CC3.0)

A neve vista assim dá a impressão de um panorama no

qual o homem está tão isolado como se estivesse na Lua,

separado de seus contemporâneos, de todo mundo, incompreensível

para todos, dominando tudo do alto, mas

sofrendo daquilo que Deus diz no Gênesis, antes de criar

Eva: “Não é bom que o homem esteja só” (Gn 2, 18).

O isolamento, sobretudo quando é tornado mais imponente

e esmagador pela grandeza, é uma coisa que pesa

enormemente.

Um castelão morando nesse castelo imaginário, acompanhado

apenas de dois ou três serviçais, vendo os dias

33


Apóstolo do pulchrum

Fulvio Spada (CC3.0)

Berrucomons (CC3.0)

M M (CC3.0)

se sucederem às noites e as noites aos dias, as tempestades

de neve ou as nuvens que cercam de todos os lados,

dando a impressão de o castelo estar voando, sentirá em

determinadas horas um tal isolamento que poderá tornar-se

angustiante.

Por outro lado, para quem não vive na neve, mas na

trivialidade do dia a dia, há uma vontade de sair da banalidade,

um desejo de voar para dentro dos horizontes

da grandeza.

O ser humano é de maneira tal que, se tem elevação

de alma e se encontra, por exemplo, na Praça do Patriarca

no centro de São Paulo, vendo esse panorama, poderia

pensar: “Mas como seria bom eu estar lá no alto!”

Entretanto, quem estivesse no cume da montanha, se lhe

mostrassem a Praça do Patriarca e lhe oferecessem descer,

seria capaz de ter a fraqueza de dizer: “Então, vamos,

porque lá é bem quentinho e gostosinho.”

Contudo, há um pouco de verdade em ambas as atitudes.

Considerando isso compreendemos melhor o Céu.

Porque o Paraíso é de uma elevação, de uma altitude –

não física, mas moral – incomparável. Mas, de outro lado,

ali não se está só. O homem se encontra na presença

d’Aquele que é sua finalidade, ele sente a companhia

absoluta para a qual foi criado. Em presença de Deus ele

está como que embriagado da alegria de ter contato e de

conversar com Ele, Deus: infinitamente mais alto do que

esse monte, mas ao mesmo tempo infinitamente mais

condescendente, afável e amoroso do que as ideias que

essa montanha sugere.

Ademais, no Céu a pessoa está inserida em toda a corte

celeste, passa a ser príncipe dela. É a corte dos bem-

-aventurados, dos Santos e dos Anjos. Eles têm ali a fe-

34


Xonqnopp (CC3.0)

licidade completa que reúne as alegrias aparentemente

contraditórias de fazer parte de uma multidão e de estar

num píncaro sozinho. Ali se está no mais alto dos píncaros,

cercado e num convívio idealmente afetuoso, respeitoso,

amável, com a mais perfeita das multidões, que é a

multidão imensa daqueles que se salvam.

Belezas que se desenrolaram

aos olhos de Deus

Nessa outra fotografia vemos o céu azul, o dia límpido

e podemos apreciar melhor a beleza, a magnificência

dessa localização. Dir-se-ia que algo de semelhante aos

contornos de uma fortaleza medieval ainda se torna mais

claro do que na fotografia anterior, mas parecendo mais

uma cratera de vulcão da qual saiu, em determinado momento,

das entranhas mais quentes da terra uma matéria

qualquer incandescente, levada por um jato enorme e

que, quando chegou em cima, petrificou-se no frio e formou

isso que vemos.

Não havia homens na Terra quando fatos geológicos

assim deram origem aos panoramas que hoje existem.

Mas que coisas lindas nessa ocasião se desenrolaram aos

olhos de Deus! Através de paisagens como essa Ele nos

faz suspeitar um pouco quais as belezas por Ele criadas

antes de nós existirmos. Nesse sentido, quando milhares

e milhares de anos antes dessas montanhas terem sido

conhecidas pelo homem, Deus as modelou com a intenção

principal de dar aos homens a oportunidade de fazer

estas ou melhores reflexões a respeito da grandeza e da

bondade d’Ele.

v

Christian Mehlführer (CC3.0)

Tinelot Wittermans (CC3.0)

(Extraído de conferência de 21/12/1988)

Kogo (CC3.0)

35


luzes da civilização cristã

Revista Dr Plinio 231, Junho 2017

Nobreza,

Gabriel K.

distinção,

boas maneiras:

frutos do

preciosíssimo

Sangue de

Cristo

A distinção católica,

contrarrevolucionária,

evidencia a superioridade

do Ocidente sobre o Oriente,

embora este seja tão mais

rico em pedras preciosas,

tecidos e outros ornamentos.

32


Folheando uma coleção de fotografias de pretendentes

a tronos em diversas nações, constatei

haver pelo meio uns marajás, um sultão do Afeganistão

e outros personagens assim. Então, chamei a

atenção dos circunstantes para a diferença entre a atitude,

o porte e a posição dos monarcas ou dos pretendentes

a trono ocidentais – descendentes, portanto, das antigas

dinastias históricas do Ocidente –, e os do Oriente.

Um preconceito revolucionário: ter medo

de parecer por demais maravilhoso

Nicolás Aquino (CC3.0)

No Oriente as pedras preciosas são muito maiores,

mais bonitas, de melhor quilate, o subsolo é muito mais

rico desse gênero de esplendores. Também as pérolas

que se pescam em alguns lugares do Oriente são de uma

beleza incomparável. De maneira que eles podem constituir

para si ornatos muito mais ricos do que os príncipes

do Ocidente. Além disso, dispõem de tecelões que trabalham

com tecidos a mão, e podem encomendar tecidos

manufaturados de uma qualidade muito superior à

dos industrializados, comuns no Ocidente. Por isso, sob

o ponto de vista de indumentária, os dignatários orientais

se apresentam muito melhor do que os do Ocidente.

Tanto mais quanto eles têm uma certa fantasia e não são

inibidos por preconceitos revolucionários, pela ideia de

ter medo de parecer por demais maravilhosos.

Um ocidental tem receio de parecer por demais maravilhoso.

Examinem, por exemplo, os uniformes oficiais

dos diplomatas e dos militares de alto grau – generais,

marechais, etc. – do século XIX e os do século

XX. É uma degringolada medonha. No século XIX, havia

aquele chapéu de dois bicos, com abas que se reuniam

em cima, e dentro tinham

Divulgação (CC3.0)

Vicente López y Portaña (CC3.0)

aigrettes brancas; as roupas eram bordadas com alamares

e outros adornos muito bonitos, com condecorações,

uma coisa que tende ao lindo. Mas o homem de hoje tem

vergonha de se apresentar nesses trajes porque o espírito

da Revolução achatou todas as tendências para o belo.

Pelo contrário, no Oriente isso não era assim; havia uma

classe que sonhava com o maravilhoso. Então, marajás, rajás,

xás, sultões, etc., que aparecem com essas roupas lindas.

Mas se analisamos os homens, vemos serem eles muito

inferiores, como porte, maneiras, posturas, do que os do

Ocidente. Por quê? Porque durante séculos, desde que a

Igreja Católica penetrou no Ocidente, começou a germinar

a Moral católica. E quando consideramos alguém que observa

em todos os seus pormenores essa Moral católica, essa

pessoa – se não ela, seu filho ou seu neto – acaba sendo

de uma educação e de um porte perfeitos.

A Moral católica gera a educação,

a distinção e a correção perfeitas

Para uma pessoa que pratica a Moral católica perfeitamente,

é instintivo, mesmo não tendo recebido uma

educação de salão, praticar, por exemplo, atos como o seguinte:

está à mesa tomando refeição com um convidado

que merece uma especial honra e atenção, serve o convidado

antes de se servir a si própria. Ora, isso que é ensinado

como uma regra de educação – “Você, na sua casa,

seja o último a se servir; quando estiver na presença de

mais velhos, faça com que eles se sirvam antes; diante de

pessoas mais graduadas do que você, reconheça de boa

vontade essa maior graduação, preste-lhes honras, faça

com que se sirvam antes” – são aplicações de princípios

de Moral a questões de bom procedimento.

Se numa primeira geração de católicos muito bons não

houve tempo de modelar todos esses costumes de acordo

33


Luzes da Civilização Cristã

W. & D. Downey (CC3.0)

Áustria. Esta, além de ser dotada

de uma beleza famosa, tinha uma

distinção de maneiras, uma linha,

uma categoria extraordinárias!

O Kaiser conta que ele estava

no jardim do palácio, vendo sua

mãe que, pouco adiante, de costas

para ele, recebia a visita da Imperatriz

da Áustria. Em certo momento,

esta deu sinais de querer

partir, e a mãe dele se voltou para

trás à procura de alguém para

carregar a cauda do vestido da nobre

visitante. Não vendo ninguém

além do filho, o futuro Imperador

Guilherme II, ela disse: “Meu filho,

venha portar a cauda do ves-

Soberanos das nações europeias reunidos por ocasião

do sepultamento do Rei Eduardo VII, em 1910

tido de Sua Majestade, a Imperatriz

da Áustria.”

com os princípios morais, ao cabo de algum tempo esses Quando ele se aproximou, a Imperatriz Elisabeth – a

princípios filtram e nasce daí uma atitude, uma distinção, famosa Sissi – estava apenas se levantando muito devagarzinho,

com as maneiras e todo o protocolo da anti-

uma amabilidade, uma cortesia, que no fundo faz parte

da Moral católica. A Moral perfeita deve gerar necessariamente

a educação, a distinção e a correção perfeitas. são que ela causou sobre ele. Todo esse protocolo dava

ga corte. Guilherme II descreve a inesquecível impres-

Às vezes até acontece que uma pessoa pratique a Moral

perfeita, mas não tenha uma educação perfeita, porque do sua beleza que ele ficou deslumbrado. Todas as regras

a ela uma elegância, uma distinção, realçava de tal mo-

não houve tempo de aquilo filtrar no ambiente onde ela foi seguidas por ela – a corte austríaca era muito conservadora

–, de perto ou de longe, relacionavam-se com a for-

educada, de forma a começar a prestar atenção nessas pequenas

questões de boas maneiras e praticá-las. Questões mação católica, com o ideal de perfeição moral ensinado

que, evidentemente, em matéria de Moral, estão num plano

secundário, não são a essência dela. Mas ao cabo de al-

pela Religião Católica.

gum tempo aquilo filtra. Pode acontecer que uma pessoa,

pelo contrário, não tenha boa Moral, mas possua uma educação

perfeita. Porém ainda aí é um resto de Religião Católica.

Ela, sem perceber, cumpre regras da Religião Católica

porque percebe ser bonito na prática, na atitude concreta.

Infelizmente ela com isso não tem intenção de dar glória a

Deus, mas imita os que dão glória a Deus. Imitando-os, involuntariamente

ela glorifica a Deus.

O Kaiser Guilherme II e a Sissi

Divulgação (CC3.0)

Em suas memórias, o Kaiser Guilherme II,

último Imperador da Alemanha, faz uma descrição

que me impressionou muito. Ele estava

num jardim do palácio do avô dele, então Imperador

da Alemanha. Como a Imperatriz tinha

morrido, a mãe do futuro Guilherme II, esposada

com o então Príncipe Herdeiro, estava fazendo

as honras da casa para uma visitante muito

ilustre, a Imperatriz da Áustria, princesa bávara

casada com Francisco José, Imperador da

34

Príncipe Guilherme

Imperatriz Elisabeth (Sissi)


Deve-se fazer prevalecer as

qualidades do espírito

Isso se refletia em coisas insignificantes. Houve tempo

em que era contrário às regras da boa educação encostar-se

no espaldar das cadeiras, em determinadas

circunstâncias. Era a imagem da ascese católica, levando

a pessoa a dominar-se a si mesma.

Dou outro exemplo: há pessoas que têm o hábito de estalar

os dedos. Na intimidade se compreende, mas não se faz

isso diante de outros, porque chama demais a atenção para

o corpo, quando todas as atitudes de porte, de linha e de

distinção do homem devem lembrá-lo de que ele é principalmente

alma, fazendo ver com isso o elemento mais nobre

de seu ser, que é o elemento espiritual e não o físico.

Isso leva as coisas do Ocidente a serem assim: um engenheiro

ou arquiteto católico, ao planejar a decoração externa

e interna de um palácio para um rei também católico,

que exercerá o poder catolicamente sobre um povo igualmente

católico, o próprio élan de sua alma católica leva-

-o a ornamentar de maneira a fazer prevalecer as qualidades

do espírito, os elementos que possuem categoria, finura,

distinção, nos quais a alma humana aparece na sua excelência.

Pelo contrário, o homem sem essa assistência da

graça e essa inspiração da Fé não é capaz disso.

Então, vemos marajás, sultões e outros tipos assim

refestelados, chupando indefinidamente aquele narguilé,

porque não aprenderam da Religião Católica as boas

maneiras. Isso se retrata evidentemente também nos

prédios, no urbanismo; enfim, em mil coisas de mil modos

isso se manifesta.

É o que faz a superioridade do Ocidente, o qual tem

menos rubis, pérolas, esmeraldas, safiras, brilhantes;

não possui rajás nem marajás, mas tem a distinção católica,

contrarrevolucionária, que domina todo o resto.

O resplandecer da graça

Então, o Xá da Pérsia foi visitar as principais capitais

da Europa, entre as quais Viena. A festa se desenvolvia

e, em certo momento, chegou a Imperatriz da Áustria, a

quem o potentado persa foi apresentado. Ele fez uns salamaleques

à moda oriental e ela respondeu com distinção,

com graça, um pouco sorrindo, como diante de um

“conto de mil e uma noites”, de uma fábula.

Ele ficou deslumbrado com a beleza e a distinção da

Imperatriz. Provavelmente ele, um homem, tinha joias

muito mais bonitas do que ela, que era uma dama. Entretanto,

ela era uma joia da Cristandade! Tudo isso são

frutos da Civilização Cristã.

Na Civilização Cristã os homens, possuindo pela graça

a virtude da Fé e as demais virtudes teologais e cardeais,

acabam tendo toda essa grandeza pessoal que é o

resplandecer da graça.

Mas quem nos obteve a graça? Foi Nosso Senhor Jesus

Cristo no momento de morrer na Cruz, e já quando

Ele começou a sentir tédio e pavor diante do que Lhe

aconteceria durante a Paixão, naquela meditação sumamente

majestosa e linda no Horto das Oliveiras. Quando

a graça penetra nos homens, conquistada para nós pelo

Sangue de Cristo, produz todo o resto. v

(Extraído de conferência de 13/1/1989)

Lembro-me de outro episódio ocorrido com a própria

Sissi, Imperatriz da Áustria. Antigamente, os potentados

do Oriente quase nunca vinham à Europa, porque

eram viagens muito longas e sujeitas a risco. Mas quando

se estabeleceram, com os meios de comunicação moderna,

a possibilidade de viagens seguras e com relativo

conforto, nos primeiros transatlânticos, nos primeiros

trens do século XIX, os potentados orientais começaram

a vir ao Ocidente, trazendo todo o luxo oriental.

Ao recebê-los, as cortes europeias seguiam todo o protocolo

com que se acolhia um chefe de Estado estrangeiro.

Portanto, cerimonial muito bonito, esplendoroso, rico.

Os orientais, por sua vez, vinham com riquezas fabulosas

e iam às festas com seus trajes peculiares.

César Aguiar (CC3.0)

Oração de Jesus no Horto

Catedral de Córdoba, Espanha


Revista Dr Plinio 232, Julho 2017

Luzes da Civilização Cristã

FASTILY (CC 3.0)

Distinção e

donaire

Uma ponte que exprime

magnificamente duas virtudes

cardeais, a temperança e

a fortaleza; portanto, há

por detrás dela uma beleza

moral. Lampadários belos,

esguios e nobres. Um palácio

lindamente decorado por dentro

e guarnecido de duas torres

medievais pontudas, as quais

constituem reminiscência de

um episódio histórico.

32


Guillaume2294 (CC 3.0)

V

ejamos alguns monumentos, lugares, ambientes

e objetos aos quais se podem aplicar o que

eu disse a respeito da distinção, do donaire dos

grandes personagens da História Católica 1 .

Talento francês: graça e garra

Esta é uma ponte em Paris: Pont Neuf. Observem o

material com que ela é construída: granito, um material

bom, mas não caro. Trata-se de uma ponte comum que

transpõe o Rio Sena. No entanto, ela poderia dar acesso

a um castelo faustoso por causa de suas linhas, do seu lado

artístico, o qual, embora sem enfeites, tem uma grandeza

que a torna venerável.

A ponte é sustentada por colunas separadas entre si

por arcos. Assim, cada arco é ladeado por duas colunas,

de uma ponta a outra. São colunas grossonas – dão quase

a impressão de pedaços, e não de colunas inteiras –,

sérias. Os arcos são dignos, sérios, pesados e muito profundos,

porque a ponte é muito larga. Quem a atravessa

de barco tem a impressão de cruzar toda uma muralha

espessa de um castelo mítico. Esses arcos simplesmente

se repetem um ao outro, com uma seriedade e uma distinção

completas. Não há aí nenhum brilhante, nenhuma

safira; dinheiro se gastou pouco aí. O que entrou muito?

A arte. Mas arte em que sentido? Alma. E alma em que

sentido? Veem-se restos da seriedade grave, firme e forte

da Idade Média.

No que se fundamenta essa impressão de firmeza e

força? A ponte enfrenta uma porção de obstáculos. Ela

tem, em geral, um fundo de leito de rio viscoso e precisa

deitar as garras bem por baixo do lodo, na terra firme,

para ter solidez. Por outro lado, ela carrega um peso mui-

Giorgio Galeotti (CC 3.0)

Guilhem Vellut (CC 3.0)

Jean-François Gornet (CC 3.0)


Luzes da Civilização Cristã

Daniel Stockman (CC 3.0)

Jebulon (CC 3.0)

to grande, que é o tabuleiro da ponte, acrescido de tudo

e de todos que passam por cima. A ponte precisa ser tal

que se nós a imaginarmos, por uma razão qualquer, toda

cheia de gente ou de veículos numa hora de trânsito

muito obstruído, não há o menor problema: ela carrega

com seriedade e com indiferença. A seriedade indiferente

a obstáculos e agarrando as dificuldades, empunhando-as

e impondo-se a elas, é o próprio aspecto da alma

católica dotada da virtude da fortaleza. Essa regularidade

nos fala da temperança, a qual é regular em tudo. Temos,

assim, duas virtudes cardeais que se exprimem magnificamente

nesse monumento. Logo, há uma beleza moral

por detrás dessa ponte.

Vista à distância, o aspecto forte e pesado se dilui um

tanto, e ela se torna mais graciosa, sem perder aquela

garra e força própria às coisas que devem ser fortes. A

mistura da graça com a garra é um dos traços do talento

francês, um dos fatores do famoso charme. Observada

por determinados ângulos, a ponte deixa ver uma parte

do seu charme. Mas o que é esse charme? É o sorriso

da alma católica.

Elegância

aristocrática e

majestade real

Outras verdadeiras

obras de arte

que exprimem

inteiramente o espírito

francês são

esses lindos lampadários

localizados

perto do Museu

do Louvre, em

Paris. Cada lâmpada,

provavelmente

de um cristal muito

bom, é alta e encimada

por algo que

dá a impressão das

flores de groselha, como as que se encontram nas coroas

dos reis. Depois há um certo espaço e, por cima, umas

coroinhas pequenas. Por fim, no ápice, a cruz.

É um misto de elegância aristocrática e de majestade

real. Observem o braço dos lampadários: há um pino

central e braços colaterais. Vejam a leveza com que cada

braço desses carrega um lampadário num movimento

natural, como quem está quase se distraindo e levando o

lampadário na mão.

Para percebermos bem como isso é belo, imaginemos

que o lampadário fosse preso à parte central por um eixo

perpendicular o qual pegasse em baixo o lampadário.

Ficariam três toquinhos pequenos e quadrados. Assim

como foram concebidos, não são indiscutivelmente mais

belos, esguios e nobres? Em uma palavra: não há Contra-Revolução

dentro disso?

Duas torres históricas

Outro monumento ligado à História da França, à

Contra-Revolução e a um determinado tipo humano é o

Palácio dos Rohan.

A família dos Príncipes de Rohan era de descendentes

dos Duques antigos da Bretanha, mas colateralmente.

Os Duques da Bretanha tinham toda a categoria de

príncipes, as princesas casavam-se com reis. Eram mais

ou menos como os Duques da Baviera, de Württemberg,

grandes ducados, que se casavam com pessoas da realeza,

absolutamente de igual a igual. Os Rohan não eram

dessa categoria, mas pertenciam a um ramo dessa categoria.

Eles constituíam, com algumas outras famílias da

alta nobreza francesa, um verdadeiro escalão intermediário

entre a família real e o comum dos nobres da corte.

34


O palácio deles, belamente decorado por dentro, é

guarnecido de duas torres medievais pontudas que estão

em contraste com o estilo já completamente dos Tempos

Modernos, isto é, do período que vai do fim da Idade

Média até a Revolução Francesa. Trata-se, portanto, de

um estilo marcadamente anterior à Revolução Francesa,

mas não é o medieval.

Entretanto, encaixadas nesse edifício, encontramos as

duas torres medievais com os tetos em cone muito alto. Disseram-me

– não tive ocasião de confirmar – que essas duas

torres constituem uma reminiscência do seguinte episódio:

Antigamente elevava-se nesse lugar o Palácio dos

Príncipes de Lorena, ramo francês dessa Casa principesca.

Tinham muito poder na França, possuíam feudos, dinheiro,

eram muito bons políticos, estabeleciam alianças

políticas muito poderosas. O palácio deles foi derrubado

para dar origem ao Palácio dos Rohan. Estes provavelmente

o compraram e construíram esse palácio, de uma

regularidade clássica muito bonita e distinta. Conservaram,

porém, do Castelo dos Príncipes de Lorena aqueles

aposentos localizados no andar térreo e as duas torres.

Estas são muito próximas uma da outra, e há uma sala

que se espraia de uma torre para outra, formando uma só

sala na base. Quando os Príncipes de Lorena, que foram

os líderes dos católicos na luta contra os protestantes, tinham

confabulações políticas importantes e muito secretas,

iam para essa sala. A família toda se trancava ali e faziam

as suas reuniões privadas, nas quais estavam presentes

o que havia de mais decisivo do elemento político da

ala católica da França, e que impediu a França cair no protestantismo.

Então essas duas torres são históricas.

Embora, dentre os Príncipes da Casa de Lorena, vários

fossem objetáveis enquanto costumes, essa era uma

Casa muito abençoada e que tinha no mais alto grau o

charme. Basta dizer que pertenciam a essa Casa duas

rainhas célebres na História, por seu charme único e ao

mesmo tempo por seu infortúnio sem nome: Maria Stuart,

Rainha da Escócia – que morreu decapitada, entre

outras razões pelo fato de ser católica, e o Reino da Escócia

ter passado todo para o protestantismo – e Maria

Antonieta.

v

(Extraído de conferência de 13/1/1989)

1) Ver Revista Dr. Plinio n. 231, p. 32-35.

Divulgação (CC 3.0)

Pascal Radigue (CC 3.0)

Divulgação (CC 3.0)

ernst andre (CC 3.0)

35


Luzes da Civilização Cristã

Revista Dr Plinio 233, Agosto 2017

GuidoR (CC 3.0)

Um hino a

Nossa Senhora

Gabriel K.

A Catedral de Notre-Dame é tão bela que

se pode olhá-la indefinidamente, cheio de

enlevo, de veneração e de ternura. Quem a

aprecia muito passa a amar a ordem sublime

das coisas, que conduz ao amor de Deus.


Dietmar Rabich (CC 3.0)

N

otre-Dame de Paris. Eis a catedral de uma beleza

perfeita, alegria da Terra inteira!

Para sentir o equilíbrio da fachada, notemos

que há três partes distintas. Uma vai dos portais de

entrada e termina com a galeria enorme de estátuas, as

quais dão as costas para um terraço que vou analisar daqui

a pouco.

Um resplendor em torno da

Santíssima Virgem

Percebe-se ali o corrimão do terraço e se vê, logo

atrás, uma imagem de Nossa Senhora sustentando nos

braços o Menino Jesus. É a segunda parte do edifício,

que vai do terraço até uma série de colunas que separa

o terraço da torre. Há uma grande rosácea central, toda

feita de vitrais. Nela nota-se uma parte mais central, delimitada

por um trabalho de pedra. Dentro há um círculo

menor ainda, onde está a cabeça de Nossa Senhora. A

ideia que fica insinuada é a seguinte: toda essa rosácea é

o resplendor da cabeça de Maria Santíssima. E sendo a

rosácea o centro da catedral, a ideia que fica meio confusa,

mas realmente verdadeira, é que a catedral é um hino

a Nossa Senhora.

Contrastes harmônicos na relação entre

os diversos elementos da fachada

Ela tem nos braços o Menino Jesus e, com o mais inefável

sorriso de Rainha e de Mãe, olha para seu Divino

Filho. A alma fica assim transportada de entusiasmo

e com vontade de subir. O que ela encontra em cima?

Uma série de colunas, mas que dão para o vazio!

Essas colunas têm uma função que parece um disparate:

sendo tão frágeis, elegantes e harmoniosas, parecendo

irmãs que se tocam pelas mãos, elas sustentam o peso

de duas torres. Porém, ninguém tem a impressão de

que as torres vão esmagar a colunata. Parece tão natural,

com um contraste tão agradável, que se uma pessoa mais

atenta não nos mostrasse, talvez nem notaríamos.

Por detrás, vemos a flecha que se ergue, bem no meio

das duas torres. O resto é o céu...

33


Luzes da Civilização Cristã

É certo que não foi terminada a construção das torres,

as quais teriam uma parte mais alta. Ninguém pode

imaginar como seria, nem ousa completar uma coisa que,

quando se olha, tem-se a impressão de não pedir complemento.

Onde está o talento para completar uma obra

admirável como essa? Não foram encontradas as plantas

que os arquitetos deviam seguir, ninguém ousou mexer

nisso.

Considerem como a relação desses vários elementos

dá uma impressão de harmonia. Qual? Embaixo, três

portais; o do centro é um pouco maior do que os outros

dois. Mas não se percebe bem, pois é discretíssima a diferença.

Contudo, se os portais fossem da mesma altura,

seriam sem graça.

A ogiva é a nota do andar térreo. O andar de cima começa

com a galeria de estátuas e acaba com a colunata.

No meio há uma rosácea e duas ogivas, uma de cada lado.

Cada ogiva é dividida em duas. E, no ponto em que

as duas se encontram, há outra rosácea.

Assim, o redondo é a nota mais saliente nesse andar,

contrastando com o pontiagudo de tantas outras partes.

Mas observem a harmonia, o bom senso e o equilíbrio de

coisas tão diversas e tão bem reunidas. Notem como fica

leve, quase como um brinquedinho, a estátua colossal de

Nossa Senhora ladeada por duas figuras de Anjos.

Por cima, vê-se a massa enorme das torres, cada uma

com duas notáveis ogivas, onde os sinos tocam gravemente

nas grandes horas do ano litúrgico e, às vezes, nas

grandes horas da História da França, que são as grandes

horas da História do mundo.

A galeria dos reis

DXR (CC 3.0)

Essa galeria com estátuas de reis tem sua história. A

Revolução Francesa, sempre ela mesma, decapitou todas

essas esculturas porque, como os bandidos tinham guilhotinado

o rei e a rainha, quiseram “guilhotinar” também

todos esses reis do Antigo Testamento.

Recentemente, nos alicerces de um banco próximo a

Notre-Dame, quiseram fazer construções e encontraram

essas cabeças, que a Revolução Francesa tinha arrancado,

enterradas no subsolo do banco. Fizeram-se estudos

e verificou-se que foi um homem piedoso, residente nas

cercanias, que enterrou essas cabeças ali, porque ele não

se conformava com essa decapitação.

Dietmar Rabich (CC 3.0)

34


Dietmar Rabich (CC 3.0)

Mark Bonica (CC 3.0)

Veio o dia em que mãos justiceiras tiraram do subsolo

todas essas cabeças e tentaram colocar nos troncos dos

reis. Mas, infelizmente, as autoridades decretaram que

não ficavam bem, não havia meio de prendê-las. Entretanto,

eram belas obras de escultura e foram levadas para

o Museu de Cluny, que é o museu de coisas da Idade

Média.

Miguel Hermoso Cuesta (CC 3.0)

Contemplação que conduz ao amor de Deus

Todas essas coisas tão diversas se unem de um modo

tão tranquilo, mas tão interessante, que se fica olhando

indefinidamente, cheio de enlevo, de veneração e de ternura.

Porém, se colocarmos diante desse monumento um

frenético, um indivíduo que baila essas danças modernas,

nasce uma batalha, porque ou ele, à força de gostar do

monumento, perde o frenesi, ou recusa a santa influência

do monumento e o abandona. Entretanto, para almas

predispostas a aceitar essa tranquilidade, essa estabilidade,

a catedral quer dizer enormemente! Quem começa

a gostar daquilo, por novato que seja, passa a amar a ordem

sublime das coisas que conduz ao amor de Deus. v

(Extraído de conferência de 28/6/1986)

BrokenSphere (CC 3.0)

35


Revista Dr Plinio 234, Setembro 2017

Luzes da Civilização Cristã

Arquivo Revista

A Cruz

permanece de pé

O obelisco encimado por uma cruz, colocado na Praça de

São Pedro, nos evoca o lema dos cartuxos: Stat Crux dum

volvitur orbis – Enquanto o mundo gira, a Cruz permanece

de pé. O universo inteiro pode ser sacolejado, porém nada

destruirá a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela

tem a promessa da indefectibilidade, da indestrutibilidade.

Na Criação existem seres de uma grande durabilidade

que nos falam da eternidade de Deus,

o único Ser absoluto, perfeito e eterno, em

função do qual e para Quem tudo existe. Essas criaturas

muito duráveis falam-nos do Criador pela sua imutabilidade

e aparente ou relativa indestrutibilidade.

Símbolo da eternidade de Deus

Por sua natureza pétrea e sua integridade, o obelisco é

um exemplo adequado das coisas duráveis, que nada destrói.

Nesse sentido, pareceu-me de muito bom gosto terem

colocado no centro da Praça de São Pedro um obelisco

encimado por uma cruz, que nos evoca o lema dos cartuxos:

Stat Crux dum volvitur orbis – Enquanto o mundo

gira, a Cruz permanece de pé. Quer dizer, não há quem

mude, quem derrube, quem abata a Cruz de Nosso Senhor

Jesus Cristo. Ela é sempre a mesma, contra ventos

e tempestades.

Esse monumento monolítico enorme, com forma de

agulha, encontrava-se originariamente no Egito, onde os

faraós mandavam erigir grandes pedras com inscrições,

contando fatos do reinado deles ou coisas do gênero, que

eles queriam comunicar à posteridade.

O pagão que mandou esculpir aquele obelisco não

imaginava estar esculpindo um símbolo da eternidade

de um Deus que ele não conhecia, e da indestrutibilidade

de uma Igreja que ainda não tinha nascido.

Uma “desobediência” heroica

Na época em que esse obelisco foi transladado ao seu

atual lugar, no século XVI, não havia os meios mecânicos

que temos hoje, e a suspensão era feita através de um

sistema de cordas, complicadíssimo, amarrando a pedra

34


de vários lados, de maneira a ser puxada ao mesmo tempo

por várias forças.

Para não haver desordem e evitar acidentes existia

uma ordem do Papa, que era o Rei de Roma naquele

tempo, condenando à morte quem falasse. Era preciso

que tudo fosse feito no maior silêncio, de maneira a só se

ouvir, na imensidade da praça, a voz dos mestres e contramestres.

Os homens foram levantando a pedra e, em certo momento,

um dos operários, o qual era um experiente marinheiro,

percebeu que a corda segurada por ele estava tão

quente, pela pressão exercida, que iria se incendiar. Se

o fogo se ateasse, o obelisco cairia e mataria muitos dos

circunstantes.

Esse homem, com o risco da própria vida, resolveu

atrair sobre si a pena de morte, pedindo para trazerem

água. Então ele gritou: “Acqua alle funi!” 1

Trouxeram depressa água para o operário e, tendo ele

apontado o lugar, este foi regado, salvando-se com isso a

pirâmide de cordas, e o obelisco pôde ser erguido.

Terminado o trabalho, houve um decreto do Papa Sisto

V recompensando com honrarias o Capitão Benedetto

Bresca, contratado para a ereção daquele obelisco, pelo

ato de heroísmo praticado: enfrentou a morte, desobedecendo

à ordem papal. Evidentemente, aquela ordem deveria

ser desobedecida, caso contrário seria a ruína da obra.

cruz simbolizando o triunfo da Igreja sobre toda a sabedoria

pagã antiga, evidentemente é belo e bom, pois indica

a perenidade da Esposa de Cristo no movediço de

todas as circunstâncias humanas.

O universo inteiro pode ser sacolejado, porém nada destruirá

a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela tem

a promessa da indefectibilidade, da indestrutibilidade.

É também a presença da verdadeira Cruz em uma obra

que assegura a sua inatingibilidade.

O cosmo

inteiro pode abalar-se de

todas as formas; onde,

de modo autêntico, está

a Cruz de Nosso Senhor

Jesus Cristo e Nossa Senhora,

ninguém e nada

atingem. v

(Extraído de

conferências de

1/9/1973 e 8/8/1979)

1) Do italiano: Água para

as cordas!

Rodrigo C.B.

Arquivo Revista

A obra onde está autenticamente

a Cruz é inatingível

Com que olhos deve-se olhar para esse obelisco egípcio,

no centro da Praça de São Pedro?

A meu ver, com aplauso, porque de si é uma coisa

bonita. Em primeiro lugar, um monólito como aquele

é uma obra-prima da natureza e do engenho humano.

Mas também o símbolo que está posto ali é muito bonito.

O Egito foi a mais gloriosa das nações antigas. Colocar

o obelisco no centro da praça, encimado por uma

Arquivo Revista

Gabriel K.

Ereção do Obelisco Vaticano

Biblioteca Apostólica Vaticana

Sisto V - Convento

de São Francisco,

Lima, Perú

35


cjuneau (CC 3.0)

luzes da civilização cristã

A incomparável

e maravilhosa

Sainte-Chapelle

Os vitrais da Sainte-Chapelle

são lindos e famosíssimos

pelo seu colorido delicado.

Impressiona a suavidade das

nervuras e das colunas que,

embora pequenas, sustentam

abóbadas enormes. Nota-se

uma suprema distinção, bom

gosto, harmonia, nobreza

e uma certa bondade que

pairam sobre tudo isso.

Revista Dr Plinio 235, Outubro 2017

Mmo75 (CC 3.0)

Esta é a incomparável e maravilhosa Sainte-Chapelle.

A forma peculiar da construção vem do fato

de haver pouco espaço para se expandir. Ela foi

construída para ser a capela do Palácio Real cujos antigos

edifícios, que a comprimiam bem de perto, foram substituídos

pelo atual Palácio de Justiça da França.

A capela dos pobres

São Luís IX a construiu para abrigar espinhos da coroa

de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A elevação dela é realçada por este pináculo que sobe

à maneira de flecha que, tendo sido destruído na época

da Revolução Francesa, foi reconstruído no século XIX.

É uma imitação da flecha autêntica, verdadeira.

33


Luzes da Civilização Cristã

Mark Mitchell (CC3.0)

Pedro M.

Essa parte interior é deslumbrante! É de pedra policromada,

e o teto dá a impressão de um céu estrelado. As

ogivas e as colunas todas são pintadas também.

Impressiona a delicadeza das nervuras e das colunas

que, embora pequenas, sustentam abóbadas enormes.

Dessas colunas partem longas hastes, lembrando a elegância

dos ramos de uma palmeira. Recebem, por isso,

o nome de colunas em forma de palmeira. Nos pontos

onde essas hastes se encontram constituem-se pingentes

belamente trabalhados. Esta parte corresponde, naturalmente,

ao lugar destinado ao altar e forma uma espécie

de capela-mor que se separa do resto.

A capela compõe-se de três naves, segundo um plano

típico de igrejas medievais.

A parte baixa da Sainte-Chapelle é uma maravilha, e

estava destinada para os empregados do Palácio assistirem

à Missa. Esse dado contraria a famosa versão de

que na Idade Média não se cogitava nos pobres. Ora, essa

era a capela dos pobres! Oxalá os ricos tivessem, hoje

em dia, capelas assim...

Os medievais gostavam muito da policromia

A policromia é muito bonita; vemos belos mosaicos e,

nas colunas, sobre fundo azul- escuro, a flor de lis de ouro.

Em certos pontos encontramos aplicados alternativamente,

sobre um fundo vermelho, um castelo e um leão.

cjuneau (CC3.0)

Pedro M.

Jean-Christophe BENOIST (CC3.0)

34


denfr (CC3.0)

Joe deSousa (CC3.0)

Nota-se o gosto do homem medieval pela policromia:

colunas vermelhas, azuis, das quais partem os “ramos

de palmeira” rumo ao ponto de encontro belamente ornado.

É uma verdadeira harmonia!

O azul desse “céu” é profundíssimo, como o céu atmosférico

não costuma apresentar. Mas parece indicar

mais o Paraíso eterno do que o céu visível da Terra. Em

determinado ponto da capela, esse azul profundo e nobre

contrasta com o que há de alvo, de cândido nas cenas

representadas nas pinturas ou nos mosaicos.

Os vitrais da Sainte-Chapelle são lindos e famosíssimos

pelo seu colorido delicado. Entre eles, vê-se um representando

Nossa Senhora com o Menino Jesus e, ao

lado, outro com um rei vestido à oriental, como aliás, a

Santíssima Virgem também.

Chama a atenção a beleza das cores com seus variados

tons, todos muito bonitos e harmônicos. Na figura do rei,

por exemplo, impressiona a beleza da cor da capa, do verde

em certas partes do vitral e do escrínio que ele leva. A

expressão de sua fisionomia é também muito bonita.

Em outro lugar, numa rosácea, vê-se um personagem

tocando alaúde. Tudo de uma suprema distinção, bom

gosto, harmonia, nobreza e um certo afeto, uma certa

bondade que pairam sobre tudo isso.

v

(Extraído de conferência de 1/7/1972)


aPóstolo do PulcHruM

Revista Dr Plinio 236, Novembro 2017

Gabriel K.

A música

Anjos

Platão imaginava que os corpos celestes eram como esferas

de cristal as quais, girando umas sobre as outras, produziam

uma sinfonia universal. É uma linda ideia, mas ela se torna

pálida quando consideramos os Anjos, espíritos perfeitíssimos,

puríssimos, virtuosíssimos, fidelíssimos, continuamente

contemplando a Deus, exclamando em cânticos o seu sentir.

Quando ouvimos um canto, notamos haver uma

analogia entre o falar humano e esse cântico,

porque cada nota posta ali é como uma inflexão

da voz humana quando o homem afirma alguma coisa.

O cantochão, o polifônico, a música clássica

Por exemplo, ao pronunciar “afirma alguma coisa” involuntariamente

dei ênfase à palavra “afirma” para indicar

o caráter afirmativo do que eu queria dizer, enquanto

fui muito rápido no resto da frase, porque “alguma coisa”,

sendo um termo vago, pronuncia-se rapidamente,

como uma pincelada apenas no pensamento. De maneira

que, no pronunciar a frase, fiz o que todo mundo faz,

ou seja, martelei as sílabas, modulei a voz de acordo com

o que me vai no temperamento e na alma a respeito daquilo

que estou dizendo.

Então é um modo de proferir as frases, por onde a

pronúncia como que discretamente canta o que está sen-

do dito. E esse “cantar” indica o meu estado temperamental

e o sabor por mim encontrado – bom ou mau,

agradável ou repelente – naquilo que estou dizendo.

Em geral, tanto o cantochão quanto o polifônico têm

isso de próprio: cada nota é uma meditação sobre o sentido

da palavra que está sendo dita, é uma tomada de

posição piedosa, ora triste, ora alegre, ora afetuosa, ora

adorativa, ora reparadora, ora eucarística a respeito daquilo

que está sendo afirmado. Por isso é bonito acompanhar

exatamente assim a música, palavra por palavra.

Entretanto, podemos ver na música um outro aspecto.

Se tomarmos a música clássica, por exemplo, veremos

tratar-se de uma magnífica arquitetura de sons. Essas

melodias podem ser comparadas, de algum modo, a

um prédio com as suas massas distribuídas, suas colunas,

seus corpos de edifício, seus desdobramentos, mas

onde entra algo mais abstrato do que a expressão de um

pensamento humano: introduz-se uma pura ideia de

harmonia.

34


dos

no Céu

Poderíamos nos perguntar qual dessas é a verdadeira

concepção da música e, se ambas são verdadeiras, qual a

mais alta.

Diante desse problema, eu me pergunto se não haveria

um estilo de música que reunisse ambas as perfeições,

porque são manifestamente tão nobres e tão altas que

um certo senso da unidade nos faz desconfiar de que haja

a possibilidade de reunir as duas concepções numa visualização

só.

Porém, ainda não encontrei uma fórmula e nem sei se

isso é possível. Indico apenas essa ideia para esboçar um

pouco aquilo que, provavelmente, é a música dos Anjos

no Céu. Que os Anjos têm uma melodia no Céu, embora

não seja a música material, é positivo. Que esta melodia

deve ter uma arquitetura sonora magnífica, expressão do

ser deles, é fora de dúvida.

Haverá no homem, com as limitações para a criatura

humana, a possibilidade de uma música assim? Também

não sei. Mas é uma coisa a respeito da qual se pode

cogitar.

Cogitações que nos incentivam

a pensar no Céu

Exatamente são as cogitações que valem a pena ter

como entretenimento quando, por exemplo, a rotina está

monótona. É um entretenimento inocente que deixa a

alma leve. E um certo cultivo da leveza de alma vai bem

para quebrar esses estados um tanto depressivos a que

possamos estar sujeitos.

Platão imaginava os corpos celestes como esferas de

cristal girando umas sobre as outras eternamente, e ele

tinha a ideia de que cada uma dessas esferas produzia

um som, e que esses sons todos se encontravam no universo,

produzindo uma música universal resultante dos

movimentos dos astros.

Notem quantas noções bonitas estão postas dentro dessa

concepção. Esferas de cristal que giram, já é uma verdadeira

beleza! O som que se desprende dessas esferas, correlato

com a cor, a densidade e a rotação desses cristais, uma policromia

conjugada a uma harmonia, que coisa bonita!

Essa música não exprimiria o sentir humano, seria

uma pura arquitetura universal, quase uma meditação filosófica

sonora, mas que produz no homem um reflexo.

Então se poderia imaginar um ponto de encontro que seria

a expressão da reação humana diante dessa harmonia

universal, e musicar isso.

Cogitações como essa nos ajudam a suportar o peso

da vida e nos incentivam a pensar no Céu. Como ficam

estúpidas essas lindíssimas esferas de cristal quando consideramos

que existem os Anjos, espíritos perfeitíssimos,

puríssimos, virtuosíssimos, fidelíssimos, continuamente

contemplando a Deus, vendo n’Ele belezas sempre as

mesmas e sempre novas, exclamando em cânticos o seu

sentir. É uma coisa maravilhosa!

v

(Extraído de conferência de 23/3/1970)

35


luzes da civilização cristã

Revista Dr Plinio 237, Dezembro 2017

Fotos: WGA (CC 3.0)

Um auge de

amor de Deus

Comentando afrescos de Giotto, Dr. Plinio afirma entre

outras coisas que logo após o nascimento de Jesus, Maria

Santíssima observou o olhar lúcido e cheio de amor que Ele

deitava sobre Ela. O Filho tomava conhecimento da fisionomia

de sua Mãe e Ela de seu Filho. Foi um momento sublimíssimo

da vida de ambos. Podemos imaginar o auge de amor de

Deus a que Nossa Senhora chegou nesse momento.

30


Oafresco pintado por Giotto na Cappella degli

Scrovegni, em Pádua, representando o casamento

de São José com a Santíssima Virgem, tem como

fundo um pequeno edifício que, segundo a imaginação

do pintor, corresponde a uma parte do Templo de Jerusalém.

Nossa Senhora com porte ereto e virginal

O sacerdote está revestido de uma capa vermelha, debaixo

da qual há uma espécie de camisa e uma meia-túnica

que desce da cintura até o chão. É um ancião já de

cabelos brancos, abundantemente barbado, numa atitude

de piedade e recolhimento, que não visa ser a de um

santo, mas de um prelado digno, respeitável, pois não

tem em torno da cabeça a auréola de santidade. Ele está

exercendo funções na cerimônia.

Identificamos São José pelo fato de ele estar com a

mão direita passando uma aliança a Nossa Senhora, e

com a esquerda segurando uma vara com flores. Era o

tal bastão que floresceu, indicando ser ele o esposo escolhido

pela Providência para Maria Santíssima.

Segundo uma antiga tradição, São José é apresentado

como muito mais idoso do que Nossa Senhora. Daí

notar-se na pintura a diferença de idade entre ambos.

Ela ainda mocinha e com o recato, a compostura de

uma pessoa toda virginal está vestida com uma túnica

de um cor-de-rosa muito claro, quase se diria branco.

O colorido não é bem exatamente o da meia-túnica

do sacerdote, nem de uma espécie de meia-túnica de

São José, mas são cores muito claras todas elas, que

falam a respeito de virgindade, pureza, delicadeza de

sentimentos levada ao mais alto grau. Nossa Senhora

está cingida com uma coroa de flores. Todo o seu porte

é ereto e virginal.

São José toma um pouco o papel de esposo e de pai

diante d’Ela. Sua atitude já é um tanto protetora em relação

a Nossa Senhora, que Se deixa proteger. Ela está

muito bem, apesar de sua aparente timidez junto ao sacerdote

respeitável e a São José.

Em volta encontram-se as pessoas que estão assistindo

às bodas. Não sei que papel terá no quadro esse personagem

vestido de um verde muito claro. Alguns estão

comentando o acontecimento, vestidos em trajes semelhantes

aos romanos, mas com coloridos que não parecem

ser de tecidos romanos, são mais orientais. Tudo indica

que na mente de Giotto esta cena se desenrola no

Templo de Jerusalém.

Realizado o casamento, organiza-se um cortejo com

os esposos. É uma vista do cortejo que, com certeza, se

encaminha para a festa. Nota-se que todos estão adornados,

vestidos para uma solenidade, cabelos muito bem

penteados.

Comunicações místicas do Menino

Jesus com sua Mãe virginal

Esse outro afresco representa Nossa Senhora chegando

à casa de Zacarias e sendo acolhida por Santa Isabel.

A Santíssima Virgem está muito bondosa, muito meiga.

Mas Santa Isabel, sobretudo, está respeitosa. Notem

como ela faz uma inclinação e contempla Nossa Senho-

As núpcias entre São José e

a Santíssima Virgem

Cortejo dos esposos

31


Luzes da Civilização Cristã

ra, maravilhada. Esta olha comprazida para sua prima,

mas não Se inclina. É natural: cada uma delas trazia

em si um menino; mas no claustro de Santa Isabel não

se encontrava senão o precursor do Menino que estava

no claustro virginal de Maria. Sem dúvida é uma honra

imensa ter concebido São João Batista – Nosso Senhor

o comparou a Elias –, mas conceber o Homem-Deus não

há comparação com nada!

No afresco representando o Nascimento do Menino

Jesus, São José está dormindo, as ovelhinhas estão ali

perto, o burrico também e os Anjos enchem o céu, cantando

a glória de Deus. Os pastores estão ouvindo o cân-

A Visitação

Nascimento do Menino Jesus

tico celeste. “Glória a Deus no mais alto dos Céus, e paz

na Terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 14). É exatamente

o que a Liturgia, no dia 24 para 25 de dezembro,

deverá estar cantando.

É noite. Nossa Senhora acaba de dar à luz o Menino-

-Deus de um modo misterioso e maravilhoso. A atitude

d’Ela é de uma pessoa inteiramente sadia, que está aconchegando

melhor seu Divino Filho numa manjedoura.

Mas com um desembaraço de movimentos que não é o

de uma mãe da qual acaba de nascer sua criança. Compreende-se:

o processo de nascimento é dolorido e difícil

em virtude do pecado original, mas em Nossa Senhora

não. Ela foi virgem antes, durante e depois do parto. Esse

nascimento se deu de modo milagroso, de maneira a

não representar um esforço para Ela. Ali está seu Filho,

e Ela, como quem tivesse acordado de um sono brando,

abrisse um pouco os olhos para ver o Menino, e vai dormir

dali a pouco de novo.

De fato, é uma cena lindíssima, que empolga! Pode-

-se imaginar a situação de Maria Santíssima ao ver, pela

primeira vez, o fruto do Divino Espírito Santo nas

suas próprias entranhas. E que fisionomia tinha o Homem-Deus

que acabava de nascer d’Ela! O Menino Jesus

tomava toda a atitude de uma criança dessa idade.

Ele teve, durante toda a vida, a atitude própria às

idades que foi percorrendo, até os 33 anos com que Ele

morreu.

Porém, como Ele possuía a natureza humana ligada

à divina pela união hipostática, em uma só Pessoa, teve

de fato uma inteligência plena desde o primeiro instante

em que sua Santíssima Mãe O concebeu. Já no claustro

materno Ele rezava, oferecia a Deus reparações, O adorava

e implorava pelos homens. O Menino Jesus começou

a sua vida inteiramente consciente, desde o primeiro

momento em que passou a existir.

De maneira que essa Criança, com o todo de um bebê,

teve, entretanto, incontáveis comunicações místicas,

talvez diretas, não se sabe como, com sua Mãe virginal

já desde o período da gestação. Nossa Senhora sabia

que seu Filho era uma Criança inteiramente inteligente.

Mas olhava para Ele, um Menininho, a quem a Segunda

Pessoa da Santíssima Trindade estava unida hipostaticamente.

Maria Santíssima compreendia ser lúcido e cheio de

amor o olhar que Ele deitava n’Ela, e que os dois estavam

Se conhecendo: o Filho tomava conhecimento da fisionomia

de sua Mãe, e Ela de seu Filho. Foi um momento

sublimíssimo da vida de ambos. Podemos imaginar o

auge de amor de Deus a que Nossa Senhora chegou nesse

momento!

32


Serenidade medieval que

exprimia a graça de Deus

De acordo com uma bela tradição, os magos vindos

do Oriente eram reis. Por isso, no afresco de Giotto vemos

esses dois reis em pé, atrás, com coroa ou um diadema

cingindo a cabeça. Eles vêm trazendo os seus presentes,

recebidos pelo Menino Jesus no colo de Nossa Senhora,

que está sentada numa espécie de troneto sobre

um estradozinho ricamente atapetado. Ela mesma está

também ricamente vestida. Para receber reis tinha que

Se vestir com aparato. Mais adiante há uma tribunazinha

onde estão vários personagens santos; nota-se isso

pelas auréolas. Atrás de Nossa Senhora há um Anjo e

São José.

É interessante o seguinte: um dos reis está adorando

o Menino Jesus e osculando os pés d’Ele. Os dois outros

monarcas estão tranquilos, comprazidos em oração

diante de Nossa Senhora e de seu Divino Filho, vendo o

seu companheiro de viagem, seu irmão na realeza, adorar

assim o Menino. Estão contentes com tudo e esperam

chegar a vez deles, sem impaciência, com essa tranquilidade,

serenidade medieval que exprimia bem a presença,

o espírito, a graça de Deus na alma desses personagens.

Logo atrás dos três reis há um gorducho que está freando

ou dando um jeito qualquer no camelo, para este

não criar problemas. Esse já não tem nada do sobrenatural,

do tranquilo, do sereno dos demais; é um homem

movimentado e prestando atenção em tudo, de nariz

pontudo, olhos saltados e mandão. Está bem à altura

de tratar com camelos.

Adoração dos Magos

Apresentação no Templo

Até o Templo tem algo de esguio e virginal

Outro afresco traz a cena da Apresentação do Menino

Jesus no Templo. Vemos a Santíssima Virgem e São José

de um lado, de outro o Profeta Simeão e atrás está a

Profetisa Ana. Interessa principalmente a atitude de São

José e de Nossa Senhora. Quem apresentou ao Profeta

o Menino foi Ela, que está com as mãos estendidas como

quem O acaba de entregar. São José, recolhido e modestamente

em segundo plano, acompanha a cena. Não

creio que haja meios para decifrar quem é o terceiro personagem.

Uma atmosfera de santidade e pureza domina o quadro

todo, a ponto de o próprio templozinho ter qualquer

coisa de esguio e virginal. Notem como Giotto coloca um

fundo meio azulado com numa tonalidade um tanto escura,

que dá muito relevo à parte central do tema, ou se-

Fuga para o Egito

33


Luzes da Civilização Cristã

O Rei Herodes mandou matar todas as crianças de

dois anos para baixo porque os Magos tiveram a inocência

de procurá-lo, perguntando se tinha ouvido falar do

Rei dos Judeus que tinha nascido. Herodes achou que

dois reis no mesmo reino não cabiam e que, portanto,

era preciso eliminar esse menino. Houve, assim, uma

matança geral de inocentes. Estes foram os primeiros

mártires da Igreja Católica. Por que mártires? Por uma

razão muito simples: eles foram mortos por ódio à Fé, a

Deus, ao Menino que lhes dera a honra de nascerem na

mesma cidade que Ele. Mortos assim, embora não tivessem

consciência de si mesmos, foram todos para o Céu

como mártires. E são os Santos Inocentes cuja festa se

celebra no dia 28 de dezembro, com um nexo, por motivos

óbvios, com a festa de Natal.

É interessante notar o seguinte: quando os Anjos aparecem

na noite de Natal, eles cantam “Glória a Deus no

mais alto dos Céus, e paz na Terra aos homens de boa

vontade” (Lc 2, 14). Os primeiros atos que se desenrolam

a partir do Natal são cheios de luz, de bênção e de

paz, é verdade, mas carregados de ameaças para o futuro.

O que parece, para um espírito superficial, estar

em contradição com a ideia de “paz na Terra aos homens

de boa vontade”, porque pareceria que os homens

de boa vontade não sofreriam nem perseguições, nem lutas,

nem qualquer dificuldade. Dentre os pais e as mães

desses meninos, provavelmente alguns seriam homens

de boa vontade. Entretanto, o que eles tiveram? O morticínio

de seus filhos. Uma coisa, portanto, de assustar!

Vê-se numa espécie de tribuna um personagem que proclama

um edito. Imediatamente lotam a cena os algozes, os

executores, à procura das crianças, e as pessoas tentam se

esquivar. No primeiro plano uma mulher que evidentemente

não quer entregar o filho. Mais adiante percebem-se cenas

de uma agitação e de uma violência, que leva a admitir

como provável que já nesse magma estão sendo mortas as

primeiras crianças. O primeiro sangue de mártires começa

a subir ao Céu. É uma coisa extraordinária!

Alguém perguntará: “Eles não são batizados?” Essas

crianças foram batizadas no próprio sangue. Constituem,

portanto, as primeiras almas batizadas, decorrenja,

o Menino Jesus, o Profeta Simeão, Nossa Senhora,

São José e a Profetisa Ana.

Na pintura que representa a fuga para o Egito, Maria

Santíssima vai montada num simples burrico, São José à

frente guiando, e eles apresentam todos os sinais exteriores

da pobreza. Entretanto, a dignidade d’Ela é de uma

princesa; seu porte retilíneo, as costas sem a menor inflexão,

a cabeça alta indicam a resolução com que Ela enfrenta

os riscos da viagem, que parece estar no começo.

São José vai caminhando na frente, mas atentíssimo

ao que acontece com a Mãe e a Criança. Nossa Senhora

não. Ela parece confiar em São José e em Deus; por isso

Massacre dos inocentes

Encontro no Templo

mantém-se recolhida em oração com o Menino que está

como que dormindo e agarrado à Mãe, um pouco para

dar a entender a intimidade entre os dois, e como é

cheio de propósito que Ela reze a Ele por aqueles que estão

contemplando o quadro.

O sangue dos primeiros mártires

começa a subir ao Céu

34


tes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, pouco depois

de Ele ter nascido.

Uma resposta afirmada majestosamente

Essa outra cena mostra o encontro de Jesus no Templo.

Nela vê-se um aspecto interno do Templo de Jerusalém,

todo meio romanizado. Por exemplo, aquela espécie

de abóboda seguida de dois outros compartimentos colaterais

é de estilo romano a conta inteira.

Dentro do Templo, de um lado e de outro, encontram-

-se os doutores da Lei discutindo a interpretação desse

ou daquele ponto da Escritura. Mas o Menino Jesus já

Se destacou tanto entre eles que ocupa a presidência dos

sábios e está falando como verdadeiro Doutor. As pessoas

estão perto d’Ele pasmas com o que Jesus diz, procurando

ouvi-Lo com muito interesse e aproveitando as lições

que Ele dava.

À esquerda, de pé, Nossa Senhora e, mais atrás, com

sua vara florida, São José. A cena faz entender que o

Santo Casal não compreendia a atitude do Menino Jesus.

Maria Santíssima está numa atitude de quem pronuncia

a famosa pergunta: “Meu Filho, por que agistes

assim conosco?” (Lc 2, 48). Nosso Senhor parece estar

dando doutoralmente – eu quase diria majestosamente

– a resposta: “Por que me procuráveis? Não sabíeis que

devo estar na casa de meu Pai?” (Lc 2, 49).

Batismo de Nosso Senhor

No céu chamejam raios e brilhos de glória

No Rio Jordão, São João batiza Nosso Senhor Jesus

Cristo. O batizado se dava na forma de um verdadeiro

banho e Nosso Senhor é apresentado, portanto, com

uma parte do tronco desnuda por causa do banho. No

céu chamejam raios e brilhos de glória.

Notem a situação um tanto paradoxal: dir-se-ia que a

grande figura ali seria quem batiza, e o neófito, uma figura

secundária. Mas Nosso Senhor é apresentado, apesar

da grandeza de São João Batista, com uma majestade

divina, uma seriedade e uma tranquilidade extraordinárias,

que fazem d’Ele um verdadeiro Rei e dominador. Ele

não está com nenhum atributo da realeza, ao contrário,

apresenta-Se com o busto desnudo. Entretanto, vejam o

jeito d’Ele e a própria atitude de São João Batista, como é

respeitosa e até um pouco inclinada, embora segura, e em

nada intimidada. No céu, a Glória de Deus transparece.

Nas Bodas de Caná – outro afresco presente na Cappella

degli Scrovegni –, a narração do Evangelho dá a entender

que havia muitas pessoas, a ponto de esgotar a provisão

de vinho da família, o que deu origem ao milagre da

Bodas de Caná

transmutação da água em vinho. Porém, para economizar

espaço, Giotto representou apenas a cena central, ou seja,

a mesa principal das bodas, onde se encontram Nossa

Senhora, São José e Nosso Senhor Jesus Cristo que está

dando ordem para a água se transmutar em vinho.

É interessante ver como o pintor imaginou a cena: as

várias talhas alinhadas nas quais estava a água que se

transmutaria em vinho.

Por se tratar de uma festa, os anfitriões queriam ocultar

a rudeza da pedra e por isso estenderam sobre a parede

uma cortina de bom tecido, suspensa a uma altura

maior do que a de um homem comum. Esse era um costume

frequente na Idade Média.

v

(Extraído de conferência de 30/11/1988)

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