009 - O FATO MARINGÁ - SETEMBRO 2018 - NÚMERO 9 (MGÁ 02)

ofatomandacaru

FALE DIRETAMENTE COMIGO:

Se quando estamos sozinhos

enfrentamos dificulda-

6 • Jornal Comunitário Metropolitano de Maringá DISTRIBUIÇÃO GRATUITA • Setembro de 2018 • Edição 9 • Ano 1

SOU CEGO , MAS...

Ligiane Ciola

MARINGÁ • Fui conhecer

os alunos de uma das várias salas

especiais da rede pública de

ensino para pessoas que possuem

graus diferenciados de visão,

pessoas com baixa visão ou A maioria das pessoas, Inclusão Social de Cegos e Portadores de Baixa Visão, depende...

até completamente cegas. não sabe como agir quando

Cheguei a sala especial da se depara com um cego ou

Escola Municipal de Ensino portador de baixa visão que

Fundamental Kennedy num tem que por exemplo, atravessar

uma rua. Normal-

dia chuvoso, o que impediu

que vários alunos viessem a mente, as pessoas ficam em

escola. Encontrei Celso Yoshida

e Fabrício Batista de Pai-

tudo sozinhos, o que não é

silêncio e nos deixam fazer

va que estavam a estudar para

um Concurso Público da guém tenta nos ajudar e o

bom, pior ainda é quando al-

Prefeitura de Maringá. As outras

pessoas que encontra-

Chegam sem falar nada,

faz em modo errado.

mos, foram Silvia de Oliveira, nos pegam pelo braço e nos

professora auxiliar e também arrastam consigo, tudo isso

portadora de baixa visão e Lettícia

Farias, Professora titular única palavra. Sabemos que

as vezes sem nos dirigir uma

na Escola do Mandacaru. não é culpa deles mas da falta

de informação, de igno-

Do encontro com todos

eles extraí relatos que dão indicação

sobre como ajuda-

pessoa age assim, nos tira torância

mesmo. Quando uma

los sem ter que fazer grandes da a sensibilidade e nos expõe

a riscos como quedas.

esforços.

“Se vocês entendessem a Qual é o jeito certo? Comece

pelo diálogo, afinal so-

vida de quem enxerga o mundo

em modo diferente, passariam

a não temer de nos ajular

e ouvir. Um bom início,

mos cegos mas podemos fadar

nas tarefas que para vocês

são muito simples, mas chamo fulano”, responde-

seria um “oi ou bom dia, me

Fabricio Batista de Paiva, Letticia Farias, Celso Yoshida e Silvia de Oliveira na Sala Especial da Escola Kennedy do Mandacaru.

que para nós, são sempre ríamos em modo gentil e então

você nos perguntaria: baixa visão, deveria ser uma fiquei com complexo de infe-

auxilie, quando a gente está

cegueira assim como dos de olho direito. Foi muito difícil, des para encontrar quem nos

complexas apesar de toda a

habilidade que desenvolvemos

com o passar dos anos. ríamos a você de estender o vel de visão minimamente mas superei tudo e fui me po de problema; Um dia des-

Como posso te ajudar? Pedi-

meta para quem tem um nírioridade

por um bom tempo acompanhado surge outro ti-

braço deixando-nos seguralo,

desse modo você poderia por tudo, muito obrigado.” Infelizmente a pouca vinhado

de um amigo e o farma-

normal. Nós agradecemos adaptando aos poucos”. ses fui a farmácia acompa-

nos guiar em modo seguro.

CELSO YOSHIDA: “NINGUÉM são que mantive após a cirurgia,

foi se reduzindo aos pou-

eu precisava, foi nesse mocêutico

perguntou a ele o que

Quando uma pessoa PODE ENTENDER O QUE PAScompreende

isso e age de SAMOS. SÓ QUEM VIVE NA PE- cos, até que aos 25 anos fiquei mento que o interrompi dizendo-lhe

que podia perguntar di-

consequência, rompe uma LE, SABE O QUANTO É DIFÍCIL, completamente cego.“Se penso

ao nível de visão que eu tiretamente

a mim. Ele se des-

barreira estabelecendo uma MAS EU NÃO DESISTO JAMAIS”.

relação que acolheríamos

Eu sou Celso Yoshida, tenho

44 anos, nasci com “baixa do, e também um grau muije

sempre que vou à farmácia,

nha, só 5% no olho esquerculpou,

fizemos amizade e ho-

imediatamente como amizade,

produzindo para si

visão” e minha deficiência foi diagnosticada

aos 4 meses de ida-

me permitia de enxergar pra-

Compreendo o constrangito

forte de miopia que não ele já sabe como deve agir.

mesma conhecimento, que

lhe serviria seguramente em

de. Aos 4 anos, com o agravamento

do problema, tive que dizer que levo uma vida me-

que é recíproco, se amanhã eu

ticamente nada, hoje posso mento das pessoas e garanto

uma futura experiência com

outros cegos. Pense como seria

legal.

passar por uma cirurgia em lhor sendo completamente tiver que ir a outra farmácia

Campinas para corrigir um grave

descolamento de retina, que o que passamos. Só quem vive tar o mesmo problema.

cego. Ninguém pode entender ou comércio, terei que enfren-

Na segunda vez que nos

encontrássemos, você já saberia

meu nome e como me

evitou que eu perdesse completamente

da visão. “Mantive a mas eu NÃO DESISTO

na pele, sabe o quanto é difícil,

ajudar no mesmo tipo de situação

e também em outras.

visão com o olho esquerdo JAMAIS.”

Celso Yoshida: aos 25 anos,

perdeu totalmente a visão.

mas acabei ficando cego do

O desejo dos portadores de

ME AJUDE A SUBIR NO ÔNIBUS:

Em 2013, comecei a frequentar

a Escola Kennedy do

Mandacaru e muitas vezes me

desloco de casa até a escola

com meios públicos de transportes.

Estou habituado, algumas

pessoas já se acostumaram

com a minha presença e

até me oferecem uma mão,

mas nem sempre foi assim, e

nem todos os cegos conseguem

reunir forças para enfrentar

as dificuldades.

ME AJUDAR A ENCONTRAR O

PRODUTO QUE PRECISO:

A mesma coisa acontece

nos supermercados. Aqui no

Mandacaru, sempre que vou

ao supermercados tem um funcionário

que me acompanha

pegando os produtos e dizendo

os preços de cada coisa,

mas não é assim em todo lugar.

Há pessoas porém que

são muito sensíveis. Outro

dia fui comer em um restaurante

que fica bem perto da

escola e todos foram tão gentis,

ao ponto de me perguntarem

se eu gostaria que o bife

fosse cortado em pedaços

para que eu não tivesse dificuldades.

É disso que precisamos.

Paciência e gentileza.

O encontro que tivemos

com a Professora Silvia foi

surpreendente, pois não sabíamos

que ela era portadora

de baixa visão. Ao

contrário do que acontece

com uma pessoa que nada

vê, no caso de Silvia, quase

impossível perceber sua deficiência.

“Esse handicap positivo

muitas vezes se transforma

em negativo em questão de segundos.

Eu não uso bengala,

bem por isso, as pessoas não

percebem que tenho um grau

de deficiência altíssimo.

Não é raro que alguém

me questione por exemplo,

porque estou na fila preferencial

de um banco. Pior ainda

é quando tenho que atravessar

a faixa de pedestres, já

aconteceu de motoristas me

hostilizarem por não saberem

de estarem diante de

uma pessoa que não vê o mundo

como eles, e que portanto,

deve atravessar a estrada lentamente,

na esperança que

nada de ruim aconteça; Vivo

as duas faces da moeda. Sou

formada em Letras com especialização

em Educação Especial

mas também tenho uma

deficiência visual.”

LIGIANE CIOLA: Mais do

que Auxiliar, você é uma Professora

Especialista? ▶

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