me engana que eu gosto

VitorCorleoneBH

E a corrupção se torna patrimônio cultural da população de uma cidade chamada Lindópolis. O jeitinho, o pequeno delito, pecados perdoáveis e uma ampla rede de fofocas e intrigas fazem parte do cotidiano dos moradores. Tudo é muito dinâmico e tendencioso, onde um fato se desdobra antes mesmo de acontecer.
A população mostra em cada acontecimento social e cada fato do cotidiano uma grande degradação, até mesmo folclórica do caráter.
A influência da mídia enganosa dominando moralmente a população e exercendo um poder paralelo na ingenuidade do povo.

Me Engana Que eu Gosto

Quando o “jeitinho” se torna virtude, o pecado se torna razão e a

corrupção atinge até o “seu Zé”, chega a hora de todo o povo pedir

arrego pela própria degradação moral, segurar a mão do coleguinha

ao lado e pular de um precipício – estrupício! Tem jeito mais não!

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Me Engana Que eu Gosto

BIOGRAFIA DO AUTOR

- Amor de Veraneio - Uma História de

Verão, 2001, romance;

- Quarenta Passos Até o Campo, 2001,

poesia;

(traduzido para italiano)

- O Papagaioo Petrúcio Loro, 2001;

- O Coração Não Nega, 2002, poesia;

(traduzido parra italiiano, inglês, francês e

espanhol)

- Soneto, Convite para Sonhar, 2003,

sonetos;

- Celeiro da Cidadania, 2007, projeto de

segurança;

- O Labrador das Lavras Vazias, 2008,

poesia;

(traduzido para italiano)

- Frenesi - A Poesia da Vida, 2009, poesia;

- É Que o Amor Morreu no Belvedere,

2010, poesia;

- Desfragmentação – O Formigueiro de Ilê-

Ifé, 2011, estudo legislativo;

- Carnaval em Raul Soares, 2011, crônicas;

- Rei Sitae - Onde a Coisa se Encontra, 2013,

poesia;

- Emoção – Causos do Cotidiano, 2013,

crônicas;

- Renascendo da Cinza - A Democracia é do

Povo, 2014, romance;

- Labirinto, 2017, poesia;

Me Engana Que eu Gosto, 2018, crônica.

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Me Engana Que eu Gosto

ME ENGANA QUE EU GOSTO

Copyright@2018 by Vitor Moreira

Email para contato: vitorcorleone21@hotmail.com

Nenhuma parte deste livro poderá ser reproduzida, sejam quais

forem os meios, sem a permissão, por escrito, do autor.

Produção livre independente

Capa e diagramaçãos - Vitor Moreira

Ilustração: domínio público

Foto de capa: o lobo e as ovelhas

M835 Moreira, Vitor.

Me Engana Que Eu Gstoo / Vitor Moreira. – Belo Hori zonte, 2018

120 p. : il. ; 15 x 21 cm.

1. Eventos fictícios cotidianos 2. Corrupção 3. Imoralidade.

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Me Engana Que eu Gosto

Universo Humano

Pintura do próprio artista Vitor Moreira, do ano de 2004, onde, há a

expressão de toda a sua criação artística, baseada na unidade do

universo interior de cada indivíduo. Entende-se que cada

indivíduo é bom ou ruim, tem seus mitos, suas crenças e seu

caráter, entretanto, no interior de cada um, há o consenso, onde se

nota que todos, independente de qualquer coisa, até mesmo da

disposição das suas prioridades de vida (posição dos astros,

planetas, cometas) dentro do seu universo pessoal, idealizam um

céu de estrelas, luz e mistérios e uma Terra de prazer e realização. O

Universo Humano é a base de toda criação artística de Vitor Moreira

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Me Engana Que eu Gosto

O exemplo de Jeremias – do confessionário ao boteco

Estabanado! Matuto caboclo Jeremias passa pela Praça do

Navio Negreiro a caminho da igreja, bem no centro da cidade, na

Alameda do Anhangá.

Olhar de águia sobre as pessoas que conversam na porta do

açougue e da Pousada do Albatroz, principal hospedaria que há nesse

lugar. Gente tão fofoqueira! Sem serviço e sem pudor!

De blusa aberta ao peito mostrando os pelos já meio

esbranquiçados, resultado dos seus quarenta e três, gozados nessa

mesma cidade, onde vive dos aluguéis de cinco barracões no mesmo

lote onde mora com a esposa, a filha de dezesseis anos e um neto.

No bolso da camisa amassada o saco de fumo de rolo e umas

folhas de milho seco pra enrolar os cigarros que por qualquer prosa

já se lança à sua fabricação entre um assunto e outro. Habitante

conhecido, respeitado e falador! Um grande exemplo na cidade!

Um chapéu encardido de sujo, que já foi pardo um dia na

vitrine da loja, e a calça jeans marcada de todo tipo de sujeira, graxa,

óleo, barro e meleca, tirada no tanque e escovão com sabão de côco,

secada ao sol de uma varanda de chão batido e cimentado. Quente!

A bota que nunca viu água depois que deixou de ser boi,

senão de chuva e o cabelo por cortar, escapando pelas laterais da

orelha que também é repleta de pelos brancos e sujos de cera!

Engole seco o preço do calor da estação! Rosto suando e o

olhar de cansaço, mesmo que o dia ainda esteja começando.

Confesso que até folclórico habitante de Lindópolis, cidade

quente que cresce como filharada antiga, sertaneja e “retirante”, e

onde se concentram as grandes fofocas de um povo cheio de

defeitos! Lar e realeza onde impera a cultura do “jeitinho”, um

patrimônio levemente corrupto desde a fundação dos pilares da

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Me Engana Que eu Gosto

primeira casa grande, que deu início à existência desse lugar tão

quente e de poucas árvores! Onde hoje mora o também antigo

Lindopolitano Miranda, empresário do ramo de cachaça, reeleito e

ladrão!

- “Seu” padre, vim aqui me confessar porque pequei. Sei que

é errado, sei que é coisa que prejudica demais a salvação da gente,

mas preciso de um conselho bom e honesto! Hoje cedo acordei com

esse peso na cuca e quero me ver livre disso o mais rápido possível!

- Então diga meu filho! Fale Jeremias! Estou aqui para ouvilo!

- Disse Padre Matias.

Novo! Padre que não é daqui. Barba rasa, olhos verdes, meio

gordo, meio médio, da estatura de todo mundo.

- Olha padre, eu sei que eu não devia, mas peguei dinheiro

errado, grana suja. Desse que não devia ser pego de jeito algum e

vende o caráter da pessoa, a integridade e deixa a gente pensativo.

Sei que não é certo mas peguei mesmo! Agora eu preciso saber o que

devo fazer pra ficar em paz e resolver essa questão com a minha

consciência, e claro, não ir pro fogo do “tinhoso” de forma alguma.

- Ora meu filho, se roubou o dinheiro de alguém deve restituir

ao dono. Só assim será salvo. - Disse o padre, demonstrando uma

tranquilidade grande com o que Jeremias dizia, afinal as confissões

dos habitantes daqui são bem mais pesadas! Um simples furto de

dinheiro era coisa tão comum em Lindópolis.

- Não é bem roubar, “seu” padre...

- Então o que houve meu filho? Pode se confessar. - disse o

padre do interior do confessionário em um tom tedioso sobre a

informação alheia, já acostumado com as mazelas dos habitantes de

Lindópolis.

- Sabe o Mourão, candidato coronel lá da fazenda Grande

Sertão? Pois me deu Cinquenta Conto de Réis pra votar nele. Só que

eu não votei.

Nisso o padre, que também adora uma fofoca, saca seu

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Me Engana Que eu Gosto

litrinho de vinho da batina, gole adentro, arregala os olhos e se

interessa imediatamente pela conversa de Jeremias, caboclo meio

sem estudo, que parou na quinta série, típico habitante da cidade de

Lindópolis desde que nasceu, muito conhecido e uma referência na

cidade quente e fofoqueira!

- E votou em quem Jeremias? - Já animado com a fofoca

quente e da boa que o caboclo Jeremias trouxe!

- Miranda, oras! Dono do alambique. Vai todo dia lá no bar e

até me deu um saco de batatas. Sem contar as cachaças que dava na

campanha. Sem batizar!

- Justo o Miranda? Escolha ruim não? - Desabafou o padre

em um tom de piada.

- Eu não queria votar no Mourão. O Miranda deu pinga o mês

todo no bar enquanto o Mourão ficava com papo furado de que

mudaria Lindópolis, cobrar isso e aquilo da prefeitura, fiscalizar,

fazer creches, escolas... Só na última hora abriu o bolso e resolveu

me dar o dinheiro. Eu já estava confiante no Miranda! Miranda

estava forte pra ganhar de novo!

- Realmente Jeremias, é uma falta grave! Já é errado aceitar

favores para esses casos...

- E eu sei! Por isso vim aqui pra resolver tudo isso!

- Ainda mais que convenhamos...o Miranda não é uma pessoa

honesta. Todos em Lindópolis sabem disso. Enriqueceu no primeiro

mandato mais do que os vinte anos vendendo cachaça.

- Eu sei, mas ele faz! E as coisas erradas que já aprontou

nesse mandado são coisa pequena! Todo mundo faz coisas erradas

nessa vida. Ainda mais aqui em Lindópolis.

- É mandato Jeremias.

- Pois é! Isso que eu quis dizer!

- Ora...Se quer fazer a coisa certa deve devolver o dinheiro ao

Mourão, ou pode doá-lo para a caridade da igreja.

- Está maluco padre? Peguei e agora é meu, mesmo sendo

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Me Engana Que eu Gosto

errado não quero abrir mão da grana.

- Então o que quer meu filho? Se sabe que isso é uma falta e

ainda insiste em continuar no erro?

- Ora...que faça com que não seja errado. Não vou dar os

Cinquenta Contos de graça. Já dá pra um maço de fumo, três pingas

da roça e um tira-gosto!

- Mas Jeremias, sua consciência está pesada por causa do

dinheiro e isso não é correto. Você precisa repensar suas atitudes. O

seu voto, a sua consciência e o seu caráter valem isso: bebida, cigarro

e salgado?

- Eu só quero saber o que vou ter que fazer pra poder tirar

esse peso da consciência de outra forma. De repente te dou aí uns

Cinco Contos pra ajudar a paróquia.

- Jeremias! Você já se corrompeu. - Disse o padre em tom

ríspido - E agora vem querer corromper a igreja que é santa? Isso é

um pecado maior do que os primeiros. Você precisa mudar suas

atitudes. Nunca mais diga uma coisa dessas, e trate a paróquia com

respeito. Não é pelo dinheiro, é pela corrupção que se apoderou das

suas intenções. Esse é o pecado! Se não gosta da verdade, então não

há como ajudar em mais nada.

- Ah é? E o senhor que andava se engraçando para o lado da

viúva do Genaro? Não vai pra balança não? Eu sei porque me

contaram. Mal por mal, o meu é menor. E o senhor sabe que todo

mundo faz coisa errada. Ninguém é santo.

- Isso não é bem assim! Você está equivocado!

- Olha padre, vamos chegar num acordo? Me vê duas ou três

rezas e eu enterro esse assunto que é pra todo mundo ficar de

consciência tranquila? Eu vim aqui confessar, não é isso que eu tenho

que fazer. Agora só quero pegar minha nota e ir no boteco tomar uma

pinga.

- Reze dez vezes. E esqueça essa história da viúva Chiquinha.

Não há nada demais em ter amizade com ela.

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Me Engana Que eu Gosto

- Dez? Muita coisa! Isso tudo não faço.

- Olha Jeremias, estou tentando te ajudar.

- Eu vou voltar antes da missa de domingo. Eu achei que era

mais tranquilo negociar.

- Vá em paz Jeremias! E lembre-se do que eu disse.

Como poderia cumprir a penitência? Jeremias não sabia rezar.

Jurava que era santo, mas à igreja só comparecia para cumprir seu

dever de bom filho, costumeiro e familiar.

Calor! Outubro às 9 da manhã. Já ressecou o orvalho da flor!

Gabriela do Cravo lava roupa no quintal. Vestido de flores e

quadril volumoso! Sua cor marrom lembra a canela e o brilho de sua

pele abre o apetite!

Curvas arredondadas e salientes! A cintura fina parece de

boneca ou de modelo famosa! Um cabelo cacheado que se destaca

sobre os ombros!

Com graça e ousadia pendura na cerca de arame farpado as

roupas limpas e o cheiro de sabão exala no ar quente de Lindópolis.

Lá da janela Jurema vigia a rua enquanto lava as louças do

café. José e Caim já estão na escola. E Caim voltou hoje da

suspensão por ter brigado na saída da aula. Zé Buchecha já está no

trabalho e no rádio o programa de tietagem.

Seu olhar de águia não perde nada! Sabe tudo que acontece na

tumultuada Lindópolis com cada um de seus habitantes. Uma câmera

viva andante! Velha, mas funcionando perfeitamente! Melindrosa e

com os ouvidos atentos! Língua afiada!

Cidade quente, quase sem árvores ou parques pois tudo foi

cortado para acabar com a sujeira das ruas pelo prefeito Burguês,

desafeto de Miranda, buscando economizar o salário dos varredores.

As árvores eram reclamação das senhoras que todos os dias

no inverno tinham que varrer a calçada, pois foi proibido usar a água

para tal fim devido ao racionamento ocorrido anos atrás.

Mudanças no clima fizeram com que Miranda arrumasse

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Me Engana Que eu Gosto

pretexto, culpando a prefeitura pelo preço da cachaça, logo ganhando

o apoio dos cachaceiros, revoltados com o aumento.

O problema é que cortando as árvores e cimentando a terra o

calor ficou insuportável, e ninguém em Lindópolis faz ideia de que

as árvores deixavam a cidade fresca. A televisão local falou que a

culpa é da presidência que não previu impactos ambientais, e a

população cega e ignorante vê como verdade, afinal dará muito

trabalho aprender sobre ecologia, biologia, botânica, geografia e

climatologia para depois se manifestar com propriedade sobre as

mudanças climáticas. A televisão faz isso tudo pelo povo de

Lindópolis! Bom...nas casas onde há televisão como a de Jeremias.

Passa o carro vendendo vassoura com aquela música

horrorosa e vai tão devagar que dá até vontade de começar a rebolar

no ritmo da dança da vassoura que parece acompanhar os passos de

quem nem quer vassoura, mas a música manda olhar as vassouras

incessantemente.

Vassoura! Vassoura pra varrer todos os podres de Lindópolis!

Mas acho que não...

Outro dia aquele pastor da igreja que fechou mês passado

estava vendendo vassouras que varrem olho gordo, que varrem

macumba, que varrem inveja, mas vá lá saber se varre mesmo, se

isso nem existe. É invenção da religião de cada um na cidade de

Lindópolis.

Jeremias criticou a mulher por ter comprado por um preço

que daria pra comprar dez vassouras na mercearia do Farias, mas a

crença é individual! Cada um acredita no que quiser!

Terra de gente fofoqueira essa Lindópolis! Todo mundo é

ignorante e não param pra pensar! É conveniente demais acreditar no

mais convincente e na notícia pronta e saborosa, sem preocupação

com a origem ou a veracidade!

Pensar dá muito trabalho! É melhor deixar isso a cargo dos

jornais, afinal é o que todo mundo vai acreditar mesmo. Não faz

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Me Engana Que eu Gosto

diferença alguma discutir sobre o certo ou o errado. Detonamos os

pensadores e a vida continua.

Tudo que é necessário: acordar, comer, ir à rua; ver o dia, ter

que trabalhar, comer mais no almoço, quando o estômago mandar e

sentir preguiça; fofocar um pouco com a vida dos outros; comer de

novo; receber a lavagem cerebral da televisão; dormir e pronto!

Coisas mais complexas como ler jornais, revistas, ir a um teatro, ter

opinião própria, embasada e com argumentos...melhor não!

- Bom dia dona Gabriela do Cravo! - Disse Jeremias tirando o

chapéu e dando um sorriso sorrateiro de canto de boca.

Sensualizando!

- Bom dia “Seu” Jeremias! Como vai nessa manhã? -

Respondeu a morena cor de canela com um balanço de cabelo e um

sorriso tímido que em nada se relaciona com seu corpão pomposo

que transforma ovelha em lobo só de chegar perto!

- Muito bem! Fui lá falar com o padre Matias. Às vezes é

bom visitar a paróquia e falar com um homem bom!

- Bom de se ver sua postura! Que bom seria se todo mundo

fosse igual a você em Lindópolis! Um homem íntegro!

É incrível como um falso elogio é bem recebido! A mentira é

bem recebida porque é feita de doces açucarados e tem sabor

prazeroso! A falsidade vem sorrindo e te fode a vida, mas é

gostosinho recebê-la penetrando na cabeça vazia! As verdades têm

cenho fechado! Coisa árdua e imperativa! Ninguém gosta de

repreensão. O que é gostoso não faz rosnar.

Melhor é viver numa sociedade mentirosa, mas que agrada e

convence! Lição de moral é um porre! Se temos alguém para

descontar a situação do país, pra quê se esforçar para mudar a própria

situação? Sempre crucificamos alguém, e não precisamos mudar, só

encontrar um novo alvo sempre que alguma coisa der errado, afinal

sempre foi assim e mudar dará muito trabalho! Se ainda tem comida

pra estufar a barriga, não precisamos abrir os olhos.

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Me Engana Que eu Gosto

- Ah, mas esse povo não tem jeito! Sempre fazendo o que é

errado na vida e não tem conserto esse lugar!

Todo mundo comenta a vida dos outros e não enxerga os

próprios erros. Muita fofoca com a vida alheia e ninguém gosta de

falar a verdade aqui em Lindópolis.

- O povo aqui é muito sorrateiro! A fofoca aqui é tanta que

vou até entrar senão já vão falar que fiquei de papo com o senhor e

meu marido vai encrespar mais à noite! Lá na janela já vejo logo a

Jurema bisbilhotando. Passar bem “Seu” Jeremias!

- Até outra hora dona! Sempre às ordens!

- Moça bonita! Moça bem prendada! E se uma hora desse um

tapa nessa bunda redonda e carnuda. - É o que pensava, mesmo ela

sendo casada com o Bento, homem bravo e bom de briga! Na menor

das expectativas Jeremias já entrava pra casa dela. Se engraçava sem

ter medo do perigo e deixava até a xícara de café suja e jogada pelo

chão da sala perto do sofá de Gabriela.

Mas é arriscado! Bento deu um sacolejo no Farias, dono da

mercearia, só por ter falado que ela estava cheirosa quando foi

comprar ovos e polvilho pra fazer uns biscoitos. Imagina uma pulada

de cerca! Daria morte!

Mas santa é que não é, com esses decotes! Uma anca de égua

manga-larga! Esses sorrisos também não enganam! Olhares que

muito dizem e muito fazem pensar os homens de Lindópolis!

Cidade falsa viu! Um povo corrupto e corruptível que faz

embaraço! Todo mundo quer tirar proveito de alguma coisa.

Ninguém enxerga nada senão o próprio umbigo.

Os pequenos erros para o povo se perdoam automaticamente.

Nem foi tão grave assim! Todo mundo erra!

Numa inversão de consciência, se todo mundo faz não é

errado fazer também. Uma mentira pequena pode ser aceita como

verdade tranquilamente.

Os problemas daqui não são a saúde; a educação; a

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Me Engana Que eu Gosto

corrupção; a falta de leis; a falta de estrutura; o saneamento básico; a

segurança; o meio ambiente; a violência; o emprego; o comércio; o

turismo; a economia e a habitação. Esses são os problemas que o

povo fala quando são notícia no jornal. O problema daqui é o povo!

O povo é fofoqueiro e gosta de coisa errada! Raça ordinária!

Se por sorte caísse uma bomba ou um cometa pra começar do zero

porque deu errado!

Pra trabalhar vão de cenho cerrado, molejando e preguiçoso!

Mourejar só na beira do rio com a cerveja do lado e pitando

um cigarro! Na sombra é claro!

Mais alguns quarteirões e Jeremias chega ao barzinho de

Lindópolis, cidade quente e cheia de coisa errada!

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Me Engana Que eu Gosto

A corrupção pertence a nós

- Mas o que se passa? - Disse Jeremias.

- Ah “seu” Jeremias, estamos aqui ligando pro Libório mais

uma vez. Vamos incomodar ele toda hora.

- Mas ele não falou que vai pagar vocês quando receber o

dinheiro do pagamento da campanha? E nem vocês votaram no

homem. Trabalharam pra ele e não votaram nele.

- Sim, mas vamos infernizar a vida dele todos os dias até ele

pagar. Pra receber viramos um bando de leões! Cobrar é com a gente

mesmo!

- Pois se eu fosse ele nem pagava vocês. Andam comentando

aí dos poucos votos que ele teve. Botou treze caboclos pra trabalhar

na campanha e teve só seis votos. Está na cara que vocês nem

pediram voto pro sujeito. Primeira candidatura do homem, veio cheio

de propostas pra melhorar o bairro de vocês. Colocou vocês todos

pra trabalhar e não arrumaram mais que meia dúzia de votos pro

infeliz. Isso é se esses votos que ele teve não foi ele mesmo que

pediu. Vocês precisam de um candidato do bairro, que vai fazer pelo

bairro! Senão sai eleito um de outro lugar e não vai dar nenhuma

cesta básica, nenhum cobertor, material de escola, não vai pintar uma

rua, nem dar dinheiro nem pinga...nada. Roubar por roubar, melhor

um de perto que pelo menos está fazendo.

- Isso não é verdade! Trabalhamos muito duro!

E aos risos Galbi não se aguenta:

- Nossa sorte é que trabalhamos também pro Genésio, que até

já pagou.

- Outro que teve pouco voto, uns sessenta apenas. Mas se bem

que esse não faria muita coisa não. E aliás vi cartazes dele

espalhados que vocês colocaram, mas não vi nenhum do Libório.

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Me Engana Que eu Gosto

- Não quis pagar para os donos das casas então nada feito.

Eleição é um mês pra se ganhar dinheiro! Nós pechinchamos com ele

ainda por cima! Oferecemos Cem Conto pra cada casa, e só

pegávamos Cinco Contos ou até uns Vinte pra gente de cada Cem. As

pessoas não querem saber de proposta nem promessa nenhuma, foto

bonita nem nada. Querem é saber o que o sujeito vai dar pra elas em

troca do voto, do espaço no muro, no carro e até pra usar a camiseta e

boné. Libório veio com esse papo de mudança, de renovar, de cobrar

da prefeitura...as pessoas nem sabem o que é isso, mas qualquer Cem

Conto a conversa já muda! Pra gastar no bordel de Dona Flor ele

gasta! Vai lá e se esbanja com a Tieta Morena!

- Ah essa Tieta né? Que pedaço de picanha! - Suspirou

Ernesto, dono do boteco. Um sujeito que veio pra Lindópolis

perseguido da guerrilha Cubana. Branco, barba, cabeleira, quarenta e

oito, muita história, mas aqui já se arraigou. Pacato, machista e

comerciante.

- E sem o Libório saber, imagino. - Cortou Jeremias,

demonstrando interesse no assunto.

- Claro! Afinal político nenhum vale nada! Mês da eleição é

hora de ganhar dinheiro desse povo! Já vão nos roubar por quatro

anos mesmo.

- E você votou em quem Jeremias?

- Mourão é claro!

- Votou não! A mulher dele também não votou nele que eu

sei. Ouvi uma fofoca na padaria hoje cedo. Dizem que ele teve só o

voto dele. Conta a verdade vá...

E mais risos das pessoas no bar do Ernesto, tradicional

comerciante da cidade.

- Mas nunca saberão quem votou nele. Vai que eu votei e ele

próprio não votou? Então não pode me cobrar nada.

- Nossa, eu não tinha pensado por esse lado!

- Puxa Jeremias como você é inteligente!

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Me Engana Que eu Gosto

- “Seu” Ernesto! Traz pra mim uma cachacinha aí!

- Já vai pagar a “pendura” Jeremias? Tem três já anotadas. Sei

que pegou Cinquenta Contos do Mourão porque minha mulher

também pegou e também não votou nele.

- Estou sem um centavo, coloca essa também junto às outras.

Hoje cedo dei meus últimos Cinquenta Contos pra dona Soraia

“comprar as coisas”. Desde que Maiara teve filho ainda não

conseguimos controlar, colocar tudo em seu lugar. Mas pega também

um tira-gosto.

Como Ernesto ficou convencido com a conversa de Jeremias,

ainda mais que lembrou do filho de Maiara, acabou cedendo à lábia

do matuto.

- Vai ficar tudo em Trinta e Dois e Cinquenta. Já com as

outras três.

- Nossa, mas que pinga cara! Desse jeito vamos ter que eleger

político pra abaixar o preço da pinga.

- E olha que minha pinga está barata porque é “batizada”!

Mas só misturo porque o preço do alambique do Miranda é bem

caro!

- E você homem, votou em quem?

- Votei no Miranda mesmo!

- E está falando mal do homem Ernesto?

- Eu sei que ele mente, pode até mentir, mas sabe convencer

muito bem! Pode roubar no preço da pinga, mas faz muita coisa...

- O Miranda, aquele mão-de-vaca?

- Olha Jeremias...Eu posso até não confiar muito nele, mas

acabei votando nele. Se ele roubou mesmo, ninguém conseguiu

provar até hoje. E eu prefiro votar em um que rouba, mas eu conheço

do que em alguém que nunca vi. Não sei o que vai fazer se for eleito.

- Acho que esse país não vai ter jeito nunca!

- A culpa é dos políticos! - Disse Jeremias com propriedade -

Nós não fizemos nada pra esse país chegar nessa crise absurda!

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Me Engana Que eu Gosto

Ontem vi na televisão que vão votar agora uma coisa nova pra

recuperar o que já foi estragado na economia, mas vão ter que

colocar um teto de gasto nas principais áreas básicas. Também vão

aumentar o interstício para aposentadoria integral, privatizarão o

setor da água e esgoto, reduzir cotas de financiamento de faculdade,

aumentar a taxa básica de juros e aumentar a alíquota.

- E isso o que quer dizer? - Disse Nicanor, um dos que

trabalhou na campanha do Libório e Genésio.

- Bom, eu não sei, mas o repórter falou que não é pra se

preocupar e que isso não vai afetar ninguém.

- Ah, então tudo bem!

- Bom gente, eu já vou embora. O papo está bom, mas tenho

que ver o que está saindo de almoço lá em casa. Até mais tarde pra

todo mundo!

- Até mais Jeremias! Bom te ver!

- Estudado esse Jeremias né? Tem sempre uma opinião bem

formada sobre tudo! Muito inteligente!

- Pois pra mim é um falastrão! Acha que é mais inteligente

que todo mundo.

- Não desmerece o homem Galbi. Se você não quis estudar a

culpa é sua. Ele já tem o segundo grau.

- Mas eu sei muito mais coisa que esse raparigo aí!

- Vamos ligar pro Libório de novo? Só pra pirraçar.

- Rá, rá, rá! Liga aí primeiro, eu vou ligar em seguida.

- Olha, falar a verdade viu: acho que a gente devia era

candidatar. Com o tanto de gente que conhecemos seriamos eleitos

fácil!

- Sem contar que conseguiríamos fazer qualquer pessoa votar

na gente! No mínimo uns quatrocentos votos eu garantia!

- Isso é verdade! Imagina se tivéssemos mesmo pedido voto

pro Libório?

- Iria ter voto demais o homem!

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Me Engana Que eu Gosto

- A perder de vista e não dar pra contar!

- Isso é verdade! Ah, mas quero saber só do dinheiro que ele

vai pagar. Liga mais uma vez aí vai...

Quando o preço sobe a culpa é de quem está no poder! Não

sabem fazer nada para melhorar o país! Tudo vai de mal a pior por

causa dessa meia dúzia que está no poder!

A televisão mostra todo dia quem é o culpado! Não adianta

ninguém vir com outra conversa torta porque a televisão não mente!

Os jornais todo dia só mostram sangue, mortes e destruição.

Esse país vai desmoronar qualquer hora dessas e ninguém faz nada.

Em Lindópolis outro dia assaltaram um garoto na porta do

clube para levar seu tênis caro. A outra foi pega traindo, levou uma

surra, o marido foi preso, morreu na cadeia, ela ficou pobre e

começou a “fazer vida” pra se sustentar. Ficou um tempo no bordel

de Dona Flor, mas caçou briga com as camélias e correram com ela

de lá.

Fulano faz gato na água, na luz e se bobear tenta levar

vantagem até no ar que se respira.

Lindópolis! Ah se cai uma bomba ou um cometa como já

desejei! É perigoso explodir as ruas, as casas, as árvores, tudo...e as

línguas ficarem intocáveis saltitando na terra feito pipoca na panela!

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Me Engana Que eu Gosto

Cidade sob a lama

Uma chuva forte caiu sobre Lindópolis! Nas duas primeiras

horas já inundou o bairro do das Primaveras, local onde mora

Jeremias.

Depois da primeira semana muitas casas com goteiras e

árvores caindo. Já há poucas na cidade, e ainda caem as que restaram

como se nascesse um deserto pouco a pouco.

Jeremias correu para a rua para procurar uma lona pra cobrir

o telhado da casa.

Havia muita goteira na cozinha, e chegando ao depósito pra

ver se conseguia uns três metros de lona fiado, eis que estava lá o

professor Vargas, que leciona história na escola Cabral e Caminha,

onde estuda o filho de Maiara e as crianças que moram com os pais

de aluguel nos barracos de Jeremias, os quais chama de filhos.

- Chuva horrível esta não “seu” Isaque?

- Faz tempo que não vejo uma chuva assim em Lindópolis,

muita gente está comprando telhas. Povo sem-vergonha! Estão

comprando telha lá no bairro Macunaíma porque está mais barata

que a minha. E a consideração onde fica?

- Esse povo não tem jeito mesmo nessa cidade!

- Essa chuva tende a piorar nos próximos anos! - Disse o

professor Vargas – a ação dos moradores cortando as árvores que

existiam aos montes em Lindópolis e impermeabilizando solo

produziu um impacto muito grande! Consideramos o espaço

territorial da cidade, e esse calor; forma-se um bolsão de ar quente e

quando ocorre a chuva, tais problemas de alagamento acompanham.

Não há como a chuva penetrar na terra. Vivemos em uma grande

bacia ou uma piscina! E a água que enche a bacia somente sairá pela

evaporação ou por um furo em alguma parte da bacia. Isso quem

19


Me Engana Que eu Gosto

fazia eram as raízes das árvores e a grama.

- Oh professor, desculpe interromper. - disse Jeremias – mas

preciso levar uns três metros de lona pra colocar em meu telhado.

Coloca na pendura “seu” Isaque.

- Mas Jeremias, de novo? Você já me deve a tinta que levou

meses atrás pra pintar o quarto do seu neto, filho de Maiara, que

está até na escolinha.

- Mas entenda, é caso de necessidade. Desde que Maiara teve

filho, ainda não consegui controlar as contas lá em casa nem com os

aluguéis que sempre atrasam.

- Pode deixar senhor Isaque, faço questão! Pode levar a lona

senhor Jeremias. Ficar com goteira em casa com essa chuva pode

acarretar doenças. Quando puder me pague. Qual o valor da lona

senhor Isaque?

- Bom, os três metros saem a Doze Contos, mas faço por

Onze porque é pro senhor.

- Sim! Aqui está o valor! Mas continuando, essa chuva ainda

vai piorar, quiçá nos próximos dias teremos mais destruição e as ruas

se tornarão intrafegáveis!

O professor parece nem ter dado importância ao valor da lona

negra. Parecia querer um diálogo inteligente, e ser correspondido por

um público que soubesse no mínimo do que ele estava falando.

Parecia carente de atenção.

- Recordo-me quando fiz minha pós-graduação e estudava

sobre o ciclo das cheias do Rio Nilo. O levante das águas inundava

searas inteiras! E por incrível que pareça os territórios onde mais se

alagavam eram os mais cobiçados, se tornando um verdadeiro oásis

em pleno deserto, cuja fertilidade do solo impulsionava as colheitas!

Nesse momento um trovão e então o professor Vargas se

despede rapidamente, indo em direção ao seu carro antes que as

águas da chuva inundem também o interior do carro.

- Que generoso não é verdade Jeremias?

20


Me Engana Que eu Gosto

- Pois pra mim é um falastrão!

- Por que homem?

- Fica querendo dar uma de estudado só porque estudou fora.

Acha que é mais inteligente que os outros porque estudou. Uma vez

eu vi no “Chapolim” que o Rio Nilo é onde tem a Cleópatra. Isso eu

também sei. Não precisei ir pra faculdade pra saber não.

- E você nem agradeceu a ele pela lona.

- Ora...fica querendo se exibir porque estudou fora e tem

carro novo. Meu Corcel velho deixa esse isopor com motor pra trás

comendo poeira. A chuva não tem nada a ver com isso tudo que ele

falou. Na televisão não falou nada disso.

- É sério Jeremias? Eu estou sem televisão em casa desde que

a minha queimou. Não dá pra arrumar agora enquanto eu não receber

o fiado do povo.

- Claro! A culpa da chuva é do governo que não previu a

mudança do tempo. Ontem o repórter falou isso bem claro!

- E esse professor querendo colocar a culpa no corte de

árvore? Vê se pode. Imagina aquele monte de árvores sujando as ruas

todo inverno? A melhor coisa foi ter cortado esse mal pela raiz

mesmo.

- Tem gente que estuda pra ficar burro mesmo, e esse

professor aí é um. Acabam ficando doidos e falam besteira. Se eu

fosse ele ficava de olho é nos decotes que a mulher anda usando cada

vez que vai à casa do pedreiro Fernandinho pra mandar arrumar uma

pia que nunca fica pronta na casa dela.

- Isso é verdade!

- Bom...já vou indo porque tenho que arrumar o telhado, está

pingando na cozinha e a “dona encrenca” quer que eu arrume isso

hoje mesmo.

- Até mais Jeremias, volte depois pra prosear um pouco.

- Passo sim!

Nisso Jeremias corre pela rua no meio da tempestade

21


Me Engana Que eu Gosto

enquanto o Isaque fica pensando...

- Estudado esse Jeremias viu! - pensou Isaque - Que sujeito

crítico! Consegue rebater qualquer coisa. Grande exemplo pra

Lindópolis! Se todos fossem como ele ninguém seria enganado nessa

cidade! Eu votaria num sujeito desses!

Ao entrar em casa Soraia já foi logo perguntando:

- Comprou a tela Jeremias?

- Comprei “dona Maria”! Que encrenca sô! Estou todo

molhado, vou tomar um banho e depois subirei no telhado pra

colocar.

- Mas se já está molhado devia aproveitar e esticar a tela lá

em cima homem.

- Que nada. Já estou de péssimo humor, e ainda pego uma

gripe.

- Mas o que houve?

- Sujeito oportunista! Não queria me vender fiado e fica

falando pra eu passar lá pra bater papo, como se eu tivesse tempo pra

isso.

- É sério que ele não queria vender fiado?

- É, mas eu paguei. O dinheiro era pra “comprar as coisas”,

essa semana nem adianta me pedir mais dinheiro.

- Tudo bem! Eu entendo. Essa chuva é prioridade!

- Essa chuva é culpa de vocês mesmas que infernizaram o

prefeito pra limpar as ruas, e agora com as árvores cortadas a chuva

não tem por onde sair.

- O que isso significa Jeremias?

- A cidade virou uma bacia! As árvores controlavam tudo, e

agora que foram cortadas a água vai continuar inundando a cidade

até evaporar, igual acontece lá no Rio Nilo.

- Não sei onde é esse rio, mas isso é grave?

- Não, se fosse grave a televisão já teria falado.

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Me Engana Que eu Gosto

Maiara assanhada

Maiara andava assanhada!

A morena de guedelha já com um filho aos 16 anos começou

a querer um short curto novo de qualquer jeito que viu na loja da

Rebeca, uma vendedora de roupas que traz os materiais lá da capital.

Parou na sexta série depois de engravidar de um mancebo que

se engraçou para os lados dela aos 12 anos. Gostava de ouvir música

chula e usar uns cordões de aço polido no pescoço. Um

penduricalho! Coisa horrorosa de tão pesada.

Mas foi lá e fez mal pra Maiara, filha do Jeremias que nunca

se preocupou com a filha usando roupas muito curtas, algumas

exibiam inclusive detalhes da anatomia das partes íntimas, até a

polpa da bunda escapava quando estava andando.

Infelizmente em alguns lugares há uma cultura de valorização

do corpo em detrimento da valorização do estudo. Poucas mulheres

têm se interessado em estudar em Lindópolis. A necessidade de ser

importantes e serem desejadas sobrepôs a necessidade de estudar e

crescer profissionalmente, de ter uma estrutura.

Aos doze se inicia o uso de roupas curtas, por vezes

mostrando até a “popinha” da bunda, e aos quinze a “novinha” já

virou comedora das bolsas assistenciais à população de baixa renda,

desestruturada e miserável, que angaria o fardo de ser a parcela mais

burra, ignorante e corrupta da sociedade de Lindópolis!

Eles sonegam, compram mercadoria pirata, saqueiam

caminhões tombados, ouvem música fétida e de baixo calão, e para

toda a culpa são coitados, inocentes e vítimas sociais.

Até que Maiara saiu pela rua com um short muito curto e

fino, com estampa nas bordas e bordado.

Diziam as más línguas que ela possuía um cheiro um pouco

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Me Engana Que eu Gosto

desagradável nas partes íntimas, mas disfarçou com um creme de

corpo, coisa incomum dela usar. Passou tanto que no braço próximo

ao sovaco ficou uma plasta de creme branco.

- Por que ela está usando esse short curto? - Disse uma

criança no beco.

- É porque ela está namorando, não vê. Está de roupa curta. -

Disse outra menina.

- Ela vai namorar lá no quarto dela. Vai aproveitar que não

tem ninguém na casa.

- Vamos brincar de casinha?

Passou exibindo um bundão, metade da “popa” de fora

carregando três garrafas de cerveja até o bar do Ernesto. Não tomou

banho, só se lambuzou de creme que pegou emprestado no guardaroupas

da mãe Soraia.

Passou foi uma água com creme rince no cabelo pra dar um

cheiro e o perfume de Alfazema horrível da mãe.

Essa mulher com esses seios enormes e caídos, seguros pelo

sutiã apertado, não aparenta dezesseis nunca. Qualquer um chuta

mais idade.

Na entrada do beco onde havia seis casas, contando com a de

Jeremias, o Chevete beje do novo mancebo que está se engraçando

para os lados dela. O pessoal da casa e um vizinho que colocou

gasolina no carro de Jeremias foram visitar a mãe do Jeremias e

tomar caldo. Programa de domingo desse povo. Colocar oito pessoas

em um Corcel velho e seguir famintos pra casa da parentada pra

bater papo e comer.

No bar os homens ficam olhando e murmurando com os olhos

as fofocas sobre o novo acontecimento. Ela rapidamente compra três

cervejas baratas e volta pra casa para uma tarde de diversão.

Ao entrar na casa o homem fumava um cigarro na varanda,

com ar de galã. Velho, de cabelos esbranquiçados. Eu poderia chutar

uns 42 anos, porém pra mais devido ao envelhecimento de uma vida

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Me Engana Que eu Gosto

boêmia, cigarros, bebidas, noitadas de farra. Um ar de aproveitador.

Fechou a porta e as janelas, tomando cuidado de fechar bem

as cortinas bordadas brancas e colocou uma música horrível de

“sofrência” no rádio da casa, arranhando com um desafino de voz

considerável a letra da música. De doer os ouvidos!

Enquanto o homem sentado no sofá já enchia um copo

americano de cerveja e ria, de um jeito cínico com a cena

espalhafatosa que se desencadeou na casa. Seria um ritual de

acasalamento ou a transformação em zumbi?

E as quatro meninas, que cochichavam sobre o “affair” de

Maiara ficaram beirando a casa pra ver se escutavam alguma coisa,

não se aguentando de curiosidade sobre o que estava acontecendo

dentro da casa.

Mas é certo que faziam ideia de alguma coisa, afinal as letras

das músicas que os jovens ouvem nesse lugar descrevem relações

chulas de contato entre indivíduos da espécie. Tudo muito tribal e

antropofágico! Um povo Abaporú que muito lembra o famoso quadro

de Tarsila do Amaral.

Essas meninas, que estão com sete anos, já são incentivadas

pelas mães a rebolar até o chão como faziam antes da segunda

gravidez, que ligou o sinal de alerta, já com a segunda gestação e não

recebem nem a primeira pensão, pois óbvio, são mães solteiras de

pais sumidos no mundo.

É bonito? Não! É agradável? Não! Dá pena? Também não!

Há pobres que abrem os livros. Há pobres que abrem as

pernas.

Uma sociedade que apedreja a verdade, mas adora a mentira!

Adora ser enganada o tempo todo porque a mentira é gostosinha e

aceitável! Já a verdade é como um tapa na cara e arde o lugar mais

pesado, que é a consciência.

- E o que será que deve estar acontecendo lá dentro heim

Ernesto?

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Me Engana Que eu Gosto

- Isso eu não sei Galbi, mas é certo que embucha logo!

- Será “seu” Ernesto? Piriguete danada sô! Mal saiu um e já

está querendo pegar outra pensão?

- Mas ouvi dizer que o outro lá não paga desde os quatro

meses.

- Está feia a coisa! Daqui a pouco só vai ter mãe solteira em

Lindópolis.

- Jeremias outro dia falou que viu na televisão que a culpa é

da saúde. Parece que eles não estão prevendo esse tipo de impacto e

nós é que pagamos o pato.

- É tudo culpa desse governo mesmo! Se colocassem gente

que faz alguma coisa lá, esses problemas todos iam acabar fácil!

- Eu sei que tudo isso que está acontecendo tem culpa do

governo. No rádio hoje cedo estava falando que vai ser baixada uma

norma nova pra diminuir inflação só que vai haver déficit de

contratação.

- E isso o que quer dizer?

- Bom, eu não sei, mas o repórter falou que não é nada pra se

preocupar, e que logo será normalizado.

- Ah, então tudo bem! Deve ser coisa boa vindo por aí! Vocês

aqui tem muito mais facilidades do que lá no meu país! Quando é

alguma coisa que não entendo direito, nem perco tempo tentando

entender. Só espero pra ver o que acontece. Se for bom é bom, se for

ruim é ruim.

- E Jeremias? Não passou por aqui hoje. Nem deu as caras.

- Oras...foi com a mulher, o filho da Maiara e a família de um

dos inquilinos pra casa da mãe tomar caldo. Devem ficar a tarde toda

por lá.

- Esse é um “boa vida” viu! Jeremias leva uma vida de rei

aqui em Lindópolis!

- Nem pra tanto. Tudo que consegue é no gogó.

- Não desmerece o homem Galbi. É um dos poucos em

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Me Engana Que eu Gosto

Lindópolis que sabe conversar bem e agrada com a conversa!

- Mas tudo que ele fala aprende na televisão que não

desgruda. Assim até eu fico inteligente! Aliás, está com uma

televisão no bazar lá dos Cardoso. Estou querendo pegar uma laje

sábado pra ver se negocio essa televisão. Ficar sem televisão é ruim

demais! A gente quer ver uma novela, não pode. Quer ver um jogo,

não pode. Casa sem televisão é muito ruim! Não tem nada pra fazer e

a gente fica burro!

- Isso é verdade! Desde que separei e aquela diaba levou

metade da casa eu fiquei só com a cama e uma cômoda. E não vai

dar pra comprar outra televisão tão cedo.

- Isso não é vida homem!

- Fazer o quê. Com o tanto de fiado que o povo não me paga

fica difícil até pra comer.

Na frente da casa de Jeremias, as duas meninas continuavam

brincando, quando uns barulhos vindo de dentro da casa de Jeremias

fizeram com que as mães chamassem para dentro das casas as

crianças. Maiara estava despudorada e sem preocupações com a

vizinhança. As mulheres não reclamaram, apenas colocaram as filhas

pra dentro de casa pra não ouvir o barulho chulo e degradante de

gemido que se geme sem sentir dor, mas vai doer!

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Me Engana Que eu Gosto

Professor Vargas e os jornais que porejam sangue

É manhã! Segunda-feira após chover todo o final de semana.

O brilho do sol anunciando um novo dia! Um astro-rei imponente

colorindo a aurora nas primeiras horas da manhã!

O professor Vargas lê seu jornal diário na varanda de casa

fumando um cachimbo enquanto sua esposa prepara o café.

Logo na primeira página a notícia de um homem que matou a

ex-mulher na zona rural de uma cidade vizinha por causa de divisão

da casa e de uma fazendinha.

O outro foi roubar um senhor usando uma faca. O velho

reagiu e foi esfaqueado.

Filho que bateu no pai querendo dinheiro para usar droga na

capital, foi linchado pelos vizinhos.

Uma mulher foi encontrada com o amante e o marido traído

matou ambos com tiros na cabeça. Está foragido em alguma cidade

do interior do estado e sendo procurado pela polícia em todos os

batalhões, pois já é a segunda esposa que mata, e ambas por traição.

O professor todos os dias é apedrejado por inúmeras notícias

tão ruins! Parece que se espremer o jornal pingará sangue no chão!

- Amor, está pronto seu café!

- Obrigado minha linda! Estou aqui acompanhando as

notícias no jornal.

- Então bem, mais tarde virá aqui o pedreiro para consertar o

vazamento que a chuva causou, alguma coisa contra?

- Não minha linda. Eu confio em você! Sabe que nunca tive

preocupações em você estar sozinha em casa e precisar vir algum

homem para fazer reparos na casa.

- Está bem então! E que horas voltará da escola? Caso eu

precise sair pra fazer alguma coisa.

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Me Engana Que eu Gosto

- Hoje devo demorar um pouco! Tenho que corrigir as

avaliações dos alunos, também quero conversar com eles sobre a

chuva, sobre as mudanças do clima, tentar conscientizar essa

garotada, porque a geração atual não tem mais conserto, mas talvez

os jovens possam mudar os rumos dessa cidade.

- Ótimo! Está bom o café?

- Sim! Tudo o que você faz é bom!

- Então eu vou ao supermercado comprar umas coisas pra

fazer um almoço. Quando eu voltar você já terá saído, então te amo!

- Eu também te amo!

Ao s levantar Vargas vai até a cozinha deixar a xícara de café

e o forro da pia estava torto. Abaixou-se para arrumar e viu que

estavam faltando três cascos de cerveja. Claro, sua mulher deve ter

quebrado, foi o que pensou.

Apressado saiu para lecionar, e passando pela praça lá

estavam os matinais habitantes de Lindópolis, em suas ações sociais

diárias de fumar cigarro, conversar, matutar. Na verdade eu nunca

entendi quanto assunto essas pessoas têm para falar, num lugar

carente de trabalho, de empresas, de centros comerciais.

Não há nada em Lindópolis. A cidade vai se inflando de filhos

de jovens mães solteiras e retirantes que chegam de outros lugares.

Antes nem crime havia nessa cidade quente e de gente

fofoqueira. As casas podiam dormir com as janelas abertas, mas

sempre onde impera a ignorância do povo e a falta de estrutura, o

crime começa a se proliferar como a quantidade de filhos que vão

saindo da fábrica.

Vargas é um visionário, e antes que eu me esqueça, já havia

me indagado os motivos que levam uma pessoa com essa cultura a

vir para um lugar tão ruim quanto essa cidade cheia de pessoas falsas

e sem nenhuma condição de progresso social. Mas foi por herança,

desafio e curiosidade.

Na escola as alunas de 11 anos já aderiram a uma nova moda

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Me Engana Que eu Gosto

que é dobrar o short até o mais curto que conseguirem, deixando seus

brotos semelhantes a uma mexerica aberta.

Eu me pergunto onde vai parar essa cultura inútil e fétida que

se apoderou dessa escola? Qual a necessidade disso?

Será que estamos voltando ao tempo do descobrimento do

Brasil na escola Cabral e Caminha? Onde os descobridores

encontraram uma terra repleta de pessoas nuas e de cultura pagã?

Tempos atrás tanta libertinagem renderia uma boa surra dos

pais, que até mesmo por um vestido sem a anágua castigariam a

manceba. Mas nos dias de hoje o corpo virou uma peça acessória a

ser exibida, tal qual uma corrente no pescoço.

Vargas passa pela rua de acesso à escola e alguns de seus

alunos fumando cigarros escondidos em um portão de garagem.

Depois chupam balas de menta forte para disfarçar o odor que

exalam. Sabonete de glicerina nas mãos e uma cheiradinha pra

conferir se saiu o cheiro azedo.

É o alimento de uma jovem guarda que não tem nenhuma

direção, ao contrário de um movimento artístico, os grafites são essas

figuras magras que iniciam o crescimento das barbas.

Não há nada para se aprender em Lindópolis, apenas que

quando um pão está fresco, se for deixado sobre a mesa o fungo vem

e começa a comer o pão, se multiplica e no final, quando não houver

mais pão, os fungos eclodirão a guerra apocalíptica da ignorância e

hostilidade que acabará por destruir o fungo, assim como destruíram

o pão.

Mas Vargas por algum motivo continua a lecionar e viver

nessa cidade cheia de gente ruim!

Após mais um dia de trabalho, retorna pra casa e dá um beijo

em sua esposa.

Jantaram e ao recolher a mesa ainda vai ajudar a esposa.

Novamente o forro da pia desajeitado, e ao arrumar a caixa de

cervejas estava completa.

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Me Engana Que eu Gosto

Lembrando-se da manhã quando faltavam três cascos, pensou

em perguntar à esposa, mas acabou sendo interrompido pela

campainha, com um pedido de ajuda da mãe de um de seus alunos,

que se recusava a voltar para as aulas e queria ficar na vadiagem com

os amigos mais velhos. Era Jurema.

Então, sentindo um acréscimo de vida em ser útil, correu a

atender ao pedido, a esposa ficou apreensiva, correndo a ajeitar o

forro da pia enquanto Vargas saiu feliz ajeitando o paletó. Simbolo de

eficácia e docência que se apodera sempre do seu semblante.

Quem muito se preocupa com os outros em Lindópolis vai

acabar tendo dor de cabeça, dessas que o remédio não vai tirar.

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Me Engana Que eu Gosto

Um artista em Lindópolis

Foi numa terça-feira. Dia normal em Lindópolis. Lembro-me

que a Jurema foi a primeira a avistar o carro de Augusto Trivelim,

grande ator de televisão!

Jurema logo soltou um grito e a rua inteira ouviu.

- Augusto Trivelim! - Gritou a fofoqueira notável de

Lindópolis.

Contudo o carro passou um pouco apressado, como se

precisasse resolver uma coisa muito urgente!

Jeremias, em seu passeio matinal pela pracinha da cidade, ao

avistar o carro branco de Trivelim, quase pula na frente do veículo,

porém é interpelado pelo próprio ator, à procura de um mecânico.

- Bom dia meu senhor! Preciso de um mecânico com certa

urgência! Meu carro não está muito bem. Estava de passagem pela

estrada, mas sinto que não conseguirei...

- Augusto Trivelim? Da televisão? - Gritou Jeremias com

espanto, interrompendo a fala do ator.

- Sim! Sou eu mesmo! Que bom que me reconheceu!

- Que surpresa visitar Lindópolis! Sei tudo de mecânica! Dê a

partida. Deixe-me ouvir o som do motor.

- Na verdade o problema não é de motor. O carro está

gastando muito combustível e esquentando demais. Deve ter furado

alguma mangueira. Estou com medo de fundir.

- Venha até minha casa. Sou dono da oficina da cidade.

Deixamos seu veículo lá enquanto meus mecânicos deixam seu carro

mais novo do que já é! Não precisará pagar nada.

Jeremias nunca foi dono da oficina mecânica, e também

nunca abriu o capô de um veículo para consertar. Mas sua sede pelo

aumento do ego e imagem fizeram sua cabeça matutar quase que

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Me Engana Que eu Gosto

instantaneamente a trama para virar ainda mais celebridade em

Lindópolis. Queria mostrar poder ao lado de um ator de televisão. Há

pessoas que para ter reconhecimento social são capazes das provas

mais notáveis de safadeza, mentira, promiscuidade e corrupção!

Surpreso com a generosidade, o ator acabou aceitando o

convite para ir à casa de Jeremias. Estava retornando de suas férias

em Catimbó, cidade cheia de cachoeiras, logo após os limites de

Lindópolis.

Estava de férias mesmo. Não seria ruim conhecer outra

cidade antes de chegar à capital para gravar a nova novela das oito, e

depois de haver conhecido pessoas tão hospitaleiras em Catimbó,

acabou cedendo a um desejo de Jeremias.

Nunca estivera em Lindópolis. Somente adentrou os limites

da cidade porque seu conversível estava com defeitos, e teve medo

de ficar no meio da estrada. Não havia cidade próxima.

Após Lindópolis somente havia mato até a próxima cidade,

município de Cuiara, e fica cerca de 40 quilômetros depois da

entrada de Lindópolis.

Dizem as más línguas em Lindópolis que o povo de Cuiara é

ladrão. Ninguém gosta daquele lugar. Se o ator parasse por lá era

bem provável que teria alguma coisa roubada, ou até mesmo o

próprio carro. Isso é o que dizem os habitantes de Lindópolis. Toda

essa história começou quando o vereador Miranda foi até lá para

negociar a venda de cachaça. Na época ainda não era vereador, e

vivia de seus alambiques de cachaça que abastecem toda a região.

Chegando lá percebeu que a maioria dos bares já tinha

bebida, e que haviam comprado de outro alambique pequeno, lá

mesmo na cidade.

Então Miranda voltou com a história de que foi roubado na

cidade de Cuiara, e como já tinha muita influência em Lindópolis,

logo a história se espalhou.

Ninguém mais vai a Cuiara, e quem trabalhava em Lindópolis

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Me Engana Que eu Gosto

sendo morador de lá, foi demitido com o passar do tempo após a

fama da cidade ganhar corpo nas línguas afiadas desse povo

fofoqueiro.

Cuiara ganhou fama de cidade bandida e ordinária, onde

ninguém presta e ninguém vale nada. O alambique de um tal João,

fechou por causa da falta de cana-de-açúcar pois ninguém mais

vendia para Cuiara. O comércio ficou parado e hoje a cidade não

vive bem, só comem porque existem plantações, senão já teria sido

varrida do mapa.

Foi eleito um prefeito novo por lá, um tal João Romão que

ninguém conhece. Dizem as más línguas que vai mudar a cidade.

- Nestor, quero que deixe o carro do meu amigo Trivelim

mais novo do que já é!

- Jeremias, não sabia que tinha amigo famoso! - Disse o

mecânico Nestor. - Podia me dar um autógrafo pra mostrar pra minha

mulher que vi um artista da televisão.

- Na verdade eu estou de passagem rumo à capital meu

amigo!

- Bom Nestor, o carro dele está com problemas de vazamento

de combustível. Arrume pra nós. - Disse Jeremias, interrompendo

todos, com ar de chefe.

Queria impressionar o ator e continuou em seguida, tentando

demonstrar a todo momento que era o dono da oficina.

- Iremos até minha casa tomar um café enquanto conserta o

carro. Quando estiver pronto, peça a algum garoto pra ir nos chamar.

Rapidamente saindo do local, caminhou a pé com o ator pelas

ruas da cidade. Os moradores saíram às ruas para ver o ator, o qual

Jeremias exibia como um troféu, inclusive acenando para as pessoas,

tal qual um político em época de campanha.

Até o andar de Jeremias era praiano, como se estivesse

tentando se livrar dos sapatos e arrastar os pés sobre uma maciça

areia de praia.

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Me Engana Que eu Gosto

- Senhor Trivelim. Eu quase não o alcanço. Pensei até que

esse Jeremias o havia sequestrado pra guardar como um enfeite da

sorte.

- Suas piadas sempre carregadas não é verdade Jurema?

- É apenas bom humor, amigo Jeremias. O que deseja minha

senhora? - Disse o ator com ar de educado e simpático.

- Eu quero um autógrafo seu nessa camisa. É de minha filha.

Quero guardar de lembrança.

- Espera aí Jurema! Você...

- Ah pára Jeremias. Deixe o homem dar meu autógrafo. Não

seja tão chato.

Jurema só tinha dois filhos José e Caim. Jeremias iria

desmenti-la, mas pensou: ele também estava explorando a imagem

do ator. Deixou a fofoqueira levar esse despojo pequeno. Afinal ela

teria só um rabisco em uma blusa, ele tinha o ator em pessoa para

exibir para toda a cidade de Lindópolis.

- O que quer que eu escreva no autógrafo?

- Escreva assim: Com carinho para minha eterna amiga!” Não

precisa colocar meu nome.

O ator Augusto Trivelim estranhou, mas deixou pra lá. Quis

fazer a vontade da fã. Não conhecia os princípios dos habitantes de

Lindópolis. Aquela blusa logo seria vendida. Só vamos ver se a

provocante Gabriela do Cravo dará falta de sua roupa retirada do

varal quando voltar.

Então Jeremias, num súbito raciocínio sagaz, chegando em

um cantinho enquanto uma outra mulher pegava autógrafo:

- Escuta aqui fofoqueira: eu sei o que você fez, então me faça

um favor e estamos quites. Você vai ter que me ajudar.

- Sabe que minha boca é um túmulo, ora Jeremias.

Então sorrisos de ambos e Jeremias lhe passa as últimas

instruções ao ouvido como gângster ou mafioso:

- Fale lá no bar que o Trivelim é meu amigo de infância e

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Me Engana Que eu Gosto

veio até Lindópolis a meu pedido. Que em dez minutos vamos passar

perto do bar. Avise principalmente ao Ernesto. Avise todo mundo.

Mas tem que ser rápido!

- Você não vale nada cobra velha. Rá rá rá rá!

- O sucesso não se alcança sem um jeitinho. Ninguém sobe na

vida sem fazer alguma malandragem.

Caminhando pela rua, pouco tempo depois, a caminho da casa

de Jeremias, e eis que vem a mulher de Ernesto, arrastando a dupla

de celebridades para o bar de Lindópolis. Havia preparado uma

grande variedade de salgados e tira-gosto para impressionar à ilustre

visita.

- Que honra recebê-lo aqui em meu estabelecimento!

Jeremias podia ter trazido o senhor aqui é muito antes.

- Ora Ernesto, deixe ele entrar pelo menos. Você nunca me

chama com tanta alegria quando passo aqui.

- Deixe de bobeira Jeremias, sabe que é meu melhor cliente!

Aliás além de melhor cliente é um grande amigo.

- Estou vendo. - pensou Jeremias, na verdade já se sentindo

uma celebridade e sentindo prazeres corporais que nunca havia

sentido antes.

Eu nunca consegui entender como os seres humanos ficam

idiotas quando de alguma maneira são submetidos a algum tipo de

fama ou aspiração de reconhecimento. Passam a achar que o ar que

estão respirando é melhor que o dos demais humanos ao redor ou que

suas bundas não fedem. Esse sentimento de engrandecimento de

carne que quando morre vira comida de minhocas é o que dá sentido

a uma sociedade desigual, preconceituosa, falsa, pecaminosa e

interesseira. Bom...

- Preparamos todos esses petiscos para o senhor. É tudo por

conta da casa senhor Augusto Trivelim.

Os olhos de Jeremias pularam do rosto tosco! Todas aquelas

iguarias, de graça. Logo pensou que Ernesto era um mão-de-vaca que

36


Me Engana Que eu Gosto

vivia cobrando por causa de simples penduras.

Não se fez de rogado e logo já meteu a mão em cima dos

pastéis de angu.

- Comemeu amigo, que esses tira-gostos são os melhores

daqui. - Disse Jeremias, seguido de um longo sorriso de “sou

modesto” do comerciante Ernesto, colocando até mesmo as mãos

cruzadas sobre a cintura e encolhendo os ombros, tal qual um artista

quando recebe os parabéns e um tapinha nas costas.

- Sim, vou experimentar. Muito obrigado senhor Ernesto! É

muita gentileza de sua parte, mas eu insisto em pagar.

- Não faça isso. Eu me recuso a receber um só tostão.

O ator acabou aceitando a cortesia do dono do bar. Na

verdade estava acostumado a todo tipo de cortejo das pessoas, mas

era a primeira vez que parava em cidades do interior.

- Augusto Trivelim em meu estabelecimento! Quem diria! O

senhor aceita mais um suco natural?

- Não meu amigo, muito obrigado! Estou satisfeito.

Jeremias se esbaldava com os salgados, e o bar cheio de

pessoas, sempre se postava como um empresário do ator ou um

segurança, fitando as pessoas que iam se aproximar, e com o olhar

dizendo instruções aos curiosos. Sempre gesticulando muito e por

vezes tomando as rédeas e intermediando pessoas que queriam

chegar até ele. Parecia uma cerca que limitava o contato do público

com o ator, sem deixar é claro, que ele percebesse.

Trivelim estava ocupado sendo gentil e cortês, e não percebeu

a tática populista de Jeremias.

O populismo é um grande câncer dessa gente! Desde o

prefeito, os vereadores, os policiais, o juiz e até mesmo o cantor.

Nessa cidade até mesmo um papel que a pessoa catar do chão, quer

engrandecer o ato e que todos vejam e parabenizem. Se essa gente

fizesse a metade do que fala que faz a cidade de Lindópolis não seria

essa macumba enterrada e conseguiria progredir.

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Me Engana Que eu Gosto

Após saírem do bar do Ernesto, caminharam até a casa de

Jeremias, conforme havia sido combinado.

Um dos meninos, sorrateiramente a mando de Jeremias tratou

de catar o máximo de salgados possível e levar pra casa, passando

pela porta dos fundos, de acesso à cozinha e guardar tudo dentro da

dispensa.

Maiara já foi logo abrindo o portão. Usava um short curto e

apertado que causou estranheza ao ator, que entretanto, nada disse.

Parecia que as coxas da garota disputavam a existência do mesmo

lugar com o short numa guerra sem fim pra ver quem existiria e

quem seria extinto.

Maiara já foi logo pulando em cima do ator aos abraços, e ele

que é bem alto quase fica corcunda com o ataque de mais uma fã

eufórica.

- Maiara, se comporte. Não foi essa a educação que eu lhe

dei. - Bradou Jeremias.

Nisso o filho de Maiara veio tímido ver o ator Augusto

Trivelim. Achou que era outro namorado de Maiara. Ficou de longe

no canto da sala observando.

- E esse menino tão simpático? Não vai vir até aqui?

- Ele é um pouco tímido senhor Trivelim. É meu filho Ereé. É

um nome indígena que vi na televisão. - Disse Maiara.

- Que pena! Uma criança tão bonita!

- Vem cá Ereé, cumprimente o moço. - Disse Maiara.

Ereé tinha quatro anos. Na verdade Maiara ordenou que ele

não interferisse quando a visse com algum namorado, e se

perguntasse, dissesse que era irmão dela, por isso o menino, que até

reconheceu o ator, ficou de longe apenas observando. Não sabia que

era visita. Pensou ser mais um dos casos amorosos de Maiara.

Não sabia o que era a imagem de um pai no relacionamento

familiar. Ainda não tinha idade para saber sobre essas coisas. Via sua

mãe com roupas comuns, mas colocava roupas muito curtas quando

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Me Engana Que eu Gosto

conversava com homens. Não sabia o que era uma família, mas não

possuía idade pra entender também. Então pelo menos por enquanto,

perguntas como o que seria um pai, ainda não estavam bem

formuladas.

- Soraia, compre lá uma boa bebida para o senhor Trivelim.

- Obrigado meu amigo, mas eu vou dirigir, não posso beber.

- Tudo bem então, faz muito certo!

E Jeremias, encaminhando Soraia para a cozinha lhe disse:

- Olha, vá lá e pegue no mercado um vinho caro, uns petiscos

caros e diga que é para o ator, que depois pago.

- Mas Jeremias, eles não venderão fiado. E ele nem vai beber.

Acabou de dizer que vai dirigir.

- E nem vão vender. Irão te dar, de graça, e dizer que é uma

cortesia. O Ernesto fez um banquete pro homem, não viu os salgados

na cozinha? Se titubearem diga que eu levarei ele no mercado antes

dele ir embora.

- Mas Jeremias...

- Ora, vá logo que ele logo vai embora mulher. Quero comer

um tira-gosto de qualidade pra variar mais tarde.

Ao voltar para a sala Maiara estava dançando uma dessas

músicas bizarras com letras apelativas e rebolando com as mãos

apoiadas no sofá. Até um bodum começou a tomar conta do

ambiente, mesmo com as janelas abertas, sendo cobertas por apenas

uma cortina bordada. Assim que os pais foram para a cozinha ela

ligou o som nessa música bizarra e já começou um circo de horrores.

Augusto Trivelim se mostrava constrangido pela cena, quase

que implorando pra alguma coisa acontecer e ter que sair dali.

- Mas que pouca-vergonha é essa Maiara? O que a visita vai

pensar? Você dançando essas músicas horríveis de jovens.

- Eu estava só me divertindo pai.

- E vá logo trocar esse short que está muito indecente. Dá pra

ver até a poupinha da anca.

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Me Engana Que eu Gosto

Augusto nada disse. Tamanho foi o constrangimento daquela

cena inusitada e extremamente de mau gosto a que fora submetido.

Queria ir embora logo, seguir viagem, mas as horas passavam

e o mecânico nada de entregar o carro.

- Vamos voltar ao mecânico. Estou preocupado Jeremias!

Tenho horário.

- Vamos sim. Mas não se preocupe senhor Trivelim. Meu

mecânico é de ótima formação! Irá deixar seu carro como novo!

- Eu quero ir logo pra capital. Minha viagem foi cansativa, e

toda a recepção dos moradores daqui também é calorosa, mas cansa

as energias!

- Eu entendo. Sei como é essa vida de celebridades...é muita

gente pra dar atenção, muitos lugares pra ir...

- Verdade. As pessoas nos olham na televisão, mas não sabem

que a vida é muito corrida!

E lá se foram para a oficina do Nestor, e chegando lá o carro

já estava pronto, parado na entrada da oficina. Até uma lavagem

fizeram e estava brilhando!

- Nestor, por que não avisou que o carro do senhor Trivelim já

estava pronto?

- Mas acabei de terminar Jeremias. Estava com vazamento de

combustível. Precisei trocar uma válvula, reparar o bico do...

- Tudo bem, tudo bem...falamos disso depois. - Interrompeu

Jeremias, já percebendo que Nestor queria depenar a carteira do ator.

E enquanto o ator ligava o veículo para testar, Jeremias falou para

não cobrar nada dele, que acertaria depois.

Nestor fez uma cara de descontentamento e já vislumbrava

mais uma armação de Jeremias. Entrou para o escritório e ficou por

lá escrevendo alguma coisa de cara fechada.

- Ficou bom! - Disse Augusto Trivelim.

- Viu? Eu te disse que minha oficina era boa!

- Onde está seu funcionário? Preciso agradecê-lo.

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Me Engana Que eu Gosto

- Não se preocupe. Ele é um pouco tímido! Agora seu carro

chega até a capital.

- Então venha Jeremias. Vou levá-lo até sua casa.

- Claro que sim Augusto, vamos lá!

Uma volta de conversível pela cidade, para Jeremias

consolidar seu desejo de ser importante a qualquer custo. Acenava

para as pessoas como se o ator Augusto Trivelim fosse seu chofer.

Passaram em frente a prefeitura e Miranda estava na janela

tentando ver a qualquer custo. Um olhar de deboche de Jeremias e

virou o rosto ajeitando o chapéu.

E sinceramente não sei se Trivelim não percebeu o quanto as

pessoas dessa cidade são falsas, ou se estava apenas atuando, dando

às pessoas o que elas gostam simplesmente.

Isso eu não poderei descobrir, a menos que ele esqueça

novamente de colocar água no radiador do veículo e achar que o

carro tem problemas de vazamento de gasolina.

E ainda bem que o Nestor ao abrir o capô viu que era apenas

água! Não conseguiria mexer num veículo desses de jeito nenhum!

Na verdade nunca fez curso de mecânico, aprendeu no dia a dia

desde que abriu a oficina e fundiu o motor de seu primeiro carro uns

quinze anos atrás.

Mais uma parada na porta da casa de Jeremias, e após

buzinar, partiu.

Seguiu a rua a caminho da saída da cidade com seu

conversível. Jeremias e vários moradores ficavam acenando para o

ator que retribuiu com outra buzinada e acelerou.

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Me Engana Que eu Gosto

Visita indesejada

Os parentes de Jeremias resolveram aparecer para almoçar.

Furdunço na cozinha às 9 horas! Domingo! Barulheira! Adeus ao

sono de Jeremias.

Farinha caindo de mesa, ovos, cascas, livro de

receitas...Maiara e os meninos chorando. Maria e o forno cheirando.

Cheiro de broa sacodiu o nariz de Jeremias e já salivando com

os olhos lutando contra a luz que da janela entrava no quarto.

- Já começou cedo essa aprontação? Parente é um porre pra

estragar o domingo da gente!

- deixe de ser resmungão Jeremias. Já tome logo seu café que

preciso que vá até o mercado pra buscar o resto das coisas.

- Ainda tem que comprar mais coisas? Esse povo come

demais! Já não bastasse o que já gastei.

- Ora homem deixe de ser sovina! Veio o artista da televisão

aqui em Lindópolis e faltou pouco oferecer nossa cama pra dormir,

agora que os parentes vêm almoçar não pode comprar um

refrigerante e uma carne pra fazer pro povo.

- Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa.

- Artista come...parente come. Pra mim é tudo igual.

- Artista é diferente! Eu precisava mostrar que a casa tem pelo

menos condições de receber uma visita. Agora parente...nem fede

nem cheira.

- Ora deixe de ser mula-manca homem! Seu mão-de-vaca de

uma figa. Eu bem é que quero agradar pra fazer inveja naquela

sirigaita da mulher do seu irmão que nem sabe cozinhar. Quero

esnobar essa infeliz e mostrar que você come bem e o seu irmão

passa fome nas mãos daquele traste.

Uma risada soberba! Jeremias gosta de um desaforo!

- Bom...nesse caso a coisa até muda de figura! O que tenho

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Me Engana Que eu Gosto

que comprar? Dê logo essa lista que quero passar no mercado. Quero

saber a repercussão da visita do meu amigo.

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Me Engana Que eu Gosto

Rutinha

- Rute, minha filha! Ouvi dizer que o Zé Inácio que trabalha

com o Miranda está procurando uma nova secretária.

- Mas mãe, dizem que ele só contrata mulher bonita e que é

muito mulherengo, que fica bolinando as secretárias. A Maiara falou

horrores desse sujeito! Ela é amiga da ex-secretária dele.

- Isso é conversa desse povo Rute. Sabe como o povo de

Lindópolis é fofoqueiro. Essa Maiara deve estar é querendo a vaga,

por isso afasta as interessadas. Mulher feia, só arruma homem casado

na vida e passa de mão em mão.

- Não sei. Algum fundo de verdade tem nessas fofocas!

- Mas filha, não custa nada mandar o currículo pra ele. Desde

que você terminou o segundo grau e voltou de Catimbó, não aparece

uma vaga de trabalho. Você é estudada, conversa bem! Aposto que

ele vai te contratar.

- Tudo bem mãe. Mais tarde vou lá entregar, mas desconfio. E

tem que ver o que o pai vai achar dessa história.

- Rutinha, o emprego não vai esperar você perguntar nada a

seu pai. Ele está muito ocupado fofocando da vida dos outros lá no

bar do Ernesto e enchendo a cara.

Olha, não vou fofocar não, porque isso não é da minha

índole…

- Claro meu amigo! Eu sei disso! Mas prossiga…

O Zé Inácio realmente é mulherengo e não contrata

secretárias pra fazer nada a não ser dar o ar da graça.

- É sério? Conte mais sobre isso porque agora eu fiquei

interessado!

Ele próprio não faz nada. Fica mamando as tetas da verba de

gabinete do Miranda e repassa ao vereador 30% do seu super-salário

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Me Engana Que eu Gosto

de Três Mil e Quinhentos Contos de Réis por mês. Foi o acordo que

fizeram: um finge que trabalha e o outro desvia parte da verba de

gabinete.

Um sujeito de quarenta e sete, pardo, guedelha esbranquiçada,

casado com Dolores, pai de Nero e Mussolini, residente em

Pasárgada, estudou até a quinta, fuma, bebe e se embriaga, torresmo,

pinga e farofada, faz a barba só às vezes, banho só se der bodum, as

piadas de mau gosto, palito de dentes após o almoço, baixo, gordo,

calvo e feio.

Rutinha é uma boa moça! Tem 21 anos e se formou no

segundo grau em Catimbó onde morava com uma tia chamada Maria,

irmã de criação de Galbi, seu pai, e casada com Lourenço, o qual é

irmão de João Quebra-coco e Mané Quindim.

O avô emprestado de Rutinha era Serafim, que faleceu anos

atrás depois de muito trabalhar no pastoreio do campo com seus

filhos, e de desgosto ao ver que Lourenço se desgarrou da família,

fazendo com que Maria também se perdesse no mundo, e assim que

saiu de casa, Maria, que era uma criança, foi achada pelo pai de

Galbi, caminhando pela beira da estrada e decidiu criá-la em

Lindópolis

Anos depois, contudo, a família encontrou e buscou a jovem,

que voltou a morar em Catimbó. Sempre manteve uma espécie de

gratidão com o pai de Galbi, a ponto de considerar o pai de Rutinha

um irmão!

Toda essa gente morava em Catimbó e tinham uma vida

pacata, de campo, mesmo aquela cidade sendo maior que Lindópolis.

No tempo em que morou na casa dos parentes, Rutinha fez

um cursinho profissionalizante na escola e aprendeu secretariado,

além de inglês básico.

Uma moça esforçada! Morena de cabelos curtos cacheados.

Discreta e simpática! Claro, longe do perfil corporal que agradaria o

Zé Inácio, mas precisava trabalhar, por isso foi levar o currículo.

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Me Engana Que eu Gosto

Chegando ao gabinete a sala de espera parecia um circo de

horrores, uma câmara de boate ou um desfile de moda-praia! Uma

dessas festas de música de periferia talvez, com dezessete jovens

com roupas curtas e um excesso de maquiagem e perfume de revista

que chegava a borrar o rosto e tornar pesado o ar com tanto cheiro

misturado!

Zé Inácio estava recebendo uma por uma em uma sala para

saber das habilidades profissionais, em tese, e para apreciar melhor

as jovens, sem estudo, sem preparo e com ancas pomposas e largas!

Rute pensou em sair daquele lugar, mas decidiu esperar para

entregar o currículo ao Zé Inácio.

Foi a última das candidatas e ao entrar, Zé Inácio a olhou

como se estivesse vendo uma senhora de oitenta anos.

Passou o dia admirando bundas e seios em micro-roupas com

excesso de decote, que observando aquela jovem de calça jeans, uma

camiseta e uma blusa de frio, pensou que ela havia aterrizado de

outro planeta, porém recebeu o currículo e de forma até um pouco

seca, perguntava coisas sobre seu estudo, habilidades profissionais e

motivos de querer trabalhar no gabinete.

Franzindo a testa e fazendo olhar de tédio, por uns minutos

ouviu o que a jovem disse e se despedindo, disse que analisaria os

currículos e logo daria uma resposta.

Confesso que eu vomitaria em ter contato direto com tanta

podridão!

Ah, esqueci de contar essa fofoca, digo, essa informação: Zé

Inácio perdeu semana passada sua secretária.

- Essa eu quero saber com detalhes vai...não me esconda

nada.

Samanta era a secretária de Zé Inácio desde a posse de

Miranda. Ele sempre admirou os dotes da moça quando ela

trabalhava no mercado do Farias.

A jovem mora num dos barracos de aluguel do Jeremias e

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Me Engana Que eu Gosto

sempre chama atenção pelas roupas curtas e pelas formas

exuberantes de seu corpo!

Morena, seios fartos, um metro e oitenta, sessenta e sete

quilos, cabelos longos, vinte e três primaveras, leonina, boa de

sorriso! Suas medidas: noventa e oito...sessenta e oito...cento e um!

Zé Inácio assim que foi nomeado por Miranda tratou logo de

oferecer a vaga de secretária pra moça, com um salário de três vezes

mais o que recebia no mercado de Farias como operadora de caixa.

Não demorou muito para que começassem os gracejos.

Primeiro ele deu bombons caros que mandou buscar na capital, um

anel, convites para acompanhá-lo em eventos tão sem sentido como

almoços em sítios com supostos apoiadores.

Ele sempre falava dela para os amigos como uma amante de

luxo, óbvio, quando ela não estava por perto.

Os homens ficavam babando naquela mulherona alta e de

coxas grossas, além do bumbum redondo! Olhavam, mas bastava ela

olhar de volta para ficarem tímidos e desviarem o olhar.

Querendo mostrar poder de sedução, em meio a esses

encontros sempre se retirava até o interior da casa com a secretária e

fechava a porta, dizendo que precisava resolver problemas de

trabalho momentâneos. Ficava cerca de vinte minutos com a

secretária pedindo que ela anotasse coisas muito idiotas como síntese

das conversas, ou programasse alguma fala. Ao sair, todos

achavam que Zé Inácio estava era se divertindo muito dentro do

quarto com sua secretária turbinada. Algumas vezes a deixava sair

primeiro e sem ela ver, passava a mão na boca, sob pretexto de

limpar um batom imaginário.

Uma necessidade de ego que não me cabe definir, mas cabe a

todos aprovar ou não, mas em se tratando de Lindópolis, nada de

bom se define, pois o puro e o imoral caminham lado a lado com a

hipocrisia de cada habitante desse lugar despudorado, fofoqueiro,

melindroso e sujo!

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Me Engana Que eu Gosto

Samanta sempre foi sedutora no trabalho, mas era pra ter o Zé

Inácio sob seu controle. Sabia das intenções dele, e embora seu

namorado morresse de ciúmes, também o controlava com presentes e

claro, com o seu poder de sedução feminino, desses que faz o touro

bravo dormir feito um bebê, sem nem chifrar nem bufar.

Até que no começo do mês passado, o desejo se apossou de

Zé Inácio e aumentaram suas investidas.

A negação de Samanta começou a deixar o homem louco de

vontade de possuir aquela mulher alta com aquelas coxas grandes e

brilhantes, então não resistiu e a agarrou à força no escritório.

Samanta começou a gritar e por sorte apenas os funcionários

de Zé Inácio ouviram, senão a notícia correria Lindópolis com

velocidade de vento.

Com um galo na cabeça por causa do golpe com grampeador,

acabou soltando Samanta, após passar as mãos em seus seios e

nádegas, e um beijo forçado puxando a cabeça da secretária pra baixo

para dar altura.

Foi quando se desequilibrou por estar na ponta dos pés e

Samanta conseguiu pegar o grampeador e atingir a cabeça dele.

Samanta disse que não voltaria lá e saindo, gritou que o

processaria.

Na verdade, eu não admirei a rapidez do Zé Inácio em

oferecer Dez Mil Contos de Réis para que Samanta não o

processasse. Admirei a rapidez da secretária em dizer que seu

silêncio valeria Vinte Mil Contos de Réis! Por fim fiquei perplexo

com a rapidez em que Quinze Mil Contos de Réis caíram na contacorrente

de Samanta e todos se deram por satisfeitos!

E agora Zé Inácio procura uma nova secretária para trabalhar

em seu escritório no gabinete de Miranda.

As demais candidatas não sabiam nem conversar direito, mas

tinham corpo e disposição para manter relações, já a Rutinha parecia

uma mosca-morta, normal e a única com curso de secretariado e

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Me Engana Que eu Gosto

segundo grau.

Antes de jogar fora o papel, ainda deu uma amassadinha, e

simulando jogar basquete, jogou na lixeira o currículo de Rutinha

assim que fechou a porta e ficou a sós no escritório, tentando

imaginar qual das candidatas ocuparia a vaga de Samanta.

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Me Engana Que eu Gosto

A confissão de Maiara

- Senhor padre Matias, eu vim me confessar.

- Claro Maiara, estou a ouvir.

- Eu fiz coisa que não deveria.

Ah não mais uma vez a Maiara. Pensou o sacerdote.

Na verdade já sabia que ela veio falar de sexo mais uma vez.

Essa garota é o exemplo de depravação!

A riqueza de detalhes que essa menina de apenas dezesseis

contava sobre suas experiências amorosas é digna de contos eróticos!

Depravada e demonstrando uma experiência absurda em

relacionamentos amorosos, embora nenhum dos homens que se deita

com ela a assume e a sustenta.

- Pode falar minha filha.

- Eu fiquei com um homem casado senhor padre.

- Fez errado não é Maiara?

- Ah senhor padre. Ele é muito lindo! Quando começou a me

assediar me dizia umas coisas picantes toda vez que eu passava.

Falava que queria me morder no pescoço perto da orelha e sabe que

eu não resisto.

- Eu sei Maiara, você já me disse isso várias vezes

- Então, mas eu não sabia no começo que ele era casado.

Depois de uma semana comecei a me insinuar pra ele. Colocava um

short bem apertadinho e quando passava perto dele na rua dava uma

rebolada mais sexy pra provocar, uma levantadinha no calcanhar pra

ele olhar para o meu bumbum.

- E depois Maiara? O que houve?

- Teve um dia que eu não resisti e quando ele me assediou eu

disse que queria aquela hora mesmo, não interessava o que ele ia

fazer. Que eu já estava a ponto de subir pelas paredes pra agarrá-lo.

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Me Engana Que eu Gosto

- Que coisa Maiara!

- Então ele correu até o serviço dele, do outro lado da rua e

pediu a chave do carro pra um colega da oficina. Corri até o carro e

fomos parar no matagal na saída pra Cuiara.

- Mas esse lugar é tão perigoso! - Disse o padre, procurando

identificar quem seria...uma oficina...

- Espera senhor padre, foi assim: ele tirou minha blusa com

uns beijos no meu ombro e eu fui me contorcendo pra trás. Quase

perdi os sentidos! Aquele homem sujo, suado, com aquele bigode

ralo me mordendo no pescoço, eu quase entrei em coma naquela

hora! As mãos dele grossas e cheias de calos, sujas e ele me

xingando de uma monte de coisas e me dando tapas.

- Maiara, você não precisa dizer tantos detalhes. Prefiro que

seja mais objetiva.

- Não, estou quase acabando. Depois quando ele colocou a

mão nas minhas partes íntimas eu não resisti senhor Padre, aí

esquentou! Eu arranhei esse homem inteiro! Batia na cara dele e ele

me forçava. Quase ficamos grudados um no outro e precisaria de um

médico pra separar.

- Maiara, por favor.

- Espera senhor padre, aí que aconteceu o pior! Depois desse

dia ele queria todos os dias. Eu estava gostando muito! Comecei a

colocar cada vez a roupa mais curta e transparente! Quando eu

passava pela oficina fazia charme e fingia que não estava ouvindo.

Então ele vinha atrás de mim, me agarrando nos lugares mais

improváveis: atrás de poste, em lote vago, dentro do banheiro da

oficina, no mato. O lugar mais perto a gente ia e fazia de tudo! Eu me

sentia cada vez mais usada e estava gostando daquilo! Chegava a

acordar de madrugada toda quente e úmida! Parecia ter andado

debaixo de um temporal.

- Maiara, me responda: quem é essa pessoa com quem está

saindo?

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Me Engana Que eu Gosto

- Senhor padre, não estou mais com ele. Descobri que ele é

casado e se meu pai descobre me dá uma surra.

- E Jeremias está certo em proibir! Embora eu seja contrário a

essa violência. (sou é nada! Essa aí tinha que tomar uma surra a cada

dia pra deixar de ser tão sem vergonha – pensou).

- Senhor padre, é o Josias. Mecânico que trabalha lá no bairro

dos Ipês.

- Humpf! - Grunhiu o padre.

O padre não aguentou e soltou um ruído de riso sendo

contido. Tentou se livrar o mais rápido de Maiara pra cair na risada

até a batina ficar toda babada, então recomendou que não procurasse

mais o Josias e que rezasse por dez vezes.

Quando a jovem se distanciou e estava ajoelhada em um

banco lá na frente o padre saiu correndo do confessionário e foi até

seus aposentos.

Sacou uma garrafa de vinho e tomou uma golada.

Riu até se satisfazer por completo. Precisava contar urgente

pra alguém pra dividir essa piada.

O Josias já está com quatro filhos, sendo só um do casamento.

Imagina então quando o Jeremias ficar sabendo de mais uma

escapada da Maiara. Riu até não se aguentar mais ao desenhar

mentalmente a cara que o Jeremias faria se descobrisse.

Só de pensar, padre Matias já tomava mais um gole de vinho

e se derramava aos risos dentro de sua câmara. Babou a batina inteira

e limpou com um pano que achou sobre uma mesa.

Quando saiu de lá, Maiara já havia ido embora, exibindo as

polpas largas, redondas e gorduchas de seu bumbum, cujo short curto

e marrom dá até impressão de que estava sem nada, pois sua pele

morena era quase da mesma cor da roupa minúscula.

Quando Maiara chegou em casa, a consciência estava tão

pesada que foi falar com a mãe.

- Três meses Maiara? Como deixou isso acontecer sua

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Me Engana Que eu Gosto

inconsequente?

- Não sei mãe, aconteceu.

E já! Ou foi naquele dia em que o mancebo quarentão foi pra

casa do Jeremias ou numa das farras com Josias. Se vai falar com

Josias é bom se apressar, há um navio saindo logo! Josias está de

mudança pra Catimbó com a esposa e o filho. Arrumou emprego

numa oficina grande em Catimbó. Já o mancebo, vai saber de onde

veio e pra onde foi.

- Mas já falou com esse sem-vergonha sobre isso? Sabe se ele

tem alguma posição?

- Ele é casado mãe. Descobri mês passado quando vi os dois

na lanchonete lá perto da escola. - Disse ela sobre Josias, mas não

sabia ao certo quem era o pai.

- Ah, mas isso não vai ficar assim! Hoje mesmo vamos

esperar ele lá na porta da casa dele.

- Não mãe. Não quero mais olhar na cara dele.

- Seu pai vai ficar uma fera!

- Não conta pra ele ainda mãe. Espera a poeira baixar. Não sei

o que vou fazer. Mais um, e agora que eu ia começar a fazer o

semestral pra terminar o primeiro grau.

- Vai ter que esperar. E eu que esperava te ver secretária,

atendente ou até caixa, agora vou te ver embuchada arrastando

menino pela casa de novo.

- Vou ser uma ótima mãe pra ele! Não preciso de pai pra nada,

sei me virar sozinha! Não preciso de ninguém.

Saiu correndo pela casa a caminho do quarto e deixou a porta

semiaberta.

Aos prantos cai na cama, deixando cair no chão o exame de

farmácia que mostrou à mãe. No momento em que Jeremias, já um

pouco desconfiado entrou na casa e ouviu lá da sala a última fala,

mas manteve silêncio. Se sentou no sofá enquanto sua mulher fechou

a porta do quarto para a filha chorar em paz.

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Me Engana Que eu Gosto

O filho de Maiara sentado na cadeira esperando a sopa e os

outros dois filhos do vizinho de Jeremias no outro sofá, pois vem

assistir televisão à tarde.

Quando a mulher chegou, apenas ficou esperando alguma

coisa acontecer...

- O que vou fazer com essa Maiara? - Disse Jeremias em um

tom de descontentamento pela segunda gravidez da filha.

Jeremias ligou a televisão, onde sempre buscava respostas

para tudo que acontecia, como se fosse uma bola de cristal que trazia

as soluções para tudo na vida.

Nos dias seguintes as refeições eram um clima de velório na

casa de Jeremias e ninguém dizia nada. Maiara dava a comida ao

filho e voltava para o quarto. Soraia é quem levava um prato de

comida e deixava na cômoda, mas a maioria das vezes a comida

azedava sem ser tocada.

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Me Engana Que eu Gosto

Chega a droga em Lindópolis

- Usando droga Caim? O que eu vou fazer com você? - Disse

Jurema.

- Eu faço o que eu quiser da minha vida. Não te devo

satisfação de nada sua velha maldita! Sou eu que pago o que uso e se

me encher vou sair de casa.

- Eu não aceito você tirar nada de dentro dessa casa. - Disse

Jurema olhando para o filho e para a janela pra ver se Vargas passava

- Não quero ver você com essas más influências. Se vier policial aqui

em casa de novo vou te colocar na rua mesmo. O que as pessoas vão

dizer?

- Eu saio dessa casa a hora que eu bem entender. Nunca

dependi de você pra nada e sei me virar.

Jurema de novo olhou pela janela. Queria gritar para Vargas

ajudá-la, estava com medo do filho.

O filho mais novo de Jurema foi pego pelos policiais usando

maconha junto com outros menores. Chegou em casa com um olho

roxo e inchaços pelo rosto.

O policial ainda alertou que era a última vez que pegaria leve,

e que das próximas vezes a conversa seria outra.

Caim foi tomar banho e Jurema aproveitou para escapar dali.

Uma saída e Jurema começou a perguntar a alguns de seus

correligionários sobre o comportamento do filho quando sai, então

veio a descobrir que seus olhos de águia que tudo enxergavam na

cidade não eram capazes de ver o que acontecia dentro da própria

casa.

Um mal que afeta as pessoas que se preocupam demais com o

que os outros estão fazendo: deixam de viver a própria vida e de se

importar com o que deveriam.

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Me Engana Que eu Gosto

Caim já havia sido visto pelo professor Vargas fumando

cigarros escondidos nas proximidades da escola, mas o que agora

virou surpresa, é que os cigarros evoluíram para drogas ilícitas.

A droga invadiu Lindópolis depois do carnaval! O povo que

veio da praia pra conhecer o carnaval daqui trouxe a droga e em

poucos dias já recrutaram gente pra vender na cidade, e agora está

descontrolada a situação.

E isso tudo em cinco meses que esses arruaceiros vieram pra

sujar a cidade e usar as mulheres daqui. Aqueles carros cheios de

caixas de som com aquela barulheira infernal, as brigas, a imagem de

anti-heróis e foras da lei.

Mas o pior foi a droga que trouxeram!

Quando viam algum Lindopolitano fumando um cigarro de

palha, logo ofereciam esses de maconha e a pessoa acabava viciada!

Com Caim não foi diferente. Foi corrompido pela vida! A

primeira vez que usou estava com alguns amigos da escola, e fumava

um cigarro quando um outro tirou a trouxinha de droga da mochila,

amassou com a mão suja que havia acabado de soar o nariz, pegou

um papel de sêda e ao enrolar passou saliva pra colar o cigarro

produzido.

Apesar de ser droga, o preparo é meio nojento!

E ao acender fez com que Caim também tragasse, e ficaram

os dois lesados rindo por meia hora, deitados no chão, perdendo o

primeiro horário de aula.

E se não estivessem num lote vago na certa toda a cidade teria

ficado sabendo que estavam usando maconha naquele dia mesmo.

O crescimento de Lindópolis traz esses problemas!

Anos atrás nem carnaval havia direito. As pessoas só

enfeitavam as ruas com bandeirinhas e tocavam marchinhas no rádio.

Agora esses jovens, sem opção de diversão estão invadindo a cidade

com a algazarra que transforma a vida de todos em um verdadeiro

inferno!

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Me Engana Que eu Gosto

O comércio vende bem, mas os prejuízos são muitos com a

quebradeira e os assaltos, isso sem contar as garotas que ficam com

vergonha de ir à polícia denunciar tudo que são obrigadas a fazer à

força nesses dias, e ainda tem que torcer pra não nascer nada em

novembro.

Jurema voltou depois de umas três horas de conversa com os

vizinhos, já com muito material pra conversar com o filho.

Mas depois que começou a gritaria dentro da casa ele saiu,

levando algo nas mãos, correndo.

Jurema saiu na varanda aos prantos e ao olhar pela varanda

ainda viu Caim olhar pra trás antes de dobrar a esquina com os

brincos dela pra trocar por drogas.

As roupas em seu guarda-roupas reviradas, as gavetas da

cozinha e até a roupa suja. Caim mexeu em tudo procurando

qualquer coisa de valor que pudesse trocar por drogas.

Até pensou em gritar para que algum vizinho pudesse ajudar

em alguma coisa, mas com a costela toda dolorida por causa dos

chutes pensou logo em entrar pra casa e torcer para que ele voltasse

pra casa mais calmo do que quando saiu e não pegasse mais nada de

dentro da casa.

57


Me Engana Que eu Gosto

O assalto

- Já é o segundo assalto esse mês Galbi. Se eu não dependesse

tanto desse bar já teria fechado as portas. Essa Lindópolis está

ficando cada vez mais perigosa!

- Mas também Ernesto, você fecha muito tarde! Esses dois

ladrões que vieram de moto na certa devem ser de Cuiara! Ninguém

vale nada naquele fim de mundo!

- Não pude ver o rosto de nenhum dos dois por causa do

medo na hora que vi aquele trabuco apontado pro meu peito. Estou

deixando o bar até mais tarde pra ver se ganho dinheiro. Essa crise

está pesada nas minhas contas!

- Perigoso isso! Muito perigoso!

- Mas o que eu posso fazer? Todas as contas atrasadas, o

pessoal do fiado não acerta e agora nem fiado vem beber mais. A

solução tem sido ficar até mais tarde para o caso de alguém aparecer.

- Já pensou em falar com o Jeremias? Ele sempre tem ideias

muito boas.

- Ainda não. Ele anda ocupado demais querendo aparecer. Já

nem cumprimenta mais quando passa pela rua. Está mais aparecido

que o prefeito. Ainda não revelou que vai candidatar, mas se está

querendo aparecer desse jeito é certo que vai pra empreitada.

- Nós temos que resolver esse problema de roubos urgente!

Daqui a pouco vão começar a assaltar gente em plena luz do dia aqui

em Lindópolis. E temos só uma delegacia aqui. Se o prefeito e os

vereadores pressionassem o governador, conseguiriam a verba pra

fazer outra delegacia. Mas estão preocupados demais em roubar

dinheiro e viajar.

- Mas precisamos de alguém que possa dar uma solução pra

esse caso de assaltos.

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Me Engana Que eu Gosto

- Nós estamos de mãos atadas meu amigo. Vamos ver se com

o tempo isso piora ou se afunda de vez o barco.

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Me Engana Que eu Gosto

A traição

Aconteceu em outubro na escola Cabral e Caminha, depois de

um aluno soltar uma bomba no encanamento da escola as aulas

foram suspensas. Lindópolis está ficando cada vez mais violenta.

Vargas foi logo pra casa pra poder passar o resto da manhã

com a esposa, havia tempos que não ficava em casa, mas ao chegar

se deparou com a mulher e o amante em momentos de extrema

intimidade. Uma cena que seus olhos lamentaram.

Ao ver aquela cena, na cama onde dormia com a esposa não

se conteve e houve uma agressão. Explosão de raiva em Vargas que

de bom moço, educado, despertou uma raiva súbita enquanto repetia

seguidas vezes que não acreditava na cena que estava diante dos seus

olhos.

Discutiu com os dois e no momento de maior fúria, botando a

mão em uma vassoura que estava próxima à parede acertou Libório,

que até então só havia mostrado uns poucos atos de corrupção em

Lindópolis.

Algumas pessoas na vizinhança ouviram gritos, porém como

Libório havia entrado pela porta dos fundos da casa, pensaram tratarse

de alguma discussão do professor com a mulher por qualquer

motivo comum.

A casa de Vargas sempre foi muito reservada! Sua esposa não

trabalhava fora e desde que ele voltou para o Brasil e se casou,

moram nessa casa.

Libório saiu discreto do lugar, tomando cuidado para que

ninguém o visse. Um inchaço no olho e que logo viraria um

hematoma. Vargas também não quis provocar nenhum alarde na

vizinhança, por isso deixou que saísse em silêncio.

Nos dias seguintes ao flagra de Vargas na esposa, na cama

60


Me Engana Que eu Gosto

com Libório, que foi candidato às últimas eleições, um clima de

silêncio ficou na casa.

Vargas chegava da escola e dava apenas um “boa tarde” para

a mulher. De forma fria e bem seca, como se não quisesse desejar

uma tarde agradável, mas sondasse uma defunta.

Almoçava e ia para o escritório, ficando lá por toda a tarde, e

após, ia dormir em um outro quarto.

Saiu pela manhã após fazer a barba sem dar nem “bom dia” a

ela. O clima na casa estava pesado! E cada dia mais piorava. Parecia

um velório, mas ainda não havia ninguém morto.

O silêncio de Vargas inquietava a mulher, que parecia esperar

apenas o momento de sua morte. Ela não se atrevia a tentar conversar

também. Evitava até ficar perto de Vargas.

Os vizinhos também esperavam uma turba dentro daquela

casa. Parecia que ocorreria a qualquer momento e que Vargas ainda

não havia assimilado direito o que aconteceu.

A culpa da esposa parecia uma nuvem escura com forma

tomando assento até mesmo na mesa da sala onde ela almoçava e

jantava sozinha.

Essa nuvem chegava a se servir da comida que descia feito

areia pela garganta da mulher de Vargas, enquanto ele mal ligava

para o tempero e mantinha um silêncio.

Vargas fazia agora suas refeições dentro do escritório em

meio a um monte de papéis inúteis como provas de suas turmas, de

alunos que nunca se preocupam em aprender, só em passar de ano e

ganhar o presente no final da fase do video-game do aprendizado.

Vargas ainda não havia explodido com toda essa perda de tempo a

que se reduzira sua vida, mas uma semente dentro de si já

demonstrava que poderia crescer.

A escola virava um inferno dia após dia! Os alunos não

respeitavam mais nada e já fumavam seus cigarros em qualquer

lugar, no pátio, nas salas durante o horário da merenda, sem se

61


Me Engana Que eu Gosto

preocupar com nenhum tipo de regra ou imposição.

Ao entrar no carro algumas pessoas olhavam pela fresta da

janela das casas sem que ele percebesse. Imaginando quando ele iria

matá-la, ou se iria atrás de Libório.

Ameaçado no meio da briga quando saiu com um galo na

testa, Libório não era visto na rua e alguns diziam que estava se

armando.

Na cidade não se falava em outra coisa senão o fato do

Libório ter um caso escondido com a esposa de Vargas.

Uns faziam piada, outros diziam que era uma falta de

respeito.

O vereador Miranda, querendo aparecer e destronar um dos

concorrentes às próximas eleições tratou logo de enviar uma carta de

apoio ao professor, a qual chegou pelo Correio e ele sequer leu

quando viu de quem se tratava. Amassou e jogou dentro de uma

lixeira que estava sobre a mesa do escritório.

Vargas era o único habitante de Lindópolis que acompanhava

a vida pública da cidade. Sabia das compras de voto do Miranda, e

que Libório tentava sua primeira eleição, mas sem tanto poder

aquisitivo como Miranda, não teve como comprar votos suficientes.

Foi difícil comprar até mesmo os seus apoiadores, não sei se você se

lembra da confusão que foi após as eleições com aquele bando de

esfomeado cobrando dele.

- Claro que me lembro! Como poderia esquecer dessa

palhaçada?

Bom, mas o Libório mereceu, foi confiar nessa gente de

Lindópolis que não vale nada!

Já o Miranda sempre foi um porco sujo que explora os preços

da pinga nas redondezas. Foi o responsável por destruir a vida

econômica da cidade de Cuiara com suas fofocas.

Vargas sempre questionou o fato da população ser tão cega a

ponto de eleger um político tão corrupto, a troco de notas de 50

62


Me Engana Que eu Gosto

Contos e garrafas de cachaça.

Era uma pessoa muito suja!

Contudo, Vargas tinha motivos para odiar Libório, mais que

Miranda naquele momento. Os políticos geralmente fodem a vida das

pessoas sem tirar a roupa delas, e Libório cometeu corrupção que na

lei da consciência dos Lindopolitanos vai dar em problema na certa!

- Ora, mas essa gente não tem consciência.

Foi força de expressão mesmo, desculpe!

A rede de fofocas estava atenta para quando e como ele

mataria a mulher. Ninguém achava que ele teria coragem de ir atrás

do Libório porque estava com dois capangas, dois leões de chácara

para o caso do Vargas querer tirar satisfações. Ficavam armados e

vigiando a casa de Libório o tempo todo.

Quando Vargas chegou em casa havia o seguinte bilhete,

deixado pela sirigaita traidora:

“Sempre procurei ser uma boa esposa nesses dez anos

juntos. Lavei a sua roupa e passei pra você a vida toda em que

estivemos casados. Confesso que você me ajudava e eu sempre

admirei o fato de você ser uma pessoa atenciosa e inteligente!

Você é um homem bom e estudado! Não mereço o seu amor e

não foi a primeira traição. Eu já havia traído com o pedreiro

quando ele veio consertar a pia. Não quero que me julgue por

sair assim de sua vida, mas minha decisão é essa. Eu não sou

feliz contigo, mesmo você sendo um homem exemplar tanto

dentro de casa quanto nessa cidade nojenta que você vive

dizendo que pode ser melhor! Eu quero outra vida. Eu gosto de

beber, de sair, de usar minhas roupas curtas e de divertir!

Quero liberdade! Quero me livrar dessa vida. Mas você fica

centrado demais em ser perfeito e acaba se esquecendo de ser

um pouco cafajeste na cama ou no dia a dia. Desculpe a

63


Me Engana Que eu Gosto

sinceridade, mas isso vai te ajudar a entender os motivos que

me levaram a te trair e agora sair dessa casa. Eu preciso de

mordidas, preciso de fogo e de palavras picantes ao ouvido, eu

preciso de mais do que um marido carinhoso e você até na

cama falava dessa escola cheia de analfabetos que não serão

nada nessa vida senão bandidos e arruaceiros. Estou indo

embora e não venha atrás de mim. Não quero nada que é seu,

mas você foi meu primeiro e único homem até eu descobrir a

traição, e agora eu descobri uma vida que embora seja uma

vida do mundo eu terei o que me faltou nesses anos todos!

Quero que você fique bem e espero que encontre uma mulher

que goste de casa e ser uma esposa, porque eu quero descobrir,

de verdade, são os prazeres da vida. Jamais esquecerei o

marido exemplar que você foi, mas esse é o meu adeus.”

E agora?

Fico me perguntando o que as pessoas mais centradas fariam

numa situação como essa.

- Bom! Já que falou nisso, fiquei pensando aqui mesmo.

Imagina se uma coisa dessas acontece? Minha reação não seria das

melhores, confesso.

Vargas apenas se levantou da cadeira, pálido, gélido, suando

frio. Uma expressão de final de vida.

Foi até a estante onde havia uma garrafa pela metade de

cachaça. Um presente de Miranda à esposa na época da eleição.

Ele pegou a garrafa e sem nunca haver bebido deu uma

golada.

Aí o diabo entrou em Vargas! Eita como esse homem se

sacudiu sem remexer! Fechou a cara com nojo da cana, mas a cana é

doce então bebeu o mel mais uma vez numa golada maior que até

babou. Seus olhos ficaram vermelhos e passou a mão no cabelo

64


Me Engana Que eu Gosto

espalhando o penteado.

Tomou a garrafa e foi à lixeira pegar alguma coisa, revirando

os papéis amassados.

Encontrando a carta de Miranda, suja assim como sua alma,

estava brevemente escrito:

“Professor Vargas, boa tarde! Sempre admirei sua pessoa e a

atitude do safado Libório não foi atitude de homem.

Infelizmente temos pessoas assim na cidade. Mas assim como

eu gostaria de contar com o seu apoio, quero oferecer meu

abraço amigo para o que precisar. Quero que venha ao meu

gabinete uma hora para conversarmos sobre a cidade porque

sei que sua participação pode ser brilhante na cidade, me

ajudando a solucionar alguns problemas dos moradores. Como

sei que não bebe, caso queira vir até aqui para conversarmos

eu certamente terei um bom cafezinho! Sem mais para o

momento, do amigo vereador Miranda – juntos para construir

uma nova Lindópolis.”

65


Me Engana Que eu Gosto

Vamos todos ao bordel

Impressionado com o Maquiavelismo de Miranda, Vargas foi

até o armário ver se encontrava mais bebida. O diabo queria mais! E

acabou achando coisas antigas naquele armário! Ficou todo esse

tempo adormecido no corpo de Vargas um diabo, herança de seu pai

caçador, e agora liberto, estava com muita sede! Brilho no olhar reluz

metal polido!

Não encontrou, porém, a bebida, mas se lembrou de onde

poderia encontrar seu desafeto: o bordel.

Saiu apressado igual um touro bravo. Pegou o carro, e ao ligar

a chave, Jurema apareceu como se estivesse vigiando a casa, de

tocaia.

- Nossa professor, onde vai com tanta pressa? Está tudo bem?

- Eu vou matar esse infeliz no bordel.

Pronto! Pensou a fofoqueira. Agora o bicho pega na cidade!

Matéria fresca para a reportagem da fofoqueira mais famosa da

cidade de Lindópolis.

Acelerou, cantando pneu. Derrapou e derrubou uma lixeira.

Passou pelo bar feito um foguete e longe vinha Jurema tentando

alcançar o máximo de pessoas para avisar sobre o ocorrido.

- Agora ele mata! Certeza. - Disse Galbi.

- Eita! Esse homem está com ódio! Não quero nem ver o

resultado disso.

Jurema veio correndo para se inteirar do assunto, dizendo que

o Vargas passou feito um foguete em direção do bordel de Dona Flor

para matar o Libório.

- O quê? O professor foi para o bordel? Essa eu não perco por

nada desse mundo! - Disse Galbi.

- Mas será que ele tem arma? O Libório está com dois leões

66


Me Engana Que eu Gosto

de chácara de cara fechada! Não são daqui. Deve ser gente perigosa!

- Não importa. Vou lá ver a briga e pra já!

- Vá logo chamar Jeremias Homem. Vou fechar o bar e vamos

todos lá pro bordel. Alguém corre no orelhão e ligue pro repórter.

Ligue antes do Jeremias chegar senão vai querer aparecer porque está

pensando em ser candidato.

- Mas é claro Ernesto. Mas eu não sabia dessa história de

candidatura. Depois vamos conversar e me conta tudo.

- Nem precisa, já vem vindo Jeremias correndo, olha lá.

- Vai Ernesto. Fecha logo aí e vamos lá pro bordel. Fiquei

sabendo agora. A vizinhança está comentando na minha porta e eu

tenho que resolver isso. As pessoas da cidade confiam que eu vou

resolver essa insegurança daqui.

- Jeremias, vai ter tiro lá se der errado. Vai entrar na briga dos

outros não. - Disse Ernesto.

- Jurema, se alguma das mulheres perguntar por favor diga

que só vamos lá dar uma força pro professor viu? Nada de aumentar

a história. - Disse Jeremias dando uma piscadinha de olho pra

Jurema, num código que a possível cabo eleitoral já havia captado.

- Ora Jeremias. Eu nunca aumento nada, sabe que pode

confiar em mim!

- Se não der morte é pra espalhar que eu que resolvi tudo.

E lá se foram em direção ao bordel. Numa pressa de quem

estava indo ao hospital.

Chegaram lá e já foram logo perguntando por Vargas.

- Menino, está lá dentro de um dos quartos com a Tieta, a

camélia preferida do Libório. - Disse Dona Flor.

- O quê? A Tieta? Justo a Tieta?

- Está passando bem! Rá rá rá rá! - Às gargalhadas disse

Galbi.

- Mas o que aconteceu? - Perguntou Jeremias.

- Chegou, pediu um conhaque duplo, perguntou pelo Libório.

67


Me Engana Que eu Gosto

Eu fui logo falando que não estava e ele conferiu quarto por quarto.

Pegou a Tieta pelo braço, levando pro quarto na hora.

- Hoje a cidade pega fogo! Alguém tem que ir urgente avisar

o Libório...

- Ele estava aqui, e saiu de repente correndo. Falou que ia

buscar alguma coisa no carro e até agora não voltou. Já tem uns vinte

minutos.

- Vou lá ver se está nas imediações. Não posso deixar

acontecer nada na minha cidade. - Disse Jeremias, já tentado por uma

necessidade de aparecer que é típica de políticos.

Foi quando chegou Libório novamente com os dois capangas

e Jeremias tratou logo de correr pra tirá-lo de lá, sendo empurrado

por um dos capangas com uma violência típica de capanga do sertão

mais rachado e seco, onde os lobos na noite uivam anunciando a

morte.

- Trate de ficar fora disso Jeremias. Que esse infeliz andou

espalhando pela cidade que iria me matar e quero falar com esse

granfino é agora. Aqui nessa cidade não tem homem pra falar grosso

comigo não, nem tú.

- Libório, me respeite. Sabe que sou uma pessoa bemconceituada

em Lindópolis. Não estrague sua vida dessa forma.

- Você é um lixo Jeremias! Acha que não sei que andou

falando coisas a meu respeito pra ganhar votos para a próxima

empreitada? Você não está falando mais com um amigo e sim com

um adversário.

- Libório, não misture as coisas. Na política se faz isso, mas

não quer dizer que não podemos conversar.

Foi quando apareceu Vargas na porta do quarto número 5,

tendo a prostituta Tieta ao fundo segurando a porta.

- Está me procurando seu bandido miserável?

- Vargas por favor, pare já com isso. Você não pode perder a

razão. - Disse Jeremias aos gritos, pois já havia tomado o papel de

68


Me Engana Que eu Gosto

intermediador e estava no centro do salão enquanto uma plateia de

umas vinte pessoas entre clientes e prostitutas assistia de longe sem

se atrever a entrar nos limites do palco de operações.

- Sai daí Jeremias. Ficou louco? - Gritou Ernesto que estava

perto do banheiro entre se esconder atrás da parede e aparecer pra

falar.

- Vem pra cá Jeremias. - Gritou Galbi.

Nisso um dos capangas saca um revólver, veio correndo pelo

salão na direção de Vargas e ao subir a escada um disparo é ouvido.

O barulho repentino ecoou nos quatro cantos do salão e Tieta

começa a gritar desesperada ao ver o sangue jorrando.

Começa a correria dentro do bordel e a quebradeira de

cadeiras e mesas acontece tal qual um arrastão e todos fogem daquela

cena de horror! Daquele homem com a cara fechada e uma raiva da

vida que não dá pra entender! Galbi aproveitou a bagunça para

surrupiar uma garrafa cara de wisky que estava dando sopa sobre a

mesa. Acertou bem no rosto! Não deu tempo nem de pedir arrego

nem tampouco fugir.

- Solte essa arma homem, vai matar todos nós. - Gritou Dona

Flor desesperada escondida atrás de uma mesa de madeira.

Mais dois disparos são ouvidos. O som ecoou no ar com um

grande eco! Um estampido estridente de revólver calibre 38!

Inconfundível!

Ele deu alguns passos e deu mais dois tiros à queima-roupa!

Foi pra ter certeza que morreu mesmo aquele infeliz de vida curta e

sem fundamento!

Libório saiu correndo do lugar para proteger sua vida, como

caçador que de dominador vira caça e precisa fugir com surpresa.

Ao sair do bordel a rua estava cheia de pessoas escondidas

atrás dos postes, lixeiras, carros. Todos queriam ver a cena, e ao

mesmo tempo temiam ser atingidos por tiros.

O homem morreu feio demais! Foi um tiro pra estourar os

69


Me Engana Que eu Gosto

miolos! Não deu tempo nem de gritar. Desceu direto!

O segundo capanga tomou quatro tiros e ainda agonizava

quando Vargas se aproximou e deu o último tiro na boca do infeliz do

leão de chácara de Libório.

E saiu Vargas atrás do Libório de carro.

Na verdade Jeremias que ficou paralisado no centro do salão

com o barulho dos tiros, não conseguia se mexer e por pouco não

urinava nas calças. Mas sentiu quando Vargas passou correndo em

direção à porta do bordel. O ar ficou gelado com a passada de Vargas

e Jeremias estava paralisado de medo e o resto de consciência que

ainda possuía não lhe permitia abrir a boca pra falar nada pois se

tentasse alguma coisa mijava nas calças.

Libório gritava por ajuda no carro, buzinando muito para

tentar chamar atenção de algum guarda, se tivesse algum nas

imediações. Era hora da janta, então não teria muito sucesso.

Vinha sendo seguido por Vargas, tomado por um ódio

sanguinário que jamais poderia se esperar de uma pessoa como ele!

Encontrar o revólver que foi de seu pai e estava esquecido em uma

caixa de madeira fez se transformar num novo homem! A alma

sanguinária de seu pai que adorava matar animais renasceu e ele

estava matando os animais que sujaram seu jardim e reviraram o seu

lixo. Um bom moço se transformou em minutos em um assassino

frio e impiedoso!

A essa hora alguém ainda estava tentando ligar pra fração da

polícia da cidade, mas com os telefones da fração estragados e sem

verba para consertar, o jeito era ir até lá e tentar uma viatura. Mas até

que chegasse uma patrulha já teria sido tarde.

Libório acelerava muito, cortando as ruas tentando despistar

Vargas que o seguia sem se preocupar com sua vida nem com a das

outras pessoas.

Ele tentou reduzir para ter acesso à rua que vai pra delegacia,

mas Vargas estava muito perto então passou direto.

70


Me Engana Que eu Gosto

Desesperado, sentindo os últimos minutos de sua vida só

pensou em correr. Como Vargas não estava atirando, e pelos seis tiros

disparados no bordel, pensou que só restaria mais uma munição no

revólver calibre 38 que estava com Vargas.

Lembrou-se da arma que era do pai de Vargas e que gostava

de levá-lo nas caçadas. Vargas teria ou não mais munições? Poderia

ter acabado e estar apenas afugentando-o, poderia estar blefando,

alucinado pela bebida. Quantas dúvidas imperando na cabeça de

Libório.

O coração querendo saltar pela boca e o carro sofrendo com o

embate com os buracos das ruas de Lindópolis.

Ao passar pela cancela de uma estrada onde ficam alguns dos

alambiques de Miranda, o carro de Libório furou o pneu e embora

tentasse correr acabou derrapando, desistindo exausto o seu motor.

Até tentou correr, mas todo mundo já sabe que é pra morrer

não é verdade?

- Miranda! Socorro me ajude. - Gritava Libório com a voz de

quem já vai morrer rápido.

A casa grande dessa que era uma das fazendas de Miranda

ficava cerca de quinhentos metros na direção em que corria. As luzes

estavam acesas.

Libório odiava Miranda, mas nessa hora era a única luz no

fim do túnel porque a morte estava vindo com muita sede lá atrás!

Podia escutar os gritos cadavéricos assombrosos acompanhando os

passos de Vargas.

- Miranda! Miranda! Vem me ajudar não me desampara.

Entrando pra dentro de um mato, Libório já exausto sabia que

Vargas só tinha mais um tiro no revólver. A última vez em que olhou

para a casa viu uma silhueta atrás da cortina observando e fechou a

cortina, apagando em seguida a luz.

Era a morte da esperança! De um lado a morte carregando a

foice pra levar sua alma, e do outro um demônio vivo que lhe negou

71


Me Engana Que eu Gosto

ajuda no último momento de sua vida.

A sorte é assim mesmo e não há mais tempo pra nada. Não há

ninguém para ajudar. Então decidiu se virar pra trás e tentar encarar

na briga. Não conseguiria correr por mais tempo e sabia que Vargas

havia bebido muito no bordel.

Se a sorte mudar, Vargas poderia errar o tiro. Libório brigaria

com ele e fugiria da cidade em seguida.

Mesmo demonstrando uma mira aguçada ao atirar nos seus

capangas, pensou que Vargas já estaria sem fôlego e que talvez

conseguiria acalmá-lo. Vargas também correu e estaria cansado.

A mudança repentina de Vargas impressionou a todos! A

cidade se transformaria num inferno depois que Vargas decidiu vira o

diabo e isso tudo não faz quatro horas.

Libório ao se virar viu em sua direção como um lobo furtivo,

silencioso e de olhar aceso como o fogo vermelho.

Ficou surpreso pois pensava que viria um homem vindo

cansado pelo caminho, mas Vargas estava a poucos metros e sem

uma gota de suor pingando em seu rosto frio, nem tampouco estava

ofegante.

- Meu amigo...

Tarde demais!

O tiro foi direto no coração. Sem um pingo de remorso ou

pena. Afundou com raiva e comeu a carne invadindo o corpo e

retirando da existência mais um verme comedor.

Vargas não disse uma só palavra durante todo seu ato de

violência, de uma forma que a cidade jamais havia visto.

Após jogar o revólver no chão, voltou pelo caminho

caminhando e ficou dentro de seu carro parado na estrada, enquanto

o corpo de Libório escorria sangue no interior do mato, cerca de uns

trezentos perto da sacada da casa grande onde Miranda olhava tudo

pela fresta da janela com todas as luzes da casa apagadas.

Não esboçou reação, e os policiais conversaram normalmente

72


Me Engana Que eu Gosto

com ele. Apontou onde jogou a arma que era de seu pai que há onze

anos faleceu de velhice em Lindópolis, e foi um dos motivos que fez

Vargas vir para a cidade após ter estudado na Europa.

Parecia que o diabo já tinha deixado o corpo de Vargas e

voltara a ser o cidadão pacífico que sempre foi.

Era uma pessoa considerada, embora um anônimo no que

tange às características corruptas da cidade de Lindópolis.

Muitos o viam como um bobo, um inocente, um civil numa

guerra silenciosa por uma conquista que nunca existiu: ser melhor

que os outros.

Ao chegar à delegacia foi levado até a cela, e a primeira

pessoa que já estava lá na condição de visita foi a Tieta Morena

Trazia toalha, um biscoito e um sabonete.

A rameira nunca tinha visto tanta violência junta em um só

homem, e ele havia acabado de se deitar com ela. Se apaixonou

instantaneamente por aquele homem que foi desprezado pela mulher.

Desde que se deitou com Vargas até essa chegada à delegacia se

passaram algumas horas, mas no bordel há tanta confusão por causa

dos corpos que ela decidiu sair de lá, levando o que achou que Vargas

precisaria quando chegasse à delegacia, já imaginando o desfecho de

toda a história.

A brutalidade animalesca despertada no professor, que agora

era bandido, fez com que aquela mulher que já havia sido de quase

todos os homens da cidade, sentir uma sensação de excitação que

nenhum deles despertou na mulher mais fogosa da cidade de

Lindópolis.

O delegado não deixou que a mulher visitasse Vargas,

dizendo que ela devia voltar pra vida dela, em tom ríspido, bem seco

mesmo! Mas permitiu que deixasse o que havia levado sobre uma

mesa, dizendo a um dos policiais para entregar a Vargas.

Em pouco tempo chegou também a Jurema, querendo se

inteirar de tudo.

73


Me Engana Que eu Gosto

A porta da delegacia virou um furdunço! Jeremias, Dona Flor,

Ernesto, Galbi e alguns dos clientes do bordel teriam que prestar

depoimento.

Jurema gritou feito uma sirene quando viu o primeiro carro de

reportagem chegando, vindo do bordel após tentar fotografar e filmar

tudo que fosse permitido pela perícia.

A cidade ficou um alvoroço e todos estavam nas ruas.

A violência aumentou muito em Lindópolis nos últimos

tempos, mas o que aconteceu hoje foi digno da capital!

Vai demorar um tempo pra que essa notícia deixe as rodas de

fofoca da cidade!

74


Me Engana Que eu Gosto

Mais sangue no jornal em Lindópolis

Amanheceu e Jeremias comprou de todos os jornais da banca.

Queria ver as notícias do acontecido, e o que os repórteres falaram

sobre sua pessoa.

Sabia que teria seu nome citado no jornal. Era a primeira vez

que isso acontecia e não queria perder essa oportunidade. Jeremias

estava eufórico e se sentindo como um jogador de futebol prestes a

receber a taça de um torneio de grandes proporções.

A primeira página do principal jornal da capital, Notícias

Urgentes, trazia na capa a seguinte notícia:

“Violência em Lindópolis. Professor traído mata o amante e

dois capangas.

Cenas deploráveis de violência aconteceram em Lindópolis,

cidade do interior do estado.

Um professor da Sexta Série após ser traído por um político

local, que estava com a mulher em sua própria casa, foi

procurá-lo armado em uma zona boêmia, e após troca de tiros

com os seguranças do parlamentar, três pessoas morreram.

De acordo com a versão policial o fato se deu numa estrada de

terra e o acionamento foi rápido, contudo, chegando ao local

imobilizaram o autor ainda com a arma.

Um morador local de nome Jeremias relatou que tentou apartar

a confusão, e populares disseram que a morte foi inevitável.

PAGINA 11”

Jeremias esperava mais! Jeremias queria a fama! Queria ver o

seu nome floreando na língua dos Lindopolitanos fofoqueiros.

75


Me Engana Que eu Gosto

Achou que os quase vinte minutos que falou com a

reportagem, sempre enaltecendo sua pessoa seriam colocados no

jornal. Uma inocência típica de novo homem público. Prepotência

que não leva a nada.

A manchete do Diário Regional Tupiniquim foi mais

abrangente, mas Jeremias foi sucateado pelo poder aquisitivo de

Miranda:

“Uma cidade sob tiros!

Lindópolis, a capital simbólica da melhor cachaça do estado

passou por momentos de extrema violência na última noite.

Um professor de nome Vargas Florenum após descobrir a

traição da esposa, decidiu tirar satisfações de um morador e

político local de nome Libório Pederneiras.

De acordo com o vereador Miranda, o mais atuante político da

região, a violência começou depois que o professor conseguiu

uma arma de um indivíduo da cidade, ao que está se

empenhando para descobrir quem é e entregar às autoridades.

Retrucou a versão de que a arma seria herança de família, pois

o falecido pai de Vargas era pessoa incapaz de portar arma.

Enalteceu que está acabando com a violência em Lindópolis e

se empenhará por solucionar todos os problemas da cidade.

O parlamentar relatou que está trabalhando com a polícia para

identificar os culpados, e que atos de violência na cidade não

serão aceitos.

O delegado responsável pelo triplo homicídio considera os

antecedentes do autor uma atenuante para o crime. Já a mulher

não foi encontrada.

Um morador local de nome Jeremias disse que tentou

intermediar a situação, mas não conseguiu pois houve uma

76


Me Engana Que eu Gosto

troca de tiros dentro de uma boate que era frequentada pelas

vítimas do triplo homicídio.

A proprietária da boate estava em estado de choque e não quis

se pronunciar.”

Ao ver a notícia do folhetim “O Babado”, mais comum em

Lindópolis e região por ser barato, Jeremias quase infarta de emoção:

“ Professor mata três em Lindópolis e o clima esquenta!

Jeremias da Anunciação, morador antigo de Lindópolis foi

quem presenciou a tudo.

Contou a essa reportagem que na data de ontem foi procurado

por moradores locais para intermediar uma confusão

generalizada na zoninha da Dona Flor, onde um homem

chamado Vargas que leciona na escola Cabral e Caminha

havia perdido o controle e jurou matar seu desafeto, um homem

de nome Libório que havia sido candidato às últimas eleições.

Contou Jeremias que chegando lá conseguiu ainda por um

tempo apartar a confusão, porém um dos capangas contratados

pela vítima Libório sacou uma arma e começou uma intensa

troca de tiros.

Houve quebradeira no lugar e segundo moradores após uma

perseguição a última das três vítimas foi morta com um

disparo.

A reportagem tentou contato com o autor, mas não quis se

pronunciar.

A polícia local trata o caso como crime passional e considera

os antecedentes do autor como atenuantes, porém o inquérito

seguirá para a promotoria de Tieta, cidade que fica depois de

Catimbó, uma vez que Lindópolis não possui comarca e o

77


Me Engana Que eu Gosto

Poder Judiciário é interino. Reportagem completa da tragédia

na página 11”

Jeremias ainda deu uma passada no restante dos jornais para

ver se havia mais alguma informação a seu respeito.

Muitos assaltos, mortes, muitos acidentes! Os jornais se

espremidos é bem provável que pingarão gotas de sangue no chão.

Mas isso não importa muito nesse momento.

Pois Jeremias tratou logo de botar uma blusa vistosa e saiu

pela rua com o chumaço de jornais debaixo do braço para abordar o

máximo de pessoas possível e mostrar seu nome escrito no jornal.

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Me Engana Que eu Gosto

De pacato a anti-herói

Dois anos e alguns meses se passaram desde que o professor

Vargas foi preso por assassinar Libório e seus dois capangas naquela

noite trágica no bordel de Dona Flor

Estava na cadeia de Riacho Fundo, cidade que fica a uns 300

quilômetros de Lindópolis.

A ordem de soltura foi lida e após pegar seus pertences de

higiene pessoal caminhou até a saída da cidade.

Nesses anos em que ficou preso muitas coisas mudaram!

Passou por violência dentro da cadeia e numa ocasião o abuso

por parte de outro preso.

Na cadeia lotada de Riacho Fundo começou a fumar e quando

conseguiam passar bebida e drogas usava um pouco de cocaína para

ficar mais elétrico e pensar sobre a vida.

Vargas estava com a aparência mudada! Nunca foi fã de barba

e agora ostenta um cavanhaque e cabelos mais compridos, tal qual

um sedutor latino ou um vulgar.

Tieta Morena estava do lado de fora esperando o ex-professor.

Era a única pessoa que ia visitá-lo. Nesses anos em que esteve

preso, várias foram as visitas da mulher à cadeia.

Tieta Morena iria com Vargas para Lindópolis, mas antes o

fez parar em um hotel, desses baratos de saída de cidade. Queria

estar com ele sozinha sem ninguém por perto para incomodar. E

esteve!

Depois, já dentro do ônibus, contava para ele tudo o que havia

acontecido na cidade desde que foi preso.

A cidade estava agitada por causa das eleições do final do

ano! Muita briga entre os prováveis candidatos e todos reivindicando

obras que nunca chegaram a acontecer, enganando uma grande massa

79


Me Engana Que eu Gosto

de pessoas ignorantes que acreditam em tudo o que é contado.

Vargas acabou cochilando sob as carícias de Tieta e só foi

acordar quando o ônibus chegou à rodoviária de Lindópolis.

- Nossa como está bonito! Que jeito de galã desse homem! -

Comentou Gabriela do Cravo com Jurema.

- Tieta Morena está passando bem com esse macho lindo! -

Retrucou Jurema enquanto as duas davam uma singela gargalhada na

porta da casa de Gabriela.

- Olha o cavanhaque desse homem! Parece até um desses

matadores de filme do velho oeste.

Vargas entrou pra sua casa que já estava toda arrumada e

Tieta limpou tudo! Lavou as roupas, esfregou o piso, encerou. A casa

estava aconchegante e cheirosa!

Após terminar o almoço e levar Vargas até o quarto tratou

logo de dar um trato naquele homem que dormiu exausto devido ao

calor de Tieta.

Ao sair da casa uma aglomeração já aguardava a camélia para

se inteirar de tudo. Na esquina é claro, pois não queriam que Vargas

visse nenhuma fofoca. Ainda não sabiam como estava o humor

daquele homem que quando saiu da cidade deixou todos apreensivos.

Dificilmente conseguiria voltar a dar aulas na escola Cabral e

Caminha por causa dos homicídios. E todos se perguntavam o que

aconteceria daqui pra frente com o ex-professor Vargas.

Não havia nenhum impedimento para que desse aulas, mas

acho que não haveria condições de lecionar, embora os alunos da

cidade estivessem ultimamente mais agressivos que ele próprio em

sua explosão de fúria!

Jurema após se inteirar de tudo correu para a casa de

Jeremias, o qual estava ocupado com a campanha. Pré-candidato a

vereador em Lindópolis, montou seu escritório parlamentar na

garagem e mandou fazer uma faixa de sua campanha, bem chamativa

e afixou bem alto na fachada de sua casa.

80


Me Engana Que eu Gosto

As prévias eleitorais ainda não haviam começado e os

partidos de Lindópolis recrutavam candidatos no grito para inflar os

partidos e conseguir mais verba dos diretórios.

Não demorou muito para que o partido de Miranda, que

disputaria dessa vez a prefeitura da cidade, desse a ordem para que

procurasse por Vargas em sua casa.

Sua fama na cidade, embora dificilmente desse a ele uma

vaga na câmara da cidade, renderia notícias, e Miranda, cumprindo o

papel de político foi pessoalmente à casa dele.

Miranda antes de cortejá-lo, foi até o bordel de Dona Flor

para falar com Tieta Morena.

Simulou estar interessado nos serviços notórios da camélia e

entraram para o quarto.

Mas Miranda sequer tirou a roupa. Tieta também sabia das

intenções do vereador Miranda.

Em pouco tempo de conversa e um bolo de 600 Contos de

Réis que por pretexto, foi presente para que a camélia pudesse

comprar o que Vargas precisasse até que arrumasse um emprego,

deixou por selado o compromisso da camélia em convencer o exprofessor

que passou a ser notícia em todas as rodas de fofoca da

cidade.

Saindo do quarto um aperto de mãos selou o compromisso

firmado pelo vereador Miranda e a prostituta Tieta Morena.

Miranda disputaria a prefeitura da cidade e o partido só

contava com alguns gatos pingados que não sabiam sequer falar em

público. Havia o risco de não ganharem nenhuma vaga na câmara

municipal, mesmo se Miranda conseguisse comprar gente suficiente

pra ter os votos pra ser prefeito de Lindópolis.

A ajuda de Tieta seria de grande valor!

Logo que Miranda saiu do bordel, Tieta Morena correu e

tomou um banho. Se perfumou bastante e colocou um vestido que

deixou os homens da cidade de queixo caído quando passou pelas

81


Me Engana Que eu Gosto

ruas que davam acesso à casa de Vargas.

Até a exuberante Gabriela do Cravo, que era objeto de desejo

dos homens ficou ofuscada nessa passada de Tieta pela rua com um

formato de violão!

Antes o bordel era muito frequentado, mas com a crise os

homens da cidade não tinham mais condições de luxar nem uma

cerveja de qualidade no bar do Ernesto, quanto mais pagar por uma

mulher como a Tieta Morena.

Após horas dentro da casa de Vargas, eis que sai o novo antiherói

da cidade, todo arrumado e Tieta, ainda um pouco descabelada

arrumando os cabelos na varanda da casa.

Entraram no carro de Vargas, que demorou a ligar devido ao

tempo em que ficou parado, embora mais cedo Vargas trocou a

bateria e a água do radiador.

Foram em direção ao bordel e em poucos minutos a cidade

toda estava sabendo.

Jeremias não queria ir até o bordel. Sabia que Vargas havia

aceitado o cortejo de Miranda e seriam adversários nas eleições.

Sabia que Vargas não teria chance alguma contra ele, pois era

um homem influente na cidade e havia mandado uma carta para

Augusto Trivelim para comparecer ao seu showmício.

Vargas era uma carta fora do baralho, mas não queria mostrar

sua superioridade. Achou que a candidatura até seria uma forma de

Vargas ressocializar, e assim que Jeremias ganhasse a eleição para

vereador visitaria o ex-professor.

O bordel encheu! Miranda apresentou seu principal candidato

apoiado.

Vargas proibiu dizendo ao ouvido que Tieta Morena estivesse

com qualquer dos frequentadores do bordel naquele dia, e os olhares

dos homens de lindópolis a desejavam com uma sede que chegava a

saltar dos olhos.

Sempre que algum dos frequentadores chegava até Tieta ela

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Me Engana Que eu Gosto

dizia que estava trabalhando apenas como garçonete e que deveriam

procurar outra camélia.

Foi aí que Rubino Palhares, um dos candidatos a vereador

pelo partido de Jeremias foi se queixar no canto com Dona Flor:

- Escute mulher: eu venho aqui já faz tempo, e agora essa sua

camélia está fazendo charme. Pois chame atenção dela agora mesmo

e quero estar com ela pra já.

- Eu vou lá falar com ela. Que fogo homem, espere aqui que

ela vai vir nesse momento.

Então Dona Flor foi até Tieta e a puxando pelo braço sem que

os frequentadores percebessem, a trouxe até Rubino Palhares para

que cumprisse sua obrigação.

-Escute aqui Morena: você não está sendo atenciosa com os

clientes. Só por causa desse seu namorico com o professor. Pois faça

logo sua lida. Não quer que eu faça não é verdade? Minhas polpas já

estão bem caídas no auge dos meus mais de quarenta anos só de

bordel.

Miranda observava a cena de longe e antes que Vargas

percebesse, pois tomava um wisky caro que o vereador mandou abrir

pra todos, e disse logo ao Galbi para ir até lá e entregar uma coisa.

- Licença Dona Flor.

- Espere Galbi, estou resolvendo um assunto aqui. - Disse ela.

- Vargas mandou te entregar esses mil Contos de Réis e disse

que de agora em diante a Tieta não atenderá nenhum cliente.

- Mil Contos? - Se assustou Rubino Palhares engasgando. -

Isso é mais do que eu vou gastar na campanha toda de vereador!

Como o professor…

- Dê me logo isso seu mancebo! - Puxou Dona Flor com um

sorriso vasto! - Estamos combinados senhor Rubino? Vai cobrir a

proposta? - Disse a cafetona de um jeito suave e moroso.

- Não Dona Flor. Pode esquecer aquela nossa conversa.

Nisso Galbi voltou até Miranda, o qual apenas fez um gesto

83


Me Engana Que eu Gosto

com a boca e o dedo, para que Vargas em hipótese alguma ficasse

sabendo do ocorrido, concordando com a cabeça logo em seguida o

sagaz Galbi.

Dali em diante, Tieta Morena não teve nenhum outro cliente.

Saía pela manhã para arrumar a casa de Vargas e preparava uma

comida que exalava cheiro de restaurante caro por toda a vizinhança,

provocando ciúmes nas casadas e um desejo voraz nos maridos de ter

aquela comida e todo o resto.

Na manhã quando o bar do Ernesto abriu, Jeremias foi logo

procurar por Galbi para se inteirar da última fofoca, de que havia

mais de 20 mil Contos de Réis destinados à campanha de Vargas

dados pelo partido.

- Pois me conte isso Galbi, procede ou não?

- Claro que não Jeremias. Isso foi balela pra tentarem

alavancar a campanha desse sujeitinho aí. Ontem bebeu tanto lá no

bordel que acabou carregado pra casa.

- Ora, mas vejam só. - Dando um sorriso Jeremias respondeu.

- Mas estamos fechados pra campanha né Galbi?

- Claro Jeremias! Você é o nosso candidato! Com você o papo é reto!

Te conheço a muitos anos e você é a pessoa certa pra Lindópolis.

Galbi já estava vendido para Vargas pelo Miranda. Mas não

queria decepcionar o amigo Jeremias. E também sabia que Jeremias

estava eleito. Uma graninha a mais não cairia mal. E também não

sabia o que Jeremias daria depois de eleito. Esperava muito, mas vai

saber. Político depois de ver o resultado já muda até de número de

telefone.

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Me Engana Que eu Gosto

A corrupção de Vargas

Os dias se passavam e cada vez mais Vargas era visto na

companhia de Miranda.

Passou a beber muito nesse período de campanha! Em todos

os eventos que fazia na companhia de Miranda.

Ganhou litros de cachaça de reserva especial e virou um

alcoólatra ainda enrustido!

Gostava dos favores íntimos e da arrumação de Tieta, mas

estava decidido a lhe deixar falando assim que terminasse a eleição,

pois se ganhasse, o que parecia difícil, não queria ser visto com uma

prostituta como mulher. E se perdesse venderia a casa e iria embora

desse lugar horroroso!

O recado a Galbi enviado através de um dos cabos eleitorais

fez com que se apresentasse rapidamente, como se atendesse a um

chamado de autoridade.

A reunião foi bem rápida e inquisitiva! Vargas deu claras

instruções a Galbi sobre todos os concorrentes, inclusive do próprio

partido.

Vargas sofria certa rejeição por causa dos homicídios, mas

queria explorar o fato de que as mulheres gostavam de seu novo

estilo vulgar de ser! E sabia que podia contar com o dinheiro do

Miranda.

Por dentro ainda o consumia uma culpa pela vida, e uma raiva

pela própria vida! Vargas sabia que estava caminhando para o mal,

mas se revoltou depois que suas virtudes o deixaram na lama.

Seu olhar passou a ser frio e em nada lembrava aquele

professor pacato.

Galbi saiu assustado da casa de Vargas, tal era a gravidade das

ordens que recebeu! Mas o susto se vai com uma quantia de duzentos

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Me Engana Que eu Gosto

Contos de Réis, permanece só o peso na consciência mesmo.

Tieta arrumava a casa todos os dias, e Vargas nessa tarde,

depois de dar as ordens ao seu braço direito oculto, ficou observando

aquela mulher da vida. Tomado por um pouco da lucidez que ainda

restou em sua mente, pensava na vida que ela levou até aqui. Em

como deve ter sido difícil a saída de casa e a vida do mundo, com

homens que não a respeitaram por todos esses anos. Violência,

abusos e humilhações.

Um trago em um cigarro e mais um pouco de bebida.

Vargas maquinava como poderia destituir alguns dos

candidatos que estavam cotados para ganhar.

Sabia que Jeremias era uma figura a parte e não compensaria

tentar nada contra ele, mas ainda havia oito vagas na câmara.

Dos nove vereadores da cidade, Miranda disputava a

prefeitura, havia as três vereadoras Rute, Raquel e Cleo que estavam

bem fortes para a reeleição! Dentre os vereadores candidatos a

reeleição o humorista Pimpão deveria ser reeleito, afinal era uma

figura muito cativante em sua região, lá pelos lados do bairro de

Conselheiro, na região oeste de Lindópolis.

Vargas traçou um mapa de influência desses quatro

concorrentes, sendo Rute e Cleo candidatas pela zona sul de

Lindópolis e sequer saiam de lá para fazer campanha. Já tinham toda

a massa de eleitores que precisavam lá.

Rute fazia campanha para jovens. Era ligada a movimentos

estudantis e isso desagradava Vargas, que em outros tempos teria

uma ampla gama de apoio, mas agora não tinha culhão para traçar

um discurso para os jovens, então também era perda de tempo

competir com a Rute.

Vargas endureceu o tom das ordens para os seus cabos

eleitorais para inclusive retirarem material de campanha na

madrugada de todos os candidatos que estivessem fazendo campanha

dentro do reduto que escolheu para concentrar seus votos, justamente

86


Me Engana Que eu Gosto

onde Miranda tinha mais fonte de apoio: a baixa renda.

Os cortiços e vilas de Lindópolis, onde o povo é mais carente

e onde Miranda poderia comprar mais votos para sua campanha de

prefeito.

Vargas considerando a possibilidade das reeleições de

Pimpão, Rute, Raquel e Cleo, e a acensão da campanha de Jeremias,

podendo ainda haver alguma surpresa, afinal Lindópolis tem nessas

eleições cento e quarenta e quatro candidatos para nove vagas,

disputaria quatro vagas contra cento e trinta e nove pessoas.

Suas idéias cada vez mais estavam tendendo para a

corrupção, e pagou cinco usuários de droga da favela do Ubaporú

para ameaçarem panfleteiros de outros candidatos que entrassem no

reduto das vilas e cortiços.

Instaurou assim a cultura do terror eleitoreiro em sua zona de

proteção de votos, para tentar reverter a difícil situação em que

estava.

Recém-saído da cadeia e aliado a um candidato corrupto

como Miranda, que embora tivesse o poder aquisitivo em mãos para

gastar sem medidas para chegar ao poder, Vargas era a imagem do

anti-herói moderno e não daria tempo de mudar isso na mentalidade

dos Lindopolitanos. Foi necessária a adoção de uma estratégia mais

rápida e eficiente para o momento, e através da imposição moral,

tentou resolver os problemas da campanha.

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Me Engana Que eu Gosto

Maiara se quer, se pode, consegue

Maiara andava assanhada!

Veio morar na casa de número 3 um rapaz de nome Raul, o

qual foi preso vendendo drogas. Isso foi no ano passado, no mesmo

dia em que Caim, filho de Jurema também foi preso comprando.

Raul morava com a mãe, mas depois que isso aconteceu a

velha foi embora pra Cuiara.

Agora, em liberdade, Raul alugou o barracão, fato que

desagradou Jeremias, mas como precisava de dinheiro pra injetar na

campanha pensou em deixar o rapaz morando lá. Se desse

problemas, mandava embora.

Raul estava pensando em trabalhar. Não queria mais ficar

vendendo droga e começou também a fazer ensino de jovens e

adultos pra terminar o primeiro grau.

O filho de Maiara fez dois anos na última sexta-feira, e

embora Maiara quisesse chamar o rapaz, preferiu fazer só uma

festinha para as crianças, tudo bem simples, pois Jeremias só deu o

dinheiro pra comprar os ingredientes do bolo. O restante Maiara

pegou com o pai do primeiro filho, já que o pai desse último, Josias,

sumiu de Lindópolis e foi embora pra Catimbó antes mesmo de saber

que a garota estava grávida.

Mas Maiara estava reparando bem o Raul, e queria chegar

nele. Por isso foi até sua vizinha fazer um pedido indecoroso:

- Me empresta Samanta, só dessa vez. Aquele rosa com

florzinhas.

- Nem pensar Maiara. A última vez que eu te emprestei um

short ele ficou com cheiro e eu joguei até fora.

- Mas eu lavo. Estou precisando. Vou até a casa do vizinho

novo levar bolo pra ele.

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Me Engana Que eu Gosto

- Maiara você já está com dois filhos. Cria juízo. Tenho sua

idade e perdi a virgindade só agora.

- Eu prometo que passo amaciante.

- Não Maiara. Nem amaciante tira esse cheiro forte que você

tem. Não vou emprestar.

- Nossa você é muito chata! Não tenho nenhum short novo.

Queria ir lá conversar com o Raul.

- Por que não compra um? Chegaram uns shortinhos curtos lá

na loja da pracinha que são do jeito que você quer.

- Ah, mas eu gastei o dinheiro todo pra fazer a festa. Quero ir

lá levar um pedaço de bolo pra ele, mas queria ir poderosa pra ele

ficar babando!

- Sinto muito dessa vez. Não vou emprestar meu short. Roupa

íntima é coisa que não se divide assim como homem da gente.

- Credo. Deixa quando vier me pedir alguma coisa. Deixa…

Nisso Maiara saiu pisando forte no chão e até as polpas de

seu bumbum grande tremiam fugindo por baixo de um short de pano

fino, curto que quase não cobria nada!

Depois ficou na janela observando a casa de Raul, esperando

o rapaz sair de casa pra fazer um aceno.

Mas quem saiu foi Samanta. Iria comprar coisas pra fazer

para o almoço. Sua mãe também não estava em casa.

O olhar de Maiara brilhou, e está decidido!

Feito um chipanzé tratou logo de trepar no muro de trás da

casa e foi pular no quintal da casa da amiga.

Um vizinho olhava de longe aquele bundão em cima do muro,

sem pudor algum em cobrir as vergonhas.

- Ah não vai emprestar, mas não é hoje não. Eu quero, eu

posso, eu consigo! - Disse Maiara lançando um cabo de vassoura

pela janela do quarto e com uma habilidade notória abriu a porta do

guarda-roupas de Samanta, puxando mais que o short: uma calcinha

cavada que Maiara colocou os olhos e já pensou: - É minha!

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Me Engana Que eu Gosto

Correu pra casa ralando o braço todo ao subir de novo no

muro com o produto do furto nas mãos e que se dane o que Samanta

xingaria depois. O que estava em jogo era um rapaz de cavanhaque

de 23 anos, magro, alto, rosto fino e uma cintura que Maiara

imaginava que fazia milagres.

Correu até o quarto da mãe e pegou tudo que havia de

perfume, creme, óleos.

Esse tempo de campanha deixou os pais de Maiara ocupados

pedindo votos na rua e desligaram de Maiara. Mas alertaram que se

ela engravidasse de novo a colocavam na rua e ficavam com os

netos.

Ao tirar as roupas deu uma cheiradinha em sua calcinha, não

concordando com o que Samanta disse sobre seu cheiro.

- Olha isso: normal. Perereca tem que ter cheiro de perereca

mesmo. O que ela acha que tem que cheirar, perfume francês? -

Disse Maiara vitoriosa.

E após um longo banho com tudo que tinha direito passou os

cremes de sua mãe, penteou os cabelos e maquiagem.

Ao colocar a calcinha camuflada semelhante a uma pele de

onça de Samanta, o fez com uma precisão incrível! Queria que

entrasse em seu corpo de maneira perfeita pra não atrapalhar o seu

flerte com o novo vizinho.

Colocou o short curto com bastante cuidado pra que ficasse

bem cavado em seu bumbum, olhando no espelho várias vezes e de

vários ângulos.

Samanta quando descobrir ficará com muita raiva, mas

Maiara irá lavar bem com sabão depois e passar amaciante.

Pegou o pedaço de bolo na geladeira e ao revirá-la havia

ainda um vinho de Jeremias que ganhou de Ernesto quando foi fazer

campanha no bar.

- Bom...já que vai fazer errado, melhor fazer direito! - Pensou

Maiara, sem preocupações com o sermão que receberia do pai.

90


Me Engana Que eu Gosto

E saiu vitoriosa com a cestinha debaixo do braço.

Raul estava há mais de um ano sem mulher e desde que deixou a

cadeia está com a ideia fixa de arrumar trabalho.

Não vai resistir.

Passou pelo beco e as meninas voltavam da escola, as

mesmas que sempre se inspiram em Maiara quando têm alguma

dúvida sobre o que é ser gente grande.

- Olá meninas lindas! - Disse Maiara exalando um litro de

perfume da mãe que derramou pelo corpo sem piedade alguma.

- A Maiara deve estar namorando.

- Será Jéssica?

- Olha só o shortinho dela e está rebolando muito. Acho que

vai namorar o vizinho novo.

- Então corre, vamos colocar a mochila em casa e vamos ficar

vendo.

- Ra rá rá rá...vamos, rápido!

Então Maiara chamou à porta do vizinho, batendo bem baixo

pra que nenhum vizinho visse que ela estava entrando na casa do

rapaz.

- Olá vizinho! Eu fiz uma festinha pro meu filho anteontem e

fiquei com vergonha de te chamar.

- Tudo bom Maiara?

O rapaz não podia deixar de dar uma fitada de olhos no

shortinho de Maiara, que fez questão de deixar a chave de casa cair

ao chão pra pegar e mostrar a tirinha da calcinha.

Mas rapidamente se levantou.

- Posso entrar um pouco? - Disse ela quase se jogando pra

dentro da casa, mas o rapaz não esboçou objeção.

Quando Jeremias chegou com a esposa, exausto, por volta das

vinte horas, após baterem perna o dia inteiro pedindo voto, nem deu

falta da filha. Mas assim que chegaram a jovem deu uma olhadinha

na fresta da janela de Raul, esperando só os pais entrarem pra casa

91


Me Engana Que eu Gosto

para sair de fininho sem que percebessem que estava na casa do novo

vizinho.

Pensou:

- Está tudo tão corrido com a campanha! Nem vão notar que

fiquei fora.

E perdeu mesmo a noção do tempo! Tanto que se seu filho

mais velho já não soubesse tratar do mais novo, já chorariam alto

desde a tarde.

Até as admiradoras de Maiara se cansaram de tanto tentar

ouvir ou ver alguma coisa e foram pra casa lá pelas dezesseis horas.

Ao entrar silenciosamente no quarto, tratou logo de colocar as

roupas de Samanta em um balde de molho, o qual já havia deixado

preparado para colocá-las antes de sair pra casa do vizinho.

Iria jogar pela janela do quarto de Samanta assim que ela

saísse, e para todos os efeitos negaria qualquer coisa.

A noite dominou a cidade de Lindópolis e os ecos

insuportáveis dos carros de som ainda tilintavam com as músicas

pífias dos mais de quatrocentos candidatos a vereador na cidade e os

três candidatos a prefeito.

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Me Engana Que eu Gosto

Jeremias é do povo

Jeremias cada vez mais se engajava na campanha e vinha

crescendo com uma força que até mesmo ele desconhecia! Se sentia

importante e imponente na cidade!

Nessa manhã estava de carro com seu megafone pelas ruas do

bairro Pedro Malasartes e as pessoas gostavam do seu discurso! A

musiquinha de Jeremias era hilária!

“Contra toda tirania vamos votar Jeremias

Vota aí dona Maria, Maricota e a Sophia

Bota o dois, o seis, o três...o sete e o um

Avisa toda a vizinhança: zum-zum-zum

Um cochicho na esquina Jeremias vai passar

Vota aí seu Manuel, espalha o número no bar

Bota o dois, o seis, o três...o sete e o um

Igual esse Jeremias, não há nenhum

Bota o dooooooois...bota o seeeeeeeis…

Agora é com vocêêêês…

Três, sete, um

Avisa toda a vizinhança: zum-zum-zum”

Jurema estava muito engajada na campanha! Cantava essa

música típica de candidato alegrinho que sorri e faz festa com todo

mundo, agitando uma massa de pessoas que vê muita diversão no

processo eleitoral. Cabo eleitoral assumida de Jeremias,

acompanhava em todos os eventos de campanha, sempre com

93


Me Engana Que eu Gosto

fitinhas, chaveiros, bandeirinhas, panfletos...

O partido de Jeremias deu menos material de campanha pra

ele do quê os outros candidatos devido à força política do homem.

Era de longe o candidato mais engajado na empreitada!

- O Jeremias está sendo apoiado pelo ator Augusto Trivelim.

Não se lembram que ele falou aquela vez que Trivelim foi até a casa

dele naquele dia para formalizar apoio. Vão montar até uma rede de

televisão em Lindópolis. - Disse uma moradora do bairro Pedro

Malasartes.

- Com Jeremias lá, a cidade finalmente vai começar a

funcionar! Um homem preparado pra assumir Lindópolis!

As pessoas gostaram muito da visita de Jeremias ao bairro!

Finalmente começaram a entender o significado da política! Falavam

sobre o que esperavam para o bairro, sobre os erros da gestão atual.

Para Jeremias era fácil convencer essas pessoas! A televisão

era o fluxo comum das opiniões do povo de Lindópolis!

Os outros candidatos não tinham essa mesma peculiaridade e

Jeremias explorava as notícias da televisão como nenhum outro, e

sabia falar com essa gente como ninguém!

Na verdade aquela aparição do ator Augusto Trivelim foi uma

mão na roda para os planos de Jeremias! Ganhou muita visibilidade

após aquele dia!

Um dia tão bonito na história de Jeremias! Já era um típico

cidadão conhecido de Lindópolis, mas naquele dia sacramentou sua

entrada triunfal na vida pública!

Saindo do bairro Pedro Malasartes foi de carro com a sua

caravana de seis carros até o bairro do Otelo, onde Mourão

costumava ser forte.

Avassalador Jeremias passava com a caravana e um alto

buzinaço que despertava a atenção das pessoas.

- Lá vem o Jeremias, candidato do Augusto Trivelim. Está

muito forte pra ganhar esse ano.

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Me Engana Que eu Gosto

- Eu queria ter tirado foto com o Augusto no dia em que ele

veio aqui em Lindópolis.

Então um pedido surge no meio da campanha de Jeremias:

trazer de volta Augusto Trivelim até Lindópolis.

- Vou falar com meu amigo! Eu deverei ir até a capital para

algumas reuniões importantes para trazer verba pra Lindópolis. -

Disse Jeremias com uma propriedade única. - não posso garantir,

contudo, que ele possa vir antes das eleições. Vocês todos sabem, as

gravações da novela, comerciais...ele tem uma vida muito corrida!

Fofoca na boca do povo de Lindópolis cria pernas com muita

facilidade! Logo o povo do bairro do Otelo, com ciúmes por causa da

visita passada de Augusto Trivelim, começou a espalhar que Jeremias

estava sendo apoiado pelo ator e que haveria um grande showmício

em Otelo. A notícia se espalhou e chegou até a cidade de Cuiara.

Mentirinha de campanha, avaliava Jeremias. Logo eles vão

esquecer e a promessa da visita do Trivelim será mais um fluxo de

votos para a campanha.

Após ser eleito, poderia pagar uma visita do ator com

dinheiro da câmara municipal de Lindópolis.

Depois desse dia a campanha ganhou um fôlego com essa

história da segunda visita de Augusto Trivelim à Lindópolis e

Jeremias andava muito exausto!

Hoje foi dia de pedir votos no asilo, no hospital, na escola

Cabral e Caminha. Jeremias andou e falou muito com as pessoas! O

desgaste no homem era visível, mas nada poderia abalar seu ânimo!

Mais um dia vai chegando ao fim e Jeremias exausto se senta

no sofá para analisar o dia de campanha.

Fazendo contas na ponta do lápis para aplicar o pouco

dinheiro que o partido deu para a campanha eleitoral. A gasolina que

está pagando para os vizinhos seguirem o comício está pouca! Mas

ele precisa dos carros. As pessoas estão pensando que os cinco carros

estão acompanhando sua empreitada por acreditarem no trabalho

95


Me Engana Que eu Gosto

dele. Jeremias sabe que precisa impressionar esse pessoal senão

abandonam a campanha e partem pra outro candidato.

As dívidas começam a ficar evidentes e Jeremias precisa

controlar tudo pra que nada saia do contexto.

Jeremias analisa que Mourão, Genésio e Vargas estão fracos!

Não se vê nenhuma propaganda deles aqui no bairro, e Jeremias está

atacando onde mais teriam votos. A estratégia é genial e Jeremias

está agindo como um jogador de xadrex!

Foi quando finalmente após tirar o sapato já encardido de

tanto usar na campanha, ligou vitorioso a televisão e quase desmaia

com a notícia no meio do jornal:

96


Me Engana Que eu Gosto

A vingança de Cuiara

“O prefeito de Cuiara, João Romão, em uma campanha

majestosa convida a todos para o grande showmício nesse

sábado, para sacramentar sua vitória à reeleição, com a

presença do elenco da novela das oito. Com vocês: Augusto

Trivelim, Bertoleza, Zulmira, Rita Baiana e grande elenco. Vote

7! Vote João Romão!”

- Meu Deus o quê quê isso? Mulher! - Gritou Jeremias.

- O que foi homem? Parece que viu um fantasma.

- E vi! A novela mulher…

- O que tem a novela Jeremias?

- A novela vai…

- Calma homem, tome uma água. Respira senão acaba

infartando.

Foi quando alguém bateu à porta com pressa e Maiara foi

abrir.

Jurema entrou como polícia que estoura barrado e já foi logo

contando para Jeremias.

- Jeremias está todo mundo lá na minha porta perguntando se

você vai trazer a novela aqui. Saiu no rádio uma meia-hora atrás e

agora saiu na televisão. Esse povo ouviu e tive que sair pelos fundos

da casa pra correr aqui. Vem na varanda, vem.

- Estão vindo pra cá. Corre pra dentro.

Tarde demais! Notícia voa com asas de águia e lá se foi

Jeremias até a porta dar satisfações ao povo da vizinhança.

- Escutem. Eu terei uma reunião com Augusto Trivelim

amanhã e irei trazê-lo até Lindópolis. Podem confiar. Cuiara está

querendo aparecer, mas lá eles têm que pagar para a novela ir até lá.

97


Me Engana Que eu Gosto

Eu trago porque tenho amigos e quem tem amigos tem tudo!

- É isso aí Jeremias! Esse é o nosso candidato!

- Isso mesmo! Vamos mostrar pra esse cortiço de Cuiara que

nós somos melhores que eles.

- Boa! Cuiara vai se arrepender de ter entrado em nosso

caminho.

Saíram todos animados com as palavras de Jeremias, todos

indo pelas ruas enaltecendo o melhor candidato da cidade de

Lindópolis e maldizendo Cuiara.

Após a turba de gente esmaecer na esquina, Jurema olhou

para Jeremias esperando alguma coisa. Ele olhava para o horizonte,

pensando inúmeras coisas.

- O que você vai fazer Jeremias? - indagou Jurema.

No entanto, como se tivesse desligado no tempo, continuou

aéreo, até que depois de uns minutos disse:

Amanhã cedo eu irei até Cuiara tentar falar com o prefeito.

Ele não gosta do Miranda. É minha única arma.

Jeremias sabia que não teria dinheiro pra trazer sequer os

figurantes da novela até Lindópolis. Sabia também que a ida do

elenco da novela até Cuiara saiu mais cara do que toda a campanha

dos vereadores de seu partido.

- Acorde cedo Jurema. Você irá à frente da campanha e eu

vou lá resolver isso.

E entrou.

Jeremias não disse uma palavra mais após essa tragédia.

Deitou na cama e adormeceu com os olhos abertos, olhando

fixo para o teto. Procurava encontrar uma solução para esse problema

que poderia minar sua campanha.

As horas demoraram a passar. Jeremias olhava pela janela

torcendo para o escuro ficar claro e o sol anunciar o novo dia.

Logo pela manhã fez a barba, tomou um café quente e comeu

uns pães dormidos. Correu até a caixa de Correio para ver se havia

98


Me Engana Que eu Gosto

alguma resposta da carta que havia enviado para o artista a um tempo

pedindo sua volta a Lindópolis. Não havia nada.

Mas quem tem boca vai à Roma e Jeremias ligou o carro e

saiu decidido em direção a Cuiara.

- Olha lá o Jeremias indo trazer a novela pra Lindópolis.

- Ninguém para esse Jeremias! Logo vira prefeito!

Os portais de Lindópolis: dois coqueiros com uma placa velha

indicando a cidade. Jeremias virou à esquerda e seguiu para a cidade

de Cuiara, a qual não pisava desde que Miranda começou a fofocar

sobre a cidade só ter ladrões.

Pensando na vida, foi seguindo pela rodovia ouvindo um

sertanejo, e faltando uns 5 quilômetros pra chegar a Cuiara havia

uma senhora e três filhos caminhando com umas sacas na lateral da

estrada.

Jeremias passou por eles olhando, e alguma coisa o fez parar

pouco a frente.

- Estou indo pra Cuiara. A senhora quer uma carona?

- Olha, mas se não é Jeremias. Meu filho que ajuda boa! Eu

recebi um panfleto seu. Voto em Lindópolis e vou votar no senhor.

- Mas que notícia ótima! Muito obrigado! Vamos entrando.

Deixo todos em Cuiara.

Jeremias então fez com que entrassem no carro e conversaram

ainda um pouco. O carro de Jeremias não corria muito, estava

desgastado com a campanha.

- Como estão as coisas em Cuiara, dona Leopoldina?

- Olha, desde que esse prefeito novo começou melhorou

bastante! A cidade não tinha muita fonte de renda, mas depois que

melhoraram os cursos fora com verba que ele deu, alguns alunos

foram pra fora e voltaram formados.

- Isso é uma coisa muito boa!

- Pois se é! Meu marido mesmo está trabalhando com algodão

agora. Vai tudo pra capital.

99


Me Engana Que eu Gosto

- Aqui, o que você está sabendo sobre a visita do elenco da

novela das oito?

- Ah vai ser muito lindo! Disse o prefeito que vai trazer todo

mundo do elenco pra uma apresentação aqui em Cuiara. Você devia

vir também.

- Não posso por causa da campanha, mas vim até aqui pra

negociar com o prefeito se não me ajuda a levar, pelo menos, o

Augusto Trivelim até Lindópolis.

- Ah, mas fale com ele. Ainda mais que ele está sabendo que

você está batendo de frente com o safado do Miranda.

- Pois é, quero o melhor pra Lindópolis. O Miranda continuar

é ruim pra cidade.

- E faz bem viu Jeremias! Nele eu não voto.

Entrando na cidade de Cuiara, uma placa bem colorida dando

as boas vindas. Jeremias até se assustou com a imponência da placa,

a qual Leopoldina disse que o prefeito mandou colocar pra

recepcionar o elenco da novela e impressionar o jornal.

A cidade estava enfeitada para as eleições, e o comércio

estava bem movimentado!

Não havia uma só vaga no hotel da cidade, por conta da visita

do elenco da novela.

- Dona Leopoldina, me permitiria fazer um pedido muito

especial?

- Claro que sim homem, pode pedir.

- Quero que venha comigo falar com o prefeito e me ajudar a

pedir a ajuda dele pra levar o ator até Lindópolis. Você perto de mim,

sendo moradora daqui será uma ajuda muito grande!

E foram.

Chegando à prefeitura o prefeito não estava, e Jeremias pediu

que informassem a ele que estava lá.

Jeremias até se impressionou com a resposta do prefeito,

dizendo que não se demoraria em o receberia de braços abertos.

100


Me Engana Que eu Gosto

Suspirou! Vitorioso num alívio que quase minou sua

campanha!

Recebido pelo prefeito falou muito mal de Miranda!

Denunciou crimes políticos, falou do esquema de corrupção que

assolou Lindópolis e enfatizando sua vontade de melhorar a cidade,

com toda a sua eloquência, deixava impressionado o prefeito de

Cuiara que ouvia a tudo atento e interessado no assunto!

Ao fim da tarde, o veículo velho de Jeremias retornava de

Cuiara, lentamente entrando nos limites de Lindópolis devido ao

esgotamento de suas ruelas.

Parou em frente ao bar do Ernesto onde havia cerca de 15

pessoas.

Desceu vitorioso e de peito estufado, quando um dissidente,

apoiador de Vargas tentou iniciar uma contenda.

- E então Jeremias, conseguiu falar com o Augusto Trivelim,

seu amigo?

E em seguida uma sequência de risos dos outros três cabos

eleitorais do Vargas, os quais dividiam a mesa.

- Pois saiba que sábado teremos a visita do elenco da novela

das oito em Lindópolis. Palavra de Jeremias.

Vai moleque! Engole seco a cerveja aí e engasga. Vai descer

dolorida pela garganta.

E pra quebrar o gelo fúnebre que se instalou na mesa, Ernesto

já cortou a peleja moral:

- Grande Jeremias, venha provar uns quibes que acabaram de

sair.

E foi. Logo umas 50 pessoas estavam dentro do bar ouvindo

Jeremias falar sobre a visita do elenco da novela a Lindópolis.

Coitado. Vai passar os quatro anos do mandato devendo

favores para João Romão, mas sentir esse gostinho de poder valeu a

pena!

E na ligação de João Romão para o empresário responsável

101


Me Engana Que eu Gosto

pelo elenco, por sorte Augusto Trivelim, que se familiarizou muito

com a hospitalidade de Jeremias pesou, pois todos os outros a

princípio foram contra, mas se lembrando de como o ajudou,

Augusto Trivelim pediu que fizessem isso até por gratidão, e

decidiram não cobrar a mais por uma passadinha rápida em

Lindópolis para dar alguns autógrafos. Era perto, não demoraria.

O elenco demonstrou até curiosidade por conhecer

Lindópolis! Já estressados com os ensaios das novelas e comerciais,

seria um motivo para um fim de semana prolongado depois das duas

aparições.

Triunfo eleitoral de Jeremias, mas que sabia: seria duro de

pagar o favor por quatro anos ao prefeito de Cuiara! Teria que votar

leis e projetos em Lindópolis que iriam de alguma forma beneficiar

Cuiara.

Sabia que o prefeito de Cuiara o estava usando para se vingar

de Lindópolis. Sabia que sua campanha visava melhorar a cidade,

mas, de mãos atadas a uma população voraz e traiçoeira, precisava se

render ao preço de João Romão se quisesse alcançar o poder.

E pôde finalmente entender o que se passava na cabeça de

Miranda e o fez se tornar tão corrupto. Todo homem tem o seu preço

nessa vida! E num primeiro momento, uma pequena faísca de sua

consciência temia que o poder subisse à cabeça depois de eleito e

virasse um corrupto.

Os pequenos erros se perdoam, mas quando se tornam

grandes erros são mais difíceis de se esconder.

E ao olhar a carteira havia uma nota de cinquenta Contos, o

que o fez imediatamente se lembrar da confissão que fez ao padre

Matias e a conversa que tiveram sobre a corrupção.

Jeremias no fundo era uma boa pessoa, apesar de seus erros e alguns

desvios morais.

Um instante de reflexão, olhando aquelas pessoas todas

ignorantes sorrindo no bar, enquanto falavam de coisas vagas e uma

102


Me Engana Que eu Gosto

felicidade que nenhum bem trará às suas vidas.

Uma vida dedicada ao erro só resultará em erros, é o que

pensou naquele momento.

Deu um sorriso e acenou para o povo, acordando

instantaneamente de sua reflexão.

Jeremias não se importou naquele momento com a sua

consciência. Estava sacramentada sua vitória e pôde finalmente

tomar uma cachaça em paz, tranquilo e orgulhoso de seu esforço.

103


Me Engana Que eu Gosto

Baixa renda

Alguns candidatos pequenos de Lindópolis arrumaram carros

para levar pessoas de Lindópolis até Cuiara para verem a

apresentação do elenco da novela. Estavam passando nas ruas

pegando nomes de interessados em ir ao show de João Romão.

Uma estratégia um pouco fraca, afinal muitas pessoas não

desejariam ir até Cuiara, temendo serem roubadas no meio da

multidão no evento.

Mas onde o povo é mais carente se concentram as pessoas

que mais se vendem a preço baixo. E Miranda sabia disso, e

procurou logo arrumar sete ônibus para levar moradores das regiões

mais distantes de Lindópolis para ir ao show dos artistas. Mandou

providenciar lanche e refrigerantes, apitos e presentes.

Fez sem causar muito alarde mesmo, para não chamar

atenção de Jeremias, pois sabia que logo o elenco viria a Lindópolis.

Nesse ponto procurou não disputar atenção com Jeremias, sabendo

que era uma pessoa influente na cidade, puxando para os candidatos

de seu partido a responsabilidade pelos ônibus alugados e as

estampas das camisas que seriam distribuídas.

Acabou a sexta-feira, penúltimo dia de campanha. E Na

madrugada os ônibus de Miranda já chegavam nos locais onde

ficariam a postos para levar os gatos pingados que desejariam ver o

show em Cuiara.

Pra trabalhar não querem, mas pra tirar proveito das coisas

são mais ferozes que um leão faminto e aparecem de todo canto para

abocanhar por interesse!

Os candidatos de Miranda começaram a dar dinheiro e cestas

básicas à revelia, cachaça e cigarros para as pessoas nos becos

escondidos do grande público, e a quantidade de dinheiro que estava

104


Me Engana Que eu Gosto

escoando impressionaria até mesmo os candidatos da capital!

Jeremias apenas vigiava seu território para que nenhum dos

salteadores viesse com propostas maliciosas para sua massa

eleitoreira.

Sabia que os últimos momentos seriam tensos e de embates!

Sabia que não deveria se envolver em nenhuma briga com os demais

candidatos. Valia tudo para proteger seu reduto eleitoral com unhas e

dentes, até mesmo partindo pra briga se fosse necessário, mas

procurava não considerar essa possibilidade, e torcia para que Vargas

não tentasse nada. Ainda tinha na lembrança a imagem daquele

homem frio e armado passando por ele feito um fantasma dentro do

bordel no dia em que matou Libório.

Chegou o sábado, último dia de campanha antes da eleição! O

dia da apresentação do elenco da novela em Cuiara e a visita rápida a

Lindópolis.

Jeremias ligou cedo para seu novo aliado, prefeito João

Romão para cumprimentá-lo.

- Hoje dará tudo certo Jeremias! A vitória é nossa!

- Nós vamos fechar o dia com chave de ouro meu amigo!

Estamos juntos até o fim!

Depois de desligar o telefone, Jeremias foi ao depósito de

Isaque pedir apoio. Isaque revela que sua mulher votará em Vargas,

mesmo tendo insistido para mudar de voto, mas garantiu seu voto a

Jeremias.

Saindo dali Jeremias pediu apoio a Rebeca, a vendedora de

roupas. Esta até o recebeu, mas com muito ceticismo disse que

tinha candidato, mas parabenizou Jeremias pela campanha vitoriosa.

- Dois falastrões! Um absurdo não votarem em mim. Um

candidato completo e com o meu gabarito! Gentinha mesmo.

Mais à frente Jeremias recebeu cumprimentos de um grupo de

senhoras que ao vê-lo cantava a musiquinha engraçada de sua

campanha.

105


Me Engana Que eu Gosto

Jeremias entrou em seu carro, todo adesivado com produto de

campanha e se dirigiu para a favela do Ubaporú, um lugar muito

pobre onde Jeremias pouco fez campanha, por ser um local de grande

hostilidade e roubos, mas nada impedia de ganhar uns votinhos

picados por lá.

Logo na entrada dois menores fazendo escolta de drogas.

Jeremias deu uma travada no passo, mas decidiu entrar.

- Qualé “seu” Jeremias? Tudo nos conformes?

- Bom dia rapaziada! Vamos que vamos! Vim apenas visitar a

comunidade.

- Lembra nós depois de ganhar amanhã heim! A comunidade

tá abandonada faz tempo.

- Claro que sim! Meu mandato será para todos e por todos!

- Trouxe um qualquer pra nós? Só na humildade! Pra ajudar

no lanche.

Jeremias tinha cerca de Setenta Contos em sua carteira. Ficou

chateado pois sabia que os candidatos de Miranda estavam dando

Cinquenta Contos pra todo mundo só de dar bom dia.

- Oh minha gente, me sobraram só Vinte Contos. Visitei

tantas pessoas! Mas depois da eleição a primeira festa será aqui.

- Já é, liga nós esses vintão!

Jeremias tirou os Vinte Contos e passou aos dois, sendo que

algumas pessoas de longe viram ele dar dinheiro e como um

formigueiro os becos logo se encheram.

- O que tem pra nós Jeremias? Está dando alguma coisa?

- Trouxe doce “tio” Jeremias?

- Desculpa gente, eu estava de passagem. Vim visitar umas

pessoas que me prometeram voto amanhã e…

- Candidato mão-de-vaca! Não dá nada na campanha e depois

vai dar é nada.

- Vamos embora daqui. Se não trouxe nenhuma cesta básica

não somos obrigados a ouvir ladainha não.

106


Me Engana Que eu Gosto

- Mas gente, pensem no que acontece depois de…

- Esquece velho, vamos voltar gente.

Então as pessoas saem de volta resmungando, como se

esperassem encontrar Jeremias cheio de dinheiro, cestas básicas e

presentes. Voltava pelo beco quando viu próximo ao seu carro uma

multidão de gente, na entrada do beco e apressou o passo para ver o

que era.

Quase foi atropelado pelas mesmas pessoas que voltavam

para suas casas, as quais corriam gritando que estavam dando cestas

básicas.

Na entrada do beco, os mesmos dois menores estavam com as

mãos cheias de dinheiro com os braços para o alto e um clima de

tumulto.

Se infiltrou no meio daquela turba para ver que candidato

estava dando tanto dinheiro.

Do meio do povo pôde ver o humorista Pimpão vestido de

palhaço no passeio fazendo discurso. Havia três mulheres lindas

pintando o rosto das crianças, duas Kombis cheias de cesta básica e

dinheiro...dinheiro sendo jogado para o ar como se fosse confete.

Engoliu a seco e saiu daquele lugar furioso com a cena

grotesca que viu. Sentiu nojo, sentiu raiva, sentiu asco...sentiu inveja

do poder!

Pensativo, passando pelas ruas da cidade, a caminho de casa

para almoçar e depois descansar para o evento da noite que seria o

seu grande triunfo sobre esse bando de salteadores de votos.

Passando por uma área melhor da cidade, não via panfletos

jogados nas ruas, nem cestas básicas sendo distribuídas e tampouco

dinheiro.

Ao contrário do que viu na favela, que é justamente o local

que será mais esquecido por todos.

Mas isso pode mudar! E sabe que amanhã terá pela frente novos

desafios, pois pode ser talvez o único político honesto de Lindópolis,

107


Me Engana Que eu Gosto

e mesmo assim, será eleito com o rabo preso com o prefeito de

Cuiara e também precisará pagar o grande favor.

- Gente que cara é essa Jeremias?

- Estou p… da vida mulher! Só vi gente pegando dinheiro e

cesta básica lá no Ubaporú.

- Mas que diabos foi fazer naquele antro? Ninguém ali vale

nada. Tem mais é que esquecer dessa gente toda.

- São pessoas ignorantes! Precisam de instrução! Se pelo

menos tivessem televisão, teriam como se tornar mais inteligentes e

não cairiam nessa ladainha de compra de votos.

- E o que acha da eleição?

- Ah mulher, estou eleito, mas estou com um desgosto. Essa

cidade não tem conserto. E estou atolado com João Romão! Aquele

canalha vai exigir tanta coisa de mim na câmara! Já estou vendo.

- Mas política é assim mesmo Jeremias! Sem essa ajuda dele

você não teria chance alguma contra esse povo daqui. Estão dando

dinheiro demais pra ganhar essa eleição!

- Eu sei. Mas será difícil administrar tanto favor que ficarei

devendo viu.

- Calma! Você é inteligente! Vai dar tudo certo. Maiara e o

namorado estão empenhados distribuindo panfletos da apresentação

da novela aqui mais tarde na praça.

- Está aí outro problema! Esse sujeito estava preso, não sei o

que vai ser desse namoro. Quando eu descansar dessa campanha

quero ter uma conversa com esse daí e séria.

- Pelo menos ela não está usando roupa curta. Parece estar

mais ajuizada!

- Espero mesmo. Já devia era ter ligado no segundo neto.

Maiara não tem idade pra ter dois filhos e não quero o terceiro de

jeito nenhum.

- Eu também não Jeremias. Tenho conversado com ela, e no

guarda-roupas dela tem anticoncepcional.

108


Me Engana Que eu Gosto

- Deixa eu ver.

- Espera. Vou pegar já.

Então ela trouxe a cartela de anticoncepcionais para Jeremias

analisar, e ele ao ver aqueles comprimidos cor de rosa imaginou

como se forma a população de baixa renda, sem preparo, sem estudo,

reféns de esmolas e do assistencialismo barato, eleitoreiro e formador

da primeira raiz da corrupção.

O povo é corrupto e fez com que Jeremias fosse o futuro

vereador corrupto de Lindópolis. Pra conseguir competir contra o

dinheiro do Miranda precisou vender seu mandato para o prefeito de

Cuiara.

Esse povo vive com baixa renda porque suas próprias virtudes

são pequenas, e se prostituem por qualquer coisa que lhes traga

algum tipo de vantagem aos interesses mais pequenos, porém

necessários a sobreviver.

Jeremias não queria ver sua filha morando em um barraco

com um ex-preso, beirando favela e com um monte de filhos pela

casa e quintal, sujos de barro e ao crescer, serem como os dois

menores que estavam na entrada do beco da favela do Ubaporú.

- Fale pra Maiara não esquecer de tomar esse remédio direito.

Não quero mais nenhum neto.

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Me Engana Que eu Gosto

A noite em que ninguém dormiu

E os ônibus de Miranda partiram para Cuiara, seguidos por

uns vinte carros com adesivos da campanha de Miranda e seus

candidatos a vereador.

Para provocar, passaram por várias ruas de Lindópolis, tendo

à sua frente um carro de som tocando a música de campanha dos

mesmos.

Muitas bandeiras, buzinaço, e providencialmente distribuição

de bebidas, refrigerantes e material de campanha.

Jeremias saiu à varanda para ver aquilo, e quando passaram

na porta de Jeremias antes de partir para Cuiara, Miranda de cima do

carro de som, num gesto rude e imoral atirou uma nota de Cinquenta

Contos de Réis embolada em direção a Jeremias.

O matuto o olhou com ódio enquanto o candidato a prefeito

deu um sorriso malicioso e com deboche.

Saíram em direção ao município de Cuiara e logo após aquela

turba sair, Jeremias pegou a nota no chão, desamassando e

maldizendo as figuras mesquinha de Miranda e seus seguidores.

Entrou em sua casa e tratou de tomar um banho demorado.

Sua roupa já estava bem passada para se vestir e aguardar a chegada

dos atores, prevista para as 23 horas.

Comeu com pressa e escovou os dentes, o que era difícil fazer

ao jantar. Queria estar com os dentes vistosos!

Ajeitou os cabelos e partiu para a praça.

Ao ver a praça enfeitada com bandeiras de sua campanha, um

pouco de alívio! Barraquinhas de moradores com comida, salgados e

bebidas.

Foi até as pessoas que estavam na praça vendendo coisas e

reiterou a necessidade de apoio.

110


Me Engana Que eu Gosto

De tempo em tempo olhava no relógio. 20 horas, 21 horas,

22…

Então os ônibus de Miranda começaram a chegar de Cuiara.

Jeremias foi avisado por Galbi que estavam chegando à casa de

Miranda onde haveria uma grande festa. Então ligou para Jeremias

para se inteirar de tudo que estava acontecendo na praça.

- Galbi, você é meu amigo. Fique aí e me conte tudo que está

acontecendo.

- Tudo bem Jeremias. O Miranda e os candidatos não querem

atrapalhar sua festa. Vargas pediu para que não passassem pela praça.

- Menos mal, senão eu dava era uma bifa nesse Miranda sem

vergonha!

- Tem muita gente aí?

- Sim! Deve ter umas quinhentas pessoas aqui na praça, mas é

gente fiel a mim, assim como você.

- Vou ficar por aqui vigiando e ouvindo tudo. Depois nos

falamos, mas qualquer coisa pode me ligar.

- Muito obrigado! Você não irá se arrepender! Sabe que terá

uma vaga no gabinete.

- Muito obrigado! Vou desligar aqui.

Um problema a menos para Jeremias, pois não haveria nenhum

embate com a gente do Miranda.

- Boa noite Jeremias, aqui é João Romão.

- Excelente noite prefeito! Está tudo saindo conforme o

planejado?

- Claro meu amigo! Palavra é palavra! O elenco já está saindo

daqui de Cuiara, em meia hora estão em Lindópolis.

- Que notícia maravilhosa meu amigo! Não faz ideia do alívio

que isso me traz.

- Não se preocupe Jeremias. É um interesse político que eu

tenha um representante em Lindópolis, você sabe disso.

Jeremias engoliu a seco enquanto o prefeito falava ao celular,

111


Me Engana Que eu Gosto

sentindo certo desgosto, mas precisava ganhar, então concordando

com um “está certo”, ouviu um sorriso do prefeito de Cuiara, que

desligou o celular.

Na fazenda de Miranda uma grande festa! Muita comida,

bebida, fogos de artifício, música ao vivo.

O barulho chegava até a praça, mesmo que bem baixo e

distante, mas de tempo em tempo um clarão no céu na direção da

fazenda.

- Animada a festa Galbi?

- Claro que sim candidato! Mas estou com um pouco de peso

na consciência.

- Pare de ser tolo rapaz. Não quer crescer na vida? Amizades

não pagam suas contas.

- Eu sei, mas…

- Esqueça rapaz. Lá dentro de casa tem um presente para você

pelo excelente serviço que fez na estrada!

- E do que se trata senhor Miranda?

Aos risos de canto de boca, Miranda chega ao ouvido de

Galbi, e como um mafioso disse alguma coisa, acompanhado de um

sorriso maquiavélico daquele homem.

Então o celular de Galbi toca.

- Alô.

- Galbi, aqui é o Jeremias. O que está acontecendo aí? Os

ônibus do Miranda estão todos parados aqui perto da praça e as

pessoas já estão comentando. Essa gente toda vai dormir aí por

acaso?

- Jeremias, preciso te contar uma coisa. - Disse Galbi se

afastando do tumulto e de Miranda, enquanto o político fumava um

cigarro e sorriu ao ver que Galbi falava com Jeremias.

- Diga logo homem.

- A novela não vem pra Lindópolis Jeremias.

- O quê?

112


Me Engana Que eu Gosto

- Jeremias, é política. Desculpe! A novela não vem pra

Lindópolis.

Jeremias quase infartou naquela hora. Uma vertigem tomou

conta de seus olhos.

Vendo as pessoas girando em seu olhar, foi ficando enfraquecido e

acabou desmaiando.

Com o celular caído ao chão, Jurema, que estava próxima ouvindo

tudo que Jeremias falava, bem próxima ao ouvido, correu logo a

pegá-lo, prosseguindo a conversa enquanto algumas pessoas

acudiram Jeremias.

113


Me Engana Que eu Gosto

A lição de Jeremias

Lindópolis elege prefeito e vereadores

Conheça os novos representantes do município de Lindópolis.

Prefeito e vereadores foram escolhidos no último domingo pela

população, em uma eleição marcada por ser a maior da história de

Lindópolis!

Prefeito Miranda – Partido PS - Eleito com 86.407 votos.

O novo prefeito logo após a confirmação da vitória nas urnas,

prometeu fazer um governo para o povo e em uma grande festa que

percorreu as ruas da cidade, foi abraçado pelos populares e disse em

sua declaração que fará de Lindópolis uma cidade melhor para todo

o povo, gerando emprego, renda e mudando a história da cidade.

E assim ficou a câmara de vereadores com os nove vereadores

eleitos, sendo cinco deles reeleitos e governarão Lindópolis pelos

próximos quatro anos. São eles:

1 - Palhaço Pimpão – PQP - Reeleito com 5.203 votos

2 - Rute do Movimento Estudantil – PTNC - Reeleita com 5.040

votos

3 - Raquel da Joalheria – PS - Reeleita com 4.690 votos

4 - Marcelão da Ambulância – Renovação - Eleito com 4.115 votos

5 - Professor Vargas – PS - Eleito com 3.908 votos

6 - Cleo Cabeleireira – PVFS - Reeleita com 3.007 votos

7 - Chicão do Depósito de Gás – PQP - Eleito com 2.673 votos

8 - Zé da Égua – Partido PS - Reeleito com 2.201 votos

9 - Mourão – Renovação - Eleito com 1.920 votos

Mais informações sobre as eleições na página 3

E no restante do jornal, que trazia na capa a foto de Miranda e

Vargas jogando champanhe nas pessoas na festa de comemoração, as

mesmas notícias de sempre, de roubos e brigas.

Jeremias estava na cama, sem vontade de se levantar e ir até a

114


Me Engana Que eu Gosto

rua…

Magoado por dentro e por fora, leu apenas as notícias da

eleição e em seguida jogou o jornal para o lado da cama.

- Pai!

- Pode entrar Maiara, estou acordado.

- Eu e meu namorado votamos no senhor viu? Ele pediu pra

dizer que queria que o senhor ganhasse.

- Tudo bem minha filha. Obrigado! Não estou triste, foi a

primeira eleição. As coisas funcionam assim na política! Estou é

cansado mesmo, por isso vou ficar descansando hoje, recuperando as

energias,

- O Padre Matias está lá na sala e quer falar com o senhor.

- O padre? O que esse sujeito quer?

- Ele quer te ver. Ficou sabendo do seu tombo e quis fazer

uma uma visita.

- Tudo bem. Deixa ele entrar.

Então Jeremias se lembrou de quando foi à igreja por ter pego

dinheiro nas eleições e jamais cumpriu o que foi determinado de

penitência.

- Será que o padre veio caçoar por causa daquilo? - Pensou

Jeremias. - Será que veio provocar por causa das eleições?

- Bom dia Jeremias!

- Bom dia padre! A que devo a honra?

- Maiara, pode nos deixar a sós?

- Claro senhor padre! Mas não vai falar nada de mim viu? -

Disse Maiara colocando as mãos esticadas no interior dos joelhos e

dando um sorriso malicioso.

- Pode deixar Maiara! Não é nada disso.

- Diga padre…

- Jeremias, hoje cedo uma pessoa foi se confessar.

- Sim, e o que eu tenho com isso?

- Você foi vítima de uma armação sábado. Esvaziaram os

115


Me Engana Que eu Gosto

pneus do ônibus dos atores da novela lá em Cuiara.

- Desculpe padre, isso já é passado e…

- Eu precisava vir falar com você a pedido da pessoa que foi

se confessar. Sabe que eu não viria aqui se não fosse um pedido da

própria confissão.

- Está bem! Continue então. - Disse Jeremias em tom tedioso.

- Esvaziaram os pneus do ônibus que traria os atores, mas

segundo a pessoa, Augusto Trivelim fazia questão de vir à cidade, e

decidiu que viria de táxi mesmo, foi quando logo na saída da cidade

o carro foi cercado por um outro veículo e renderam o ator com uma

arma, forçando-o a ficar em um sítio lá em Cuiara até os ônibus

levarem as pessoas da praça para a festa na fazenda de Miranda.

- É muita sujeira mesmo desse povo! Agora sofrerão por

quatro anos com as roubalheiras dessa gente que está aí no jornal.

- Também fiquei sabendo do que Miranda Fez com dinheiro

público, e que até jogou dinheiro em você quando passou por aqui.

- Deixei esse dinheiro dentro da escrivaninha. Esperava

ganhar e levaria até aquele safado esse dinheiro pra esfregar na cara

dele.

- Espero que tenha aprendido essa lição jeremias.

- Vou é pegar esses Cinquenta Contos agora, devolver,

devolvo não.

- Eu vou indo Jeremias. Preciso saber se perdoará a pessoa

que me fez essa confissão? Ela disse que se vendeu por dinheiro, mas

que está arrependida do que fez e quer ficar em paz contigo.

- Diga a esse imundo que não é do meu feitio matar ninguém

como o provável patrão dele costuma fazer. Diga ao Galbi que ele

nunca mais olha na minha cara e nunca mais o cumprimento quando

passar pelo bar, que ele é um lixo de gente e me arrependo de ter um

dia confiado nele.

- Tudo bem Jeremias! Mas antes de ir embora, preciso te dizer

uma coisa…

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Me Engana Que eu Gosto

- Pois diga e pode ir se retirando.

- Galbi também foi se confessar e disse que recebeu dinheiro

para furar os pneus do ônibus dos atores em Cuiara, mas para sua

informação, quem deteve o ator na estrada foi o…

- Pare padre! Pare agora!

- O que foi Jeremias?

- Eu vou continuar vivendo a minha vida nessa cidade

miserável, de gente que não presta, cheia de corrupção...mas não

posso saber quem acabou com meu tralaho.

- Como assim?

- É “seu” padre! Esse é o meu desejo! Aqui nesse lugar

ninguém vale nada! Se me contar quem foi já serão dois amigos a

menos. O Galbi já nem olharei nos olhos, e se me contar quem

apontou arma pro meu amigo, o bom e velho Trivelim, perderei mais

uma amizade.

- E você perdoará a pessoa sem saber quem é?

- Sim! Pode dizer que eu perdoei.

- Se é o seu desejo, que seja feito assim.

- Só mais uma coisa “seu” padre. Diga para esse safado do

Ernesto que eu não vou pagar a pendura que está no bar dele e que da

próxima vez que ele for bancar o sequestrador cubano, pelo menos

deixa a chave certa do bar porque eu não consegui pegar os dois

sacos de gelo que ele guardou no freezer pra eu usar no meu evento

na praça, tive que entrar pelos fundos e ele deixou a caixa do

revólver em cima do balcão.

- Está bem Jeremias! Boa sorte!

Quando o padre saiu, Jeremias ficou por alguns minutos

pensativo, olhando para os cantos do quarto.

Decidiu se levantar da cama e foi até a varanda da casa.

O sol da manhã já estava forte! As crianças brincavam no

beco que dava acesso às casas de aluguel. Usava seu chapeu

encardido e tinha um pacote de fumo de rolo no bolso da blusa aberta

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Me Engana Que eu Gosto

ao peito.

Varredores passavam suas vassouras nas ruas para limpar toda

a sujeira deixada por aquela montanha de papéis.

Da sacada podia ver as pessoas na praça fofocando da vida

dos outros.

Um carro passava vendendo vassouras com uma música chata

e incessante falando para as pessoas comprarem e olharem as

vassouras.

Jurema olhava da janela para ver se acontecia alguma coisa.

Gabriela do Cravo lavava roupas, usando um vestido de flores

cor de canela, exibindo seu corpo escultural, aparentemente sem

roupa de baixo, com sorrisos tímidos que confrontavam com seu

corpo maravilhoso!

Rutinha e Maiara saíram junto com o padre para o novo

trabalho no asilo de Lindópolis. Rutinha já estava trabalhando lá,

desde que saiu do gabinete de Miranda, mas precisavam de uma nova

funcionária.

- Seria bom pra Maiara! Faria com que ela amadurecesse

mais! - Pensou Jeremias.

Típico morador dessa cidade, um matuto caboclo local,

quarenta e três primaveras, grisalho no peito, na barba e cabelos, de

cigarro de fumo, chapéu encardido, olhar de águia, sorriso amarelo,

chinelo de dedo e isqueiro na mão.

Acendeu o cigarro e depois de dar um trago gritou em alta

voz, fazendo várias pessoas olharem para o rumo daquela sacada do

segundo andar de sua casa:

- Eu te amo Lindópolis!

Fim!

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Me Engana Que eu Gosto

E a corrupção se torna

patrimônio cultural da população

de uma cidade chamada Lindópolis.

O jeitinho, o pequeno delito,

pecados perdoáveis e uma ampla

rede de fofocas e intrigas fazem

parte do cotidiano dos moradores.

Tudo é muito dinâmico e

tendencioso, onde um fato se

desdobra antes mesmo de

acontecer.

A população mostra em cada

acontecimento social e cada fato do

cotidiano uma grande degradação,

até mesmo folclórica do caráter.

A influência da mídia

enganosa 119 dominando moralmente a

população e exercendo um poder

paralelo na ingenuidade do povo.


Me Engana Que eu Gosto

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