O Coracao Nao Nega

VitorCorleoneBH

Livro de poesias.

O CORAÇÃO NÃO NEGA

VITOR CORLEONE MOREIRA DA SILVA

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O CORAÇÃO NÃO NEGA

“Vida passa, os dias se consomem...

Devemos viver cada instante,

Como se fosse o único instante!

O sabor da vida é maravilhoso,

Porém é preciso que se saiba saborear.”

Vitor Corleone Moreira da Silva

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Introdução

“O desejo de viver orienta as decisões e a conduta do homem, e nesse

contexto a sociedade se torna o epicentro de uma disputa muitas vezes mais

aguerrida e violenta que a própria guerra: o reconhecimento dos direitos e a luta por

sua aceitação.

Cada indivíduo possui um coração, e os rumos que o indivíduo segue, a

proporção das batidas do órgão, os mitos e as verdades, as crenças e sonhos, só ao

próprio dono do coração pertencem. O juízo que o ser humano faz das coisas é

subjetivo, intocável, personalíssimo. É um ambiente intocável pela ação das leis,

código de conduta social ou ética. Nada atinge a subjetividade do coração humano.

A vida corre conforme um rio desgovernado na direção do oceano, que é a

morte, sendo esta a sua direção única, e o ser humano possui a capacidade de criar

as correntes que compõem tal rio, as curvas, a velocidade e ferocidade do

movimento das águas.

O coração do homem irrecusavelmente dita as regras da aceitação ou

reprovação de todos os esteios componentes da existência individual ou coletiva, e

bate tal qual o compasso de um bumbo, retumbante e cadenciado no coração de

uma bateria.

O mundo possui bilhões de bumbos, cadenciados ou não, fazendo barulho

dentro do corpo de cada elemento, resultantes da explosão universal que a tudo

criou. Poeira de estrelas, resultados mortais da maravilha da criação.

O coração é subjetivo, não regrado, informal, impreciso. Relaciona-se ao

meio porém não o domina, e depende do seu dono se deixar dominar por ele.

Pertence ao seu dono produzir os seus juízos de valor. É o guerreiro que manipula a

vida, e não se dispõe a ser compreendido.

Quem o quiser julgar por seus atos ou batidas, conceitue a expressão

“enleva” e esteja certo de que ao centro de um vulcão que desperta, o coração é

como a chama ardente que se destaca e primeiramente pulsa em direção ao céu

enaltecendo seu vigor, rebeldia ou coragem.”

Belo Horizonte, 20 de Dezembro de 2002

Vitor Corleone Moreira da Silva

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O coração não nega

O coração não nega

Quando a dor da saudade incomoda e aperta meu peito

Ou a felicidade transborda pelos olhos

Nos momentos mais difíceis, mais sofridos

Onde falta o arroz e a cachaça na mesa dos brasileiros

Para aliviar a fome e a sede orações ao alto

O coração não nega

Quando as lástimas, perseguições sociais

Afugentam do bolso o dinheiro e dos olhos a coragem

E sobra somente uma guimba de cigarro entre os lábios

O time enche os estádio e perde no final do jogo

E os jornais só comentam morte e destruição

Na rotina imutável da cidade grande

O coração não nega

Quando vou descansar na roça, no meio da noite o cheiro de lenha

Vendo as estrelas e tomando cerveja deitado na rede

Às vezes ele bate forte e às vezes para de bater

Bate forte o coração ao cantar a saudade

Ou pela quietude do campo se assemelha às rochas

O seu refúgio é a poesia

E o hino pátrio da minha vida

O coração não nega e eu acredito que tudo pode melhorar

Sou um feliz expressador

Das minhas idéias guardadas, mistificadas, obscuras, reprimidas

Porque tenho uma poesia

Para cada drible do Garrincha

Assim como o Garrincha tem um drible

Para cada gol do Pelé

05/02/2002

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A perfeição das lágrimas

As lágrimas são perfeitas!

Quando caem dos olhos

Levam junto sonhos que são perfeitos.

Sonhos jamais serão como a realidade.

Nele devotamos as querências,

Nele praticamos as carências

Dos olhos, da alma e do coração.

São lágrimas de mãe

Coração sem limites.

Lágrimas de namorados:

Saudosas, com raiva ou angústia.

Lágrimas de feridas na carne:

No braço, na perna e na honra.

Mas há lágrimas de alegria!

As lágrimas são perfeitas

Como as pérolas nos moluscos

Ou como a lua, o sol ou o vento.

As lágrimas são perfeitas

Desde o seu nascimento

Até o momento de sua morte:

Enxugando-se no rosto

27/11/2002

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A caneta

Eu passava dias inteiros escrevendo versos

E tinha minha fiel companheira entre os dedos

Até que um dia se acabou num último esforço

O seu líquido vital que proporcionava realização

Então eu disse pra minha caneta

Você já deu o que tinha que dar minha amiga

E mesmo que não nos encontremos mais

Obrigado por tudo

18/11/2002

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Espera

Momentos de angústia e espera

Com o músculo quase sem fôlego

No arfar esperançoso

Com a coragem doada pelos amigos

Pelos familiares e médicos

À espera de um coração

Que me dê a vida

A fila é interminável

Sorteia-se quem irá viver com um número

Pessoas comuns, na mesma espera

Onde o maior tesouro da existência

É um pedaço de carne saudável

Que a terra come

Quando não há solidariedade

Os vermes se fartam da boa carne

E o despedaçam com seus dentes afiados, destrincham

Enquanto eu já não quero comer

Ansiedade

Angústia

Espera

Por um coração querendo bater

Os dias se passam

A quantidade de remédios aumenta

A vida vai escoando

O silêncio é notável nesse quarto

A dor sentida era pra ser gritada em desespero

Mas não há como gritar, não há fôlego

Não há coração

09/06/2002

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O bom palhaço

Lá vem o bom palhaço

Cansado, carente, sozinho

Proporciona sorriso

Mas por dentro a alma chora

Chora a alma do palhaço

Que faz as crianças contentes

Que serve aos outros

Queria o bom palhaço

Não se sentir tão sozinho

Encontrar um cão de rua

Pra ser sua companhia

Nessa noite escura

No silêncio da rua

Por onde vem o palhaço

As pessoas não querem sorrir

Ninguém nota o artista

Que se cansa de ensaiar

Na beirada de sua cama

Uma palhaçada engraçada

Uma idiotice

Pra mostrar aos outros

Fica triste o bom palhaço

Sem ter alegria pra si

E que tenta fazer sorrir

Numa atitude nobre

Procurando felicidade

Em cada rosto calejado

Nesses dias de incerteza

E desespero

Carente querendo um amigo

Doente de ser tão sozinho

Caminhando pela rua

Escura, calada e deserta

Com o coração na mão

Na outra uma língua-de-sogra

Lá vem o bom palhaço

10/10/2002

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Recordação

Quando o cheiro de alguém fica no quarto

Ou no espelho a marca de uma digital

Nos perguntamos porquê acabou

Por que a chama foi se apagar

Só restando o batom manchando o lençol

No quarto perfumado que nunca mais perde o cheiro

Um fio de cabelo já grisalho pela ação do tempo

Que tanta história ressuscita no coração

Canta as notas da saudade no som triste

Som do adeus

Viver na solidão é inevitável

A ansiedade não é defeito nem fraqueza

Ruim é não se emocionar

E a voz? Brisa do mar – lembranças

Saudade dos gemidos e sussurros

Voz do coração pede a volta

Sensatez se vê perdida na sentimentalidade

Cada hora que se passa leva

Um pedaço da esperança desse

Que ainda resiste somente por pirraça

E toda noite procura lá no meio das estrelas

No meio das luzes a imagem daquela

A alma cobrindo-se com a luz da lua

O corpo pedindo pra que voltem os abraços

A saudade acreditando que a pessoa ouve as súplicas

Mas é só o cheiro que ficou no quarto

Não há mais o amor

16/05/2002

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Mistura

Momentos de volúpia

O desejo que se manifesta e se torna opção

Que contraria o desprezo

E constrói o amor e a realização

O homem e o homem

A mulher e a mulher

O coração bate pra onde vão os ventos

O amor escolhe os rumos e se manifesta

Por dentro é o mesmo sangue humano que corre

Os ideais de vitória e felicidade, solidão e vontade de viver

O universo que se modifica e se mistura

Os direitos e as direções

Os espaço reprimido na sociedade

A vontade de vencer

Desejos pequenos, vaidosos, sedosos

Delicados, perfeitos na simplicidade

Mas a vontade aguerrida

Que minoritária eleva o tom de voz

O amor e o medo

Coragem em tons coloridos

Sorrisos e lágrimas manchando a maquiagem

Viver e estar para a vida

Como a semente está para a existência

Momentos que se misturam

Fissuras, prazeres, delícias

Opções naturais não compreendidas

Regência das escolhas

Do homem e do homem

11/10/2002

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O choro da alma

Vida, o que possuo se o meu sentimento é triste?

A angústia sufoca os risos que guardei pra hoje

Os mistérios da insegurança me tiram a vontade de sonhar

O que será do amanhã se o hoje é sombrio?

O vazio provoca ecos em um coração que era preenchido

A alma em suas lamentações jorra lágrimas ao mundo

Um oceano de dor afoga minhas lembranças

O horizonte é gelado e cinzento

A pele já não tem vida e se murcha, convalescente

Os olhos ainda brilham por uma tola esperança

Resistir com honra é o único consolo de quem ama

Porém toda honra seria em vão se ela voltasse

A razão escoaria pelos poros da pele mais rápido que o suor

E o choro daria lugar à inevitável reconciliação

Desejos, resquícios de um amor que não morreu

A razão sabe que ela nem se preocupa e não entende

Que um coração não bate em vão por ela – é por amar

Não faz idéia da dor que estou passando, do vazio, da angústia

Das lágrimas derramadas por uma pobre alma

Que aprendeu a construir a sua felicidade

Unicamente pela existência dela

As horas se passam e o tempo me diz que acabou

Mas a alma não se cansa de esperar por momentos de amor

Que não irão mais preencher o livro da existência

Seduções enamoradas que não provocarão de novo

Sorrisos em um homem que foi feliz

Só existem agora as lágrimas e nada mais

Não possuo mais nada

03/08/2009

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Pensando na vida

Estou pensando na vida

Não que eu seja um ocioso

Tenho muito que fazer

Mas gosto de pensar na vida

Em tudo. Sobre tudo. Em todos.

O que cada um faz

Ou deixa de fazer

Não quero a imortalidade

A qual é objeto de desejo impossível

Não quero viver pra ver meus queridos morrerem

Não quero me despedir dos amigos

Eu ficaria ultrapassado

Fortuna também é tão impossível que não quero

Beleza? Não. Me deixa feio mesmo

Pra quê tudo se depois de viver e gozar

Visitar o mundo inteiro cidade por cidade

Gastar rios de dinheiro e seduzir com a beleza

Quê mais eu teria pra fazer

Com vitalidade à flor da pele

E genialidade pra sonhar

Senão ficar pensando na vida?

16/09/2002

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Decadência da boemia

Acabou a bebida

Acabou a comida

O refresco acabou

O pagode parou

Lamparina apagou

A laranja perdeu

O feijão azedou

Prato sujo de canja

Pia cheia se esbanja

Acabou o manjar

Saideira não há

A dispensa vazia

Água suja de larva

A moleza acabou

Que destino cruel

Acabou o doce mel

Trabalhar trabalhar

Vida mansa e manjar

Outra vez sacrifício

Trabalhar trabalhar

Pra viver, pra viver

16/09/2002

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Definição de “nós”

É

Nós somos culpados

E ontem estivemos rebeldes

Fomos nós que erramos hoje

Não deveria ter sido dessa forma

Há cinco dias atrás

Tudo se imputa a nós mesmos

Nós não temos observado

É

Nós somos ruins

Não justificamos nossos erros

Nós achamos engraçado

Se transformar em decadência

O que deveria ser perfeito

Displicentes somos

É

Somos egoístas

Pensamos somente em nós

Ao passo de deixar de fazer

Por preguiça ou por não saber

Nossa índole é reprovável

Nós ofendemos demais

É

Nossa imagem em veste amassada

Nosso cabelo,

Semelhante guedelha

Nosso modo de ser

Nossa forma reprovável de estar

Somos tão imperfeitos

E tão imprudentes

A ponto de não nos corrigirmos

Exteriorizamos condutas

Desobedientes e antiéticas

É

Reiterados opressores do “ser”

E particularmente inconseqüentes

Faltamos sim a todo instante

Com a presença

Ou com a perfeição

Nos recusamos a sermos perfeitos

E acatamos nossa humanidade

Nosso modo próprio de agir

Agravamos todo um sistema

Pela incompetência natural

E achamos natural errar

É

Não importa o que falamos

Nada justifica

Sermos humanos

É

Mas estamos aqui sempre

Para anular a afirmação

De que não tentamos

Nós somos “nós”

É isso que somos

Apenas “nós”

13/10/2006

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Determinação

Não se pode vencer alguém determinado

A não ser que se tenha mais determinação

Do que essa pessoa

Determinação que não se compra nem se rouba

A qual somente diminui

Quando o seu dono a deixa de lado

E pensa no fracasso ou no talvez

18/11/2002

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Soneto do casamento

Se você promete não me abandonar

Se você promete não se arrepender

Se cuidar de mim se um dia adoecer

De rolar dos olhos lágrimas de dor

Se você promete que vai respeitar

Se você promete que será fiel

Se você promete me levar ao céu

Não deixar faltar os beijos de amor

Se em algum momento um de nós partir

Que o outro saiba entender

Que a carne morre, não tem outro jeito

Mas a cada dia viver com amor

Se você promete compreender, que seja

Eu aceito

17/09/2002

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Lágrimas de amor

Quem sabe se as minhas lágrimas

Alimentassem as sementes da terra

E crescessem as rosas mais lindas

Pra eu te oferecer (um dia)

Quem sabe se as minhas lágrimas

Ao rolar dos meus olhos

Formassem um rio pra eu jogar

Uma garrafa com um bilhete – um sonho

Quem sabe se as minhas lágrimas

De amor, do qual dependo

Trouxessem você pra mim (um dia)

Se essas lágrimas

Formassem uma cachoeira do meu quarto ao seu

E viesse nadando feito sereia

06/12/2002

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Bah!

Não consigo pensar

Numa frase bonita que seja.

Bah! Me proibiram de pensar mesmo.

Minha mulher está grávida

E estou desempregado...

Bah! Quem se importa comigo?

Bah! Bah! Bah!

Bah! Pros políticos...

Bah! Pros psicólogos...

Quero tomar uma cerveja gelada,

E ouvir um bom pagodinho

Num rádio toca-fita.

Ninguém quer me ajudar...

Bah! Bah! Bah!

Eh, canseira danada!

Bah!

Vamos ver no que vai dar?

Bah! Pros meus adversários...

Atirei o pau no gato

E o gato morreu.

Ahá!

Bah!

Ninguém se importa comigo.

Minhas contas chegaram

E não vou pagar.

Ahá...

Minha filha quer casar.

Bah!

24/09/2002

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Não tem festa

Pergunto onde estão todos

Dia de festa e eu aqui sozinho

Talvez porque não tem festa

Nem conversa, nem nada

Troco o abraço pela jóia

Troco a pinga pelo canto

Amizade pelo orgulho

Vou embora daqui

Porque hoje não tem festa

Dia de menino

Que eu deixei de ser

Os balões pela piada

A música por um aperto de mão

O bolo por um beijo

“Répi bardei” pra alguém

Parabéns não sei pra quem

Porque não tem festa

Roupa nova por um trapo

O manjar pelo bagaço

O champanhe pelo suco

Falsidade por verdade

Pompa e meia noite, cadê

Hoje não tem festa, por que

Sem palavras pra dizer

Vou embora daqui

Pra onde alguém entende

Pergunta por exclamação

Adormecer

Salto-alto por chinelo

Terno branco por bermuda

“Répi bardei” pra alguém

Parabéns não sei pra quem

Se todos foram

E se não tem festa hoje

Não tem nada

27/09/2002

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Sozinho sem você

Sozinho sem você

Difícil de viver

Saudade em seu lugar

Convida pra sofrer

Saudade de sonhar

De abraço, beijo e amar

Saudade de você

E quando às vezes choro

Lembrando que te adoro

Carente esperando

Que vá embora a solidão

Recordo o doce beijo

Tanto tempo não te vejo

Triste dia, coração

A chuva cái lá fora

Minha solidão me adora

Toca um samba no radinho

Que saudade vem me ver

Porque eu ainda existo

Pelo seu carinho insisto

Sozinho sem você

24/09/2002

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Malandro soneto

Mina quero ser seu doce amor

Quero te fazer com o charme apaixonar

Quero ser seu astro redentor

Quero te fazer o meu luar

Dar umas voltas, sair por aí

Tomar um trago, depois dançar

Sou malandro, mas boêmio também ama

Eu nasci, olha eu nasci pra ser seu par

Na noite afora a boemia

Luzes, música, sorriso e prazer

E nós dois numa viagem de sensações

Te amarei até raiar o novo dia

Te mostrar que não existe sacanagem

O amor de um bom malandro é sem miragem

14/05/2002

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Sem título

Vem chorar no meu ombro

Desgastar meus conselhos

Fazer qualquer coisa

Mas vem

Estou desesperado

Quero a sua amizade

Ouvir sua voz o tempo todo

Falando, falando, falando

Mil coisas, coisas importantes

Qualquer coisa

Vem logo

Você não faz idéia

O quanto importa pra mim

Você

03/12/2002

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Blá, blá, blá

Chego num blá, blá, blá, blá

Meio assim blá, blá, blá, blá

Digo uma parada qualquer

Carro, futebol, gole, mulher

Tudo assim blá, blá, blá

Tudo certo, to dentro

Blá, blá, blá

Papo maneiro! Reunião de elite

Blá, blá, blá, blá, blá

Caso velho, caso novo, caso

Umas coisinhas maneiras

Blá, blá, política

Blá, blá, blá gandaia

Blá, blá, blá, blá, blá

Crise, pagode, cerveja

Passa uma mulher todo mundo mexe

Passa um conhecido a gente chama

Blá, blá, blá,

Blá, blá, blá, blá, blá papo muito bom

É...papo de roda

Blá, blá, blá, blá, blá

Chega minha dez e meia

Digo um blá, blá, blá adeus

Nosso blá, blá, blá morreu

Acabou. Cada um na sua

Blá, blá, blá tchau amigos

To indo viajar pra lua

Blá, blá, blá...fui

27/09/2002

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Labirinto

Toda vida é um labirinto

Cheio de passagens

Caminhos longos e escuros

Ou a gente vive

Pra encontrar as portas

Ou a gente morre

Em estradas sem saída

18/11/2002

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Troca de olhares

Quem é você

Acima de qualquer suspeita

Que toda vez me vê passar

Pela rua

E tenta esconder o que sente

No fundo

Do seu coração

E despista os olhos

Seu sorriso é criminoso

Seus cabelos escondem

O rubor do seu rosto malicioso

Quem é você que esconde as batidas do coração

Que tenta esconder a paixão e o desejo

Ou o quer que seja de mim

Até que meu vulto desapareça

Lá no fim da rua

Não tenho provas

Mas sei

Que esse olhar curioso e apaixonado

Igual ao meu e sem coragem

Não se cansa de olhar

14/05/2002

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Os meus problemas

Tenho problemas

Cadê solução

Que barco é esse

Que não afunda

De vez

E nem define

Pra onde vai seguir

Preciso disso

Não quero aquilo e tenho

Eu me procuro

Eu não me encontro

E chega a noite

E vem o dia

Aqui estou

Do mesmo jeito

Com os meus problemas

No mesmo barco

Que não afunda

Nem navega

Porque não tem remos

Nem velas, nem ventos

A hora passa

Cadê o prestígio

Olá sufoco

Cadê resposta

Cadê proposta

Pra resolver

Os meus problemas

19/09/2002

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O relógio

O relógio tic-tac

Lá na sala tic-tac

Trabalhando tic-tac

Sem parar

Marca as horas tic-tac

Passa o tempo tic-tac

Sem parar

Oh! Quem parou o relógio

O que fez o ponteiro ficar imóvel

(Silêncio) Pra onde foi o barulho (silêncio)

Do relógio lá da sala

Dou mais corda e tic-tac

Marca as horas tic-tac

Tic-tac sem parar

12/10/2002

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Saudade

Deixo de contar as horas num momento

Em que afloram sensações já mortas

Já chorei, já sofri...saudade

Quem vem brincar de roda no meu pensamento

Um suspiro, viajo ao passado

Bruscamente com asas forasteiras da lembrança

Por antigas primaveras

Que foram normais, só agora são importantes

E sinto saudade. Dou um sorriso

Preso às lembranças perco parte da liberdade

E sem importar permaneço prisioneiro

Nostálgico, melódico, devoto alegrias

Recordo antigos sonhos...realizei alguns

Saudade, mesmo triste, fui feliz

15/05/2002

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Sem título

A chuva caindo do céu

Forma uma correnteza na ladeira

É música ao tocar no chão

Em cada gota que se manifesta

Ventania, relâmpagos, trovões

Que cortam o céu dividindo as nuvens

Cada luz é como o homem

Nasce, faz e acontece, e depois morre

Morrem as gotas no chão cheio de lama

Que é certamente o paraíso delas

Onde encontram-se com todas as outras

Morrem, mas depois ressuscitam

Secadas pelo sol formam novas nuvens

Que voltam a chover tudo de novo

14/12/2002

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Fica comigo

Fica comigo

Vamos brincar de ser feliz

Fazer o que eu sempre quis

Sem regras e com liberdade

Vivenciar o desejo sem medo

Revelar nossos segredos

Viver a paixão de verdade

Sob a lua

Nosso amor contagiante

Um brinquedo emocionante

Vem ficar comigo

Nas carícias dos seus braços

Encontrando os meus braços

Sem medo, receio ou perigo

Sob o sol

Despertar ao seu lado

Um eterno apaixonado

Querendo o que você quiser

Só nós dois, acasalados

Um casal de namorados

Se beijando, se amando – que vida

A vida

A viver com a tal felicidade

Mas se me quiser apenas pela amizade

Tudo bem! Espero! Não ligo

Um dia ainda vai gostar de mim

No dia que quiser enfim

Ficar comigo

15/05/2002

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Solitária intimidade

Quantas vezes

Me senti sozinho

Procurando um amigo

Procurando um amor

Pra me completar

Com quem conversasse

Pra não me perder

Às vezes de noite

Pegava um banquinho

Sentava na varanda

Olhava estrelas

E hoje nem isso

Pois os dias são nublados

Sem estrela e sem lua

Pego um livro e passo as folhas

Dou vida a personagens

Que conversam comigo

Mas a história acaba

Volto a ficar em silêncio

E sentir o vazio

Sozinho outra vez

Quantas vezes debrucei

Na janela do meu quarto

Pra ver o horizonte

Com as luzes da cidade

Os carros sobre o asfalto

Quantas vezes eu menti

Dizendo não ter problemas

Tantas vezes

Me senti sozinho

Sem ter alguém pra me falar

Sem ninguém pra me escutar

Tão triste tantas vezes

Não agora

Pois você está comigo

Quando você for embora

Eu vou ficar fechado

Como faço de costume

Em minha varanda

Tocaria algo se soubesse

Cantaria algo se pudesse

Mas sou feito de papel

12/10/2002

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A noite é nossa

Hoje a noite é nossa

Vamos fazer festa

A cidade é a floresta

Pra pular de galho em galho

A ordem é ser feliz

Abaixo o baixo astral

Hoje a noite é nossa

O amor está no ar

No rugido da leoa

Nós nascemos pra sonhar

E ouvir o canto dessas aves

Sem medo, sem preconceito

O sangue é o mesmo no peito

Só a cor da plumagem é colorida

E começa o clima da paquera

A noite é nossa

Viciei nos olhos da pantera

A noite é nossa

O instinto não é defeito algum

Porque a floresta está a nosso dispor

E hoje a noite é nossa

Hoje a noite é nossa

Para possuirmos cada espaço

O pavão se abre e dança samba

Seguimos felizes cantando

Abaixo às tristezas da vida

Hoje a noite é nossa

15/05/2002

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Amor

Os corpos molhados se prendem

E não soltam, não soltam

Sob a brancura dos lençóis

O amor

Um som gutural ofegante

Os dedos que navegam

Os lábios que sussurram

Os sentidos que viram estrelas

Numa explosão de sensações

Quando os lábios se ajuntam

E os corpos se enlaçam

Na erupção de um momento

Então tudo se acalma

O amor é eterno

20/11/2002

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Rotina

Acordar

Sempre ver o novo dia

Nova magia

Cheiro de café fresquinho

Viver

Desejar o bem aos outros

Sonhar

Final do final de semana

Domingo à tarde

O sol se pondo

Escrever

Mais uma página

Das nossas vidas

Adormecer

Sonhar

Menino que voa

Menina modelo

Um carro, casa, uma viagem

Uma paixão

Chega o novo dia

Acordar de novo

16/10/2002

35


Noite nublada

Noite nublada. O céu é um presente

Embrulhado. Uma surpresa

Escondendo um mimo

Acima das nuvens

Para cada olhar apaixonado que se revela

Para cada mero observador

Pra cada um

Noite nublada. O céu é um presente

Embrulhado...uma surpresa

Escondendo a maravilha

Acima das nuvens

O presente está sendo aberto

Ótimo, hoje não vai chover

A noite é uma criança – lá vou eu

14/11/2002

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Sem título

Nenhum homem vale mais que outro homem

Porque a terra não escolhe a carne

Quando a ela é oferecido o corpo

Do que por motivo alheio morre

A liberdade pertence a todos

Na proporção escrita no direito

Somos humanos, e os direitos são humanos

A lei não diz que só os nobres podem ser

A minha crença! A sua crença! A crença deles!

A minha casa! A sua casa! A casa deles!

Assim como a intimidade: invioláveis

Tudo consta, mas só é garantido

No dia que o sujeito vai à forra

E resolve lutar pelo que é seu

13/12/2002

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Derrota

Hoje acordei chateado

Lábios fechados, cabisbaixo

Hoje eu estou por baixo

Me sentindo derrotado

Sim, por ter perdido

Fiquei inconsolado

Me sentindo culpado

Pelos resultados

Busquei a vitória

Um maldito instante de glória

Que a sorte ou competência roubou

Eu queria ter vencido

Mas fiquei triste

Porque acabei derrotado

20/05/2002

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Dia do azar

Vi um gato preto na rua

Por isso não saí de casa

Hoje é o dia do azar

A bruxa está solta, solta

Viajando de vassoura

Pelos ares, louca

Peguei o espelho e guardei

A escada também, escondida

Pego um trevo protetor

E a ferradura da sorte

Como fiz nas outras vezes

Parece que estou ficando louco

Mas todo cuidado é pouco

Hoje é sexta-feira treze

13/12/2002

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Perguntas

Espalhem as perguntas

Sobre todas as coisas

Sobre a vida, sobre o universo

Sobre a terra, sobre o mar

Não maltrate a dúvida

Não precisamos entender

Nem precisamos das respostas

Deixem a interrogação viver

Porque se alguém responde

Tudo vai ficar sem graça

Pra tudo há uma resposta

Mas por não sabermos tudo

Vivemos uma vida emocionante

Desfrutemos das perguntas

24/09/2002

40


Os meus versos

Queria que os meus versos

Devolvessem a paz ao mundo

Queria que os meus versos

Extinguissem as tristezas

Enxugassem todo o pranto

Revelassem todo o encanto

Queria que os meus versos

Acabassem com o desmatamento

Então eu poderia ficar em paz

Queria que os meus versos

Colocassem fim aos conflitos

Nós somos iguais e eu

Queria que os meus versos

Fizessem os homens reconhecerem

07/12/2002

41


Sem título

Por tantas vezes esperei

Por sua carta, seu telefonema

Por sua presença

Estou cansado de tanto esperar

Já não suporto mais ficar sozinho

Aqui

Esperando que você venha me ver

Sou uma ótima pessoa – ou quase

Tenho vícios

Não posso esperar o seu orgulho sumir

Estou jogando a toalha

Sem ressentimentos

Vou atrás de um amor

Vou porque não agüento mais

Ficar sozinho

Vou porque você só me faz sofrer

Minha esperança já virou teimosia

Você nunca foi o que deveria

Por tantas vezes esperei

Por você

Sou uma pessoa quase perfeita – talvez exagerei

E você só viu os vícios e defeitos

Não tentou perceber mais coisas

Mas compreendo

Ou a gente fica com alguém

Que a gente não ama

Ou sofre com quem não ama a gente

20/05/2002

42


Tristeza

Tristeza é dor que vai e volta

É a nuvem que chove nos olhos

É a estrela perdendo seu brilho

A fogueira perdendo o calor

Tristeza é o solo rachado

É a guerra perdida no amor

Os anos perdidos de paz

Tristeza é o sonho em pedaços

É um terço de vida roubado

É a chama sob a tempestade

É o amigo perdendo a amizade

Tristeza é como flor murchando

Sem folhas, sem cor nem perfume

Debaixo dos nossos olhos

Uma vida desabando

Um casebre incendiado

Uma carta sem destino

E um laço se rompendo

Tristeza é dor que vai e volta

Que dói sem que a gente perceba

Quem vem só por causa do amor

20/05/2002

43


Esperança

Eu tenho esperança

De que a vida seja boa

E que nenhuma pessoa

Chore lágrimas da fome

Que as crianças

Possam ter felicidade

Que o amor e honestidade

Prevaleçam entre os homens

Que os meus desejos

Sejam todos realizados

Paz! Amor! Sorriso! Amigos!

As aves voando no céu

A vida com sabor de mel

Os sonhos todos concluídos

13/12/2002

44


Rosas

As rosas lembram tanto

O perfume da mulher que é amada

Da boca rosa que oferta beijos

O charme e o encanto

Do corpo macio e sedoso

Como as pétalas que se abrem ao sol

Invadindo o território dos olhos

Que se enchem com a perfeição natural

A mulher amada possui o seu cheiro

Os cachos lembram as folhas

Sob a brisa garbosa da primavera

E a pele majestosa e delicadamente macia

Lembra a maciez

De uma pétala de rosa

13/05/2002

45


As nuvens

Olha essa nuvem triste que passa no espaço

Sozinha! Carente! Procurando amigo

Pequena! Descrente! Procurando abrigo

Na imensidão do espaço que a faz sofrer

Veja a solidão da nuvem procurando abraço

Prestes a chorar as mágoas, descontente

Prestes a chover as lágrimas somente

Pena que chorando deixa de viver

Olha a nuvem triste. Tão triste! Tão triste!

Desacreditada que outra nuvem existe

Nesse céu tão grande pra te acompanhar

Olha a nuvem – olha – essa nuvem sou eu

E não vou chover, você está aqui

Vendo a nuvenzinha com o seu olhar

13/11/2002

46


Entre tapas e beijos

Sinto-me carente sem os beijos seus

Num penduricalho brilha a solidão

Sempre brigamos e me diz adeus

Mas depois retorna e pede meu perdão

Quando vou embora sinto ciúme

Sufoca a raiva do meu coração

E quando distante sinto seu perfume

Ressuscita o fogo da nossa paixão

Quando brigamos...arrependimento

Alimenta imagens nos meus pensamentos

E dorme roncando em minha cama

Sempre brigamos e bate a saudade

As pessoas falam severas verdades

Entre tapas e beijos a gente se ama

23/05/2002

47


Covardia

Quem é aquela pessoa que não tem coragem

Que não tem vontade por medo que um dia

Possa estar errada e perceber que a vida

Não é aventura e nem ventania

Não é só o beijo e um abraço e um sorriso

Mesmo que isso seja muito prazeroso

Quem é aquela pessoa com medo de errar

De quem são esses olhos que não se revelam

E sofrem sozinhos

Que sabem que a felicidade existe

Mas não tem coragem para procurar

Quem é aquela pessoa que não arrisca

Com indiferença vê o sonho morrendo

E depois no escuro do seu quarto chora

Quem é? Quem é aquela pessoa

Que finge não sofrer? Que bela artista

Esconde o que chorou ontem à noite

É uma pessoa que acredita

Que pra sempre deve ser submissa às regras

Uma que um dia possuiu a liberdade

Mas preferiu ficar numa gaiola aprisionada

28/11/2002

48


Sem título

Era o último dia de aula

Escrevi uma poesia

Para cada amigo

Porque a distância nos separava

Naquele momento

Uma despedida formal de quem agora

Vai viver a vida

Todos ligados pelo desejo

Ser feliz

Meus amigos, minha escola, adeus

Que um dia possamos nos reencontrar

Em nossos filhos

Por aí nessas ruas

Pelo mundo

Encerrava-se uma etapa

Em cada vida

Em cada amigo

Chovia, era noite no velho “Padreco”

E alguém chorava num canto

Enquanto lia

Minha poesia

12/12/2002

49


Sem título

Amor não pode ter planejamento

Hora, dia, lugar, duração

Vontade não tem regra nem momento

Quem manda nos sentidos é o coração

Amor não pode ser aprisionado

No entanto, não existe sem vontade

Amor que se produz com falsidade

Não gera frutos de felicidade

Amor não gera mágoas e nem pranto

Às vezes briga – sempre perdão

Amor real precisa ser guardado

Sempre deve responder aos dois anseios

Saber que o bom mesmo não é o fazer

Bom mesmo é sentir-se amado

17/10/2002

50


Adeus floresta

Nos galhos das árvores

As aves que tristes

Soltam os últimos cantos

Enquanto um punhado de relva

Está queimando na beira do asfalto

A fumaça afugenta os esquilos

E os bem-te-vis vão embora

A cada minuto mais aumenta

A fogueira da relva dançando no vento

E arrasa um ipê

O pobre sagüi – morador

Morreu queimado

Uirapuru sepulta o amigo

Com seu canto fúnebre

Pelas águas do ribeirão

Muitos fogem

Os pardais que tem filhotes

Pra onde vão agora

Diz adeus o andorinhão

E vai embora

Seguindo a trilha dos cardeais

Em pouco tempo tudo arrasado

E sobre as cinzas

Canta o uirapuru sem casa

Adeus floresta diz o canto

Adeus meu filho diz a mãe

Um clima triste

Esfria as horas seguintes

Os carros passam na estrada

E cai a tempestade sobre as cinzas

24/05/2002

51


Soneto da inveja

Eu quero demais e não tenho

Tudo aquilo que o olhar deseja

Se vejo alguma coisa boa invejo

E ambiciono o que é melhor

Tudo que vejo na vitrine

O que acho bonito ou útil

A mulher mais bonita do mundo

A casa, o carro e o troféu

Mesmo que tenha tantos desejos

E gasto meu tempo todo nisso

Não tenho! Não tenho! Não tenho!

Invejo tudo pois desejo

E mesmo sabendo que não terei

Eu quero! Eu quero! Eu quero!

24/11/2002

52


Soneto de amigo

Se te dou a mão não peço recompensa

Chore no meu ombro até desabafar

Não me peça perdão pelas suas atitudes

Não esconda nada. Não prenda. Não sofra

Não diga nada

Deixa o coração se revelar e sinta-se leve

Estarei sempre aqui para te consolar

Apoiarei você em tudo que fizer

Se for pra entrar na briga entremos juntos

E na hora da ressaca de cerveja

Ou até na hora de cambalear a caminho de casa

Sempre que precisar pode contar comigo

Na angústia, na raiva...e na alegria se quiser

Mas que saiba que na hora da dor eu sofrerei contigo

17/09/2002

53


Nós sempre seremos amigos

Perdidos pelo mundo afora

Guardando na lembrança a amizade

Seguimos a vida – saudade

Saudade dos dias vividos

Das festas no tempo de escola

Das coisas que a gente sonhava

Nós sempre seremos amigos

Nós sempre seremos amigos

Amigos, parceiros, irmãos

Frente a uma decepção

Ou no clima de felicidade

Amizade é pra se preservar

E nós seremos amigos

Pela eternidade

A vida nos espalhou

Mas seremos amigos

De festa, na dor e perigos

Como sempre fomos

Se um dia eu te encontrar na rua

Me conte suas novidades

E me dê um abraço apertado

Amigos de farra e folia

E nas desilusões da vida

De lágrimas na despedida

Como nos dias antigos

A sorte nos separa mas

Em nome de tudo que somos

Nós sempre seremos amigos

24/05/2002

54


Escola da vida

Devemos saber ouvir

De quem tem experiência

Alguém que já foi aluno

Na escola da vida

Porque um dia seremos mestres

De um aluno como nós mesmos

Que um dia será mestre

De outro aluno como ele

18/11/2002

55


Sem título

O amor

Nos faz sorrir diante de mil problemas

Dormir no meio do caos

E sonhar com o paraíso

O amor não tem cor nem idade

Amar é viver a alegria

Que pra nós foi reservada

É como os raios de sol

Que afugentam as sombras de manhã

Nos deixa leves a pondo de voar

Amor é eterno enquanto dura

Amar é estar sempre livre

Para aprisionar-se

Nos braços da pessoa amada

24/05/2002

56


O Nordeste chora

Água encanada

Cidade grande

Todos pensam que ela sai do cano por mágica

Todas as torneiras ligadas jorrando o que se pode pagar

Por mágica? Não, pelo capitalismo

E enquanto isso

O Nordeste chora

Duas horas e ainda estão ligadas

Lava o beco. Lava rua e a calçada

E a água pra beber, lavar os pratos

É só a décima parte

Só um décimo se aproveita

E enquanto isso

O Nordeste chora lágrimas secas

O carro já está brilhando

Mas a torneira ainda está ligada

Formando um riacho até o esgoto

Água jogada fora

Água que traz a vida

Que faz com que o solo do Nordeste

Rache ao sol do meio dia

O Nordeste chora

Chora por querer beber água

Chora por não poder contar com a chuva

Que por aqui deveria lavar a rua – e lava

Mas também é lavada pela mangueira do jardim

E quem dera que esse riacho que é formado

Leve água pro Nordeste ser feliz

E pare de escorrer pela boca-de-lobo

10/11/2002

57


Sem título

Eu escrevo coisas quentes

E o calor das coisas que escrevo

É o retrato das pessoas

Sou um poeta do cotidiano

Gosto de observar os detalhes

Toda vida é uma festa de estímulos

Cheias de amor e de ódio dependendo do mundo

As paixões são fruto da inspiração

E da obrigação vital do homem em necessariamente se apaixonar

O ódio é fator isolado

Com o qual o homem tenta esconder estímulos fracassados

A vida é curta e gosto de viver cada instante

Não quero que ela seja um eterno horário político

Cheia de promessas que nunca serão realizadas

Ao contrário, quero que a minha vida seja um puteiro

Onde tudo é depravado

Mas nada fica só no projeto

Tudo vai até as últimas conseqüências

Olho o mundo e percebo o mundo

No capitalismo não enxergo lucros, só danos

Como é bom olhar em um formigueiro a pureza do socialismo

(socialismo: uma formiga é igual a uma formiga)

Eu escrevo a sabedoria e a tolice

Eu enxergo a pureza e a cafagestagem

Eu descrevo o meu povo e o meu povo

06/12/2002

58


O primeiro amor

O primeiro amor é o mais inútil

Porque depois que acaba

O segundo amor não vem com tanta intensidade

A palavra amor priva-se na lembrança de uma mágoa

Freia bruscamente e impede o risco

Acaba-se o segundo amor

E o terceiro surge mais preso ainda por mágoas antigas

O primeiro amor é mais gostoso

Porque junta a timidez ao assanhamento

O segundo amor é desquitado

O rosto já esconde uma cicatriz

O terceiro amor é pior ainda

Porque além das cicatrizes há a inevitável idéia

De que jamais seremos felizes e que vale mais a pena

Só curtir do que se entregar de novo

O primeiro amor dói na angústia

Pois não sabíamos sofrer

O segundo amor dói menos mas dói

E o terceiro em diante pouco dói

O primeiro foi a escola de todos os outros

E depois de tanto termos estudado

Percebemos que não sabemos nada ainda

15/11/2002

59


Sem título

A liberdade não consiste em ser solto

E paz não é de fato estar sem guerra

Amor não é estar com quem se gosta

Há uma gota de mentira em cada idéia

Quem é livre obriga-se a ser errante

E o amante tem o vício incontrolável

Quem tem paz vive sempre na suspeita

Vigiando quem só pensa em fazer guerra

Não choram só por tristeza ou saudade

Há uma réstia de absurdo em cada drama

Há um pedaço de emoção em cada fato

Dos boatos, muitos são enganadores

Porque só o interessante se comenta

E só o magnífico se conserva

13/05/2002

60


As aves

Ouvi o canto alegre das aves

Que tentavam curar meus olhos

Cansados do ‘stress’ da cidade

Vida regrada cheia de machucados

É pouco o que posso ver da árvore

Por sorte é justamente onde cantam

Vermelhas, amarelas, brancas, azuis

As aves são tantas que nem posso contar

Me inspiram a sair mas como escapar

Dessa gaiola onde fui colocado

Pra cantar o canto metódico e padronizado

Parecem cantar pelo meu triunfo

Quebrar todas as regras desse sistema robotizado

Abrir a gaiola e sair cantando pela rua

18/11/2002

61


Gênio da lâmpada

Certa vez encontrei uma lâmpada

Com um gênio de verdade dentro

Pedi pra não perder a esperança

Pedi um milhão de conhecidos e alguns amigos

Amar muitas pessoas e ser amado por poucas

Pedi pra não ser perfeito

Pra não morrer de desgosto

Pedi a coragem para lutar pelo que eu quero

Força para adquirir meu espaço

Bondade para ajudar ao próximo

Simplicidade, patriotismo e uma cadeira só minha no Mineirão

O gênio aborreceu-se e foi embora

Dizendo estar a séculos aprisionado

E quando sai, seu amo pede o que já tem

18/11/2002

62


Sem título

As palavras são como lanternas

Úteis num casebre sem luz

Inúteis quando a luz do dia aparece

Delas podemos fazer remédio

Ou agravante dos machucados

Coisas interessantes

Ou bobagens ilimitadas

Lanterna sem pilha não funciona

Palavra mal colocada não se encaixa

É como a luz da lanterna

Sob a luz do novo dia

As palavras são como lanternas

Pois ambas possuem energia

E são direcionáveis pela ação humana

06/12/2002

63


Nós não temos preconceito

Tem alguma coisa diferente

Na maneira de ser

De cada cidadão

No ar ecoam vozes

Descontentes

Que não se contentam

Com a desunião

Em toda cidade

Ecoam rimas

Que definem nova revolução

Roupas sujas

Com as serpentinas

Resultado da comemoração

Estampado lá no prédio grande

Um cartaz bem colorido

Que desperta alucinados gritos

Pelo fim do que segrega

Para todos só o bem

Exclusão do que divide

Cada qual com seu igual

Com o diferente também

Amor é incondicional

E na cidade todos cantam juntos

Nós não temos preconceito

E abraçamos nossos irmãos

Nós temos grandes defeitos

Mas nós temos a união

Entre nós

22/09/2001

64


Pensamentos

Pensamentos voam

Como bolhas que os peixes soltam

E que as águas carregam pra cima

Explodem onde não há mais água

Revelam-se

Onde inicia-se o céu

Ao divino pescador

Que em vez de lançar a isca

Joga seus grãos no mar de vento

Pra que alcancem aquele peixe-homem

Irrequieto que não se conforma

E que tenta por meio de tumultuados pensamentos

Consertar graves erros

Melhorar coisas tolas

E foge como peixe arisco

Deixando um rastro de pensamentos

Como peixe irrequieto

Nunca duas vezes no mesmo coral

Procurando soluções

Mas sendo pescado pela inquietação

16/05/2002

65


Final de ano

Mais um ano se acabando

Uma etapa se encerrando

Com os dias que fui vivendo

Com os sonhos que fui sonhando

Projetos que andei buscando

Batalhas, perdidas...vencidas

Resta-me agradecer

Colher o que andei plantando

Me lembro dos dias de chuva

Dos domingos no bar da favela

Da Mangueira e do carnaval

No vinho, no clássico das multidões

Poxa! Minha vida é uma novela

E aqui sou o ator principal

14/10/2002

66


Sem título

Às vezes penso sobre o que é viver

E qual a razão de nós lutarmos tanto

Ou a gente vive pra encontrar o encanto

Ou nos encantamos na procura e só

Nas canções tocadas que provocam espanto

Nós fazemos trilha de um amor eterno

Da estação florida que sepulta o inverno

Retiramos rosa pra adornar saudades

E viram pó, e revoam no vento, e viram vento

Mas mesmo que na estrada não se ache a sorte

O direcionamento da vida é sonharmos

É por isso que a felicidade existe

Mesmo que no fim da vida esteja a morte

Porque nós nascemos pra nos realizarmos

18/05/2002

67


Sem título

Ao pó no ombro dos homens

Dedicamos momentos de admiração

Do suor na labuta

Na conquista do direito de comer o pão

Não me olhe como quem vê o mandante

Sou feito também do suor e carrego esse pó

Ofereça-me um aperto de mão

Nós construímos e demolimos

Nós carregamos e descarregamos

Nós fazemos o que tem que ser feito

E nossas emoções não são comedidas

Nós exteriorizamos sentimentos

Nós somos trabalhadores do sistema

E não máquinas do sistema

Quando chegar a hora do laurel

Ofereça-me um copo que também vou beber

E no momento da angústia te oferecerei meu ombro

Ele estará sujo de pó

Mas será confortável ao seu sofrimento

Aos que mandam, a reverência

E a mim a amizade

30/07/2009

68


Porta fechada

A sociedade é perita em destruir talentos

Uma opinião errada apaga uma estrela

Todo mundo é antiquado perante o novo e não percebe

Ninguém dá valor ao que não é regrado no contexto

Se não possuir as características da aceitação

Por isso jamais devemos desistir de bater

Diante de portas fechadas

Se sabemos que elas estão trancadas

Para o que é novo e ainda incompreendido

Mesmo assim não devemos desistir de bater

Elas podem se abrir

18/10/2002

69


Cidade em chamas

Abro os olhos e te vejo

Cidade em chamas

E os trajes cor de vinho das morenas

E as ruas e as esmolas e as crianças

Rezo a Deus e então choro

Pra que minhas lágrimas

Apaguem o seu fogo

11/11/2002

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