Frenesi - A Poesia da Vida

VitorCorleoneBH

Livro de poesias.

Frenesi

FRENESI

A POESIA DA VIDA

VITOR CORLEONE MOREIRA DA SILVA

1

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

2

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

“Ofereço a você essas pétalas banhadas de orvalho

Como prova de que todas as minhas promessas

Não passaram em vão

O tempo não leva embora o que tem que ser eterno

A vida não consome o que deveria ser

Pois já estava escrito em palavras perenes

Nas páginas do Livro de Deus”

Belo Horizonte, 15/08/2009

Vitor Corleone Moreira da Silva

3

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O sabor do clímax

Noite

O prazer e a excitação colorem os instintos

Nossos corpos unidos

A lua no céu convidando para o amor

Os dedos percorrendo todo o corpo

Pétalas de rosas lançadas ao vento

Perfumes inebriantes que provocam beijos

Momentos doces

Mãos que se acariciam

Bocas que se unem

E dividem desejos cada vez mais ardentes

O vento do inverno toca nos corpos

E denuncia na fumaça que exalam

Toda a excitação dos sabores do amor

Mãos que percorrem o corpo

E descobrem caminhos jamais explorados

Procuram sabores nunca provados

E experiências ainda não vividas

Doce

O suor denuncia que o inverno perdeu os efeitos

O sabor da noite exala cheiros de amor

Que pairam no ar das quatro paredes

As pétalas colorem o chão de vermelho

Lançam-se sobre os lençóis brancos

Repousando suavemente um jovial encanto

Silêncio

Quietude

06/08/2009

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Mãos que percorrem o corpo

Dedos a percorrer o corpo

Saboreando o gosto do desejo que arde

Olhares que se quebram como taças ao solo

E não resistem ao poder da sedução

Os dedos sentem o sabor da carne

E as unhas despedaçam a resistência

Notas de violino semelham aos sussurros

Um encanto jovem gotejando suor

O cheio do amor exalando no ar

Dedos que desvendam caminhos

E percorrem estradas jamais percorridas

Despertam sensações que não foram sentidas

Exaltam o poder da sedução

12/08/2009

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Instinto

Devoto a você todo o instinto

De amor, aquele que sinto

Para que ao seu bel-prazer se faça

Conforme a sua vontade

Talvez pela sua pirraça

Ou suas mudanças de humor

O que quiser fazer dele

Porque o meu instinto é de pele

Poreja em sua direção

Escorre em meus lábios e mãos

Enlaça o seu corpo inteiro

Apossa, domina, festeja

Adora quando você beija

Reprova toda a solidão

Carente prisioneiro se faz

Quando a saudade bate à porta

O meu instinto é de fogo

E foge dos ventos do frio

Por isso que só nos seus braços

Encontra o refúgio da paz

E a calmaria dos rios

Um mundo cheio de brilhos

O paraíso do amor

21/07/2008

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

As coisas da vida

Sou aquele tipo de poeta

Que aprecia as coisas simples da vida

Como a natureza, a noite, a aurora

O cotidiano, a paixão, a fé inabalável

A conversa agradável dos amigos

Uma roda de samba, a seresta, o amor incontido

A família, as maravilhas do universo

O nosso futuro, e o que já se passou

Palavras – um reino onde tudo é possível

Ações – o inevitável que promove a realização

Porque a vida fica, e quem vai sou eu

Que as palavras sejam o remédio e não a chibata

E que as ações sejam sábias e cheias de amor

Como o criador das coisas simples que aprecio

25/09/2002

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Portas fechadas

Eu aprendi a não desistir

Foi a vida que me fez forte desse jeito

Oh! Quantas portas fechadas

Bem me lembro, muitas portas

Eu já andei bem cabisbaixo

Com o rosto desfigurado

Lábios segurando a guimba

Mãos dentro do bolso do Jeans

Olhos fixos no jornal caçando emprego

Oh! Quantas portas fechadas

Bem me lembro, tantas portas

Quem fechou todas as portas?

Insisti em bater

Persisti em procurar uma porta que se abrisse

Fechado, sem vagas, experiência

É só o que sabem dizer?

É só o que sabem escrever?

Pois eu sei fazer muitas coisas

O mundo verá como sou bom nisso

Oh, se verá

Quando eu conseguir abrir uma porta

Ou quando a porta se abrir para mim

15/08/2001

8

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Aguardente de sonhos

Em meu caminho o empecilho

Levou dos meus olhos o brilho

Por causa de alguns fracassos

Perdi toda a juventude

Eu fiz o melhor que pude

Gastei a força dos meus braços

Nas palavras de criança

Pensava que a minha vingança

Era crescer, que enfadonho

Por dias nublados passei

Chegando em um bar me entreguei

Famosa aguardente de sonhos

Sem nexo, sem um destino

Eu que era só um menino

Cujo brilho foi roubado

Fiquei, e a hora se passa

Sou eu e minha velha pirraça

Brindando o fracasso passado

25/04/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

A próxima hora

A aurora

O dia já quer nascer

Tanto tempo, passa o tempo

Vai-se o orvalho, vem o vento

O galo sacode as penas

Vai o tempo, vai a lua

E mais ilustre ainda

Vira a Terra em torno de si

Abalada

Explosão da próxima hora

A aurora

A aurora barulhenta

Que traz o dia

Um nascimento

Em dulçor

Em fantasia

A aurora

Aurora porque o sol vai brilhar no céu

A colméia que produz o mel

Mais ligeiro que a próxima hora

O tiziu cantar no mato

A lebre saltar no campo

A fonte que alimenta os cardumes

Doce, tanto quanto um beijo

Alva, como o branco queijo

Ligeiramente clara

Alegremente

A aurora

20/07/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

BH

BH

Que é bonita

Que é grande

E me faz sonhar

De meus versos BH

Que é inspiração

Que é jardim

Cidade de montanhas

Que tocam o céu

Suas ruas bordadas

De carros e casas

Seus bairros traçados

De prédio e luar

BH

E faz justiça

Ao seu nome

O horizonte é lindo

Cheio de belezas

E carícias naturais

E meiguices

De carro e casas bordadas

Suas belas ruas, nuas

Que se cobrem de passos

De pessoas que vem

De pessoas que vão

De meus sofrimentos, BH

De minhas alegrias, BH

Em poesia fulgura

Sob a luz da lua

Cheia de arvoredos

Como o céu de estrelas

BH

22/04/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Passos negros

Estão todos ocupando suas funções

E no canto a marmita embrulhada

Comentando o último jogo da seleção

Carregando vigas de uma tonelada

Assalariados

Mal representados

Explorados

Mal pagos

Abandonados

Comentando o último jogo da seleção

Cada um realizando sua função

Uma piada – o sorriso onipresente

E no canto a marmita embrulhada

Na memória os versos de um repente

A nostalgia

A alegria

Mais um dia

A magia

A fantasia

A fantasia é só um conto de criança

O cimento é o sangue da construção

A tinta a maquiagem que torna a pele bonita

E no canto uma marmita embrulhada

Do trabalhador

Do pintor

Do construtor

Prova do poder do capital

Quando toca o sino

Anuncia o horário do almoço

Esfomeados

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Tão apressados

Enfileirados

Cada um abrindo sua marmita

Quando toca o sino

Cada um retorna à sua função

Chega ao fim outro dia

Vão embora e deixam mais construção

Cheiro de tinta secando

Pedras molhadas, suor, gesso

Levam nos braços a marmita vazia

Levam no bolso o ordenado

Pensando em construir

Enquanto se amontoam no interior do ônibus

Assalariados

Mal representados

Injustiçados

Explorados

Mal pagos

Abandonados

Cansados

Comentando o último jogo da seleção

20/07/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Taça de cristal

Repousa ao solo

Os estilhaços da taça que a pouco mergulhou

Os meus dedos já são fracos

Já não podem sustentar o vício

Tudo o que fiz foi pela aventura

A procura pelo desconhecido

Nada conquistado tinha mais importância

Do que o que poderia ser ainda conquistado

Rude, desvencilhado

Espelho daquela taça de cristal

Minha imagem

Mergulhando como fruto da mangueira

Dói a sensação de não ser nada

Na reflexão profunda

Vejo no chão cristalizados homens

Dos amigos, das atitudes dos amigos

Dos inimigos, das atitudes dos inimigos

Um soluço vaga no ar sem resposta

Sou um velho

Não preciso de conselhos

Vou morrer logo

Não preciso de auxílio

Não me preocupa nada

É uma pena

Era uma taça de estimação

18/01/2002

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Noite só

Noite bonita lá fora

A luz fluorescente da lua

Derramada nos muros brancos

Esse cortiço é mais bonito à noite

Se eu tivesse uma namorada

Queria passear nas vielas

Olhar o horizonte da cidade

Estrelas cintilando o espaço negro

O sereno e o silêncio inquebrável

Se eu tivesse uma namorada

Mas não há

O vento carregando perfumes

A brisa acordando amantes

Quietude

Muros brancos iluminados

E fico a observar coisas simples

Um suspiro

Uma música

Lembranças de uma poesia

E eu aqui olhando a lua

Poetizando

Fazendo a hora passar

Se eu tivesse uma namorada

28/02/2002

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Gritos que morrem

Nós somos todos os gritos que morrem

E não sentimos o frio do inverno

Nós somos choro dos rios que correm

Somos páginas de um livro eterno

Nós somos todos o alvor da alvorada

Ouvimos ‘ângelus’ na prece que ecoa

Somos o vento que corre na estrada

Somos o eco da ave que voa

Nós somos gritos, lendas sem corpo

Nossa existência é o nosso segredo

Nós somos gritos, vozes sem rosto

Somos mistérios e não temos medo

Somos barulho e sonhos e fábulas

Somos a voz do que tem sangue quente

Somos o pano ou os meros retalhos

E o retrato de toda essa gente

Se lá ao longe há um triste gemido

Que ecoa, voa, e dói

Se há um grito disperso, perdido

Há o grito que produz e destrói

Somos o grito de choro ou de riso

Somos a angústia do adoecido

Pranto do inferno, canto do paraíso

Somos o grito, sussurro ou gemido

Somos os gritos que morrem com o tempo

E não deixamos o mundo calado

No forte estio ou na estação dos ventos

O grito ecoa pra todos os lados

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Nós somos todos os gritos que sofrem

E o sofrimento é o respirar da vida

Nós somos todos os gritos que morrem

E viajamos no bailar da brisa

Nós somos todos o som do oceano

Somos o fogo, a terra, o céu

Onde há vida, nós gritos estamos

Nos versos, nos lápis, papel

E não temos medo da morte

Pois os gritos são sonhos que correm

Renovação, um canto de sorte

Nós somos todos os gritos que morrem

28/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Fim de tarde na rua Balneário

O fim de tarde na rua Balneário

É consumido pelas brincadeiras

O futebol e o vôo dos pombos

E o sol se escondendo no horizonte

Um tronco sobre a calçada

Onde os bêbados confraternizam

Todos os dias no sol poente

Provando um copo de cachaça

Moram na rua Balneário

Povos de diferentes países

Os japoneses já se retiraram

E até Hilarina recolheu seus passos

O Christiano não largou da pipa

Nem namorados se despediram

E a noite vai caindo

A tarde morre na rua Balneário

Na melodia da igreja

As brincadeiras terminam

Até o Tiago já se foi pra escola

E a tarde morre na rua Balneário

30/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem título

Tem horas na vida em que não há vida

O coração fica sem saída

O choro não hesita em rolar dos olhos

Tem horas onde a solidão é o refúgio e consolo

Para que não sejamos alvo de olhares penosos

Que somente servem para magoar mais

Tem horas em que queremos curar uma ferida

E horas em que precisamos desabafar

Somos todos filhos da eterna paixão

Às vezes chora o coração

E ficamos sem saber o que fazer

Se vai embora uma pessoa

Que se tornou tudo e muito mais que o próprio tudo

Tem horas em que não há espaço

Pensamos em morrer

Quando um grande amor vai embora

Despedaça sonhos que eram motivos de vida

A saudade provoca fissuras amargas no coração

Fica latejando na cabeça uma lembrança

Daqueles sorrisos que talvez não voltarão

Saudade

Lábios rosados que não se vê mais o riso

Plantados no jardim das lembranças

18/01/2009

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Minha morte

Quando eu morrer

Não quero lágrimas em volta de um caixão

Com flores cobrindo meu corpo

Se minha vida foi lutar pelo meio ambiente

E a chuva que me agradou foi a que amparava à seca

O ideal não morre

Só o que é da terra se devolve

Quando eu morrer

Não quero tristeza por eu estar descansando

E sim alegria e uma grande festa

Nada de caixão pois a madeira é de lei

E muitas vezes a lei não é o mais correto

Deixe-a em forma de árvore

E dê minhas cinzas para ela se alimentar

Quando eu morrer

Repartam tudo de valor que eu possuir

Exceto aquelas coisas que eu valorizei

Que não se compram com dinheiro

E não tem valor comercial

Mas que fiquem com quem poderá fazer bom uso

Se esqueçam de mim e vivam a vida

01/05/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Vida urbana

Quero acordar um dia

E ser servido de frutos maduros

Ver os passarinhos cantando nas árvores

E não ser somente mais uma silhueta no asfalto

Não ter que dar o meu suor

Por alguns meros trocados

Que eu seja reconhecido

Por aquilo que eu sou

Não quero ter que agradar ninguém

Não quero aquilo

Não quero ser alguém

Que os outros querem que eu seja

Quero acordar tarde

Sem que o despertador me avise as coisas

Quero que haja alguém

Esperando-me para dar um bom dia

Não quero ser o primeiro a dizer

Não quero ser somente uma célula

No mundo globalizado onde tudo é coletivo

As obrigações, os resultados, tudo

Quero poder pelo menos um dia

Soltar o grito entalado na garganta

Quero poder chupar limão

Fazendo barulhinho

Quero andar desarrumado

Sem que ninguém

Olhe com desprezo pra mim pensando que

Não tenho dinheiro

Quero mostrar que tenho sentimentos

E não sou um robô

Não sou somente uma fonte de trabalho

Não quero ser somente o braço

Sustentando resultados de uma empresa

Não quero ser

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O carvão que move o trem

Sem que o valor seja reconhecido

Quero que alguém se preocupe

Comigo

Quero ouvir o meu som predileto

Quero um almoço de verdade

Quero deitar sobre uma grama extensa

Quero esquecer

Pelo menos um dia

A fumaça desses automóveis

O barulho dos sapatos no chão

Os olhares dos robotizados

Quero poder dormir tarde um dia

Quero um dia sem preocupações

Eu quero um dia

Inteiro somente para mim

Se possível

Quero poder dizer meu nome

Quero tomar um banho bem gostoso

Deitar sob lençóis macios de verdade

Sem me preocupar

Em despertar no dia seguinte

Eu queria um dia

Eu queria um dia de vida

30/06/2001

22

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

A serra assassinada

Aquela serra que era bonita

Que tinha um jacarandá no topo

Uma mata robusta onde perdi minha pipa

Assassinada

A serra que era coberta

Tornou-se uma serra desnuda

Quando eu chegava no topo

Abraçava num suspiro o horizonte

Mas a serra não tem mais o cheiro de mato

Pra onde será que foi o curió

Pobre serra

Quanto dó

Pobre serra que morreu

Antes fosse a canção mais bonita

A que meus ouvidos escutaram ontem à tarde

Rasgação de serrado, malha de fogo, ardência e só

Oh saudade dos passeios, antes fosse

A brisa que agora corre com cheiro de queimado

Ou a rosa de perfume doce

Oh vida, antes fosse

Era uma visão bonita

Pudera, eram muitas aves voando juntas

A luza reluzia um feixe branco de luz

Brando que seduzia a gente

No caminho das árvores

As borboletas todas as manhãs voavam juntas

Quando o sol surgia no céu

Uma vez quando eu estava lá

A lua me inspirou a escrever

A poesia mais bonita que eu já li

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

A natureza era perfeita e existia harmonia

O coração batia forte

O nariz respirava ar puro e fresco

Antes fosse o alecrim mais bonito

O que hoje floresce nessa terra

Bem debaixo dos meus pés

Era a mata da serra

Resedás, dama-da-noite, lírios

Rouxinóis voavam sobre ipês amarelos

Orquídeas, copo-de-leite, rosas

Tempestade hoje varre alegrias

Porque tudo se tornou em cinzas

Vergasta açoitou belos dias

Fez do lucro horizonte da vista

Reduziu mata densa a sertão

Velha serra, só saudade

Velhos dias, só vontades

Lá no alto um edifício

Velha relva, asfalto de pedra

Olho a serra assassinada

Pobre vida, pobre serra

21/06/2001

24

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

É hoje o dia

É

Mais uma vez o manto azul

Vestindo corpos dos guerreiros celestes

Em mais um dia de vitória

Mais uma batalha do guerreiro dos campos

Sob os acordes o sacode que é terrível

Bandeiras e foguetes

Milhões de fanáticos juntos por um ideal

Hoje o sacode

É hoje o dia

Em cada lance que imortaliza esses versos

Onde o inacreditável acontece

Onde o terrível mostra a sua força

É hoje

28/07/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Máquina de fabricar amores

Foi inventada há poucos meses

A máquina de fabricar amores

Cada um pode ter uma

Custa barato demais

Você pode leva-la onde for

Você pode pendura-la no pescoço

Pode até guarda-la no bolso

É fácil manusear

Vem com manual de instruções

Você quer saber mais?

A máquina de fabricar amores

É um invento multiuso

Será vendida em todo o mundo

Todos irão querer comprar

É o melhor presente que há

Funciona com pilha

Com bateria

Funciona até com gasolina

Ou com tração de corda

Se mesmo assim você não tiver dinheiro

Pode carrega-la na energia solar

Que é de graça

Funciona na eletricidade também

E com diversos outros combustíveis

Você quer saber mais?

Na compra de uma máquina

Você leva de brinde e um cupom

O brinde é uma caixa vazia

Cheia de sentimentos

E o cupom te dá direito

De concorrer a um sorteio

Uma máquina de fabricar carinho

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

E uma viagem ao mundo dos sonhos

Com direito a acompanhante

Você quer saber mais?

Você pode comprar sua máquina

Sem mesmo sair de casa

Compre pelo telefone

Ou pela internet no computador

Os revendedores passarão

Vendendo de porta em porta

Vendendo de casa em casa

As máquinas

São um ótimo brinquedo

E quem está com o nome no SPC

Pode comprar assim mesmo

Que o cheque é garantido

Você quer saber mais?

É um invento seguro

Tem dois séculos de garantia

Vai ficar para os seus tataranetos

De herança

Todos podem usa-la

Todos podem comprar

Será vendida em todas as lojas

Todos deveriam possuir as suas

Será vendida

Até mesmo nos camelôs no centro

É o melhor presente que há

É fácil demais manusear

Você quer saber mais?

29/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Lar das traças

Vivemos todos nesse lar das traças

Somos um muito

Quase um todo mundo

Não temos carro importado

Não temos casas à beira do mar

Somos um formigueiro

Perambulando pela terra ao redor da casa

E o canto das traças

Que roça as roupas

É o que nos desperta todos os dias

É o que nos faz perder o sono

Somos mãos e pés e patas

Guiando os atalhos da luta

Somos cabeças e estômagos e bocas

Sentindo as barreiras da vontade

Nosso vinho é zurrapa

Nosso indumento é o trapo

Somos uma colméia

A rainha recebendo privilégios

E os súditos se matando por ela

Vivemos todos nesse lar de vozes

Vivemos todos nesse lar de olhos

Vivemos todos nesse lar de dores

E o canto das traças

Que roça as roupas

É a cantiga de ninar

É nosso travesseiro que já está até fino

É o que nos faz perder o sono

E nos desperta todo dia

Vivemos todos nesse lar das traças

26/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O amor

O amor é um risco

Pelo qual correm os homens

Quando vem corta o peito

É o melhor dos defeitos

De toda a humanidade

É o mal necessário para viver

Machucado que é bom de machucar

Nunca tem preconceito

Se for errado ou direito

Só busca a felicidade

O amor faz feliz

Quando vem da maneira

Mais sincera

Faz do inverno e do outono

Primavera

De arco-íris a sentimentalidade

Mas tem vez que o amor

Só faz sofrer

Nossa vida tem jeito de novela

E a quem nunca – saudade

Sofreu de verdade

Atire a primeira pedra

11/12/2003

29

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Volta pra mim

Você foi

Meu presente mais querido

Cobertor nas madrugadas

Fostes o mel que me fez bem

Coração de ouro

Fostes lua

Doce estrela

Mas um dia te perdi

Minha lucidez também

E então

A solidão viveu comigo

Fiz do álcool meu amigo

Só Deus sabe o que chorei

Se ainda me ama

Volta

Não posso viver assim

Conviver com a solidão

22/10/2008

30

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Morena

Numa curva de estrada

Conheci morena

Bem mais feliz

Vivi a vida ao lado dela

No pensamento

Sempre a imagem da pequena

Sempre quero estar com ela

Pra sorrir meu coração

Apaixonados

Só vivemos alegria

O destino quis que fosse eterno

Em cada beijo

Despertamos fantasia

Seu olhar já me contou

Que a fiz mulher nos meus braços

Nessa vida só o bem

Desejo para alguém

Que foi o sol que iluminou

Meu coração

Hei de amar

Eu vou ser

Amor eu juro

De modo inocente, belo e puro

Em cada hora

Em cada dia

O seu amor

09/08/2008

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Porta aberta

A namorada

Que deixou a porta aberta

Foi embora encoberta

Por desilusão de amor

Homem de ferro

Arrancou da inocência

Um amor de inconseqüência

De distância e de dor

Riso garboso

Conquistou os olhos belos

Decretou, bateu martelo

Esse coração tem dono

E vai chorando

E naquela mesma porta

Lembrança passada e morta

Vai chorar outro abandono

E eu duvido

Que quem fez sofrer bem dorme

Tudo bem, nos seus conformes

Sem remorso a magoar

Aconteceu

Fez sofrer e ficou só

No final ficou pior

Só por não saber amar

11/10/2008

32

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Realista

O preço do arroz tá subindo

O feijão não pára de aumentar

Ái meu Deus o mundo ta perdido

Não sei onde vamos parar

Desemprego nos bairros é grande

Muita gente virando ladrão

Tem santo já se aposentando

Muito pranto, clamor e oração

O salário não dá pro sustento

Me agüento com ele doutor

Deus do céu...pra onde vai o dinheiro

Com certeza não vai pra onde eu vou

Mas tristeza eu encontro nas ruas

Molecada implorando as esmolas

Muitos deles são grandes talentos

Só precisam de casa e escola

A saúde – de mal a pior

Nos seus olhos – insatisfação

Chora, chora cidade perdida

Chora forte pois tem coração

A tristeza no beco ecoou

Tem caboclo ao relento no frio

O preço do arroz ta subindo

E após a invernia o estio

E após o estio o lampejo

Desespero ecoou no chuvisco

Deus do céu, vai cair o barraco

Ser pobre é profissão de risco

O jornal só me trás má notícia

É incêndio, é maldade, assassínio

Ser pobre é profissão perigo

Provisão de dias de extermínio

Ái doutor o mundo ta perdido

É só guerra entre e plebe

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Meu povo

Se amanhã eu não despertar mudo

Pode crer que eu vou cantar de novo

Eu vou ter que cobrar a canção

Nesses dias

De dor e de espanto

Me dá um Real pra eu cantar

Que eu canto

13/10/2001

34

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Arco-íris de Mururoa

As nossa águas tem a cor dos olhos negros

As nossas matas tem folhagens de concreto

É de concreto o gavião sobre os rochedos

Como é de pedra o amor, o orgulho, o afeto

Nosso arco-íris tem a cor da chama acesa

Em tons brilhantes nesse céu cheio envenenado

É de concreto o pão e o vinho sobre a mesa

E de concreto são as folhas no cerrado

Contaminadas são as águas do oceano

E os peixes brilham irradiação

Nós somos vítimas do experimento humano

Que fez de pedra urubu-rei e azulão

Nosso arco-íris tem a cora da chama acesa

E seu brilhar é voz que na terra ecoa

É de plutônio o remédio da nossa tristeza

Nós somos pedras no atol de Mururoa

Nosso trigo é regado com gasolina

Nossas casas são feitas de ossos humanos

Nossos temperos fazemos com cocaína

Somos um nada nas águas dos oceanos

Nosso arco-íris tem a cora da chama acesa

Nossos relógios – de bateria nuclear

Desafiamos a força da natureza

Esse é um erro difícil de concertar

Nós somos todos a rocha de Mururoa

Somos a mancha na história da humanidade

Não temos vida e nem mesmo somos pessoas

Nós somos pedra e só pedra na realidade

35

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Nosso arco-íris tem a cor da chama acesa

Os nossos olhos têm lágrimas nucleares

Nosso arco-íris é fogo, é luz, é tristeza

Encontra a morte dos peixes em nossos mares

De nossa soja extraímos doce petróleo

O nosso sopro resulta em combustão

Mercúrio puro é a íris em nossos olhos

É de concreto a pele de nossas mãos

Nosso arco-íris tem a cor da chama acesa

A cor do fogo, lembrança de eras boas

Fotos antigas, da plebe e da realeza

Nós somos pedras no atol de Mururoa

29/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Relato do lírio negro

Serei visto como louco

Se o resto do mundo

Cismar com isso

Se seis bilhões me acham cego

Como poderei provar que não sou

Seis bilhões me acham maldito

Como provar o contrário

Serei visto como errante

Se possuir muitas lembranças

Se eu fosse a verdade e a virtude

Como poderia um só

Converter seis bilhões

Se são eles que fazem leis

Quem me assegura justiça

Se seis bilhões acham certo

Viver de ensinamentos profanos

Como irão aprender de um só lírio

Se seis bilhões quiserem cachaça

Como venderei refresco de limão

Se seis bilhões acham que o prazer

Da carne, do sangue, dos olhos

É virtude, é bom, faz bem

Serei chamado de idiota

Se não pensar como eles

Se eu não for como eles

Os seis bilhões que me rodeiam

A maioria à minha volta

Quem serei

Eu sou o lírio negro

No meio de seis bilhões

De lírios verdes

20/06/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Perseguição

Quando deixo para trás exclusões

E tento caminhar sorrindo

Vejo que o a divisão não morre

Que vive a perseguir

Até mesmo na água barrenta

Vejo a face do que foi o abandono

Nem lamenta meu corpo de porre

Nem execram, meus olhos com sono

E quando encontro o cenho imortal

Do sofrer racista que por aí deixei

Desperto minha sentimentalidade

Tanto mal, tanta dor suportei

Perseguido, sofrido chorei

Não de amor, mas de dor, sem igualdade

03/04/2005

38

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O sambinha na roda da morte

O maconheiro só quer samba

O playboyzinho só quer samba

Na rodinha os capoeiristas

E os lutadores de TaeKwonDô

Ta todo mundo curtindo esse samba

Até os traficantes do morro

Tem cadete na roda de samba

Tem rameira e donzela também

Tá todo mundo no embalo do samba

O advogado, o juiz e o ladrão

O surfista e o salva-vidas

Até o publicitário

dançando na roda de samba

Também tem os monges do Kung Fú

E os samurais do Karatê

Que vieram de longe pra ver

O que era uma roda de samba

Tem neguinho no samba

E tem Ariano também

Tem oficial das forças armadas

Tem torcedor do Flamengo e do Vasco

Tem torcedor do Cruzeiro e do Galo

Tem torcedor do Curintia e do Verdão

Tem Gremista e tem Colorado

Ta dominada essa roda de samba

Tem funkeiro na roda de samba

E tem tocador de gaita

Tem tenor italiano

E tem mafioso da Sicília

Tem os reis de Corleone

Que são poderosos chefões

Tem criança dançando no embalo

Ta todo mundo na roda de samba

Os mercenários do oriente médio

39

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Que querem a redenção do pecado

Mesmo que a base de explosão do pecado

Deram folga pra guerra de lá

E vieram curtir esse samba

Tem poeta do morro no samba

E tem poeta da zona sul

Um escreve pra caralho

E o outro é filho de um senador

Tem mocinha mimada dançando

E favelada do mais alto escalão

Os roqueiros também estão no samba

Os ex-presidiários e os policiais

Os cachorros e os açougueiros

Tem australiano no samba

Esse samba tem gente demais

Esse é o samba na roda da morte

Que não tem letra nem muita beleza

Sem melodia

E com muito barulho

Que é tocado em qualquer esquina

Esse é o samba

Tocado a qualquer hora do dia

Esse é o samba na roda da morte

Esse é o samba da falta de sorte

Esse é o samba do medo e terror

Esse é o samba da bala perdida

Esse é o samba do corpo encontrado

Ta todo mundo pulando

E cantando

No embalo da roda de samba

30/06/2001

40

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Estrela azul

Eu procuro minha estrela no céu

O mais azulado de todos os astros

Que me deu de presente o azul de seu rastro

Levou para o espaço meus pensamentos

Eu procuro minha estrela no céu

Mesmo não sendo uma estrela cadente

De brilho povoar o meu mundo sem gente

Para trazer alegria ao meu sentimento

No céu de incontáveis estrelas

Sempre busco a mais bela e azul

Esteja em Touro ou CRUZEIRO do Sul

Ou qualquer outra constelação

A estrela que eu quero encontrar

Deve ser amável, mais doce que o mel

Eu procuro minha estrela no céu

Para consolar, minha solidão

30/06/2001

41

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Bandeira do Brasil

Régia força nos conduz

Auriverde, branco e anil

Mas por que é tanto o verde

Na Bandeira do Brasil

É o brasão da esperança

Do infante e do senil

Mas por que é tanto o louro

Na bandeira do Brasil

É tão grande e poderosa

Esperança pueril

Mas por que é tanto o céu

Na bandeira do Brasil

Régia bela respeitada

Pelo olhar feminil

Mas por que é tanto o branco

Na bandeira do Brasil

É a história tarimbada

Do que foi o pau-brasil

Mas por que há tanto corte

Nessas matas do Brasil

É um verso suspiroso

Sonho belo, singelo e sutil

Mas por que tanta pobreza

Nas ruas desse Brasil

Nossa representação

Que o mundo inteiro viu

Mas por que balas perdidas

Sobre o céu do meu Brasil

42

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

É a face da esperança

Do velhote e do infantil

Pura, grande e gloriosa

A bandeira do Brasil

Não há outra mais bonita

Auriverde, azul, anil

Mas por que discriminar

O povo do meu Brasil

Tem que haver maior justiça

Luz do garbo juvenil

Porque não tem cabimento

Sob o meu entendimento

Fome e exclusão

Sob o chão onde há a sombra

Da bandeira do Brasil

19/06/2001

43

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Paixão pelas rosas

Quando as rosas florescem

Sob resoluto orvalho

E exalam o airoso perfume

Odor que provoca ciúme

No criador de fragrâncias

As rosas trescalam

O olor se torna ubíquo

Aos ventos floreia

Nas noites, nas luas cheias

O vinco no rosto desfaz

As rosas silentes

Abrem-se como liquido mercúrio

Derramado sobre o chão

Aflorando a sensação

De vida, sem dor ou perjúrio

A vida é viva quando é bela

E quando vejo o vergel florido

De estulto me torno sábio

O sorriso denota os lábios

Liberta-se a paz reprimida

Rosa no meio dos verdes

Rosa bonita no roseiral

Aberta, semelhante jasmim

Perfumada, mais que o alecrim

Silente

Maria-sem-vergonha

Floreada de folhas e ramos

Sorrindo para a alvorada

Pétalas de orvalho pingadas

Secando-se ao sol nascente

Tulipas

44

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Mastruço

A cura pela admiração

Esperanças que duram

Sonhos que voltam

No meio da roseira

Olhos que não possuíam brilho

Refletem o verde dos lírios

E se encantam com os frutos

Da laranjeira cheia

Lírio branco

Espelho da alma

Puro, tal qual o loureiro

Lá no campo a açucena

Bailando, parece que acena

Para a vida e a saúda

Arbustos esverdeados

O pensamento nos dias futuros

As reflexões do passado

Os prazeres do presente

Jamelão

Jambeiro coberto de sonhos corados

Alegria nas belas gardênias

Contagia

O choro e a dor são incertos

No toque das rosas

Sente-se o líber

Maracanã, amigo da natureza

Rosas são crianças da terra

Ressuscitam esperança

Dão beleza

Felicidade da jaçanã

O arbusto lutando contra os galhos

As pétalas bonitas da resedá

45

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Lírio segurando o orvalho

Magia imensurável

Luz, alegria, vida

Primavera quando chega

É assim

Lírio por todos

E todos pelo alecrim

Ninguém por mim

E todos pela margarida

Quando as rosas florescem

Sob resoluto orvalho

E exalam airosa fragrância

A vida é uma eterna infância

Nas flores, nos frutos, nos galhos

As rosas trescalam

O perfume é ubíquo silente

A manhã que clareia

Perfumada e tão cheia

De pássaros que voam e cantam

Trazem coisas boas pra gente

25/05/2000

46

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Fim de tarde

Quando passa o entardecer dos dias

Sob o frio do vento do leste

Roçando as rochas sombrias

A seara, as nuvens de peste

Vênus brilhando no horizonte

Anuncia que o dia se vai

O sono dos peixes na fonte

O orvalho que nas noites cai

O sol se escondendo no monte

Deixa a noite jorrar o desejo

A lua lá no horizonte

Amantes trocando beijos

Sob o abraço dos ventos

As luzes da cidade acesa

Devota saudade quem sofre

Lembrando de anos dourados

Faces garridas de amor

Flechas pingadas de dor

Flores cobertas de cor

Luzes, pessoas, namorados

E o sol se esconde no alem

Deixa a noite cobrir de desejos

Sereno e brisa também

Amantes trocando beijos

Vento passa por entre pinheiros

Anuncia a chegadas dos astros

Aves cessam o cancioneiro

Lobos iniciam os passos

Momento peremptório de frio

47

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Orvalho cai no chão

A brisa sepulta o estio

O silencio é o fim da canção

O sol se esconde da rua

A noite desperta desejos

No céu a imagem da lua

Amantes trocando beijos

A vida se contorna

E quando a alegria retorna

O sonho inacabado aparece

Aventura preenche o vazio

O sonho, nas pistas de dança

Sonho que vem sem querer

A luz da lua, o frio

A vontade de viver

Os desejos de prazer

E o sol se esconde, enfim

A noite provoca desejos

A lua, amante de mim

Dá abraços, carícias e beijos

03/06/2000

48

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Relatos da guerrilha

Todos os países estão em guerra

Volta e meia

Passam tanques pelas ruas da cidade

Não há mais a paz na terra

Ninguém se recorda do amor e amizade

Ninguém sai mais de casa

Sem ter nas mãos um fuzil carregado

Que restou das flores? Cravo e rosa em brasa

Que restou do campo, sertão e cerrado?

Saudades dos dias de paz

Cirandas de roda

Saudade

Não restaram risos na minha cidade

Não restou amor, de algum tempo atrás

Hoje a guerrilha consome os dias

Muitos homens, muitos alvos plebeus

O sangue encharca alegrias

Que restou dos sonhos? Lágrimas a Deus

Se passa um míssil incendeia toca

Lançam granadas, retornam torpedos

Por necessidade é que supero os medos

E as cenas tristes me fazem chorar

Se passa um tanque bombardeando

Os meus olhos seguem onde quer que vá

Sob meus pés uma flor murchando

Lançando bombas navios no mar

Se passa um míssil recortando os ares

Se passa um bote recortando os mares

Se passa um tanque estremecendo a terra

Resistência é o trabalho da vida

Muitas nações foram dizimadas

49

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

A alegria foi assassinada

Poucas cabeças, muitos bonés

Poucos pintores, muitos pincéis

Barulho de espadas

A liberdade aprisionada

Satélites caindo no chão

Paz e alegria – que bem – que saudade

Não restou na terra o amor entre irmãos

Que restou dos versos de antiga canção

Que restou das juras de amor a amizade

Que restou dos risos da minha cidade

Se acendo vela, lágrimas apagam

Muitos soldados em cima do monte

Aviões voando no alvo, na mira

Dias de paz – que saudade

Pisam-se os galhos e granadas acionam

Os filhos morrem e as mães se emocionam

Dias de horror, parece mentira

Dias de amor, que saudade

Serenidade, conto infantil

Que as crianças não escutam mais

Quando reina a guerra, quem conta é o fuzil

Não há mais beijos, não existe paz

As moças rezam, as almas choram

Os pequenos aprendem a atirar

Viúvas choram, almas penam

Sujam-se de sangue as águas do mar

Relatos da guerrilha

Essas letras são minhas filhas

Restaram da chama de uma fogueira

Só vejo mortes e o sol não brilha

Guerra nos campos, guerra nas ruas

50

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Noites de fogo, não surge a lua

Com vergonha do horror da terra

Passam barcos cheios de soldados

Disparando tiros, levando reféns

Os povos estão condenados

A se destruírem e não restar ninguém

Ouço tiros, não assusto mais

Só vejo mortes nessa guerrilha

Eu queria a vida, eu queria a paz

O mundo de antes era maravilha

Vozes ecoando na mata

Fuzis e o poder do fogo

Tristeza, uma vida ingrata

Pessoas disparam contra o próprio povo

As palavras chorosas saindo dos lábios

As feridas são como troféus

Não há alegria, só refugiados

Só há morte escura, só há fogaréu

Quando dormimos

Pensamos que não iremos acordar

Se o sono não vem

Já não importa

Se existem risos dentro de mim

Eu não acredito

Eu não acredito

Se existe esperança, revela cidade

Pois não há futuro para a mocidade

Se disserem que a paz

Que a paz vem vindo

Eu não acredito

Eu não acredito

Feridas

51

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

De rifles que a tudo acertam

De pessoas que sempre erram

Perdidas seguindo ideais

Perdidos de armas na mão

Seguindo adiante

Tiros vindos do horizonte

Pessoas marchando para morrer

Se tiverem sorte, sem sofrer

Perigos

Caças cruzando o céu

Feridos sendo carregados

Enfermarias onde estão os fracos

Se recuperando pra voltarem, bravos

Para novamente serem fácil alvo

Nas manhãs de chuva

Cheiro de terra

Barro, pessoas rastejam

Retaguarda cheia de cavalos

Cavaleiros empunhando a morte nas mãos

Saudade dos dias de amor

Pessoas se matam sem um motivo

Não há laurel em se estar vivo

Pra viver assim era melhor morrer

Do jasmim do campo nada restou

E o som dos tiros é triste canção

Até mesmo a rosa no campo murchou

Ou se acaba a guerra

Ou se acaba tudo

Cada vez que relato o meu corpo chora

Um suor vermelho regado de sangue

O que escrevo é triste, a paz foi embora

O papel manchado, o corpo exangue

52

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Rios cheios de corpos e sangue

Fontes misturadas com lágrimas

Pessoas sujas de óleo

E a dor estampada em cada rosto

Armadilhas e mais armadilhas

Mortes por todos os lados

Que maravilha...

O mundo antigamente

Que maravilha – cantava o passarinho

Que melodia – canções cheias de carinho

Que simpatia – os adolescentes

Que nostalgia – dias tão distantes

Tristeza, guerra, e só

Relatados em papel sujo de sangue

Queria ver risos nos lábios de alguém

Sorriria junto, seria demais

Coragem que desperta por dentro

Apenas para continuar resistindo

Mas a vontade de quem vos relata

Era reviver um dia de paz

27/06/2001

53

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Queria ter você por perto

Toda noite no meu quarto

Eu penso em você

Só você não sabe que eu te quero

Queria ter você por perto

Para fazer você feliz e ser também

Eu finjo alegrias em poesias

Que nada dizem

E prometo palavras que nunca se cumprirão

Conto as horas

Passa o tempo e eu sozinho

Recordando sorrisos e olhares

As horas mortas silenciosamente passam

Não consigo dormir

Queria ter você por perto

Para me sentir alegre

Pelo menos um dia

Coração

Bate esperançoso por momentos que não existem

A lucidez foge dos olhos

Queria ter você por perto

Queria...

Não existiriam lágrimas

A noite não seria tão fria

A minha vida vazia

Se encheria de amor

Dias que jamais virão

Restando sonhar e devotar em palavras

O que a carne não pode viver

Queria ter você por perto

21/06/2008

54

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem título

Tristeza é dor que mata e não perdoa

Os erros cometidos por quem ama

Tristeza é dor que chega e apaga a chama

Dos olhos tira o brilho e faz sofrer

Nos olhos forma o céu e a lagoa

As lágrimas que rolam sobre a face

Tristeza é dor que morre mas renasce

Mais forte e com vontade de vencer

Vencer quem ama e pensa estar perdido

Vencer quem sofre e sente-se oprimido

Ou quem está nas mãos de quem magoa

Tristeza é dor que julga e só condena

Aos olhos só castiga e envenena

Tristeza é dor que mata e não perdoa

22/01/2004

55

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem título

Às vezes me olho no espelho

E percebo a minha beleza

Cada curva do meu rosto é bela

Minha expressão facial

Lindo e perfeito homem

Sem exagero afirmo

Que eu sou um homem lindo e provocante

Os detalhes do meu corpo

Com tal sutileza desenhados

O sorriso é o ápice da perfeição

Os olhos têm a chaga da chama acesa

Os fios de cabelo

Fios de seda ou como águas

Que caem na cachoeira

Me amar, gostar de mim

Necessidade básica da felicidade

Pergunto ao espelho se existe

Alguém mais belo do que eu

E ele responde sorrindo

Sou eu, sou eu, sou eu

17/01/2004

56

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem título

Olha só pra mim sem gosto e sem vaidade

Olhos mergulhados no vazio do horizonte

Sou como a criança debruçada sobre a ponte

Procurando o brinco que afundou no riachinho

Chagas no meu corpo maltratado de saudade

Calvo de esperanças, de razão e de prazer

Cheio de desejos que não podem acontecer

De doar meus beijos, os abraços e carinhos

Uma chuva de lágrimas sob meu olhar

Lavando delírios que não podem sanar

Essa sensação que só me faz sofrer

Olha só pra mim sem sonho e sem vontade

Fingindo alegrias, retocando saudades

Olha só pra mim sem vida, sem você

17/11/2008

57

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Destino de quem ama

À meia noite a solidão

Convida para sofrer

Todo dia sem você

Do meu lado em nossa cama

Com a luz do quarto acesa

Eu escrevo poesias

Relembrando nossos dias

É o destino de quem ama

O destino de quem espera

Você, bem mais do que tudo

Sem você não há alegria

Labirinto de desejo

E agora você já sabe

Pára de ler esses versos

Não olha com esses olhos perversos

Vem cá

Me dá um beijo

22/06/2008

58

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Você e eu

Olha só você sozinha

E olha só pra mim tão só

Se a distância não se opusesse

A vida seria melhor

Quem dera que você quisesse

Estar comigo aonde eu for

Seria a chama que te aquece

Chegado o inverno o cobertor

Mostraria-te o bel-prazer

O supra-sumo do querer

Que até então não percebeu

Eu daria um beijo doce

Ah! Quem dera que fosse

O amor maior: você e eu

20/03/2008

59

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem título

Você e eu

Somos iguais o sol e a lua

Iluminam as mesmas ruas

Mas não podem se encontrar

Gostamos de tantas coisas

De histórias e de poesia

Da relva e da luz do dia

Colorindo todo o mundo

É difícil ser assim

Se você tão longe sabe

Que eu quero estar contigo

Mas se esconde de mim

E a tristeza é dor que cabe

Em lugares escondidos

05/01/2008

60

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Humanóides

A existência em sociedade e valores

A ética

E comportamentos sociais pré-determinados

A assimilação das leis e dos ensinamentos

Justiça

O certo e o errado, a conduta

O amor e o ódio, a perfeição e o erro grotesco

O falar e o ficar calado

O fazer e o deixar de fazer

Ta, mas e aí?

O que eu tenho a ver com isso?

O que temos a ver com isso?

Pra começar, pra que?

Por que inventaram a lei?

Por que inventaram a regra?

Quem inventou estava certo ou errado?

O que é o erro e o acerto?

O que é o tudo e o nada?

O tempo?

As horas?

Os códigos de conduta?

Sim...vão me responder

Para que as pessoas tenham conduta

E não cometam o que é errado perante a justiça

Tudo bem...falaram, mas e aí?

Por que?

Pra que?

O mundo...

A sociedade...

61

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

A correção...

O certo e o errado...

A lei...

Isso...

Aquilo...

Conceitos...

Me defendo dizendo que dane-se tudo isso

Eu quero saber o que sou eu

O que é esse mundo e o que é tudo

Pensamos que esse planeta mixuruca é algo valioso

Mas não é nada

É um planeta minúsculo

Uma gota do universo

E nesse contexto

O universo é o oceano

Seus humanóides

Ciência...tecnologia...matemática...

Os estudos da física...

E aí?

Vai pra onde a afirmação?

Vivemos e nem sabemos o que somos

Como somos

Somos por que?

Estamos por que?

Para que?

E o que vai acontecer conosco?

No meio de um universo

Que nós nem sabemos o que é

Fazendo-nos de valores que seguimos

Só porque alguém um dia disse que isso é o certo

E se amanhã eu sair pelado na rua?

Vou ser preso...

62

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Ta, mas e aí...

Vou ficar preso em uma cela pequena e suja.

Ta, mas e aí...

Dirão que eu fiz algo errado...

Ta bom, mas e aí...

Para quê?

O que alguém vai ganhar ou perder com isso?

A poeira de estrela continuará no mesmo lugar

A distância é algo longe para nós insignificantes

Daqui até no sol são poucos metros de distância

E um cometa que se diz gigantesco, é apenas poeira

É gigante porque forma uma enorme cratera

Em um minúsculo planeta

Cheio de humanóides e outros óides

Que não são humanóides

É pequeno demais o valor

Porque quem dá o valor nem sabe o que é o valor

Achamos que a lei é certa e que errado é o crime

Mas lei e crime não são nada

Nós somos tão insignificantes

Que nem sabemos quem somos nós

Por que andamos ao invés de rastejar?

Por que comemos?

Por que nos vestimos?

Por que não voamos...

“Porque não temos asas”...dirão

E quem foi que disse que tem que possuir as asas

Para voar?

Quem determinou?

Quem estabeleceu os conceitos de como fazer?

Por que somos?

Fazemos sexo

Reproduzimos

63

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Vestimos roupas de pano

Mas eu mudo de nome se alguém souber o que

É o pano

Bebemos água

Cagamos

Ta, aí alguém vai falar que é nojento colocar isso

Numa poesia

Eu digo apenas que se dane

E pronto

Isso porque a poesia é insignificante

Aliás tudo é insignificante

Nós todos somos insignificantes

Tudo é insignificante

Para nós que somos insignificantes é importante

Um carro elegante

Uma roupa caríssima

Um estilista para criar as roupas da estação

Uma mulher gostosa ou um homem lindo

Dinheiro, luxo, fama

Ta, mas e aí...

Humanóides

Que nem ao menos sabem o que são

Num planeta medíocre perdido em uma galáxia

Mais insignificante ainda

No meio de ‘trocentas’ galáxias

Fala sério

É como se a galáxia da via Láctea fosse

Uma formiga no meio de um formigueiro

E esse formigueiro estivesse em um jardim

E esse jardim se localizasse em uma praça

E a praça pertencesse a um bairro

O bairro seria o menos populoso de uma cidade

E a cidade a menos populosa do estado

O estado o menor do país

De um planeta pequeno

64

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Cheio de humanóides e outros óides

Que são chamados de animais

E plantas

E pedras

E água

E ar

Segregação racial

O preto diferente do branco

Idiotice...conceito de humanóide inferior

Uma faca abre você no meio e o que vai ter dentro

É carne da mesma cor

As suas fezes têm a mesma cor e a sua urina

O cabelo da sua cabeça nasce preto

E morre branco

Você tem o mesmo bago do outro

E o mesmo anus

A sua barba cresce igual à do outro

Você fede do mesmo jeito que o preto fede

Poucos minutos depois de morrer

O fedor é o mesmo

E se acha superior

Ta, mas você sabe o que você é?

Sabe como foi criado?

Sabe o que pode acontecer

Com a galáxia a qualquer momento?

Com as galáxias ao mesmo tempo?

Com você?

Carros, máquinas, fábricas, prédios...

Para nós que somos insignificantes

Humanóides

São coisas extraordinárias

Ta, mas sinceramente

Dane-se tudo isso

65

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

“Ái, que coisa feia, esse cara falando palavrão”

Falem alguma coisa que eu ainda não sei

Me digam quem foi que disse que amor é elogio

E merda é palavrão

Me digam quem é o dono da verdade

Quem afirma baseado na diretriz universal

Que sexo é profano

E que amor é celestial

Humanóides

Que nem ao menos sabem o que há

Na galáxia mais próxima

A não ser o que fala

Quem diz que já foi na lua

Através do que observa

Num olho de vidro que tem décadas de idade

E não pode ver o cometa mais medíocre

Se aproximar da terra

E ser visto na noite do sertão

Onde o céu é mais visível

Por causa da poluição que é menor

Humanóides

Que usam roupas para esconder pipiu e perereca

E olham isso a todo tempo na internet

Nas revistas

Ao vivo

E pensam nisso uma boa parte do tempo

Até mesmo quando o momento é inconveniente

“Nossa! Que cara mais nojento”, dirão

Sei, e daí?

Qual a diferença entre a lavagem

Que os porcos comem

E o caviar?

O champanhe?

66

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O escargô – nem sei se é assim que escreve esse isso

Ta, mas voltando ao assunto...

Qual a diferença?

Alguém vai dizer que a lavagem é o resto

É a sobra, é o nojento

E o escargô é o luxo

A limpeza, o padrão

Na boa...o escargô na verdade

É líquido, e cálcio, e gordura, e proteínas

Fósforo, vitaminas, zinco

É uma coisa mais conhecida como lesma

É caro para se comprar

Ta, mas na verdade

Quem paga caro no escargô

Ta pagando o mesmo material genético da lavagem

Que é líquida, tem cálcio, gordura, proteínas

Fósforo, vitaminas, zinco

Tem tudo que tem no escargô

Mas os porcos não gostam de comer escargô

Porque acham a lavagem mais saborosa

E menos melequenta

No estômago de quem comeu o escargô

Vai ter algo parecido com a lavagem

Duvida? É só vomitar para comprovar

Humanóides

Que vivem a riqueza

E nem sabem a composição universal do prazer

Não estou falando de prazer da carne

Porque a carne na verdade

É apenas uma reles composição química

Simples e insignificante

Resultado de uma experiência genética do tempo

O crescimento de uma ameba que evoluiu

67

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Humanóides

Bebeu cerveja

Ficou bêbado

Dormiu na rua

Tá, mas e aí?

É feio

Por que?

Fez cocô na calça...

Fez xixi na roupa por não agüentar...

Sei, mas e aí?

Quem foi que inventou a feiúra e a beleza?

Quem foi que disse o certo e o errado?

Os conceitos são seguidos por conveniência

É o teor da disciplina...seguir

O que já estava determinado

Quem vai provar que em algum lugar

No meio do universo desconhecido

Humanóides assim como esses

Aplaudem o indivíduo bêbado

“Quê...extraterrestres não existem...”, afirmam

Tá, mas e aí?

Terra é um planeta

Planeta igual a outros planetas do sistema solar

Redondos, girando em torno de um sol

Planetas que pertencem à Via Láctea

Via Láctea é uma galáxia

Conhecemos algumas galáxias

Não conhecemos bilhões de galáxias

Galáxias que possuem planetas

Planetas que giram em torno de sóis

Planetas que são redondos

E possuem óides que não são humanóides

Ou talvez até sejam humanóides

68

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O que aconteceu aqui nesse planeta

Pode ter acontecido igual em outros planetas

Disso não tenho dúvida

Só não afirmo que são iguais

Humanóides

Presos a conceitos que seguem apenas

Porque os pais seguiam

E os pais dos pais

E os pais

Morar dentro de uma casa

Comprar móveis

Pagar a conta de água e de luz

A conta de telefone

Comprar comida

Namorar

Haver a necessidade de beijar

De abraçar e de fazer amor

De onde veio isso?

Quem inventou?

Por que tem que ser assim?

Doenças...

A AIDS que mata é vista como algo de outro mundo

Mas tudo mata, até mesmo o ar que respiramos

Ele mistura radicais livres dentro de nós

Tudo mata até a vida

Nos mata com o passar do tempo

Então por que agir com desprezo?

Afastar?

Medo como se o aidético estivesse doente.

Homossexuais

Preconceito e receio

69

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Por que? Só porque gostam de pessoas

Do mesmo sexo

Você homem gosta de você e se admira no espelho

Você ama as curvas do seu corpo

E se possível fosse casaria contigo

É natural que outro homem admire

Além do seu próprio corpo

O corpo de outro humanóide

Humanóides

Que nascem

Crescem

Trabalham e descansam

Descansam e trabalham

A manutenção do planeta

E obtenção do direito de se manter

O que é a vida?

Por que estamos nesse planeta e como fomos criados?

O que vai acontecer com a galáxia?

O que vai acontecer conosco?

Até que ponto somos vulneráveis?

E até que ponto a vulnerabilidade

Pode ser considerada uma defesa

Ou ameaça?

Somos apenas fungos infestando um farelo de pão

E nada mais.

19/02/2007

70

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Reconciliação

Nos desencontros nos encontrávamos amando

De momentos curtos fazíamos eternas horas

Por que parou, se era um sonho real?

Por que morreu, se o amor era imortal?

Nas madrugadas recordo seus olhos tristes

Dizendo adeus, dizendo e partindo

O que deveria ser não foi e o sonho se interrompe

Deixa rolar dos olhos uma chuva de saudade

O gosto do batom nos meus lábios trêmulos

De tudo. A voz que consola o pranto

Sedução manhosa que provem do encanto

Distância, dor que resta do sentimento

E aqueles olhos que choravam nos bons momentos

Hoje choram te pedindo para voltar

14/09/2008

71

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

O tempo e as coisas

O tempo passa

Eu envelheço

Me sobram coisas que não quero

Me faltam coisas que desejo

O tempo passa

Procuro me livrar do que não quero

E conquistar o que desejo

Não consigo

O tempo e as coisas

Não irei realizar todos os sonhos

Nem me livrar do que me sobra

Quase tudo que eu não tive e desejo

Não consigo deixar de querer

E o que tenho envelhece comigo

22/12/2002

72

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Paraíso

A serra coberta de lírios

Os pomares cobertos de flores

As casas repletas de risos

E a vida repleta de amores

Os pássaros voando nos ares

As matas colorindo os montes

O amor prevalece aos males

Os peixes saltando nas fontes

É esse o lugar que procuro

Descansar no topo da serra

Quando olhasse por cima do muro

Enxergava o amor sobre a terra

É esse o lugar que procuro

Onde a vida encontra o amor

O resgate encontra o apuro

E o orvalho encontra a flor

Aroeira espelhando vida

E perfumes a resedá

As paineiras com as cores mais lindas

Que a natureza lhes dá

Esquilos subindo nos troncos

A serra cheia de beleza

Ar puro adentrando nos brônquios

Amor prevalece às tristezas

É esse o lugar que procuro

Descansar no topo da serra

Quando olhasse por cima do muro

Enxergava a ilusão de quem erra

De quem erra e pede perdão

É esse o lugar que procuro

Preconceitos não existem não

73

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

E as maldades não perduram

O orvalho ressuscita à flor

Se a chuva não cair do céu

A vida repleta de amor

Abelhas exportando mel

Os vales cheios de mata

De beleza as margaridas

Um lar, até para as baratas

O pau-d’arco coberto de vida

É esse o lugar que procuro

Descansar no topo da serra

Quando olhasse por cima do muro

Enxergava as belezas da terra

É esse o lugar que procuro

Do que tem, nada se tira

O resgate encontra o apuro

E o amor afoga a ira

A meia-noite é silenciosa

O dia cheio de barulho

A aurora desabrocha a rosa

E os pombos soltam seu arrulho

A tristeza é sempre ausente

E o andorinhão voa livre

Quando um chora toda a gente

Chora junto com o que vive

É esse o lugar que procuro

Descansar numa rede macia

De relance os saltos de anuros

Toda vida com alegria

Um carinho à pessoa que ama

É esse o lugar que procuro

O homem dorme em sua cama

74

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Sem medo de qualquer apuro

A água cristalina e pura

O ar sem poluição

Nas árvores, fruta madura

Nos homens, conscientização

A alegria é filha do bem

A esperança é irmã do olhar

E mãe da ternura também

Como a noite é a mãe do luar

É esse o lugar que procuro

Descansar no topo da serra

Sem pensar que a solidão do escuro

É castigo para o homem que erra

Pois na vida nós todos erramos

É esse o lugar que procuro

Enxergar as pessoas que amamos

Quando olhar por cima do muro

A campina coberta de mato

Descansar nos finais de semana

Descobrir que a vida, de fato

É a própria inspiração humana

O sol nasce para dar calor

Para o homem, o rio, a passarada

A tristeza desafia o amor

A tristeza sai prejudicada

É esse o lugar que procuro

25/05/2001

75

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Amendoim

Como aquele que sai da casca

Eu sou a semente dos cobertores da vida

Meu fervor onírico e vespertino

Encontra as canções ávidas do poente

Ao meu redor a azaléia azougada

Dá ao meu nascimento

O axioma da minha existência

Como aquele que encontra os portais dos sonhos

Eu sou cruzador das palavras e frases

Meu tom grená revela minha ousadia

Corajoso em meu desabar fescenino

Encontro a terra, minha mãe iniludível

Como aquele que execra o mal

E como aquele que se enche de cor

Eu sou em égide de minha existência

Amendoim mordido pela vida esparsa

Que o sabor dulçoroso comove os lábios

Dessa vida madrasta assumidamente idônea

Como a gota de orvalho solitária

Que se tornou escrava do jugo da terra

Por não encontrar égide nas pétalas da flor

Sou escravo das estradas da vida

Em que o poente faz embuste em sua elegia

Como o grão de alpiste no papo das rolinhas

Como o vento que balança as folhas da goiabeira

E como a ferida na história

Que teima em não cicatrizar nunca

Eu sou guiador dos atos dúbios

Diletos pelos raios ardentes do sol poente

Como o homem cheio de cautela entoando a cantilena

E como o canhestro pardal que encontra a vida

Eu sou principiante desta comoção

76

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Como aquele que deseja o reinado

Colendo entre os que o viram fraco

Ardem sempre em meu peito vontades

Ora de ser imortal, ora livre

Como aquele que surge do seio da terra

E encontra os cordões dourados da vida

Sou aluno da ingente escola

Que me testa volta e meia

Ora no nascente, ora no poente, ora agora

Procurando mostrar as fraquezas

De ser somente um mortal

Em meio à fúria dos dentes esparsos da vida

Que se ajuntam e consomem minha puerícia

E que retornam para derramar

Como rio de óleo puríssimo de soja

Minha essência senil

Como aquele barco solitário no oceano

Eu sou neste imenso chão

Rodeado pela grama esverdeada

E pelos passos sincronizados da centopéia

Como aquele romântico

Que sofreu e amou em sua vida

Como a reverência do rei sabiá

Sou juiz dos meus atos profanos

E sou o réu do meu julgamento

Como a cachoeira que deságua pedra adentro

Sou eu sempre correndo para o mesmo vazio

Pois sou banhado pelos raios da incerteza

Como pérola que é filha da ostra

Sou filho da terra e do tempo

E desafio sempre o alvor matutino

Até que o amanhã me surpreenda

Como o conciliábulo dos gafanhotos

77

Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

Para destruir as folhas da árvore

Eu sou e desafio à heresia concreta

Do axioma da minha existência

A qual foi feita por chorosa azaléia

Ao ver minha rebeldia florescer

E mostrar-se em minha pele grená

Como aquele que erra um dia

E tenta por toda a vida sanar seu erro

Sou escravo da minha imperfeição

A qual foi dada por minha mãe terra

Para que em minha existência

Não fosse eu o leão tirano do meu reino

O qual desejo conquistar algum dia

Como aquele que tem benevolência

E como aquele que provoca

Eu sou...ora bom e justo, ora não

Sou aquele apedrejado

Ao lutar por seu ideal

Como a utopia coarctada

Pelo sufoco dos atos da realidade

Sou eu esmagado pelos dentes da vida

E meu gemido único

Ou minhas palavras ciciadas

São os desejos impossíveis

Em coleio banhando meu corpo grená

Nesse cordame que encontro sempre

Nos caminhos execrando o mal

Que é minha curta vivência

Sou filho da existência do mundo

Vítima do vento como a goiabeira

09/10/2001

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Vitor Corleone Moreira da Silva


Frenesi

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Vitor Corleone Moreira da Silva

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