O PETRUCIO PETRUCIO

VitorCorleoneBH

Conto naturalista sobre um papagaio retirado da floresta e vive a vida toda lutando para voltar pra casa. Um misto de ficção e realidade.

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Eu sou Vitor Corleone

Moreira da Silva. Nasci em

Belo Horizonte, MG em 27 de

Setembro de 1984.

Sou escritor desde 2001 e

componho músicas. Também

sou poeta, artista plástico e

calígrafo.

O Papagaio Petrúcio é o

primeiro conto que eu

escrevo. É antes de tudo um

desafio cumprido, onde eu

procurei desenvolver uma

leitura que fosse para todos os

públicos, mesmo sendo um

conto. Daí a minha idéia de

mixar a realidade com a ficção

e fazer algo diferente, algo

que fosse capaz de prender a

atenção das pessoas, mesmo

leitores com características e

até idades diferentes.

Outras obras: Amor de

Veraneio, Quarenta Passos

Até o Campo; Soneto, Convite

Para Sonhar, O Coração Não

Nega.


Comentário

Petrúcio possuía a vontade de viver! Um papagaio que

nasceu na floresta e desde cedo aprendeu a amar sua casa,

estabelecendo uma ligação mística com as forças da natureza.

Porém quando os acontecimentos o obrigaram a adotar

uma nova postura, passou a aprender com tudo que

presenciava, tanto as coisas boas quanto as coisas ruins.

Demonstrou que a esperança é capaz de mudar qualquer

coisa, inclusive nossos destinos mais cruéis. Foi amado e

odiado nos ambientes em que esteve e quando tudo parecia ter

chegado ao fim, o conto nos revela que na verdade o fim é o

começo de tudo.

O conto traz uma mistura de realidade e ficção, onde o

objetivo principal é mostrar os malefícios do tráfico de

animais silvestres, numa óptica subjetiva dos próprios

animais. O papagaio Petrúcio vem contar tudo aquilo que

presenciou sobre esse mal que devasta várias espécies da

fauna brasileira.

O conto demonstra ainda que independente de qualquer

coisa, a determinação é capaz de operar milagres, e no fim o

amor sempre prevalece!

Eu me sinto feliz em ter escrito esse conto no ano de

2001, em Belo Horizonte, e hoje estar realizando a sua edição.

Claro que algumas coisas, idéias, trechos, precisei revisar

para que ficasse mais coerente com o contexto do conto, mas a

idéia central e os acontecimentos mantive inalterados, pois

muito mais do que uma obra belíssima, é inevitavelmente uma

etapa do meu aprendizado artístico.

Belo Horizonte, 21 de Maio de 2005

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Vitor Moreira

PRIMEIRA PARTE

Capítulo 1

Amor! Sentimento tão grandioso que se multiplica dentro de cada um

de nós como semente de girassol produzida pela perfeição da natureza, e

que gera novas folhas e sementes! Amor é como grão solitário que se bem

regado pelas águas da felicidade, tal qual as flores pela chuva da primavera,

é capaz de transformar desertos secos, de solo rachado, em florestas

repletas de vida, e cobrir de flores coloridas as pedras cinzentas cheias de

tristeza e solidão.

Todos nós, independente da espécie, temos o poder de lutar pelo

amor, não o amor limitado aos nossos semelhantes, mas um amor de tal

forma incondicional, capaz de mudar no coração dos homens mais

perversos o ódio, transformando em luz, não importando o quanto tudo seja

difícil! Esse é o sentido das nossas vidas, justamente lutar com bom ânimo

eterno por aquilo que nos fará feliz. Tendo esperança, podemos mover um

universo inteiro, retirar as pedras do caminho e atravessar oceanos de águas

turbulentas.

Vida! Bem tão precioso que tivemos o prazer de experimentar na

complexa experiência da criação do universo! Somos privilegiados por essa

dádiva, mas nem todos sabem dar o valor adequado a esse momento, e

acabam por subtrair da perfeição da vida em harmonia o equilíbrio, a paz e

continuidade de tudo aquilo que a natureza criou. Existe infelicidade

porque nem todos têm o amor. Há os frutos estragados no seio da terra, e

esses tentam com a sua falta de amor contaminar os bons frutos, tirando

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deles a felicidade. A vida é bonita, pois existe luta e esforço, tudo que se

faz na vida se torna lembrança e experiência! Há os momentos de dor e os

momentos de riso.

Porém enquanto existir esperança sempre haverá o amor, e há de

prevalecer contra toda a maldade do mundo.

Somos como as gotas da chuva, que caem do céu num mergulho da

divina providência para a continuidade da vida! Nós damos as nossas vidas

a cada instante para que haja continuidade...

Foi em um dia de chuva na floresta que eu nasci. Havia barulho e

luzes no céu cortando o ar, bruscamente chegavam à mata e quebravam

galhos de imensas árvores. O vento soprava lá fora e algumas gotas de

chuva molhavam as costas de meu pai que protegia a entrada do buraco

feito na árvore, no tronco da árvore, onde cada pedacinho de madeira foi

retirado por eles para que pudéssemos nascer.

Mal podia abrir os olhos e meu bico era frágil, mole. Eu podia

enxergar o vulto dele lá naquela entrada, era uma imagem cinzenta através

da membrana fina dos olhos. Tremia mas olhava atento e sem demonstrar

fraqueza para o interior do buraco onde nós estávamos.

Meu corpo não tinha forças e estava quente embaixo daquelas penas.

Ficava o tempo todo agarrado nos outros irmãos, e nos aquecíamos.

Fui o último rebento de uma ninhada de cinco papagaios. O pai toda

hora deixava o ninho e buscava comida para a gente, mesmo se estivesse

chovendo, eu o via sair voando e quando chegava, se sacudia do lado de

fora do buraco para se secar um pouco e depois entrava. Nenhum de nós

tinha penas e havia calor debaixo da mãe.

Passados alguns dias a chuva parou e então a mãe saiu também para

buscar comida e nós ficamos lá naquele amontoado de mato seco, pedaços

de galhos, penas e terra. No início gritávamos assustados ou ansiosos pela

comida, mas depois passamos a ficar mais silenciosos, aprendendo a ouvir

os sons que vinham lá de fora do buraco.

Os outros quatro irmãos estavam diferentes de mim. Eles tinham

penas aparecendo pelo corpo e eu continuava só com penugens brancas,

eles eram maiores e mais fortes. Era feio, mas eu era menor que eles, era

mais fraco, não tinha como ser diferente. As minhas penas logo iriam

aparecer e eu iria crescer.

Depois de um tempo eu ainda tinha poucas penas ao contrário dos

outros filhotes. Era o preferido do meu pai e ele sempre me alimentava

primeiro, talvez por preocupação, por ver que eu era menor, mais frágil. Ao

contrário da mãe, que nitidamente demonstrava gostar mais de meus irmãos

mais emplumados que eu. Ela sempre ficava coçando-lhes, procurando

penugens soltas e as tirava com carinho, mas jamais havia feito isso em

mim.

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Papai era um enorme papagaio selvagem, tinha uma calvície em

cima da cabeça desde que nasceu. Ele contava que nunca teve penas

naquela parte da cabeça. Talvez por essa razão desse mais atenção a mim

que aos meus outros irmãos, justamente pela minha falta de penas,

pensando que os outros se pareciam mais com a mãe e que eu era parecido

com ele.

Passados alguns dias voltou a chover forte na floresta! A toda hora os

raios cortavam o céu, os trovões faziam barulhos tão fortes que a árvore

tremia. Ficamos em nosso ninho. A mãe falava sobre a vida, sobre o que

era a chuva e a grande importância que ela representava para a vida na

floresta, mas eu não entendia direito como os raios vinham. Só sei que eles

quebravam muitos galhos de árvores, isso me dava medo! Não fazia

sentido para mim que fizesse calor pra que depois viesse a chuva. Como a

água virava vento quente e depois virava água de novo. A parte da comida

eu entendi bem, que era só procurar pela floresta, parecia ser muito

divertido e emocionante! Eu escutava tudo que eles contavam, maravilhado

e ansioso para conhecer esse lugar chamado floresta, devia ser algo muito

maravilhoso! Eu sentia isso na forma como eles falavam desse lugar, que

estava do lado de fora do nosso ninho, aqui tão perto.

Os outros irmãos não estavam tão ansiosos, eles eram quietos, e eu

era muito agitado, queria aprender, queria conhecer a floresta. Queria que

minhas penas crescessem rápido, que eu ficasse maior e que pudesse voar

como o papai, pela floresta. Eu iria muito longe!

Eu sentia medo, mas com o tempo fui entendendo muito sobre as

coisas. Passei a admirar a chuva e entendia a sua necessidade para a

floresta, para o crescimento das árvores que nos davam comida e para a

vida de todos os animais.

Certo dia, quando estávamos no ninho os dois foram procurar

comida. Nós escutávamos lá de dentro muitos sons de animais, alguns

assustadores, outros de uma melodia tão bonita que agradava o ouvido. Nós

não podíamos ver, mas pelo que eu escutava podia sentir uma coisa

maravilhosa!

Fui o primeiro a chegar a cabeça para fora do ninho, desobedecendo

os meus pais, mas não resisti...eu queria ver a floresta.

Pelo que eles contavam da floresta parecia ser algo tão maravilhoso!

Eu sentia vontade de crescer logo e poder conhecer tudo o que falavam. A

floresta seria a minha casa e eu viveria lá como os meus pais e como todos

os animais.

Era realmente um paraíso! Uma vista maravilhosa! Havia uma árvore

enorme na frente do nosso ninho, uma palmeira! Havia muito verde e os

animais, havia flores...

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Passaram-se dois meses e meus irmãos já estavam saindo do ninho e

arriscando pequenos vôos. Eu preferia ficar perto do pai e só saía com ele.

A mãe ficava vigiando por causa de outros animais que ela chamava de

gaviões. Eu nunca vi um na floresta de perto, só escutava um assovio

distante e quando escutava os outros filhotes ficavam calados, só ouvindo e

quietos. Eu sempre perguntava se era o gavião e ela respondia que sim, e

logo em seguida ordenava silêncio. Ela tinha muito medo dos gaviões, dizia

que eles atacavam os outros pássaros e ninhos.

Minhas penas começaram a crescer só que em cima da cabeça não

tinha pena. O papai disse que eu iria ficar igual a ele. Eu não me importei,

afinal adorava o papai! Ele era forte e muito corajoso!

Mais algum tempo e já estávamos voando bem! Iríamos aprender a

sobreviver na floresta. Eles ensinavam a procurar girassol, castanhas, frutos

e insetos nas árvores, mostravam os que não podíamos comer e ensinavam

muito sobre as folhas que nos faziam mal. A cada momento aprendíamos

algo novo, sempre voando juntos, afinal papai falou que se um papagaio

ficasse sozinho não poderia enfrentar os animais maldosos da floresta, mas

se estivessem em grupo nenhum animal teria coragem de atacar, nem

mesmo o gavião.

Eram dias felizes que passávamos voando naquela mata fechada

cheia de galhos e folhas onde quase não dava pra ver a luz do sol. Havia,

porém uma árvore grande onde nos galhos de cima era possível ver aquela

grande bola de fogo se escondendo atrás da paisagem anunciando a noite.

Eu sempre ia até nas manhãs pra ver o sol.

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Um dia fui até lá e vi um pássaro grande vindo em minha direção.

Era o gavião, fiquei com medo e comecei a descer pelo galho, bastante

atrapalhado e tendo dificuldade com os galhos. O gavião se aproximava e

fazia um som assustador, era o som da morte! Então vi muitos pássaros

grandes voando em minha direção, tinham o peito amarelo e as costas

azuis. Eram muito coloridos, gritavam muito alto! Nem pude contar, mas o

céu parecia se colorir de azul e amarelo, como um enxame de abelhas! O

gavião ficou com medo e voou em retirada. Eu continuava descendo e

consegui ver que aqueles pássaros enormes perseguiram o gavião até que

ele sumisse na distância.

- Não precisa mais ter medo jovenzinho. Os irmãos já o afugentaram.

- Quem é você?

- Eu sou uma arara. Somos aves que tomam conta dessa parte da

floresta. Conheço bem o seu pai, somos muito amigos.

- Que bom! Eu vim ver o sol e aquele pássaro veio voando.

- Aqui em cima é meio perigoso! É justamente onde os gaviões ficam

observando, à espera de pássaros desavisados e pequenos animais. Tome

mais cuidado, evite ficar vindo aqui sozinho. Seu pai não falou que não

pode andar sozinho?

- Falou, mas os outros não gostam de ver o sol. Eu adoro ver a

floresta daqui de cima! É tudo tão bonito!

- É verdade! A floresta é muito bonita! Nós protegemos nossas crias

e cuidamos da floresta sempre, para que nossa morada seja sempre assim,

tão verde e tão bela!

Quando desci, depois de ficar conversando com aquela arara fui

procurar comida, logo encontrei com o papai. Ele estava cuidando das

penas e arrancando algumas penugens, coisa normal entre nós. Falei pra ele

que conheci uma arara no alto da floresta e que ficamos conversando por

um tempo. Ele falou que na floresta havia várias araras diferentes, umas

eram vermelhas, outras azuis e outras bem coloridas em azul, amarelo e

verde. Falou que os papagaios, as araras, as jandaias e outros pássaros com

o bico parecido com o nosso eram primos distantes, por isso se davam

muito bem na floresta.

Ele me levou em outros lugares da floresta para conhecer as jandaias

e outros papagaios diferentes de nós. Depois conhecemos um pássaro

chamado príncipe negro que segundo o pai também era um parente distante

de nossa espécie. Ele era desconfiado, ficou tímido atrás de um galho de

árvore por muito tempo só fazendo perguntas, mas depois de um tempo

veio conversar conosco. Maritacas, periquitos...ficava pensando: como

pode haver tantas cores assim nos nossos parentes e nós somos verdes?

Achava engraçado, mas algo neles era tão familiar! Era como se fossemos

diferentes só no tamanho e nas cores, e por dentro todos éramos exatamente

iguais, nos medos e na coragem, no carinho e no amor!

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Havia um grupo de papagaios que tinham as penas do peito roxas e

tinham ninhos perto de um rio. Nós ficamos a certa distância e vieram

quatro papagaios para conversar conosco e ver quem era.

Quando viram que era o papai ficaram mais despreocupados.

Falaram que existe um limite de território para os papagaios por causa dos

ninhos, mas que os amigos eram bem-vindos.

Nós não fomos muito perto dos ninhos porque eles falaram que as

fêmeas ficavam nervosas e podiam atacar, mas do alto de uma árvore nos

mostraram seus filhotes. Eles estavam muito pequenos ainda e as mães

procuravam penugens soltas nos filhotes.

Perguntei por que cada um deles tinha apenas um ou dois filhotes e

um deles falou que são uma espécie de papagaios que não dão muitos

filhotes, e que por isso tem cada vez menos na floresta.

Depois que ficamos certo tempo conversando com os papagaios,

papai me mostrou as jandaias. Elas eram alegres e voavam sempre em

grupo, muitas jandaias juntas.

Eram muito agitadas e gritavam muito! De repente saiam todas em

revoada sem motivo algum e ficavam bailando no ar por alguns instantes,

por isso ficamos pouco tempo perto delas porque todo aquele barulho

estava muito irritante! Mas uma coisa que elas tinham é uma alegria

contagiante! Uma energia que jamais se acabava! Estavam sempre sorrindo

e brincando, até os que já eram adultos...quebravam pequenos galhos e

ficavam descascando, se coçavam, arrancavam penas...

Depois de comermos bastantes sementes e raízes, fomos pra junto

dos outros irmãos, que passaram o dia inteiro com a nossa mãe, lá para os

lados do rio. Já estávamos todos com o papo bem cheios e cansados depois

de um dia inteiro na floresta.

Eu gostava de alisar as minhas penas ao final do dia, sobre um galho

alto de palmeira que ficava em frente à árvore que era nosso ninho,

procurava penugens, mas naquele pedacinho da cabeça não iria nascer pena

mesmo, eu seria um papagaio careca até o dia de minha morte.

Eu via o sol se esconder entre as árvores e silenciosamente a noite

descer sobre a mata, deixando o céu cheio de estrelas e a lua...sereno e

sono, então todos juntos adormecíamos enquanto os grilos e vaga-lumes

faziam uma festa de luz e som nas partes baixas das árvores.

As manhãs eram para mim aventuras cada vez mais emocionantes

naquele paraíso que aprendi a amar de uma maneira tão grande que não

seria possível comparar a nada nesse mundo! Uma energia intensa me

ligava à floresta e eu sentia até mesmo a respiração das folhas das árvores

ou o canto das águas correndo pela cachoeira.

Cada coisa nova que eu descobria ou aprendia com os pais ou com os

outros pássaros me deixava maravilhado! A vida é tão bela! O nosso lar é

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algo tão cheio de felicidade e amor! A cada dia nós vivemos o esporte da

existência, procurando comida e aprendizado.

A floresta era um imenso labirinto repleto de coisas bonitas, e cada

dia eu conhecia um animal diferente! Depois do que aconteceu com o

gavião, os pais diziam para ficarmos por perto, para descobrirmos aos

poucos a floresta e sempre voltarmos para o mesmo lugar. Foi assim que

aprendemos aos poucos a vida em grupo. Papai ensinou que somente

quando estivermos em grupo teremos força suficiente para deixar com

medo os animais maldosos, que somente em grupo podemos fazer alguma

coisa.

Havia flores, e muitas borboletas voavam ao redor delas. Uma

explosão de colorido e magia. O perfume delas exalava por entre os troncos

das árvores, me encantando mais a cada manhã! Os pais disseram que essa

época do ano muitas flores apareciam na floresta, que era época para

namoro dos papagaios, e que as flores eram o sinal da chegada da estação.

Disse que isso acontecia todos os anos, e que nós cinco éramos os

primeiros filhotes, e que até o fim da vida dos dois, todos os anos voltarão

ao mesmo lugar onde nascemos, no mesmo tempo, na chegada das flores,

para dar a vida a outros filhotes.

A primeira vez que eu vi a cachoeira foi como a descoberta de um

mundo novo! O portal dos sonhos! Era real, mas eu não acreditava em

tamanha beleza e perfeição. Lembro que eu voava seguindo um beija-flor

muito colorido! Era bonito o modo como ele procurava entre as flores

aquelas que mais agradavam. Fui me distanciando do caminho que sempre

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seguia e acabei deparando com aquele espelho d’água. Havia muitas rochas

formando uma imensa parede e a água corria entre elas com imponência e

majestade!

A água do lago era mais gelada que a do rio, e saciava mais a sede!

- Olá bichinho da água!

- Não sou um bichinho da água, sou um peixe, e meu nome é

Vernacleto.

- Você pode conversar comigo? Que bom!

- Claro que posso! Eu converso como qualquer animal, mas tenho

que entrar na água toda hora para respirar.

No lago, que era onde a cachoeira acabava vivia um peixe muito

solitário, o Vernacleto, que com o passar do tempo deixou de ser assim,

pois todos os dias eu ia lá pela manhã para vê-lo e fazer companhia. Era

menos perigoso que o alto da árvore grande.

- Bom dia Vernacleto! Meu amigão!

- Bom dia papagaio!

O Vernacleto foi meu primeiro grande amigo.

- O que você fez ontem na floresta? Conta aí pra mim...

- Ah, muitas coisas! Conheci uns pássaros que cantam muito bonito!

Papai me levou pra conhecer um lugar que tem umas raízes muito doces, eu

adorei!

- Que bom! Fico feliz por você!

- E você?

- Ah papagaio, você sabe...não existem outros peixes aqui, então eu

fico nadando de um lado para o outro, por entre as pedras...só venho pra cá

mesmo quando você aparece.

Ficávamos conversando por um tempo, ele saltava na água cristalina,

contava coisas sobre o rio, histórias tão fascinantes! Eu achava incrível,

pois aquilo que eu descobria todos os dias, o meu mundo, era apenas a

parte de cima, e abaixo das águas havia todo um universo, repleto de

descobertas, mitos, perigos.

- Vernacleto, o que você quer que eu pegue pra você? Frutinhas ou

alguns insetos?

- Você vai me deixar mal-acostumado desse jeito.

- É que você é meu amigo e eu gosto muito de você!

- Também gosto muito de você papagaio! É um tanto falador, mas é

um papagaio legal!

Eu pegava frutinhas e insetos e jogava para o Vernacleto. Ele sempre

agradecia com um salto bem alto e jogava água para todos os lados.

- Nossa! Dessa vez você saltou bem alto heim Vernacleto!

- Você não viu nada, espere até o próximo salto.

Eu gostava muito do meu amigo, mesmo que fossemos tão diferentes

um do outro! É como se por dentro fossemos exatamente iguais!

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- Olha: eu já vou indo embora. Amanhã pela manhã volto aqui pra te

ver.

- Tudo bem meu amigo! Toma cuidado na floresta!

- Pode deixar!

Quando contei ao papai sobre minhas idas ao rio, ele falou para ter

cuidado, quase proibindo, pois existem animais dentro da água que atacam

outros animais que vão até lá para beber água. Ele só não proibiu porque

disse que eu precisava ir aprendendo aos poucos a sobrevivência, que nem

sempre teria a proteção deles. Quando perguntei ao Vernacleto ele falou

dos jacarés e das cobras. Ensinou tudo que era necessário para escapar

deles.

Eu insistia para ver um jacaré, mas o Vernacleto não me levava onde

eles ficavam. Dizia que não conseguiria escapar deles se o avistassem. Que

eu poderia voar, mas as águas eram o seu mundo e não poderia sair dele.

A vida a cada dia se mostrava para mim como ensinamento e amor!

Eu amava a floresta e respirava junto com as árvores, numa ligação

harmônica tão perfeita que parecia que eu estava ligado à floresta em

energia, que eu era parte do húmus que ficava na terra alimentando-a

eternamente.

Sim! Eu era parte do húmus da terra! Eu era parte das águas do rio!

Eu era parte do ar que corria!

Fui aprendendo o sentido das coisas, de tudo aquilo que meus pais

falavam quando nascemos e que estava tão ansioso por descobrir. Minha

identidade com a floresta amadurecia cada vez mais e eu sabia o meu lugar

na natureza.

Uma energia tão intensa crescia entre a floresta e eu! Algo que não

se pode explicar com palavras apenas. Era a energia da vida, fluindo em

cada parte do meu corpo!

Amava aquele lugar! Amava sim, sem condições ou imposições,

apenas um amor puro e intenso!

Descobri um amor tão forte por cada árvore, por cada forma de

vida... tudo se completava numa trama esplendida do criador de toda essa

maravilha!

Eu fazia parte de cada coisa toda! Até ao ar que respirava dava valor,

e quando achava alguma semente, raiz, ou larva, num sentimento de

agradecimento à natureza me alimentava sem desperdício, para que não

fosse em vão a criação daquele alimento até o dia de saciar minha fome.

Havia alegria em meu vôo e eu tinha um grande amigo!

Eu conhecia muitos animais na floresta, eu gostava de cada manhã de

sol ou até mesmo de chuva, e me sentia orgulhoso em voltar para a árvore

do nosso ninho toda tarde, cansado e cada vez mais forte!

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Certo dia, em um dos meus vôos da manhã, eu encontrei piando entre

as árvores, um canário-da-terra. Era filhote, mas já sabia voar. O que me

chamou a atenção foi o tom triste e desesperado com que piava, como se

estivesse aflito. Chamava-se João e estava preso em uma coisa chamada

armadilha, assim o papai disse que essas coisas se chamavam. Ele apenas

contava, mas nunca teve coragem de mostrar uma para a gente e sempre

dizia para não chegarmos perto. Era a única coisa que o papai tinha medo,

tinha medo até de falar a respeito. Era uma armação frágil de linha, mas

para o João seria impossível sair dali. Eu era pouco maior que um

periquito, mas tinha uma força muito grande no bico, pois ficava muito

tempo quebrando galhos e roendo troncos das árvores para me fortalecer.

Senti medo ao lembrar do que o papai falava, mas fiquei aflito vendo

aquele pequeno pássaro se debatendo. Lembrei do dia que as araras me

salvaram do gavião e senti que eu precisava salvar aquele pequeno pássaro.

Eu era bom e precisava ajudá-lo. Então fui até lá e despedacei o fio da

armadilha com uma única bicada. Ele saiu voando daquele pau-d’arco e

disse para ter cuidado com os homens. Disse que os homens estavam por

perto.

Homens? O que será que ele quis dizer?

Então eu avistei coisa nova. Eram duas criaturas diferentes dos

animais da floresta! Cobriam o corpo com coisas coloridas e soltavam

fumaça por um canudinho que colocavam na boca.

As criaturas deveriam ser os tais homens. Eles colocaram perto da

árvore uma porção de sementes de girassol e aveia. Estavam dentro de uma

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caixa com uma porta aberta. Eu nunca havia visto tantas sementes juntas no

mesmo lugar. Na floresta ficávamos a manhã toda procurando e

conseguíamos tão pouco.

Eu estava com fome e fiquei indeciso olhando para os homens

sumindo na mata. Eu não estava mais vendo os dois seres. Fiquei um bom

tempo naquele galho olhando e nem as folhas da mata se mexiam. A fome

aumentou muito e eu estava seduzido por aquela imagem, e então eu desci.

Quando olhei de perto era a visão de um pequeno manjar, um paraíso de

guloseimas! Já podia sentir o óleo circulando em minha garganta. Eu estava

faminto e entrei naquela caixa. Foi quando a porta se fechou e eu tentava de

todas as formas sair. Fui ficando desesperado e gritava, mas ninguém vinha

me ajudar.

Foi quando eu escutei alguma coisa se aproximando e fiquei calado,

assim como os pais ensinaram. As folhas secas eram pisadas. Eu ouvia

algum tipo de animal fazendo barulho, porém não havia escutado nada

parecido até hoje. Era um som demorado e outro animal correspondia.

Palavras! Eram os homens e estavam dizendo palavras. A sua forma de

comunicar me deixou com medo, eu ficava quieto, pensando que não

perceberiam minha presença naquela caixa.

Meu coração batia forte de uma forma que jamais bateu antes...

Senti bruscamente a caixa sendo erguida e meu corpo jogado para

baixo com o impulso.

Novamente comecei a me debater num desejo desesperado de sair

dali, pois não sabia o que estava acontecendo mas foi inútil. Passado algum

tempo a porta se abriu e quando saí fui parar em uma caixa de ferro grande,

com muitos furos e dentro vários pássaros que eu já tinha visto na floresta

voando livres. Eles se debatiam e eu já não tinha mais forças para voar,

então fiquei no canto apenas observando aquela cena desesperadora.

- Acho que já está bom!

- É, essa época do ano é muito boa mesmo!

- Não te falei, é só chegar o calor que aparecem filhotes, aí fica fácil!

Não são tão ariscos como os grandes e é bem mais fácil vender.

- Aqui, pra não morrer muito, vamos deixar destampado até chegar à

estrada, aí depois cobrimos, senão vai ser viagem perdida.

- Você se preocupa demais com esses bichos, se morrer voltamos e

pegamos mais. É de graça mesmo!

- Certo. Agora vamos.

A caixa enorme onde estávamos e que os dois homens chamavam de

gaiola foi colocada dentro de uma coisa que fazia barulho e andava rolando

pelo chão soltando fumaça preta.

Era um animal sem vida e sem pêlos, com cores que não pareciam

ser da mata. Os dois homens chamavam de caminhonete. A coisa seguiu

caminho no meio da mata onde não havia muitas árvores e chegou a um

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lugar diferente! Não havia terra e uma trilha cinza seguia em linha reta.

Havia uma linha amarela no meio do estranho caminho e ele cortava a

floresta. Eu olhava para o lado de fora sentindo uma angústia

desesperadora em meu coração, meus olhos estavam cheios, tão cheios de

tristeza que até as nuvens dos dias de chuva em que nasci teriam inveja. Os

outros pássaros já estavam cansados e já não voavam dentro daquela

armação procurando fugir. Meu coração batia forte e eu sentia os medos da

vida! Num aperto senti que tudo iria mudar, senti arrancado de mim tudo

que eu sou. Ao ver a floresta se distanciando cada vez mais senti que a

minha vida ficava ali e somente meu corpo estava naquela gaiola com os

outros pássaros. Eu gritava, esperando que algum animal pudesse me

socorrer, mas era em vão.

O carro parou depois de um tempo e um dos homens veio, cobriu a

gaiola com um manto escuro e abafado, então depois disso não vi mais

nada.

*****

Capítulo 2

Era um lugar estranho e não havia árvore. Havia muitos homens no

mesmo lugar. Era fechado e cada pássaro estava em uma gaiola diferente.

Havia homens com pêlos maiores na cabeça e não tinham pêlos no rosto.

Depois de um tempo percebi que eram as fêmeas da estranha espécie

chamada homem.

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Estávamos pendurados, longe do chão. No alto não se via o sol, mas

havia vários globos de luz parecidos com o sol, e quando um dos homens

queria, podia desligar o globo simplesmente tocando em um quadrado que

ficava na parede.

Que lugar era esse? Onde se encaixa esse momento no curso da

minha vida? Que sentido, que parte do ensinamento era essa? Cadê meus

pais, os meus irmãos, a floresta e tudo que eu conheci?

Eu não podia sentir o cheiro da floresta, e isso me fez perceber que

aquele lugar era longe de minha casa. Os sons da floresta foram

substituídos pelos sons dos carros que passavam do lado de fora do quarto

onde estávamos.

Eu a tudo observava procurando respostas, tentando entender o que

estava acontecendo.

As pessoas davam aos dois homens umas coisas finas parecidas com

folhas de árvore. Era colorido e eles chamavam de dinheiro. Depois eles

escolhiam o pássaro que iriam levar embora.

Todos os dias eu ficava naquele lugar e vi os pássaros indo embora

um após o outro. Dois morreram na gaiola tentando fugir. Machucaram

tanto o próprio corpo, se chocando contra aquelas armações de madeira que

acabaram por morrer, talvez pelas feridas ou pela angústia de não estar

mais na floresta. Eu ficava quieto e em silêncio. Observava aquilo tudo

procurando entender a razão de tanta maldade e qual seria o motivo de

estarmos dentro daquelas gaiolas sem poder voar.

Havia um pequeno homem chamado Teleco. Todos os dias ele ia lá

naquele lugar para colocar comida para nós e às vezes ficava brincando

com um ou outro pássaro. Ele não parecia ser tão cruel quanto os outros

dois homens que me tiraram da floresta.

Novos pássaros da floresta chegaram na outra semana, entre eles o

pequeno canário-da-terra João. Ele contou que viu quando fui aprisionado

pelos homens, que depois disso voou pela floresta para contar à minha

família, falou da tristeza que meus pais sentiram e dos gritos de desespero

deles. Contou da saudade que sentiram nos outros dias depois que parti,

que meus irmãos procuraram pela floresta e gritavam meu nome. Depois

João falou que caiu em outra armadilha na floresta quando estava

procurando comida. Disse que estava com fome e achou que conseguiria

tirar os grãos de alpiste da armadilha sem ficar preso. Disse que acreditou

que poderia, espelhando-se na minha coragem em tirá-lo da armadilha.

Eu mal prestei atenção ao que ele falava depois que disse sobre

minha família. Meus olhos caíram ao chão como duas gotas de chuva e a

tristeza se apossou de todo o meu corpo naquele momento.

Qual a razão de tamanha maldade? Que mal eu fiz a esses homens

para roubarem dessa maneira a minha felicidade? Se é pra viver assim me

mata vida! Tira desse beco sem saída essa pobre alma que desde o

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nascimento não cometeu erro algum e hoje aprisionado padece de

felicidade, abandonado no canto de uma parede.

Minha tristeza era evidente e minha pequena alma de papagaio se

despedaçava de dor dentro de mim quando ele contava sobre a floresta e

sobre os dias que se passaram depois que eu saí.

Eu já não tinha forças para comer e a saudade de tudo que eu estava

acostumado a ser e viver atormentava tanto que meu coração sangrava as

tristezas todas. Fui criando um ódio cada vez maior daqueles dois homens

que todos os dias avistava passando de um lado para o outro mostrando os

pássaros a outros homens que iam lá naquele lugar. Por vezes sonhei que os

machucava, fugindo da gaiola e salvando aqueles pássaros... salvando a

minha própria vida.

Em poucos dias João foi comprado por um homem que o viu

cantando e gostou muito do som que fazia. Quando vi que iriam levar o

João comecei a gritar e um dos homens que me tirou da floresta bateu na

gaiola para que eu ficasse quieto. Naquele momento eu disse adeus ao

João, o pequeno canário, e num olhar triste ele simplesmente respondeu:

até logo!

Ele disse que podia sentir a intensidade do ódio nos meus olhos,

disse que era algo que nunca havia sentido antes, que pairava no ar como

cheiro de dama-da-noite.

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Eu fui comprado por um menino que passava de carro com seu pai e

parou em frente daquele lugar onde nós éramos deixados. O pai dele disse

para que escolhesse um pássaro e ele me escolheu. Mesmo que eu não

tivesse muitas penas na cabeça era o único papagaio ali, os outros eram

pássaros pequenos. Eu brincava com uma bolinha de madeira, procurando

quebrá-la para sentir a mesma sensação que sentia quando quebrava os

galhos das árvores ou as castanhas lá na floresta. O Teleco havia colocado

a bolinha para que eu não ficasse tão triste. Parecia entender o que se

passava comigo naquele lugar tão fechado.

O menino que me levou tinha uma toca grande e bonita, mas eles não

chamam de toca e sim casa.

Quando o menino chegou, me colocou em uma árvore que tinha em

uma pequena relva a qual rodeava a casa. Era o jardim.

Quando chegava a noite ele me colocava dentro da casa sobre a mesa

da cozinha em uma outra gaiola. Essa era de metal, pois as de madeira eu

destruía, procurando afiar o bico.

A mãe dele não gostava que eu ficasse lá naquela mesa, com medo

que eu sujasse tudo. Ora, girassol espalha as cascas quando eu como, e não

vá querer que eu tome água sem chacoalhar o bico, pois foi assim que

aprendi lá na floresta. Com o tempo fui percebendo que ela jamais gostaria

de mim. Era uma pessoa muito fechada, muito triste de espírito!

Eu achava tudo estranho naquele lugar chamado cidade e sempre

sentia, com muita dor em meu coração, saudades da floresta. Sentia minha

inocência de animal das matas esmaecer dentro de mim, dando lugar à

malícia, a um sentimento tão corrupto! Eu estava me tornando uma outra

coisa com tudo que estava aprendendo na cidade.

Certo dia, o Serginho, que era o meu dono, disse que à noite todos

iriam a uma festa. Ele me explicou o que era e eu não entendi bem, mas

ouvi a tudo bem atento. À noite quando eu já estava dormindo na gaiola na

cozinha, ouvi barulho de passos. Para mim seria o Serginho. Sempre nas

noites em que não conseguia dormir ia até a cozinha na ponta dos pés para

não acordar seus pais e tomava um copo de leite. O tal leite segundo ele

vinha de um animal chamado vaca. Eu pensava que era invenção dele,

afinal papai nunca falou desse animal lá na floresta e eu achava que todos

os animais viviam na floresta.

O barulho dos passos era semelhante então eu comecei a conversar:

- Olá... cadê o louro?

- Ei Nestor! Você disse alguma coisa?

- Eu não chefe. Achei que tinha sido o senhor.

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- Será que tem alguém em casa? Vamos dar uma olhada na cozinha.

Passos mais silenciosos do que os primeiros se aproximaram e eu

cantava uma música. A mesma que aprendi a cantar todas as manhãs. De

repente um dedo acendeu a luz. Não era o Serginho nem o pai dele, o

Pedro. Eles eram sempre os primeiros a acordar todas as manhãs, e me

tiravam para fora da casa, me colocavam para tomar sol na árvore do

jardim.

Eram dois homens. Eu interrompi minha música e tive medo. Era

como ver um dos animais da floresta. Fiquei encolhido observando aquelas

duas criaturas assustadoras!

- Ei chefe! O que vamos fazer com o papagaio?

- Leva ele junto com as coisas. Talvez a gente consiga um bom

dinheiro com ele já que está falando bem. Coloca dentro do saco e vamos

sair logo daqui.

- Mas chefe...

- Menos conversa Nestor. Quem manda aqui sou eu entendeu?

- Sim chefe, mas ele tem o bico afiado! Eu não coloco a mão nele

não. Vou levar com gaiola e tudo.

Então fui colocado em um saco abafado que estava cheio de coisas

da dona Amanda. Alguns colares que ela usava no pescoço, vasilhas,

dinheiro...

Os dois saíram da casa rápido e entraram em um carro que estava

parado na rua um pouco distante do portão.

Eu estava assustado, mas fiquei em silêncio para ver o que estava

acontecendo.

Quando o carro começou a andar eu comecei a observar aquelas

luzes todas. Eu nunca havia visto a noite e as estrelas aqui, assim desse

jeito. Lá na floresta quando começava a anoitecer todos nós nos

escondíamos no ninho por causa dos animais da noite, e pela abertura do

ninho podíamos ver um céu todo repleto de estrelas e a lua clareando a

noite. Aqui o céu não tem tantas estrelas e existem muitas luzes nas ruas!

- Amanhã mesmo você vai à loja de pássaros e tenta vender esse

bicho Nestor.

- Ah chefe! Vamos ficar com ele. Ele sabe cantar e quero ensinar a

falar meu nome. É muito esperto e eu sempre gostei de animais de

estimação.

- Nada disso. Não quero ficar ouvindo esse bicho o tempo todo

falando na minha cabeça.

- Está bem chefe. Mas eu ainda acho que a gente deve ficar com ele.

Amanheceu chovendo. O Nestor me colocou em uma gaiola pequena

e cobriu com um pano escuro. Por uma pequena abertura eu conseguia ver

o beco. Parecia com as trilhas da floresta, mas em vez de árvores havia

somente casas, e em vez de animais, pessoas. Ele foi caminhando comigo

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por esse beco e alguns respingos de chuva me alcançavam debaixo do

guarda-chuva. O cheiro de terra molhada e ar frio das manhãs chuvosas na

floresta... que tristeza! Que saudade da minha vida! Que castigo tão cruel é

esse que está acontecendo comigo? Fui tirado da floresta e agora estou aqui

nesse lugar tão cheio de maldade, sem saber o que vai acontecer comigo.

O que será essa trama toda da vida, do destino? Por que isso está

acontecendo comigo?

Essas reflexões machucavam muito por dentro. O desespero é algo

tão impressionante! Não posso sair daqui, sei que em algum lugar minha

família chora minha perda e nem ao menos posso dizer que ainda estou

vivo.

Toda hora que o Nestor passava por algum conhecido levantava o

pano para me mostrar. Ele gostava quando eu ficava repetindo o nome dele,

e olha que aprendi na primeira vez que ele pediu pra que eu falasse. Estava

me ensinando palavras novas que as pessoas achavam graça quando eu

falava.

A loja de pássaros estava fechada naquele dia, então o Nestor voltou

comigo para a sua casa. Na verdade nem era uma loja de pássaros. Era a

casa daqueles dois homens. Eles vendiam pássaros escondido. Na frente da

loja era uma loja de ração para animais e nos fundos ficavam os pássaros.

Era tarde. Por volta de quatro horas. O Gilmar chegou apressado em

casa com um jornal que tinha minha foto com o Serginho. Lembro bem da

foto. Foi logo que eu cheguei. Eu deveria saber, aquela falta de penas na

cabeça era reconhecível em qualquer lugar do mundo.

- Ei Nestor, já tinha visto isso aqui antes?

- Sim chefe. Hoje cedo quando fui levar o papagaio na loja, mas

como não sei ler...

- Idiota! E por que não me avisou? Os donos do papagaio estão

procurando o bicho e ofereceram recompensa. Eles vão nos achar. Você

mostrou esse bicho pra favela inteira.

- E o que vamos fazer chefe?

- Pega o que der pra pegar, vamos cair fora. Ficar escondidos na casa

perto da estrada e deixar esse bicho em algum lugar. Não podemos deixá-lo

aqui senão vão ter certeza que fomos nós. A gente o deixa em algum lugar,

se alguém achar e colocar a culpa em nós é só negar.

- Mas chefe, e se ele entregar a gente? Ele sabe falar nossos nomes e

pra onde estamos indo. O papagaio é muito inteligente e ouve só uma vez

as coisas e aprende.

- Não seja tolo Nestor! De onde tirou essa idéia?

- Acho que temos que levar ele. Não vai dar pra gente pegar a

recompensa mesmo.

- Gilmar, currupaco... Nestor, currupaco...

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Capítulo 3

O Nestor havia se tornado um camarada meu durante a viagem.

Ensinava todo tipo de truque, mexer com as minas, contar umas piadas

maneiras, falar mal dos barbeiros na estrada e dizer um montão de palavras

que as pessoas chamavam de palavrão.

O Lugar para onde estávamos indo não ficava muito longe da cidade.

Havia mato e cada vez que a brisa chegava às minhas narinas eu lembrava

do frescor da mata virgem que era meu antigo lar. A brisa vinha tocando

levemente nas árvores na encosta da estrada.

Por um momento, olhando para o lado de fora, pensei que estava

voltando para a floresta e que aquele pesadelo estava para acabar. Meu

coração voltou a bater com felicidade e eu estava ansioso, por isso

observava atento o mato do lado de fora, para ver se reconhecia algum

trecho, talvez o lugar onde começava a estrada de terra onde o carro estava

quando fui capturado. Então eu simplesmente sairia voando para lá.

Dentro do carro o Gilmar permanecia tenso e disse ao Nestor para

me esconder dentro da jaqueta dele para que o policial não visse. Eu

lembro que eu estava no ombro do Nestor e ele me pegou rápido e

escondeu com brutalidade.

- Olá seu guarda! Tudo em cima?

- Eh... só rotina mesmo. Posso ver sua habilitação e os documentos

do carro?

- Claro! Aqui está ela.

Parecia que o Nestor não tomava banho há dias e aquele cheiro me

incomodou. Tentei sair e ele começou a se contorcer dando uns gritos

baixos.

- Que há com seu amigo?

- Nada não seu guarda. O Juliano está com uma baita diarréia e

precisamos correr. Até logo!

- Até logo! E dirijam com prudência.

- Ei Nestor... que foi aquilo lá atrás? Queria que nos pegassem com o

papagaio?

- Não chefe. Claro que não, mas esse papagaio começou a me fazer

cócegas.

- Não era cócegas seu idiota... eu estava te arranhando, currupaco...

olha só o que eu fiz.

- Minha nossa!

- Rá, rá, rá! Muito boa papagaio! Aí Nestor, bem você me disse pra

trazer esse bicho, foi mesmo uma ótima idéia! Agora vejo que foi mesmo.

Eu conseguia copiar tudo, bastava ver ou ouvir. Eu rabisquei as letras

de um time de futebol no peito dele. Eu não entendia muito bem do

21


assunto, mas ele torcia para um time chamado Flamengo e o Gilmar para o

outro time, o Cruzeiro. Lembro que o Serginho gostava do Santos e o pai

dele gostava do Atlético. Eles ficavam discutindo futebol e eu já tinha visto

na casa do Serginho, na televisão as letras que diziam CMA, e ele não

gostava. Era isso, um monte de pessoas que gostavam do tal Cruzeiro, e

como o Nestor não gostava eu resolvi me vingar.

Eu conseguia copiar tudo que via ou que ouvia. Talvez a saudade de

casa e a vontade de voltar me deixavam ansioso, e eu substituía essas

coisas por uma criteriosa atenção a tudo que via.

Se eu tivesse nascido gente gostaria de ser pintor, e queria pintar a

floresta onde nasci e todos os animais e plantas, mas por outro lado, se não

tivesse nascido papagaio não teria desvendado a floresta onde nasci e não

teria conhecido coisas tão bonitas lá!

Então passamos em frente a um riacho com uma água verde e suja!

Lembrei-me do meu amigo das águas limpas e cristalinas da floresta, o

peixe Vernacleto. Novamente a tristeza chegou aos meus pensamentos.

Lembrei do dia em que ele me ensinou que debaixo da água havia um

universo tão amplo como o da floresta, do lado de fora da água, agora estou

descobrindo um outro universo aqui nesse lugar cheio de pessoas e carros.

Seria tão bom se eu pudesse construir o meu próprio universo,

somente com as coisas que eu gosto, e tirar tudo o que me entristece!

Mudar as coisas de lugar, tirar o ódio do coração dessas pessoas e acabar

com a minha tristeza! Eu iria morar num lugar com várias palmeiras, para

todos os dias pela manhã comer buriti vendo o sol surgir atrás de uma

montanha verde de mata densa. Eu gostaria de me molhar nas águas do rio

e de ser feliz com todos os animais. Esse paraíso existe, e eu fui tirado de lá

e trazido para esse lugar horrível! Lá não havia o ódio e até mesmo o

gavião só caçava os animais para se alimentar, aqui existe ódio e

desonestidade. Eu nem sabia o que era isso e agora eu sei.

Nós chegamos a uma casa velha e um pouco assustadora depois de

umas poucas horas de viagem no carro do Gilmar. Era noite e após

acenderem os lampiões da casa, o Gilmar arrumou as duas camas que tinha

no quarto da casa, único cômodo do segundo andar. Havia muita sujeira,

muita poeira naquele lugar!

O Nestor estava fazendo comida para eles como fazia todos os dias.

Depois ele colocou girassol e pedaços de maçã em uma vasilha para mim.

Os dois ficaram um tempo jogando baralho e bebendo muito. Eu

permaneci no alto de um guarda-roupas velho observando os dois.

Então fomos dormir.

Embora cansado, meus sonhos eram tão tristes. Eu sabia que aquele

lugar não era perto da minha floresta e isso reduziu minha esperança

naquela noite.

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Eu escutava os grilos do lado de fora da casa, mas o som não era

igual ao som dos grilos da floresta. Havia perfume de flores, mas também

não era semelhante.

*****

Ouvindo o barulho alto dos tiros eu acordei assustado e voei pelo

quarto, batendo nas paredes. Havia pouca luz, somente a lua. Tentei achar

refúgio.

- Esquece, vamos cair fora. – gritou o Gilmar.

Quando pousei na beira da janela vi os dois correndo pelo gramado

na direção do carro.

- A gente não devia ter vindo pra cá chefe. O fantasma do Wilson tá

assombrando a casa.

- Eu vi Nestor. Era o fantasma do Wilson, que você matou, lembra?

- Chefe, mas o senhor me obrigou a fazer aquilo.

- O sujeito estava prestes a nos entregar para a polícia. O que você

queria que eu fizesse?

- O pior é que deixamos nossas coisas na casa e teremos que voltar lá

para pegar.

- Nada disso. Eu estou indo embora. Não vou ficar aqui nem mais

um minuto. Temos grana, compramos novas roupas.

- Mas e o papagaio?

- Esquece o papagaio. Esse bicho só tem nos causado problemas. Se

tivéssemos deixado ele na cidade, lá naquela casa que assaltamos no outro

dia, não precisaríamos ter vindo parar aqui. Eu to com minha carteira e a

grana das jóias está aqui. Vamos voltar pra cidade e esse papagaio que se

vire.

- Coitado do papagaio!

- Esquece! Coitados somos nós. Ele que se arrume, afinal não nasceu

quadrado.

- Eu gostava dele!

Quando os dois saíram com o carro eu tentei segui-los voando, mas

eu já não voava tão bem como antes, na floresta... minha casa, minha

floresta tão amada que levo em minhas recordações mais doces e mais

tristes...cada vez mais tristes.

Estava difícil voar como antes, afinal desde que os dois homens me

tiraram da floresta eu só ficava em gaiola! Eu fiquei cansado rápido, tinha

certo tempo que eu não voava assim por tanto tempo, eu estava fora de

forma e fui me cansando cada vez mais enquanto o carro sumia na distância

à noite a caminho da cidade. Senti como se fosse um dos meus primeiros

vôos...

Então os perdi na distância e no escuro da noite. A luz do farol foi

sumindo e eu ainda tentei voar mais rápido para os calnançar.

23


Mas eu fiquei ali, naquele galho de árvore. O único que consegui

alcançar depois do cansaço do vôo. Era noite e havia desespero, o rumo dos

perdidos.

Minha vida dependeria da sorte, pois eu estava só, num lugar

desconhecido. Que acontecimentos a vida reservaria para mim?

Cansado, com medo e sem saber o que fazer, tentei me esconder nas

folhas da árvore, com medo de algum predador, das cobras, dos animais da

noite e até mesmo do gavião.

Eu estava sozinho, e era apenas um papagaio. Não havia nem mesmo

outros pássaros diferentes para ficarmos juntos e tentarmos afastar os

outros animais com o nosso barulho.

Papai dizia que um papagaio sozinho não pode fazer nada, mas eu

não fui premiado com o direito da escolha, minha vida foi roubada da

floresta e deixada numa árvore, num lugar que não conheço, num universo

que somente tem revelado tristeza, decepção e dor ao meu coração que bate

com tanta angústia que nem mesmo todas as flores da floresta, em beleza e

perfume seriam capazes de se equiparar a tamanha infelicidade que esse

lugar me presenteou desde que vim parar aqui.

A vida é um grande enigma! Qual o motivo de viver? Nós sonhamos

desde o dia que nascemos e nunca conseguiremos realizar todos os sonhos.

Tudo é difícil desde a comida até a sobrevivência! Há sempre mais perigos

do que segurança! Há sempre mais tristeza e decepção do que felicidade!

Por isso cada vez que estamos felizes queremos que dure para sempre, mas

nada na vida dura para sempre...tudo morre, as plantas, a água, os animais,

o ar, a noite e até mesmo as estrelas e todo o universo!

Eu só queria voltar pra minha casa e voltar a viver!

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Capítulo 4

- Juca, não quero que você faça mais nenhuma grosseria entendeu?

Você já é um garoto crescido! Já tem idade para assumir certas

responsabilidades, comportamento...

Mesmo eu pegando no sono meu pai prosseguia em seu sermão de

boas maneiras, sem saber que na verdade era ele quem fazia as coisas

erradas e que quando eu não concordava, a razão era minha.

Então quando anoiteceu eu fugi de casa. Ele brigou comigo por coisa

boba, e sempre acaba descontando outros problemas em mim quando vai

falar algo.

Não gosto dos amigos dele! São pessoas maldosas!

Ele não entende que eu tenho minha maneira de pensar, mesmo o

respeitando muito eu não posso negar que tem coisas que acho errado.

Os amigos dele são todos cachaceiros e ficam vindo aqui em casa só

pra encher a cara. Hoje fui falar com um deles e o pai não gostou, mas na

verdade ele também não gosta que esse pessoal venha tantas vezes aqui em

casa comer a nossa comida e beber a pinga que ele compra toda semana.

Ele os trata bem mesmo assim por causa que deve favores a eles, favores

que nunca falou pra mim do que se tratava, mas acho que deve ser dinheiro.

Eles entram na mata que fica lá para os lados da serra e caçam

muitos animais. Essa é a grande diversão deles, mas isso sempre me

incomodou, não acho certo.

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Algumas vezes eles voltam com tatus agonizando, outras vezes

onças, e em outras vezes eles matam os animais, tiram a pele e trazem para

secar no varal como se fosse uma roupa, para depois vender.

*****

Juquinha havia fugido de sua casa na mesma noite em que o Nestor e

o Gilmar foram embora daquela casa velha. A casa do Juquinha ficava

longe, coisa de uns dez minutos de vôo, na direção da cidade.

Fui encontrado pelo Juquinha, adormecido junto de uma construção

rasa chamada poço, que ficava na metade do caminho entre a estrada e a

casa dele. Eu estava exausto e procurei comida por perto e não havia nada,

então quando pousei naquela construção acabei dormindo.

Assustei-me com o barulho dos seus passos, esmagando folhas secas.

Pensei que fosse algum animal, ou lobo ou onça. Eu já vi o desenho do

lobo na casa do Serginho, em uma revista que tinha uma lua cheia na capa,

igual à que estava no céu naquele final de madrugada.

Quando vi o garoto fiquei mais tranqüilo e lembrei do Serginho. Não

senti maldade nem agressividade no seu semblante, por isso permaneci

quieto até que se aproximasse.

Lembro bem do nosso primeiro diálogo naquele encontro. Ele estava

triste e eu apavorado. Ele tinha bolo e eu comi um pedacinho.

- Ei papagaio! De onde você veio?

- Selva, floresta do papagaio, currupaco, floresta, selva... papagaio...

Uma apresentação informal de personalidades, em que eu era o astro

maior, já que sou protagonista dessa história...

- E qual é o seu nome?

- Nome, nome, currupaco!

- Hum! Acho que você não tem um nome. Está bem. Eu tinha um

pombo chamado Petrúcio, só que ele morreu algum tempo atrás quando era

muito velho! Eu vou te chamar de Petrúcio está bem?

- Petrúcio, Petrúcio, currupaco!

Pela primeira vez que reconhecia o significado de um nome: era o

que diferenciava o Serginho do Juquinha, o Nestor do Gilmar e eu dos

outros papagaios da minha família.

Isso aconteceu no dia em que ele fugiu e no mesmo dia, motivado

pela grande descoberta, voltou pra casa me levando junto.

O pai dele estava arrependido por ter gritado e pediu desculpas.

Achou uma boa idéia que o menino tivesse um bicho de estimação para

fazer companhia já que naquela casa havia muita solidão e naquele campo

nenhum amigo. Era um verdadeiro exílio, sem pessoas e somente mato.

Uma visão bonita para mim, pois lembrava da floresta onde nasci. Eu nem

sei pra que lado ela fica, e nem sei como pedir para alguém me levar pra lá.

Só consigo falar o que aprendo e nem sei formular as minhas próprias

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frases de apelo. Sou um animal que pode falar, mas me sinto mudo e sem

ações ao mesmo tempo. Essa situação sempre fez com que meu coração

batesse no compasso do desespero, por dentro minha alma chorando toda

hora e esperando ansioso o momento de sair dessa prisão, desse lugar.

Vontade de ir embora para minha floresta e reencontrar meus pais, irmãos,

os outros animais, o peixe Vernacleto. Vontade de viver de novo e esquecer

de tudo que se passou nesse lugar tão cheio de infelicidade e confusão.

O pai dele era um cara muito chato e se zangava com tudo! Seu

nome era Adamastor e sempre achava ruim quando eu dizia:

- Fica frio coroa, currupaco!

- Juca, ou você manda esse bicho imprestável calar ou teremos

ensopado de louro no jantar.

- Coroa, pó-de-arroz, pó-de-arroz, currupaco!

Algumas vezes me jogava arroz cru, outras vezes água fria...

Adamastor vivia na casa com o Juquinha, e algumas vezes saía com

uma espingarda e ficava muito tempo na mata que havia nas imediações.

Era possível ouvir o barulho de tiros. Ele caçava animais juntamente com

uns homens que iam até lá nos fins de semana. Divertiam-se com a morte

de lobos, pacas, onças e jacarés. Quando voltavam traziam animais mortos

e em algumas vezes comiam, em outras tiravam a pele para vender.

Tudo era muito triste de se ver e o Juquinha não gostava do que o pai

fazia.

O Juquinha sempre me levava pra fora da casa quando eu falava

demais. O Adamastor não gostava nem um pouco das coisas que eu dizia.

Nestes dias em que permaneci na casa, sem perceber acabei cultivando um

grande inimigo.

Um dia quando o Juquinha foi pegar água no poço, seguindo

conselhos do próprio Juquinha, veio falar comigo:

- Escuta bicho imprestável: de onde você veio?

- Selva, selva...

- E onde você aprendeu a falar palavrão?

- Merda, currupaco...anda Nestor, pega logo as jóias, currupaco...

- O que foi?

- Ei mane, vai encarar é? Vai encarar? Vamos pra casa na beira da

estrada, a polícia vai achar a gente, currupaco...

O Adamastor ficou intrigado com o que eu estava falando, porém

acabei bicando o dedo dele até sangrar porque ele veio pegar em mim.

Então ele coberto de fúria me colocou dentro de um balde d’água

mergulhando várias vezes como se quisesse me afogar aos poucos. Foi

quando o Juquinha chegou e ficou furioso com a atitude do pai.

Naquela mesma tarde, um casal amigo dele, chamados Webert e Ana

Paola foram visitar a casa. Juquinha os tratou de um modo grosseiro por

estar com raiva do Adamastor, então à noite os dois discutiram de novo.

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E agora, depois de tudo isso que aconteceu, chegamos ao momento

atual, horas depois do sermão. Eu já acordei e dentro de alguns minutos,

Juquinha e eu vamos até a estrada esperar por uma correspondência,

sempre deixada na caixa de metal que tem o nome do Adamastor e um

número 13284.

Já havia passado horas e nada do Juquinha aparecer na porta da casa.

Eu esperava do lado de fora no galho da árvore para irmos.

Seu pai abriu a porta com extrema rapidez e fui jogado para o canto

pelo muro de madeira que se move para fora da casa.

Percebi que o Juquinha já havia partido sem mim, talvez ordem do

seu pai. O Adamastor nem veio ver se eu havia me contundido, ele não era

tão legal quanto o Nestor.

Longe vi o Juquinha gritando e chamando por ele. Corria com muita

pressa para chegar até a casa:

- Pai! Vem logo pai!

- O que foi Juca?

- Um acidente pai, na estrada...

O Juquinha então subiu no cavalo e o Adamastor pegou o outro

cavalo e foram para o local. Então voei até o Juquinha e pousei em seu

ombro.

Na beira da estrada havia um carro vermelho virado e em seu interior

uma mulher cheia de sangue. O Adamastor com grande dificuldade

conseguiu abrir a porta do carro e tirá-la de dentro.

Dentro do carro eu vi um brinquedo igual a um brinquedo do

Serginho com o qual sempre brincava comigo, chamado telefone. Eu fui até

lá e mexi nos botões igual ao Serginho e do telefone começou a sair um

barulho, uma voz perguntando umas coisas. Fiquei repetindo as palavras

que escutava, sobre o carro que virou na estrada e o pai do Juquinha estava

salvando a moça, falei que tinha sangue e que o Adamastor era muito

chato. A voz de mulher que saía do telefone perguntou meu nome e eu

respondi. Depois ela perguntou o endereço, acho que era o número da

plaquinha do Adamastor, então falei um por um. Ela escutava os gritos dos

dois tentando ajudar a moça do carro.

A voz do telefone começou a ficar brava e disse que ia mandar

alguém até lá porque eu estava passando trote então eu saí de perto do

telefone. Aquele não era engraçado igual o do Serginho, nem tinha

musiquinhas.

Passavam alguns carros pela estrada e nenhum deles parava, só viam

o que estava acontecendo e depois iam embora.

O Juquinha havia chegado com um balde cheio de água e um pano.

O Adamastor limpou o rosto dela e colocou o pano molhado em sua testa.

28


Assustei quando depois de algum tempo vi uma coisa no céu que

parecia um brinquedo do Serginho, mas era muito maior! Foi quando o

Juquinha falou:

- Olha o helicóptero!

Então eu me escondi na árvore e vi o enorme brinquedo pousar no

mato. Três pessoas saíram do brinquedo igual os bonequinhos do Serginho.

Eles colocaram a moça em uma tábua branca com umas cordas e estavam

colocando a moça dentro do brinquedo. Então voei pra trás do balde e

fiquei olhando da beirada. Estava curioso pra ver o que iria acontecer.

Então chegaram dois carros cheios de luzes piscando, havia sirenes,

igual aos brinquedos do Serginho. Quando os carros pararam, eu me

assustei e voei até uma árvore na encosta da estrada e fiquei escondido,

ouvindo o que conversavam...

- E o senhor é o Petrúcio?

- Não...me chamo Adamastor.

- Quem é o Petrúcio então? Recebemos um chamado na central e até

pensamos que seria um trote, porém os Bombeiros confirmaram o acidente

e o helicóptero veio pra cá de imediato.

- Petrúcio é o meu papagaio.

- Então quer dizer que um papagaio acionou o serviço policial?

Vamos com calma gente, o meu dia está cheio de ocorrências...

- Só pode ter sido ele, nós nem temos telefone...

- Ei pai, o Petrúcio estava dentro do carro.

- Não é possível, será?

Após examinarem o interior do carro, confirmaram a hipótese,

devido a uma prova que acabei deixando sobre o telefone por acaso...mas

espera aí...não é o que estão pensando, foi uma pena que se soltou de mim,

além das marcas de pata que ficaram no telefone, porque minhas patas

estavam sujas.

- Ah sim! Foi o Petrúcio sim.

- Incrível! Nunca vi nada parecido! Precisamos acionar o jornal para

fazer uma reportagem.

Outro carro com sirene estava chegando. Esse era um caminhão e iria

levar o carro da moça para arrumar. Era bonito! Tinha um guincho igual o

caminhão do Serginho. Parecia até que as pessoas estavam brincando!

Tudo era igual às brincadeiras do Serginho, mas lá não tinha a moça com

sangue e os carrinhos eram pequenos.

Enquanto isso o policial anotava tudo que o Adamastor falava em

uma prancheta...

Chegaram mais carros e o Juquinha gritou para o pai que eles

estavam na televisão, umas pessoas, umas coisas estranhas ligadas, luzes...

- E o papagaio?

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- Ah! O papagaio o meu filho Juca encontrou perto do poço que tem

ali na frente, deve ter se perdido dos donos, pararam por algum motivo na

beira da estrada e...

- Não, não...ele pertence a uma família da cidade. Houve um roubo

de alguns objetos de valor na casa e os ladrões acabaram levando o

papagaio também. Veja esse jornal. Estavam oferecendo até uma

recompensa pelo papagaio.

- Quer dizer que vão levar o Petrúcio?

- Vão sim Juca. Vão levá-lo para os donos.

O Juquinha começou a chorar bem alto e o Adamastor tentava

consolá-lo, sentindo grande satisfação porque eu iria embora, e tentando

esconder isso do Juquinha.

Foi quando um dos homens disse:

- Escuta garoto: temos lá no quartel vários filhotes de pastor-alemão

e não serão todos aproveitados, apenas os que passaram nos testes para o

policiamento. Treinar esses bichos dá muito trabalho! O que você acha de

eu trazer um desses filhotes para você? Se você cuidar bem dele...vai virar

um mascote nota dez! se quiser mando trazer agora mesmo.

Fiquei torcendo para o Juquinha recusar a oferta tentadora do guarda:

trocar um papagaio que dizia palavrão e era odiado pelo pai, por um cão de

raça que seria amado pelos dois. Cruzei minhas patinhas, mas foi em vão

meu esforço de ave... eu iria sair daquele lugar.

O Juquinha concordou em me trocar pelo cão sardento. Fui levado de

volta para a cidade. Imagina só: trocar um papagaio bonitão e boa pinta que

nem eu por um cão cheio de pulgas. Ah, quer saber, o Juquinha não era tão

esperto assim. E pensar que ele que colocou esse nome em mim e agora eu

já aprendi, agora vai ser Petrúcio mesmo, já o decorei e não dá pra mudar.

Gosto do Serginho, mas aqui na casa do Juquinha eu tinha muita

árvore, tinha os outros pássaros...aqui parecia um pouco com a minha

floresta. Eu vivi dias mais felizes aqui, na esperança que aparecesse algum

papagaio do meio do mato pra me ajudar, pra ensinar o caminho de

casa...agora vou ter que ir embora para aquele lugar sem árvores...

- Petrúcio!

Num salto deixei o galho daquela árvore onde me escondi do

movimento e realizei a triste caminhada da derrota, em direção ao carro da

polícia. Foi quando o Juquinha tentou me dizer o que eu já sabia, mas

dificilmente acreditava.

- Petrúcio eu...

- Nenhuma palavra Juquinha, eu já ouvi tudo, currupaco.

E nossa despedida teve um clima de enterro. Foi até bom para que

ele se lembrasse de mim, como uma coisa boa, que vem, e que

passa...como a infância ou a primavera, a chuva da floresta e as descobertas

que eu fiz lá naquele paraíso antes dos homens me trazerem pra cá.

30


Os repórteres ficavam me filmando o tempo todo e me chamavam de

herói. Eles disseram que eu iria aparecer em muitos lugares, então pensei

que alguém na floresta iria me ver e vir me ajudar. Somente depois de

muito tempo fui descobrir que somente os homens assistiam televisão, e

quando eles falaram que eu apareceria em muitos lugares, estava dizendo

que meu rosto triste estaria dentro da casa de cada habitante desse lugar.

Num único momento eu estaria em toda parte, menos na floresta.

Já na estrada, de volta à cidade, passei a ter pressentimentos ruins

sobre meu retorno à casa do Serginho. Parecia tão distante do meu destino!

Capítulo 5

Todos na casa haviam mudado muito o comportamento comigo

passados alguns meses! O Serginho ganhou brinquedos novos, bonitos e

coloridos! Já não me dava mais atenção como antes. Se eu quisesse tomar

sol de manhã, eu mesmo tinha que ir até a árvore, músicas no rádio já não

ouvia mais, pois não ligavam o rádio da cozinha pela manhã. A casa ficou

mais sombria, mais cinzenta, é como se uma energia ruim tivesse levado os

sorrisos daquele lugar.

O Serginho todos os dias pela manhã ia até um lugar que ele

chamava de escola. Ele saía bem cedo antes do sol nascer e nem tinha

tempo para pelo menos me acariciar como antigamente. O sr. Pedro era

quem o levava e depois ia trabalhar. Ele ficava fora o dia todo e quando

chegava estava muito cansado, tinha no rosto uma expressão triste todas as

noites em que ia até a cozinha tomar um copo d’água antes de dormir.

A dona Amanda ficava sozinha em casa nas manhãs. Algumas vezes

um homem ia lá depois de alguns minutos, onze ou doze giros do ponteiro

fininho do relógio da sala que tanto gosto de ficar observando, aprendi a

contar o tempo assim, aqui nesse lugar, convivendo com a minha solidão.

A dona Amanda gostava muito do homem e sempre ficavam sorrindo

muito lá na sala e depois eu não escutava mais os dois.

Certo dia eu estava brincando na cozinha com um pedaço de

madeira. Ninguém abriu a janela pra eu sair e os dois saíram depressa

porque o sr. Pedro teria uma reunião. Ouvi barulhos na casa e fui ver o que

era.

Parecia que não havia ninguém na casa, mas eu escutava barulhos no

segundo andar, conversas, gritos, sorrisos. Eu pensei em subir a escada ou

voar até lá, mas fiquei com medo afinal não sabia o que era então voltei lá

para a cozinha e fiquei escondido, apenas ouvindo.

Nos dias seguintes aconteceu tudo de novo, exatamente igual. Era

incrível como a cena se repetia do mesmo jeito todos os dias após a saída

do Serginho e do pai. Eu sempre ficava escutando sem saber o motivo

daquele barulho.

31


Uma noite o sr. Pedro foi até a cozinha e quando abriu a geladeira eu

acordei. Ele pegou um pedaço de bolo de chocolate e pôs um outro pedaço

do meu lado numa rara cena de gentileza que eu já nem estava acostumado

a receber. Ele parecia triste com alguma coisa, lembro que se sentou na

cadeira da cozinha e eu desci da gaiola até a mesa, depois caminhei para

perto dele.

Ele conversava sozinho sobre algumas coisas que eu não entendia

enquanto guardava aquela fisionomia triste e cansada no rosto.

Eu comecei a conversa, bom, repetir coisas, afinal é isso que todo

papagaio faz. Imitei as palavras que o Serginho me ensinou, algumas que

eu aprendi com o Juquinha então me lembrei dos estranhos barulhos que eu

escutava todas as manhãs e nessa hora o sr. Pedro prestou muita atenção no

que eu repetia. Ele me ouviu dizer muitas coisas e ficou imóvel, somente

me observando. Senti sua fisionomia mudar como se num dia de sol as

nuvens encobrissem o sol.

Ele foi dormir com uma expressão diferente no olhar.

No outro dia foi o primeiro a se levantar e ir até a cozinha. Ficou

parado perto de mim esperando que eu dissesse algo.

Eu lembro que comecei a cantar uma música e ele interrompia.

Demorei um pouco a entender que ele queria que eu repetisse os sons das

manhãs que tanto me atormentavam.

Ele me colocou do lado de fora só que dessa vez dentro da gaiola.

Estava fechada e eu não pude sair. Depois ele subiu até o quarto e pegou a

roupa dele de ir para o trabalho e foi sem o Serginho.

Ouvindo o barulho do carro saindo a dona Amanda levantou

correndo, olhou pela janela e pegou o telefone. Eu a vi na janela

conversando com o brinquedo igual o Serginho fazia.

Quando ela desceu até a cozinha eu pude ver que o Serginho chegou

atrás de pijama, interrompendo a ligação...

- Serginho? O que faz aqui? Seu pai não te levou para a escola hoje?

- Não. Ele saiu e eu nem tinha acordado ainda.

- Então se arruma que eu vou preparar o seu café, mas anda logo que

eu não posso me atrasar. Vem uma amiga aqui e não quero deixar a visita

esperando.

Depois de tomarem café saíram. Dois minutos depois o sr. Pedro

chegou em casa sem o carro e subiu correndo para o segundo andar.

Um tempo depois, não sei bem porque do lado de fora não dava pra

ver o relógio, bom, pelo movimento do sol acho que uma hora, a dona

Amanda chegou e quando estava abrindo a porta, o homem que ia lá todas

as manhãs chegou. Ele a abraçou igual o sr. Pedro costumava fazer.

Depois eles entraram na casa e passou muito tempo. Eu conseguia

ouvir a voz do sr. Pedro porque ele estava falando muito alto mas não dava

para entender nada.

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Foi aí que escutei um barulho alto e fiquei assustado! Depois outro

barulho. Comecei a bater asas dentro da gaiola e ela caiu do prego. Então o

sr. Pedro saiu da casa carregando duas malas e colocando perto do portão.

Voltou correndo pra dentro da casa e voltou com um lençol com muitos

brinquedos do Serginho e colocou perto das malas. Depois me pegou no

chão e colocou perto das outras coisas.

Ele saiu apressado pelo portão e pouco tempo depois voltou com o

carro. Colocou tudo lá dentro da parte de trás, inclusive minha gaiola. Lá

dentro era abafado, não dava nem pra respirar direito e estava muito quente

e escuro.

Eu não vi mais nada que estava acontecendo ao meu redor, somente

ouvia o barulho que o carro fazia ao passar pelas ruas. Permaneci quieto

tentando me segurar na grade enquanto tudo era sacudido naquele lugar

abafado.

- Sérgio! Sérgio!

- Oi pai! Cadê a mamãe? Ela não veio me buscar? Vocês trocaram

hoje?

- Não filho. Ela não pôde vir te buscar.

- E pra onde estamos indo?

- Tenho uma surpresa: vamos ficar uns dias na casa da vovó Matilde.

- Oba! Que legal pai! E a mamãe?

- Ela terá que ficar em casa filho.

- E nós vamos de barco?

- Vamos sim! Dessa vez num barco enorme! Você vai adorar!

Mais de um quarto do dia já havia se passado e eu naquela clausura,

naquele lugar escuro.

De repente o carro parou e o sr. Pedro colocou um pano escuro sobre

a gaiola e foi tirando as coisas. Vi que um outro homem estava ajudando

ele, depois não deu pra ver mais nada.

Uma profunda calmaria do lado de fora e todo o tormento do mundo

esmagado em seu interior, circulando por minhas artérias e meus

pensamentos. Toda vez que eu me emociono ou existe suspense, sei que

algo vai acontecer, e isso me preocupa.

Quando tiraram o pano, senti como se estivesse sendo jogado no ar.

Todas as minhas preocupações fugiram de seu interior e eu fui o último

tripulante a deixar a prisão.

A primeira voz que ouvi foi a voz do sr. Pedro que me disse:

- Escuta papagaio: não repita mais aquelas palavras que você ouviu

em casa entendeu? Não pode, não repita...

- Palavra, palavra, currupaco!

- Isso, palavra... não repita. Ah, deixa, é claro que você não iria

entender.

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- Isso coroa. Eu to sacando, currupaco. Pó-de-arroz vem brigar. Dá o

pé!

Estávamos viajando em uma coisa chamada barco e era rodeado de

água. Quando o Serginho me levou do lado de fora eu fiquei olhando a

água. Havia mata em volta e parecia muito com a floresta. Fiquei olhando

fixo pra água pra ver se avistava o Vernacleto, meu amigo peixe naquela

imensidão de águas, mas não dava pra ver nada. A água era escura, não

parecia com a água da cachoeira lá no meio da floresta onde eu nasci.

Ao olhar a mata meus olhos se encheram...

Deu vontade de sair voando para o mato, mas tive receio. Não sabia

onde estava e tinha medo que algum animal me pegasse caso eu caísse na

água, assim como o Vernacleto me ensinou sobre os predadores da água.

Dava pra ver muitos passarinhos voando nos galhos, se assustando com o

barco. Eu não conhecia aqueles pássaros e tentava falar com eles de longe,

gritava em saudação, mas não me respondiam, deviam achar que era o

barco quem falava.

O sobe e desce do barco levou rapidamente minha capacidade de

permanecer de pé. Fiquei tonto e enjoado de tanto olhar para o horizonte,

para aquelas árvores, lá ao longe, bem longe, uma ilha distante que era o

destino do barco. Eu sentia algo diferente! Um cheiro diferente!

Comecei a caminhar pelo piso do barco, bem perto das paredes, até

que o efeito da maresia foi passando.

Quando vi o Serginho voei pra perto dele e nós fomos conhecer o

barco todo. Havia corredores, escadas, janelas e muitas pessoas observando

a paisagem da mata.

Não consigo entender como essas pessoas se admiram tanto ao ver a

natureza e mesmo assim destroem. São as pessoas que compram os

passarinhos e com isso tiram a vida da floresta. Como pode ser assim?

O Serginho estava alegre e me dava atenção. Quando ele estava

longe dos seus brinquedos bobos, voltava a ser meu amigo e passávamos

momentos agradáveis juntos.

Nós estávamos viajando na parte de baixo do barco. O Serginho

falou que o andar de cima era para o pessoal rico. Só que eu queria ver a

floresta lá de cima. Talvez eu pudesse ver onde eu morava e voava pra lá,

talvez os meus irmãos ou amigos estivessem voando e eu só poderia ver se

subisse até lá em cima. Se eu pudesse ver a palmeira, saberia que era lá. Fui

ficando impaciente, ansioso! Talvez eu estivesse tão próximo de casa e só

poderia descobrir se ousasse deixar a companhia do Serginho.

Eu voei até lá e o Serginho veio atrás de mim pela escada. Havia

uma grade que servia de entrada, mas estava fechada e o Serginho não pôde

me seguir. Pela primeira vez desde que eu vim parar nesse lugar senti

liberdade, senti que poderia fazer o que eu quisesse.

34


Olhando para a floresta dava pra ver que não era a mesma floresta

onde eu nasci. Meus olhos entristecidos observavam aqueles animais e

pássaros, mas não é a mesma floresta que eu nasci, de onde eu vim e pra

onde sonho voltar. Eu saberia se fosse ela, afinal um papagaio jamais

esquece das coisas, todas as coisas que acontecem ficam pra sempre

guardadas no coração de um papagaio. Papagaio aprende, ensina, e tudo

que olha se lembra...essa não é a minha floresta.

Desapontado eu saí daquele mastro de metal onde fica a bandeira.

Sozinho, fui andar pelo andar de cima do barco. Era um lugar diferente do

andar de baixo! Tinha muitos objetos bonitos, copos de cristal, panos...uma

mesa de mogno bem grande mas o que mais me impressionou foram os

copos de cristal. Eu devia saber, as águas da cachoeira na floresta tinham a

cor do cristal, e devem ter até hoje. Pena eu não saber voltar para a floresta,

conversar lá no rio com o peixe Vernacleto e acabar com a preocupação

dos meus pais que devem chorar minha perda até hoje sem ter notícias

minhas.

Faltava nesse lugar uma coisa despercebida por todos em meio a

tantos objetos coloridos: a minha felicidade. Órfão da vida, eu era uma

energia infeliz, e havia tanta infelicidade em meus olhos que até mesmo as

flores seriam capazes de murchar ao sentir a minha tristeza.

Nesse momento eu caminhando lembrei das primeiras flores que vi

lá na floresta quando eu saí do ninho, das cores e do perfume.

Para tentar esquecer da tristeza passei a observar os homens e suas

ações.

Os homens mantêm formalidades e aparências que nunca irei

compreender, mas sempre observava atento.

Chegando perto do corrimão, comecei a sentir um estranho estímulo

que arrepiava minhas penas. Um cheiro tão conhecido, mas que eu não

conseguia me lembrar o que era.

Resolvi descobrir de onde vinha e cada vez mais me aproximava do

corrimão, seu segredo deveria estar na próxima curva já que o vento vinha

de lá.

Após dobrar a seta tive uma grande surpresa: encontrei uma fêmea,

uma papagaia muito bonita, verde numa tonalidade tão clara que somente

vi em minha mãe num dia de sol lá na floresta. Muito esnobe que nem me

deu atenção quando mexi com ela assobiando, da maneira que o Nestor me

ensinou.

Ela tomava sol em cima do corrimão. Era a primeira vez que eu via

um outro da minha espécie, depois de muito tempo longe da floresta...

- Olá! Qual é o seu nome, currupaco???

- E por que eu diria a você?

- Por que eu perguntei, currupaco.

- Você é um papagaio de segunda classe. Vê se te enxerga, sujo...

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- E você é uma chatinha sua...

- O meu nome é Sophia, seu deselegante.

Caramba, fiquei pensando o que seria deselegante, mas tudo bem, eu

estava muito feliz em ver um outro papagaio que nem me preocupei. Eu

tinha que puxar assunto.

Ela, entretanto conversava de uma maneira diferente dos animais,

dos pássaros. Não sei, parece até que nunca foi livre, das matas...que não

nasceu na floresta.

- Sophia? Sophia? Há, há, há...horrível, horrível...

- E o seu? Deve ser uma maravilha não é? Príncipe do lixo!

- Currupaco...o meu nome é Petrúcio.

- Há, há, há, Petrúcio. Não me faça rir, currupacooo. O nome mais

feio que já ouvi, crock!

- Mas foi o nome que o Juquinha me deu, e gosto muito entendeu?

- Juquinha? Quem é esse?

- Bem! É uma longa história. Crock, vou contar para você...tudo

começou quando eu nasci na floresta num dia de chuva, e...

Quando comecei a contar a minha história percebi que ela ficava

maravilhada ao saber como era a floresta. Sophia não conhecia a floresta,

nem sabia o que era. Nasceu de um casal de papagaios que ficava preso no

sítio dos pais de seus donos. Era uma papagaia bastante legal! Só o que

incomodava mesmo eram as palavras difíceis que ela aprendeu ao longo da

vida e essa arrogância.

- Puxa! São muitas aventuras interessantes!

- E você? Já viveu alguma aventura?

- Não. Desde que nasci vivo na casa dos meus donos e o máximo de

aventura que já tive é essa viagem com eles. Moramos numa casa grande e

meu viveiro é grande, dá até pra voar dentro dele.

- Escuta Sophia: quer viver uma aventura de verdade?

- Uma aventura? Seria muito bom!

- Então vem comigo, currupaco!

Aproveitando que o almoço era servido tarde, fomos até a cozinha.

Lá estavam dois cozinheiros distraídos consultando um livro de receitas.

Voamos até a parte de cima do armário onde havia várias panelas e

vasilhas. Então fizemos força para derrubar as panelas e os dois se

assustaram bastante! Acabamos derramando o açúcar dentro da panela que

estava no fogo...então saímos de lá voando pela mesma porta que entramos.

Quando chegamos ao mastro não conseguimos conter o riso, a piada era

ótima!

Olhar para o rosto dela sorrindo me trouxe um sentimento novo, uma

anestesia para as mágoas todas que eu vinha sentindo nos últimos tempos!

Depois fomos até a sala do capitão do barco ver se havia alguma

coisa interessante. Houve uma algazarra enorme quando a Sophia pisou no

36


otão que faz tocar uma sirene, foi sem querer, ela caminhava pelo painel.

Então nos escondemos debaixo de uma mesa e ouvimos o barulho de

passos se aproximando. Quando ele entrou na sala nós fugimos.

A Sophia era curiosa, mas muito desajeitada!

Nossas gargalhadas eram altas e trouxeram alegria à parte mais alta

do barco, onde as pessoas tinham mais dinheiro e quase nenhum tempo

para se divertirem, apenas tratar de ganhar mais dinheiro.

Depois chegamos até a sala onde os donos da Sophia estavam.

Ficaram surpresos em me ver e perguntaram, achando que eu não

responderia:

- Qual é o seu nome louro?

- Meu nome é Petrúcio, e o seu coroa?

Houve uma fisionomia de surpresa no rosto daquele homem então

ele franziu a testa, olhou pra mim por um breve instante e disse:

- Oh, olhe que gracinha Dara, o louro sabe falar!

- Oh, mas que formidável!

- Diga mais alguma coisa papagaio, vamos!

Eles não estavam acostumados a ver e ouvir um papagaio falar. A

Sophia havia dito que raramente falava com seus donos na casa onde

viviam. Disse que isso foi depois de um dia que seu dono deu um tapa nela

por ter rasgado um jornal que ele estava lendo na mesa da cozinha. Disse

que depois disso ficou mais calada, só conversando às vezes quando o rádio

estava ligado.

Talvez tenha sido esse isolamento que provocou naquela bela

papagaia a incapacidade de sorrir, uma doença que pode ser fatal em

qualquer papagaio se não for tratada a tempo. Sinto-me feliz por tê-la feito

sorrir tantas vezes nesse dia!

Então no tempo que fiquei conversando com seus donos disse a eles

como era minha vida desde que saí da floresta e o rumo que tomou minha

história de papagaio. Claro que para eles não passava de um conto que

meus donos ensinaram, para eles era apenas graça, piada...mas a Sophia

ouvia atenta e olhava com olhos que pareciam singelos. Ela parecia estar

admirada quando eu falava sobre como era a floresta.

Então contei algumas piadas para o Cristóvão, que era o dono da

Sophia – nominho feio, mas tudo bem – na verdade o nome das pessoas é

feio... e então várias vezes o silêncio se quebrou, dando mais alegria a essa

parte mais alta do barco.

Logo se formou um pequeno grupo de curiosos ao meu redor e não

seguravam as gargalhadas quando eu contava as piadas que o Nestor havia

me ensinado. Era uma piada que falava de um elefante branco, então o

dono do circo perguntou: elefante, quem roubou a sua cor? E o elefante

respondeu...não vou falar porque é palavrão, mas é o que você pensou.

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Cristóvão quis conhecer o meu dono, o Serginho. Fomos então pela

escada até o andar de baixo.

Sophia e eu ficamos no corrimão próximo observando a

movimentação das pessoas. Eu sentia uma estranha atração por ela, de

alguma forma me tornava mais próximo de minha casa. Quando ela estava

por perto eu sentia uma sensação inigualável de vida, outras sensações

eram provocadas pelo cheiro dela e então contei tudo a ela. O que eu sentia,

aquela sensação diferente.

Ela falou que os seus donos eram empresários e patrocinavam festas

de rodeio. Ela me explicou, mas eu não entendi nada do que ela falou sobre

o tal rodeio, então deixei pra lá. Nem cheguei a ficar curioso.

Sophia olhou para mim de uma forma que jamais havia visto, com

algo diferente no olhar então me disse para irmos dar uma volta pelo barco.

- Olá! Você é o Serginho? Dono do papagaio Petrúcio?

- Sim, sou eu. Você o encontrou?

- Bem...na verdade eu estava interessado em comprar o louro de

você. Eu tenho uma papagaia muito bonita e eles estão se dando muito

bem! Interessa-se em vendê-lo? Tenho um viveiro enorme, bem bonito!

- Mas eu o tenho de estimação, meu pai que me deu de presente e...

- O que se passa por aqui?

- Olá, o senhor deve ser o pai do Serginho. Bom garoto...

- Sim sou eu. Aconteceu alguma coisa?

- Então...eu tenho uma papagaia e coincidentemente o papagaio do

Serginho a encontrou lá em cima quando ela tomava sol. Fiquei admirado

como os dois se deram bem, na verdade eu adorei aquele papagaio e estou

disposto a pagar qualquer preço para tê-lo.

- O seu preço seria qual?

- Digamos dez mil reais.

- Espere um pouco, vou falar com meu filho.

- Tudo bem! Ficarei esperando aqui mesmo!

Nisso nós dois voltamos de um encontro às escondidas, algo que eu

jamais havia sentido...estar com a Sophia, nos acariciarmos, nos sentirmos!

Realmente uma grade surpresa e era a primeira vez que eu namorava!

Indeciso e curioso sobre o que estava acontecendo percebi que o

Serginho estava me vendendo para o Cristóvão. Vi que eles falavam de

dinheiro e o senhor Pedro concordava com o que o Cristóvão estava

falando.

Fiquei um pouco triste afinal eu teria um outro dono, já era o quarto:

Serginho, Nestor, Juquinha e agora o Cristóvão. Será que ninguém me quer

não? Quê custa então me devolver para a floresta? É lá o meu lugar e aqui

eu não sou feliz. Sou passado de mão em mão como se fosse um produto,

um objeto da mobília da casa...

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Mas a Sophia estava feliz, e queria me ver feliz também. O Serginho

me chamou, mas acabei voando atrás dela pelo barco tentando alcançá-la.

Minha revoada colocou fim ao acordo comercial dos dois,

influenciado pelo senhor Pedro. Enquanto eu voava pensei que talvez

nunca mais fosse vê-los de novo, mas eu estava feliz, havia alguém da

minha espécie comigo, agora tudo seria mais fácil nesse lugar tão diferente

da floresta! Eu não estaria mais sozinho, seria mais fácil!

Para sentir cada vez mais forte o cheiro do corpo da Sophia, comecei

a voar rápido! Parecia um raio e minha provocadora passou a ser minha

vítima.

Ela gritava enquanto voava pelo navio em direção à sua gaiola.

Chegou cansada ao alto da parede branca ao lado da porta do quarto

de seus donos. Descansava na entrada da gaiola de metal, mas se assustou

quando cruzei a curva do corredor. Ela entrou na casinha e então e em

poucos segundos cheguei.

Estava ligeiramente assanhado com a presença da Sophia! Ficamos

ali namorando e o próximo período foi marcado por grande agitação

naquele corredor deserto onde não se ouviam vozes humanas. Carinhos!

Estávamos carinhosos um com o outro! Ela ficou um bom tempo

procurando penugens soltas nas minhas asas, nos bicamos e ficamos

juntinhos enquanto a noite chegava.

Lembrei do fim das tardes lá na floresta quando nos reuníamos para

dormir, meus pais, meus irmãos e eu. O calor dos nossos corpos aquecia a

todos.

Depois de muito tempo o sino que anunciava a meia-noite tocou,

baixinho e eu adormecia junto à ela na gaiola.

Capítulo 6

Chegou a manhã e o menino desembarcava com seu pai na ilha que

não era mais distante, então voei até o corrimão da parte de cima do barco

para vê-los. Não contente com a visão que tive, fui mais além, até a ponta

do navio. Eles se distanciavam e eu estava triste em vê-los indo embora! O

sr. Pedro carregando numa das mãos uma mala e o lençol que guardava os

brinquedos do Serginho, um outro homem carregava a outra mala, cada vez

mais distantes enquanto o barco voltava ao percurso.

A certa distância ainda dava para ver o sr. Pedro e o Serginho no

cais, entrando em um carro e seguindo pela rua que dava acesso ao cais. O

Serginho tinha nas mãos um algodão doce e nem chegou a olhar para trás.

Para onde estaria indo? E achando que meu sussurro partiria o ar e

quebraria as barreiras sonoras do adeus, me despedi com um som baixinho.

O senhor Pedro não era tão legal quanto o Nestor, e era menos

esperto que o Juquinha!

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Capítulo 7

Eu havia me tornado uma celebridade! Divertia as pessoas do barco

todas as noites contando piadas e cantando.

Um dos amigos do Cristóvão queria me levar em seu programa de

televisão para que eu contasse as piadas que eu já conhecia, e outras que o

Cristóvão ensinava. Nos primeiros dias o Cristóvão estava mais atencioso

comigo, agora quando chegava perto de mim era para mostrar a algum

amigo. Dizia para eu contar algumas piadas e depois ficava conversando

com o amigo.

Eu fazia sucesso com o pessoal e isso passou a incomodar a Sophia

que sempre passava despercebida por todos e quando era notada era apenas

como a namorada do papagaio.

Sophia estava bastante resmungona! Não sorria para ninguém e não

achava graça das minhas piadas...eu sempre tentava conversar com ela mas

era ignorado.

Eu não estava entendendo porque ela estava agindo assim, esse seu

comportamento tão ofensivo! Eu tentava acabar com o gelo. Até que um

dia ela falou que não estava mais gostando de mim por causa da minha

fama, que minha popularidade afetou o sentimento que ela sentia por mim.

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Achei que fosse somente um desabafo dela. A Sophia estava

diferente! Não me deixava dormir junto com ela na casinha então passei a

dormir debaixo dentro de uma caixa de madeira que ficava perto da casinha

dela. Naquela mesma noite a Sophia me armou uma cilada...

- Onde está o colar Jonas?

- Eu não sei querida. Vamos continuar procurando.

- Eu juro que havia deixado o colar sobre a mesa.

- Como pode? Será que algum dos empregados entrou aqui no

quarto?

- Não, isso seria impossível! Apenas a janela ficou aberta. É uma

janela pequena! Não há como uma pessoa ter entrado aqui.

- Onde estará esse bendito colar?

Jonas e Elisa eram o casal mais rico que viajava naquele barco, assim

a Sophia falou. Ela pegou entre as jóias de Elisa seu colar preferido de ouro

e esmeraldas.

- Ei Raul, onde estão meu colar de pérolas e meu anel de brilhantes

que você me deu de presente em meu último aniversário?

- Ah Cinthia, eu não sei. Não sou guardião das suas coisas. Você

sempre deixa tudo jogado, é natural que sumam.

- Mas não pode ser. Deixei sobre a cama para usar essa noite e

enquanto fui tomar banho, desapareceram.

- Procura direito. Talvez tenha deixado em outro lugar...

- Não, tenho certeza que deixei aqui mesmo em cima da cama.

Raul e Cinthia eram estrangeiros. Eu nem sei o que é isso, mas a

Sophia falou que era quem morava em outras terras. Então pensei que eu

era estrangeiro também afinal a floresta não era aqui. Deve ser então que

eles moram numa outra cidade que tem outras florestas, é...

Sophia falou que os dois estavam fazendo uma viagem pela costa

brasileira para comemorarem uma quantidade de tempo de casado. Ela

pegou as jóias e colocou entre as minhas coisas, alguns presentes que

ganhei do pessoal do barco.

Era noite e sem saber de nada lá estava eu no palco do barzinho.

Vários músicos tocavam instrumentos todas as noites e eu contava piadas.

Vi uma movimentação dos empregados. Então depois de um tempo o

capitão do navio foi até o Cristóvão e o chamou para acompanhá-lo.

Depois o Cristóvão voltou e chamou sua mulher.

Partiu de uma denúncia anônima, eu não tinha dúvidas que era a

Sophia...um empregado do barco encontrou as jóias entre minhas coisas.

Mesmo sem ter feito nada de errado, fui desmascarado e o Cristóvão ficou

morrendo de vergonha, me chamava de pássaro maldito. Ele ficou com

vergonha dos seus amigos porque era meu dono e para todos eu era o

responsável.

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O Cristóvão bateu em mim com uma blusa enrolada e molhada assim

que entrou. Dentro do quarto ele me jogava com força contra a parede e eu

gritava, me jogou água gelada várias vezes e me deu dois tapas nas costas

com a mão aberta...fiquei tremendo e sentindo dores, muitas dores por todo

o corpo. Penas arrepiadas e desesperado! Achei que iria morrer naquela

hora, vendo tamanha fúria naquele humano.

Fui colocado em uma gaiola e deixado do lado de fora do barco. A

noite estava fria e por isso fiquei bem encolhido para tentar me aquecer

enquanto a água ia secando. No meio da madrugada senti um vento muito

forte vindo das águas e eu ainda não estava todo seco, minhas patas geladas

e meu estômago vazio. Eu não sabia se me preocupava com as dores ou

com o papo sem alimento algum. A Sophia estava dentro do quarto.

Olhando na imensidão das águas procurava respostas para a minha

vida, pensava no meu destino, nas coisas que vinham acontecendo comigo.

As estrelas no céu pareciam tão distantes! Muito mais distantes que as

estrelas que eu avistava todas as noites lá na floresta.

Pela manhã eu estava encolhido, estava me sentindo muito triste com

o que tinha acontecido! Na gaiola ninguém havia colocado comida e eu

olhava pelos cantos para ver se havia alguma coisa para comer, algum

farelo pelo menos. Então passou um casal e estavam comendo bolachas,

eles colocaram duas bolachas na minha gaiola e foi só isso que comi nesse

dia. Nem água o Cristóvão colocou. Quando ele passou por mim para

entrar no quarto nem percebeu que eu estava ali. Fiquei com medo e me

encolhi ao vê-lo sair de novo de dentro do quarto.

Depois disso, todas as manhãs a Sophia ia até a gaiola onde eu estava

para caçoar de mim.

Ela estava muito mudada, assim como as pessoas! A alegria do

segundo andar daquele barco tinha acabado e depois de alguns dias as

pessoas me procuravam discretamente quando não havia ninguém por perto

para ouvir piadas ou colocar alguma coisa de comer para mim, já que o

Cristóvão não colocava. Só o Cristóvão ainda duvidava, se mantinha

distante e era outra pessoa que vinha colocar ração e frutas para mim,

sempre outra pessoa. Eu não podia mais sair da gaiola e quando alguém

chegava perto de mim Sophia ficava com raiva. Era ignorada novamente

por todos e vista apenas como a ex-namorada do papagaio.

Numa noite ela apareceu e disse:

- Vamos Petrúcio! O barco está afundando e todos estão dormindo.

Não consigo chegar até a sala do capitão, me ajude a tocar o alarme.

- Mas como eu vou sair daqui? Currupaco?

- Deixa que eu abra a porta.

Ela abriu a portinhola da gaiola com o bico demonstrando muita

facilidade em abri-la, coisa que eu não havia tentado antes.

42


Voei pelo navio até chegar à sala do capitão. Estranhei porque a

porta estava aberta e o capitão estava com o leme...mas eu acreditei na

Sophia, ela pediu para apertar o botão do alarme e foi isso que eu fiz.

Pousei de forma certeira sobre o botão de alarme, o mesmo que

Sophia havia disparado antes e com o peso do meu corpo, fiz o alarme

tocar.

Nisso o capitão olhou para mim e tentou me acertar com uma garrafa

de bebida que estava bebendo.

Voei de lá e voltei para cima da minha gaiola. Nisso ela disse para eu

esperar que ela iria chamar o Cristóvão. Na verdade ela foi para sua gaiola

e ficou esperando tudo acontecer.

Todos no barco entraram em desespero e saíram correndo pelos

corredores procurando botes. Acharam que o barco iria afundar. Eram

muitas pessoas, correndo desesperadas, para se salvar do papagaio

Petrúcio.

Algumas pessoas já estavam nos botes salva-vidas até que o capitão

cambaleando chegou e deu ordem para os funcionários disserem que foi

tudo um engano e que o papagaio que fugiu da gaiola e provocou tudo

aquilo.

Ao chegar à gaiola, o Cristóvão me colocou pra dentro e trancou a

porta com um arame. Depois jogou água gelada em mim.

Algumas pessoas disseram que só voltariam para o barco se eu fosse

embora de lá. Um chegou a dizer que preferia ficar sem sorrir, só falando

de negócios a ficar no mesmo barco que eu, que eu era perigoso e que foi

uma péssima idéia do Cristóvão me comprar!

Fui chamado de muitas coisas, e não entendia nada que estava

acontecendo. Senti saudade do Juquinha, queria sair daquele barco, queria

uma maneira de acabar com tudo isso que estava acontecendo comigo. Será

que eu fui marcado pela vida para sofrer todo tipo de coisa ruim nesse

lugar?

Fui colocado em um dos botes salva-vidas pelo Cristóvão, colocaram

ração e frutas. Lançado ao mar onde somente água eu podia ver em meu

redor. As águas estavam turvas e tive muito medo! Vi o barco se afastar e

ficar cada vez menor na distância até desaparecer completamente. Pensei

em voar, mas tive medo de não conseguir voar até onde tivesse terra firme

e acabasse caindo nas águas esgotado pelo esforço.

Durante muitos dias só tive golfinhos como companheiros. Eram

parecidos com o Vernacleto, porém eram muito maiores! Eles brincavam

comigo e saltavam da água. Era bonito! Algumas vezes eu picava pedaços

de frutas e jogava no ar e algum deles saltava para pegar.

Então um dia apareceu longe um barco negro, velho e assustador!

Foi se aproximando até chegar muito perto do bote. Era um barco que

43


oubava as pessoas em outros barcos e seus ocupantes eram chamados de

piratas.

Uma vez na casa do Serginho vi na televisão os piratas, mas esses

não eram iguais, não tinham perna-de-pau e nem olheira, e no barco não

havia bandeira com caveira desenhada. Logo fui capturado pelo Rodolfo,

um dos piratas.

Ele desceu até o bote para ver se havia alguma coisa de valor e

acabou me colocando no seu ombro e voltando para o barco.

Os piratas eram bem legais comigo e me deixaram falar qualquer

coisa! Acharam legal que eu conversasse, falaram que o outro papagaio era

sem graça e por isso ficou preso com os outros bichos. Eu não entendi e

deixei pra lá.

Fiquei muito amigo do pirata que comandava o barco, chamado

Henrico pelos outros piratas. Ele passava o dia olhando por um tubo preto

que fazia as coisas parecerem mais perto. Dizia que era pra ver se havia

algum barco se aproximando.

O Henrico sempre gritava muito com os outros, mas quando chegava

a noite todos ficavam muito felizes e bebiam bastante até ficarem bêbados

e dormir no próprio chão do barco.

Havia entre eles um pirata que quase não falava nada, mas sempre

que ia falar todos no barco ouviam atentos. Era respeitado até mesmo pelo

pirata que comandava o barco, ele nunca lhe dava ordens. Não consegui

que ele dissesse o seu nome ou que ele sorrisse de alguma piada. Falavam

os outros piratas que o homem era o amuleto de sorte daquele barco

saqueador. Seu silêncio fez com que eu me distanciasse dele, derrotado por

não ter conseguido vê-lo sorrir.

Uma noite vi que ele estava olhando para o mar e quando voltou os

olhos para o meu lado os olhos dele tinham uma luz azul que mesmo no

escuro iluminava. Eram como duas lanternas em minha direção. Fiquei

imóvel e com medo! Não havia mais ninguém por perto.

Ele não sorria e seu rosto estava gelado à vista. Ficou me olhando

como se procurasse alguma coisa em mim.

De repente uma espécie de raio saiu do olho dele e veio em minha

direção. Depois disso não me lembro de mais nada que aconteceu.

Quando acordei estava em um porão cheio de jóias, dinheiro, peles

de animais, algumas cores bem conhecidas, de animais que eu já havia

encontrado na floresta. Havia uma gaiola grande com muitos pássaros

diferentes.

A gaiola era parecida com a que me trouxe da floresta, fiquei com

medo e pensei em fugir mas ouvi uma voz conhecida.

- Ei Petrúcio, se lembra de mim?

- Não acredito! Sophia? O que faz aqui? Como você está diferente,

está muito gorda!

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- Deixe de dizer bobagem, currupaco. Esses homens roubaram nosso

navio depois que você foi colocado no bote e me trouxeram para essa

gaiola imunda com esses pássaros encardidos.

- Búúúúú!

Era incrível, mas assim como Sophia e eu, todos os outros pássaros

que eu não conhecia falavam e vaiaram a papagaia quando ela chamou a

todos de encardidos. Quando todos me contaram o que estava acontecendo

percebi que os piratas não eram tão legais assim.

- Petrúcio, você tem que me tirar daqui.

- É...tira todo mundo daqui, rápido! – gritou um deles.

- Não antes de você se desculpar comigo por tudo de ruim que me

fez.

- O quê? Isso é que não. Eu não fiz nada.

- Peça desculpas logo Sophia. Foi você que fez tudo aquilo naquele

barco. Eu apanhei muito por sua causa e quase morri.

- Está bem, currupaco, desculpa.

- Agora diga: Petrúcio é o meu mestre! Petrúcio manda!

Quando ela repetiu todos os outros pássaros começaram a gargalhar,

cada um em seu modo de piar. Sophia era uma papagaia rica muito metida

e arrogante, mas naquele momento estava sendo o alvo das brincadeiras.

- Tudo bem! Acabou a palhaçada seus pássaros repugnantes!

- Calma Sophia, currupaco...há, há, há...

- Bem papagaio, pode nos tirar daqui?

- Não dá. Estamos muito longe da terra, no meio da água. Não

conseguiremos voar até lá. Temos que arrumar uma forma de pedir ajuda.

- Nesse navio pirata? Nossa única chance seria se a policia viesse até

aqui.

- Não Hermes, o papagaio tem razão. Uma vez ouvi uma história

sobre um código de sinais que pode ser mandado por rádio.

- Sim, é um código Morse. Mas por acaso você sabe bicar nesse

código?

- Eu não mas o pica-pau sabe.

- O que tenho eu aí heim pombos?

- Escute Jackson: você sabe código Morse não sabe?

- Claro que sim, todos os pica-paus sabem. Na verdade meus pais

contam que teve um homem que conseguiu aprender esse código, que na

verdade pertence aos pica-paus. Eles diziam que ele ensinou aos homens

para que se comunicassem igual aos pica-paus e...

- Tudo bem Jackson, chega, só queremos saber se mandaria uma

mensagem para a guarda costeira para que venham nos buscar.

- E o que eu ganho com isso? O que eu ganho em troca?

- Bom! Você voltará para a floresta.

- Grande coisa. Eu quero é verdinhas...

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- Olha Jackson. Toma aqui essa nota que eu achei jogada ali no canto

do porão. Agora diga se vai cooperar ou não...

- Ta bem, mas se essa nota for falsa vai ter vingança.

- Então está tudo acertado, vamos papagaio, abra logo essa porta e

vamos lá mandar a mensagem.

- Não, ficaram loucos? Esse barco está cheio de bandidos. Vocês têm

que ter mais malícia. Até eu que era um papagaio inocente já aprendi nesse

lugar que não podemos ser de todo bondosos, que temos que guardar

sentimentos maldosos também e em algumas vezes colocar pra fora, agir de

maneira má. Isso tudo é necessário nesse lugar tão cheio de interesses

pessoais onde não podemos confiar nas pessoas.

- O que faremos então?

- Vamos pra mensagem primeiro, você diz assim: papai do céu,

venha buscar o Petrúcio que ele quer voltar para a floresta. Ajude os

passarinhos e abençoe todos os meninos bonzinhos, e então...

- Pare com isso papagaio? Ficou louco? O que está fazendo? Uma

oração?

- Mas é assim que o Serginho fazia quando queria pedir algo.

- E quem é Serginho?

- É...quem é esse Serginho?

- O Serginho? Tudo bem...

- Não...por favor não, currupaco. Não deviam ter perguntado isso...

- Espera Sophia, deixa ele contar.

- Bem! Respondendo à pergunta, currupaco...vou contar para vocês a

história: tudo começou quando eu nasci lá na floresta num dia de muita

chuva e...

No período em que eu contei a minha história de vida o Jackson

destruiu setenta e seis notas de dinheiro. Jackson era um pica-pau que tinha

essa estranha mania de bicar dinheiro.

Se deixássemos, ele acabaria com todas as notas que estavam

naquele lugar, dentro daquele porão cheio de jóias, peles de animais,

dinheiro...mas tínhamos coisas muito importantes para fazer e o tempo era

precioso demais para nós!

- Tudo bem...vamos acabar com a perda de tempo. Jackson, deixa

que eu vou te falar a mensagem. Ouçam o que vamos fazer: Petrúcio deixa

a porta do viveiro aberta e quando cair a noite, você como de costume vai

lá distrair os piratas contando suas piadas e histórias engraçadas! Tenta os

fazer beberem bastante bebida, e...

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Capítulo 8

...e então a moça disse para o dentista:

- O que eu faço agora?

E o dentista respondeu:

- Abre a boca, currupaco.

- Rá, rá, rá! Essa foi ótima!

- Muito boa mesmo! Foi realmente uma grande sorte termos

encontrado esse papagaio naquele bote!

- Conta outra pássaro. Conta de novo aquela do missionário, ou

talvez a do telefonema anônimo.

- Ah Rodolfo. Deixa o papagaio em paz e vai pegar mais rum pra

gente.

- E por que só eu tenho que fazer isso? Todo mundo bebe, mas na

hora de carregar o galão só sobra pra mim. Isso não é justo, vocês estão

muito folgados ultimamente!

- Vai logo e não reclama cara.

Enquanto eu estava distraindo os piratas, vi o Jackson voando junto

com o Hermes até a sala do Henrico e depois de algum tempo saíram de lá

e foram para o alto do mastro do barco. Eles foram muito rápidos! O

Jackson deve ser bom mesmo nesse código que eles falaram. Contei pouco

mais de um minuto entre o momento em que entraram e saíram.

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Devem estranhar tamanha habilidade minha em marcar o tempo

mesmo estando fazendo outra coisa, bem...é que na casa do Serginho, meu

primeiro dono havia um relógio bonito na sala, e ficava de frente para a

cozinha onde eu dormia.

Era minha diversão naquele lugar tão parado, marcar o tempo

observando os ponteiros do relógio girando sem parar. Os ponteiros eram

dourados e eu sabia reconhecer essa cor. Era a cor do girassol da mata,

minha terra natal...

Ah, cada vez que me lembro da floresta me dá um desgosto tão forte,

acompanhado de uma sensação seca no interior do bico...um sentimento de

paixão tão distante e impossível de alcançar! Acredito que o sentido da

minha vida seja voltar para a floresta, é...na verdade eu tenho certeza disso.

Se por um lado é desesperador estar nesse lugar cheio de pessoas, por outro

eu já sei o que muitos humanos, aliás até animais não sabem: descobri o

sentido da vida, pelo menos o sentido da minha vida. Não sei se é isso que

os humanos chamam de nostalgia, mas sei que machuca demais o peito, no

lado que fica o meu coração. Eu sou o papagaio Petrúcio...

O passarinho após concluir seu trabalho, mandando a mensagem e

após permanecer no mastro junto com o Hermes, como se avistasse um

distante sinal, uma luz, voou até a sala onde estavam as coisas de valor.

Então cada pássaro, vagarosamente para não levantarem suspeitas, voava

até o mastro. A cada minuto um pássaro saia de dentro da sala. Eu contava

piadas e sempre fazia referência à bebida, isso deixava os piratas com

vontade de beber mais. Havia muitas garrafas jogadas pelos cantos do

barco e eles estavam muito bêbados depois de horas tomando aquelas

coisas! Comecei a cantar músicas e eles foram dormindo. Nenhum deles

percebeu nada que estava acontecendo. Minhas músicas eram tristes e

fizeram todos dormirem. Só o Rodolfo não havia dormido ainda. Ficava

ouvindo atento às minhas músicas e em alguns momentos chegou a chorar,

falando que se lembrava da sua infância.

Voltei a contar umas piadas pra ver se ele dormia, mas o Rodolfo

ouvia atento, mesmo bêbado. Voltei então a cantar e ele até chegou a cantar

junto. Então vi uma luz se aproximar dele e o tocar no ombro.

Imediatamente o Rodolfo dormiu de maneira tão inesperada que o copo de

bebida que segurava caiu no chão.

Foi quando surgiu de uma das salas do barco o homem que eles

chamavam de amuleto. Eu havia me distraído e nem percebi que ele era o

único que não estava ouvindo as minhas piadas. Na verdade eu não o tinha

visto ainda naquele dia. Estava sem roupas como um animal selvagem das

matas e circulava como mosca em sua face uma luz calma, parecia uma luz

de realização plena, da liberdade...finalmente pude ouvir as suas sábias

palavras.

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- Fiquei impressionado com a sua determinação! Fez o que achou

correto pequeno guerreiro. Agora a luz da sua aura está mais brilhante!

Mesmo a noite ou o dia não serão suficientes para destruir o seu sucesso.

Lá onde se escondem as páginas que ainda não foram lidas está escrito que

o bom ensinará o caminho da amizade e vencerá o maquiavelismo, mas

pena, mártir, será obscuro seu reinado nos dias da carne.

- Quem é você, crock?

- Diga-me primeiro: o que mais você quer em sua vida?

- Que meus amigos e eu possamos voltar para a floresta.

- A graça é concedida aos que procuram a realização de um sonho.

Mesmo que doa, o caminho que o destino coloca em sua frente é

necessário, pois sua realização será maior que a de qualquer outro pássaro

deste planeta.

- Eu não entendo o que está dizendo.

Eu estava com medo. Aquele estranho homem com olhos brilhando e

aquela luz voando em volta do rosto me disse que estava me vigiando

desde que eu cheguei aqui, que sabia tudo sobre mim e sobre todas aquelas

pessoas que estavam no barco.

Os pássaros observavam de longe, lá do mastro, com medo. Eu

também estava com medo...

- Então eis que te conto tudo o que virá. O que era um ser se

transformará em outro, onde havia pureza nascerá perversidade e vingança,

mas no fim o amor vingará. Vai ser assim e eu sei. Eu sou o destino!

O homem finalmente revelou seu nome, e como se realizasse uma

mágica, sumiu no barco, sendo desintegrado pelos ventos da brisa e virando

apenas uma poeira que também logo desapareceu, seguindo em direção ao

horizonte.

Fui para o mastro do navio me unir aos outros e fiquei mudo. Estava

muito assustado com tudo que estava acontecendo. Era noite e eu estava

receoso com muitas coisas.

Alguns dos pássaros pensaram que eu estava bêbado porque os

piratas me deram uma vasilha com um pouco de vinho, então me senti

muito confuso com as idéias, uma sensação de euforia...

Havia uma luz se aproximando, na verdade eram cinco luzes. Cinco

navios.

Os tripulantes dos dois primeiros navios subiram no barco dos piratas

segurando muitas armas. Esperavam haver algum tipo de reação, mas todos

no barco dormiam e estavam muito bêbados para reagirem a qualquer

coisa. Todos os piratas foram presos e quando o Henrico saia algemado

olhou para o mastro onde estávamos. Olhei dentro dos olhos dele e senti

que naquele momento o ódio o consumia e ele sabia que era eu o

responsável.

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Voamos então para um dos navios e ficamos por lá, em cima de um

mastro, até que retornassem para a terra, no mesmo ponto onde entrei pela

primeira vez em um navio.

Amanheceu depressa e saímos de lá. Éramos pássaros perdidos em

um mundo enorme e não sabíamos como voltar para a floresta. Não

podíamos ficar também no mesmo lugar para não sermos capturados.

Estávamos com fome. Chegamos a uma praça movimentada e então

Sophia decidiu se separar do grupo. Estava exausta e tinha dificuldades

para nos acompanhar! Ela estava muito gorda! Eu não conseguia imaginar

como ela havia crescido tanto em tão pouco tempo. Eu a conheci há quinze

dias atrás. No início nós éramos namorados, mas depois a Sophia me

prejudicou muito então fiquei triste com ela.

Eu evitava falar com a Sophia e ela me evitava mais ainda. Tinha

vergonha de olhar nos meus olhos.

Antes de a Sophia ir embora veio até mim e pediu perdão por tudo

que havia acontecido de ruim, falou bem baixinho em meu ouvido para que

os outros não escutassem. Ela disse que não poderia viver na floresta,

apesar de ser um lugar muito bonito pelo que eu contava. Disse que jamais

iria me esquecer, desejou boa sorte para mim e para os outros pássaros,

pediu para que eu nunca a esquecesse também, que nunca mais teria outro

namorado e desejou que nos encontrássemos algum dia, mesmo que no céu

após morrermos.

Ela então se virou e começou a caminhar enquanto uma lágrima

rolou do meu olho direito.

Tinha uma ótima aparência aquela papagaia! Era a mais limpa do

grupo e pelo fato de ter uma alimentação boa desde pequena, tinha penas

bonitas, vistosas! Decidimos esperar para ver o que iria acontecer. Nenhum

de nós fez nada para impedir que ela fosse. Ela nos atrasava em tudo e os

outros pássaros reclamavam comigo, mas eu insistia em dar uma chance a

ela. Na verdade eu sabia que se ela fosse para a floresta não iria se adaptar.

Nossa vida é bonita, mas é cheia de desafios! Conquistamos a cada dia o

direito de viver numa floresta que nos dá tudo, mas que devemos conhecer,

pois existem limites e perigos.

Por causa de sua aparência física, gorducha e de penas brilhantes,

logo encontrou um senhor que levava em suas mãos um grande saco. Ela

foi caminhando até ele e quando a viu ele colocou o dedo e ela subiu. Era

um senhor já de idade que pareceu ficar muito contente com a Sophia. Ele

passou a mão em sua cabeça e sorriu. Então ele despejou na praça aquele

grande saco e logo uma imensidão de pombos se reuniu no local. Não sei se

guiados por instinto ou fome, rumaram para lá o Hermes e o Ângelo.

Ficamos na árvore esperando que voltassem.

Os dois enturmaram com os outros pombos, eles viviam em bando

naquela cidade, e decidiram ficar. Os pombos eram bem legais e nos

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convidaram pra ficar com eles na cidade, mas recusamos. Estávamos

decididos a voltar para a floresta.

Deixamos os pombos e nos despedimos do Hermes e do Ângelo.

Antes de ir eles trouxeram comida para a gente. Pelo menos os dois teriam

bastante alimento naquela praça.

Agora éramos somente três: o pica-pau Jackson, o curió Tadeu e eu,

o papagaio Petrúcio. Vagando pela cidade e procurando a floresta.

Nós voávamos por aquelas ruas cheias de pessoas e de carros, todos

muito apressados querendo sempre chegar a algum lugar. A luta pela

sobrevivência aqui nesse mundo até se parece com a floreta, porém o

predador é o tempo e a adversidade é a concorrência.

Os dois ficavam me cobrando sobre a floresta, colocando em mim

toda a responsabilidade de achar o caminho. Isso me entristecia muito, pois

eu também estava querendo encontrar logo o caminho de volta.

Ao passar por uma rua, ouvi o canto inigualável de um amigo, o

canário-da-terra João. Vinha de longe e cortei a distância do ar para me

aproximar. Tadeu e Jackson vinham atrás me seguindo. De alguma maneira

me viam como um líder, um exemplo de obstinação na luta para voltar para

a floresta. Eles nem eram da mesma floresta que eu mas queriam ir pra lá.

Quando me aproximei vi o João preso em uma frágil gaiola feita de

madeira e bambu.

Seu dono o observava cantar enquanto tomava uma bebida cheia de

espuma com outros homens.

Esperei meu sangue ferver, coisa que ocorre comigo nos instantes de

fúria e faz minha íris se contorcer...então voei ao encontro do objeto com

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utalidade. João percebeu minha aproximação e começou a voar dentro da

gaiola para que a balançasse, isso reforçou ainda mais o efeito do meu

choque.

Quando bati na gaiola ela caiu no chão e por uma fresta aberta com o

choque o canário fugiu. Foi quando um dos homens jogou a tal bebida em

mim tentando me espantar, porém armei as asas e voei ao encontro dele,

arranhando seu rosto com as unhas ao me debater. Saí daquele lugar a

procura do João que saiu desesperado em direção aos telhados.

João piava longe angustiado, Tadeu disse que um gavião o

encurralou em uma árvore e então fui até lá desesperado com medo que

algo pudesse acontecer com ele. Quando vi o gavião, um instinto diferente

tomou conta de mim então parti pra cima dele, e por trás dei uma forte

bicada em suas costas, arrancando penas, o que fez com que ele saísse

voando, assustado, sem mesmo olhar para trás.

O gavião era assustador! Ele era maior que eu e tinha um cheiro

ruim! Seu grito era um grito ameaçador, soava como som da morte, quando

sabemos que alguma coisa ruim vai acontecer.

Eu estava com muito medo por isso saímos logo dali e fomos nos

esconder.

A cidade era bem conhecida pelo João. Seu dono todas as tardes o

levava para passear por ela, dentro de sua gaiola de madeira.

Foi difícil convencer o canário a não retornar para o dono, pois o

pequeno conseguia gostar do homem que o mantinha preso, mas entre viver

na prisão e voltar para a floresta, nem mesmo o canário optaria pela

primeira opção. Ele também tinha saudades de lá.

Aprendi que as outras espécies de pássaros não se apegam tanto à

família quanto os papagaios. Não se importam em viver sozinhos e logo

esquecem dos parentes.

Para descobrirmos o caminho de volta para a floresta, nós

precisaríamos ir até a loja de pássaros e esperar que os homens saíssem

com a caminhonete para seguirmos, descobrindo assim o caminho da mata.

Não foi difícil para o João achar a loja de pássaros no meio daqueles

prédios e casas do bairro. Nós fomos para o telhado e ficamos observando

por muito tempo pela janela.

Havia novos pássaros nas gaiolas, e entre eles estavam meus irmãos.

Tomado pelo sentimento de fúria que embriagava minha íris eu voei

até a loja de pássaros e como uma munição de revólver ataquei o homem

que estava sentado na mesa com uma bicada muito forte no pescoço, tal

qual um alicate comprimindo o frágil fio do cobre.

Movido ainda pela fúria arranhei com as unhas o seu rosto várias

vezes enquanto ele tentava se proteger. Havia ódio em minhas ações e eu

não era assim, aprendi a odiar quando vim parar nesse lugar.

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Eu gritava para soltar meus irmãos, repetidas vezes gritava a mesma

coisa, para que soltasse meus irmãos e deixasse a floresta em paz.

Ele estava machucado e havia sangue na ferida. Com as mãos no

rosto e gritando saiu correndo em direção à porta da loja, correu pela rua

até a farmácia.

As novas gaiolas tinham molas nas portas, o que tornava para mim

ou para os outros pássaros impossível de abrir. O Jackson tentava quebrar a

madeira, mas era inútil.

Fiquei do lado de fora da gaiola dos meus irmãos, quieto, num

instinto de proteção e saudade. Perguntei sobre a floresta, sobre os pais,

sobre as flores, sobre a vida. Eu sentia um sentimento de angústia e

esperança. Sofria comigo por pensar que tudo aquilo que estava

acontecendo comigo também iria acontecer com eles.

Então tivemos que fugir da loja quando o outro homem apareceu

correndo, só que o Tadeu não teve tanta sorte e acabou sendo capturado

pelo homem dentro da loja.

- Faça alguma coisa Petrúcio...

- É inútil. Não há nada que eu possa fazer, crock.

Voamos até o telhado da casa em frente e ficamos observando da

janela. O homem veio e olhou todas as gaiolas, depois fechou as janelas da

loja e saiu.

Naquela situação somente uma pessoa poderia me ajudar: o meu

camarada Nestor.

- Escute Jackson. Você e o João ficam aqui e eu vou procurar, crock,

um camarada meu pra nos ajudar.

- E quando você volta?

- Vou tentar falar com ele, crock, ainda hoje, currupaco. Vou voltar

logo. Daqui de cima dá pra ver a frente da loja. Se algum pássaro sair de lá

vocês vão atrás e vejam onde estão levando, currupaco.

Está bem, mas tome cuidado.

Deixei os dois em um sobrado que havia em frente à loja e fui até a

casa do Nestor, que ficava próxima da loja, uns dois quarteirões.

Chegando ao beco comecei a chamar por ele:

- Nestor, crock, Nestor...

- Que barulheira é essa, papagaio bobo?

- Quem são vocês?

- Nós somos pardais ora. Você nunca viu pardais antes?

- Sim, mas não de perto, nunca conversei com pardais.

- E por que você está gritando aí em frente dessa porta feito um

louco?

- É que preciso da ajuda do Nestor para tirar alguns amigos meus que

estão presos na loja de pássaros.

- E acha que ele vai te ajudar?

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- Claro, currupaco. Ele é um camarada meu.

- Rá, rá, rá...então esquece papagaio. Os dois homens que moram

nessa casa estão presos na cadeia.

- O que é uma cadeia, currupaco?

- É uma espécie de gaiola gigante para colocar os humanos que se

comportam mal.

- Ah sim! Como os piratas. Eles estão na cadeia, crock.

- Piratas? Que piratas?

- Os piratas do navio. Vou contar para vocês, currupaco...

- Esquece papagaio. Aí vem o Montanha, se esconde.

Montanha era um gato enorme que vivia nos arredores. Eu já havia

escutado uma conversa sinistra de algumas rolinhas sobre esse bicho no dia

que estava na casa do Nestor. Dessa vez havia aparecido de repente e

cercado um dos pardais no canto do beco.

- Minha nossa! Ele vai pegar o Rufino.

- Precisamos fazer alguma coisa.

- Deixa comigo, currupaco.

Voei para uma passagem do beco atrás do gato e gritei alto.

Ele se assustou e virou para o meu lado...

- Muito bem gato horroroso. A sua hora chegou, currupaco.

Movido pela raiva, o gato virou para o meu lado e veio correndo

igual a um touro. Esperei o pardal voar e comecei a voar também pelo beco

a uma altura baixa. O gato vinha correndo atrás de mim.

Eu não queria me livrar dele, estava planejando uma forma de aplicar

um castigo naquele animal malvado.

Foi quando vi na calçada da rua dois homens carregando um vidro

enorme! Voei até lá e em uma passagem quase encostando no chão passei

por baixo do vidro. Foi quando o gato saltou para cair sobre mim e acabou

batendo no vidro. Olhei para trás e vi o seu focinho todo amassado

enquanto escorregava. Então um dos homens tocou o Montanha ameaçando

dar um chute e ele saiu meio zonzo, em seguida começou a andar

cambaleando.

Não contente com isso, voei para cima dele e fiz em sua pele com o

bico o que um pião faz com as mãos no tal rodeio que a Sophia falou. A

sensação foi incrível! Os gritos de dor do Montanha eram ouvidos pelas

pessoas que logo se aproximaram para ver o gato apanhando do papagaio.

Eu grudei minhas duas patas nas suas costas e com o bico fiquei

apertando sua pele com muita força! Batia as asas e me contorcia...

Após este dia, o Montanha nunca mais foi visto naquele beco onde

morava o Nestor.

- Puxa! Aquilo foi incrível papagaio! Você é um grande herói!

- É que eu sei aprontar algumas, crock.

- Aquele gato nojento vai ficar bem longe agora.

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- É...mas eu tenho que ir agora para a cadeia pegar o Nestor, crock.

Vocês sabem onde fica?

- Sim. Mas você não conseguirá tirá-lo de lá.

- Por que, currupaco?

- As celas da cadeia são trancadas e os guardas escondem a chave.

Os pardais, em sinal de gratidão aceitaram me levar até a cadeia. No

caminho eles me explicaram como funcionava aquele lugar, mas fomos

interrompidos no caminho por três aves, os gaviões.

Um deles era o gavião que eu ataquei. Devia estar me procurando

para se vingar.

Os pardais disseram para permanecermos escondidos enquanto as

aves ralhavam com alguns bem-te-vis. Só que os bem-te-vis eram muito

espertos e conseguiam espantar os gaviões todas as vezes que se

aproximavam do seu território.

- No fim da rua é a cadeia papagaio. Tome cuidado com os gatos.

Quando cheguei debaixo da janela da cela, vi que dois gatos

amedrontavam um ratinho. Eram gatos pequenos e logo se tornaram meu

alvo. Gritei alto e eles se assustaram.

Ficaram me encarando e só se aproximando de mansinho, mas

quando abri minhas grandes asas e meu bico, dando um grito ainda mais

alto e assustador que o primeiro, os dois saíram em disparada.

Nesse dia me tornei herói para os pardais e para os ratos, já que o

ratinho logo tratou de contar a história para os seus primos, que contaram

para os seus amigos, que contaram para os tios...logo todos os ratos da

cidade já conheciam a minha história.

Quando voei até a janela, vi o Gilmar e o Nestor jogando damas.

- Olá pessoal, crock! Lembram-se de mim, currupaco?

- Papagaio! Como veio parar aqui?

- Aconteceram muitas coisas desde que vocês saíram correndo da

casa lá na estrada, currupaco. Eu estou precisando de ajuda para tirar

alguns pássaros da loja de pássaros, currupaco.

- E acha que podemos ajudar é? Pássaro idiota!

- Não Gilmar. Talvez nós possamos fazer um acordo com o

papagaio. Se ele foi esperto o suficiente para vir até aqui, quem sabe? Não

temos nada a perder.

- Ah Nestor! Está brincando? Acha que esse pássaro vai tirar a gente

daqui?

- Ah é Gilmar, currupaco? Olha e aprende como se faz, crock.

Passei pela grade da cela e fui caminhando até a mesinha onde estava

a chave e, bem... esse filme tem mocinho tá? Então não estranhem se eu

disser que o guarda estava dormindo, isso acontece mesmo, não só nos

filmes e novelas. Levei a chave até o Gilmar e ele abriu a cela. Saímos de

mansinho para não despertar o guarda que dormia.

55


Depois de sairmos da cadeia, fomos nos esconder na casa de um

amigo do Gilmar que era viciado em rodeios, sua casa tinha muita coisa,

fotografias, uma cabeça de um touro. Animal estranho, na floresta eu

jamais vi um desses.

Lá na casa fizemos um trato que eu deveria cumprir.

- Faremos hoje à noite, certo papagaio?

- Certo, currupaco.

Retornei então ao velho sobrado onde meus amigos me aguardavam.

Contei que eu havia conseguido ajuda e que os outros pássaros iriam sair de

lá naquela mesma noite.

Com um inigualável canto de aviso, o João cantador deu resposta aos

pássaros da loja, que trataram de se alimentar bem na próxima hora, já que

após a fuga seria mais difícil conseguir alimento.

Eu estava faminto, mas não havia como conseguir comida, apenas

aguardei que passassem as horas enquanto meu papo reclamava fome. Este

foi o segundo dia em que passei fome e...

Já era noite. Os homens que trabalhavam na loja de pássaros

fecharam mais cedo por causa do outro que estava machucado. Ele tinha no

pescoço e no rosto a marca visível de um grande curativo.

Não demorou muito tempo e vi o Nestor e o Gilmar apontando na

esquina. Voei pra frente da loja e fiquei esperando que eles chegassem.

- Escuta papagaio: você fica esperando na esquina, vigiando, e se

vier alguém você dá um sinal. Grita alto.

- Tudo bem, currupaco! Mas não esqueça de nenhum pássaro. Solta

eles que eles sabem pra onde tem que voar.

- E não se esqueça do acordo entendeu?

- Sim, crock, o trato, currupaco.

Quando fui pra esquina da rua fiquei vigiando. Notei que abriram a

porta com grande facilidade. Pouco tempo depois vi vários pássaros saindo

de lá e voando para o sobrado onde estavam o Jackson e o João.

Nestor fechou calmamente a porta, deixando-a como estava antes.

Depois me chamou e disse para assegurar meus favores. Iria me dar um

saco de sementes de girassol, que era parte do acordo, somente no carro,

concordei...

Fui falar com os outros pássaros:

- Escuta pessoal: amanhã bem cedo quando o sol nascer nós iremos

embora, mas agora tratem de ficar aqui entenderam, currupaco?

- Sim irmão, mas como acharemos o caminho?

- Aqueles homens terão que ir novamente à floresta pegar novos

pássaros. Nós iremos escondidos na caminhonete e quando chegarmos à

floresta voaremos livres, currupaco.

- Mas isso não impede que eles capturem a gente de novo...

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- Nem sempre Lúcia, crock. O tempo vai nos ensinar a lidar com esse

mal que é a caça, currupaco...mas por enquanto podemos ficar

despreocupados. Cada um de nós já foi capturado de um jeito diferente, só

temos que ensinar uns aos outros sobre as armadilhas da floresta. Irmãos,

vocês se lembram de quando os nossos pais nos ensinavam a escapar dos

predadores, do gavião, a procurar comida? Aqueles dias maravilhosos onde

estávamos descobrindo a vida? Pois bem, agora é hora de ensinar novas

coisas, ensinar a escapar das armadilhas dos homens. Vocês vieram pra cá,

já sentiram na pele o desespero, temos que espalhar essa história na mata e

alertar a todos os animais.

- E como essa história vai terminar Petrúcio? Essa guerra não vai ter

fim?

- Amanhã mesmo. Quando eles forem o Nestor vai fazer uma ligação

anônima para a polícia e falar que os homens estão traficando pássaro

ilegalmente.

- E o que é uma ligação?

- Não posso explicar agora irmão, crock. Tenho que ir, fazer uma

coisa para aqueles homens. Escutem pássaros: se eu não voltar até a hora

que os homens saírem, quero que partam sem mim, currupaco.

- Mas aonde você vai?

- Não posso dizer agora, mas lembrem-se do que eu disse. Se eu não

aparecer apenas digam ao papai e à mamãe que os amo, e que nunca

esqueci deles.

Eu voei de volta, ao encontro dos dois, sentindo grande esperança

que aquilo tudo estava prestes a terminar, que na manhã seguinte eu

finalmente iria voltar pra casa, pra floresta.

Deixei lá naquele sobrado o pica-pai Jackson, o canário-da-terra

João, o curió Tadeu, as três jandaias Luí, Luz e Lúc, os coleirinhas Ern,

Piua, Malandro, Leão, Erel, Ast e Joça, o azulão Tostão e meus quatro

irmãos Crec, Graac, Áat e Aru.

Segui com o Nestor e o Gilmar até o carro que estava parado na outra

rua. Seu motorista era um homem viciado em montaria e rodeios, que

sonhava ser um pião de rodeio e montar nos touros.

Finalmente pude comer alguma coisa! As sementes estavam bem

frescas! Seu sabor era bom, até pareciam ter vindo da floresta...ah, estou

tão perto de voltar para lá... que felicidade que meu coração está sentindo

nesse instante! A possibilidade de voltar a viver a minha vida, e apagar essa

tristeza toda, tudo que aconteceu nesse lugar comigo. Eu estou muito perto,

eu vou conseguir!

57


Capítulo 9

- E então papagaio? Sabe o que fazer?

- Sim, currupaco.

Fui até a entrada da joalheria. Havia uma pequena passagem,

descoberta de vidro e ferros decorativos. Ficava no alto e eu só poderia

passar voando. Era muito estreita e nas primeiras tentativas não consegui

passar pela pequena abertura. Só poderia passar voando. Então tive que me

concentrar e voar mais alto que a entrada, então impulsionado pelo vôo

fechei as asas e consegui entrar.

Do lado de dentro fiz tudo do jeito que eles disseram. Fui até as

prateleiras e comecei a pegar as jóias, uma a uma e levar até a passagem.

Fui jogando todos aqueles objetos e eles recolhiam do lado de fora.

Havia alguns muito brilhantes e coloridos, muito bonitos e durante

mais de uma hora eu fiquei pegando as jóias da joalheria e jogando para

eles do lado de fora. Eles sempre falando para eu pegar mais e procurar

pelos objetos mais brilhantes e maiores.

Havia um cofre e pensei que os objetos mais bonitos estariam lá. Eu

sabia o que era um cofre, pois o Serginho tinha um brinquedo igual. Ah,

que saudade do Serginho...e o Juquinha? Será que se deu bem com o

cachorro? Bom, isso não importa muito agora, daqui a pouco quando

amanhecer vou voltar pra floresta.

Ao lado do cofre tinha um botão vermelho que pensei ser o botão de

abrir o cofre, mas quando apertei um monte de luzes começou a piscar e

eram vermelhas. As luzes cortavam as paredes de um lado a outro e

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também no chão. Muito barulho, uma sirene alta tocava enquanto várias

câmeras estavam viradas na minha direção. Só então percebi que as

câmeras estavam lá o tempo todo me vigiando e voltavam-se para o lado

onde eu estava.

Eu já tinha visto algo parecido no barco grande onde conheci a

Sophia, no quarto de Dara, mulher do Cristóvão. Sophia disse que ela era

uma produtora de eventos muito famosa e tinha muitos objetos de valor,

que não queria ninguém entrando no seu quarto e por isso mandou colocar

as luzes e as câmeras, que isso impedia que qualquer um entrasse no quarto

para pegar alguma coisa.

Sophia falou que se atravessarmos as luzes elas fazem machucado

em nós, por isso acuado fiquei ao lado do cofre, imóvel, enquanto aquele

terrível barulho de alarme prosseguia.

Sem saber o que fazer, só pensei em gritar naquele momento. Foi

quando o barulho se interrompeu repentinamente.

- Currupacoooo...

Todas as luzes se apagaram e a porta da joalheria se abriu. Vários

homens entraram na joalheria. Quando fui voar um deles me acertou com

um sapato e eu caí num canto com a asa machucada.

Gritava de dor e a última coisa que vi foi um pano ser jogado em

cima de mim.

Ouvi quando vários carros com sirene passaram em frente à

joalheria. Um homem pegou o pano com brutalidade e me jogou dentro de

uma caixa, depois fui jogado na parte de trás do carro e saímos de lá.

Não me dava conta do que havia acontecido comigo. Fui levado para

um lugar cheio de pessoas e fiquei na caixa enquanto os homens que me

trouxeram conversavam. Minha asa estava inchada e não conseguia movêla.

Sentia dor e desespero, estava tudo tão confuso que por certo tempo não

consegui coordenar as idéias, nem mesmo fazia idéia do que estava

acontecendo, foi tudo muito rápido.

Passados alguns dias naquela caixa veio uma mulher e fez um

curativo em minha asa, senti que a asa estava no lugar certo de novo, mas

ainda não conseguia mexer. A mulher me colocou em uma gaiola e eu

ficava em um corredor onde muitos homens estavam dentro de celas, assim

como o lugar em que o Nestor e o Gilmar estavam.

Era um lugar muito sujo com um cheiro insuportável. Os homens

ficavam mexendo comigo, esperando que eu falasse. Algumas vezes

jogavam água em mim.

Por várias vezes me deixavam sem comida, e sentia fome.

Pensei que talvez os outros pássaros já estivessem na floresta. Foi

um raro momento para sorrir e pelo menos dessa preocupação me ausentei.

Um pássaro pequeno veio voando até a gaiola onde eu estava, e

quando pousou eu percebi que era o Ern.

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- Ern, o que faz aqui? Você devia estar na floresta com os outros.

- Nós todos havíamos decidido naquela noite que não voltaríamos

sem você, Petrúcio. Aqueles homens foram até a floresta novamente e só a

Lúc foi na carroceria do carro, para alertar os pássaros da floresta e ensinar

sobre as armadilhas. Ela ficou por lá e um pássaro preto muito esperto veio

na carroceria para aprender o caminho...ele está conosco e estamos

esperando você para voltarmos.

- E os homens, conseguiram pegar outros pássaros?

- Infelizmente sim Petrúcio, a maioria pássaros novos que não tinha

experiência ou que não deu atenção à Lúc. Ele falou que não tinha notícias

dos seus pais para trazer pois não os viu, mas disse que outros papagaios

falaram que eles foram para um lugar mais escondido na mata onde os

caçadores não conseguiam chegar.

- Ainda teremos que conviver muito tempo com esse mal, mas

tomara que os animais da floresta aprendam a fugir dessas armadilhas.

- Tomara.

- E como me encontrou, currupaco?

- Uma coruja falou pra gente. Ela estava em uma árvore em frente à

joalheria que você assaltou. Olha Petrúcio, todos os pássaros da cidade

sabem o que você fez, além disso a coruja falou que apareceu em muitos

jornais.

- Eu cometi um grande erro, mas foi por amor, por desespero e agora

veja o que me aconteceu. Escute Ern, quero que todos vocês voltem

imediatamente para a floresta, porque eu não conseguirei. Sinto que minha

vida está chegando ao fim.

Durante um tempo fiquei conversando com o Ern e ele disse coisas

horríveis sobre o Nestor.

- Mas não pode ser, currupaco. O Nestor é um amigão meu,

currupaco.

- Ah é? Então por que você acha que está nessa gaiola?

Fomos interrompidos por um guarda que abriu a porta que dava

acesso às celas. O Ern passou por ele como um foguete e saiu voando pela

outra sala até chegar à rua.

Vendo o Ern sumindo senti que aquilo é o mais próximo que já

cheguei de voltar pra casa, e meu coração deverá se contentar em saber que

os pássaros conseguiram voltar.

A minha vida de sofrimento e desilusão, caos de sentimentos, roubo

do amor e da paixão que eu cultivei, minha mata, casa que já não posso

morar, esmaecendo em minhas lembranças...tristeza!

- Muito bem pássaro. Chegou a hora de você abrir o bico. Vamos ver

se conseguimos tirar alguma informação de você.

- Aonde vou, currupaco?

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- Você vai para um lugar pior que o banco dos réus. Vamos ver se

fala tudo que queremos ouvir.

Lá na sala várias pessoas me aguardavam. Fui colocado em cima de

uma mesa e havia um homem chamado Fonseca que ficava perto de mim.

Era fácil perceber como as pessoas me olhavam com ódio. Senti que

eu era a vergonha do mundo animal. Eu já estava condenado antes mesmo

de qualquer sentença.

Então entrou na sala o Adamastor para tentar fazer com que eu

falasse algo. Ele disse coisas horríveis sobre mim quando um dos homens

perguntava, parecia que o homem exercia algum tipo de autoridade sobre

as outras pessoas, pois quando mandava se calarem todos ficavam calados.

Passado algum tempo entrou na sala o Cristóvão...

- Petrúcio é cleptomaníaco! Um animal que ganha a confiança dos

outros para usufruir de certos poderes. Praticou inúmeros furtos no navio

onde viajava. Esse pássaro é a escória do mundo animal, vergonha da

natureza! Foi treinado para roubar e vai continuar cometendo delitos se não

for exterminado.

O Fonseca tentava convencer as outras pessoas que eu era um animal

apenas, que não tinha ciência das coisas que fazia.

Depois apareceu o Rubens, um dos donos da loja de pássaros. Saiuse

muito bem diante das perguntas, mas fiquei muito agitado com a

presença dele. Eu sentia ódio, queria atacá-lo. Ele se complicou com

algumas declarações. Estava sendo investigado por causa da loja de

pássaros, pois não tinham registro, a loja era ilegal.

O culpado de eu estar aqui, o Rubens, juntamente com o outro

homem.

Depois entrou na sala o sr. Pedro, que disse que eu me infiltrei na

casa dele para facilitar o assalto que ocorreu na casa. Disse que quando

todos na casa saíram eu avisei meus comparsas. Disse que recebia ameaças

diariamente e acusou os assaltantes pelo assassinato da dona Amanda e do

Ricardo enquanto viajou com seu filho.

O sr. Pedro estava usando algemas, estava preso e alegava que não

havia matado a dona Amanda e o amante dela. Ele foi embaralhando cada

vez mais o seu depoimento, falando coisas desconexas, me acusando.

E foi assim que terminou o caso do assassinato da dona Amanda e do

Ricardo, o homem que todos os dias ia até a casa pelas manhãs: o Serginho

passou a morar na casa da avó, que se chamava Matilde e o sr. Pedro foi a

julgamento, foi condenado. Ficou na prisão por pouco tempo e depois foi

solto. Um homem bem visto pela sociedade dos humanos, com um bom

currículo, assim é que chamam o conhecimento aqui. Aquela palavra por

um tempo não saiu da minha mente, uxoricídio, eu não conseguia

pronunciá-la direito mas não me esqueço de quando escutei lá naquela sala.

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Os dois homens que iam até a floresta capturar animais também

foram presos. Quando deixaram a cadeia decidiram não ir mais até a

floresta buscar animais, mas continuaram vendendo pássaros e ração.

E foi assim que os pássaros ficaram livres deles e puderam seguir a

vida em paz. Eu sentia angústia em não poder estar com eles, tudo o que eu

queria era ser um animal da mata, mas estou cada vez mais me tornando

como um desses animais daqui, que usam roupas, cada vez mais igual!

Quando terminou eles tentavam fazer com que eu falasse alguma

coisa, que desse pistas sobre as jóias. Diziam que eu havia tirado uma

fortuna em jóias daquela joalheria mas eu fiquei em silêncio durante todo o

tempo, sem dizer nada. Pensava com ódio em muitas pessoas, em muitos

acontecimentos, e por um tempo acabei desligando minha percepção,

sonhando acordado.

Depois fui jogado em um porão que eu não sabia onde era, não havia

comida nem água, mas para minha surpresa todos os dias os ratos levavam

comida para mim.

Naquele porão não havia nada, nem poleiros nem objetos, apenas um

pequeno buraco na parede que era por onde os ratos entravam para trazer

comida. Os homens me colocaram lá para morrer.

O destino me visitava todos os dias para me trazer novidades. Ele

surgia como que por encanto, sem entrar por nenhuma porta ou janela.

Falava sobre o mundo lá fora.

Ele falou que na cidade havia sido inaugurada uma lanchonete muito

grande com meu nome, brincando depois que o dono da lanchonete devia

gostar de mim ou ter se familiarizado com a história maluca do papagaio

assaltante.

Num raro momento percebi que lá no navio eu não estava

embriagado, e não estava alucinando sobre as visitas dele ao porão. Foi

esse estranho ser chamado destino que se transformou em coruja, era ele

também o amuleto que se apegou antes ao Henrico e agora me persegue.

Precisava me livrar dele, só trazia azar para mim.

Ouvindo-me dizer essas palavras se magoou o destino e foi embora,

procurar outro dono. Eu não havia percebido que estava atrás de mim

quando eu disse que ele dava azar, ah, foi até melhor assim...

Era um ser mágico que podia se transformar em pessoas e animais,

atravessava paredes, soltava raios nos olhos. Mas se não podia me tirar

daqui e me mandar de volta pra floresta eu achei que não precisaria dessa

amizade.

A última coisa que ele me falou é que os dois homens abriram uma

lanchonete perto do local onde era a loja de pássaros e colocaram o nome

de Petrúcio’s bar. Disse que muitas pessoas iam lá por causa da fama que a

história do papagaio ladrão alcançou.

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Minha condenação foi horrível! Trancado em um porão fechado

durante anos. A comida que os ratos traziam me manteve vivo, porém era

ruim, apenas restos. A fome não detalhava paladar ou agrado, entretanto.

Eu queria morrer e acabar com aquele pesadelo, mas os ratos confiavam

muito em mim. Eu era um herói para eles.

Aquele passarinho alegre, não tem mais motivos para sorrir. Quem

sabe as lágrimas que já chorei formem um rio pelas ruas e estradas daqui

até a floresta, e o Vernacleto, meu amigo peixe, venha nadando pelo rio

para fazer companhia a um solitário papagaio, o Petrúcio...

- Currupaco!

Um dia, após muito tempo, um homem abriu a porta e ficou imóvel

olhando para mim, parecia estar vendo um fantasma. Eu estava vivo depois

de vários anos deixado naquele porão fechado, sem água e comida.

Os olhos dele estavam maravilhados, espantado, confuso e com

medo! Então ele fechou a porta e saiu correndo pelo corredor.

Logo várias pessoas vieram ver se eu estava realmente vivo. Elas

olhavam de longe na entrada da porta. Olhavam para mim e para o restante

do porão, onde não havia mais nada.

Eu olhava fixo para elas, sem sair do lugar, ali parado no chão de

terra, no meio do porão, com um olhar de ódio.

63


SEGUNDA PARTE

No ápice de um novo começo me encontrei, quando um homem

abriu a porta do porão e saiu de perto. Eu saí de lá e meus olhos doeram,

pois eu já não sabia o que era a luz. O sol era algo tão desconhecido quanto

no meu nascimento, quando os olhos se abriram e viram a claridade da

floresta. O corpo estava pesado, pois depois de muito tempo eu não

caminhava tanto, era apenas o porão, nada mais. O piso tinha azulejos de

cor marrom claro, eu olhava para o chão enquanto dava um passo após o

outro.

Surrado pela vida e castigado pelos homens que me deram por

morto, hoje um fantasma saindo do túmulo. Os dois homens ficavam me

olhando e eu sentia os seus pensamentos atordoados.

Caminhei pelo corredor vagarosamente enquanto nas celas os presos

batiam palmas e gritavam.

Fui caminhando até a saída da prisão onde havia um portão aberto. O

guarda que manteve o portão aberto me encarava com medo, aguardando

minha saída. Quando saí, voltou a trancá-lo.

Uma pessoa tirou fotografias do momento em que eu caminhei e do

momento em que o portão foi fechado atrás de mim.

Quase não me lembrava mais o que era voar. Meu primeiro vôo foi

como aqueles na floresta quando fui capturado e lançado nesta horrível

cidade.

Foi logo que saí pelo portão.

Tudo que aconteceu comigo aqui foi ruim, poucas coisas que gostei

só serviram para me fazer mal, como a amizade do Nestor e a Sophia.

Jurei que me vingaria de todos. A primeira coisa que fiz foi procurar

os pardais. Andava vagaroso pela cidade, minhas asas só não atrofiaram

por completo porque eu me movimentava no porão.

Quando os encontrei e disse quem era, me disseram onde vivia a

papagaia Sophia. Minha intenção era encontrar o Cristóvão.

Demorou muito tempo para que eu os encontrasse.

De todos os pardais que eu havia conhecido naquele beco em frente à

casa do Gilmar, só havia restado o Rufino, que por sinal já era um pássaro

velho. Os outros pardais que estavam com ele, ou eram filhotes ou netos

dos antigos pardais. Era impressionante a maneira como me tratavam! Eu

era verdadeiramente um ídolo para eles...

Então ao sair dali voei pela cidade mais uma vez. Passaram-se

algumas horas e cheguei ao subúrbio. Havia ali uma casa branca com

janelas claras, em tom de azul, lugar onde eu poderia encontrar a Sophia,

segundo eles.

64


Havia um muro baixo, no quintal algumas flores e hortaliças. A porta

fechada não me deixou outra escolha senão voar por cima da casa.

Do outro lado havia um quintal com duas árvores médias. Ao pousar

numa delas vi a Sophia na varanda com um outro papagaio pequeno.

Ela conversava com ele e brincavam com uma bola de isopor.

Quando ela me viu na árvore falou para o pequeno papagaio que

entrasse em casa, achando que eu não o tinha visto.

- Quem é você, currupaco?

- Não se lembra mais de mim Sophia? Ou será que você assim como

os meus antigos donos está me ignorando ou vingando em mim os seus

problemas?

- Petrúcio? É você? Você não deveria estar na floresta com os outros

pássaros?

- Todos esses anos desde que nos separamos naquela praça eu estive

preso, currupaco.

- Preso? Como aqueles piratas, crock?

- Sim.

- Mas o que aconteceu Petrúcio?

- Foi assim que aconteceu: nós tínhamos que encontrar a loja de

pássaros para voltar para a floresta e então...

“Na verdade eu já sabia que o Petrúcio estava preso, que os homens

o colocaram num porão para morrer. Uma coruja de olhos bem brilhantes

sempre vinha até aqui para me trazer notícias do Petrúcio, mas depois de

um tempo achei que era mentira dela, até que um dia desapareceu de vez.

Olhando novamente para o Petrúcio depois de todo esse tempo

novamente me veio um aperto no coração por tudo de ruim que eu fiz para

ele...mas um sentimento tão bonito, uma coisa tão preciosa invadiu meu

coração e só pude ficar imóvel olhando para ele.”

Depois de contar minha história, perguntei à Sophia sobre aquele

pequeno papagaio e ela disse que seus novos donos o haviam comprado há

alguns anos.

Não acreditei no que me disse aquela papagaia. Dava para perceber

quando mentia. Eu sabia perfeitamente quem era aquele papagaio, e parecia

muito com o meu pai. Nisso me lembrei de coisas tão distantes, da minha

infância na floresta, dos conselhos de vida que papai nos dava...

A vida é sempre assim, nós vivemos e passamos aos filhos o

resultado das experiências. Minha experiência de vida, porém, e os calos

em minha face são coisas que não tive a oportunidade, e nem terei, de

contar ao meu filhote. Só espero que a Sophia tenha dito a ele o que o pai já

fez, as coisas boas, a esperança e a força de vontade.

Mas também não insisti em perguntar mais sobre o papagaio. Era

notável que ela não queria falar, além do mais esse papagaio nasceu numa

65


casa na cidade e não sabe as coisas que nós da floresta sabemos, não pode

viver como nós. Sophia ficou mais ajuizada, mais responsável...

Ela não tinha notícias sobre seus antigos donos, mas sabia sobre o

Gilmar e seu comparsa, o Nestor. Disse que a tal coruja falou que moravam

numa casa grande e bonita, cercada por um muro bem alto.

Despedindo-me da Sophia, segui meu caminho. Ao olhar para trás

enquanto voava notei que ela olhava para mim de uma forma muito pura,

diferente daquele olhar cheio de ciúmes e até mesmo raiva.

“Olhando o Petrúcio indo embora, em silêncio meu coração parecia

se comunicar com o dele...

Petrúcio, eu não queria perder mais do que eu já perdi. Tive medo,

me desculpa! Fiquei com medo que o levasse. Vi o quanto você sofreu, vi o

sofrimento dos outros pássaros. Aqui é seguro, nós só temos isso...

Volta Petrúcio...volta...volta...”

Nossas vidas são engraçadas, podemos viver uma vida tranquila e

sem problemas ou então sofrer tudo o que de ruim o destino poderia jogar

em nosso caminho.

Eu não conheci a felicidade plena após ser roubado da mata, só o que

tive foram algumas fatias espalhadas em cada canto, assim como migalhas

jogadas para os pássaros próximo aos bancos de uma praça.

Meu sorriso é como as gotas da chuva que caem na terra, e embora

sejam muitas, ainda fica uma flor sem receber as águas e murcha na terra

seca, longe do alcance da tempestade.

As horas passavam. Tive dificuldade, aliás, bastante dificuldade para

encontrar a casa que ela falou. Foi difícil entrar. Havia cães e embora eu

tentasse falar com eles pareciam robôs programados para obedecer. Latiam

para mim e então saí de lá e fiquei sobre uma árvore do lado de fora,

vigiando apenas.

Depois de um tempo consegui entrar voando por uma janela. Na casa

somente estavam os empregados. Mais tarde percebi que o Nestor também

estava, dormia em um dos quartos.

Eu me escondia quando alguém passava, queria vingança. Nada

podia atrapalhar e ser visto alertaria os dois sobre minha presença.

Lá no segundo andar era a biblioteca. Ao lado ficavam os quartos,

entre eles o do Nestor.

As baratas, que também admiravam bastante a minha história me

ajudavam. Elas estavam orientadas pelos chefões da rataria de me ajudar no

que eu precisasse para fazer minha vingança contra os dois.

Expliquei qual era o meu plano e elas sabiam exatamente o que

fazer, o que me impressionou muito! Baratas são seres que conhecem toda

a casa, todas as ruas...andam por tudo e sabem se esconder, são organizadas

e conhecem locais que nem mesmo os moradores de uma casa imaginam

que exista.

66


Trouxeram um gravador. Era pequeno e leve! Não deu trabalho para

carregar. Fui arrastando pelo chão até chegar à biblioteca. Elas olhavam

admiradas esperando pra ver o que eu ia fazer, e me seguiam admiradas

com tudo. Elas sabiam até mexer no gravador.

Eu me sentia habilidoso para fazer as coisas...não sei, algo de

diferente em mim. Algumas vezes ficava pensando se isso teria alguma

coisa a ver com o que aconteceu no navio tempos atrás, quando conheci o

destino...o certo é que eu não era o mesmo pássaro, havia algo diferente!

Então elas foram se espalhando, dizendo que alguém se aproximava.

Ouvi passos subindo a escada. Deixei o gravador lá no canto encostado na

parede e tratei de me esconder na biblioteca. Era a única porta aberta

naquele corredor.

Havia uma sala bonita com um piano, fechada apenas por uma

bambinela, não me arrisquei.

A mulher que trabalhava na casa subiu para limpar o andar de cima

com um aspirador de pó.

Foi quando vi o Nestor, saindo do seu quarto.

Ele abraçou a mulher e a levou para o quarto de onde havia saído.

Conversavam alguma coisa e a porta estava semi-aberta, mas não

podiam ver a entrada da biblioteca.

Continuei então a arrastar o gravador até a biblioteca, carreguei até

uma estande de livros e o deixei sobre a estande, escondido.

No corredor ouvi sons que já havia ouvido antes na casa do

Serginho.

Saí de lá rapidamente e novamente os cães latiam. Foi então que

entrei em outro quarto, através de uma janela aberta. Era o quarto do

Gilmar.

Fiquei escondido no quarto até que caísse a noite.

Quando anoiteceu o Gilmar abriu a porta, pegou uma roupa no

armário e foi tomar banho. Depois de um tempo saiu do banheiro e vestiu a

roupa.

Nestor bateu na porta do quarto e perguntou se já estava pronto.

Ele deu um grito e logo saiu do quarto, passados alguns

minutos...apressado!

Então ouvi o barulho do carro, de cor laranja, dando a partida. Com

certeza iriam pra farra, encher a cara de bebida.

Era tarde e os dois empregados já estavam dormindo. Então saí do

quarto e caminhei até a cozinha para pôr em prática o meu plano. Alguns

ratos estavam me ajudando. Eram doze ratos e lembro até seus nomes:

Roque, Tomáz Rói-Rói, Dentinho, Chiquita Bela, Paraguaçu, Berimbau,

Mane Ozório, Mariazinha Dá Vinte, Robertão Delicado, Rei Rinchado,

Tonhão Rei do Esgoto e Riso Ruído.

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Paraguaçu era o único dos ratos que morava na casa. Os outros eram

amigos seus que sempre iam lá para fazerem festas com as comidas da

casa.

Ofereceram-se para ajudar assim como ele, assim que souberam que

era eu que estava na casa. Eles queriam se vingar porque um dos amigos

deles havia sido morto tempos atrás pelo Nestor. Eu era um ídolo para

aqueles ratos, aliás depois de tudo que aconteceu, acho que para a maioria

dos animais pequenos da cidade.

Condicionado pelo Paraguaçu e sob minhas ordens, os outros ratos

foram executando suas tarefas: Roque, Berimbau e Rei Rinchado tiraram

uma lata de óleo do armário e derramaram pela cozinha de ponta a ponta;

Chiquita Bela e Tomáz Rói-Rói pegaram em outro armário onde eram

guardadas ferramentas, varas de pescar e outros utensílios, o carretel de

linha de pescaria, cujo fio era praticamente invisível, usado para enganar os

peixes do rio. Foram desenrolando e a Chiquita segurou a ponta do fio,

depois foi correndo pela casa entre as mesas e cadeiras. Os ratos eram

muito habilidosos! Eu estava impressionado! Alguns deles pegaram palitos

e foram para o andar de cima, na direção do quarto dos empregados que

dormiam, então algumas baratas colocaram os palitos no buraco da

fechadura, para evitar que os empregados saíssem dos quartos na hora que

começasse tudo.

Cada rato pegou um saquinho com pólvora e fez um montinho em

cada degrau da escada, uma fina linha ligava o estopim colocado por

Robertão Delicado. Eles pareciam ter até ensaiado tudo, agiam com muita

naturalidade e habilidade! Para acender ele usaria um aparelho que eles

ligavam o fogão, era bonito e fazia faísca como as de um raio.

Pegaram um vidro de catchup e levaram até o segundo andar, quando

chegaram estavam exaustos. Era pesado, então abri com o bico fazendo um

furo e fui pingando pelo corredor até a sala do piano.

Riso Ruído já havia terminado seu trabalho. Colocou velas ao redor

da porta e em alguns locais do corredor...acendi usando o aparelhinho que

funcionava apenas apertando. Era bonito e interessante! Nem era difícil de

usar!

Um deles colocou uma lanterna atrás da bambinela camurça que

fechava a porta da sala do piano. Era uma cena de terror preparada para

apanhar os dois. Uma porta grande e bonita que se abria para fora. A

bambinela era de tecido fino e transparente como a seda. Minha sombra

ficava gigantesca à frente da lanterna, atrás da cortina.

Na biblioteca os ratos roíam livros, deixavam jogados pelo chão,

transformavam o lugar, deixando tudo muito desorganizado.

Na cozinha outros deles partiam frutas, comiam bastante, abriam

latas de farinha, de arroz e deixavam tudo muito espalhado.

68


Capítulo 2

Era bem tarde quando ouvi o barulho do carro chegando. Estava

disposto a levar às últimas consequências o sentimento de vingança que

jamais foi meu, aprendi nesse lugar tão malicioso.

Nesse momento fui para a biblioteca e liguei o gravador, precisava

gravar os dois conversando.

Nestor abriu a porta e entraram. Estavam muito bêbados e

conversavam alto. Gilmar trazia nas mãos uma garrafa com bebida já pela

metade.

Ao tropeçarem na fita que estava no caminho caíram no chão

gritaram alto, tentaram se levantar e caíram mais duas vezes até chegar

perto da escada.

Os empregados gritavam querendo sair dos quartos, mas as portas

estavam emperradas. Eles escutavam os gritos desesperados e eu nem sabia

o motivo de gritarem tanto. Foi aí que percebi que nos quartos havia uma

quantidade muito grande de baratas.

A noite era fria e algum dos ratos deve ter chamado todas as baratas

do bairro para ficarem na casa, dentro dos quartos dos empregados. O

alarde se transformou num perfeito coral de terror através dos gritos, e olha

que nem foi planejado esse detalhe, mas ficou muito bem elaborado!

Foi quando um deles acendeu a trilha de pólvora que explodia a cada

montinho, formando uma bola de luz e fumaça em cada degrau.

- Corre Nestor, corre. Socorro!

- O que aconteceu Gilmar?

- O chão não me deixa ficar em pé.

- Vem. Dá a sua mão.

Foi quando o Nestor também caiu no chão da cozinha, coberto de

óleo.

Os dois foram se arrastando até a escada e subiram com muita

dificuldade pelos degraus...desesperados e ouvindo os gritos, o cheiro de

fumaça na casa por causa da pólvora...havia medo naqueles homens.

Quando estavam chegando ao último degrau apaguei a luz do

corredor e voei até a sala do piano sem que me vissem.

Quando comecei a pisar nas teclas do piano, o pavor tomou conta

dos dois, já paralisados pela comoção ao ver o sangue e as velas.

Correram para a biblioteca totalmente apavorados depois que eu voei

para a frente da lanterna e meu vulto surgiu enorme na cortina. Era lá na

biblioteca que estava o gravador, eu precisava de sorte agora para que eles

pudessem conversar o que eu queria que conversassem.

Na expectativa, os ratos assistiam de camarote a fantástica

apresentação. A vista que tinham da entrada do corredor era ótima!

69


Dava para ouvir de longe o que conversavam...

- Você viu aquilo Gilmar?

- Claro que vi. Acha que sou cego?

- Era o Petrúcio. O Petrúcio. A alma dele voltou pra nos pegar.

- A culpa foi sua. Foi você que o deixou lá naquela joalheria que

fomos assaltar.

- Mas você sempre me culpa por tudo. E além disso a idéia de

assaltar aquele lugar foi sua. O nosso trato era só em sair da cadeia, então a

gente iria pegar os pássaros naquela loja pra eles voltarem pra floresta.

- Eu sei que a idéia foi minha, mas você bem que foi.

- Fui porque você e o Fred insistiram.

- Psit...fala baixo. O fantasma pode nos ouvir.

Durante os minutos seguintes nenhum som foi ouvido, atirado ao ar

dentro da biblioteca. Foi aí que um dos empregados conseguiu arrombar a

porta do quarto e se deparou com aquela bagunça.

Eu ficava escondido atrás do piano, só ouvindo as conversas. O

empregado conseguiu abrir a porta da empregada e eles foram ajudar os

dois na biblioteca. Muitas baratas iam saindo dos dois quartos e correndo

pelo corredor. Os ratos cuidaram para que as baratas fossem logo embora

afinal só iriam atrapalhar naquela hora.

Os dois empregados acharam que toda aquela bagunça havia sido

provocada pelos chefes, como era de costume acontecer. Depois de os

colocarem nos seus quartos para dormir foram arrumar a casa.

Quando eles desceram não havia ninguém no corredor, então fui

lentamente até a biblioteca. Entrei. Tirei a fita do gravador com cuidado

para não quebrá-la com meu bico.

Furtivamente saí voando pela janela que ainda estava aberta, no meio

da noite, levando comigo a prova da traição daqueles homens.

Quando voava pela cidade percebi que muitas corujas aclamavam

dos galhos das árvores, morcegos batiam asas próximo ao meu caminho.

Eu estava realmente me tornando uma celebridade nesse lugar!

Voltei ao mesmo portão que pouco tempo atrás se abriu perante

meus olhos. Dessa vez sem esperar que se abrisse voei por cima dele e fui

até o lugar que me interessava.

Havia um homem de plantão cochilando em uma mesa e quando fiz

barulho despertou depressa. Olhou para mim com medo, parecendo estar

vendo um fantasma. Na verdade era isso que eu virei naquele lugar, uma

aberração da natureza, um ser que a morte rejeitou.

Então deixei a fita em cima da mesa e voei para a janela, olhei

novamente para o rosto daquele homem e sai voando daquele lugar.

Ao sair dali procurava um lugar para passar a noite.

Vi no alto de um arranha-céu um homem sem roupas que como os

animais, me felicitava. Tinha a pele manchada como a pele de um animal e

70


seus pés eram virados para trás. Levava consigo uma arma igual à de um

índio.

Tive medo, mas algo nele era muito familiar, então me aproximei.

- Olá Petrúcio, vim ver como estava se saindo.

- Quem é você?

- Eu sou o espírito que protege a floresta, e tenho protegido você

todo esse tempo, desde que soube. Sou eu quem faz os caçadores se

perderem na mata e afugento os animais que estão na mira das armas deles.

- Você mora na floresta de onde eu vim?

- Sim. Na verdade em todas as florestas. Eu sou o espírito que

percorre a mata para protegê-la das mãos dos homens, que com suas armas

e facões cada vez mais tentam destruir a beleza da terra por causa dos seus

interesses. Eu sou o Curupira!

- Mas o que eu tenho a ver com toda essa história? Por que têm

acontecido tantas coisas comigo?

- No futuro Petrúcio, a sua história será o motivo de uma coisa

maior, que nem você pode entender. Quero que saiba de uma coisa: tudo

tem o seu propósito. Nada acontece por acaso na vida de ninguém.

Entretanto Petrúcio, estou preocupado com o rumo que as coisas podem

tomar, por isso estou aqui para te dar mais que um conselho, é quase uma

ordem...

- O que é? Diga?

- Não perca o controle das coisas. Muitas coisas que você nem

imagina que seriam capazes estão perto de ocorrer. Não deixe o lado ruim

prevalecer de forma alguma, ainda mais nesse momento em que vão

acontecer coisas muito grandes! Resista e faça somente o que for justo. Não

se deixe passar dos limites Petrúcio. Adeus!

- Mas você vai embora? Deixa-me ir junto. Quero ir para a floresta!

Quero voltar para a minha casa, para junto dos outros animais! Espere, não

vai embora, por favor, não!

- Tudo tem o seu propósito. Há o tempo certo para tudo, isso você

vai descobrir algum dia. Os animais da floresta estão contando com você o

tempo todo.

- Espere...

Sumiu. Assim de repente. Ficou no ar um cheiro de floresta, as

árvores, a brisa da mata nas manhãs.

Triste, sozinho e cansado, eu dormi naquele mesmo lugar,

embriagado pelo cheiro de floresta que ficou no ar. Ao fechar os olhos,

imaginei dormindo num galho de árvore em minha casa, em sonhos podia

ouvir os arrulhos na mata, o som de formigas carregando folhas pelos

troncos das árvores, os lobos, as onças...tudo era vida em meu sonho! Era

tão real, tão mágico! Enquanto dormi me senti de novo num lugar sem

maldades nem ambição, onde havia a luta pela vida, porém sem o desejo

71


voraz de passar por cima dos direitos alheios. A floresta é coletiva! A

natureza dá a vida e os animais respeitam os fundamentos da própria vida,

sem ultrapassar jamais o limite do território. Lá existe cooperação e

nenhum descrédito pelas diferenças, aqui ao contrário existe racismo e

exclusão. Em minha casa a natureza dá o alimento todos os dias de graça e

todos os seres comem, mas aqui os homens precisam trabalhar muitas horas

para conseguí-lo, e, além disso, a natureza humana é tão maldosa que

alguns ficam sem ter o que comer, enquanto que na mesa de outros há

muita fartura. Os que olham pela janela, no frio das noites do inverno se

saciam de imagens de tanta riqueza, enquanto que lá de dentro os que

ceiam jogam os restos fora, e nem no lixo pode o faminto vasculhar para

procurar as migalhas.

***

“Eis que ele dorme, sentindo paz no seu coração! Mas é um sonho de

ilusão apenas, o que está escrito para a sua história ainda é muito doloroso!

Mais doloroso do que muitos outros mais fortes que ele poderiam suportar!

Eu me encanto com essa criatura e não aceitei a sua recusa em

definitivo. Entretanto é necessário uma força maior para que essa coisa tão

complexa, esse sentimento novo exceda os limites da compreensão.

É necessário que haja uma reviravolta na concepção dos limites, por

isso irei provocar mudanças que irão abalar a cidade.”

***

72


Quando o sol apontou no horizonte olhei para ele de uma maneira

nova. Meus olhos estavam ainda muito sonolentos, mas tinha uma visão

diferente do sol! Era um outro sol!

O que é isso? Tenho mãos?

O que houve comigo? Tenho pés...minha pele, minhas penas...tudo

sumiu...

Será isto um sonho? Será que não acordei ainda?

Estou muito confuso...

- Acalme-se Petrúcio, sou o responsável por esta intervenção nas leis

da natureza.

- O que você fez comigo? O que está acontecendo? O que está

acontecendo comigo?

- Você agora é uma pessoa, não é mais um papagaio. Eu o

transformei para que você possa realizar as mudanças.

- Mas eu não quero ficar assim, eu não quero ficar...

- Calma! A mudança é apenas temporária. Na verdade há um grande

tesouro em suas mãos e com a minha intervenção esse tesouro poderá

finalmente ser mostrado à humanidade. Para atingir todo o seu potencial

era necessário romper os limites da aceitação e fazer algo que não é

permitido, mas eu assumi esse risco, afinal é por algo que vai valer a pena!

Então de repente fui transportado dali e como se estivesse numa

outra dimensão o destino foi me mostrando o mundo. Vi um rio muito

bonito e numa parte dele havia muitos troncos de árvore cortados. Estavam

próximos à mata. Homens cortavam os troncos sem parar enquanto que

muitos pássaros voavam, abandonando os seus ninhos, muitos deles com

ovos e filhotes sem penas.

Uma parte da mata estava pegando fogo e os animais corriam sem

direção, procurando fugir das chamas. As cobras eram alcançadas pelo

fogo e morriam pelo caminho, queimadas. Depois vi a mata queimada e

muitos animais viraram cinza. Não havia verde e longe, alguns homens

observavam as cinzas, demarcando locais para construção de casas para as

pessoas e falando em plantar grama para colocar animais.

Depois ele me transportou para outro lugar e lá havia uma lagoa

cheia de lixo e um cheiro muito ruim vinha de lá. Havia milhares de peixes

mortos e boiavam em meio ao lixo.

Eu não conseguia acreditar em tanta destruição. Parecia que toda a

vida estava condenada. Então o destino me levou para a estrada onde ficava

a casa escondida do Nestor e do Gilmar, na saída da cidade. Caminhando

como uma pessoa normal ele foi andando em direção à casa do Juquinha.

Um grande azar! Justamente a direção que eu precisava seguir para chegar

até a casa dele. Deu até certo desânimo saber que o destino estaria lá.

73


Depois me vi sentado em uma cadeira, quase que instantaneamente, e

parecia que aquela visão do destino andando na estrada foi somente um

pensamento vago...

- Vamos lá. O promotor e o juiz gostariam de ouvir seu depoimento

agora.

Quando o delegado ouviu a fita, chamou os outros guardas e foi até a

casa do Nestor e do Gilmar para prendê-los. Isso aconteceu logo que deixei

a fita lá naquela cadeia.

Eu não os vivi, mas até o dia do julgamento se passaram alguns

meses, mas o destino me transportou até a data em que os dois estavam

para ser condenados.

No julgamento fui arrolado como testemunha e contei tudo o que

sabia. O homem que os defendia era o mesmo que me acusou tempos atrás,

antes de me deixarem preso naquele porão. Entretanto minhas razões eram

fortes, e ele não pôde fazer muito.

Eu tinha uma nova identidade, tinha documentos, usava roupas como

as pessoas. Fui plantado nessa cidade através do destino.

Os dois foram condenados. O Fred, que foi comparsa dos dois no dia

do assalto à joalheria, não foi encontrado pelos investigadores. Mas eu iria

procurá-lo. Eu sabia coisas sobre ele, sabia que gostava de rodeios e que

agora tinha muito dinheiro. Assim que eu resolvesse contas antigas com o

pai do Juquinha iria trás dele também.

Minha nova missão era encontrar o meu alvo. Uma pessoa ignorante,

feia, burra, chata, repugnante e suja chamada Adamastor!

Saindo daquele lugar, entretanto encontrei numa rua um cão morto,

um carro havia passado por cima dele. Havia um outro cão que ficava

olhando atento da calçada, talvez esperando que seu companheiro se

levantasse. Uma cena triste! É como se aquele cão não soubesse o que é a

morte.

Caminhei até lá e instintivamente perguntei ao cão porque observava

o companheiro e ele falou para mim que seu amigo iria atravessar a rua

para ver se encontrava um pedaço de osso, que estava faminto.

Eu até cheguei a me assustar pelo fato do cão ter respondido, mas me

lembrei que eu era um animal e não uma pessoa. As pessoas sim são

irracionais e não entendem, mas os animais entendem os outros animais e

até as pessoas.

Então falei para aquele cão me seguir que eu iria conseguir algo para

que se alimentasse. Entramos em uma padaria e o dono veio tocando o

animal, mas eu o repreendi falando que o cão estava comigo e que eu iria

comprar algo que comesse, pois estava com fome.

Algumas pessoas presentes olhavam com estranheza o fato de eu

estar alimentando um cão de rua, e nós dois olhamos ainda mais assustados

para aquelas pessoas. Elas são egoístas demais para entender que os seres

74


humanos tomaram todo o planeta, e como consequência os animais que

com o tempo os próprios humanos domesticaram, foram sujeitados à

dependência, não por vontade própria, mas por necessidade.

Após aquele cão comer vários salgados, paguei o homem que estava

no caixa com dinheiro que o destino tinha deixado em meu bolso, dentro de

uma carteira. O homem perguntou se eu tinha trocado e eu respondi que

não. Não sabia nem o que era valor. Eu era apenas um papagaio no corpo

de um homem, não havia estudado em escola como o Serginho então muito

pouco das regras sociais dessa gente eu sabia, mas sabia o bastante para

perceber a hostilidade de toda a sociedade.

Depois fiquei ainda um tempo conversando com aquele cão. Ele

sabia quem eu era, disse que os animais todos da cidade estavam sabendo,

que comentavam muito sobre o que estava acontecendo e me desejou boa

sorte.

Quando perguntei para onde iria ele falou que é um cão das ruas, que

nunca teve dono e que conhece todos os buracos da cidade. Que estava

triste e faminto, mas que depois de receber minha atenção e conversar

comigo se sentiu melhor.

Disse que iria procurar novas companhias, pois o cão que havia sido

atropelado era um grande amigo.

Então esperei que o cachorro fosse embora. Fiquei observando ele

sumir na distância, abanando o rabinho, numa ginga de andar típica dos

cães de rua.

Caminhando pela rua em direção da casa onde eu estava morando vi

num sinal de ônibus algumas crianças fazendo malabarismos com bolas e

depois de um tempo passavam pelos carros pedindo dinheiro...

A hostilidade desse lugar com os animais deixou um semblante de

tristeza e revolta muito grandes em mim. Eles não se preocupam nem com

os da sua espécie. Ao chegar à casa que o destino providenciou, fui tomar

um banho e não parava de pensar nas coisas que tive conhecimento. Parece

que as pessoas só se preocupam com os seus semelhantes próximos, e até

com os da mesma espécie que são menos favorecidos são impiedosos em

cuidados e ajuda, quem dirá então com os animais.

É triste ver a natureza sempre à mercê dessa raça tão maldosa e cega!

Eles se espalharam pelo planeta e para todo o resto se tornaram uma praga,

um enxame que só tende a crescer e destruir tudo, sugar da terra o que ela

tem para oferecer e quando não houver mais nada, até sua própria espécie

esmaecer.

75


Capítulo 3

- Vai Roger! Pega essa...

- Au! Au! Au!

- Boa garoto! Essa foi demais!

- Arf! Arf! Arf!

- Juca, venha cá!

- Está bem pai. Espere aqui Roger que eu já volto. Quê foi pai?

Aconteceu alguma coisa?

- Quero que pegue a bicicleta e vá até a casa da dona Joana pegar

uma encomenda para mim.

- A dona Joana? A bruxa?

- Já te disse para não chamá-la de bruxa Juca. Será que tenho que

ficar repetindo isso todo o tempo?

- Ah pai, aquela mulher parece uma bruxa! Mora naquela casa

assustadora!

- Deixe de dizer besteiras e vá logo que preciso das peças ainda hoje

para o rodeio que teremos quinta-feira. As peles serão um sucesso de

vendas e quero ver a qualidade do produto.

- Não sei por que você fica matando esses animais, me dá muita pena

e...

- Vai logo fazer o que te mandei moleque.

76


- Está bem pai. Vem Roger.

- Vê se não demora Juca.

- Tudo bem! O Roger e eu voltamos antes das quatorze horas.

- Está bem então. Até as duas da tarde em ponto.

Certo tempo depois...

- Dona Joana!

- o quê é? Quem está me chamando?

- Sou eu, o Juca.

- Ah é você? Eu estava esperando que seu pai viesse pegar as roupas.

Deixei no canto da sala, pode pegar.

Nisso o Roger latiu para ela abanando o rabinho...

- Ah cachorro idiota! Saia daí senão jogo água fria em você.

- Calma dona Joana. Ele só está brincando com a senhora.

- Pulando desse jeito? Chama isso de brincadeira Juca?

- Ah, o Roger é um cachorro bem legal!

- Esse cão é um monstro! Isso sim. Detesto animais, principalmente

cachorros!

- Bom dona Joana. Eu já vou porque meu pai e eu combinamos que

eu chegaria em casa antes das duas para ele começar a organizar essas

roupas.

- Está bem então e, diga ao seu pai que eu estarei lá.

- Tudo bem! Eu direi a ele.

As preparações para o show de rodeio começaram com o pai do

Juquinha estampando camisetas coloridas que a dona Joana fez. O meu

dono nunca concordou, porém com o fato do pai e alguns amigos ficarem

caçando animais da região para fazer peles, e convenhamos, as peles ficam

horríveis! Eles costumam nos chamar para ir junto, mas o Juquinha nunca

aceitou.

Um campo vasto que fica perto da estrada, entre a casa deles e a

cidade começou a ser cercado, algumas árvores foram cortadas para abrir

caminho e arquibancadas foram sendo erguidas. Grades, barraquinhas para

uma grande festa!

Nos outros anos a festa de rodeio foi mais longe, mas esse ano

decidiram fazer aqui perto de casa onde o terreno plano é maior!

Essa festa todo ano passa por aqui no mês de agosto. É a festa do

peão boiadeiro que percorre o país de norte a sul, levando ao público e aos

participantes as emoções da festa.

***

Ao ler o jornal pela manhã tive uma expressão muito grande de

realização. A notícia do rodeio era interessante demais! Era o lugar ideal

para colocar em prática a minha vingança contra o Adamastor, que ficava

77


caçando os animais e matando para se divertir. E era bem provável que eu

fosse encontrar o Fred por lá.

Pensando nas possibilidades, deixei de ir para os arredores da casa do

Juquinha. Fiquei esperando o dia do rodeio.

Quando chegou o dia, pedi que um táxi viesse me buscar e pedi para

ir até o lugar onde haveria o rodeio. O taxista disse que só seria à noite mas

eu disse que queria ver como estava tudo, que queria passear e que já

ficaria por lá.

***

- Já acabou de instalar o sistema de som Gonzales?

- Já Nelson. Já está tudo pronto!

- Então solta a voz homem...

- E começa a festa do pião boiadeiro, recheada de mulher bonita! Lá

no céu a lua acesa, cá na terra a natureza. Em cima do touro está o pião,

saltando da boca o coração...o pasto verde está de prova da coragem

rancheira que corta a alma do homem comum...abriu a porteira do destino e

o touro vai seguindo, vai saltando o touro louco, pião pulando solto rodopia

na arena, grande emoção que invade a cena...é a festa do rodeio que está só

começando...

- Êita sonzeira boa demais! Ficou muito perfeito!

- Claro! Como o gênio aqui não tem problema.

- Deixa de ser convencido homem, e vamos lá ver como estão os

cavalos.

- Calma, o Frederico já está cuidando deles.

- Não sei Gonzales. Eu não confio nesse homem.

- Por que Nelson?

- Não sei, mas ele não me inspira confiança. Desde que está

trabalhando conosco ele é assim, calado e misterioso. Ninguém sabe ao

certo de onde ele veio. Tem grana, mas gosta de trabalhar como pião...

- Ah Nelson. Deixa o cara em paz. Além disso é o único toureiro

bom que temos na equipe.

- E o quê há de errado com os nosso piões?

- Mas é diferente. Eles são montadores. Com a muleta nas mãos

ninguém consegue competir com o Frederico.

- Bom, isso é verdade.

- Então homem. Deixa de cisma e vamos atacar o estoque de cerveja

antes que a senhora Dara chegue. Essa mulher é insuportável! Ela injeta

dinheiro no rodeio mas na verdade o que ela gosta é de mandar e

desmandar na piãozada.

78


- Não. Ela e o marido só chegarão amanhã na hora do show do

Frederico. Temos o caminho aberto.

- Então, o último que chegar é o sapo.

- Ei! Você me pegou desprevenido.

Os dois foram interrompidos de continuarem sua festinha por uma

terceira figura que surgiu de repente:

- E então Nelson e Gonzales...prontos para atacar as moscas?

- Tereza? O quê faz aqui?

-Vocês acharam mesmo que eu deixaria vocês chegarem perto desse

amontoado de caixas de cerveja? Ora, eu não sou tão louca assim. Logo

que ouvi vocês tocando o som eu vim pra cá assegurar que não tentariam.

- Viu só sua besta quadrada, a idéia foi sua.

- Ah, solta a voz...solta a voz. Se eu tivesse esperado, nessa hora a

gente já tinha tomado todas. E outra, pare de ser mal educado e dá boa

tarde ao moço...

- Ei parem de discutir suas criancinhas bobas. Esse é um espectador

do rodeio. Ele quis vir mais cedo para ver os cavalos e os touros. É um

amante dos rodeios.

- É verdade! Eu resolvi vir para ver como se prepara um rodeio,

estive vendo vocês dois trabalharem e vejo que parecem estar muito

ocupados, então decidi vir conversar com a Tereza, foi aí que ela viu vocês

correndo até aqui.

- Ah Tereza...só uma vai, ninguém dará falta.

E ela depois de relutar um pouco...

- Como é que se diz?

- Por favor Terezinha linda...

- Não está bom. Tentem outra vez.

- Por favor Terezinha linda, maravilhosa, docinho de côco...

- Assim está melhor. Tomem, e não apareçam mais aqui até a hora

do rodeio entenderam?

- Sim fofura...

Passados segundos, uns vinte, e alguns milésimos.

- Viu só Nelson? Com jeitinho a gente consegue.

- Está brincando? Pensa que é fácil dizer essas coisas para a Tereza?

- O que tem a ver? Ela é uma mulher gentil, refinada e muito legal!

- Sim Gonzales, mas fico mal de dizer que ela é bonita. Você se

esquece que ela é a mulher mais feia que já conhecemos no mundo inteiro

em nossos anos de estrada?

- Não fala assim. Do pescoço pra baixo ela é divina!

- Não acredito! E aquelas mulheres lá da outra cidade grande? Todas

bonitonas e perfumadas!

79


- Não. Aquelas mulheres não chegam nem aos pés da Tereza. Eu

vejo nela o sentido de ser uma verdadeira mulher, são as atitudes. A Tereza

faz as coisas seguindo seu coração e não a sua razão.

- Gonzales? A cerveja já fez efeito em você?

- Por que está dizendo isso?

- É que você está delirando!

- Pode ser Nelson, mas amanhã depois que eu derrotar o matador eu

vou me declarar pra ela na frente de todos.

- É. Você está mesmo delirando. Nada pode vencer o matador

entendeu? Aquele é o mais cruel touro do mundo, esqueça. Pega outro

touro.

- Pensa que eu sou frouxo é?

Então resolvi interromper a conversa e ver como eles estavam se

sentindo.

Gostei muito desse peão Gonzales. É diferente de todos os sujeitos

que já conheci, diferente em seus ideais e acredita nas coisas mais simples

que existem como o amor, a amizade e a alegria de bem viver, com paz.

Farei dele uma pessoa mais feliz no futuro...ele merece, e eu sou o

destino.

Cheguei aqui assim que os organizadores anunciaram que

precisariam de pessoas para trabalhar. Eu queria ver de perto o que o

Petrúcio iria fazer aqui, então maquinei para que todos estivessem aqui.

Fico imaginando o que estaria planejando aquela cabeça semi-calva

do papagaio Petrúcio. Da última vez que o vi, ele tinha muito ódio no

olhar...nem reparou que era eu, e se ele já está aqui, é porque alguma coisa

muito pesada está para acontecer.

Eu queria que ele aprendesse mais sobre as pessoas para enriquecer

suas virtudes, porém ele virou uma máquina de ódio e vingança. Acho que

me enganei em meu propósito, mas quero ver que mudanças podem

acontecer com o papagaio.

- O matador não vai dar nem pro começo.

Ele tinha um brilho no olhar que chegava a congelar o ar. Ele estava

conversando com a mulher e ao me olhar de lado, confesso que até eu

mesmo tive receio pelas atitudes do Petrúcio.

- Você está pirado Gonzales! Completamente louco!

Seu ódio está maior agora, eu sinto. Eu sou o destino, não deveria ser

assim.

- Você vai ver Nelson. Já estou até imaginando o Tarcísio narrando...

“abriu a porteira onde está o touro matador que sai furioso rumo ao centro

da arena, o pião é valente em cima dele, dá um giro sensacional. A galera

vai à loucura nas arquibancadas e o pião segura o touro à unha no centro da

arena...

80


***

Vim aqui procurando vingança. Sim, de maneira irrestrita, porém

precisei parar para ajudar uma pessoa.

A Tereza é uma mulher muito interessante! Confesso que não

encontrei bondade e simplicidade assim em nenhuma pessoa que conheci

desde que saí da selva. Senti a sua tristeza de uma forma muito rara!

Ela me contou da solidão de uma forma que eu não pensei que um

humano pudesse sentir, parecia eu, no sofrimento dela. Isso me tocou.

Eu prometi para ela que iríamos dar um jeito nessa falta de

perspectiva para a vida, que iria ajudar a ser uma pessoa mais viva, mas

isso tinha que começar pela sua aparência. Eu não falei nada, mas ela era

bem mal arrumada! Não passava nenhuma maquiagem e nem cuidava dos

cabelos. Eu já vi isso, foi na casa do Serginho. A mãe dele usava muitas

coisas no rosto, outras no cabelo. Eu não sabia o nome, mas o cheiro era

inconfundível, por isso, como ainda era cedo, deixei de lado os meus

planos e fui com ela até a cidade para comprarmos produtos de beleza.

Quando o táxi parou, pedi que dentro de duas horas nos buscasse,

pois que tinha muito que fazer no rodeio. O taxista concordou e então

entramos na loja.

Eu cheirava as embalagens abertas para reconhecer os cheiros dos

produtos, pois eu não sabia ler, o destino se esqueceu de providenciar essa

faculdade ao me transformar em pessoa.

Não tive dificuldades. Então fomos até o caixa e dei dinheiro à moça

do caixa, ela me devolveu outros dinheiros e saímos de lá.

Passamos em uma loja que tinha roupas de mulher e eu ajudei a

Tereza a comprar uma roupa que ela gostou.

Gostei muito de conhecer essa humana! Ela não possuía maldade,

tinha simplicidade e dava para perceber que sua alma era singela, que não

tinha interesses nem ousadias em prejudicar os outros.

Nós voltamos para o lugar do rodeio. Chegando lá fui ajudar a

arrumar a Tereza. Lavamos o cabelo, cortamos as unhas...foi a primeira vez

que usei um cortador para unha, eu nunca precisei, afinal cortava tudo que

quisesse com o meu próprio bico. A unha ficou muito bonita depois de

passar o esmalte! Eu sentia que a Tereza estava se sentindo melhor, estava

ficando mais arrumada!

Depois ela foi tomar banho e passou muitos cremes, perfumes,

sabão...quando ela saiu e trocou de roupa estava uma outra pessoa! Muito

mais elegante, com um short jeans e uma blusa com um grande laço na

frente, de botas e um chapéu de rodeio pendurado no pescoço.

Após passarmos a maquiagem eu disse à ela que terminasse de se

arrumar que eu queria comer alguma coisa.

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Eu até fiquei feliz ajudando ela a se arrumar mas minha intenção

aqui era outra, e eu não queria me desviar do meu...

- Petrúcio!

- Vai ficar me vigiando aqui também?

- Olha, só estou preocupado. Não era bem isso que eu tinha em

mente quando o transformei.

- Você acha que pode brincar com os seres assim? Não, os seres não

são marionetes suas, que você faz o que bem quer. Todos temos

sentimentos e emoções, nós amamos e odiamos, sorrimos e choramos,

vencemos ou perdemos. Todo ser é dotado de uma vida, e essa vida é curta

e única. Mas isso você não entende, na verdade você não entende nada.

- Não é isso. Você está enganado.

- Me deixa em paz. Eu vim aqui fazer uma coisa e agora quero paz.

- Petrúcio, há sempre uma outra maneira de resolver as coisas.você

não era assim, sua alma era pura, você aprendeu o ódio. Eu só queria curálo

antes que você voltasse para sua casa. Você é muito importante, pode

fazer coisas que nem imagina.

- Vou começar agora...

Capítulo 4

- Bem-vindos a mais uma sensacional festa do pião boiadeiro. É

muito satisfatório para eu estar narrando esta festa maravilhosa, para todos

os organizadores, principalmente a senhora Dara que é esposa do senhor

Cristóvão, que foi quem tornou possível a realização de um rodeio tão

grande como essa cidade jamais viu.

Ao ouvir esses nomes eu estava perto das báias dos cavalos. Então

parecia que o tempo havia parado. Eu olhei para uma barraquinha e o

destino estava lá com uma roupa de boiadeiro. Ele tomava algum tipo de

bebida e ao olhar para mim sorriu com malícia, lentamente.

Eu olhava para ele com um olhar frio e depois de alguns segundos

virei as costas e continuei andando até as báias enquanto o locutor

continuava falando...

- É bom ver a alegria que se espalha entre todos aqui presentes.

Quem dera que essa alegria fosse eterna entre todos os nossos irmãos que

estão lá longe, espalhados por esse mundão de Deus...quem me dera poder

desenhar esse mesmo sorriso nas faces de todos os meninos que sofrem

com a fome e com o frio, nos viadutos, no sertão. Quero dizer a todos que

para mim é uma honra ser ouvido por todos vocês, e saibam que sempre

vou falar, sempre, enquanto houver forças, para que se mantenha acesa a

chama forte do rodeio que nos une, e se chama amizade!

Das báias eu ouvia o que o locutor falava, enquanto conversava com

os cavalos. Eles contavam coisas horríveis sobre o tratamento dos

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tratadores. Eu fiquei escutando e eles sabiam quem eu era. Pedindo para

ajudá-los acabaram mudando o meu plano de vingança. Foi quando eu ouvi

o locutor falando sobre o touro matador:

- E hoje, como atração inicial temos o peão Gonzales montando o

feroz matador na porteira número seis...

Então eu deixei os cavalos, prometendo ajudá-los, e fui ver o que

aconteceria na arena. Estava curioso sobre o touro matador...

- Olhos atentos para o peão mas principalmente para esse touro que

poucos ousam desafiar. Abriu a porteira do destino e em cima da fera o

menino, valente em cima do touro pra provar que é homem...

A Tereza estava do outro lado da arena, muito bonita e arrumada.

Sorria e batia palmas ao ver o peão Gonzales montando o matador...

- Matador vai saltando, machucando mato e terra com seus passos,

rodopia na arena que de tamanha emoção fica pequena...é a festa do peão

de rodeio que está só começando. Foi vencido o touro matador pelo valente

peão Gonzales, e a arena vai à loucura nas arquibancadas.

Dois amigos dele vêm abraçá-lo enquanto que outros quatro tentam

segurar o touro matador e voltar com ele para a porteira.

- Beleza! Foi demais Gonzales! Você está machucado? Tem alguma

coisa em você que está quebrada?

- Sim Oscar. Eu estou todo quebrado. Me ajuda a chegar lá no

microfone.

- Está bem...já que você está decidido a fazer isso. O Nelson falou...

- Afastem-se, afastem-se. Deixem-no respirar, eu cuido dele.

- Nossa Tereza, como você está bonita hoje!

- Não. Espera um pouco Tereza que eu tenho que falar uma coisa.

Espera aqui na arena.

Eu observava de longe a cena e a Tereza, tendo as duas mãos

entrelaçadas à altura da cintura, olhou para mim sorrindo e entusiasmada.

Notei também que dentro da báia o touro matador estava furioso, porém os

peões já haviam fechado a porteira. A Tereza ficou no centro da arena

esperando para ver o que o Gonzales iria dizer.

- Eu gostaria de dizer que maior que a coragem que tive para

enfrentar o matador estou tendo agora em me declarar para a mulher que é

dona do meu coração, que é a Tereza...

Olhei para a multidão gritando e aplaudindo enquanto o Gonzales

falava e nem percebi que o touro estava cada vez mais furioso. Olhei para o

destino e ele estava muito bêbado, com um copo de bebida na mão e

abraçado com duas mulheres, olhos avermelhados, sorrindo e se

esbaldando...

- Essa mulher que está na arena é o alecrim do meu campo, é o meu

sol...ela é...

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O matador quebrou a porteira. Gonzales ficou mudo no palco,

congelado deixou o microfone cair, imóvel, incapaz perante a situação.

Quando vi, ele já estava na metade do caminho. Homens gritavam. Os

peões tentavam pará-lo com uma corda.

Era a única coisa que estava dentro da arena, então ele foi direto.

Usava um short jeans e a blusinha que compramos ainda hoje. Tinha os

cabelos lisos e a maquiagem contornava seu rosto.

Foi um segundo muito triste. O matador deu uma chifrada nas costas

da mulher que ainda tentou correr, porém não pôde dar nenhum passo e foi

atingida pelo touro.

Fiquei observando a agilidade das pessoas que trabalhavam no

rodeio em tirá-la e socorrer.

Houve muito tumulto. Havia uma equipe de televisão transmitindo o

rodeio e quando houve o acidente a organização disse que faria uma

coletiva com a imprensa. Na verdade percebi que eram ordens do

Cristóvão. Eles provavelmente iriam até lá para dar a entrevista e evitar que

o rodeio ficasse manchado, subornando os repórteres.

Tudo aqui perto da casa do Juquinha estava diferente! Muito mudou,

até as árvores. Antes havia várias e agora somente algumas restaram. Já se

passou muito tempo desde que eu fui embora com aquele policial, só meu

desejo de vingança não mudou.

Não havia visto ainda o Adamastor nem o Juquinha, mas eu sei que

estava com sorte, pois na mesma noite poderia me vingar do Adamastor, do

Cristóvão que era casado com a Dara, organizadora do rodeio e do Fred,

que iria duelar com o matador. Quer saber, até que o destino fez alguma

coisa de útil pra variar.

Em passos bem silenciosos caminhei até perto do lugar onde o touro

estava sendo castigado por alguns homens com chicotes.

Após receber vários golpes, os homens saíram, deixando o touro com

várias marcas pelo corpo. Então fiz força para subir em uma janela e tentei

conversar com o touro. Ele me compreendia, porém olhava para o chão,

não havia me visto ainda, pensava que era um animal.

Quando me viu se surpreendeu. Parecia assustado.

- Touro, você está bem?

- Sim papagaio. Já estou acostumado a apanhar desses homens. Ouvi

falar da sua história, mas pensei que fosse apenas um conto, uma lenda.

- Infelizmente minha história é real. Mas aqueles homens batem em

você sempre? Talvez pelas maldades que você faz, olha o que aconteceu

hoje...

- Não, eu não sou mal. São eles que me provocam fazendo todo tipo

de malvadeza comigo para que eu me zangue e entre na arena. Tudo o que

eu queria era voltar para meus antigos donos. Eu morava numa fazenda

perto do mar, muito além dessa estrada. Foi lá que nasci e, vendido por

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meus donos para cobrir uma dívida. Fui revelado ao mundo como o

matador, touro terrível!

- E quanto aos outros animais? Também acontecem queixas?

- Todos nós temos lamentações. Somos marcados com chicote e os

cavalos são mordidos por abelhas e marimbondos para ficarem nervosos na

hora do rodeio. É tudo muito sofrido aqui dentro! Quando as pessoas se

admiram vendo um desses homens se equilibrando sobre nós, nem

imaginam o que ocorre... tanto sofrimento. Não existe boi ou touro que seja

mal, todos nascemos apenas para servir às pessoas em troca de alimento e

moradia. Contentamos-nos com a grama que nasce de graça nos campos e a

água da chuva, e fornecemos carne para que as pessoas sejam alimentadas.

Ao carregar os carros de boi fazemos com devoção ao trabalho e quando

pastamos, até mesmo os animais ferozes afugentamos das proximidades da

casa dos nossos donos. Mas desde que meu dono precisou me vender que

tenho sofrido.

Seguimos uma longa conversa, uma prosa muito inspiradora, até que

eu disse:

- Escute touro: como você já sabe da minha história não vou perder

tempo contando tudo a você...há algum tempo atrás eu fiz um pacto com

um humano e isso modificou a minha vida para sempre, agora estou

disposto a fazer um novo pacto com você.

- O que quer dizer pássaro?

- Estou dizendo que vou tirar vocês das mãos dessas pessoas.

- Sei que você é muito talentoso Petrúcio, e já ouvi histórias incríveis

como a vez em que você enfrentou piratas, também da vez em enfrentou

um gato para salvar um outro pássaro, mas não creio que seja capaz, e

perdoe a minha falta de esperança.

- Se todos fizerem a sua parte dará certo.

Combinamos um plano que tiraria todos os animais do rodeio e eu

poderia me vingar do Adamastor e do Cristóvão.

O matador disse que havia um pó que fazia o corpo todo arder

quando era jogado, que com ele os touros e cavalos eram torturados e era

esse um dos motivos que fazia os animais ficarem saltando. Estava

guardado dentro de uma caixa na porteira número dois. Então eu fui lá

pegar e havia um rapaz tomando conta.

- Olá amigo, tudo bem?

- Oba! Que deseja o senhor?

- Então, eu trabalho pra uma fazenda aqui perto. Estou ajudando a

cuidar dos bichos e estamos dando uma lição no matador.

- Mas como que eu num vi tua cara ainda no rodeio?

- A senhora Dara ligou pro meu patrão hoje cedo e...

- Claro, claro, a senhora Dara. Ela está por aqui?

- Não, ela só vai vir amanhã mesmo.

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- E o que você precisa pegar, pode ficar à vontade.

- Eles falaram pra pegar um tal pó pra jogar no matador.

- Ah sim, vou pegar pra você.

Esses trabalhadores tinham medo da Dara. Conhecendo aquele

pessoal fico até imaginando o tipo de tratamento que ela dava a essas

pessoas.

Então fui procurar o cavalo Eleu. O matador falou que as camisetas

do Adamastor estavam dentro de uma das báias, justamente a que ficava ao

lado da báia do cavalo.

Fui perguntando aos cavalos e nenhum deles era o Eleu.

Como eu poderia saber qual era a báia? Foi aí que novamente eu tive

um momento de sorte.

Um cão bonito, muito grande veio correndo em minha direção, e seu

dono veio correndo atrás.

Era o Juquinha. Ao vê-lo meus olhos brilharam!

- Desculpa moço, ele não morde não. É um cachorro muito esperto.

Juquinha estava mais crescido, mas era o mesmo garoto! Fiquei

receoso de conversar com ele por causa da emoção, então apenas disse que

estava tudo bem e que ele tirasse o cachorro de perto de mim.

Eu vi que ele estava dentro de uma das báias, lá ao fundo. Era uma

das últimas báias.

Quando cheguei até lá vi que havia muitas camisetas do rodeio e

também roupas feitas com pele de animais. O Juquinha estava tomando

conta das roupas, por isso eu ainda não o tinha visto no rodeio. Ele trancou

a báia e saiu com o cachorro, talvez estivesse indo comer alguma coisa.

Foi aí que vi um animal fantástico sendo trazido por um homem! Foi

colocado no estábulo próximo da báia. Sua aparência tinha uma sábia

soberania! O mais lustroso manga-larga que eu já tinha visto!

Quando o homem deixou o cavalo eu falei que o Adamastor me

deixou tomando conta das roupas, mas que perdi a chave. Disse que

mandei o Juquinha procurar e ele estava demorando.

Então o homem, que trabalhava nas báias me mostrou como se abria

a báia sem usar a chave. Fingi estar surpreso e agradeci.

Essas pessoas demonstram uma ingenuidade bem aflorada! Bom,

mas também eu sou o papagaio Petrúcio, contar histórias é minha

especialidade!

Apressei em derramar o pó sobre as camisetas e as peles e seguindo

conselho do matador saí de lá imediatamente, pois até o pó que ficava no ar

irritava os olhos e a pele.

Então fui até o estábulo para ver de perto o cavalo Eleu. Contei a ele

tudo o que estava acontecendo e ele planejou um plano que era bem melhor

do que o meu, e olha que eu planejava bem.

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Meu plano seria tirar todos os animais dali, mas quando falei isso

com o Eleu ele até riu, perguntando em seguida como eu faria isso.

Foi aí que entrou a genialidade daquele cavalo, e seu plano embora

maquiavélico demais, funcionaria melhor que o meu.

Aprendi vingança nesse lugar! Eu não possuía maldades agora tudo

que eu faço vai prejudicar alguém de certa forma. Eu que era feliz lá na

selva agora não encontro alegria em nada. Hoje eu sou uma aberração da

vida, não tenho mais a minha identidade, não sou mais o papagaio filhote

que voava na mata, nem sou mais o papagaio Petrúcio que teve vários

donos na cidade, e ora estava numa gaiola, ora solto. Sou agora uma pessoa

como as pessoas daqui, e mesmo sabendo que é por pouco tempo, sei que

nunca mais serei o mesmo papagaio quando voltar à minha forma original.

Retornei então até o local onde o matador estava.

- Escute matador: já estão anunciando a entrada do Fred. Parece que

ele vai montar em um cavalo.

- Sim, ele sempre monta num cavalo no primeiro dia do rodeio. No

segundo dia ele faz a tourada.

- Certo, vou aproveitar a situação daquele acidente lá na arena pra

colocar a mídia contra a organização do rodeio. Depois nos falamos,

preciso correr.

Rapidamente fui procurar um telefone para ligar para a polícia. Eu

precisava aproveitar que estariam todos os meus inimigos juntos para

acabar com a felicidade de todos eles.

Contei que os animais do rodeio estavam sendo torturados nas báias,

falei dos chicotes, das abelhas e marimbondos, do pó que arde...contei

sobre as peles de animais que seriam vendidas, e estavam dentro de uma

das báias...

O atendente parecia não se importar muito com o que eu estava

falando então tive que apelar, contei que um dos toureiros era um indivíduo

procurado, que juntamente com dois que foram condenados recentemente

assaltou uma joalheria anos atrás. O atendente nem mesmo esperou que eu

terminasse e disse que estava mandando as viaturas, que era pra eu

aguardar próximo à saída do rodeio para fazer contato com eles.

Nossa natureza carece de mais cuidado. Hoje mais uma vez percebi

isso. Quis denunciar pessoas que torturam diversos animais para lucrar

milhões com rodeio, quis denunciar o Adamastor que fica caçando animais

para tirar as peles e vender como roupas e não deram importância, mas

quando falei que o Fred estava no rodeio e era um dos toureiros

rapidamente mandaram as viaturas.

O crime é sempre crime, não importa qual seja o crime. Mas hoje eu

vi que mesmo aqueles que precisam proteger a natureza não deram muita

importância à ela.

E então fui pra perto da arena para ver o que iria acontecer:

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- E do outro lado o alazão valente. Com certeza o espetáculo está

garantido com essa montaria.

Porém os animais já haviam combinado entre si para não saírem da

porteira. Quando ela foi aberta o valente nem se moveu.

As pessoas da platéia começaram a vaiar bem alto ao confiante

alazão valente e ao Fred enquanto ele tentava provocar o cavalo com a

espora. O valente apenas saltava, tentando suportar a dor, mas voltava a

ficar imóvel em seguida.

Então veio caminhando lentamente, pela porteira número seis o

matador. Ao sair de sua prisão roçou a pata esquerda no chão da arena e

liberou seu som de guerra. As pessoas da platéia foram hipnotizadas pelo

som do touro...vibraram.

Então o valente saiu da báia finalmente e ficou sobre duas patas, não

obedecendo aos comandos do Fred, que apenas se equilibrava sobre o

animal, até que não agüentou mais e caiu na terra. Então o valente voltou

pra dentro da báia e na arena ficaram só o matador e o Fred.

O matador foi para cima do Fred que escapava do touro usando a

ginga do corpo, enquanto que outros peões corriam em direção à arena.

Havia poucos peões por perto, já que a montaria seria em cavalo e não

haveria rodeio de touros que são os mais perigosos.

O Fred tentava escapar do touro e quando o touro conseguiu acertar

uma chifrada, Fred segurou os dois chifres do matador enquanto o matador

sacudia a cabeça com violência, arrastando o Fred no chão.

As pessoas que vigiavam as báias dos cavalos foram para a arena

tentar segurar o matador juntamente com os peões.

Aproveitando o momento, abri todas elas, fazendo com que os

animais saíssem e se espalhassem. Dois cavalos chegaram até correr em

disparada em direção à arena, atacando alguns peões.

Lá na arena os peões conseguiram resgatar o Fred, com vários

machucados, mas o matador ainda estava solto.

Levaram o Fred para uma ambulância que ficava parada perto da

arena para atender a todos que se machucassem ou passassem mal.

Os animais soltos correndo de um canto a outro, alguns peões

feridos, as pessoas na arquibancada detestando o show mal feito, e eis que

chegaram as viaturas de polícia, rapidamente fazendo contato comigo no

local combinado.

A reportagem já havia observado a movimentação e vieram correndo

ao encontro da gente.

Era uma confusão imensa! Eu tentava passar as informações para os

policiais, mas a todo momento chegavam pessoas com coceiras provocadas

pelas camisetas do rodeio, havia muita gritaria, então deixei a muvuca e

puxei um dos policiais para fora de todo aquele alvoroço. Disse a ele onde

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estava o Fred, onde estavam as roupas feitas de pele de animal, falei dos

maus tratos que os animais estavam sofrendo.

Com muito custo os policiais conseguiram atender todas as pessoas,

elas reclamavam de coceiras por causa da camiseta do rodeio, em algumas

delas as marcas eram visíveis. Bem o matador falou que esse pó era forte,

agora essas pessoas sabem o que os animais sofrem para poder pular e se

contorcer na arena enquanto elas dão risada e tomam sorvete.

- Venham! Vou mostrar a vocês onde estão as peles. O responsável

realiza caça não autorizada há vários anos e tem causado um profundo

desequilíbrio ambiental na região.

Ao chegar à báia encontrei o Adamastor guardando as peles e as

blusas para sair de fininho do rodeio.

- Senhor Adamastor, o senhor está preso por caça ilegal de animais

silvestres e terá ainda que dar explicações sobre possível intoxicação

provocada por roupas.

- Mas isso tudo não faz sentido, essas roupas estão em perfeito

estado!

A reportagem filmava tudo e mostrando as peles dos animais, falava

em crime contra a natureza. Depois o repórter vindo me entrevistar,

perguntou meu nome, e eu preferindo não falar meu nome disse o que

sabia. Era a minha oportunidade de fazer alguma coisa. Meu coração batia

forte afinal eu tive medo de não estar preparado para o que o destino

colocou em minha frente, um peso muito grande, muito difícil de carregar.

Milhões de pensamentos atordoavam minha cabeça, mas com muita

naturalidade consegui falar...

- Descobri esse esquema de caça de animais quando passei alguns

dias na casa do envolvido, lá presenciei que ele e um grupo de indivíduos

costumavam ir até as matas próximas e traziam várias peles de animais,

cascos, animais mortos. Uma cena muito forte de se ver. Embora o filho

dele, o Juca sempre tenha dado conselhos ao pai para parar com essa

atividade ilegal, o pai nunca deu ouvidos ao filho.

- E sobre a denúncia de que os animais do rodeio estariam sofrendo

maus tratos, isto procede senhor?

- Sim, a denúncia é verdadeira. Presenciei alguns peões batendo com

chicotes em um touro, em outros casos eles chegam a colocar abelhas e

marimbondos para ferroar os animais. Isso os deixa extremamente

agressivos. Os animais que vocês vêem saltando dentro da arena de rodeio

na verdade são dóceis, eles ficam é sofrendo por causa das ferroadas e por

isso ficam saltando. Há ainda casos em que os peões amarram as partes

íntimas deles para que fiquem saltando na arena, e só ficam dóceis

novamente quando conseguem soltar as amarras.

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- Tudo isso que o senhor está relatando é uma denúncia muito grave!

Parece que tem até um foragido da justiça que trabalha para o rodeio. O que

o senhor sabe sobre isso?

- O nome dele é Fred. Ele participou de um assalto a uma joalheria

tempos atrás e usaram um papagaio para entrar por uma fresta e ir jogando

as jóias. Vocês devem ter conhecimento dessa história. Não sei muito, mas

parece que uns guardas colocaram o papagaio num porão sem comida nem

água para que morresse e depois de muito tempo ao abrir o porão lá estava

o papagaio, vivo, como se fosse uma alma penada.

- Sim, transmitimos pela televisão esse fato. Depois o papagaio saiu

voando e se foi, achamos que voltou pra casa.

- Não. Dizem que o papagaio voltou para se vingar de todos aqueles

que fizeram alguma coisa contra ele. Os policiais falaram que o mesmo

papagaio foi até a delegacia levando uma fita com uma gravação dos outros

dois envolvidos no roubo das jóias na qual eles confessavam o roubo.

- Tudo isso é uma história muito impressionante. O senhor acha que

a natureza poderia se vingar assim?

- Todo animal, toda planta, até mesmo as pedras e as águas, existem

no mundo para promover a paz. Entretanto a humanidade com seu desejo

de consumir cada vez mais tem provocado inúmeras feridas, tem caçado os

animais da floresta, matado, cortado uma quantidade muito grande de

árvores, tem poluído os rios. A natureza perde cada vez mais espaço e algo

precisa ser feito, essa destruição precisa parar. Uma vez meu pai disse que

sozinho não podemos fazer muita coisa, mas se um grupo maior tentar

alguma coisa, esse grupo será mais forte. Precisamos preservar a natureza

agora senão no futuro não vai restar mais nada.

Enquanto eu falava o pai do Juquinha era levado para dentro da

viatura, o Fred com o braço enfaixado e os animais eram colocados dentro

dos caminhões. Os policiais disseram que seriam levados para um abrigo

de animais na cidade onde seriam medicados.

O Juquinha que presenciava tudo chegou perto de mim depois que os

repórteres saíram...

- Petrúcio?

- Juquinha, como você sabe?

- Pelo jeito de você falar. Como isso aconteceu?

- É uma história muito complicada. Tem uma coisa, é um homem,

ele é o destino. Fez com que eu virasse uma pessoa.

- Você fez a coisa certa! Mesmo ele sendo meu pai isso tinha que

parar.

- Tem muito tempo que eu não te vejo Juquinha. Você cresceu

muito!

- É...o tempo corre mesmo. Mas o que você vai fazer agora?

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- Eu tenho mais uma coisa a fazer. Os dois homens que me

trouxeram da floresta. Eles precisam parar. Sempre vão até a floresta para

capturar pássaros. Isso tem que parar agora, só assim eu vou ter paz de

verdade.

- Eu posso ajudar?

- É perigoso Juquinha. Esses homens devem ser perigosos.

- Não importo. Pode contar comigo!

Que coisa. Quem poderia imaginar? Encontrar o Juquinha e

conversar com ele depois de todo esse tempo.

Enquanto as pessoas deixavam o rodeio entrei no caminhão onde

estavam os animais do rodeio e percebi que o motorista pegou o sentido

contrário.

- Ei: você está indo na direção errada, a cidade é pra lá.

- Não se preocupe Petrúcio. Sou eu.

- Quem é você?

- Já não se lembra de mim? Sou o protetor da floresta. As pessoas me

chamam de Curupira, e eu posso me transformar. Estive conversando com

você no dia em que você virou gente.

- E pra onde estamos indo?

- Você não sabe, mas esse abrigo onde os policiais falaram que os

animais ficam guardados não é higiênico, não é seguro, a alimentação deles

é ruim. Eles ficam praticamente amontoados. Adoecem e morrem.

- E onde vamos deixar todos esses animais?

- Vamos levar para o antigo dono do matador. É um conhecido meu,

muito velho e muito pobre, mas com uma generosidade enorme com os

animais!

- Mas você sabe onde ele mora? E o outro caminhão? Quem está

dirigindo?

- Ora Petrúcio, você sabe quem.

Então como num passe de mágica fui transportado para o outro

caminhão e o destino estava dirigindo. É tudo muito confuso então fiquei

só olhando enquanto ele sorria e fumava um cigarro pelo canto da boca e

cantava músicas sertanejas, gritando com a cabeça pelo lado de fora do

caminhão.

Depois de um tempo ele parou o caminhão e desceu. Então disse que

era para eu dirigir, mas eu não sabia, então ele foi dizendo o que era pra eu

fazer.

Um dos momentos mais difíceis da minha vida foi dar a partida

naquele caminhão e guiá-lo pela estrada.

Virar a chave foi fácil, depois pisei no acelerador e virei a marcha. O

caminhão saiu em disparada.

Entrelacei as mãos no volante com medo e fui guiando o caminhão.

91


Eu sentia que não poderia controlar aquele volante, mas toda vez que

pensava em desistir lembrava do sofrimento daqueles animais na

carroceria. Isso me dava forças para continuar.

No retrovisor eu via uma sombras negras que seguiam o caminhão

semelhante a fantasmas. Eram sombras de ódio e batiam nas árvores e

ficavam no meio do caminho. Perguntei ao destino o que era aquilo e ele

respondeu que tudo que fazemos de bom carrega o ódio das pessoas más.

Que esse ódio procura nos tirar a fé, desacreditar nossas boas ações e

nossos sonhos, mas não conseguem nos atingir enquanto nossa

determinação estiver alta.

Passaram-se várias horas e o dia já estava começando a clarear.

Vínhamos pela estrada correndo com muita velocidade. O outro caminhão

estava a minha frente e olhando para o lado não vi ninguém.

Então pela estrada vinha correndo em alta velocidade um homem

com muitas pernas e pés. Ultrapassou o caminhão e parou, longe.

Quando o caminhão começou a se aproximar, percebi que era o

destino, pois tomou sua forma original. Então parei o caminhão.

Desci e fui ao seu encontro. Ele aguardava na beira de um penhasco

que terminava no mar, de onde dava para ver as ondas batendo nas pedras.

É bonito o mar, parece uma floresta só que nesse caso, para os

peixes. O Vernacleto adoraria um lugar como esse.

Enquanto caminhava olhando para o mar lembrava do meu amigo.

Dos saltos que ele dava quando eu jogava pedaços de fruta e pequenos

insetos na água. Tenho saudade de tudo aquilo, da minha casa, das árvores,

da conexão que eu tinha com toda a natureza...

- Por que você fez isso?

- Apenas queria sentir a liberdade. E você precisava se virar sozinho.

Passei a noite toda tendo que virar o volante.

- Não será por que sou um papagaio e não deveria estar dirigindo um

caminhão transformado em humano?

- Ah Petrúcio, você tem um senso de humor...

- O que você quer?

- Tenho que revelar Petrúcio: você é um dos maiores homens que já

segui nesse chão brasileiro. A vida te deu uma decência necessária para ser

invejado.

- Deixa de sermão. Que eu te conheço bem. Fala logo o que você

quer dessa vez.

- Eu vim para te auxiliar na sua jornada. Como pensa que conseguiria

levar seus companheiros por essa estrada sendo um mero papagaio.

- Nós estávamos juntos, e quando vários se juntam numa mesma

causa é mais fácil conseguir as coisas.

- Exato! Agora você chegou onde eu queria.

- O que quer dizer?

92


- Já reparou que nessa cidade inteira somente você está preocupado

com a natureza?

- Infelizmente sim.

- Acredito que você é a pessoa certa para iniciar algo novo, uma

coisa maior do que simplesmente vingança. Você pode modificar a forma

como as pessoas enxergam.

- Essas pessoas não têm bondade no coração.

- Mas você...

- Ei vocês dois: não podemos ficar aqui o dia inteiro.

- O Curupira tem razão. Vamos lá Petrúcio, tira os animais de cima

do caminhão que a viagem chegou ao fim.

- Mas aqui? No meio do nada?

- É necessário. Por acaso acha que os donos dos animais já não

colocaram os capangas para nos seguir? Cristóvão está furioso!

Depois de todos os animais descerem dos caminhões, ficaram na

beira da estrada enquanto que os dois entraram nos caminhões e aceleraram

na direção do penhasco, jogando os dois caminhões.

Eu corri para a beira do penhasco e vi lá embaixo os dois caminhões

destruídos nas pedras.

Então os dois apareceram novamente. E com roupas diferentes, de

peão.

Eles começaram a chamar os animais para o meio do mato, do outro

lado do penhasco e eles iam seguindo em fila de animais, como nas

fazendas.

- Você vai ficar aí parado Petrúcio? Vamos logo que a viagem é

longa.

Então corri atrás deles.

O alazão Eleu ficou para trás e se ofereceu para que eu montasse

nele. Como eu nunca havia feito isso antes tive um pouco de dificuldade.

- Segure-se Petrúcio. Agora nós vamos correr de verdade!

Então começou a correr pelo mato e eu senti uma sensação muito

boa! Era uma liberdade diferente, um alívio para todas as dores que eu

sentia naquele lugar. Eu era um jovem, mas os outros da minha idade não

se pareciam comigo. Os jovens daqui gostavam de se divertir e ir a festas,

mas eu somente possuía a imagem de um humano, por dentro era o

papagaio Petrúcio, e embora pudesse falar e interagir com as pessoas, me

sentia aprisionado.

Correr com o alazão Eleu naquela campina foi maravilhoso!

Remediou meu corpo de um pouco de alegria.

Depois ele parou no alto da campina e eu podia ver os dois lá

embaixo trazendo os animais. O matador bufava bem alto, ansioso para

chegar ao lugar para onde estávamos indo, cheio de saudades no coração!

93


Havia os cavalos Petty, Roque, Alazão e Zumbi, a égua Dalila, os

touros Sanção, Matador, Caititu e Péricles, além do Eleu, que estava

comigo.

O destino vinha pelo caminho conversando com um dos touros como

se contasse piadas. Já o Curupira tinha pressa, precisava voltar logo para as

florestas. Disse que estava apenas fazendo um favor ao destino por serem

conhecidos há muito tempo, mas que tinha suas obrigações em outros

cantos.

Demorei pra perceber, mas a grama onde os animais passavam ficava

amassada, e logo em seguida começava a nascer árvores que foram ficando

cada vez maiores, como se escondessem o caminho por onde estávamos

vindo. Uma parede foi se formando. Era bonita, lembrava a floresta onde

eu nasci!

Quanto mais caminhávamos a estrada ficava menor, transformandose

numa linha fina lá embaixo. A sensação que sentia era única! Estava

entusiasmado! Eu via minhas mãos e meus pés sobre o alazão enquanto

caminhava pelo campo.

Demorou toda a manhã a nossa caminhada. Até que longe avistei

uma porteira e nela um homem aguardava.

Os animais foram se aproximando juntamente com os dois e eu fui

chegando depois com o Eleu.

O homem era velho e os dois já o conheciam, logo desci do alazão e

ele se juntou aos outros animais. Entraram na fazenda e o homem nos

chamou para almoçar, que já estava pronto.

Então almoçamos bastante, afinal todos estávamos com fome. Bem,

na verdade nem sei se esses dois sentem fome, frio ou medo.

Antes de irmos embora fui ver os animais. Estavam todos num

grande pasto e o matador veio se despedir. Agradeceu por tudo que

havíamos feito e me desejou boa sorte em minha jornada, dizendo que eu

também receberia a minha recompensa logo, para ser forte, afinal muitos

animais dependiam de mim.

Então ao voltar para junto dos outros nos despedimos do dono do

lugar e saímos.

No meio do caminho o Curupira falou:

- Bom meus caros, agora tenho que voltar aos meus afazeres.

- Obrigado mais uma vez primo! Fico te devendo essa.

- Não se preocupe...quando menos esperar vai ter que me pagar

mesmo.

Então ele foi virando um redemoinho de vento, começou a ir em

direção do mato e desapareceu.

Então voltamos na direção da estrada, só que por uma outra estrada

de terra, não pelo caminho de onde viemos.

- Você não se cansa?

94


- Não, e você?

- Estou um pouco cansado!

Mas já? E olha que o cavalo se ofereceu pra te levar na ida pra que

você estivesse descansado na hora de descer a serra.

- É que é muito longe, e não estou acostumado a andar. Esqueceu

que sou um pássaro?

- Ora Petrúcio, não precisamos ser tudo aquilo que a vida nos impõe.

Você deve se adequar a cada ambiente. Precisa interagir com a harmonia

daqui, da mesma forma que conseguia com a floresta, somente assim

poderá entender a essência das coisas.

- Não, esse lugar não é igual à floresta. A energia daqui é maldosa!

Não existe a mesma magia que existe lá na minha casa.

- Talvez você tenha razão Petrúcio, talvez tenha...

- Olá! Os moços querem carona?

- Ora amigo, até que seria uma boa. Ainda faltam uns quatro

quilômetros até a rodovia.

- Então vamo entrá oras!

O homem estava de carro, levando sua mulher para fazer compras na

cidade mais próxima dali, e nos deu carona até a rodovia.

Chegando lá descemos e o destino se sentou em uma pedra.

- E aí? Pra onde vamos agora?

- Voltar pra cidade.

- Mas parados aqui? Como pretende...

- Calma Petrúcio! Você é impaciente demais! Nossa carona logo vai

chegar.

- Não há nada nesse lugar e a estrada é deserta.

Então um carro passou por nós e parou logo à frente na estrada.

Então ele se levantou da pedra e ficou aguardando. O carro voltou e

novamente parou perto de onde estávamos. Então uma mulher muito bonita

chegou à janela...

- Demorei não né?

- Claro que não minha querida. Vamos Petrúcio!

Eles se conheciam. Destino foi no banco da frente conversando com

aquela mulher de cabelos compridos que dirigia o carro. Eles sorriam muito

e falavam de coisas que eu não entendia.

Eu fiquei no banco de trás olhando a estrada e procurando prestar

atenção no que eles falavam.

Havia alguma coisa na voz dela que parecia prender a minha

atenção! Era uma voz diferente, como se viesse do mar. Era parecida com

as ondas do mar quando encontravam a areia da praia!

- Petrúcio, você poderia descansar um pouco. Por que não dorme? –

disse ela.

- Não, prefiro ficar olhando a estrada.

95


- A viagem vai ser um pouco longa, se fosse você...

- Não quero descansar. Estou muito...

- Aposto que consigo fazer você dormir com uma música.

Então ela começou a cantar e de repente adormeci. Quase que

instantaneamente.

***

- Mas isso é ridículo! Como é que essas pessoas conseguiram roubar

os dois caminhões e vir até aqui sem que ninguém visse nada?

- É uma história incrível senhor Cristóvão! Estão dizendo que os

homens eram mágicos, teve peão que viu um deles conversando com os

cavalos.

- Seremos motivo de piada se essa história for além.

- Bom senhor Cristóvão, meus homens já procuraram nas imediações

e não existe nenhuma fazenda ou sítio. Como o senhor pode ver a mata é

fechada e nada poderia passar por essas árvores.

- Eu sei Arnaldo, eu sei, recolha seus homens e vamos voltar pra

cidade. Também vasculhamos de helicóptero e não há nenhum sítio por

perto. Na certa eles já planejavam roubar o gado, devem ter trocado de

caminhão e jogaram esses dois na ribanceira para nos despistar.

- Será que eles não morreram e alguém saqueou o gado?

- Eu até pensei nisso, mas como alguém iria subir todo esse gado dos

dois caminhões? É uma ribanceira muito íngreme! Não Arnaldo, na certa

trocaram de caminhão e seguiram viagem.

- Bom senhor Cristóvão. Se o senhor quiser que os homens

verifiquem nas cidades próximas.

- Não, deixa isso pra lá. São poucos animais, não compensa. A perda

maior são os caminhões. Vou voltar pra cidade no helicóptero, quando

vocês chegarem lá me avisem. Vou ter que dar explicações sobre tudo de

ruim que aconteceu no rodeio. Tenho que ver o que os advogados vão

fazer.

- É uma pena mesmo o que houve!

- É incrível como aconteceu tanta coisa ruim ao mesmo tempo! Dois

empregados hospitalizados por causa do mesmo touro e o pior: um deles

era foragido da justiça, vários peões feridos, mais de vinte pessoas

intoxicadas por causa de simples camisetas, dois caminhões roubados, uma

dezena de animais, peles de animais escondidas dentro do meu rodeio...

- Esquisito não é patrão?

- Se eu fosse supersticioso acreditaria que tem alguma coisa

aprontando pra cima de mim.

- Não, essas coisas não existem.

- Pois é...bom, recolha seus homens e voltem para a cidade.

- Certo patrão.

96


- Vamos voltar patrão?

- Sim Jarbas, pode decolar.

- Que estranho!

- O que foi?

- Não sei, essa mata na beira da estrada. Parece que não havia esta

mata antes.

- Deve ser impressão sua. Você tem trabalhado demais!

- E então senhor Cristóvão? Alguma novidade?

- Não Jarbas. Infelizmente não. Vamos decolar. Quero chegar logo à

cidade porque minha esposa está uma pilha de nervos com essa história

toda.

- Também pudera. Essa cidade só tem gente da língua grande, e a

imprensa está em cima disso.

- É verdade. Eu só queria saber quem era aquele rapaz que fez as

acusações à imprensa. Não sei...havia algo de tão familiar nele! É como se

eu já tivesse visto aquele rosto antes, aquele modo de falar.

- Ele falava engraçado! Parecia voz de papagaio.

- Não sei, mas tenho medo que esse rapaz signifique problemas. Eu

tive problemas uma vez, mas foi com um papagaio de verdade, numa

viagem de barco.

- Sério patrão?

- Sim! Tão repugnante quanto aquele rapazinho da entrevista!

Acredita que estávamos fazendo uma viagem de navio, tínhamos uma

fêmea de papagaio e um garoto no navio por coincidência tinha um

papagaio macho. Ele voava pelo navio e acabou encontrando com a Sophia,

nossa papagaia.

- Sim...

- Então acabei comprando o bicho e ele começou a furtar jóias dos

outros tripulantes.

- Que coisa heim!

- É...depois me livrei dele, o navio acabou sendo saqueado mais tarde

por piratas que levaram tudo, até mesmo a papagaia. Depois disso não

viajamos mais de navio.

- Nossa! Que história!

- É...os donos dele estavam fugindo. Fiquei sabendo mais tarde que o

pai do garoto havia assassinado a mulher e o amante dentro de casa, que foi

levar o garoto pra escola e ao voltar pra casa encontrou os dois se

abraçando. Ele foi preso e o filho hoje mora com a avó.

- É...acontece cada coisa.

- Pra você ver Jarbas. Os dias de hoje estão muito violentos! Roubos,

assaltos, assassinatos...está cada vez mais difícil sair de casa...

***

97


Nossa! Eu devo ter dormido muito tempo!

Como foi que cheguei até aqui? Será que o destino que me trouxe? E

aquela mulher...parecia uma sereia! Ela me fez dormir só de começar a

cantar. O Vernacleto uma vez falou de uma criatura mágica que vivia nas

águas, ele a chamava de Mãe D’água mas disse que todos os outros seres a

chamavam de Iara...falava que ela tinha o poder de encantar com a voz.

Será que aquela estranha mulher desconhecida é essa Iara?

Não faz sentido, por que ela estaria aqui? Guiando um carro ao invés

de estar nas florestas? Tudo está tão incompreensível!

Nossa, minha face no espelho...realmente dormi muito mesmo, fiquei

até com marcas!

- Com licença senhor! Vim trazer seu café da manhã.

Não reparei que a porta estava aberta, mas na verdade não me

importo muito com isso. Ainda não assimilei os costumes dessas pessoas.

Os humanos trancam suas portas para se proteger de outros humanos. Isso

não faz sentido! Na floresta, os animais somente se protegem de animais de

outras espécies que vem para atacar ou roubar ovos...aqui os outros

humanos roubam objetos e dinheiro, e até matam.

- Ah sim, muito obrigado!

- Espero que o senhor tenha apreciado a canção da Iara!

- O quê? Como você?

- Acalme-se Petrúcio. Você está muito confuso! Na verdade como

acha que veio parar aqui?

- Eu não sei, eu...

98


- Existem muitos te auxiliando no que você vai fazer. É como se as

forças da natureza tivessem se unido para ajudar a mudar as coisas. Tudo

ficou tão mais difícil! Antes nós protegíamos as florestas, isso foi antes

quando a bondade no coração das pessoas era superior ao desejo de

consumir e obter cada vez mais vantagens. Agora a quantidade de pessoas

que tem bondade diminuiu muito, e com isso a nossa força.

- É sério?

- Sim! Para os humanos somos somente lendas, figuras do folclore,

mas enquanto acreditavam que havia alguém interessado em proteger a

floresta, que havia entidades mágicas que cuidavam dos animais e plantas,

das águas e do ar, nós tínhamos uma força mística, mas os tempos estão

mudando...cada vez mais pessoas vão até a floresta para cortar as árvores,

caçar os animais, apanhar os passarinhos. Às vezes tiram os pássaros do

ninho e ao voltar os pais ficam desesperados pensando que algum animal

os levou, e então por dias clamam na floresta até que a tristeza os consuma.

- Sim! É uma coisa muito triste mesmo!

- Quando você conseguiu soltar os pássaros e fazer com que

voltassem para a floresta os seres mágicos ficaram sabendo e decidimos vir

ajudar você a fazer algo por toda a floresta.

- E como eles estão? Meus pais? Meus irmãos? O Vernacleto?

Diga...

- O Vernacleto é um peixe muito velho, ele está bem maior do que a

última vez que o viu...tem mais de cem mil filhotes...

- Filhotes? Mas no lago só ele vivia...

- Não, o Boto conseguiu umas namoradas para ele. Isso tudo

aconteceu depois que a sua história se espalhou na floresta.

- E quem é o Boto?

- É outra criatura mágica da floresta.

- E meus familiares?

- Estão todos bem! Seus irmãos todos já têm muitos filhotes e até os

filhotes deles já tem cria. Na verdade todos os animais da floresta te

admiram muito e esperam ansiosos pela sua volta.

- E quando vou voltar? Quando isso tudo vai acabar?

- Precisávamos de alguém com um sentimento de vingança e justiça

necessários para auxiliar a equilibrar as coisas, que devolvesse a paz entre a

floresta e a cidade...mas não havia nenhuma pessoa assim nesse lugar, e por

isso o destino precisou transformar a sua natureza.

- Mas eu não sou uma pessoa, sou um papagaio.

- Não importa Petrúcio...podemos ser tudo aquilo que nós quisermos!

Nossas vontades nos levam aos lugares que jamais pensamos existir!

Enquanto existir esperança, sempre haverá uma saída! Agora se apronte

que você tem muitas coisas a fazer. Esqueça um pouco da vingança, você

tem que ajudar toda a floresta.

99


Então o estranho mordomo colocou um cachimbo na boca e foi

virando um redemoinho de vento até desaparecer completamente no quarto.

Eu estava com fome então fui comer o que tinha trago...pão com

gergelim, amendoins, água mineral e bolo com castanhas e nozes. Bom, eu

estava no corpo de um humano, mas ainda era um papagaio não é mesmo?

Lógico que eu não iria querer ovos com bacon.

Então fui caminhar. Queria ver a loja de pássaros. O Rubens e o

outro homem foram presos um tempo atrás, na época em que me acusaram

de ter ajudado os Nestor, Gilmar e Fred a assaltarem a joalheria.

Eles já estavam sendo investigados por causa do comércio ilegal dos

pássaros. Eu só queria saber se ainda faziam alguma coisa errada.

Na verdade o que eu queria mesmo era me vingar deles. Foram os

responsáveis por eu estar aqui e por tudo que aconteceu comigo.

Ao chegar à loja estavam o Rubens e o garoto Teleco...o mesmo que

uma vez me deu o meu primeiro presente...

- Posso ajudar moço? Disse o Rubens.

- Pode sim. Eu estou procurando um pássaro para dar de presente.

- Bom, nós temos canários, periquitos, calopsitas, o que o senhor

deseja?

- Não...eu queria um papagaio. Um amigo disse que você tinham

aqui.

- Não sei do que está falando. Nós não trabalhamos com pássaro

silvestre.

- Bom, é que esse meu amigo tem uma criação de capinha e sempre

compra aqui. Não se preocupe, sou de confiança.

- Teleco!

- Sim pai!

- Tome conta da loja que eu vou lá dentro servir um café pro moço.

- Tudo bem pai.

Então nós fomos para a parte de trás da loja, no mesmo lugar onde eu

fui colocado assim que cheguei à cidade.

- Olha moço, vou ser sincero...pássaro silvestre dá uma grana, mas eu

já tive muitos problemas com isso. Eu até fui preso, tive que pagar uma

multa muito alta, tive que vender meu carro, só sobrou a caminhonete,

venha aqui fora, vou te mostrar.

Então eu vi a caminhonete que me trouxe pra cá. Estava ainda com

aquela gaiola grande. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu tentei

disfarçar. O homem estava nervoso e tremia...então disse gaguejando:

- Não precisa disfarçar Petrúcio. Eu sei que é você.

- O quê? Como que...

- Aconteceu muita coisa depois que você ficou preso naquele porão.

Um sentimento de culpa muito grande tomou conta de mim. Em sonhos eu

100


via muita coisa, até que veio aqui um sujeito falando umas coisas, me

dando muitos conselhos.

- É...

- No início eu pensei que era um doido, mas o cara sabia tudo sobre a

minha vida. Disse que todos os dias conversava com você. Falou que você

iria se vingar.

- Eu sei quem é...

- Pois bem Petrúcio, eu estou aqui e mudei. Quero te dizer que eu

sinto muito por tudo o que aconteceu e te peço perdão. Na verdade peço

perdão a todos os papagaios, estou muito arrependido e só peço que não

faça nada comigo e com a minha família.

- Cadê o outro homem?

- Ele morreu no ano passado. Tinha uma doença incurável e não

resistiu...

Comecei a caminhar...

- Aonde você vai Petrúcio?

- Vou terminar o que eu vim fazer aqui. Se você sabe quem eu sou

então deve saber também tudo que está pra acontecer.

- Sim...e obrigado Petrúcio!

- Você não mudou Rubens...tem pássaros presos em gaiolas.

- Sim, mas esses pássaros não são do nosso país.

- São pássaros, e pássaros tem asas para voar, bico para carregar

galhos para fazerem seus ninhos. As árvores são os seus poleiros naturais, o

sol da manhã é a sua luz e a escuridão da noite tendo as estrelas e o

plenilúnio é que é o momento do seu sono. A natureza rege o horário de

acordar, de dormir, de se alimentar. As gaiolas são uma prisão eterna! As

pessoas acham que os fazem felizes dando água, frutas e ração, mas a

natureza os dá isso em fartura quando estão em liberdade. Você viu a

gaiola humana quando esteve preso, e foi alimentado. Você era culpado e

pagou sua pena, estes que estão presos nada fizeram.

Ao olhar para trás vi que o homem chorava e não quis me olhar nos

olhos.

O caso do papagaio repercutiu na cidade. A história de um ser

mágico que virou homem era contada em muitos lugares.

As pessoas morriam de rir ao ouvir o conto. Poucos sentiram ódio

como o Cristóvão que perdeu uma grande quantidade de dinheiro tendo que

indenizar as pessoas que compraram as camisetas do Adamastor.

O Nestor, o Gilmar, o Fred e o pirata Henrico estavam presos, e não

podiam ouvir falar no conto do papagaio Petrúcio que se enfureciam,

outros presos como o Rodolfo achavam engraçado.

Quando cheguei a casa estava lá o destino me esperando.

- O que você quer?

101


- Bom...eu esperava que você não ficasse tão exposto, mas isso até

que ajudou em nossos planos!

- O que quer dizer?

- Acalme-se!

- Nossos planos? Eu não tenho plano algum com você. Isso tudo é

muito confuso e está me deixando louco!

- Bom Petrúcio, é que...

- Ah, me deixe em paz!

- Estou aqui com a intimação para o julgamento do Adamastor. Você

é uma das testemunhas.

- Ótimo! Tenho muito o que falar.

- Você precisa controlar essa raiva Petrúcio...

- Estou bem assim, nada me fará mudar o meu jeito de ser! Não é

você e nenhum outro desses fantasmas que está me atormentando e fazendo

essas coisas todas acontecerem comigo.

- Petrúcio, venha aqui na janela...quero te mostrar uma coisa.

Então ao chegar à janela vi vários pássaros, canários belgas e

periquitos australianos voando pelo céu. Eles pareciam não saber o que era

a liberdade...brincavam no ar, davam voltas, cantavam...

- Nem tudo é apenas vingança Petrúcio. Há uma maneira inteligente

de se resolver as coisas! Hoje você conseguiu libertar muitos pássaros

apenas com palavras...tempos atrás precisou machucar um homem

atacando com selvageria. Você precisa enxergar melhor a natureza das

coisas, parar de ser tão impulsivo e usar essa inteligência que você tem,

você precisa mudar um pouco.

- Sou um animal selvagem! Sou da floresta e na floresta atacamos

para nos defender.

- Mas eu só estou tentando fazer você entender...

- Eu só queria voltar pra floresta e esquecer que um dia vim parar

nesse lugar, mas se você e esse bando de fantasmas não quer me levar de

volta...

- Petrúcio, eu...

- Chega de conversa, me deixa...

- Está bem Petrúcio! Estou tentando te ajudar, mas eu já escolhi você

para isso...vou deixar a sua natureza, o seu instinto agir...

102


Capítulo 6

- Ordem no tribunal! Ordem...

Era ele. O juiz era o destino. Por que esse cara fica me seguindo? Já

estou cansado dele! Será que o destino vai estar em todo lugar? Interferindo

em tudo que eu for fazer?

- Faça entrar a próxima testemunha.

Nisso o guarda chamou a testemunha Joana. Não me lembro o seu

sobrenome.

- Perante a sagrada escritura, jura dizer a verdade, somente a verdade

e nada mais que a verdade?

- Sim meritíssimo.

- Com a palavra o advogado de acusação.

Em meio ao público que assistia ao julgamento estava o menino

Juca. Ele já havia me visto. Eu pensava no que seria da sua vida se o pai

fosse condenado.

Às vezes o juiz batia o martelinho sobre a mesa apenas por não ter o

que fazer. Que figura! Eu olhava para ele ora com raiva, ora com pena.

Passaram-se horas de julgamento até que me chamaram para depor:

- Senhor Petrúcio, conte-nos exatamente o que aconteceu.

- Sim meritíssimo. Quando fiquei sabendo que haveria um rodeio, eu

fui lá para conhecer...eu tinha curiosidade para saber o que era um rodeio,

foi aí que ao chegar vi que muitos animais eram maltratados e...

- Protesto senhor meritíssimo! Disse o advogado do Adamastor e do

Cristóvão.

- Protesto negado. Continue o depoimento.

- Procurei saber mais a respeito e descobri que os touros e os cavalos

eram do réu Cristóvão e de sua mulher Dara. Vi que não eram animais

bravos, mas quando eram provocados ficavam violentos para entrar na

arena de rodeio. Cheguei a presenciar o momento das chicotadas.

103


- Senhor Petrúcio: o senhor acredita que o réu tinha conhecimento

desses fatos?

- Sim senhor meritíssimo. Com certeza o dono desses animais sabia

da situação, mas como ganhava muito dinheiro com os rodeios nem se

importava com a situação dos animais.

- Protesto senhor meritíssimo...

- Ordem, ordem! Protesto negado. Senhor Petrúcio, e com relação

aos casacos de pele se animais, o que o senhor te m a dizer.

Nesse momento eu olhei para o Adamastor, para o Juca, para os

presentes...

- Tenho certeza que o réu Adamastor era quem promovia a caça de

animais nas proximidades de sua casa e pretendia vender as peles no

rodeio.

- Absurdo...

- Não é possível!

- Ordem! Ordem no tribunal!

Não resisti. Não havia fundamento em mentir. Não era vingança,

mas justiça apenas. Não sabia o que iria acontecer com o Juquinha, mas eu

também fui retirado dos meus pais, e os humanos não são melhores que eu.

Ao olhar para o destino novamente ele parecia tranquilizado! Queria

ter certeza que eu faria a coisa certa. Sabia o que eu estava pensando.

Felizmente para o Adamastor ele teve sua pena convertida em

serviço comunitário além de uma multa de valor bem elevado, que foi paga

pelo Cristóvão. Já o Cristóvão teve que pagar muitas cestas básicas, que

foram doadas para creches da cidade.

Na saída do tribunal havia uma quantidade enorme de repórteres que

me cercaram...

- Senhor Petrúcio! Por favor...

- Senhor Petrúcio...

- É verdade que o senhor presenciou pessoas batendo nos animais do

rodeio? Eles utilizam de selvageria com os animais?

- Sim! Esses animais usados em rodeios não são bravos. Os peões

usam insetos para os picarem, um pó que causa ardência e amarram os

animais com cordas apertadas para que fiquem saltando tentando amenizar

a dor.

- E com relação a um dos envolvidos ter praticado caça naquela

localidade? Havia peles de animais? O que o senhor sabe?

- Também pude verificar. Vi muitas peles em forma de casaco. Ele

foi julgado por isso e terá que arcar com os prejuízos, porém prejuízo maior

é para a natureza. Lá naquele lugar já não existem animais, pois todos

morreram.

- E com relação ao rodeio, o que mais o senhor sabe?

104


- Na verdade toda essa cidade é culpada. São as pessoas que vão aos

rodeios, as pessoas não têm consciência das atrocidades que são cometidas

com os animais. Um pássaro na gaiola por exemplo, se soubessem de onde

ele veio, a forma como foi capturado, ser retirado de seu lar, da sua

liberdade, ser impedido de procriar...enquanto a floresta vai ficando cada

vez mais vazia e sem vida. Com isso vocês mesmos não se preocupam.

- O senhor faz parte de alguma organização de proteção animal?

- Não, na verdade é coisa do destino mesmo eu estar aqui

hoje...levando essas palavras para muitas pessoas. Vocês que estão

assistindo a televisão, devem pensar mais na natureza, em proteger os

animais e as plantas, a floresta...muitas vezes é bom ter um pássaro em casa

ou outro animal da selva, mas tenha a certeza: esse animal não deveria ser

retirado da floresta. É lá a sua casa, os animais da selva que nasceram na

selva devem ficar na selva, não na casa de ninguém, presos. Para isso

existem cachorros e gatos que são animais domésticos.

- O senhor acha que a falta de legislação favorece o contrabando?

- Sim! São os homens que fazem as leis dos homens, e por isso

acabam olhando apenas os seus interesses pessoais e partidários. Mas tenho

certeza que muitas pessoas irão se conscientizar a partir de hoje!

- E o que as pessoas poderiam fazer?

- É importante entregar os animais silvestres que estão ilegais nas

casas para o órgão que defende o meio ambiente. Lá os animais serão

tratados e voltarão para a floresta que é o lugar deles. É preciso ainda que

os políticos votem leis para garantir a proteção da natureza, pois pode

parecer pouca coisa, mas se não houver proteção agora, no futuro não

existirá mais nenhum animal silvestre. Os seus netos talvez não tenham a

oportunidade de ver um pássaro silvestre voar...

Então comecei a sentir uma estranha dor no abdômen...

- Senhor, o senhor está bem? Está se contorcendo...

- Se afastem! Está acontecendo alguma coisa comigo.

- Alguém chame uma ambulância...

- Olhem, ele está...

- Minha nossa! O que é isso?

Eu fui me contorcendo, diminuindo de tamanho. Pontas fincavam

minha pele e penas saíam.

Rapidamente voltei a ser o papagaio Petrúcio e as câmeras filmavam.

- Olhem isso: é incrível!

- Um grande milagre, vejam só!

Saí voando assustado do meio daquelas pessoas tentando achar um

lugar para me esconder...cada vez mais alto...olhava para trás e as pessoas

ficavam menores.

Depois de muito voar acabei ficando cansado e parei em cima de um

prédio. Era na saída da cidade e eu estava muito confuso!

105


Fiquei ali um tempo tentando recuperar as energias e havia uma

fadiga enorme nos meus músculos. A respiração era ofegante...

De repente um helicóptero veio na direção do prédio...era o

Cristóvão...

Saí voando o mais rápido que pude e ele veio seguindo de

helicóptero...quando começava a se aproximar eu desviava e ele vinha

atrás...

Tentei voltar para o meio da cidade, voando por entre os prédios e

casas... e ele continuava me seguindo. Tinha o som da morte!

Havia muita raiva em seus olhos...aquele barulho do helicóptero...fez

lembrar de quando eu estava na casa do Juquinha, quando houve o acidente

com o carro...pensamentos confusos me dominavam e eu gritava...

Então pensei que se despistasse o helicóptero conseguiria voar para

os lados da casa do Juquinha.

Comecei a voar mais perto dos prédios e eles ficavam de longe com

o helicóptero.

Lá embaixo muitas pessoas observavam o que estava acontecendo.

Havia muito alvoroço na cidade por causa da reportagem em que eu virei

papagaio em frente às câmeras. Eu tentava despistar a atenção do

Cristóvão, mas ele sempre rodeava os prédios e me achava...

Foi quando muitos pombos começaram a voar das praças, das

árvores, dos telhados e então o céu ficou todo cheio de pombos! Centenas

de pombos voando junto comigo.

O Cristóvão chegou o corpo para o lado de fora do helicóptero e deu

um tiro de espingarda, quase desequilibrando por causa do vento forte

debaixo da hélice do helicóptero...

Os pombos então se separaram assustados com o barulho e saíram

voando em retirada...e eu voltei a voar sozinho.

Novamente o Cristóvão deu um tiro que pegou de raspão em minha

asa esquerda e senti dor, mas continuei voando.

Cada vez mais cansado e tendo somente a opção de voar reto na

direção da casa do Juquinha comecei a voar, perdendo cada vez mais

altitude...sentia que minha vida estava perto do fim...

Ele deu mais um tiro e eu senti o som da munição passar perto de

mim.

O helicóptero vinha logo atrás e eu já estava na saída da cidade...

Então o Cristóvão colocou novamente o corpo para fora do

helicóptero mas não ouvi barulho de tiro.

Com medo e sentindo minha asa esquerda latejando continuei

voando da maneira que podia, e ao olhar para trás vi o helicóptero

descendo rapidamente para o chão e pousando na estrada.

106


Consegui voar ainda mais uns três quilômetros, então acabei caindo

próximo de uma placa. Minha asa sangrava e eu me sentia cada vez mais

fraco.

Não sei se pelo cansaço ou pelo ferimento comecei a ver tudo tão

embaçado, tão cinza...

Então quando abri de novo os olhos estava na casa do Juquinha, com

um curativo na minha asa.

- O que aconteceu?

- Eu te encontrei perto da estrada Petrúcio. Saiu no plantão do jornal

no meio do desenho que um homem havia sofrido um acidente aqui perto e

eu fui lá pra ver.

- É...

- Nossa, essa história é muito maluca! Mostrou você na televisão

virando papagaio, foi incrível! Muitas pessoas estão procurando você e...

- O que aconteceu com o homem?

- Não sei. Quando eu cheguei lá um helicóptero já tinha socorrido ele

no chão. A reportagem só falou que ele foi levado inconsciente pelo piloto

do helicóptero. Algumas pessoas disseram que ele caiu do helicóptero.

Quando fui ouvindo os comentários fiquei sabendo que era o dono do

rodeio, que ele estava te perseguindo, então voltei procurando você pelo

caminho, mas não achei, foi aí que trouxe o Roger para me ajudar.

- Que coisa...estranho, não estou sentindo mais a dor na asa. Esse

curativo é bom mesmo!

- Olha Petrúcio: na verdade você quebrou a sua asa esquerda. Eu até

tentei...

- O que quer dizer Juca?

- Você não tem mais a asa esquerda Petrúcio. Eu demorei muito pra

te achar e já estava quase morto. Sua asa estava cheia de bichinhos. Eu tive

que cortar. Tem três dias que você está aqui em casa, esses dias deixei você

no meu quarto escondido do meu pai e só agora você conseguiu abrir os

olhos. Eu estava te alimentando com fubá e água numa seringa...

- O quê?

- Foi a única solução. Eu fiz esse curativo pra parar de sangrar senão

você morreria.

Fiquei imóvel...pensamentos voavam em minha cabeça numa

velocidade muito grande.

Minha vida! Voar pela floresta em cada manhã, entre as folhas e os

galhos...ir até o lago...

Mutilado! Eu que era alegre e possuía esperança agora me vejo sem

lugar pra onde ir...

Deixasse morrer naquele mato ao lado da estrada onde caí. Foi

justamente o carinho do Juquinha que se tornou a minha decepção mais

dolorosa, mais difícil de aceitar.

107


Desde o primeiro instante em que vim parar aqui eu só pensava em

voltar pra casa. Foram dias e noites muito longos de sofrimento! Eu

pensava na floresta, em todas as formas de vida...eu tinha uma conexão

espiritual com a seiva da vida.

Era o papagaio selvagem, sem nome, mas com liberdade! Minha

alma era como lava de alegria a cada manhã, e ao recolher o vôo da tarde,

quando o sol estava se pondo, cansado e com o papo cheio de alimento,

suspirava as brisas da noite, quando as rosas da floresta perfumavam o ar e

as estrelas cintilantes acesas no céu tornavam o céu da floresta o mais

bonito do mundo!

- Em que eu posso te ajudar Petrúcio? Se houver alguma coisa que eu

possa fazer por você.

- Leva até a cidade. Ainda é cedo e o seu pai só volta mais tarde. Vou

até a loja de pássaros. Quero morrer na floresta.

- Você não vai morrer Petrúcio. Vou cuidar de você. Você vai ficar

bem...

- Juquinha!

- Tudo bem Petrúcio.

O Juquinha chorava enquanto pegava uma mochila e colocava o

cestinho na bicicleta. Ele colocou também uma garupa adaptada para o

Roger.

Eu fiquei olhando para o curativo na minha asa, olhei para o

horizonte, abri a asa direita e o toco de asa que restou da esquerda. Meus

olhos se encheram.

Então quando ele terminou de colocar o cestinho nós fomos pela

estrada a caminho da cidade.

O Juquinha se desenvolvia rapidamente! Já não brincava como antes

e sua estatura aumentava rápido! Não me esqueço nunca do dia que nos

encontramos no caminho, perto de sua casa, quando fui deixado naquela

casa pelo Nestor e pelo Gilmar.

E hoje depois de tanto tempo, quando eu estava mais necessitado de

viver a vida que eu sempre vivi, com saudade da minha floresta querida,

rever meus amigos e irmãos, é justamente o dia mais triste da minha vida.

Embora o carinho do Juquinha e sua preocupação comigo pouparam minha

vida, é como se meu coração o culpasse por não ter deixado que eu

morresse sem ter o desgosto de não poder mais voar.

Hoje sou um papagaio enfraquecido de saúde e de esperança. A

folhagem do tempo cobre o solo da minha vida. Sinto que tão breve

deixarei a existência mortal para encontrar a tal felicidade que o destino me

prometeu na aurora da minha conturbada história.

Ele falou que iria me ajudar. Falou que depois disso tudo viria a

recompensa. Eu acreditei nele. Agora estou aqui nessa situação. Eu odeio o

destino!

108


Vejo com dificuldade tudo ao meu redor...vista cansada. Estou com

saudade da floresta! Que me importa o vigor e a saúde? Queria só a

felicidade!

Enquanto viajava em pensamentos tão distantes, grandiosos, o

Juquinha contava sobre tudo que havia acontecido depois da confusão no

rodeio.

Falou que o peão Gonzáles acabou assumindo o relacionamento com

Tereza e que ficaram noivos. Que ela começou a cuidar mais da sua beleza,

que foi por minha causa, que eu incentivei ela a descobrir sua beleza e se

cuidar. Disse que a cada dia que passava ela ficava mais bonita.

O Nelson na verdade era o destino, essa era a sua identidade. Ele

começou a cantar músicas de samba nos bares da cidade. Continua solteiro

mas tem mais de dez namoradas.

Falou que o Adamastor agora está trabalhando na roça, que fica o dia

todo no trabalho e à noite volta pra casa. Sorrindo falou pra mim que acha

que ele está namorando a dona Joana escondido, aquela que parece bruxa e

que fazia os casacos com as peles de animais que o Adamastor e seus

colegas caçavam.

Então de repente o Juquinha ficou calado e parou a bicicleta. No

caminho havia dois lobos, na margem da estrada. Estava prestes a nos

atacar quando o Roger desceu da garupa e começou a encarar os dois lobos.

O Roger era um pastor alemão grande e os lobos eram um pouco

menores que ele, mas eram dois. Eu estava dentro da caixa e o Juquinha ia

fugir. Foi quando falei pra ele ajudar o Roger, que sozinho não se pode

fazer muita coisa, mas quando existe união tudo fica mais fácil.

Então ele pegou umas pedras e jogou na direção dos lobos. O Roger

começou a latir e os lobos acabaram entrando na mata à beira da estrada.

Continuamos então a caminho da cidade.

O Juquinha demorou uma hora pra chegar até as primeiras casas.

Para que as pessoas não me vissem ele me levou numa caixa com furos.

Fui dizendo a ele o caminho para a loja de pássaros e nos aproximávamos

cada vez mais de lá...

Chegando lá, já não havia a loja de pássaros. Somente mesas,

cadeiras e alguns homens pintavam as paredes.

O Juquinha disse que queria falar com o Rubens, então um dos

pintores foi chamá-lo.

- É verdade! Aí quando eu falei que o Petrúcio estava dentro da caixa

no cestinho da bicicleta o homem se assustou. Falou rapidamente para

entrarmos e dentro da casa fez questão de pegar a caixa e abrir para que o

Petrúcio saísse.

Então o Rubens foi lá dentro e trouxe biscoitos, chocolate quente e

serviu ao Juquinha. Trouxe também ração numa tigela e deu ao Roger.

109


Ele falou que não trabalharia mais com pássaros. Que estava

terminando de pintar a loja e que seria uma lanchonete. Disse que pensou

muito sobre o que eu havia falado, que se sentiu mal por manter os animais

presos em gaiolas e que trabalharia com outra atividade...

- Mas Petrúcio...em que eu posso te ajudar?

- Quero que me explique o caminho pra voltar pra floresta, de onde

vocês me tiraram.

- Petrúcio. Lá é muito longe, não dá pra ir de bicicleta. Tem que ser

de carro.

- Se o senhor explicar eu dou um jeito.

- Não Juca, não é tão fácil assim. Petrúcio, fique aqui. Eu prometo

que levo você de volta para a floresta no sábado, assim que terminar de

pintar a lanchonete.

- Mas é que...

- Deixe Juquinha. Pode deixar. É o que eu quero.

- Petrúcio...

- A única coisa que eu quero agora é voltar para a floresta. Não tenho

muito tempo de vida e só quero sentir de novo a alegria de estar em casa.

- Vou sentir saudade Petrúcio!

- Estarei sempre com você Juquinha! Enquanto tivermos esperança

haverá sempre uma energia nos unindo, não só nós dois, mas a todos

aqueles que protegem a natureza. Nisso o Rubens deixou cair uma lágrima.

Os olhos do Juquinha estavam cheios de lágrimas. O Roger estava do

lado de fora da loja, esperando o Juquinha. Ele ficou um tempo ainda me

olhando e eu fui caminhando em direção à cozinha.

- Adeus Petrúcio!

Eu não respondi nada. Fiquei imóvel, de costas para ele enquanto ele

virava as costas e saía da casa. Então eu me virei e olhando o garoto sair

disse um adeus baixo, triste e fraco!

110


Capítulo 7

Nos outros dias eu permaneci dentro da casa, sem coragem de nem

ao menos olhar para o sol aqui nessa cidade. Ficava o dia inteiro na janela

da cozinha esperando o tempo passar, ansioso e angustiado depois de tudo

que aconteceu. Sentia o peso de toda a minha vida!

Os pedreiros que estavam trabalhando na reforma da loja passavam

perto de mim e eu contava piadas para eles sempre que pediam. Minha voz

era triste e minhas piadas eram as mesmas, mas eu sentia algo diferente nas

piadas, havia mais sabedoria!

O Rubens evitava olhar para mim. Parecia sentir vergonha. Até que

no sábado, pela manhã, pouco antes de sairmos ele me chamou...

- Petrúcio. Preciso te contar uma coisa.

- Fale Rubens.

- O Amadeu, meu antigo sócio não está morto. Na verdade eu tive

medo de você, medo que fizesse alguma coisa.

- Você mentiu?

- Olha Petrúcio. Ele ainda é meu sócio, na verdade um tempo atrás

ele abriu uma lanchonete na cidade. Ele me aconselhou a sair antes desse

negócio de pássaros. Começou a ganhar um bom dinheiro na lanchonete.

Ele ficou com medo depois daquilo que aconteceu na loja, quando você

atacou.

- Sei...

- Fiquei com medo que você fizesse algo de mal para ele. Ele

colocou o seu nome na lanchonete e hoje ela é famosa na cidade! Servem

111


muitos sanduíches diferentes e o Amadeu se tornou um defensor da causa

animal, realmente um protetor do meio ambiente! Ele mudou muito!

- E por que você não me falou isso antes?

- Eu estava com medo de você...

- Medo de mim? Eu já nem posso mais voar, já não posso mais fazer

nada!

- Não, não é medo de você bicar ou arranhar com as unhas, é medo

da sua pessoa Petrúcio.

- Conversa...

- Petrúcio, tem mais uma coisa...

- O que é?

- Ele está aqui. Quando contei pra ele a história ele veio para falar

com você. Você aceita falar com ele?

- Deixa Rubens, eu converso com ele.

- Então você é o Amadeu?

- Petrúcio...eu quero te pedir desculpas por tudo que

aconteceu...dizer que eu sempre carregarei essa culpa imensa por tudo que

aconteceu, por toda a minha vida.

- Eu também Petrúcio.

- Sabe Petrúcio...essa história toda serviu para abrir a mente de

muitas pessoas. Você trouxe uma nova consciência a muitas pessoas aqui

nessa cidade...

- Tenha certeza que nós vamos fazer o possível pra preservar cada

vez mais a natureza Petrúcio. Agora entendemos o sentido das coisas.

- Nós precisávamos de algo para abrir nossas mentes, da enorme

besteira que estávamos fazendo. Por gostar de animais achávamos que

estávamos fazendo o bem prendendo na gaiola, mas isso tudo só serviu

para o nosso próprio ego e nada mais.

- De agora em diante tudo vai mudar Petrúcio.

- Sabe Petrúcio...quando vi aquela reportagem fiquei muito

constrangido! Um sentimento de culpa muito grande tomou conta de mim.

Agora sei o quanto a natureza pode ser forte, a ponto de te transformar

numa pessoa para vir até aqui e defender a floresta, pois nenhum homem

fez isso.

- Eu queria dizer que o dia em que vocês dois me capturaram na

floresta, eu estava com fome, e ao ver que havia aquela quantidade de

sementes fui até lá para me alimentar. Eu senti desespero quando aquela

caixa se fechou.

- Eu sei Petrúcio, nos desculpe!

- Ao olhar para a floresta ficando pra trás senti que minha vida ficava

pra trás. É assim que se sente cada animal que é retirado da mata e trazido

para a cidade para servir de enfeite...olhem o que aconteceu comigo, vejam

tudo que foi causado por vocês...

112


Então eu não disse mais nada e os dois de cabeça baixa foram lá

arrumar a caminhonete para irmos até a floresta.

O Rubens falou que esta seria a última vez que aquele gaiolão seria

usado.

Às onze horas e trinta e quatro minutos o velho motor do animal de

ferro rugiu novamente, para me levar embora da cidade fria que consegui

requentar com um conto.

No caminho as lembranças de toda a minha vida passavam por meus

olhos.

Como se tivesse acontecido a um segundo atrás: num dia chuvoso na

selva, o último rebento da ninhada assinando sua rubrica no livro da vida.

Minha vida na floresta foi feliz! Voei junto dos meus irmãos sob a

proteção dos nossos pais.

Até parece que foi ontem que o Serginho me comprou na loja de

pássaros e eu, um filhote de papagaio fui levado por ele à sua toca branca

de janelas azuis.

Parece que foi ontem que o Nestor e o Gilmar me pegaram na casa

dele e acabamos indo parar na casa fora da cidade.

Parece tão recente eu ter conhecido o Juquinha e acabar retornando

para a casa do Serginho.

Fui parar no navio onde conheci a Sophia...ah! Sophia...qual será o

nome que ela colocou em nosso filhote? Jamais saberei...

Parece que foi ontem que conheci os piratas e os pássaros que

estavam no navio deles...pássaros?

Nesse momento, enquanto a caminhonete passa pelas ruas, vejo

sobre os telhados das casas uma fileira imensa de pardais batendo as asas,

pardais e pombos com seu arrulho.

Nas árvores muitas rolinhas voando de um lado a outro numa cena

emocionante!

No alto de um poste havia um urubu e quando o carro passou ele

ficou rente ao sol. Era como se houvesse um globo dourado ao redor do seu

corpo. De asas abertas...

Em algumas calçadas ratos e baratas se agitavam ao me ver passar.

O silêncio urbano naquela cidade no horário do almoço foi quebrado

quando eu, em ato de amistosa despedida batia a asa direita e o que restou

da asa esquerda, gritando...não palavras, as inúmeras palavras que aprendi,

mas o som nativo dos papagaios.

Os pássaros da cidade respondiam com muito barulho! Bem-te-vis,

andorinhas, pardais, pombos, sabiás...todos eles ao mesmo tempo...

Juntaram-se a eles os cães com o latido, as cigarras, os grilos...e com

um belo vôo digno de primavera as andorinhas-de-sobre-branco.

Nesse momento o carro deixava a última rua da cidade, e entrava na

rodovia que iria me legar para a floresta.

113


Lembrei da minha prisão e do dia em que saí daquele porão onde fui

colocado para morrer. Várias vezes as pessoas aqui fizeram maldades

comigo...fui abandonado, jogado ao mar, colocado num porão sem comida,

atiraram em mim...

Lembrei da vingança...

Eu me tornei um humano graças ao destino para ajudar os animais do

rodeio e para mudar a cabeça das pessoas. Eu poderia viver entre eles, mas

meu futuro não é esse...sou filho da selva, não um filho da cidade.

Enquanto a estrada passava, lembrei do rodeio em que eu conversei

com o touro matador e conheci o cavalo Eleu.

Lembro de mim caindo naquela beira de estrada com a asa

machucada e depois tudo se apagando...

Chegou ao momento em que sou colocado na mesma gaiola que me

trouxe para esta cidade, no mesmo carro, guiado pelos mesmos homens que

me trouxeram para cá.

No caminho...vejo em cada copa de árvore um pássaro cantando

quando eu passo. Depois que passo param de cantar e voam.

Antes de chegar à floresta, quero revelar um segredo que irá ficar

aqui nessa mesma cidade: eu nunca tentei ser criativo, ou alegre, triste,

esperto...

Tudo o que eu fiz foi ser eu mesmo! Jamais procurei ser uma outra

pessoa para agradar os outros. Consegui ser querido por muitos e odiado

por outros tantos, fazendo apenas o que o meu instinto ordenava. Pois bem,

enquanto eu vivi como homem entre os moradores da cidade, nas noites em

que estava triste escrevia contos, piadas, histórias...também escrevi tudo o

que os animais pensam das pessoas, da forma de tratamento, também sobre

a relação espiritual com a natureza.

Sei dos movimentos que tiveram início quando dei aquela entrevista.

Muitas pessoas passaram a enxergar a natureza de uma forma diferente,

mas não é ainda o bastante. Enquanto houver um único animal ou uma

única árvore sendo maltratada, ainda existirá infelicidade.

Antes de ir para aquele julgamento peguei aquelas folhas e coloquei

dentro de um envelope. Deixei em algum lugar dessa cidade para que

quando alguém um dia encontrar possa revelar ao mundo.

Sei que esses contos que escrevi serão contados a muitas

pessoas...sei que as piadas farão muitas pessoas darem gargalhadas...sei que

as histórias trarão mais experiência à vida das pessoas.

Então a caminhonete parou em frente a uma enorme árvore.

- Petrúcio: a sua casa é aqui!

- Juro Petrúcio, que nunca mais voltaremos aqui na floresta, e assim

que chegarmos à cidade vou destruir esse gaiolão.

Eu estava muito zonzo. Pedi para que o Rubens me tirasse do gaiolão

e colocasse no chão. Senti que eu não teria forças para pular até o chão.

114


- Eu perdôo vocês dois.

Só isso, e eles foram embora. Tiveram vergonha de olhar pra trás.

Olhando para o interior da mata, me volto para ela enquanto um

vento calmo toca minhas penas.

Cada vez que minhas patas tocam o solo e vou me aproximando do

interior da mata ouço os bem-te-vis cantando alto, misturando o som ao

som do azulão.

Umas quarenta vezes o bem-te-vi cantou, anunciando aos pássaros da

floresta...

Foram se aglomerando nos galhos das árvores...muitas espécies,

muitas cores, muitos sons diferentes.

Quando eu fui chegando mais ao centro, na terra cheia de húmus e

folhas secas parei de caminhar. Meu corpo cansado começou a ficar

amolecido e já tinha dificuldades para ficar de pé.

Era tarde e alguns poucos raios de sol passavam por entre as folhas e

as copas das árvores e chegavam ao meu corpo. Quando um deles alcançou

meus olhos lembrei das manhãs, onde eu ia até a copa daquela grande

árvore para ver o sol...

Nas árvores vários pássaros me observavam, entre eles o pica pau

Jackson, o curió Tadeu com dezenas de outros curiós, o canário-da-terra

João, muitas jandaias, coleiras, sabiás, bem-te-vis...azul...azulão...

Andorinhas...andorinhas...

Araras...

Araras amarelas e azuis, grande quantidade delas, se apertando na

árvore para me ver...

Foi ficando escuro...

Vi meus irmãos e meus pais, na verdade era um vulto deles,

acinzentado...

Um vulto acinzentado...

Sentindo longe um canto embaraçado, que já não pude identificar

que pássaro seria...

Foi dando desespero...

Não havia força para andar...

Novamente um raio de sol alcançou um dos meus olhos...

Meu corpo balançava...levemente...

O sentido da vida...

Caí no montinho de terra onde morri e a última coisa que ouvi antes

de falecer, com os olhos se fechando e tudo ficando escuro foi o canto de

todos aqueles pássaros e aves ao mesmo tempo. Um canto alto se

despedindo de minha alma, que nesse mesmo instante abandonou meu

corpo.

Este foi o fim de minha vida.

Não significou tristeza, mas liberdade!

115


Meu corpo foi consumido pela terra e se misturou ao húmus, à seiva

da vida que mantém viva cada árvore da floresta.

Eu venci, pois protegi a floresta contra as pessoas, mesmo sozinho e

contra animais muito mais nocivos que o gavião...

Eu voltei pra casa! Esse foi o desejo que manteve viva a minha

esperança. Era esse o sentido da minha vida e tudo que fiz foi por amor!

E mesmo na minha morte ajudei a manter a vida da floresta. Naquele

mesmo lugar nasceram vários girassóis, sempre voltados para onde vem a

luz do sol, e minha alma foi para o céu dos passarinhos.

Fim!

“Às vezes, por sermos inexperientes demais nos assuntos da vida,

não conseguimos dar o valor certo a um bem tão valioso que possuímos.

Antes tivesse um vendaval o levado para muito longe daqui, onde

houvesse alegria e paz em seu coração, do que vê-lo perdido entre desejos

de vingança e esperança de voltar para o seu mundo..

Antes tivesse a mão do tempo o transformado numa estrela que eu

pudesse ver toda noite, ao invés de sua imagem se desintegrar cada vez

mais como farelos nas minhas lembranças mais tristes daquele tempo que

se foi para nunca mais voltar.

Eu fui injusta e ingrata, por vaidade, e fui indigna por atitudes, mas

recebi dele muito mais do que eu poderia, mais do que eu merecia...

Nos dias de hoje a dignidade custa caro e existem dois mil, cento e

oitenta e três canalhas para cada digno que se revele, ou até mais.

O amor é o mais perverso de todos os sentimentos, porque é o mais

importante e isso quem me ensinou foi a criatura mais importante de minha

vida, depois de meu filhote Giancarlo. Um dia foi despertado em minha

vida e muitos meses atrás, a vida me tirou, tirou os seus olhos dos meus

numa despedida.

Peço desculpas a alguém se o fiz chorar, se magoei...é que nem tudo

na vida é como esperamos que fosse, e eu...”

Papagaia Sophia

“Bom...eu nasci e cresci sem a presença dele, aqui nessa mesma casa.

Quando a mãe foi achada numa praça, toda suja de terra, ela estava prestes

a botar um ovo, e desse ovo eu nasci. Ela disse que foi poucos dias depois

que ela veio para essa casa. Que nossos donos ficaram muito contentes e

cuidavam muito dela enquanto ela estava me chocando. Quando nasci eles

ajudavam a me alimentar com papinha.

116


Desde pequeno quando perguntava para minha mãe ela falava muitas

coisas dele, sempre com um brilho no olhar, de admiração e saudade.

Desde pequeno sentia muito orgulho do meu pai! As histórias dele sempre

me motivaram a ser forte diante de qualquer situação.

O meu pai foi o famoso papagaio Petrúcio, mas mesmo que fosse um

papagaio qualquer, queria que tivesse me visto nascer e voar pela primeira

vez aqui no quintal desta casa onde vivo com a mãe e nossos donos, que

são um casal de idosos, enquanto eles se divertiam me ajudando quando eu

ficava quieto no chão.

Aqui numa das praças do bairro fizeram uma estátua de um

papagaio. Quem mandou fazer foi um homem rico chamado Amadeu. A

mãe falou que é idêntica ao pai, e que esse homem foi quem trouxe o pai da

floresta pra cá, que depois de muito tempo se arrependeu de prender

animais e virou outra pessoa. Algumas vezes a mãe voa até a praça e fica

olhando para a estátua por algum tempo, e depois volta. Eu nunca perguntei

nada para ela, evito tocar no assunto do pai porque ela sempre fica triste.

Às vezes nos sonhos sinto que ele conversa comigo. Às vezes

acordado, me perco em pensamentos e procuro imaginar sua fisionomia e

sua voz. Ah, o Petrúcio era genial! Os pássaros daqui me conhecem por

causa do meu pai, é como se eu fosse uma herança dele deixada aqui, um

ídolo!

O meu pai foi o papagaio mais famoso da floresta onde nasceu!

Sei todas as piadas que ele contava, mas não sei contar tão bem

quanto as pessoas falam que ele contava.

Sou feliz e vivo uma vida quieta aqui nessa casa. Os nossos donos

todos os dias nos dão comida e temos um pequeno jardim para pousar nos

arbustos. Eu tinha vontade quando era mais novo de conhecer a floresta

onde ele nasceu e morreu, mas pelo que alguns pássaros falam é um lugar

perigoso! Eu não resistiria lá pois moro aqui na cidade desde que nasci.

O meu pai foi o famoso papagaio Petrúcio, o mais famoso que já

apareceu nesta cidade! Mudou muita coisa mesmo sendo somente um

papagaio, mesmo que você tenha transformado ele em gente durante um

tempo.

A música que ele cantava todos os dias na casa de um dos seus

donos, a mãe me ensinou num dia em que chovia bastante. Lembro bem

que chovia muito e estávamos na varanda da nossa casa e sentíamos o

vento gelado da chuva.

Mamãe sempre falou que ele levava consigo o espírito da chuva, e

que alguma coisa nele era semelhante a uma chuva forte e cheia de raios.

Dizia que parecia ver muitos raios no interior dos seus olhos.

Eu sou o papagaio Giancarlo, filhote do papagaio Petrúcio!

Papagaio Giancarlo

117


“Foi muito bom ter a presença dele em minha casa! Não dei o valor

necessário para ele, fui desacostumando...no início era uma novidade! Algo

extraordinário! Com o tempo foi se misturando à paisagem monótona dos

meus brinquedos.

Nunca percebi quanta tristeza passava por seus olhos e o quanto esse

passarinho tinha para oferecer.

Depois que fui morar com minha avó eu ganhei uma calopsita de um

tio, eu acostumei ela fora da gaiola e ela era muito mansa!

A casa onde morava com meus pais, acabei vendendo para não ter

que voltar lá. Foi muito traumatizante quando descobri tudo que aconteceu,

e o meu pai ainda foi preso. Hoje tenho minha mulher e uma filha.

Trabalho numa indústria de energia elétrica e me sinto uma pessoa

realizada!

Ela tem dois cães e um gato de estimação que adotamos num abrigo

para animais. Bom, ela queria um bichinho e eu não queria gastar, afinal

sou muito economista. Então fomos numa feira de adoção de animais e

acabei gostando tanto de um cão, que adotamos um cão pra ela, um gato

pra minha mulher e outro cão pra minha filha.”

Sérgio A. de Oliveira

“Como era bom brincar com ele e ouvir cada uma de suas bobagens!

O seu jeito engraçado me inspira até hoje, quando tenho que fazer alguma

coisa.

Sempre que toco o berrante lembro dele, que se separou da sua

floresta que tanto amava para ensinar dignidade nessa nossa terra onde

quando o sol nasce é para evaporar petróleo no asfalto.

Hoje sou fazendeiro. Aquele meu cão, o Roger já morreu, mas

deixou crias. Meu pai já está bem velho e casado. Continuo solteiro e moro

na minha casa junto com meus empregados.

Sei que lá do alto ele olha por todos aqueles que um dia foram seus

amigos. Por isso não vou decepcioná-lo, mês que vem é a exposição de

gado e montaria em cavalos. O rodeio acabou depois que houve aquela

confusão quando ele estava aqui. Foi feita uma lei pelo prefeito proibindo

os rodeios por causa da situação em que os touros e cavalos eram mantidos.

Agora a exposição de gado tem atraído muito mais pessoas! Tem show

sertanejo, muita comida, barracas, artesanato, bebidas e a área é bem

maior!

Quando ele foi embora, a única coisa que guardei, e guardo até hoje

é uma pena de sua asa, que infelizmente tive que cortar. Toda vez que vou

fazer exibição com cavalo adestrado coloco a pena no chapéu pra dar

sorte.”

Artemísio Joaquim Stanislau P. Pedroso (Juca)

118


“É de onde vem toda a inspiração para a vida! Excita-nos a treinar a

alma no mais complexo sistema sentimental! Esperança corre pelas artérias

como se fosse o próprio sangue!

O orgulho por realizar nossas vontades! A liberdade! A luta pela

realização dos sonhos, como se fossemos um cavalo errante tentando fugir

das águas de uma correnteza.

A porta dos sonhos está sempre aberta para qualquer um que queira

entrar e ele ensinou isso muito bem! Existem pesadelos e sonhos

tranquilos, e para que no final o resultado dos sonhos seja o melhor

possível, a esperança deve estar sempre acesa em nossos corações. Ele que

nos mostrou isso.

Ele foi um aventureiro que correu o mundo! Não tinha medos e foi

jogado no pior covil de lobos. Ele foi uma jóia bruta que o tempo lapidou à

sua maneira sem conseguir roubar sua forma original.

Seu coração guardava um dom jamais visto com tamanha intensidade

nessa cidade, em pureza, saudade, esperança e amor.

Era um filho da terra legítimo! Suas penas flutuariam com mais

graça que o aguapé da lagoa aqui da roça.

Assim meu pai o definiu quando estava vivo. Na verdade todos os

animais aqui da roça já ouviram falar da vez que o papagaio virou uma

pessoa e salvou os antigos animais que viviam aqui de um dono maldoso

que batia e machucava os animais.

Vejo muitos pássaros voando no céu, mas nunca vi um papagaio.

Não sei, acho que eles devem ter se escondido na floresta.”

Alasão Ferrugem, filho do alasão Eleu

“Meu pai falava que o papagaio tinha uma força de vontade muito

grande e tinha a inteligência de uma pessoa. Falou que uns homens

mágicos o transformaram em um humano para que ele ajudasse a ele e

outros touros e cavalos a fugir de um rodeio. Eu não entendi muito bem

quando ele me explicou o que era um rodeio. Na verdade eu nunca vi um,

mas pelo que ele contava, é algo que eu nunca vou querer saber o que é.

Meu pai falou que o maior amigo que teve na vida, foi o tal

papagaio. Disse que ele salvou sua vida e que se não fosse ele nunca teria

vindo para essa fazenda e nem poderia ter dado crias, porque dizia que no

rodeio os touros não tinham contato com as fêmeas, que ficavam presos o

tempo todo, sendo preparados para as festas de rodeio, sempre com

tratamento ruim para ficarem bravos.

Certa vez ele falou que a ida do papagaio para a cidade foi como se a

cidade provasse um copo de água limpa e estranhou, pois só sabia provar

água poluída. Ele contava muitas piadas do papagaio Petrúcio também.

119


Não entendo você vir aqui depois de tantos anos procurando saber

dessa história. Bom, mesmo pra você, aqui é um lugar tão longe, mas bem,

cada um com a sua mania. Espero que tenha uma boa viagem de volta!”

Touro Zangado, filho do touro matador

“Nosso bisavô falava que ele era incrível! Um professor de coragem

e persistência que ensinava desde coisas banais como a respiração correta

quando se está voando para evitar cansaço até coisas mais complicadas

como a essência da força da natureza.

A cena mais impressionante que ele disse que viu na vida foi uma

briga contra um gato chamado Montanha no passado. Eu sou feliz porque

nosso bisavô contou essa história pra gente, e se não fosse o papagaio

Petrúcio nós nunca teríamos nascido.

Os outros pardais todos conhecem a história dele. Dizem que ele não

tinha dublê nos momentos de perigo, era ele que se machucava em cada

aventura...tinha coragem!”

Pardal Rufo, bisneto do pardal Rufino

“Ele era uma criatura vinda da brisa, do vento de longe. Atravessou

essa parte do mundo em um dia de verão em que o sol rachava o asfalto e

os gatos queriam nos fazer malvadeza. Logo trouxe consigo uma grande

quantidade de nuvens para refrescar em nós aquilo que precisávamos, que

era justamente esperança. O rato Paraguaçu assim se referia a ele...dizia

que sua voz era determinada.

Não cheguei a conhecer o papagaio Petrúcio, na verdade por que

você está perguntando sobre esse papagaio depois de tanto tempo?

- Bom...eu só queria saber se ainda se lembravam da história do

papagaio Petrúcio, só isso.

Ah bom! Mas então: os outros ratos que moram lá para os lados da

saída da cidade sabem mais coisas. Só o que eu sei é o que o Paraguaçu

contava para os outros ratos, e o que os outros ratos contaram para seus

filhos, e eles para os outros filhos e depois contaram para os meus avós.

- Tudo bem!

Ah, lembrei de uma coisa: uma vez um rato me disse que o Petrúcio

falou para ele que ‘quando a chuva vai embora deixa nossas ruas molhadas

e o sol resseca tudo outra vez.’

- O que será que ele quis dizer com isso? (pensei comigo mesmo, se

talvez tivesse falhado em alguma coisa).

Não sei, mas é uma frase bonita!”

Rato Berto

“Essa história quem contou foi um curió chamado Tadeu. Era mais

ou menos assim: ele foi um tema bonito para uma poesia que fala de paz e

120


de guerra! Suas atitudes desvendaram o universo oculto de um grande

mestre, que aprendeu com as marcas que a vida deixou.

Era um companheiro nas horas tristes e nas horas felizes, nas tardes

prazerosas e confortáveis e até mesmo nos momentos da noite! Suas

atitudes revelaram um espírito forte em um corpo que era apenas mortal

como o de qualquer vivente.

O Tadeu dizia que o desejo dele era voltar aqui para a floresta e viver

a sua vida. Dizia que ele era como uma planta indefesa que foi roubada da

terra, arrancada pelas mãos dos homens para satisfazer o desejo deles.

Disse que ele todos os dias ia ver um antigo peixe que viveu num dos

lagos da floresta, e que esse peixe era o único peixe que havia no lago. Que

quando o papagaio Petrúcio foi embora o peixe ficou tão triste que o Boto

teve que trazer mais peixes de outros lagos para fazerem companhia para

ele.

Os mais antigos falavam que quando o papagaio voltou para cá e

morreu ali mesmo naquele lugar onde está o girassol, o Tadeu ficou o resto

do dia cantando no mesmo galho, de tristeza. Disseram que o canto dele era

tão triste que até as flores murcharam naquele dia.

Disseram que depois que parou de cantar nunca mais cantou, até o

dia de sua morte.”

Curió Ji

“Eu vi surgir do céu um anjo protetor! Brilhava como se fosse uma estrela

e não possuía medos. Era uma estrela que não pertencia a nenhuma

constelação.

Mesmo sob a luz do sol todos podiam enxergar esta estrela.

Por pouco tempo, e o céu levou o que era seu por direito: a sua

estrela cadente, que veio à terra ensinar coragem e esperança.”

Canário-da-terra João

“Elas falavam que ele era um anjo lindo!

Sabe, aquilo que provocamos com o toque das patas, como quando

tocamos na água? Forma ondas e elas começam pequeninas, mas vão

crescendo cada vez mais até chegar do outro lado da lagoa.

Disseram que a alma dele era pura que já viram! Que ele tinha uma

espécie de ligação com as árvores e com os animais.

Uma delas disse que gostaria de se encontrar com ele numa próxima

vida. Não sei muito, afinal nós jandaias voamos em grupo só dos parentes

mesmo, não nos juntamos com as jandaias dos outros grupos.

Bom, agora deixa eu ir que as outras estão se divertindo e quero fazer

barulho também!”

Jandaia Crica

121


“Era uma dádiva da vida! Dá-se ao vento uma vez a cada grande

intervalo de tempo...ao vento que corre pelas campinas com o aroma

sublime da relva esverdeada, que carrega para outras matas o perfume dos

lírios de cá. Lá onde vivem animais desconhecidos, porém vai corajoso o

aroma que é filho da terra, tendo à frente uma vida de descobertas.

Já pôde viver o nascimento do fruto silvestre, porque não se prende

mais às suas raízes, exceto pela saudade que sente aquele que muito amou

este lugar, cujas imagens jamais se apagaram, nem pelas marcas da vida,

nem pelas folhagens secas de muitas primaveras!

- Tio, que criatura é essa do lado de fora da água? É diferente dos

animais daqui!

Calma crianças. Ele é amigo de um amigo do peixe Vernacleto.”

Boto, em palavras do peixe Vernacleto

“Tudo o que eu poderia falar sobre ele todo mundo já sabe, pois o

conto do papagaio Petrúcio é conhecido em todo o país, tanto nas florestas

quanto nas cidades dos homens. Mas o que ninguém sabe é que antes de

voltar, ele chamou meu pai em particular e pediu pra ser amigo do

Vernacleto. Para ir lá pelas manhãs para conversar com ele um pouco.

Petrúcio o achava engraçado e achou que isso faria bem ao seu amigo

peixe.

Ele disse que ia lá pelas manhãs, sempre que dava, conversava um

pouco com ele, bicava umas árvores e até jogava algumas larvas para ele.

Depois que apareceram outros peixes para ficarem com ele, ele parou

de ir lá, afinal ele estava bem com os da sua espécie.

Depois de um tempo acabou se distanciando um pouco da floresta.

Foi procurar novos ambientes...

Encontrou um parque florestal com árvores que eu achava mais

agradáveis que as da floresta, aqui ele encontrava mais comida e passou a

viver aqui. Procriou e teve várias crias que foram se espalhando pelo

parque florestal e por outros lugares.”

Jack, filhote do pica pau Jackson

“Há tempos brotou da terra um novo fruto amado, forte igual à

palmeira, valente como os ferozes animais da mata!

Seu tronco foi castigado com o serrote e o machado. Infelizes

aqueles que tentaram consumir seu tronco, e perderam dias e meses,

perderam anos.

Nada se compara à vontade de crescer, e me orgulho disso. Ele a

executou de uma forma que nenhum de nossos ancestrais havia conseguido

antes. Sofreu tanto o meu filho preferido em sua vida para ensinar a duas

selvas diferentes o valor da honra e da esperança.

122


Caiu um dia a indomável palmeira já sem oponentes...mesmo o

machado, mesmo a serra, mesmo o homem da cidade...exceto pelas mãos

do tempo, no mesmo lugar que nasceu.

Orgulho-me de ter presenciado o nascimento! Ele sempre foi o meu

preferido por ser tão parecido comigo.”

Papagaio Lori, pai

“Agora ele está descansando e a sua alegria será eterna!

Fico triste ao lembrar do inocente desprezo ao ver que ele não tinha a

mesma saúde e as penas dos outros.

Lembro de um conto que um outro papagaio contava de um bichinho

órfão que foi achado por uma pata, que era feio e os outros patos riam dele,

mas que virou um cisne muito bonito quando cresceu.

Eu tenho orgulho. Muitas lágrimas derramei quando foi roubado da

floresta, sofri, e então desgostei um pouco da vida, ao te ver voltar, voltei a

ter a esperança, e vendo-o morrer penei por muito tempo!”

Papagaia Dria, mãe

“Desde pequena, meu pai contava a história do meu tio avô. Nunca

chegou a conhecê-lo, mas nosso avô foi salvo por ele, quando foi capturado

aqui na floresta e levado para a cidade.

Como se fosse alguma coisa de descendência, eu também nasci com

uma pequena falta de penas na cabeça. Isso sempre foi um grande motivo

de orgulho do meu avô.

Não sei se você vai conseguir conversar com ele porque hoje ele

mora do outro lado da floresta porque minha avó já morreu e ele nunca

mais arrumou outra namorada, então foi morar com os papagaios que

moram do outro lado, mas lá é muito difícil de chegar!”

Papagaia Acca

- Acho que você já perguntou para muitos não?

Sim, na verdade eu já ouvi muitas histórias interessantes!

- Imagino! Todos gostavam muito do papagaio Petrúcio!

É verdade meu caro amigo!

Petrúcio é uma espécie rara de homem! Alguém que sofreu as piores

influências possíveis por parte das pessoas que o rodearam: primeiro seu

sequestro pelos dois homens; depois de um tempo veio a indiferença do

menino Serginho e as atitudes das pessoas da casa; Gilmar e Nestor;

Adamastor, pai do Juquinha; piratas; o milionário Cristóvão; as pessoas da

cidade que gostavam de pássaros presos em gaiolas.

O Petrúcio tinha contato com tudo isso, recebia essa influência o

tempo todo, tanto é que seu modo de ser guardava o maquiavelismo e o

impulso vingativo desses personagens! Herdou dos dois ladrões a

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habilidade com as palavras grotescas e certas malandragens, pouco

admiráveis!

Talvez tenha sido esta floresta a principal responsável pelo seu bom

caráter. Dizem que quando um animal nasce, acredita que a primeira coisa

que vê é sua mãe, e no caso dele, pelo que fiquei sabendo, contado por ele

mesmo, foi que a primeira imagem que viu na vida foi a claridade do lado

de fora do ninho e as folhas das árvores. O papagaio presenciou a beleza da

relva e as maravilhas do companheirismo! Ficou amigo de um peixe que

vivia no lago aqui na floresta, seu primeiro grande amigo; salvou o canárioda-terra

João de uma armadilha quando era apenas um filhote, nas folhas de

um ipê, e ele vive até hoje aqui na mata. Acredito que isso marcou demais

o pequeno papagaio Petrúcio, e todas as boas coisas que presenciou falaram

mais alto, impedindo que a ave se tornasse corrupta na cidade grande.

- É verdade! O dia que ele voltou eu não cheguei a tempo de vê-lo,

estava ocupado afugentando alguns caçadores lá perto do terreno dos

índios. Quando cheguei ele já havia falecido.

Petrúcio recusou um convite de permanecer na cidade e viver como

ser humano. Teria riqueza, fama. Isso tudo aconteceu no julgamento do pai

do Juquinha, eu conversei com ele no corredor, antes dele deixar o fórum e

fiquei extremamente irritado após ele dizer que iria voltar para a floresta.

Nem percebi o que aconteceu do lado de fora. A transformação que eu fiz

estava prestes a acabar e a vontade dele acelerou ainda mais o processo.

Eu o testei ao transformá-lo em pessoa só para ter a certeza de que

ele seria corrompido pelo sistema, pela ambição, mas eu estava errado. O

Petrúcio pertencia à floresta e os animais jamais serão como os homens. Os

homens pecam contra a sua existência, contra os seus semelhantes, deixam

à mercê da sorte os menos favorecidos, o Petrúcio ao contrário tudo o que

fez foi querer ajudar a todos os animais, não buscou nada para si, apenas

para os outros.

A última vez que o vi respirando foi em sua retirada triunfante da

cidade, naquela velha gaiola, quando vários animais o saldavam. Eu estava

um pouco ocupado e nem pude ir ao seu encontro. Estava tratando de

assuntos urgentes, mas pude vê-lo da janela do prédio onde eu estava.

Depois disso andei um pouco ocupado resolvendo assuntos pessoais

e, quando eu fiquei sabendo o que havia acontecido quando ele chegou aqui

fiquei muito chateado! Então decidi procurar as criaturas que tiveram

algum contato mais intenso com ele para ver o que descobria. Vaguei por

muitos lugares! Várias partes do estado, então hoje eu pude vir até a

floresta e saber mais sobre a morte dele.

Vi que o girassol que nasceu no lugar é realmente imenso! Eu até

peguei esta semente, veja...

Eu nunca pude compreender a natureza do Petrúcio, o que sentia ao

recordar sua morada. Sou somente um vulto do fim dos dias e à meia-noite

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passo pelas ruas da cidade, eu não sou o eco de uma voz diferente, sou

não...

Enfim, a história termina onde começou. Este não é o mais

romântico dos finais de história? Um viajante que retorna à sua casa?

- Não, não é...ainda mais da forma que aconteceu.

Eu sei meu amigo Curupira, mas não se esqueça que a esperança não

deve morrer jamais!

Saudações aos animais da floresta e à essência da vida que há neste

lugar!

Vitor Moreira, autor

125


Capítulo 8

Muitas vezes temos o poder de evitar que as coisas ruins aconteçam,

mas somos tão impacientes em apenas pensar nos nossos interesses que

deixamos de dar valor a coisas que são muito importantes para alguém ou

para muitas formas de vida.

Nós construímos o nosso universo! Não importa o quanto as coisas

sejam difíceis, depende de nós mesmos mover as dificuldades para

alcançarmos as nossas intenções.

Forma-se a chuva na floresta, e estão presentes os raios...

- E para onde você vai agora?

Não sei Curupira. Conversei com muitas pessoas, animais...sabe,

desde que isso tudo aconteceu eu me sinto um pouco culpado. Eu devia

estar lá o tempo todo, mas acabei tendo alguns imprevistos. Estou voltando

para a cidade, não quero mais incomodar e essa chuva está muito forte!

- Acalme-se! Determinadas vezes nem mesmo o destino pode ser

mudado.

Não...você está errado! Nós podemos sim mudar o nosso destino! A

infelicidade pode se converter até mesmo na felicidade plena! O fim é o

começo, a vida se renova, o amor supera todos os limites! Chega...

- O que está fazendo?

Vê: essa semente de girassol? Pois bem, pode muito bem ser a

semente da vida!

126


Uma simples semente, perseverante contra todas as adversidades é

capaz de sozinha transformar um deserto em um jardim ou floresta, como

eu disse antes, o amor supera todos os limites!

“Então ele jogou a semente de girassol para o alto e um raio a

atingiu. Então uma pequena luz verde suspensa no ar foi caindo em direção

a uma árvore. Olhei para a saída da floresta e ele caminhava rapidamente,

até sumir em forma de vulto, se protegendo da chuva. Fui ver o que era a

semente, mas uma papagaia começou a gritar. A luz verde parecia ter caído

em seu ninho e ela protegia como se fosse um filhote. Deixei-a em seu

ninho e saí dali para espantar os caçadores e madeireiros.”

***

“Amor! Sentimento tão grandioso que se multiplica dentro de cada

um de nós como semente de girassol produzida pela perfeição da natureza,

e que gera novas folhas e sementes. Amor é como grão solitário que se bem

regado pelas águas da felicidade, tal qual as flores pela chuva da primavera,

é capaz de transformar desertos secos, de solo rachado, em florestas

repletas de vida, e cobrir de flores coloridas as pedras cinzentas repletas de

tristeza e solidão.

Todos nós, independente da espécie, temos o poder de lutar pelo

amor, não o amor limitado aos nossos semelhantes, mas um amor de tal

forma incondicional, capaz de mudar no coração dos homens mais

perversos o ódio, transformando em luz, não importando o quanto tudo seja

difícil! Esse é o sentido das nossas vidas, justamente lutar com bom ânimo

eterno por aquilo que nos fará feliz. Tendo esperança, podemos mover um

universo inteiro, retirar as pedras do caminho e atravessar oceanos de águas

turbulentas.

Vida! Bem tão precioso que tivemos o prazer de experimentar na

complexa experiência da criação do universo! Somos privilegiados por essa

dádiva, mas nem todos sabem dar o valor adequado a esse momento, e

acabam por subtrair da perfeição da vida em harmonia o equilíbrio, a paz e

continuidade de tudo aquilo que a natureza criou. Existe infelicidade

porque nem todos têm o amor, há os frutos estragados no seio da terra, e

esses tentam com a sua falta de amor contaminar os bons frutos, tirando

deles a felicidade. A vida é bonita, pois existe luta e esforço, tudo que se

faz na vida se torna lembrança e experiência. Há os momentos de dor e os

momentos de riso.

Porém enquanto existir esperança sempre haverá o amor, e há de

prevalecer contra toda a maldade do mundo.

Somos como as gotas da chuva, que caem do céu num mergulho da

divina providência para a continuidade da vida. Nós damos as nossas vidas

a cada instante para que haja continuidade...

127


Foi em um dia de chuva na floresta que eu nasci. Havia barulho e

luzes no céu cortando o ar, bruscamente chegavam à mata e quebravam

galhos de imensas árvores. O vento soprava lá fora e algumas gotas de

chuva molhavam as costas de meu pai que protegia a entrada do buraco

feito na árvore, no tronco da árvore, onde cada pedacinho de terra foi

retirado por eles para que pudéssemos nascer.

Mal podia abrir os olhos e meu bico era frágil, mole. Eu podia

enxergar o vulto dele lá naquela entrada, era uma imagem cinzenta através

da membrana fina dos olhos. Tremia mas olhava atento e sem demonstrar

fraqueza para o interior do buraco onde nós dois estávamos, aquela criatura

verde e eu. Quando pude ver com mais nitidez vi que era um pássaro verde,

um papagaio, e a criatura que me cobria era uma papagaia. Eu era um

papagaio.

Meu corpo não tinha forças e estava quente embaixo daquelas penas.

Não sei, mas de alguma forma parecia que tudo aquilo já havia acontecido

antes comigo. A primeira vez que pude olhar para o lado de fora do ninho

feito no buraco da árvore, parecia que eu já conhecia cada pedacinho

daquele imenso lençol verde de árvores, folhas, frutos.

Um lugar que certamente irei amar por toda a vida e será a minha

casa!”

Fim!

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